quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Livro IV - Capítulos 19-23

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro IV - Capítulos 19 a 23

Texto Bíblico: II Tm 2.2

XIX - Quem esteve frente à frente das igrejas de Roma e de Alexandria sob o reinado de Vero
1. Havia avançado já até seu oitavo ano o reinado mencionado[1] quando Sotero sucedeu Aniceto no episcopado da igreja de Roma, tendo este passado nele onze anos completos. O da igreja de Alexandria, depois de presidida por Celadion durante catorze anos, passou a seu sucessor, Agripino.

XX - Quem esteve à frente da igreja de Antioquia
1. Na igreja de Antioquia conhecia-se como sexto sucessor dos apóstolos a Teófilo. O quarto havia sido Cornélio, instituído sobre ela depois de Heron[2]. E depois de Cornélio, em quinto lugar Eros havia recebido em sucessão o episcopado.

XXI - Dos escritores eclesiásticos que brilharam naquele tempo
1. Por estes tempos[3] florescia na igreja Hegesipo, a quem já conhecemos pelo que foi dito anteriormente; também Dionísio, bispo de Corinto, e Pinito, bispo por sua vez dos fiéis de Creta. E além destes, Felipe, Apolinário, Meliton Musano, Modesto e, sobre todos, Irineu. Deles chegou até nós por escrito a ortodoxia da santa fé da tradição apostólica.

XXII - De Hegesipo e dos que ele menciona
1.            Assim é, pois, que Hegesipo deixou-nos um monumento completíssimo de seu próprio pensamento nos cinco livros de Memórias que chegaram a nós. Neles mostra como, realizando uma viagem a Roma, esteve em contato com muitos bispos e como de todos eles recebeu uma mesma doutrina. Será bom escutá-lo, depois que disse algumas coisas sobre a Carta de Clemente aos Coríntios, acrescentar o seguinte:
2.            "E a igreja dos Coríntios permaneceu na reta doutrina até que Primo foi bispo de Corinto. Quando eu navegava para Roma, convivi com os Coríntios e com eles passei muitos dias, durante os quais me reconfortei com sua reta doutrina.
3.     E chegado a Roma, fiz-me uma sucessão até Aniceto, cujo diácono era Eleutério. A Aniceto sucedeu Sotero, e a este, Eleutério. Em cada sucessão e em cada cidade as coisas estão tal como pregam a lei, os profetas e o Senhor."
4.   O mesmo escritor nos explica o início das heresias de seu tempo nestes termos:
"E depois que Tiago o Justo sofreu o martírio, o mesmo que o Senhor e pela mesma razão, seu primo Simeão, o filho de Clopas, foi constituído bispo. Todos o haviam proposto, por ser o outro primo do Senhor. Por esta causa[4] chamavam virgem à Igreja, pois ainda não havia se corrompido com vãs tradições.
5.             "Mas foi Tebutis, por não ter sido nomeado bispo, que começou a corrompê-la, partindo das sete seitas que havia no povo, das quais também ele for­mava parte. Delas saíram Simão - daí os simonianos -, Cleobio - donde saíram os cleobinos -, Dositeo - donde os dositanos -, Gorteo - de onde os goratenos - e os masboteus. Destes procederam os menandristas, os marcianistas, os carpocratianos, os valentinianos, os basilidianos e os saturnilianos. Cada um destes introduziu sua própria opinião por caminhos próprios e diferentes.
6.             Deles saíram pseudocristos, pseudoprofetas e pseudoapóstolos, que despedaçaram a unidade da Igreja com suas doutrinas corruptoras contra Deus e contra seu Cristo."
7.   O mesmo autor descreve ainda inclusive as seitas que houve em outro tempo entre os judeus, dizendo:
"Existiam diferentes opiniões na circuncisão, entre os filhos dos israelitas, contra a tribo de Judá e contra o Cristo, a saber: essênios, galileus, hemerobatistas, masboteus, Samaritanos, Saduceus e fariseus."
8.             Escreveu também muitas outras coisas, das quais fizemos menção anterior­mente, em parte, ao dispor as narrativas conforme as circunstâncias. Põe algumas coisas tomadas do Evangelho dos hebreus e do Siríaco, e em par­ticular tomadas da língua hebraica, mostrando assim que se fez crente sendo hebreu. E não apenas isto mas também menciona outras coisas procedentes de uma tradição judia não escrita.
9.             Mas não somente ele, pois também Irineu e todo o coro dos antigos chamavam os Provérbios de Salomão "Sabedoria toda virtuosa". E ao decidir sobre os livros chamados apócrifos conta que alguns deles foram fabricados em seu tempo por alguns hereges[5].
Mas já é hora de passar a outro.

XXIII - De Dionísio, bispo de Corinto, e das cartas que escreveu
1.            Sobre Dionísio, o primeiro que temos a dizer é que foi-lhe confiado o trono do episcopado da igreja de Corinto, e também que suas atividades divinas influenciaram abundantemente não apenas os que estavam sujeitos a ele, mas também os de outros países, sendo utilíssimo a todos com suas cartas católicas que compunha para as igrejas.
2.            Uma delas, Aos Lacedemonios, é uma catequese de ortodoxia e exorta à paz e à união; outra, Aos Atenienses, é uma chamada à fé e a uma conduta conforme o Evangelho; aos que descuidam desta, repreende-os por estarem a ponto de apostatar da doutrina, precisamente desde que seu presidente, Publio, sofreu martírio nas perseguições de então.
3.            Menciona que Codrato foi nomeado seu bispo depois do martírio de Publio, e atesta ainda que, graças a seu zelo, voltaram eles a se unir e reavivaram sua fé. Em continuação mostra que Dionísio o Areopagita, depois de convertido à fé por Paulo, segundo o exposto nos Atos, foi o primeiro a quem se confiou o episcopado da igreja de Atenas.
4.     Existe outra carta sua aos fiéis de Nicomedia, na qual combate a heresia de Márcion e compara-a com a regra da verdade.
5.            E quando escreve à igreja que peregrina em Gortina, em vez de às outras igrejas de Creta, felicita seu bispo Felipe porque a igreja que tem a seu cargo deu testemunho com suas numerosíssimas virtudes e adverte-os de que se guardem da perversão dos hereges.
6.            E escrevendo à igreja que peregrina em Amastris, em vez das do Ponto, recorda que Baquílides e Elpisto haviam-no animado a escrever, apresenta algumas interpretações das divinas Escrituras e dá a seu bispo o nome de Palmas. Sobre o matrimônio e a continência dirige-lhes não poucas exorta­ções e ordena-lhes acolher aos que se convertem de qualquer queda, seja devida à negligência, seja a erro herético[6].
7.      Entre estas cartas acha-se catalogada outra, aos de Knosos, na qual exorta Pinito, bispo daquela igreja, a não impor aos irmãos obrigatoriamente o pesado fardo da continência, mas antes a ter consideração com a fraqueza dos demais[7].
8.      Respondendo a esta carta, Pinito rende admiração e aprova Dionísio; mesmo assim, exorta-o por sua vez a que reparta um alimento mais sólido e sustente o povo a ele confiado com escritos mais perfeitos, para que ao final, depois de haver passado todo o tempo em palavras semelhantes ao leite, não venham a envelhecer, sem dar-se conta, em uma conduta pueril[8]. Por esta carta fica manifesta, como numa imagem acabada, a ortodoxia de Pinito quanto à fé, sua preocupação pelo proveito dos ouvintes, sua eloqüência e sua compreensão das coisas de Deus.
9.             Existe ainda outra carta de Dionísio, Aos Romanos, dirigida ao bispo de então, Sotero. Nada melhor do que citar dela as frases em que o autor aprova o costume romano, observado até a perseguição de nossos dias, quando escreve:
10.  "Porque desde o princípio tendes este costume, o de fazer o bem de muitas maneiras a todos os irmãos e enviar provisões por cada cidade a muitas igrejas; remediais assim a pobreza dos necessitados e, com as provisões que desde o princípio estais enviando, atendeis aos irmãos que se encontram nas minas, conservando assim, como romanos que sois, um costume roma­no transmitido de pais a filhos, costume que vosso bem-aventurado bispo Sotero não somente manteve, mas até melhorou, ministrando por um lado socorros abundantes para enviar aos santos, e por outro, como pai que ama ternamente os seus, consolando com afortunadas palavras os irmãos que chegam a ele."
11.      Na mesma carta menciona também a de Clemente Aos Coríntios, mostrando que se vinha fazendo a leitura da mesma na igreja desde tempos atrás por antigo costume; diz assim:
"Hoje pois, celebramos o dia santo do Senhor e lemos vossa carta. Conti­nuaremos lendo-a de vez em quando para admoestação nossa, tanto quanto a primeira que nos foi escrita por meio de Clemente."
12. E o mesmo, falando ainda de suas próprias cartas, que haviam sido falsi­ficadas, diz o seguinte:
"Eu escrevi efetivamente algumas cartas depois que alguns irmãos pediram que as escrevesse. Mas estes apóstolos do diabo encheram-nas de joio[9], suprimindo umas coisas e acrescentando outras. Sobre eles pesa o 'Ai de vós!'[10]. Na verdade não se deve estranhar que alguns também tenham se lançado sobre as Escrituras do Senhor, para falsificá-las, quando conspiraram até contra as que não são tão importantes."
13. E além destas, há ainda outra carta de Dionísio que escreve A Crisófora[11], irmã cheia de fé. A esta escreve o que lhe corresponde e fornece o alimento espiritual adequado.
Isto é o que tange a Dionísio.

1.                  O que mais te chamou a atenção neste texto?
2.                  O que o texto contribui para a sua espiritualidade?





[1] Isto é, o ano 168-169.
[2] Sucessor de Inácio (vide III:36:14).
[3] São os tempos de Marco Aurélio.
[4] A causa não se refere à frase anterior, mas à argumentação sobre a origem das heresias.
[5] Não se sabe a quais apócrifos e a quais hereges se refere.
[6] Márcion era natural cio Ponto, daí o cuidado especial para com as heresias.
[7] At 15:28.
[8] 1 Co 3:1-2; Hb 5:12-14.
[9] Mt 13:25.
[10] Ap 22:18-19.
[11] Desconhecida.