sábado, 9 de maio de 2026

312 312 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 91 a 101


312

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 91 a 101

 

INTERROGAÇÃO 91

Se a um irmão, que nada possui de próprio, for pedido aquilo que usa, o que fazer, principalmente se estiver nu o pedinte?

 

Resposta

Esteja nu, seja mau, peça por necessidade ou por avareza, já foi dito uma vez que dar ou receber não é tarefa de todos e sim daquele a quem, depois de experimentado, for confiada esta distribuição. Observe-se o dito: Cada um permaneça na condição em que foi chamado por Deus (ICor 7,24).

 

INTERROGAÇÃO 92

O Senhor ordenou vender as propriedades. Por que faze-lo? Será porque os bens prejudicam por natureza, ou por causa da dispersão do espírito que deles costuma provir?

 

Resposta

Primeiro pode-se afirmar que, se as riquezas fossem más em si mesmas, não teriam sido criadas por Deus. Pois Toda a criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado (lTm 4,4). A seguir, que o mandamento do Senhor não ensina a rejeitá-las como más ou a fugir delas, mas a administrá-las. Não se condena simplesmente quem as possui, porém quem pensa errado a seu respeito ou as emprega mal. Uma disposição de ânimo livre e sã em relação a elas e a sua distribuição, segundo o mandamento, serve-nos muito e em pontos bem necessários. Às vezes, para a purificação de nossos pecados, conforme está escrito: Dai antes em esmola o conteúdo e todas as coisas vos serão limpas (Lc 11,41); outras, para a herança do reino dos céus e posse de um tesouro indefectível, segundo outra passagem: Não temas, pequenino rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai esmolas; fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro inesgotável nos céus (Lc 12,32.33).

 

INTERROGAÇÃO 93

Com que espírito aquele que renunciou já a seus bens e prometeu nada ter de próprio, deve usar do necessário para viver, como a roupa e o alimento?

 

Resposta

Lembre-se conforme está escrito (SI 135,25) de que Deus é quem dá o alimento a toda carne. Contudo, precisa ter cuidado, como operário de Deus, de ser digno de receber seu alimento, o qual não esteja a seu arbítrio, mas seja distribuído pelo encarregado, em tempo e medida oportunos, segundo está escrito: Repartia-se, então, a cada um deles conforme

a sua necessidade (At 4,35).

 

INTERROGAÇÃO 94

Se alguém, tendo impostos a pagar, entrar na comunidade, e seus parentes forem importunados pelos cobradores, há motivo de dúvida ou de prejuízo para ele, ou para os que o receberam?

 

Resposta

Nosso Senhor Jesus Cristo, aos que lhe perguntavam se era lícito dar o tributo a César ou não, disse: Mostrai-me um denário. De quem leva a imagem e a inscrição? Responderam: De César! Então lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Lc 20,22-24). Daí se evidencia estarem sujeitos às ordens de César aqueles que retêm o que pertence a César. Se aquele que entrou na comunidade trouxe consigo algo que pertence a César, deve pagar o imposto. Se, ao partir, deixou tudo para os seus, não há dúvida; nem para ele, nem para os que o receberam.

 

 

INTERROGAÇÃO 95

Se convém aos recém-vindos aprender imediatamente as palavras das Escrituras.

 

Resposta

Também esta questão seja entendida pelo que se disse acima. É conveniente e indispensável que cada um aprenda aquilo de que necessita das Escrituras divinas, para ter uma piedade convicta e não se habituar a tradições humanas.

 

INTERROGAÇÃO 96

Se convém permitir a quem quiser aprender as letras ou entregar-se a leituras.

 

Resposta

Se o Apóstolo diz: Para que não façais o que quereríeis (G1 5,17), em qualquer questão é pernicioso permitir uma escolha por vontade própria. Deve-se, porém, aceitar tudo o que os superiores aprovarem, mesmo contra a própria vontade. Além disso, incriminasse-lhe incredulidade, pois diz o Senhor: Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do homem (Lc 12,40). É evidente que se propõe um longo tempo de vida.

 

INTERROGAÇÃO 97

Se alguém disser: Quero por pouco tempo aproveitar-me de vossa  companhia, deve ser recebido?

 

Resposta

Tendo dito o Senhor: O que vier a mim, não o lançarei fora (Jo 6,37) e afirmado o Apóstolo: Mas, por causa dos falsos irmãos intrusos, que furtivamente se introduziram entre nós para espionar a liberdade de que gozamos em Cristo Jesus, a fim de nos escravizar. Aos quais nem só uma hora quisemos estar sujeitos, para que permaneça entre vós a verdade do Evangelho (G1 2,4.5), é conveniente permitir o ingresso, mesmo por ser incerto o resultado; muitas vezes, tendo aproveitado por algum tempo, aceita de uma vez para sempre a nossa vida, como frequentemente aconteceu. Também serve para manifestação da disciplina que mantemos e que talvez se suspeite ser bem diferente. É necessário observar diante dele a disciplina mais rigorosa, para se manifestar a verdade e afastar qualquer suspeita de negligência. Assim, nós agradaremos a Deus e ele ou terá proveito ou será confundido.

 

INTERROGAÇÃO 98

Que atitude deve manter o superior quando ordena ou dispõe?

 

Resposta

Para com Deus, seja como servo de Cristo e dispensa- dor dos mistérios de Deus (cf. ICor 4,1), receando dizer ou instituir algo contra a vontade de Deus, atestada na Escritura, porque do contrário se apresentaria como testemunha falsa de Deus e sacrílego, introduzindo alguma coisa oposta ao ensinamento do Senhor, ou omitindo algo do que agrada a Deus. Para com os irmãos, qual mãe que com ternura cuida dos filhos (lTs 2,7),

desejosa de entregar a cada um, para aprazer a Deus, e em vista do bem de todos em comum, não só o evangelho de Deus, mas a própria vida, segundo o mandamento de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, que disse: Dou-vos um mandamento novo. Como eu

vos tenho amado, assim vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13,14). Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13).

 

 

INTERROGAÇÃO 99

Com que disposição deve alguém repreender?

 

Resposta

Para com Deus, tenha a mesma que teve Davi, quando disse: Vi os prevaricadores e consumia-me, porque eles não observam a vossa palavra (SI 118,158). Para com os repreendidos, tenha o ânimo de um pai e de um médico, que cura o filho com perícia, unindo a misericórdia à comiseração. Principalmente, se causar dor e o tratamento for penoso.

 

INTERROGAÇÃO 100

Como despediremos os mendigos de fora? Dar-lhes-á, quem o quiser, pão ou qualquer outra coisa? Ou deve haver um designado para tal fim?

 

Resposta

Como o Senhor afirmou não ser bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães, e contudo aprovou a palavra: Mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos (Mt 15,27), o encarregado de distribuir, após ter sido experimentado, faça-o. Todo aquele que o fizer fora deste parecer, seja repreendido como transgressor da disciplina, para que aprenda a manter-se em seu lugar, segundo a palavra do Apóstolo: Cada um, irmãos, permaneça na condição em que estava quando Deus o chamou (ICor 7,24).

 

INTERROGAÇÃO 101

Deverá o encarregado da dispensação das ofertas a Deus cumprir a palavra: Dá a todo o que te pedir e ao que te tomar o que é teu, não Iho reclames (Lc 6,30)?

 

Resposta

A palavra: Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado é uma espécie de prova, como o demonstra a sequência imediata; é um preceito em relação aos maus, a ser praticado, não por razão primária, mas em certas circunstâncias. Primário é aquele preceito do Senhor: Vende tudo o que tens e dá aos pobres (Lc 18,22), e ainda: Vendei o que possuís e dai esmolas (Lc 12,33). Se há perigo em transferir a uns o que é destinado a outros, uma vez que disse o Senhor: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15,24), e: Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos (Mt 15,26), como não julgará cada um, e por si mesmo, o que é justo?

 

INTERROGAÇÃO 102

Se convém, ou não, ser retido por exortações aquele que sai da comunidade dos irmãos por qualquer razão. Se é conveniente, sob que condições?

 

Resposta

Se o Senhor disse: O que vier a mim, não o lançarei fora (Jo 6,37), e: Não são os que estão bem os que precisam de médico, mas sim os doentes (Mt 9,12) e em outra parte: Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove e vai em busca da que se havia perdido, até encontrá-la (Mt 18,19). De todos os modos deve-se curar o enfermo e com zelo tratar do membro luxado, como se diz, para que volte ao lugar. Se perseverar em seu vício, seja qual for, deve ser despedido como um estranho. Está escrito: Toda a planta que meu Pai Celeste não plantou, será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos (Mt 15,13.14).

 

O que você destaca no texto?

Como serve para a sua espiritualidade?

 

 

 


sábado, 2 de maio de 2026

311 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 81 a 90

 


311

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 81 a 90

 

INTERROGAÇÃO 81

Se devem de igual modo ser repreendidos os piedosos e os indiferentes, quando ambos forem surpreendidos no mesmo pecado.

 Resposta

Se considerarmos a disposição do pecador e o modo do pecado, saberemos também como repreender. Embora pareça idêntico o pecado do indiferente e o do piedoso, há entre eles

enorme diferença. O piedoso, por ser piedoso, luta e simultaneamente se esforça por agradar a Deus e devido às circunstâncias, e quase involuntariamente, resvala e cai; o indiferente não faz caso nem de si nem de Deus e não vê diferença entre pecar e proceder bem, como o demonstra o próprio nome, e sofre dos principais e maiores males; isto é, despreza a Deus ou não crê que Deus existe. São as duas causas pelas quais a alma peca, como testemunha a Escritura ao dizer: O injusto disse em si mesmo que queria pecar; não existe o temor de Deus ante os seus olhos (SI 35,1) ou: Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, sua conduta é abominável (SI 13,1). Portanto, ou despreza e por isto peca, ou nega que Deus existe e por esta razão corrompe-se quanto aos costumes embora pareça confessar. Diz-se: Pretendem conhecer

a Deus, e renegam-no pelas obras (Tt 1,16). Sendo assim, também o respectivo modo de repreender, a meu ver, deve diferir. O piedoso necessita de uma espécie de aplicação local e deve sofrer a repreensão a respeito do ponto em que resvalou. O indiferente, porém, tendo o bem da alma completamente corrompido, e estando atacado de males mais gerais, deve ser lamentado, admoestado e repreendido ou como desprezador, conforme já disse, ou como incrédulo, até que se persuada de ser Deus um juiz justo e o tema; ou fique absolutamente convicto da existência de Deus e encha-se de susto. É bom saber também que, muitas vezes, os piedosos pecam por dispensação divina, para seu bem: Deus permite, por vezes, que caiam para curar a soberba anterior, à semelhança do que foi predito a Pedro e, de fato, lhe sucedeu.

 

INTERROGAÇÃO 82

Está escrito: As anciãs como a mães (I Tm 5,2). Se acontecer que uma anciã cometa o mesmo pecado que uma jovem, devem sofrer igual castigo?

 

Resposta

O Apóstolo ensinou que as anciãs devem ser veneradas como mães, enquanto nada fizerem de repreensível. Se acontecer que uma anciã cometa o mesmo pecado que uma jovem, primeiro sejam considerados os vícios, por assim dizer, naturais a cada idade e assim determine-se a respectiva medida da repreensão. Por exemplo, é quase natural à velhice a preguiça; não, porém, à juventude. A divagação, a agitação, a audácia e coisas semelhantes são inerentes à juventude e não à velhice; parecem estimuladas pelo ardor natural da juventude. Pelo que o mesmo pecado, a preguiça, por exemplo, na mais jovem, merece repreensão mais severa, porque nada na idade a escusa. E o mesmo pecado, a divagação, a audácia ou a agitação é mais condenável na anciã, pois a idade fomenta a mansidão e a tranquilidade. Por isto, deve-se julgar do pecado conforme a pessoa e assim empregar a terapia adequada por um castigo próprio.

 

INTERROGAÇÃO 83

Se alguém, tendo praticado assiduamente o bem, cair uma vez, como o trataremos?

 

Resposta

Como o Senhor a Pedro.

 

INTERROGAÇÃO 84

Se alguém, de modos turbulentos e agitados, for repreendido e disser que Deus fez a uns bons e a outros maus, falou a verdade?

 

Resposta

Esta opinião, há muito, foi condenada como herética; é blasfema e ímpia e torna a alma propensa ao pecado. Portanto, corrija-se ou seja afastado (I Co 5,2), para não acontecer que um pouco de fermento levede a massa toda (G1 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 85

Se convém ter algo de próprio na comunidade.

 

Resposta

É oposto ao testemunho dos Atos acerca dos fiéis; neles está escrito: Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía (At 4,32). Quem diz ter algo de próprio faz-se alheio à igreja de Deus e à caridade do Senhor que ensinou por palavras e obras que se deve dar a vida pelos amigos; quanto mais os bens exteriores.

 

INTERROGAÇÃO 86

Se alguém disser: Nada recebo da comunidade dos irmãos, nem dou, mas contento-me com o que é meu, como agir com ele?

 

Resposta

Se não obedecer ao ensino do Senhor que disse: Amai- vos uns aos outros, como eu vos tenho amado (Jo 13,34), obedeçamos ao Apóstolo que disse: Seja tirado dentre vós o que cometeu tal ação (I Co 5,2), para não suceder que um pouco de fermento levede a massa toda (G1 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 87

Se é lícito a cada um dar a quem quiser o manto velho ou os sapatos, segundo o mandamento.

 

Resposta

Dar e receber, mesmo segundo o mandamento, não compete a todos, mas sim àquele que, depois de experimentado, tiver a seu cargo a distribuição. Portanto, seja velho ou novo, no tempo adequado a cada coisa ele dará e receberá.

 

INTERROGAÇÃO 88

Que é a solicitude desta vida?

 

Resposta

Toda solicitude, mesmo que pareça não se estender às coisas proibidas, se não adianta para a piedade, é solicitude desta vida.

 

INTERROGAÇÃO 89

Já que está escrito: A riqueza de um homem é o resgate de sua vida (Pr 13,8), nós que as não possuímos, o que faremos?

 

Resposta

Se temos zelo por tal e não podemos praticá-lo, lembremo-nos da resposta do Senhor a Pedro, preocupado por isto, que dissera: Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós? (Mt 19,27). Ele lhe respondeu: Todo aquele que por minha causa deixar casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna (ibid. 29). Se não o praticamos por incúria, agora mostremos zelo. Se não temos mais nem tempo, nem forças, console-nos o Apóstolo ao dizer: Não busco os vossos bens, mas, sim, a vós mesmos (2Cor 12,14).

 

INTERROGAÇÃO 90

Se é lícito ter uma veste para a noite, quer de pelos, quer de outra espécie.

 

Resposta

O uso das vestes de pelos tem um tempo adequado. Não são usadas por causa de necessidade corporal, mas para afligir o corpo e humilhar a alma. Sendo proibido ter duas vestes, julgue cada um se é possível seu uso além da causa supracitada.

 

O que você destaca no texto?

Como serve para a sua espiritualidade?

 

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

310 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Interrogações 65 a 80

 

Genisson, Edmar, Wender, Marleide, Frederick e Edson


310

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Interrogações 65 a 80

 

INTERROGAÇÃO 65

Como alguém injustamente detém a verdade?

 

Resposta

Quando abusa dos bens dados por Deus para realizar suas próprias vontades. Desaprova-o o Apóstolo, dizendo: Não somos, como tantos outros, falsificadores da palavra de Deus (2Cor 2,17). E ainda: Nunca usamos de adulação, como sabeis, nem fomos levados por interesse algum. Não buscamos glórias humanas, nem de vós nem de outros (lTs 2,5.6).

 

INTERROGAÇÃO 66

Que é emulação e que é rivalidade?

 

Resposta

A imitação se resume em se dedicar alguém por fazer certa coisa, com o objetivo de não parecer pior que outra pessoa; a rivalidade, no entanto, em estimular e desafiar os outros a fazerem obras parecidas às suas, com exibicionismo e orgulho. Por isso, o Apóstolo, às vezes cita a rivalidade e inclui o orgulho, dizendo: Nada façais por espírito de conflito ou de orgulho (Fl 2,3), outras vezes, tendo feito menção do orgulho, depois impede a rivalidade, sob outro nome, dizendo: Não sejamos desejosos de orgulho. Nada de desafio entre nós (Gl 5,26).

 

INTERROGAÇÃO 67

Que é imundície e que é impureza?

 

Resposta

A lei se refere à sujeira, usando esta expressão para os acontecimentos necessários e involuntários da natureza. Parece-me que o sábio Salomão indica a sujeira quando fala do sensual e do que não suporta a dor, de modo que sujeira seria uma atitude de espírito que não sofre ou não suporta a dor própria do combate, como falta de controle é não ter o domínio sobre os prazeres que nos atacam.

 

INTERROGAÇÃO 68

Que é próprio do furor ou da justa indignação? Como é que, frequentemente, começando pela indignação, encontramo-nos enfurecidos?

 

Resposta

É característico do furor o impulso da alma com a intenção de fazer mal àquele que nos irritou; é característico da revolta sensata, a justa indignação, buscar a correção do pecador, devido ao profundo desgosto perante o acontecido. Não é de admirar que a alma comece bem e caia para o mal; é fácil encontrar muitos exemplos disto. É preciso lembrar-se das Escrituras divinas que dizem: Junto ao caminho me colocam obstáculos (Sl 139,6), e ainda: Também o que luta nos jogos públicos não é premiado, se não tiver lutado segundo as regras (2Tm 2,5); e cuidar-se sempre da falta de equilíbrio, de ocasião e de ordem. Por esta razão, o que acaba de ser mencionado, embora tenha aparência de bem, com frequência se transforma em mal.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 69

Como agir com aquele que não come menos que os outros, nem consta estar inválido ou doente, mas se queixa de falta de forças para o trabalho?

 

Resposta

Todo motivo para preguiça é motivo para pecado; porque é preciso mostrar dedicação até à morte, e da mesma forma paciência. É evidente que a preguiça unida à maldade condena o preguiçoso, como se conclui das palavras do Senhor: Servo mau e preguiçoso! (Mt 25,26).

 

INTERROGAÇÃO 70

Como deve ser tratado o que faz mau uso das vestes e dos calçados; se for repreendido, suspeita-se haver em quem o repreende parcimônia ou murmuração. Que convém fazer- lhe, se, depois da segunda e terceira admoestação justa, continuar do mesmo modo?

 

Resposta

O Apóstolo retira o desleixo ao dizer: Os que usam deste mundo, mas como se dele não usassem (1Cor 7,31). A medida dos gastos é a necessidade obrigatória; o que passa da necessidade é doença: apego ao dinheiro, prazer exagerado ou orgulho. Se alguém continuar no pecado, sofrerá a condenação de quem não faz arrependimento.

 

INTERROGAÇÃO 71

Há alguns que procuram mais o sabor dos alimentos do que a quantidade; outros, porém, mais a quantidade do que o sabor, a fim de se saciarem. Como proceder para com ambos?

 

Resposta

Os dois estão doentes; uns de prazer, outros de ganância. Nem o sensual, nem o desejoso de uma coisa qualquer evita a condenação. Os dois precisam ser cuidados com compaixão, para se curarem. Se não se recuperarem da doença, certamente sofrerão a condenação dos que não fazem arrependimento.

 

INTERROGAÇÃO 72

Se alguém, ao tomar a refeição em comunidade, se comportar sem polidez, comendo e bebendo vorazmente, deve ser repreendido?

 

Resposta

Essa pessoa não obedece o mandamento do Apóstolo que diz: Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1Cor 10,31), e ainda: Faça-se tudo com respeito e ordem (1Cor 14,40), e precisa de ajuste. A não ser que haja necessidade de trabalho ou pressa; mas ainda assim, fuja-se cuidadosamente do que possa causar má impressão.

 

INTERROGAÇÃO 73

Como deve ser corrigido quem repreender um delinquente não pelo desejo de correção fraterna, mas com sentimento de vingança, se, muitas vezes admoestado, persistir no mesmo vício?

 

Resposta

Seja considerado egoísta e desejoso de poder; indique-se a ele o modo de se melhorar, segundo o conhecimento da devoção. Se continuar no mal, é evidente que sofrerá o castigo dos que não se arrependem.

 

 

 

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 74

Devem ser separados dos demais os que se apartam da comunidade e querem viver uma vida solitária, ou seguir, na companhia de poucos, o mesmo escopo de piedade? Desejamos saber o que ensina a Escritura.

 

Resposta

Tendo dito muitas vezes: O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma (Jo 5,19) e: Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou, o Pai (ibid. 6,38) e segundo o relato do Apóstolo: Porque os desejos da natureza humana se opõem aos do Espírito, e estes aos da natureza humana; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazemos o que queremos (Gl 5,17), tudo o que se escolhe segundo a própria vontade é contrário à vida dos que praticam a devoção. A este respeito respondemos nas explicações mais longas.

 

INTERROGAÇÃO 75

Se convém dizer que Satanás é a causa de todos os pecados, por pensamentos, palavras e obras.

 

Resposta

De modo geral, penso que, por si mesmo, o diabo não pode ser a causa de pecado de outra pessoa; ora aproveita os impulsos naturais, ora os desejos proibidos, e por eles tenta levar os que não estão atentos aos resultados próprios dos vícios. Usa dos impulsos naturais, como tentou fazer em relação ao Senhor, ao notar que estava faminto, dizendo: Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães (Mt 4,3). Emprega os sentimentos proibidos, como o fez com Judas; porque, percebendo que sofria do apego da ganância, aproveitou-se desta fraqueza e empurrou o ganancioso ao crime da traição, por meio de trinta moedas de prata. Mostra claramente o Senhor que também os males vêm de nós mesmos: É do coração que saem os maus pensamentos (Mt 15,19). É o que acontece àqueles que, por descuido, deixam sem cuidar as boas sementes naturais, conforme foi dito nos Provérbios: Como um campo, o homem sem juízo, e como uma vinha, o homem tolo. Se o deixares, tornar-se-á um deserto e encher-se-á de mato e ficará abandonado (Pr 24,30.31, LXX). A alma que, por tal falta de cuidado, permanece sem cultivo e abandonada, inevitavelmente produzirá espinhos e mato seco e sofrerá o que foi dito: Eu esperava vê-la produzir uvas, ela não deu senão uvas verdes (Is 5,4). Dela foi dito anteriormente: Eu plantei uma vinha de Sorec (ibid. 2), isto é, escolhida. Coisa parecida acha-se em Jeremias, que fala em nome de Deus: Eu que te havia plantado de plantas escolhidas, todas de boa origem; como te transformaste em galhos ruins de uma videira estranha (Jr 2,22)?

 

INTERROGAÇÃO 76

Se é lícito mentir por utilidade.

 

Resposta

A decisão do Senhor não o permite, uma vez que disse vir do diabo a mentira (Jo 8,44), sem fazer diferenças em assuntos de mentira. Da mesma forma o Apóstolo o confirma, ao escrever: Também o que luta nos jogos públicos não é premiado, se não tiver lutado segundo as regras (2Tm 2,5).

 

INTERROGAÇÃO 77

Que é dolo, e que é malignidade?

 

Resposta

A malignidade é, a meu ver, a maldade antiga e escondida dos costumes; o engano, porém, é o esforço em armar armadilhas, isto é, quando alguém fingiu um bem qualquer e o apresenta a outra pessoa, como isca, e assim lhe arma emboscadas.

 

 

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 78

Quem é inventor de maldades?

 

Resposta

Aqueles que, além dos males habituais e conhecidos de muitos, inventam e encontram ainda outros.

 

INTERROGAÇÃO 79

Como corrigir alguém que é com frequência surpreendido a tratar com dureza um irmão?

 

Resposta

O acontecimento vem, a meu ver, da falsa ideia de ser melhor ou da tristeza por causa dos erros daqueles que deviam agir bem. Diante de um acontecimento incômodo e contrário ao bem que esperava, a alma, não sei como, é atingida com maior força. É preciso, então, maior cuidado, a fim de, no primeiro caso, segurarmos o vício do orgulho; no segundo, antes que cheguemos à revolta, demonstremos compaixão, com conselhos e avisos. Se, porém, este tratamento foi sem efeito, por causa da maldade do vício escondido, por fim, usemos de modo correto a ocasião da força da revolta, unida à compaixão, para a utilidade e melhora do pecador.

 

INTERROGAÇÃO 80

Por que, de certo modo, faltam a nossa mente bons pensamentos e cuidados agradáveis a Deus, e como evitaremos isto?

 

Resposta

Se Davi disse: Pegou no sono de tristeza a minha alma (Sl 118,28) é bem evidente que isto acontece devido à preguiça e à falta de sentimento da alma. À alma atenta e lúcida não podem faltar a preocupação agradável a Deus e os bons pensamentos; ao contrário, vê que ela é que lhes falta. Se os olhos do corpo não bastam para a observação, até mesmo de poucas obras de Deus, nem por ter visto uma vez se enchem, mas ainda que sempre olhem a mesma coisa, não se cansam de olhar, com maior razão os olhos da alma, se atentos e despertos, são insuficientes para a observação das maravilhas e das decisões de Deus. Vossas decisões, diz-se, são profundas como o mar (Sl 35,7) e em outra parte: Conhecimento assim maravilhoso me supera, ele é tão alto que não posso alcançá-lo (Sl 138,6) etc. Se faltarem à alma os bons pensamentos, é claro que ainda precisa de luz; não significa isto que falte o que dá luz, e sim, que dorme aquele que deve receber a luz.

 

O que você destaca no texto?

O que você destaca na fala do seus irmão/ã?

Como serve para sua vida espiritual?