sábado, 22 de agosto de 2026

322 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 256-275


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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 256-275

 

INTERROGAÇÃO 256

Pergunta: Qual é a recompensa que eles recebem, do mesmo modo que os últimos?

Resposta: Talvez seja próprio de todos os obedientes não se queixarem por causa das boas obras. Mas serem coroados é próprio daqueles que combateram o bom combate legitimamente, que terminaram sua corrida e guardaram a fé, no amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pode a recompensa combinada ser aquele cêntuplo que o Senhor prometeu que receberiam agora aqueles que, por causa do seu mandamento, deixassem todas as coisas presentes; de modo que a palavra "Pega o que é teu" signifique isto. Aqueles que pareciam ser os primeiros no trabalho, por sofrerem da doença da inveja contra os que receberam o mesmo prêmio, não merecem obter a herança da vida eterna, mas somente receber o cêntuplo agora e ouvir no futuro a sentença devida à inveja: "Vai-te".

 

INTERROGAÇÃO 257

Pergunta: Quais são as palhas queimadas em fogo inextinguível?

Resposta: São as pessoas úteis aos que forem dignos do reino dos céus, como a palha ao trigo, mas não por amor de Deus e do próximo — seja quanto aos carismas espirituais, seja quanto aos benefícios corporais —, e assim não atingem o fim.

 

INTERROGAÇÃO 258

Pergunta: Quem é o condenado pelo Apóstolo por afetar humildade e culto aos anjos, etc. (Cl 2,18)?

Resposta: Julgo explicar-se esta sentença pelas palavras acrescentadas a esta passagem. Na sequência, nomeia ele o rigor nos exercícios corporais (ibid. 23); tais são os maniqueus e os que se lhes assemelham.

 

INTERROGAÇÃO 259

Pergunta: Quem é fervoroso de espírito (Rm 12,11)?

Resposta: Aquele que, com disposição ardente, desejo insaciável e zelo incansável, faz a vontade de Deus na caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo está escrito: "Em seus mandamentos põe o seu prazer" (Sl 111,1).

 

INTERROGAÇÃO 260

Pergunta: O Apóstolo às vezes diz: "Não sejais imprudentes" (Ef 5,17); outras: "Não sejais sábios aos vossos próprios olhos" (Rm 12,16). É possível a quem não é imprudente não ser sábio aos próprios olhos?

Resposta: Cada preceito tem os seus próprios limites. A este: "Não sejais imprudentes", acrescenta: "Mas procurai compreender qual é a vontade de Deus". Ao outro: "Não sejais sábios aos vossos próprios olhos", ajunta-se: "Teme o Senhor e afasta-te do mal" (Pr 3,7). Por isto, é imprudente aquele que não entende a vontade do Senhor; sábio, porém, aos próprios olhos, todo aquele que segue seus próprios pensamentos e não as palavras de Deus, de acordo com a fé. Se alguém, pois, não quer ser imprudente, nem sábio aos próprios olhos, deve entender qual é a vontade de Deus pela fé Nele, e, temendo o Senhor, imitar o Apóstolo que assegura: "Nós aniquilamos todo raciocínio e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento para reduzi-lo à obediência a Cristo" (2Cor 10,4-5).

 

 

INTERROGAÇÃO 261

Pergunta: Tendo prometido o Senhor que "tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o alcançareis" (Mt 21,22) e ainda: "Se dois de vós se reunirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão" (Mt 18,19), por que alguns que suplicavam, até mesmo os santos, não receberam? Assim o Apóstolo: "Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim" (2Cor 12,8), e não recebeu o que pedia; e também o profeta Jeremias e até o próprio Moisés.

Resposta: Como Nosso Senhor Jesus Cristo exprimiu em sua oração: "Pai, se é possível, passe longe de mim este cálice" (Mt 26,39) e logo acrescentou: "Todavia não se faça o que eu quero, mas, sim, o que tu queres".  Primeiro, convém saber que nem tudo o que queremos nos é lícito pedir, nem mesmo sabemos suplicar o que nos é útil, porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém. Por isto, devemos fazer as preces segundo a vontade de Deus, com muita ponderação. Se não formos ouvidos, saibamos que é preciso paciência e insistência, segundo a parábola do Senhor acerca do dever de orar sempre, sem nos fatigarmos, e conforme afirma outra passagem: "Por causa de sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães ele necessitar" (Lc 11,8); ou emenda e diligência, de acordo com o dito do profeta a alguns, da parte do Senhor: "Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, eu não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue, lavai-vos, purificai-vos", etc. (Is 1,15-16). Não duvidem de que mesmo agora tal acontece e de que há alguns com as mãos cheias de sangue: os que creem naquele juízo de Deus proferido contra quem recebeu ordem de anunciar ao povo e calou-se: "É à sentinela que pedirei conta de seu sangue" (Ez 3,18). O Apóstolo, convicto de ser isto verdade indefectível, afirmou: "Hoje protesto diante de vós que sou inocente do sangue de todos; porque não me esquivei de anunciar-vos todo o desígnio de Deus" (At 20,26-27). Se é réu do sangue dos pecadores quem apenas se calou, que se dirá de quem, por obras e palavras, escandaliza os outros? Acontece por vezes, devido à indignidade do suplicante, não ser satisfeito o pedido, como sucedeu quando Davi rogava permissão para construir a casa de Deus, a qual lhe foi negada; embora fosse grato a Deus, não foi julgado digno desta obra. Jeremias, porém, parece não ter sido ouvido por causa da maldade daqueles pelos quais orava. Muitas vezes, também por nossa negligência, perdemos a ocasião oportuna para fazer a prece e, depois, vamos orar debalde em tempo impróprio. Quanto ao dito: "Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim" (2Cor 12,8), é bom saber que há muitas e variadas razões para as tribulações externas e corporais. Deus as envia ou permite por uma economia melhor do que a libertação delas. Se alguém, portanto, conseguir saber que deve por meio da oração e da súplica livrar-se da adversidade, ao rogar será ouvido, como os dois cegos do Evangelho, os dez leprosos e muitos outros. Se, porém, não conhece a razão por que caiu em tentação (muitas vezes deve obter por meio da paciência o fim pelo qual lhe advêm os males) e for preciso até o fim suportá-la, no caso de pedir que lhe seja retirada a tribulação, não será atendido, porque não concorda com o escopo do amor que Deus tem aos homens. Quanto à afirmação: "Se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir" (Mt 18,19), a própria perícope é muito clara. Trata-se de quem argui o pecador e do arguido. Como Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva, se o arguido, de ânimo contrito, contribui para a finalidade visada por quem censura, em tudo — isto é, a respeito de todos os pecados dos quais pedem a remissão —, esta lhes será concedida por Deus, que ama o homem. Se, porém, o repreendido e quem repreende não entram em acordo, não haverá remissão, e sim vínculo, conforme as palavras seguintes: "Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu" (Mt 18,18), de modo a se realizar a sentença: "Se se recusar a ouvir a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano" (ibid. 17).

 

 

INTERROGAÇÃO 262

Pergunta: Uma vez que a Escritura coloca a pobreza e a indigência entre as coisas louváveis — por exemplo, quando diz: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre" (Mt 5,3) e também: "O pobre e o desvalido louvarão o teu nome" (Sl 9,17; 73,21) —, qual é a diferença entre pobreza e indigência, e como é verdadeira a afirmação de Davi: "Quanto a mim, sou mendigo e pobre" (Sl 39,18)?

Resposta: Lembrado do Apóstolo que diz a respeito do Senhor: "Sendo rico, se fez pobre por nós" (2Cor 8,9), julgo ser pobre aquele que da riqueza caiu na necessidade; indigente, porém, é o que desde o início sofria necessidade e dominou esta tribulação de modo agradável a Deus. Davi, porém, se confessa indigente e pobre talvez na pessoa do Senhor, que é denominado pobre segundo a palavra: "Sendo rico, se fez pobre por nós"; e indigente porque foi julgado filho, segundo a carne, não de um rico, mas de um artífice. Talvez também porque, como Jó, não entesourou bens nem se apropriou de riquezas, mas administrou-as segundo a vontade de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 263

Pergunta: Que quer ensinar o Senhor, por meio de exemplos, àqueles aos quais acrescentou: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,33)? Se quem quer edificar uma torre ou guerrear contra outro rei deve se preparar ou para a construção ou para a guerra, e se não for capaz convém-lhe, de início, não lançar os alicerces ou pedir a paz, então quem quer ser discípulo do Senhor deve renunciar? E se vir que para si é difícil, ser-lhe-á lícito não começar a ser discípulo do Senhor?

Resposta: O fim visado pelo Senhor com estes exemplos não é dar liberdade de ser ou não discípulo seu, mas mostrar ser impossível que alguém, no meio de coisas que distraem o espírito, agrade a Deus; nelas periclita, tornando-se suscetível às ciladas do diabo e merecedor de zombaria e riso por ter deixado inacabadas as coisas nas quais se empenhara. O profeta pedia não lhe sobreviesse isso quando dizia: "Não se alegrem à minha custa os meus inimigos. Não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala" (Sl 37,17).

 

INTERROGAÇÃO 264

Pergunta: Tendo dito o Apóstolo: "Sejais sinceros" (Fl 1,10), e ainda: "Mas com sinceridade" (2Cor 2,17), que é ser sincero?

Resposta: Julgo ser sincero o que está livre de mistura e purificado completamente de elementos contrários, porém unido e ordenado só à piedade; não só, mas ainda ao que é absolutamente requerido para tal escopo, sempre e em todos os casos, de modo que o encarregado de algum ofício não pode se afastar dele, nem para cuidar de problemas afins. A primeira sentença se explica por si mesma no contexto, porque depois das palavras "Mas com sinceridade" acrescenta-se: "Pregamos em Cristo, sob os olhares de Deus"; a segunda, por meio da afirmação: "Não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus distribuiu" (Rm 12,3), e ainda mediante as palavras subsequentes.

 

INTERROGAÇÃO 265

Pergunta: Se somente aos sacerdotes foi dito: "Se estás por fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta" (Mt 5,23-24), ou a todos? E como cada um de nós faz a sua oferta diante do altar?

Resposta: Principalmente e em primeiro lugar refere-se aos sacerdotes, porque está escrito: "A vós chamar-vos-ão sacerdotes do Senhor, ministros de nosso Deus" (Is 61,6). E: "Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor" (Sl 49,23). E ainda: "O sacrifício digno de Deus é um espírito contrito" (Sl 50,19). E o Apóstolo diz: "Apresenteis vossos corpos como uma hóstia viva, santa e agradável a Deus, à maneira de um culto espiritual" (Rm 12,1). Cada uma destas palavras destina-se a todos; e é dever de todos nós realizá-las.

 

INTERROGAÇÃO 266

Pergunta: Que é o sal que o Senhor mandou ter, dizendo: "Tende sal em vós" (Mc 9,49)? E o Apóstolo diz: "Que as vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal" (Cl 4,6).

Resposta: Aqui também o sentido torna-se evidente pelo contexto de cada capítulo. Pois aprendemos das palavras do Senhor a não darmos motivo algum de separação e dissídio, mas sempre conservarmos os vínculos da paz, para a unidade do espírito. Com as palavras do Apóstolo, lembremo-nos daquele que disse: "Come-se uma coisa insípida sem sal? Pode alguém saborear aquilo que não tem gosto nenhum?" (Jó 6,6). Aprendamos a ministrar as palavras para edificação da fé, e que sejam benfazejas aos que as ouvem (Ef 4,29), empregando tempo oportuno e ordem conveniente para os ouvintes serem mais dóceis.

 

INTERROGAÇÃO 267

Pergunta: Se um receber muitos açoites, e outro poucos, como diziam alguns que as penas são sem fim? (Lc 12,47).

Resposta: As palavras que parecem ambíguas e obscuras em certos lugares das Escrituras divinas explicam-se pelas sentenças proferidas de modo claro em outras passagens. Como o Senhor ora sentencia que eles irão para o suplício eterno, ora manda alguns para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos; e em outra parte, mencionando a geena do fogo, acrescenta: "Onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga" (Mc 9,47); e ainda, outrora, pelo profeta predisse de alguns que "O verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá" (Is 66,24) — e pertencendo estas e semelhantes citações a muitos lugares das Escrituras divinas, um dos artifícios do diabo consiste em fazer com que muitos homens, de certo modo esquecidos de tantas e de tais palavras e sentenças do Senhor, determinem um termo para os suplícios, querendo pecar com maior ousadia. Se for finito o suplício eterno, certamente terá termo também a vida eterna. Se não podemos pensar assim da vida, como será razoável atribuir fim ao suplício eterno? Pois o adjetivo eterno é igual para ambos: "E estes irão para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna" (Mt 25,46).  Confessado isto, é preciso saber que nem "receberá muitos açoites", nem "receberá poucos" implica termo, mas sim diferença nos tormentos. Se Deus é justo juiz, não só para os bons, mas também para os maus, dando a cada um conforme as suas obras, pode alguém ser digno do fogo inextinguível que queima menos ou mais; outro, do verme que não morre, e o qual igualmente atormenta com maior ou menor intensidade, segundo o merecimento de cada um; outro, da geena que tem, de fato, tormentos muito variados; e outro, das trevas exteriores, onde para um existe somente choro e para outro ranger de dentes, por causa da veemência das dores. Também as trevas exteriores sugerem haver seguramente outras, interiores. E a palavra dos Provérbios: "Nas profundezas da região dos mortos" (Pr 9,18), declara haver alguns no inferno, contudo não no profundo do inferno, e que são submetidos a penas mais leves. Estes caracteres encontram-se já agora nas doenças corporais. Um sente febre com alguns sintomas e outros incômodos; outro, apenas febre, de modo diferente um do outro. Alguém não está com febre, mas dói-lhe um membro, e mais ou menos do que em um outro. O Senhor empregou as expressões muito e pouco segundo o uso comum, em casos semelhantes. Sabemos, muitas vezes, que este modo de falar é empregado a respeito dos que sofrem de uma doença; assim dizemos, admirados, de alguém que está febril ou sente dor nos olhos: "Quanto sofreu!" ou "Quantos males o atingiram!". De maneira que muitos e poucos açoites, digo-o novamente, não significam duração ou fim do tempo, mas diferença dos tormentos.

 

INTERROGAÇÃO 268 Pergunta: Em que sentido alguns são denominados "filhos da incredulidade" e "filhos da ira"? (Ef 5,6; 2,3).

Resposta: O Senhor costuma denominar filhos de alguém, bom ou mau, os que lhe fazem a vontade. Diz: "Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão" (Jo 8,39), e ainda: "Vós tendes como pai o demônio, e quereis fazer os desejos de vosso pai" (ibid. 44). Por isto, quem faz obras de incredulidade torna-se filho da incredulidade. Talvez também, como o diabo é denominado, a meu ver, não só pecador, mas o próprio pecado — porque é instigador do pecado —, assim também, por idêntica razão, ele pode ser chamado a própria infidelidade. Filho da ira, porém, é todo aquele que se fez digno da ira. Como o Apóstolo denominou aqueles que são dignos do Senhor e fazem as obras da luz e do dia "filhos da luz e filhos do dia", assim, por consequência, deve-se entender a palavra: "Éramos filhos da ira". Importa saber que filho da incredulidade é idêntico a filho da ira, porque proferiu o Senhor: "Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus" (Jo 3,36).

 

INTERROGAÇÃO 269

Pergunta: Está escrito: "Fazendo a vontade da carne e da concupiscência" (Ef 2,3). Acaso são diferentes as vontades da carne e as da concupiscência? E quais são?

Resposta: O Apóstolo enumera separada e nominalmente em outro lugar as vontades da carne, dizendo: "Ora, as obras da carne são estas: adultério, fornicação, impureza, desonestidade, idolatria, magia, inimizades, contendas, ciúmes, iras, rixas, discórdias, partidos, invejas, homicídios, embriaguez, orgias, e outras coisas semelhantes" (Gl 5,19-21); e em outra passagem, de modo mais geral: "Porque o desejo da carne é hostil a Deus; pois a carne não se submete à lei de Deus e nem o pode" (Rm 8,7).

As vontades da concupiscência talvez sejam os planos que não se apoiam no testemunho da Escritura, tais aqueles dos quais se declara: "Aniquilamos todo o raciocínio e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus" (2Cor 10,4-5), e todo entendimento que não está reduzido à sujeição, na obediência a Cristo. Por isto, é imprescindível e seguro, sempre e em toda a parte, observar a palavra de Davi: "Meus conselheiros são as vossas leis" (Sl 118,24).

 

INTERROGAÇÃO 270

Pergunta: Que significa: "Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos" (2Cor 4,8)?

Resposta: O Apóstolo mostra sua firme confiança em Deus em contraposição à sabedoria humana, e assim coloca cada uma das coisas referidas nesta passagem. Quanto à sabedoria humana, assevera: "Em tudo sofremos tribulação"; relativamente à confiança em Deus, acrescenta: "Mas não somos oprimidos". Ainda, sobre a prudência humana: "Somos cercados de dificuldades", e no atinente à confiança em Deus: "Não desesperamos". E assim por diante. Como também o que assegurou em outra parte: "Somos considerados agonizantes, embora estejamos com vida; como indigentes, ainda que enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo" (2Cor 6,9-10).

 

INTERROGAÇÃO 271

Pergunta: O Senhor disse: "Dai antes em esmola o conteúdo e todas as coisas vos serão limpas" (Lc 11,41). Acaso será alguém purificado de todos os pecados que cometeu por meio da esmola?

Resposta: A sequência da passagem supracitada esclarece-lhe o significado. Tendo, pois, dito: "Limpais o que está por fora do vaso e do prato; mas o vosso interior está cheio de roubo e de maldade!" (ibid. 39), acrescenta: "Dai antes em esmola o conteúdo, e todas as coisas vos serão limpas" — todas as coisas, quer dizer, tudo em que pecamos e agimos mal pela rapina e avareza. Declara-o Zaqueu, dizendo: "Doravante darei a metade dos meus bens aos pobres, e se tiver defraudado alguém restituirei o quádruplo" (Lc 19,8).

Portanto, todos os pecados desta espécie que podem ser apagados, e para os quais é possível múltipla compensação, são perdoados deste modo. Deste modo, digo, não que por si só baste para a remissão, mas primeiro exigem-se a misericórdia de Deus e o sangue de Cristo, pelo qual também obtemos a remissão de todos os outros, se fizermos dignos frutos de penitência.

 

INTERROGAÇÃO 272

Pergunta: Uma vez que preceituou o Senhor não andarmos inquietos pelo dia de amanhã, como entenderemos bem este preceito? Vemos que temos muito empenho em obter o necessário, a ponto de armazenarmos o bastante para muito tempo.

Resposta: Quem acolhe o ensinamento do Senhor: "Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça" (Mt 6,33) e está convicto da verdade de sua promessa ao ajuntar "e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo", não ocupa em vão o espírito com solicitudes desta vida, que sufocam a palavra e a tornam estéril. Combatendo o bom combate para agradar a Deus, crê no Senhor que assegurou: "O operário merece o seu sustento" (Mt 10,10), e por causa dele não se preocupa; mas trabalha e se aflige, não por si, mas por causa do mandamento de Cristo, segundo demonstrou e ensinou o Apóstolo, que afirma: "Em tudo vos tenho mostrado que assim, trabalhando, convém acudir aos fracos" (At 20,35). Preocupar-se consigo mesmo é incorrer em incriminação de egoísmo; preocupar-se e trabalhar por causa do mandamento merece o encômio de se possuir um ânimo amante de Cristo e dos irmãos.

 

INTERROGAÇÃO 273

Pergunta: Em que consiste a blasfêmia contra o Espírito Santo?

Resposta: Pela blasfêmia que proferiram os fariseus, contra os quais igualmente foi lançada esta sentença, evidencia-se que agora blasfema contra o Espírito Santo quem atribui ao adversário a eficácia e os frutos do Espírito Santo. Sofrem desta doença muitos de nós, que amiúde atacam a outrem, acusando-o temerariamente de ambição de uma glória vã, e falsamente de ira, enquanto é zeloso do bem; e ainda, mentirosamente, só à base de suspeitas, dando outras denominações semelhantes.

 

INTERROGAÇÃO 274

Pergunta: Como se fará alguém estulto neste século?

Resposta: Se temer o juízo de Deus, que disse: "Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos e prudentes em seu próprio juízo" (Is 5,21), e imitar aquele que disse: "Como um animal irracional, porém, estarei sempre convosco" (Sl 72,22); e se, rejeitando toda pretensão de prudência, não julgar logo boa uma de suas ideias e nem mesmo começar a raciocinar antes de estar habituado, por meio do mandamento do Senhor, a agradar a Deus em obras, palavras ou pensamentos. Conforme disse o Apóstolo: "Tal é a convicção que temos em Deus por Cristo. Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus" (2Cor 3,4-5), "que ensina ao homem o saber" (Sl 93,10), como está escrito.

 

INTERROGAÇÃO 275

Pergunta: Se Satanás pode impedir o propósito de um santo, por que está escrito: "Já por duas vezes quisemos ir ter convosco, ao menos eu, Paulo. Satanás, porém, nos impediu" (1Ts 2,18)?

Resposta: Entre as boas obras feitas no Senhor, umas se perfazem por vontade e juízo da alma, outras pelas forças corporais, ou pelo zelo ou pela paciência. De modo algum pode Satanás impedir as dependentes da vontade e do julgamento da alma. Em relação às praticadas pelas energias corporais, frequentemente Deus permite que haja um impedimento, para provação e aviso do que foi impedido, a fim de que ou seja convencido da alteração de seu bom propósito — como aqueles cuja semente caiu sobre um pedregulho, os quais por breve tempo receberam com gosto a palavra, mas, sobrevindo a tentação, logo voltaram atrás —; ou ainda mostre perseverar no bem, pelo zelo das boas obras — como o próprio Apóstolo que, tendo feito várias vezes o propósito de ir ver os romanos, e impedido, como ele próprio o confessa, não desistiu até cumprir o que projetara —; ou também, quanto à paciência, como Jó, que, sofrendo tanto do diabo a instigá-lo a proferir alguma blasfêmia, ou a ser ingrato para com Deus, nem mesmo na extrema tribulação se afastou de seu juízo piedoso, ou de sentimentos retos para com Deus. Dele está escrito: "Em tudo isso, Jó não cometeu nenhum pecado nem proferiu contra Deus nenhuma blasfêmia" (Jó 1,22).

 

 

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

321 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 236-255

 


Demétius, Leopoldo, Wender, Lilian, Kris, Nathalie, Genissom e Edson


321

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 236-255

 

INTERROGAÇÃO 236

Como aqueles que foram julgados aptos para aprender os quatro Evangelhos devem receber esta graça?

RESPOSTA

O próprio Senhor afirmou que “daquele a quem muito se deu, muito será exigido” (Lc 12,48). Por isso, quem recebe esse privilégio deve ter ainda mais temor e zelo, como exorta o Apóstolo: “Sendo seus colaboradores, exortamo-vos a não receberdes a graça de Deus em vão” (2Cor 6,1). Isso se cumprirá se crerem na palavra do Senhor quando diz: “Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de as praticardes” (Jo 13,17).

 

INTERROGAÇÃO 237

Qual é a alma que conseguirá se guiar segundo a vontade de Deus?

RESPOSTA

É aquela que abraça de coração o ensinamento do Senhor: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Afinal, se a pessoa não começar por renunciar a si mesma e carregar a sua cruz, ela encontrará em si mesma — ao tentar avançar — inúmeros obstáculos que a impedirão de prosseguir.

 

INTERROGAÇÃO 238

É possível salmodiar, ler ou dedicar-se às palavras de Deus de modo totalmente ininterrupto, sem qualquer intervalo de tempo, já que a todos sobrevêm as necessidades corporais básicas?

RESPOSTA

O Apóstolo estabelece a regra ao dizer: “Faça-se tudo com decência e ordem” (1Cor 14,40). Por isso, deve-se priorizar o cuidado com a sobriedade e a boa disciplina, ajustando cada atividade ao tempo e ao lugar adequados.

 

INTERROGAÇÃO 239

O que é o bom e o mau tesouro?

RESPOSTA

O bom tesouro é a prudência orientada para a prática de todas as virtudes em Cristo, tendo em vista a glória de Deus. O mau tesouro, por sua vez, é a astúcia voltada para o mal, aplicada às coisas proibidas pelo Senhor. É a partir desse tesouro interno — como ensina a palavra do Senhor — que cada pessoa retira e manifesta o bem ou o mal em suas ações e palavras.

 

INTERROGAÇÃO 240

Por que se diz que é larga a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição?

RESPOSTA

O Senhor, em seu grande amor pela humanidade, utiliza termos e imagens bem conhecidos para expor os ensinamentos da verdade. Assim como, em um terreno físico, qualquer desvio da rota correta abre uma área imensa e sem limites, diz-se também que aquele que se desvia do caminho do Reino dos Céus cai na grande vastidão do erro. Acredito que “largo” e “espaçoso” expressam a mesma ideia, pois os autores profanos costumam chamar de “largo” o que é “espaçoso”. Portanto, o lugar do erro é espaçoso — ou seja, largo —, e o seu fim é a perdição.

 

INTERROGAÇÃO 241

Por que é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida? E como se entra por ele?

RESPOSTA

Também aqui, “estreito” e “apertado” não significam coisas diferentes. Na verdade, a palavra “apertado” indica algo extremamente estreito — como quando o caminho se afunila até comprimir o viajante de ambos os lados, tornando perigoso qualquer desvio, seja para a direita, seja para a esquerda. É como atravessar uma ponte estreita: para qualquer lado que a pessoa se inclinar, cairá no rio que corre abaixo. Por isso diz Davi: “Junto ao caminho colocam tropeços” (Sl 139,6). Portanto, quem se propõe a entrar na vida pelo caminho estreito e apertado deve acautelar-se para não se desviar nem declinar dos mandamentos do Senhor, cumprindo o que foi escrito: “Sem te apartares nem para a direita, nem para a esquerda” (Dt 17,11).

 

INTERROGAÇÃO 242

O que quer dizer: “Amai-vos reciprocamente com caridade fraterna”?

RESPOSTA

O amor que brota da verdadeira amizade traduz-se em um desejo sincero e uma afeição viva daquele que ama em relação à pessoa amada. Para que o amor entre os irmãos não seja algo frio ou superficial, mas sim corajoso, dedicado e fervoroso, foi dito: “Amai-vos uns aos outros com amor terno e fraternal” (Rm 12,10).

 

INTERROGAÇÃO 243

O que quer dizer o Apóstolo com as palavras: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26), visto que diz em outra parte: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31)?

RESPOSTA

Julgo que, neste trecho, o Apóstolo fala imitando o procedimento do Senhor. No Evangelho, o Senhor primeiro diz: “Foi dito aos antigos...” e, a seguir, acrescenta: “Eu, porém, vos digo...”. Da mesma forma, o Apóstolo aqui primeiro recorda o que fora dito outrora aos antigos: “Irai-vos e não queirais pecar” (Sl 4,5), para logo depois acrescentar, por autoridade própria, o que de fato nos convém como cristãos: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31).

 

INTERROGAÇÃO 244

O que significa: “Deixai agir a ira” (Rm 12,19)?

RESPOSTA

Significa não resistir ao mal, conforme está escrito: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39); ou ainda: “Se alguém vos perseguir numa cidade, fugi para outra” (Mt 10,23).

 

INTERROGAÇÃO 245

O que significa ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16)?

RESPOSTA

É prudente como a serpente aquele que transmite a doutrina com circunspecção, considerando as capacidades do público e o caminho mais eficaz para persuadir os ouvintes. Por sua vez, é simples como a pomba aquele que nem sequer cogita se vingar de quem lhe arma ciladas, mas persevera em praticar o bem, segundo o preceito do Apóstolo: “Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Ts 3,13). O Senhor prescreveu essa atitude aos discípulos ao enviá-los a pregar, pois eles precisavam tanto de sabedoria para persuadir quanto de paciência diante dos perseguidores. Assim como a serpente, outrora, soube adotar uma postura acessível e uma fala persuasiva para afastar o ser humano de Deus e induzi-lo ao pecado, nós também devemos escolher a expressão, o tom, o momento e o lugar adequados, empregando nossas palavras com discernimento para afastar as pessoas do pecado e convertê-las a Deus. De resto, cumpre-nos conservar a paciência nas provações até o fim, como está escrito.

 

INTERROGAÇÃO 246

O que quer dizer: “A caridade nada faz de inconveniente” (1Cor 13,5)?

RESPOSTA

É o mesmo que dizer: a caridade não deixa de ser o que ela é. A própria identidade da caridade consiste no conjunto de características enumeradas pelo Apóstolo nesta mesma passagem.

 

INTERROGAÇÃO 247

A Escritura diz: “Não vos glorieis e não faleis coisas elevadas” (1Sm 2,3). Contudo, o Apóstolo confessa em um trecho: “O que vou dizer na certeza de poder gloriar-me, não o digo sob a inspiração do Senhor, mas como num acesso de delírio” (2Cor 11,17) e “Tornai-me insensato” (2Cor 12,11); enquanto em outro lugar afirma: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (2Cor 10,17). Afinal, o que é gloriar-se no Senhor e de que maneira se deve gloriar?

RESPOSTA

Nesses textos, revela-se abertamente a luta exigida do Apóstolo contra as falsas pretensões dos seus opositores. Ele não diz tais coisas para se autoproclamar ou se recomendar, mas para conter a ousadia, a arrogância e o orgulho de alguns. Gloriar-se no Senhor, por sua vez, consiste em alguém nunca atribuir a si próprio as suas boas obras, mas sim ao Senhor, dizendo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). Por outro lado, pode-se considerar dois tipos de glorificação proibida: A vaidade no mal: De acordo com o que diz a Escritura: “O pecador gloria-se dos desejos de sua alma” (Sl 9,25) e “Por que te glorias de tua malícia, ó prepotente?” (Sl 51,3). O orgulho nas boas obras: Ocorre quando as pessoas, por desejarem ser louvadas em razão do bem que praticam, gloriam-se de seus próprios atos. Esses podem ser considerados sacrílegos, pois se apropriam dos dons de Deus e roubam para si a glória que pertence unicamente a Ele.

 

INTERROGAÇÃO 248

Se é o Senhor quem dá a sabedoria e é de sua face que procedem a ciência e a prudência (Pr 2,6); e se, pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria e a outro a palavra de ciência (1Cor 12,8); por que o Senhor repreende os discípulos dizendo: “Também vós estais ainda sem inteligência?” (Mt 15,16)? E por que o Apóstolo acusa alguns de serem insensatos (Rm 1,31)?

RESPOSTA

Quem conhece a bondade de Deus — que “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4) — e compreende como o Espírito Santo atua na distribuição e na eficácia dos dons divinos, reconhece que a demora em alcançar a inteligência espiritual não provém de qualquer limitação do Benfeitor, mas sim da incredulidade dos próprios beneficiados. Por isso, censura-se com razão o insensato: ele age como alguém que fecha os olhos diante do sol nascente para continuar vivendo nas trevas, recusando-se a olhar para cima a fim de ser iluminado.

 

INTERROGAÇÃO 249

O que é o “honesto” e o que é o “justo”?

RESPOSTA

Julgo ser honesto aquilo que é conveniente e devido ao superior por parte dos inferiores, em razão de sua precedência; e justo, o que é dado a cada um segundo o valor e a importância de suas obras. Assim, o honesto abrange somente o dever de gratidão e de recompensa, enquanto o justo inclui o exame rigoroso e a punição do mal.

 

INTERROGAÇÃO 250

Como alguém dá o que é santo aos cães ou lança pérolas aos porcos? E como se evita o que vem a seguir: “para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem” (Mt 7,6)?

RESPOSTA

O Apóstolo nos explica isso claramente ao acrescentar o que dissera contra os judeus: “Tu, que te glorias da Lei, desonras a Deus pela transgressão da Lei” (Rm 2,23). Portanto, o Senhor proíbe aqui o ultraje que cometemos contra as suas santas palavras por meio de nossas próprias transgressões. É por causa dessas faltas que aqueles que estão de fora passam a julgar desprezíveis os ensinamentos do Senhor; em consequência, insurgem-se contra nós com maior audácia e, de certo modo, despedaçam o transgressor cobrindo-o de injúrias e acusações.

 

INTERROGAÇÃO 251

Por que o Senhor, em certo momento, proíbe levar bolsa e alforje no caminho (Lc 10,4), mas em outro diz: “Quem tem bolsa, tome-a, e aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda a sua capa para comprar uma” (Lc 22,36)?

RESPOSTA

O próprio Senhor o explica ao acrescentar: “É necessário que se cumpra em mim este oráculo: 'E foi contado entre os malfeitores'” (Lc 22,37). Logo após a profecia da espada se cumprir, Ele ordena a Pedro: “Embainha a tua espada, porque todos os que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Disso decorre que a frase “quem tem bolsa, tome-a” (ou “tomará”, como consta em muitos manuscritos) não é um mandamento, mas sim uma profecia. Por ela, o Senhor previu que os apóstolos, esquecendo-se temporariamente dos dons e da lei do Senhor, chegariam ao ponto de recorrer à espada. Fica evidente em muitas passagens que a Escritura usa frequentemente o modo imperativo no lugar da forma profética, como por exemplo: “Fiquem órfãos os seus filhos” e “Levante-se à sua direita um acusador” (Sl 108,9.6).

 

INTERROGAÇÃO 252

Qual é o pão cotidiano que fomos ensinados a pedir a cada dia?

RESPOSTA

É o alimento necessário à sustentação de nossa natureza na vida diária. Quando alguém trabalha recordando-se do Senhor — que disse: “Não vos preocupeis por vossa vida: que comeremos? que beberemos?” (Mt 6,25) — e do Apóstolo, que ordena trabalhar não para o proveito próprio, mas para ter o que dar ao necessitado por causa do mandamento (pois “o operário é digno do seu alimento”), essa pessoa não confia em si mesma, mas pede a Deus o pão cotidiano. Assim, reconhecendo a própria indigência, ela receberá o necessário das mãos daquele que, após ter sido provado, foi encarregado de distribuir diariamente o sustento, conforme se lê: “Repartia-se, então, a cada um deles segundo a sua necessidade” (At 4,35).

 

INTERROGAÇÃO 253

O que é o talento e como devemos multiplicá-lo?

RESPOSTA

Julgo que esta parábola foi dita para representar todos os dons concedidos por Deus. Cada pessoa, seja qual for o dom que tenha recebido, deve multiplicá-lo empregando-o para fazer o bem e ser útil aos outros, pois não há ninguém que não tenha participado da bondade de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 254

Qual é a mesa de banqueiros onde se deve, como disse o Senhor, depositar o dinheiro?

RESPOSTA

As parábolas não descrevem perfeitamente as realidades espirituais em si mesmas, mas conduzem a mente até elas. Assim como é costume depositar dinheiro com banqueiros para render juros, aquele que recebe um dom qualquer deve partilhá-lo com quem necessita — ou agir segundo o que o Apóstolo disse a respeito da doutrina: “Confia-o a homens fiéis, que por sua vez sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2). Isso se aplica não apenas ao ensino da fé, mas a qualquer recurso ou carisma, pois alguns possuem os meios e outros recebem a perícia para administrá-los.

 

INTERROGAÇÃO 255

Para onde foi mandado ir aquele a quem o Senhor disse: “Toma o que é teu e vai-te” (Mt 20,14)?

RESPOSTA

Provavelmente para o mesmo lugar para onde serão enviados aqueles que estiverem à esquerda, condenados pela ausência de boas obras. Afinal, aquele que tem inveja do próprio irmão encontra-se em estado pior do que aquele que simplesmente nada faz. É por isso que a Escritura costuma, em diversas passagens, associar diretamente a inveja ao homicídio (Rm 1,29; Gl 5,21).

 

 

 

 

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?