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SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)
Regra
Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 236-255
INTERROGAÇÃO 236
Como aqueles que foram julgados aptos para aprender os
quatro Evangelhos devem receber esta graça?
RESPOSTA
O próprio Senhor afirmou que “daquele a quem muito se deu, muito será exigido” (Lc
12,48). Por isso, quem recebe esse privilégio deve ter ainda mais temor e zelo,
como exorta o Apóstolo: “Sendo
seus colaboradores, exortamo-vos a não receberdes a graça de Deus em vão”
(2Cor 6,1). Isso se cumprirá se crerem na palavra do Senhor quando diz: “Se compreenderdes estas coisas,
sereis felizes, sob a condição de as praticardes” (Jo 13,17).
INTERROGAÇÃO
237
Qual é a alma que conseguirá se guiar segundo a vontade de
Deus?
RESPOSTA
É aquela que abraça de coração o ensinamento do Senhor: “Se alguém quiser vir após mim,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Afinal, se a
pessoa não começar por renunciar a si mesma e carregar a sua cruz, ela
encontrará em si mesma — ao tentar avançar — inúmeros obstáculos que a
impedirão de prosseguir.
INTERROGAÇÃO
238
É possível salmodiar, ler ou dedicar-se às palavras de Deus
de modo totalmente ininterrupto, sem qualquer intervalo de tempo, já que a
todos sobrevêm as necessidades corporais básicas?
RESPOSTA
O Apóstolo estabelece a regra ao dizer: “Faça-se tudo com decência e ordem”
(1Cor 14,40). Por isso, deve-se priorizar o cuidado com a sobriedade e a boa
disciplina, ajustando cada atividade ao tempo e ao lugar adequados.
INTERROGAÇÃO
239
O que é o bom e o mau tesouro?
RESPOSTA
O bom tesouro
é a prudência orientada para a prática de todas as virtudes em Cristo, tendo em
vista a glória de Deus. O mau
tesouro, por sua vez, é a astúcia voltada para o mal, aplicada às coisas
proibidas pelo Senhor. É a partir desse tesouro interno — como ensina a palavra
do Senhor — que cada pessoa retira e manifesta o bem ou o mal em suas ações e
palavras.
INTERROGAÇÃO
240
Por que se diz que é larga a porta e espaçoso o caminho que
conduz à perdição?
RESPOSTA
O Senhor, em seu grande amor pela humanidade, utiliza
termos e imagens bem conhecidos para expor os ensinamentos da verdade. Assim
como, em um terreno físico, qualquer desvio da rota correta abre uma área
imensa e sem limites, diz-se também que aquele que se desvia do caminho do
Reino dos Céus cai na grande vastidão do erro. Acredito que “largo” e
“espaçoso” expressam a mesma ideia, pois os autores profanos costumam chamar de
“largo” o que é “espaçoso”. Portanto, o lugar do erro é espaçoso — ou seja,
largo —, e o seu fim é a perdição.
INTERROGAÇÃO
241
Por que é estreita a porta e apertado o caminho que conduz
à vida? E como se entra por ele?
RESPOSTA
Também aqui, “estreito” e “apertado” não significam coisas
diferentes. Na verdade, a palavra “apertado” indica algo extremamente estreito
— como quando o caminho se afunila até comprimir o viajante de ambos os lados,
tornando perigoso qualquer desvio, seja para a direita, seja para a esquerda. É
como atravessar uma ponte estreita: para qualquer lado que a pessoa se
inclinar, cairá no rio que corre abaixo. Por isso diz Davi: “Junto ao caminho colocam tropeços”
(Sl 139,6). Portanto, quem se propõe a entrar na vida pelo caminho estreito e
apertado deve acautelar-se para não se desviar nem declinar dos mandamentos do
Senhor, cumprindo o que foi escrito: “Sem te apartares nem para a direita, nem para a
esquerda” (Dt 17,11).
INTERROGAÇÃO
242
O que quer dizer: “Amai-vos reciprocamente com caridade fraterna”?
RESPOSTA
O amor que brota da verdadeira amizade traduz-se em um
desejo sincero e uma afeição viva daquele que ama em relação à pessoa amada.
Para que o amor entre os irmãos não seja algo frio ou superficial, mas sim
corajoso, dedicado e fervoroso, foi dito: “Amai-vos uns aos outros com amor terno e fraternal”
(Rm 12,10).
INTERROGAÇÃO
243
O que quer dizer o Apóstolo com as palavras: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se
ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26), visto que diz em outra parte: “Toda amargura, ira e indignação
sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31)?
RESPOSTA
Julgo que, neste trecho, o Apóstolo fala imitando o
procedimento do Senhor. No Evangelho, o Senhor primeiro diz: “Foi dito aos antigos...” e, a
seguir, acrescenta: “Eu, porém,
vos digo...”. Da mesma forma, o Apóstolo aqui primeiro recorda o que fora
dito outrora aos antigos: “Irai-vos
e não queirais pecar” (Sl 4,5), para logo depois acrescentar, por
autoridade própria, o que de fato nos convém como cristãos: “Toda amargura, ira e indignação
sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31).
INTERROGAÇÃO 244
O que significa: “Deixai agir a ira” (Rm 12,19)?
RESPOSTA
Significa não resistir ao mal, conforme está escrito: “Se alguém te ferir a face direita,
oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39); ou ainda: “Se alguém vos perseguir numa cidade, fugi para outra”
(Mt 10,23).
INTERROGAÇÃO
245
O que significa ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”
(Mt 10,16)?
RESPOSTA
É prudente como
a serpente aquele que transmite a doutrina com circunspecção, considerando
as capacidades do público e o caminho mais eficaz para persuadir os ouvintes.
Por sua vez, é simples como a
pomba aquele que nem sequer cogita se vingar de quem lhe arma ciladas, mas
persevera em praticar o bem, segundo o preceito do Apóstolo: “Vós, irmãos, não vos canseis de
fazer o bem” (2Ts 3,13). O Senhor prescreveu essa atitude aos discípulos ao
enviá-los a pregar, pois eles precisavam tanto de sabedoria para persuadir
quanto de paciência diante dos perseguidores. Assim como a serpente, outrora,
soube adotar uma postura acessível e uma fala persuasiva para afastar o ser
humano de Deus e induzi-lo ao pecado, nós também devemos escolher a expressão,
o tom, o momento e o lugar adequados, empregando nossas palavras com
discernimento para afastar as pessoas do pecado e convertê-las a Deus. De
resto, cumpre-nos conservar a paciência nas provações até o fim, como está
escrito.
INTERROGAÇÃO
246
O que quer dizer: “A caridade nada faz de inconveniente” (1Cor 13,5)?
RESPOSTA
É o mesmo que dizer: a caridade não deixa de ser o que ela
é. A própria identidade da caridade consiste no conjunto de características
enumeradas pelo Apóstolo nesta mesma passagem.
INTERROGAÇÃO 247
A Escritura diz: “Não vos glorieis e não
faleis coisas elevadas” (1Sm 2,3). Contudo, o Apóstolo confessa em um
trecho: “O que vou dizer na certeza de poder gloriar-me, não o digo sob a
inspiração do Senhor, mas como num acesso de delírio” (2Cor 11,17) e “Tornai-me
insensato” (2Cor 12,11); enquanto em outro lugar afirma: “Aquele que se
gloria, glorie-se no Senhor” (2Cor 10,17). Afinal, o que é gloriar-se no
Senhor e de que maneira se deve gloriar?
RESPOSTA
Nesses textos, revela-se abertamente a luta
exigida do Apóstolo contra as falsas pretensões dos seus opositores. Ele não
diz tais coisas para se autoproclamar ou se recomendar, mas para conter a
ousadia, a arrogância e o orgulho de alguns. Gloriar-se no Senhor, por
sua vez, consiste em alguém nunca atribuir a si próprio as suas boas obras, mas
sim ao Senhor, dizendo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). Por
outro lado, pode-se considerar dois tipos de glorificação proibida: A
vaidade no mal: De acordo com o que diz a Escritura: “O pecador
gloria-se dos desejos de sua alma” (Sl 9,25) e “Por que te glorias de
tua malícia, ó prepotente?” (Sl 51,3). O orgulho nas boas obras:
Ocorre quando as pessoas, por desejarem ser louvadas em razão do bem que
praticam, gloriam-se de seus próprios atos. Esses podem ser considerados
sacrílegos, pois se apropriam dos dons de Deus e roubam para si a glória que
pertence unicamente a Ele.
INTERROGAÇÃO 248
Se é o Senhor quem dá a sabedoria e é de sua
face que procedem a ciência e a prudência (Pr 2,6); e se, pelo Espírito, a um é
dada a palavra de sabedoria e a outro a palavra de ciência (1Cor 12,8); por que
o Senhor repreende os discípulos dizendo: “Também vós estais ainda sem
inteligência?” (Mt 15,16)? E por que o Apóstolo acusa alguns de serem
insensatos (Rm 1,31)?
RESPOSTA
Quem conhece a bondade de Deus — que “quer
que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm
2,4) — e compreende como o Espírito Santo atua na distribuição e na eficácia
dos dons divinos, reconhece que a demora em alcançar a inteligência espiritual
não provém de qualquer limitação do Benfeitor, mas sim da incredulidade dos
próprios beneficiados. Por isso, censura-se com razão o insensato: ele age como
alguém que fecha os olhos diante do sol nascente para continuar vivendo nas
trevas, recusando-se a olhar para cima a fim de ser iluminado.
INTERROGAÇÃO 249
O que é o “honesto” e o que é o “justo”?
RESPOSTA
Julgo ser honesto aquilo que é
conveniente e devido ao superior por parte dos inferiores, em razão de sua
precedência; e justo, o que é dado a cada um segundo o valor e a
importância de suas obras. Assim, o honesto abrange somente o dever de gratidão
e de recompensa, enquanto o justo inclui o exame rigoroso e a punição do mal.
INTERROGAÇÃO 250
Como alguém dá o que é santo aos cães ou lança
pérolas aos porcos? E como se evita o que vem a seguir: “para que não
aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem”
(Mt 7,6)?
RESPOSTA
O Apóstolo nos explica isso claramente ao
acrescentar o que dissera contra os judeus: “Tu, que te glorias da Lei,
desonras a Deus pela transgressão da Lei” (Rm 2,23). Portanto, o Senhor
proíbe aqui o ultraje que cometemos contra as suas santas palavras por meio de
nossas próprias transgressões. É por causa dessas faltas que aqueles que estão
de fora passam a julgar desprezíveis os ensinamentos do Senhor; em
consequência, insurgem-se contra nós com maior audácia e, de certo modo,
despedaçam o transgressor cobrindo-o de injúrias e acusações.
INTERROGAÇÃO 251
Por que o Senhor, em certo momento, proíbe
levar bolsa e alforje no caminho (Lc 10,4), mas em outro diz: “Quem tem
bolsa, tome-a, e aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que
não tiver uma espada, venda a sua capa para comprar uma” (Lc 22,36)?
RESPOSTA
O próprio Senhor o explica ao acrescentar: “É
necessário que se cumpra em mim este oráculo: 'E foi contado entre os
malfeitores'” (Lc 22,37). Logo após a profecia da espada se cumprir, Ele
ordena a Pedro: “Embainha a tua espada, porque todos os que usarem da
espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Disso decorre que a frase “quem
tem bolsa, tome-a” (ou “tomará”, como consta em muitos manuscritos)
não é um mandamento, mas sim uma profecia. Por ela, o Senhor previu que
os apóstolos, esquecendo-se temporariamente dos dons e da lei do Senhor,
chegariam ao ponto de recorrer à espada. Fica evidente em muitas passagens que
a Escritura usa frequentemente o modo imperativo no lugar da forma profética,
como por exemplo: “Fiquem órfãos os seus filhos” e “Levante-se à sua
direita um acusador” (Sl 108,9.6).
INTERROGAÇÃO 252
Qual é o pão cotidiano que fomos ensinados a
pedir a cada dia?
RESPOSTA
É o alimento necessário à sustentação de nossa
natureza na vida diária. Quando alguém trabalha recordando-se do Senhor — que
disse: “Não vos preocupeis por vossa vida: que comeremos? que beberemos?”
(Mt 6,25) — e do Apóstolo, que ordena trabalhar não para o proveito próprio, mas
para ter o que dar ao necessitado por causa do mandamento (pois “o operário
é digno do seu alimento”), essa pessoa não confia em si mesma, mas pede a
Deus o pão cotidiano. Assim, reconhecendo a própria indigência, ela receberá o
necessário das mãos daquele que, após ter sido provado, foi encarregado de
distribuir diariamente o sustento, conforme se lê: “Repartia-se, então, a
cada um deles segundo a sua necessidade” (At 4,35).
INTERROGAÇÃO 253
O que é o talento e como devemos
multiplicá-lo?
RESPOSTA
Julgo que esta parábola foi dita para
representar todos os dons concedidos por Deus. Cada pessoa, seja qual for o dom
que tenha recebido, deve multiplicá-lo empregando-o para fazer o bem e ser útil
aos outros, pois não há ninguém que não tenha participado da bondade de Deus.
INTERROGAÇÃO 254
Qual é a mesa de banqueiros onde se deve, como
disse o Senhor, depositar o dinheiro?
RESPOSTA
As parábolas não descrevem perfeitamente as
realidades espirituais em si mesmas, mas conduzem a mente até elas. Assim como
é costume depositar dinheiro com banqueiros para render juros, aquele que
recebe um dom qualquer deve partilhá-lo com quem necessita — ou agir segundo o
que o Apóstolo disse a respeito da doutrina: “Confia-o a homens fiéis, que
por sua vez sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2). Isso se aplica
não apenas ao ensino da fé, mas a qualquer recurso ou carisma, pois alguns
possuem os meios e outros recebem a perícia para administrá-los.
INTERROGAÇÃO 255
Para onde foi mandado ir aquele a quem o
Senhor disse: “Toma o que é teu e vai-te” (Mt 20,14)?
RESPOSTA
Provavelmente para o mesmo lugar para onde
serão enviados aqueles que estiverem à esquerda, condenados pela ausência de
boas obras. Afinal, aquele que tem inveja do próprio irmão encontra-se em
estado pior do que aquele que simplesmente nada faz. É por isso que a Escritura
costuma, em diversas passagens, associar diretamente a inveja ao homicídio (Rm
1,29; Gl 5,21).
1.
O
que você destaca no texto?
2.
Como
serve para a sua espiritualidade?
3.
De
que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores
aqui na OESI?