quarta-feira, 3 de junho de 2026

314 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 121-137

 


314

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 121-137

 

Pergunta 121

É permitido ou aceitável recusar os trabalhos mais pesados e difíceis?

 

Resposta

Quem ama a Deus de verdade e confia plenamente na recompensa divina nunca se dá por satisfeito com o que já alcançou; pelo contrário, busca sempre ir além e deseja fazer mais. Mesmo que essa pessoa pareça estar trabalhando um pouco acima de suas forças, ela não se acomoda como se já tivesse cumprido sua meta. Ela se mantém sempre zelosa, como se tivesse feito menos do que deveria, guardando no coração a ordem do Senhor: "Depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer" (Lc17.10). Essa é a mesma postura do Apóstolo Paulo, para quem o mundo estava crucificado (e ele para o mundo) (Gl 6,14), e que não teve vergonha de dizer: "Não julgo que já o tenha alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fl 3,13-14). Além disso, embora Paulo tivesse o direito de viver do Evangelho por pregá-lo (1 Cor 9,14), ele afirmou: "Trabalhamos dia e noite com esforço e fadiga... não porque não tivéssemos esse direito, mas para vos dar em nós mesmos um modelo a imitar" (2 Ts 3,8-9). Diante disso, quem seria tão insensível ou sem fé a ponto de se contentar com o que já fez, ou de rejeitar um trabalho só por ser mais pesado e trabalhoso?

 

INTERROGAÇÃO 122

Deve-se permitir a recusa da eulógia (grego: abençoado) a alguém que disser: Se não receber a eulógia não como?

 

Resposta

Se o pecado merece o castigo de ser ele excluído da refeição, julgue-o quem impôs a pena. Se alguém for julgado indigno somente da eulógia e tenha licença de comer, mas recuse, seja considerado desobediente, amante de disputas. Conheça-se a si mesmo e simultaneamente entenda que, ao proceder assim, não obtém a cura, mas acrescenta pecado a pecado.

 

INTERROGAÇÃO 123

Se alguém se entristece porque não lhe permitem fazer aquilo que não é capaz de fazer, isto deve ser tolerado?

 

Resposta

Em vários lugares foi dito que, geralmente, seguir a própria vontade ou agir ao próprio arbítrio é contrário à reta razão, e não se submeter ao juízo de muitos é incorrer no perigo de desobediência e de contradição.

 

INTERROGAÇÃO 124

Se deve alguém que se encontrou com hereges ou gentios comer com eles ou saudá-los.

 

Resposta

O Senhor não proibiu a saudação comum, ao dizer: Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? (Mt 5,47). Quanto a comer à mesma mesa, temos o preceito do Apóstolo de que se deve evitá-lo, quando diz: Na minha carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os impudicos. Mas não se tratava de um modo absoluto de todos os impudicos deste mundo, ou os avarentos e ladrões, ou os idólatras, pois neste caso deveríeis sair deste mundo. Mas eu simplesmente quis dizer-vos que não tenhais comunicação com aquele que, chamando-se irmão, é impudico ou avarento, ou idólatra, ou difamador, ou bêbado, ou ladrão; com esse nem sequer deveis comer (I Cor 5,9-11).

 

INTERROGAÇÃO 125

Se alguém a quem foi confiado um trabalho e sem avisar fizer algo aquém da ordem ou além do prescrito, deve ser mantido no trabalho?

 

Resposta

De modo geral, desagrada a Deus o que alguém assume por si mesmo; e isto não convém, nem é proveitoso aos que têm empenho de conservar o vínculo da paz. Se continuar a ser

precipitado, é útil retirá-lo do trabalho. Pois não observa o preceito daquele que disse: Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o chamou (Icor 7,24), e o que é ainda mais convincente: Não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus lhe distribuiu (Rm 12,3).

 

Pergunta 126

Como podemos evitar ser dominados ou vencidos pelo prazer da comida?

 

Resposta

A regra é decidir que a utilidade real e a necessidade do corpo sejam sempre as guias e mestras na hora de se alimentar, independentemente de a comida ser agradável ao paladar ou não.

 

INTERROGAÇÃO 127

Dizem alguns ser impossível ao homem não se irar.

 

Resposta

Mesmo se fosse possível ao soldado irar-se diante dos olhos do rei, nem assim seria razoável tal afirmação. Se o olhar de um homem, igual por natureza, reprime o mal, devido à preeminência da dignidade, quanto mais não o fará a convicção de ter a Deus por observador de seus sentimentos? Deus, que perscruta os corações e as entranhas, vê muito melhor os atos da alma do que o homem contempla o que está diante de si.

 

INTERROGAÇÃO 128

Se é lícito permitir a quem quiser fazer abstinência além de suas forças, de modo a ficar tolhido de praticar o mandamento que lhe é proposto.

 

Resposta

Esta pergunta não me parece bem feita. A abstinência não consiste numa abstenção de alimentos indiferentes, a qual teria como consequência aquela aflição do corpo condenada pelo Apóstolo (Cl 2,23), e sim, no perfeito abandono das próprias vontades. Evidencia-se das palavras do Apóstolo quão perigoso é apartar-se do mandamento do Senhor, por causa da própria vontade, quando diz: Fazendo a vontade da carne e da concupiscência, éramos, por natureza, objetos da ira (Ef 2,3).

 

Pergunta 129

Se alguém faz um jejum muito rigoroso e, por causa disso, não consegue comer o que é servido na mesa comum da comunidade, o que é mais recomendável? Que essa pessoa jejue junto com os irmãos e coma a mesma refeição que eles, ou que, devido ao seu jejum extremo, precise de alimentos especiais na hora de comer?

 

Resposta

O momento e a prática do jejum não devem ser decididos pelo desejo ou vontade de cada um. O jejum deve seguir o que é necessário para o culto e o serviço a Deus, como vemos nos relatos dos Atos dos Apóstolos e no exemplo do rei Davi ($At\ 13,2\text{-}3$; $Sl\ 34,13$). Se alguém jejua com esse propósito correto, Deus também lhe dará as condições físicas para suportá-lo, pois aquele que fez a promessa é fiel ($Hb\ 10,23$).

 

INTERROGAÇÃO 130

Como se deve jejuar, quando for preciso jejuar por motivo de piedade? Por obrigação? Ou de boa vontade?

 

Resposta

Se o Senhor diz: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6), tudo o que se faz por causa da piedade, se não for realizado de boa vontade e com empenho, é perigoso. Quem jejua, mas de má vontade, não está seguro. Visto que é necessário jejuar no tempo em que é prescrito o jejum, o Apóstolo o enumera entre outras boas ações suas, para nosso ensinamento: com frequentes jejuns (2Cor 11,27).

 

Pergunta 131

Está correto alguém recusar a refeição que é servida quando os irmãos estão comendo e, em vez disso, ir procurar outros alimentos por conta própria?

 

Resposta

De modo geral, andar à procura de alimentos especiais vai contra o mandamento do Senhor, que disse: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, e não andeis com preocupações vãs" ($Lc\ 12,29$). E Ele ainda acrescenta um alerta importante: "Porque os pagãos do mundo é que se preocupam com todas essas coisas" ($Lc\ 12,30$). Por outro lado, cabe ao responsável pela comunidade cumprir com dedicação a palavra da Escritura: "Repartia-se, então, a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$).

 

Pergunta 132

O que devemos pensar daquele que diz: "Isto me faz mal", e fica profundamente chateado ou ressentido se não lhe derem outra opção de comida?

 

Resposta

Essa atitude demonstra que a pessoa não possui a paciência e a esperança que o pobre Lázaro teve, e que também não reconhece o amor e o zelo daquele que foi encarregado de cuidar de todos. De modo geral, não se deve permitir que cada indivíduo decida por si mesmo o que lhe faz bem ou mal. Em vez disso, deve-se confiar ao responsável a tarefa de avaliar as reais necessidades de cada um. O encarregado, por sua vez, deve priorizar o bem da alma e, em segundo lugar, distribuir o que é necessário para o corpo, sempre de acordo com a vontade de Deus.

 

 

INTERROGAÇÃO 133

Se alguém murmurar por causa da comida.

 

Resposta

Sofrerá o juízo dos que murmuraram no deserto (Nm 11,1). Diz o Apóstolo: Não murmureis como murmuraram alguns deles, e foram mortos pelo exterminador (ICor 10,10).

 

INTERROGAÇÃO 134

Se alguém, irado, se recusar a tomar o necessário.

 

Resposta

Merece não receber, mesmo se depois o pedir, até que o superior julgue curado o vício, ou antes os vícios.

 

Pergunta 135

É correto que alguém, por realizar um trabalho muito cansativo ou pesado, peça ou procure receber algo a mais além do que já é oferecido habitualmente a todos?

 

Resposta

Se essa pessoa assumiu o cansaço do trabalho de olho na recompensa que vem de Deus, ela não deve ficar buscando privilégios ou alívios por conta própria. Em vez disso, deve focar na recompensa do Senhor, sabendo que receberá de Deus — que ama a humanidade — a justa retribuição pelo seu esforço e o consolo pelo seu desgaste. Por outro lado, o responsável por colocar em prática a palavra da Escritura — "Repartia-se a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$) — tem a obrigação de conhecer bem a realidade de cada trabalhador e cuidar de suas necessidades físicas de maneira adequada.

 

INTERROGAÇÃO 136

Se é de obrigação reunirem-se todos à hora do almoço; e como receberemos o que estiver ausente e chegar depois do almoço?

 

Resposta

Se esteve ausente por necessidade, devido ao lugar ou ao trabalho, observando a ordem daquele que disse: Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o chamou (ICor 7,24), o responsável pela disciplina comum, tendo examinado o caso, desculpe-o; se, porém, podia chegar com os outros e não se apressou, reconhecida a culpa da negligência, permaneça em jejum até à hora determinada do dia

seguinte.

 

INTERROGAÇÃO 137

Se é bom que alguém decida, por exemplo, por algum tempo, abster-se de alguma coisa na comida ou na bebida.

 

Resposta

Como diz o Senhor: Não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38), qualquer juízo por própria vontade não é seguro. Ciente disto, dizia Davi: Faço juramento e determino guardar os vossos justos decretos (SI 118,106) e não as minhas vontades.

 

O que você destaca no texto?

Como serve para sua vida espiritual?

terça-feira, 19 de maio de 2026

313 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 103-120

 

                                                                                  


                                                                                313

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 103-120

 

INTERROGAÇÃO 103

Já aprendemos que devemos obedecer aos mais velhos até à morte. Acontece algumas vezes que o próprio velho erra. Deve ser admoestado? Como e por quem? Desejamos sabê-lo. Se não aceitar, o que se deve fazer?

 

Resposta

A este respeito foi dito o bastante na resposta mais extensa (Basílio se refere a Regra Mais Extensa 27 - Como deve ser admoestado o superior, se porventura cair em algum erro.

 

            "O irmão que notar que o superior caiu em algum erro ou cometeu um deslize na observância dos mandamentos não deve calar-se por negligência, nem tampouco deve ele mesmo, por conta própria, proferir a censura ou espalhar a murmuração entre os outros irmãos, o que geraria o pecado da discórdia. Em vez disso, se o irmão for jovem ou não tiver a devida autoridade, deve relatar o fato em particular aos irmãos que se destacam pela sabedoria, maturidade e capacidade de discernimento dentro da comunidade. Estes anciãos, após examinarem a questão à luz das Sagradas Escrituras, devem admoestar o superior em segredo, com toda a mansidão, respeito e caridade fraterna, para que ele reconheça a sua falta e se corrija. Se o superior aceitar a correção, o erro é perdoado e a paz é restaurada. Porém, se ele rejeitar a advertência dos anciãos e persistir no erro, violando os mandamentos de Deus, o caso deve ser levado ao conhecimento daqueles que presidem as outras fraternidades ou à autoridade maior, pois a obediência humana cessa quando se opõe à soberana vontade de Deus."

 

INTERROGAÇÃO 104

Como entregar os ofícios aos irmãos? Só a juízo do superior, ou com o voto dos irmãos? E o mesmo, quanto às irmãs.

 

Resposta

Se cada um aprendeu a propor aos outros o que pensa, quanto mais devem tais coisas ser feitas com a aprovação daqueles que são capazes de julgar! Por isso, a administração das coisas de Deus, segundo Deus, seja confiada àqueles que já deram provas de poderem exercer o ofício que lhes foi entregue, de modo agradável ao Senhor. Em suma, é necessário que o superior em todos os negócios se lembre da Sagrada Escritura, que diz: Nada façais sem conselheiro (Eclo 32,24).

 

INTERROGAÇÃO 105

Se devem os recém-vindos para a comunidade aprender logo os ofícios.

 

Resposta

Julguem os superiores.

 

INTERROGAÇÃO 106

Que penas serão usadas na comunidade em vista da conversão dos pecadores?

 

Resposta

Depende do juízo do superior o tempo e o modo, de acordo com o vigor do corpo, a disposição da alma e a diferença dos pecados.

 

INTERROGAÇÃO 107

Se alguém disser que deseja viver na comunidade dos irmãos, mas, devido aos cuidados com os parentes carnais, ou por causa dos tributos, estiver muitas vezes impedido de se entregar de uma vez a esta vida, deve ser-lhe permitido o acesso junto dos irmãos?

 

Resposta

É perigoso cortar um bom desejo; não é seguro, contudo, dar ao que entrou oportunidade de tratar de coisas externas e alheias à vida segundo Deus. Se o que entrou entregar-se às obras internas e nada trouxer das de fora, dá melhores esperanças.

 

INTERROGAÇÃO 108

Se convém que o superior, na ausência da superiora, fale com uma irmã do que se refere à edificação da fé.

 

Resposta

Seria inobservância do preceito do Apóstolo, que diz: Faça-se tudo com decência e ordem (ICor 14,40).

 

INTERROGAÇÃO 109

Se convém que o superior fale com frequência com a superiora, principalmente se alguns dos irmãos se aborrecem com isto.

 

Resposta

Tendo dito o Apóstolo: Por que razão seria julgada a minha liberdade pela consciência alheia? (ICor 10,29) é bom imitá-lo, quando diz: Não temos feito uso deste direito, para não pôr obstáculo algum ao Evangelho de Cristo (ICor 9,12), e na medida do possível, os colóquios sejam raros e breves.

 

INTERROGAÇÃO 110

Se deve estar presente a superiora quando una irmã se confessa a um presbítero.

 

Resposta

Será mais importante e precavida a confissão feita diante da superiora a um presbítero que possa com conhecimento e prudência sugerir o modo da penitência e da correção.

 

INTERROGAÇÃO 111

Se o presbítero ordenar algo às irmãs, sem conhecimento da superiora, tem ela o direito de se indignar?

 

Resposta

E muito.

 

INTERROGAÇÃO 112

Se é conveniente, quando alguém vem seguir uma vida dedicada a Deus, ser recebido pelo superior sem o conhecimento dos irmãos, ou deve isto ser-lhes comunicado primeiro?

 

Resposta

O Senhor ensina a convocar os amigos e vizinhos, por causa de um arrependido. É bem mais necessário, pois, receber o recém-vindo com o conhecimento de todos os irmãos, para que juntos se alegrem e orem.

 

INTERROGAÇÃO 113

Se é possível àquele que tem a responsabilidade das almas observar a palavra: Se não vos transformardes e vos tomar  como criancinhas (Mt 18,3), visto ter relação com muitas e diferentes pessoas.

 

Resposta

Conforme disse o sábio Salomão: Para tudo há um tempo (Ecl 3,1), é notório haver um tempo próprio para a humildade, outro para a autoridade, a repreensão, a exortação, a misericórdia, a liberdade no falar, a benignidade, a severidade, em uma palavra, para cada coisa. Por vezes, deve-se manifestar atitude humilde e imitar a humildade das crianças, principalmente por ocasião de honras e obséquios mútuos, de serviços e tratamentos corporais, como o ensinou o Senhor; às vezes, usar da autoridade concedida pelo Senhor para edificar e não para destruir (2Cor 13,10), quando a necessidade exigir liberdade no falar. E se na hora da exortação faz-se mister mostrar benignidade, no momento da severidade mostre-se zelo e no restante faça-se de igual modo.

 

INTERROGAÇÃO 114

Se é dever obedecer a todos os que dão ordens e a qualquer um deles, porque o Senhor ordenou: Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, vai com ele dois mil (Mt 5,41) e c Apóstolo ensinou a nos sujeitarmos uns aos outros, no temor de Cristo (Ef 5,21)

 

Resposta

A diferença entre os que dão ordens em nada prejudique a obediência dos que as recebem. Moisés não desprezou a Jetro que lhe dava bons conselhos. Como não são pequenas as diferenças entre as ordens (algumas são contrárias ao mandamento do Senhor, ou o destroem, ou o mancham porque se misturam a coisas proibidas; outras coincidem com o mandamento; outras, embora visivelmente não coincidam com ele, concordam com ele e como que o reforçam) é preciso lembrar-se do Apóstolo que diz: Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o que for bom. Guardai-vos de toda a espécie de mal (lTs 5,20-22). E ainda: Nós aniquilamos todo o raciocínio e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e cativamos todo o pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo (2Cor 10,4.5). Por isto, se alguma coisa nos é ordenada que coincida

com o mandamento do Senhor, ou concorde com ele, devemos recebê-la zelosa e diligentemente, como vontade de Deus, cumprindo o que foi dito: Suportai-vos caridosamente uns aos outros (Ef 4,2). Quando, porém, nos é prescrito algo de contrário

ao mandamento do Senhor, ou que o destrua, ou manche, é o momento de dizermos: Importa obedecer mais a Deus do que aos homens (At 5,29), lembrados do Senhor, que disse: Mas não seguem o estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos (Jo 10,5), e do Apóstolo que ousou, para nossa segurança, referir-se aos anjos, dizendo: Mas, ainda que alguém, ou nós ou um anjo baixado do céu;  vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja rejeitado (G11,8). Daí deduzimos que, por mais próximo ou por mais ilustre que for, quem proíba aquilo que o Senhor ordenou, ou persuada a fazer o que ele proibiu, deve ser evitado a execrado por

qualquer um dos que amam o Senhor.

 

INTERROGAÇÃO 115

Como hão de obedecer uns aos outros?

 

Resposta

Como servos a seus senhores, segundo a ordem do Senhor: E todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o escravo de todos (Mc 10,44). Acrescentou palavras mais persuasivas: Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir (ibid. 45); e ainda foi dito pelo Apóstolo: Fazei-vos servos uns dos outros pela caridade (G1 5,13).

 

INTERROGAÇÃO 116

Até onde vai a obediência, segundo as normas para agradarmos a Deus?

 

Resposta

Mostrou-o o Apóstolo, propondo-nos a obediência do Senhor, que se tornou obediente até à morte, e morte de cruz (PI 2,8). Disse anteriormente: Tende em vós a estima que se deve em Cristo Jesus (ibid. 5).

 

INTERROGAÇÃO 117

De que vício sofre quem não aceita receber ordens diárias para a realização de um mandamento, mas quer aprender um ofício? Deve ser tolerado?

 

Resposta

É presunçoso, complacente consigo e incrédulo, porque não teme o juízo do Senhor que disse: Estai, pois, preparados porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do homem (Lc 12,40). Se alguém a cada dia e hora espera o Senhor, preocupa-se de não passar ocioso aquele dia e de nada mais cuida. Se lhe ordenar aprender um ofício, pela obediência terá a recompensa de comprazer a Deus e não sofrerá a condenação por causa das delongas.

 

INTERROGAÇÃO 118

Qual será a recompensa de quem é zeloso em cumprir o mandamento, mas não faz aquilo que lhe é ordenado e sim o que quer?

 

Resposta

A da autocomplacência. Como o Apóstolo diz: Cada um de vós procure agradar a seu próximo, para seu bem e sua edificação (Rm 15,2), e mais ainda nos convida, acrescentando: Cristo não se comprazeu em si mesmo (ibid. 3), conheça o autocomplacente o perigo em que incorre. Será também convencido de ser insubordinado.

 

INTERROGAÇÃO 119

Se é lícito a alguém recusar o trabalho que lhe é confiado e procurar outro.

 

Resposta

Como a medida da obediência, conforme já foi dito, vai até à morte, quem recusa o que lhe é entregue e procura outro trabalho, primeiro destrói a obediência e manifesta não ter renunciado a si mesmo; segundo, torna-se causa de muitos outros males para si e para os demais. Além disso, abre a porta da contradição para os outros e acostuma-se à mesma. Uma vez: que não pode cada um julgar o que é bom para si, escolhe muitas vezes um serviço que lhe é prejudicial. Também desperta suspeitas entre os irmãos de que é mais propenso ao trabalho que escolhe do que àqueles nos quais deve colaborar. Em suma, desobedecer torna-se a raiz de muitos e grandes males. Se julga ter uma razão para recusar o trabalho, declare-a aos superiores e deixe a questão a seu juízo.

 

INTERROGAÇÃO 120

Se convém sair para algum lugar, sem avisar ao superior.

 

Resposta

O Senhor diz: Não vim de mim mesmo, mas (é verdadeiro) aquele que me enviou (Jo 7,28). Quanto maior razão não temos de não nos permitirmos agir assim? Quem toma essa liberdade, mostra claramente que sofre de soberba e está sujeito ao juízo do Senhor, que disse: O que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus (Lc 16,15). Em resumo, é culpada qualquer concessão a si mesmo.

 

O que você destaca no texto? Como Serve para sua espiritualidade?

sábado, 9 de maio de 2026

312 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 91 a 101

Frederick, Kris, Edmar, Isaac, Luiz Daniel, Demétrius, Nathalie, Edson



                                                                312

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 91 a 101

 

INTERROGAÇÃO 91

Se a um irmão, que nada possui de próprio, for pedido aquilo que usa, o que fazer, principalmente se estiver nu o pedinte?

 

Resposta

Esteja nu, seja mau, peça por necessidade ou por avareza, já foi dito uma vez que dar ou receber não é tarefa de todos e sim daquele a quem, depois de experimentado, for confiada esta distribuição. Observe-se o dito: Cada um permaneça na condição em que foi chamado por Deus (ICor 7,24).

 

INTERROGAÇÃO 92

O Senhor ordenou vender as propriedades. Por que faze-lo? Será porque os bens prejudicam por natureza, ou por causa da dispersão do espírito que deles costuma provir?

 

Resposta

Primeiro pode-se afirmar que, se as riquezas fossem más em si mesmas, não teriam sido criadas por Deus. Pois Toda a criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado (lTm 4,4). A seguir, que o mandamento do Senhor não ensina a rejeitá-las como más ou a fugir delas, mas a administrá-las. Não se condena simplesmente quem as possui, porém quem pensa errado a seu respeito ou as emprega mal. Uma disposição de ânimo livre e sã em relação a elas e a sua distribuição, segundo o mandamento, serve-nos muito e em pontos bem necessários. Às vezes, para a purificação de nossos pecados, conforme está escrito: Dai antes em esmola o conteúdo e todas as coisas vos serão limpas (Lc 11,41); outras, para a herança do reino dos céus e posse de um tesouro indefectível, segundo outra passagem: Não temas, pequenino rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai esmolas; fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro inesgotável nos céus (Lc 12,32.33).

 

INTERROGAÇÃO 93

Com que espírito aquele que renunciou já a seus bens e prometeu nada ter de próprio, deve usar do necessário para viver, como a roupa e o alimento?

 

Resposta

Lembre-se conforme está escrito (SI 135,25) de que Deus é quem dá o alimento a toda carne. Contudo, precisa ter cuidado, como operário de Deus, de ser digno de receber seu alimento, o qual não esteja a seu arbítrio, mas seja distribuído pelo encarregado, em tempo e medida oportunos, segundo está escrito: Repartia-se, então, a cada um deles conforme

a sua necessidade (At 4,35).

 

INTERROGAÇÃO 94

Se alguém, tendo impostos a pagar, entrar na comunidade, e seus parentes forem importunados pelos cobradores, há motivo de dúvida ou de prejuízo para ele, ou para os que o receberam?

 

Resposta

Nosso Senhor Jesus Cristo, aos que lhe perguntavam se era lícito dar o tributo a César ou não, disse: Mostrai-me um denário. De quem leva a imagem e a inscrição? Responderam: De César! Então lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Lc 20,22-24). Daí se evidencia estarem sujeitos às ordens de César aqueles que retêm o que pertence a César. Se aquele que entrou na comunidade trouxe consigo algo que pertence a César, deve pagar o imposto. Se, ao partir, deixou tudo para os seus, não há dúvida; nem para ele, nem para os que o receberam.

 

 

INTERROGAÇÃO 95

Se convém aos recém-vindos aprender imediatamente as palavras das Escrituras.

 

Resposta

Também esta questão seja entendida pelo que se disse acima. É conveniente e indispensável que cada um aprenda aquilo de que necessita das Escrituras divinas, para ter uma piedade convicta e não se habituar a tradições humanas.

 

INTERROGAÇÃO 96

Se convém permitir a quem quiser aprender as letras ou entregar-se a leituras.

 

Resposta

Se o Apóstolo diz: Para que não façais o que quereríeis (G1 5,17), em qualquer questão é pernicioso permitir uma escolha por vontade própria. Deve-se, porém, aceitar tudo o que os superiores aprovarem, mesmo contra a própria vontade. Além disso, incriminasse-lhe incredulidade, pois diz o Senhor: Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do homem (Lc 12,40). É evidente que se propõe um longo tempo de vida.

 

INTERROGAÇÃO 97

Se alguém disser: Quero por pouco tempo aproveitar-me de vossa  companhia, deve ser recebido?

 

Resposta

Tendo dito o Senhor: O que vier a mim, não o lançarei fora (Jo 6,37) e afirmado o Apóstolo: Mas, por causa dos falsos irmãos intrusos, que furtivamente se introduziram entre nós para espionar a liberdade de que gozamos em Cristo Jesus, a fim de nos escravizar. Aos quais nem só uma hora quisemos estar sujeitos, para que permaneça entre vós a verdade do Evangelho (G1 2,4.5), é conveniente permitir o ingresso, mesmo por ser incerto o resultado; muitas vezes, tendo aproveitado por algum tempo, aceita de uma vez para sempre a nossa vida, como frequentemente aconteceu. Também serve para manifestação da disciplina que mantemos e que talvez se suspeite ser bem diferente. É necessário observar diante dele a disciplina mais rigorosa, para se manifestar a verdade e afastar qualquer suspeita de negligência. Assim, nós agradaremos a Deus e ele ou terá proveito ou será confundido.

 

INTERROGAÇÃO 98

Que atitude deve manter o superior quando ordena ou dispõe?

 

Resposta

Para com Deus, seja como servo de Cristo e dispensa- dor dos mistérios de Deus (cf. ICor 4,1), receando dizer ou instituir algo contra a vontade de Deus, atestada na Escritura, porque do contrário se apresentaria como testemunha falsa de Deus e sacrílego, introduzindo alguma coisa oposta ao ensinamento do Senhor, ou omitindo algo do que agrada a Deus. Para com os irmãos, qual mãe que com ternura cuida dos filhos (lTs 2,7),

desejosa de entregar a cada um, para aprazer a Deus, e em vista do bem de todos em comum, não só o evangelho de Deus, mas a própria vida, segundo o mandamento de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, que disse: Dou-vos um mandamento novo. Como eu

vos tenho amado, assim vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13,14). Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13).

 

 

INTERROGAÇÃO 99

Com que disposição deve alguém repreender?

 

Resposta

Para com Deus, tenha a mesma que teve Davi, quando disse: Vi os prevaricadores e consumia-me, porque eles não observam a vossa palavra (SI 118,158). Para com os repreendidos, tenha o ânimo de um pai e de um médico, que cura o filho com perícia, unindo a misericórdia à comiseração. Principalmente, se causar dor e o tratamento for penoso.

 

INTERROGAÇÃO 100

Como despediremos os mendigos de fora? Dar-lhes-á, quem o quiser, pão ou qualquer outra coisa? Ou deve haver um designado para tal fim?

 

Resposta

Como o Senhor afirmou não ser bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães, e contudo aprovou a palavra: Mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos (Mt 15,27), o encarregado de distribuir, após ter sido experimentado, faça-o. Todo aquele que o fizer fora deste parecer, seja repreendido como transgressor da disciplina, para que aprenda a manter-se em seu lugar, segundo a palavra do Apóstolo: Cada um, irmãos, permaneça na condição em que estava quando Deus o chamou (ICor 7,24).

 

INTERROGAÇÃO 101

Deverá o encarregado da dispensação das ofertas a Deus cumprir a palavra: Dá a todo o que te pedir e ao que te tomar o que é teu, não Iho reclames (Lc 6,30)?

 

Resposta

A palavra: Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado é uma espécie de prova, como o demonstra a sequência imediata; é um preceito em relação aos maus, a ser praticado, não por razão primária, mas em certas circunstâncias. Primário é aquele preceito do Senhor: Vende tudo o que tens e dá aos pobres (Lc 18,22), e ainda: Vendei o que possuís e dai esmolas (Lc 12,33). Se há perigo em transferir a uns o que é destinado a outros, uma vez que disse o Senhor: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15,24), e: Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos (Mt 15,26), como não julgará cada um, e por si mesmo, o que é justo?

 

INTERROGAÇÃO 102

Se convém, ou não, ser retido por exortações aquele que sai da comunidade dos irmãos por qualquer razão. Se é conveniente, sob que condições?

 

Resposta

Se o Senhor disse: O que vier a mim, não o lançarei fora (Jo 6,37), e: Não são os que estão bem os que precisam de médico, mas sim os doentes (Mt 9,12) e em outra parte: Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove e vai em busca da que se havia perdido, até encontrá-la (Mt 18,19). De todos os modos deve-se curar o enfermo e com zelo tratar do membro luxado, como se diz, para que volte ao lugar. Se perseverar em seu vício, seja qual for, deve ser despedido como um estranho. Está escrito: Toda a planta que meu Pai Celeste não plantou, será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos (Mt 15,13.14).

 

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