domingo, 19 de abril de 2026

309 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Interrogações 57 a 64

 


309

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Interrogações 57 a 64

 

INTERROGAÇÃO 57

            Se alguém tiver um mau costume, um vício, que não consegue mudar, mesmo depois de ser avisado muitas vezes, deve ser punido ou é melhor mandá-lo embora?

 

Resposta

            Já foi dito em outro lugar que os pecadores devem ser levados à mudança de vida pela paciência, seguindo o exemplo do Senhor. Se o castigo e a correção de muitos não forem suficientes para sua volta a Deus, como aconteceu com o homem de Corinto, que ele seja considerado um estranho à fé. Para ninguém é seguro manter perto de si aquele que foi julgado pelo Senhor, porque o Senhor disse (Mt 5,29.30) que é melhor alguém entrar no reino com um olho só, com uma só mão, ou tendo perdido um pé do que tentar salvar um deles e ser jogado inteiro no inferno, onde há choro e ranger de dentes. E o Apóstolo afirma que um pouco de fermento faz crescer toda a massa (Gl 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 58

            Se é julgado apenas quem mentiu de propósito ou se também aquele que, por não saber, afirmou com toda a certeza alguma coisa que não era verdade.

 

Resposta

            É claro que o julgamento do Senhor cai até sobre os que pecam por não saber, quando diz: Aquele que, sem conhecer a vontade de seu Senhor, fizer coisas erradas, será castigado com poucos golpes (Lc 12,48). Por isso, um arrependimento verdadeiro sempre traz uma esperança certa de perdão.

 

INTERROGAÇÃO 59

            Se alguém planejar uma coisa e não a fizer, será julgado como mentiroso?

 

Resposta

            Se aquilo que ele planejava fazer é obrigatório, não será apenas julgado como mentiroso, mas também como teimoso, porque Deus sonda os corações e os rins (SI 7,10).

 

INTERROGAÇÃO 60

            Se alguém teve a ideia de fazer algo que desagradasse a Deus, e decidiu fazê-lo, será melhor desistir do mau propósito ou cometer pecado, por receio de se desmentir?

 

Resposta

            Como diz o Apóstolo: Não que sejamos capazes, por nossa conta, de ter algum pensamento que venha de nós mesmos (2Cor 3,5). O próprio Senhor declara: Nada posso fazer por mim mesmo (Jo 5,19) e: As palavras que eu digo a vocês não as digo por minha própria conta (Jo 14,10). Em outro lugar, diz: Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38), o Pai.

            Portanto, a pessoa deve se arrepender, em primeiro lugar, porque se atreveu a decidir qualquer coisa sozinha, já que nem mesmo o bem deve ser feito por vontade própria. Em segundo lugar, e principalmente, porque não teve dúvida em decidir algo que vai contra o que agrada a Deus.

            Vemos claramente que devemos mudar de ideia quando uma decisão pensada vai contra a ordem do Senhor. Isso aparece no apóstolo Pedro, que decidiu: Nunca lavarás os meus pés (Jo 13,8.9). Mas, depois que o Senhor afirmou: Se eu não te lavar, você não terá parte comigo, ele logo mudou de opinião e disse: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça.

 

 

INTERROGAÇÃO 61

            Se alguém não pode trabalhar, nem quer aprender os salmos, que fazer dele?

 

Resposta

            O Senhor disse da figueira que não dava frutos na história: Corte-a; por que ela ainda ocupa o terreno sem serventia? (Lc 13,7). É preciso, então, tomar providências sobre essa pessoa com todo o cuidado; se ela não aceitar, deve-se fazer o que foi ordenado sobre aquele que continua no pecado. Pois quem não faz nada de bom será julgado junto com o diabo e seus anjos.

 

INTERROGAÇÃO 62

            Que é preciso que alguém faça para ser condenado por ocultar o talento?

 

Resposta

            Quem guarda qualquer tipo de graça de Deus, para aproveitar sozinho e não para ajudar os outros, é condenado por esconder o seu talento.

 

INTERROGAÇÃO 63

            Que é preciso que alguém faça para ser condenado como os murmuradores contra os últimos?

 

Resposta

            Cada qual é condenado por seu próprio pecado; os murmuradores por causa da murmuração. Vários são muitas

vezes os motivos por que murmuram. Uns dizem que lhes faltam alimentos, porque são gulosos e fazem do ventre o seu deus; outros, que só receberam honras iguais aos últimos, dando assim mostras de inveja, que é a companheira do homicídio; outros, enfim, por quaisquer outras razões.

 

INTERROGAÇÃO 64

            Como Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar (Mt 18,6), que é escandalizar? E como nos acautelaremos a fim de não sofrermos esta horrível condenação?

 

Resposta

            Alguém escandaliza quando transgride a lei, por palavra ou obra, induzindo a outros a transgredi-la, como a serpente a Eva e Eva a Adão; ou ainda quando impede a realização da vontade de Deus, como Pedro ao Senhor, dizendo: Que Deus não permita isso, Senhor (Mt 16,22), e ouviu: Afasta-te de mim, Satanás, tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! (ibid. 23), ou quando incita o ânimo de um fraco para alguma coisa proibida, segundo o que escreveu o Apóstolo, com as palavras: Se alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? (ICor 8,10) e acrescentou: Se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu irmão uma ocasião de queda (ibid. 13).

            O escândalo tem muitas causas. Ou provém de quem escandaliza, ou é da parte do escandalizado que se origina o escândalo. E ainda aqui há outras diferenças; algumas vezes vem da malícia, outras da inexperiência deste ou daquele.

            Por vezes, numa conversa sincera, evidencia-se a maldade dos que se escandalizam; assim como nas ações.

            Se alguém, pois, pratica o mandamento de Deus, ou usa livremente do que está em seu poder, escandaliza-se quem se escandalizar. Quando, porém, os homens se ofendem e se escandalizam com o que é feito ou dito de acordo com o mandamento (como no Evangelho alguns, acerca do que o Senhor fazia ou dizia, segundo a vontade do Pai), então é bom lembrar-se de que o Senhor, quando se aproximaram os discípulos e disseram-lhe: Sabes que os fariseus se escandalizaram destas palavras que ouviram? respondeu-lhes: Toda a planta que meu Pai celeste não plantou, será arrancada pela raiz. Deixai-os; são cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala (Mt 15,12-14). Muitas coisas semelhantes encontram- se nos Evangelhos e foram ditas pelo Apóstolo.

            Quando, porém, alguém se ofende ou se escandaliza por coisas que estão em nosso poder, devem então vir à lembrança as palavras do Senhor a Pedro: Os filhos, então, estão isentos. Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar e lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares, abrirás a boca e encontrarás um estáter. Toma-o e dá-o por mim e por ti (Mt 17,25.26); e também estas palavras que o Apóstolo escreveu aos coríntios: Jamais comerei carne, para não escandalizar o meu irmão (ICor 8,13), e ainda: Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem outra coisa que para teu irmão possa ser uma ocasião de queda (Rm 14,21), de escândalo, de fraqueza. O preceito do Senhor mostra quão terrível é, no que parece estar em nosso poder, desprezar o irmão, que por isto se escandaliza; proíbe completamente qualquer espécie de escândalo, dizendo: Guar- ãai-vos de menosprezar um só destes pequenos! Porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus (Mt 18,10).

            O Apóstolo também o atesta, dizendo: Cuidai em não pôr um tropeço diante de vosso irmão ou dar-lhe uma ocasião de queda (Rm 14,13); ou reprime com maior veemência e palavras mais abundantes este absurdo, dizendo: Se alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? Assim a tua consciência fará cair o fraco, um irmão pelo qual morreu Cristo (ICor 8,10.11). E acrescentou: Assim, pecando vós contra os irmãos e ferindo a sua débil consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu irmão uma ocasião de queda (ibid. 12.13). Em outro lugar diz: Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar o trabalho? (ICor 9,6), e acrescenta a seguir: Não temos feito uso deste direito; sofremos tudo para não pôr algum obstáculo ao Evangelho de Cristo (ibid. 12).

            Se foi demonstrado como é terrível nas coisas que dependem de nós escandalizar um irmão, que dizer dos que escandalizam fazendo ou falando coisas proibidas? Principalmente, quando o que dá escândalo parece ter uma ciência mais vasta ou está estabelecido num grau sacerdotal. Deverá então estar à frente dos outros como regra e modelo; se negligenciar o mínimo que seja do que está escrito ou fizer uma coisa proibida, ou omitir algum preceito, ou, em resumo, deixar passar em silêncio quaisquer coisas destas, é o bastante para ser severamente julgado, de modo que do sangue do que pecou, como foi dito, ser-lhe-á pedida conta (Ez 3,18).

 

1.      O que você destaca no texto?

2.      Como serve para sua vida espiritual?

3.      O que você destaca na fala do seu irmão?

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Liberdade do Claustro: O Resgate Evangélico da Vida Monástica


A Liberdade do Claustro: O Resgate Evangélico da Vida Monástica

Por: Irmão Rev. Edson - Mosteiro Terra Santa — OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores

Para muitos, a Reforma Protestante do século XVI é vista erroneamente como o fim da vida monástica. No entanto, para nós que caminhamos sob a égide da **OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores**, a história revela uma verdade mais profunda: a Reforma não destruiu o mosteiro; ela o libertou para ser, verdadeiramente, um lugar de proclamação do Evangelho e intercessão pura.
Para compreendermos nossa identidade como eremitas de vocação protestante, devemos olhar para dois marcos fundamentais que fundamentam nossa prática no **Mosteiro Terra Santa**: o tratado de Martinho Lutero de 1521 e o Artigo XXVII da Confissão de Augsburgo.

1. 1521: O Grito de Liberdade de Wartburg
Enquanto estava refugiado no Castelo de Wartburg, Lutero escreveu *De Votis Monasticis* (Sobre os Votos Monásticos). Sua intenção não era abolir a vida comunitária, mas atacar a teologia que transformava o voto em uma "segunda salvação".
Lutero argumentou que o valor de um cristão não reside no seu estado de vida, mas na sua fé em Cristo. Para ele, o mosteiro deveria ser uma **escola de caridade**. A clausura não pode ser uma corrente que aprisiona a consciência, mas um espaço voluntário onde o cristão se retira para **orar**, estudar e exercer o ministério da intercessão. No **Mosteiro Terra Santa**, vivemos essa liberdade: estamos aqui não para "comprar" a salvação, mas porque a gratidão pela Graça nos impele a uma vida de entrega total.

2. A Confissão de Augsburgo e o Equilíbrio Teológico
O Artigo XXVII da nossa Confissão de Fé (1530) é um documento de equilíbrio precioso para a **OESI**. Ele corrige o erro de elevar os votos monásticos acima do Batismo, lembrando-nos que:

 * **A Glória de Cristo é Central:** Nenhum esforço humano, nem mesmo o mais rigoroso silêncio eremítico, pode substituir o sacrifício de Jesus na Cruz.

 * **A Vocação é para o Serviço:**
 A vida monástica é uma ferramenta específica dentro do sacerdócio universal de todos os crentes.

 3. A Vida Monástica na OESI: O Modelo de Ji-Paraná
Qual é, então, o papel do eremita intercessor hoje? Baseados nestes textos, defendemos uma vida monástica que:

 1. Exalte a Justificação pela Fé:
 O mosteiro é o lugar onde reconhecemos diariamente nossa necessidade de **arrependimento** e da graça divina.

 2. Seja um Centro de Intercessão:
 Como membros da **OESI**, nossa reclusão serve para sustentar a Igreja invisível através da oração contínua, agindo como sentinelas espirituais.

 3. Integre a Espiritualidade Cristã:
 Unimos a disciplina contemplativa ao rigor teológico reformado e metodista, focando naquilo que é essencial para a saúde da alma.
Ao lado da Irmã Marisa, reafirmamos que o **Mosteiro Terra Santa — OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores** é uma célula de resistência espiritual. Não fugimos do mundo; nos retiramos dele para, sob a luz da *Theologia Crucis*, enxergar melhor as dores da humanidade e apresentá-las ao Pai através da intercessão.
Que nossa vida seja um "Aleluia" constante, fundamentado não em nossos esforços, mas na promessa inabalável Daquele que ressuscitou por nós.

Paz e Bem.

**Referências Acadêmicas:**
 * LUTERO, Martinho. *Sobre os Votos Monásticos* (1521).
 * *Confissão de Augsburgo*, Artigo XXVII: "Dos Votos Monásticos".
 * MELANCHTHON, Filipe. *Apologia da Confissão de Augsburgo*.

A Defesa Protestante do Monasticismo


Frequentemente, o pensamento de Martinho Lutero sobre os mosteiros é reduzido à sua crítica feroz em *De votis monasticis* (1521). No entanto, um olhar acadêmico e devocional mais atento revela que o Reformador não desejava a extinção da vida comunitária dedicada à oração, mas a sua **reforma evangélica**. Para Lutero, o mosteiro não deveria ser uma "prisão de méritos", mas uma "escola de caridade e liberdade".

1. O Mosteiro como Escola de Instrução e Oração
Lutero reconhecia que, historicamente, os mosteiros foram centros de preservação da Palavra e formação de líderes. Em seus escritos, ele elogiou o modelo original onde homens e mulheres se reuniam para aprender as Escrituras e **orar**.
A defesa protestante da vida monástica reside aqui: o Mosteiro Terra Santa não existe para que seus membros sejam "mais santos" que o cristão que trabalha no campo, mas para que, no recolhimento, a Palavra seja estudada e a intercessão seja exercida em favor de todo o Corpo de Cristo. É uma vocação de serviço, não de status.

2. A Liberdade em vez da Coerção
O equilíbrio protestante de Lutero exige que a vida monástica seja vivida em **liberdade**. Para ele, o voto não deveria ser uma corrente que escraviza a consciência, mas uma disciplina voluntária.
No contexto da OESI, vivemos essa liberdade quando entendemos que nossa reclusão em Ji-Paraná é uma resposta de amor à Graça recebida, e não uma tentativa de alcançá-la. O eremita protestante não foge do mundo por medo do pecado, mas se retira para combater o bom combate da **oração** com maior foco, fundamentado na *Sola Fide*.

3. A Vida Comum e o "Arrependimento" Diário
Lutero defendia que o verdadeiro "mosteiro" é o mundo, onde exercemos nossa vocação. Contudo, ele via valor em comunidades que mantinham a disciplina beneditina e o espírito franciscano de despojamento, desde que estas promovessem o **arrependimento** evangélico.
Uma vida monástica equilibrada é aquela que:
 * **Exalta a Cruz:** O mosteiro é o lugar onde morremos para o nosso "eu" soberbo para que Cristo viva em nós.
 * **Pratica o Sacerdócio Universal:** O monge é um servo entre servos, cuja função litúrgica é sustentar os braços daqueles que estão nas frentes de batalha da vida secular.

Conclusão: Um Lugar de Refúgio para a Palavra

Defender a vida monástica hoje, à luz de Lutero, é afirmar que o silêncio, o estudo e a intercessão são dons de Deus para a Igreja. Ao lado da Irmã Marisa e sob a égide da OESI, o Mosteiro Terra Santa se torna um testemunho de que é possível viver a radicalidade do Evangelho sem cair na armadilha da autojustificação.
Como o próprio Lutero afirmou em seus sermões, se o mosteiro for um lugar onde se ensina puramente o Evangelho, ele se torna o lugar mais precioso da terra. Que nossa vocação seja, portanto, a de sermos guardiões dessa pureza, orando sem cessar e vivendo na alegria da ressurreição.

 *"Que as escolas e os mosteiros permaneçam, para que se ensine a Bíblia e se formem pessoas que possam governar bem as igrejas e os Estados."* 
(Martinho Lutero, adaptação de suas propostas de reforma educacional e eclesiástica).

Referências de Apoio:
 * LUTERO, Martinho. *Sobre os Votos Monásticos* (1521).
 * LOHSE, Bernhard. *A Teologia de Martinho Lutero*.
 * *Confissão de Augsburgo*, Artigo XXVII (Dos Votos Monásticos — para o contraponto e equilíbrio).




terça-feira, 7 de abril de 2026

308 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 48-56

 

Isaac, Kris, Demétrius, Genisson, Nathalie, Silvia, Edson e Marisa.



308

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Interrogações 48-56

 

INTERROGAÇÃO 48 – Como se define a avareza?

 

Resposta

Consiste em transgredir os limites da lei. De acordo com o Antigo Testamento isto se dá quando alguém cuida mais de si do que do próximo, porque está escrito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Segundo o Evangelho, está em se buscar para si mais do que o necessário ao dia de hoje, como aquele que ouviu a palavra: Insensato! nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas que ajuntaste, de quem serão? (Lc 12,20). A isto acrescenta, de modo geral: Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico

para Deus (ibid. 21).

 

INTERROGAÇÃO 49 - Que é agir com leviandade?

 

Resposta

A acusação de agir com leviandade recai sobre tudo aquilo que não se toma por necessidade e sim para adorno.

 

INTERROGAÇÃO 50 - Se alguém rejeita vestes mais preciosas, mas quer para si coisa vulgar, um manto ou um calçado que lhe fique bem, peca? Ou de que mal sofre?

 

Resposta

Todo aquele que, para agradar aos homens, procurar uma veste que lhe fique bem, sofre do mal de querer aprazer aos homens, e se afasta de Deus. Possui o vício de ostentação, mesmo nas coisas vis.

 

INTERROGAÇÃO 51 - Que é raca? (Mt 5,32).

 

Resposta

É uma expressão regional que significa um insulto mais leve, usado para com os familiares.

(aramaico = sig. Tolo, cabeça-dura, imbecil ou desprezível. Insulto comum no primeiro século. Relacionado ao termo hebraico Rekim – Juízes 11.3 “homens sem valor).

 

INTERROGAÇÃO 52 - O Apóstolo ora diz: Não sejamos ávidos de vangloria; ora: sem servilismo, como para vos fazerdes bem vistos (Ef 6,6). Quem é ávido da vangloria e quem é que busca o beneplácito dos homens?

 

Resposta

Julgo que é ávido de vanglória quem faz ou diz alguma coisa tendo em vista uma frágil glória mundana, da parte de espectadores ou de ouvintes. Busca o beneplácito dos homens, quem faz alguma coisa, até mesmo ignominiosa, conforme o arbítrio de outrem e no fito de lhe agradar.

 

INTERROGAÇÃO 53 - Que é mancha da carne e nódoa do espírito e como delas nos manteremos puros ou que é a santidade e como a alcançaremos?

 

Resposta

Mancha da carne é juntar-se àqueles que cometem o que é proibido; nódoa do espírito, porém, é mostrar-se indiferente para com os que assim pensam, ou agem. Mantém-se puro quem obedece ao Apóstolo que dia (ICor 5,11) nem mesmo se dever tomar alimento com tal homem e com quantos se lhe assemelham; ou quando sente em si o que disse Davi: Revolto-me à vista dos pecadores, que abandonam a vossa lei (SI 118,53) e demonstra ter a tristeza de que ficaram possuídos os coríntios, quando acusados de indiferença diante do pecador (2Cor 7,11), e na verdade mostraram-se totalmente puros naquela questão. A santidade, porém, é unir-se ao Deus santo, integralmente, sem cessar, em todo o tempo, com diligência e solicitude pelas coisas que lhe agradam. Pois coisa mutilada não é aceita como dom sagrado e o que foi uma vez dedicado a Deus, seria ímpio e intolerável reduzi-lo a um uso comum e humano.

 

INTERROGAÇÃO 54 - Que é o egoísmo e como se conhecerá o egoísta?

 

Resposta

Muitas coisas são impropriamente ditas, como, por exemplo, a palavra: Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna (Jo 12,25). Egoísta é evidentemente quem se ama a si mesmo. Reconhece-se a si mesmo como tal, se age por causa de si mesmo, ainda quando de acordo com os mandamentos. Se, por comodidade, omitir qualquer coisa de útil a um irmão, em relação à alma ou ao corpo, manifesta-se até aos outros que está com o vício do egoísmo, cujo fim é a perdição.

 

INTERROGAÇÃO 55 - Qual a diferença entre amargura, furor, ira e exasperação?

 

Resposta

A diferença entre furor e ira consiste no sentimento e no impulso. Às vezes, quem se irrita perturba-se só pelo

sentimento, conforme indica aquele que disse: Tremei, pois, e não pequeis mais; o furor (furioso) vai mais longe, pois: Semelhante ao das serpentes é o seu veneno (SI 57,5), e: Estava Herodes em conflito com os habitantes de Tiro e de Sidônia (At 12,20). Uma comoção mais veemente de furor chama-se exasperação. Amargura demonstra mais terrível duração do mal.

 

INTERROGAÇÃO 56 - Tendo proferido o Senhor que: Todo o que se exalta será humilhado (Lc 18,44), e como preceituou o Apóstolo: Não te ensoberbeças (Rm 11,20), e em outro lugar: Arrogantes, soberbos, altivos (2Tm 3,2), e de novo: A caridade não se ensoberbece (Icor 13,4). Quem é que se ensoberbece, quem é o arrogante, é quem o orgulhoso, é quem o presunçoso, quem o inchado?

 

Resposta

Ensoberbece-se quem se gloria, tem alto conceito de si mesmo por causa das boas obras, exalta-se como aquele fariseu (Lc 18,11) e não se abaixa às coisas humildes. Merece igualmente o nome de soberbo, como foram acusados os coríntios. Arrogante é quem não anda de acordo com as normas, nem procura seguir a mesma regra e o mesmo modo de pensar, mas traça o próprio caminho de justiça e de piedade. Orgulhoso é quem se jacta do que possui e procura parecer mais do que é. Presunçoso talvez seja idêntico a orgulhoso, ou pouco difere, segundo o dito do Apóstolo: É um homem orgulhoso, um ignorante (lTm 6,4).

 

1.      O que você destaca no texto?

2.      Como serve para sua vida espiritual?

3.      O que você destaca na fala do seu irmão?

sábado, 28 de março de 2026

307 - Sermão de Santo Agostinho sobre a Páscoa - “SOBRE A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, SEGUNDO SÃO MARCOS”

 

Marleide, Isaac, Kris, Edmar, Genisson, Demétrius, Luiz Daniel, Edson



307

Sermão de Santo Agostinho sobre a Páscoa

“SOBRE A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, SEGUNDO SÃO MARCOS”

Santo Agostinho (*350 - †430) - Bispo de Hipona

 

1.      A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo Evangelho.

2.      Na leitura de hoje ouvimos Jesus Cristo censurando os discípulos, primeiros membros seus, companheiros seus porque não criam estar vivo aquele mesmo por cuja morte choravam.

3.      Pais da fé, mas ainda não fiéis; mestres - e a terra inteira haveria de crer no que pregariam, pelo que, aliás, morreriam - mas ainda não criam.

4.      Não acreditavam ter ressuscitado aquele que haviam visto ressuscitando os mortos. Com razão, censurados: ficavam patenteados a si mesmos, para saberem o que seriam por si mesmos os que muito seriam graças a ele.

5.      E foi deste modo que Pedro se mostrou quem era: quando iminente a Paixão do Senhor, muito presumiu; chegada a Paixão, titubeou. Mas caiu em si, condoeu-se, chorou, convertendo-se a seu Criador.

6.      Eis quem eram os que ainda não criam, apesar de já verem. Grande, pois, foi a honra a nós concedida por aquele que permitiu crêssemos no que não vemos! Nós cremos pelas palavras deles, ao passo que eles não criam em seus próprios olhos.

7.      A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é a vida nova dos que creem em Jesus, e este é o mistério da sua Paixão e Ressurreição, que muito devíeis conhecer e celebrar.

8.      Porque não sem motivo desceu a Vida até a morte. Não foi sem motivo que a fonte da vida, de onde se bebe para viver, bebeu desse cálice que não lhe convinha. Por que a Cristo não convinha a morte.

9.      De onde veio a morte? Vamos investigar a origem da morte. O pai da morte é o pecado. Se nunca houvesse pecado ninguém morreria. O primeiro homem recebeu a lei de Deus, isto é, um preceito de Deus, com a condição de que se o observasse viveria e se o violasse morreria. Não crendo que morreria, fez o que o faria morrer; e verificou a verdade do que dissera quem lhe dera a lei.

10.  Desde então, a morte. Desde então, ainda, a segunda morte, após a primeira, isto é, após a morte temporal a eterna morte. Sujeito a essa condição de morte, a essas leis do inferno, nasce todo homem; mas por causa desse mesmo homem, Deus se fez homem, para que não perecesse o homem. Não veio, pois, ligado às leis da morte, e por isso diz o Salmo: “Livre entre os mortos” [Sl 87].

11.  Concebeu-o, sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu. Ele viveu sem culpa, não morreu por motivo de culpa, comungava conosco no castigo mas não na culpa. O castigo da culpa é a morte.

12.  Nosso Senhor Jesus Cristo veio morrer, mas não veio pecar; comungando conosco no castigo sem a culpa, aboliu tanto a culpa como a castigo.

13.  Que castigo aboliu? O que nos cabia após esta vida. Foi assim crucificado para mostrar na cruz o fim do nosso homem velho; e ressuscitou, para mostrar em sua vida, como é a nossa vida nova. Ensina-o o Apóstolo: “Foi entregue por causa dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação” [Rm 4,25].

14.  Como sinal disto, fora dada outrora a circuncisão aos patriarcas: no oitavo dia todo indivíduo do sexo masculino devia ser circuncidado. A circuncisão fazia-se com cutelos de pedra: porque Cristo era a pedra. Nessa circuncisão significava-se a espoliação da vida carnal a ser realizada no oitavo dia pela Ressurreição de Cristo.

15.  Pois o sétimo dia da semana é o sábado; no sábado o Senhor jazia no sepulcro, sétimo dia da semana. Ressuscitou no oitavo. A sua Ressurreição nos renova. Eis por que, ressuscitando no oitavo dia, nos circuncidou.

16.  É nessa esperança que vivemos. Ouçamos o Apóstolo dizer. “Se ressuscitasses com Cristo...” [Cl 3,1] Como ressuscitamos, se ainda morremos? Que quer dizer o Apóstolo: “Se ressuscitasses com Cristo?” Acaso ressuscitariam os que não tivessem antes morrido? Mas falava aos vivos, aos que ainda não morreram ... os quais, contudo, ressuscitaram: que quer dizer?

17.  Vede o que ele afirma: “Se ressuscitasses com Cristo, procurai as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que está sobre a terra. Porque estais mortos!”

18.  É o próprio Apóstolo quem está falando, não eu. Ora, ele diz a verdade, e, portanto, digo-a também eu... E por que também a digo? “Acreditei e por causa disto falei” [Sl 115].

19.  Se vivemos bem, é que morremos e ressuscitamos. Quem, porém, ainda não morreu, também não ressuscitou, vive mal ainda; e se vive mal, não vive: morra para que não morra. Que quer dizer: morra para que não morra? Converta-se, para não ser condenado.

20.  “Se ressuscitasses com Cristo”, repito as palavras do Apóstolo, “procurai o que é do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que é da terra. Pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também aparecereis com ele na glória”. São palavras do Apóstolo.

21.  A quem ainda não morreu, digo-lhe que morra; a quem ainda vive mal, digo-lhe que se converta. Se vivia mal, mas já não vive assim, morreu; se vive bem, ressuscitou.

22.  Mas, que é viver bem? Saborear o que está no alto, não o que sobre a terra. Até quando és terra e à terra tornarás? Até quando lambes a terra? Lambes a terra, amando-a, e te tornas inimigo daquele de quem diz o Salmo: “os inimigos dele lamberão a terra” [Sl 79,9].

23.  Que éreis vós? Filhos de homens. Que sois vós? Filhos de Deus. Ó filhos dos homens, até quando tereis o coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a mentira? Que mentira buscais? O mundo.

24.  Quereis ser felizes, sei disto. Dai-me um homem que seja ladrão, criminoso, fornicador, malfeitor, sacrílego, manchado por todos os vícios, soterrado por todas as torpezas e maldades, mas não queira ser feliz.

25.  Sei que todos vós quereis viver felizes, mas o que faz o homem viver feliz, isso não quereis procurar.

26.  Tu, aqui, buscas o ouro, pensando que com o ouro serás feliz; mas o ouro não te faz feliz. Por que buscas a ilusão? E com tudo o que aqui procuras, quando procuras mundanamente, quando o fazes amando a terra, quando o fazes lambendo a terra, sempre visas isto: ser feliz. Ora, coisa alguma da terra te faz feliz.

27.  Por que não cessas de buscar a mentira? Como, pois, haverás de ser feliz? “Ó filhos dos homens, até quando sereis pesados de coração, vós que onerais com as coisas da terra o vosso coração?” [Sl 4,3] Até quando foram os homens pesados de coração? Foram-no antes da vinda de Cristo, antes que ressuscitasse o Cristo. Até quando tereis o coração pesado? E por que amais a vaidade e procurais a mentira?

28.  Querendo tornar-vos felizes, procurais as coisas que vos tornam míseros! Engana-vos o que descaiais, é ilusão o que buscais.

29.  Queres ser feliz? Mostro-te, se te agrada, como o serás. Continuemos ali adiante (no versículo do Salmo): “Até quando sereis pesados de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” “Sabei” - o quê? – “que o Senhor engrandeceu o seu Santo” [Sl 4,3].

30.  O Cristo veio até nossas misérias, sentiu a fone, a sede, a fadiga, dormiu, realizou coisas admiráveis, padeceu duras coisas, foi flagelado, coroado de espinhos, coberto de escarros, esbofeteado, pregado no lenho, traspassado pela lança, posto no sepulcro; mas no terceiro dia ressurgiu, acabando-se o sofrimento, morrendo a morte.

31.  Eia, tende lá os vossos olhos na ressurreição de Cristo; porque tanto quis o Pai engrandecer o seu Santo, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a honra de se assentar no Céu à sua direita.

32.  Mostrou-te o que deves saborear se queres ser feliz, pois aqui não o poderás ser. Nesta vida não podes ser feliz, ninguém o pode.

33.  Boa coisa a que desejas, mas não nesta terra se encontra o que desejas. Que desejas? A vida bem-aventurada. Mas aqui não reside ela.

34.  Se procurasses ouro num lugar onde não houvesse, alguém, sabendo da sua não existência, haveria de te dizer: “Por que estás a cavar? Que pedes à terra? Fazes uma fossa na qual hás de apenas descer, na qual nada encontrarás!” Que responderias a tal conselheiro? “Procuro ouro”. Ele te diria: “Não nego que exista o que descias, mas não existe onde o procuras”.

 

35.  Assim também, quando dizes: “Quero ser feliz”. Boa coisa queres, mas aqui não se encontra. Se aqui a tivesse tido o Cristo, igualmente a teria eu. Vê o que ele encontrou nesta região da tua morte: vindo de outros paramos, que achou aqui senão o que existe em abundância? Sofrimentos, dores, morte. Comeu contigo do que havia na cela de tua miséria. Aqui bebeu vinagre, aqui teve fel. Eis o que encontrou em tua morada.

36.  Contudo, convidou-te à sua grande mesa, à mesa do Céu, à mesa dos anjos, onde ele é o pão. Descendo até cá, e tantos males recebendo de tua cela, não só não rejeitou a tua mesa, mas prometeu-te a sua.

37.  E que nos diz ele? “Crede, crede que chegareis aos bens da minha mesa, pois não recusei os males da vossa”.

38.  Tirou-te o mal e não te dará o seu bem? Sim, da-lo-á. Prometeu-nos sua vida, mas é ainda mais incrível o que fez: ofereceu-nos a sua morte.

39.  Como se dissesse: “À minha mesa vos convido. Nela ninguém morre, nela está a vida verdadeiramente feliz, nela o alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba. Eia para onde vos convido, para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a ceia eterna, para a fraternidade comigo; enfim, a mim mesmo, à minha vida eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a minha vida? Retende, como penhor a minha morte”.

40.  Agora, pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível, morramos com Cristo pela conversão dos costumes, vivamos com Cristo pelo amor da justiça. Não haveremos de receber a vida bem-aventurada senão quando chegarmos àquele que veio até nós, e quando começarmos a viver com aquele que por nós morreu.