quarta-feira, 29 de abril de 2026

310 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Interrogações 65 a 80

 


310

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Interrogações 65 a 80

 

INTERROGAÇÃO 65

Como alguém injustamente detém a verdade?

 

Resposta

Quando abusa dos bens dados por Deus para realizar suas próprias vontades. Desaprova-o o Apóstolo, dizendo: Não somos, como tantos outros, falsificadores da palavra de Deus (2Cor 2,17). E ainda: Nunca usamos de adulação, como sabeis, nem fomos levados por interesse algum. Não buscamos glórias humanas, nem de vós nem de outros (lTs 2,5.6).

 

INTERROGAÇÃO 66

Que é emulação e que é rivalidade?

 

Resposta

A imitação se resume em se dedicar alguém por fazer certa coisa, com o objetivo de não parecer pior que outra pessoa; a rivalidade, no entanto, em estimular e desafiar os outros a fazerem obras parecidas às suas, com exibicionismo e orgulho. Por isso, o Apóstolo, às vezes cita a rivalidade e inclui o orgulho, dizendo: Nada façais por espírito de conflito ou de orgulho (Fl 2,3), outras vezes, tendo feito menção do orgulho, depois impede a rivalidade, sob outro nome, dizendo: Não sejamos desejosos de orgulho. Nada de desafio entre nós (Gl 5,26).

 

INTERROGAÇÃO 67

Que é imundície e que é impureza?

 

Resposta

A lei se refere à sujeira, usando esta expressão para os acontecimentos necessários e involuntários da natureza. Parece-me que o sábio Salomão indica a sujeira quando fala do sensual e do que não suporta a dor, de modo que sujeira seria uma atitude de espírito que não sofre ou não suporta a dor própria do combate, como falta de controle é não ter o domínio sobre os prazeres que nos atacam.

 

INTERROGAÇÃO 68

Que é próprio do furor ou da justa indignação? Como é que, frequentemente, começando pela indignação, encontramo-nos enfurecidos?

 

Resposta

É característico do furor o impulso da alma com a intenção de fazer mal àquele que nos irritou; é característico da revolta sensata, a justa indignação, buscar a correção do pecador, devido ao profundo desgosto perante o acontecido. Não é de admirar que a alma comece bem e caia para o mal; é fácil encontrar muitos exemplos disto. É preciso lembrar-se das Escrituras divinas que dizem: Junto ao caminho me colocam obstáculos (Sl 139,6), e ainda: Também o que luta nos jogos públicos não é premiado, se não tiver lutado segundo as regras (2Tm 2,5); e cuidar-se sempre da falta de equilíbrio, de ocasião e de ordem. Por esta razão, o que acaba de ser mencionado, embora tenha aparência de bem, com frequência se transforma em mal.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 69

Como agir com aquele que não come menos que os outros, nem consta estar inválido ou doente, mas se queixa de falta de forças para o trabalho?

 

Resposta

Todo motivo para preguiça é motivo para pecado; porque é preciso mostrar dedicação até à morte, e da mesma forma paciência. É evidente que a preguiça unida à maldade condena o preguiçoso, como se conclui das palavras do Senhor: Servo mau e preguiçoso! (Mt 25,26).

 

INTERROGAÇÃO 70

Como deve ser tratado o que faz mau uso das vestes e dos calçados; se for repreendido, suspeita-se haver em quem o repreende parcimônia ou murmuração. Que convém fazer- lhe, se, depois da segunda e terceira admoestação justa, continuar do mesmo modo?

 

Resposta

O Apóstolo retira o desleixo ao dizer: Os que usam deste mundo, mas como se dele não usassem (1Cor 7,31). A medida dos gastos é a necessidade obrigatória; o que passa da necessidade é doença: apego ao dinheiro, prazer exagerado ou orgulho. Se alguém continuar no pecado, sofrerá a condenação de quem não faz arrependimento.

 

INTERROGAÇÃO 71

Há alguns que procuram mais o sabor dos alimentos do que a quantidade; outros, porém, mais a quantidade do que o sabor, a fim de se saciarem. Como proceder para com ambos?

 

Resposta

Os dois estão doentes; uns de prazer, outros de ganância. Nem o sensual, nem o desejoso de uma coisa qualquer evita a condenação. Os dois precisam ser cuidados com compaixão, para se curarem. Se não se recuperarem da doença, certamente sofrerão a condenação dos que não fazem arrependimento.

 

INTERROGAÇÃO 72

Se alguém, ao tomar a refeição em comunidade, se comportar sem polidez, comendo e bebendo vorazmente, deve ser repreendido?

 

Resposta

Essa pessoa não obedece o mandamento do Apóstolo que diz: Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1Cor 10,31), e ainda: Faça-se tudo com respeito e ordem (1Cor 14,40), e precisa de ajuste. A não ser que haja necessidade de trabalho ou pressa; mas ainda assim, fuja-se cuidadosamente do que possa causar má impressão.

 

INTERROGAÇÃO 73

Como deve ser corrigido quem repreender um delinquente não pelo desejo de correção fraterna, mas com sentimento de vingança, se, muitas vezes admoestado, persistir no mesmo vício?

 

Resposta

Seja considerado egoísta e desejoso de poder; indique-se a ele o modo de se melhorar, segundo o conhecimento da devoção. Se continuar no mal, é evidente que sofrerá o castigo dos que não se arrependem.

 

 

 

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 74

Devem ser separados dos demais os que se apartam da comunidade e querem viver uma vida solitária, ou seguir, na companhia de poucos, o mesmo escopo de piedade? Desejamos saber o que ensina a Escritura.

 

Resposta

Tendo dito muitas vezes: O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma (Jo 5,19) e: Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou, o Pai (ibid. 6,38) e segundo o relato do Apóstolo: Porque os desejos da natureza humana se opõem aos do Espírito, e estes aos da natureza humana; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazemos o que queremos (Gl 5,17), tudo o que se escolhe segundo a própria vontade é contrário à vida dos que praticam a devoção. A este respeito respondemos nas explicações mais longas.

 

INTERROGAÇÃO 75

Se convém dizer que Satanás é a causa de todos os pecados, por pensamentos, palavras e obras.

 

Resposta

De modo geral, penso que, por si mesmo, o diabo não pode ser a causa de pecado de outra pessoa; ora aproveita os impulsos naturais, ora os desejos proibidos, e por eles tenta levar os que não estão atentos aos resultados próprios dos vícios. Usa dos impulsos naturais, como tentou fazer em relação ao Senhor, ao notar que estava faminto, dizendo: Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães (Mt 4,3). Emprega os sentimentos proibidos, como o fez com Judas; porque, percebendo que sofria do apego da ganância, aproveitou-se desta fraqueza e empurrou o ganancioso ao crime da traição, por meio de trinta moedas de prata. Mostra claramente o Senhor que também os males vêm de nós mesmos: É do coração que saem os maus pensamentos (Mt 15,19). É o que acontece àqueles que, por descuido, deixam sem cuidar as boas sementes naturais, conforme foi dito nos Provérbios: Como um campo, o homem sem juízo, e como uma vinha, o homem tolo. Se o deixares, tornar-se-á um deserto e encher-se-á de mato e ficará abandonado (Pr 24,30.31, LXX). A alma que, por tal falta de cuidado, permanece sem cultivo e abandonada, inevitavelmente produzirá espinhos e mato seco e sofrerá o que foi dito: Eu esperava vê-la produzir uvas, ela não deu senão uvas verdes (Is 5,4). Dela foi dito anteriormente: Eu plantei uma vinha de Sorec (ibid. 2), isto é, escolhida. Coisa parecida acha-se em Jeremias, que fala em nome de Deus: Eu que te havia plantado de plantas escolhidas, todas de boa origem; como te transformaste em galhos ruins de uma videira estranha (Jr 2,22)?

 

INTERROGAÇÃO 76

Se é lícito mentir por utilidade.

 

Resposta

A decisão do Senhor não o permite, uma vez que disse vir do diabo a mentira (Jo 8,44), sem fazer diferenças em assuntos de mentira. Da mesma forma o Apóstolo o confirma, ao escrever: Também o que luta nos jogos públicos não é premiado, se não tiver lutado segundo as regras (2Tm 2,5).

 

INTERROGAÇÃO 77

Que é dolo, e que é malignidade?

 

Resposta

A malignidade é, a meu ver, a maldade antiga e escondida dos costumes; o engano, porém, é o esforço em armar armadilhas, isto é, quando alguém fingiu um bem qualquer e o apresenta a outra pessoa, como isca, e assim lhe arma emboscadas.

 

 

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 78

Quem é inventor de maldades?

 

Resposta

Aqueles que, além dos males habituais e conhecidos de muitos, inventam e encontram ainda outros.

 

INTERROGAÇÃO 79

Como corrigir alguém que é com frequência surpreendido a tratar com dureza um irmão?

 

Resposta

O acontecimento vem, a meu ver, da falsa ideia de ser melhor ou da tristeza por causa dos erros daqueles que deviam agir bem. Diante de um acontecimento incômodo e contrário ao bem que esperava, a alma, não sei como, é atingida com maior força. É preciso, então, maior cuidado, a fim de, no primeiro caso, segurarmos o vício do orgulho; no segundo, antes que cheguemos à revolta, demonstremos compaixão, com conselhos e avisos. Se, porém, este tratamento foi sem efeito, por causa da maldade do vício escondido, por fim, usemos de modo correto a ocasião da força da revolta, unida à compaixão, para a utilidade e melhora do pecador.

 

INTERROGAÇÃO 80

Por que, de certo modo, faltam a nossa mente bons pensamentos e cuidados agradáveis a Deus, e como evitaremos isto?

 

Resposta

Se Davi disse: Pegou no sono de tristeza a minha alma (Sl 118,28) é bem evidente que isto acontece devido à preguiça e à falta de sentimento da alma. À alma atenta e lúcida não podem faltar a preocupação agradável a Deus e os bons pensamentos; ao contrário, vê que ela é que lhes falta. Se os olhos do corpo não bastam para a observação, até mesmo de poucas obras de Deus, nem por ter visto uma vez se enchem, mas ainda que sempre olhem a mesma coisa, não se cansam de olhar, com maior razão os olhos da alma, se atentos e despertos, são insuficientes para a observação das maravilhas e das decisões de Deus. Vossas decisões, diz-se, são profundas como o mar (Sl 35,7) e em outra parte: Conhecimento assim maravilhoso me supera, ele é tão alto que não posso alcançá-lo (Sl 138,6) etc. Se faltarem à alma os bons pensamentos, é claro que ainda precisa de luz; não significa isto que falte o que dá luz, e sim, que dorme aquele que deve receber a luz.

 

O que você destaca no texto?

O que você destaca na fala do seus irmão/ã?

Como serve para sua vida espiritual?

domingo, 19 de abril de 2026

309 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Interrogações 57 a 64

 

Edmar, Genisson, Kris, Nathalie, Demétrius, Frederick, Isaac, Silvia, Edson e Marisa.



309

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Interrogações 57 a 64

 

INTERROGAÇÃO 57

            Se alguém tiver um mau costume, um vício, que não consegue mudar, mesmo depois de ser avisado muitas vezes, deve ser punido ou é melhor mandá-lo embora?

 

Resposta

            Já foi dito em outro lugar que os pecadores devem ser levados à mudança de vida pela paciência, seguindo o exemplo do Senhor. Se o castigo e a correção de muitos não forem suficientes para sua volta a Deus, como aconteceu com o homem de Corinto, que ele seja considerado um estranho à fé. Para ninguém é seguro manter perto de si aquele que foi julgado pelo Senhor, porque o Senhor disse (Mt 5,29.30) que é melhor alguém entrar no reino com um olho só, com uma só mão, ou tendo perdido um pé do que tentar salvar um deles e ser jogado inteiro no inferno, onde há choro e ranger de dentes. E o Apóstolo afirma que um pouco de fermento faz crescer toda a massa (Gl 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 58

            Se é julgado apenas quem mentiu de propósito ou se também aquele que, por não saber, afirmou com toda a certeza alguma coisa que não era verdade.

 

Resposta

            É claro que o julgamento do Senhor cai até sobre os que pecam por não saber, quando diz: Aquele que, sem conhecer a vontade de seu Senhor, fizer coisas erradas, será castigado com poucos golpes (Lc 12,48). Por isso, um arrependimento verdadeiro sempre traz uma esperança certa de perdão.

 

INTERROGAÇÃO 59

            Se alguém planejar uma coisa e não a fizer, será julgado como mentiroso?

 

Resposta

            Se aquilo que ele planejava fazer é obrigatório, não será apenas julgado como mentiroso, mas também como teimoso, porque Deus sonda os corações e os rins (SI 7,10).

 

INTERROGAÇÃO 60

            Se alguém teve a ideia de fazer algo que desagradasse a Deus, e decidiu fazê-lo, será melhor desistir do mau propósito ou cometer pecado, por receio de se desmentir?

 

Resposta

            Como diz o Apóstolo: Não que sejamos capazes, por nossa conta, de ter algum pensamento que venha de nós mesmos (2Cor 3,5). O próprio Senhor declara: Nada posso fazer por mim mesmo (Jo 5,19) e: As palavras que eu digo a vocês não as digo por minha própria conta (Jo 14,10). Em outro lugar, diz: Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38), o Pai.

            Portanto, a pessoa deve se arrepender, em primeiro lugar, porque se atreveu a decidir qualquer coisa sozinha, já que nem mesmo o bem deve ser feito por vontade própria. Em segundo lugar, e principalmente, porque não teve dúvida em decidir algo que vai contra o que agrada a Deus.

            Vemos claramente que devemos mudar de ideia quando uma decisão pensada vai contra a ordem do Senhor. Isso aparece no apóstolo Pedro, que decidiu: Nunca lavarás os meus pés (Jo 13,8.9). Mas, depois que o Senhor afirmou: Se eu não te lavar, você não terá parte comigo, ele logo mudou de opinião e disse: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça.

 

 

INTERROGAÇÃO 61

            Se alguém não pode trabalhar, nem quer aprender os salmos, que fazer dele?

 

Resposta

            O Senhor disse da figueira que não dava frutos na história: Corte-a; por que ela ainda ocupa o terreno sem serventia? (Lc 13,7). É preciso, então, tomar providências sobre essa pessoa com todo o cuidado; se ela não aceitar, deve-se fazer o que foi ordenado sobre aquele que continua no pecado. Pois quem não faz nada de bom será julgado junto com o diabo e seus anjos.

 

INTERROGAÇÃO 62

            Que é preciso que alguém faça para ser condenado por ocultar o talento?

 

Resposta

            Quem guarda qualquer tipo de graça de Deus, para aproveitar sozinho e não para ajudar os outros, é condenado por esconder o seu talento.

 

INTERROGAÇÃO 63

            Que é preciso que alguém faça para ser condenado como os murmuradores contra os últimos?

 

Resposta

            Cada qual é condenado por seu próprio pecado; os murmuradores por causa da murmuração. Vários são muitas

vezes os motivos por que murmuram. Uns dizem que lhes faltam alimentos, porque são gulosos e fazem do ventre o seu deus; outros, que só receberam honras iguais aos últimos, dando assim mostras de inveja, que é a companheira do homicídio; outros, enfim, por quaisquer outras razões.

 

INTERROGAÇÃO 64

            Como Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar (Mt 18,6), que é escandalizar? E como nos acautelaremos a fim de não sofrermos esta horrível condenação?

 

Resposta

            Alguém escandaliza quando transgride a lei, por palavra ou obra, induzindo a outros a transgredi-la, como a serpente a Eva e Eva a Adão; ou ainda quando impede a realização da vontade de Deus, como Pedro ao Senhor, dizendo: Que Deus não permita isso, Senhor (Mt 16,22), e ouviu: Afasta-te de mim, Satanás, tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! (ibid. 23), ou quando incita o ânimo de um fraco para alguma coisa proibida, segundo o que escreveu o Apóstolo, com as palavras: Se alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? (ICor 8,10) e acrescentou: Se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu irmão uma ocasião de queda (ibid. 13).

            O escândalo tem muitas causas. Ou provém de quem escandaliza, ou é da parte do escandalizado que se origina o escândalo. E ainda aqui há outras diferenças; algumas vezes vem da malícia, outras da inexperiência deste ou daquele.

            Por vezes, numa conversa sincera, evidencia-se a maldade dos que se escandalizam; assim como nas ações.

            Se alguém, pois, pratica o mandamento de Deus, ou usa livremente do que está em seu poder, escandaliza-se quem se escandalizar. Quando, porém, os homens se ofendem e se escandalizam com o que é feito ou dito de acordo com o mandamento (como no Evangelho alguns, acerca do que o Senhor fazia ou dizia, segundo a vontade do Pai), então é bom lembrar-se de que o Senhor, quando se aproximaram os discípulos e disseram-lhe: Sabes que os fariseus se escandalizaram destas palavras que ouviram? respondeu-lhes: Toda a planta que meu Pai celeste não plantou, será arrancada pela raiz. Deixai-os; são cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala (Mt 15,12-14). Muitas coisas semelhantes encontram- se nos Evangelhos e foram ditas pelo Apóstolo.

            Quando, porém, alguém se ofende ou se escandaliza por coisas que estão em nosso poder, devem então vir à lembrança as palavras do Senhor a Pedro: Os filhos, então, estão isentos. Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar e lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares, abrirás a boca e encontrarás um estáter. Toma-o e dá-o por mim e por ti (Mt 17,25.26); e também estas palavras que o Apóstolo escreveu aos coríntios: Jamais comerei carne, para não escandalizar o meu irmão (ICor 8,13), e ainda: Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem outra coisa que para teu irmão possa ser uma ocasião de queda (Rm 14,21), de escândalo, de fraqueza. O preceito do Senhor mostra quão terrível é, no que parece estar em nosso poder, desprezar o irmão, que por isto se escandaliza; proíbe completamente qualquer espécie de escândalo, dizendo: Guar- ãai-vos de menosprezar um só destes pequenos! Porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus (Mt 18,10).

            O Apóstolo também o atesta, dizendo: Cuidai em não pôr um tropeço diante de vosso irmão ou dar-lhe uma ocasião de queda (Rm 14,13); ou reprime com maior veemência e palavras mais abundantes este absurdo, dizendo: Se alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? Assim a tua consciência fará cair o fraco, um irmão pelo qual morreu Cristo (ICor 8,10.11). E acrescentou: Assim, pecando vós contra os irmãos e ferindo a sua débil consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu irmão uma ocasião de queda (ibid. 12.13). Em outro lugar diz: Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar o trabalho? (ICor 9,6), e acrescenta a seguir: Não temos feito uso deste direito; sofremos tudo para não pôr algum obstáculo ao Evangelho de Cristo (ibid. 12).

            Se foi demonstrado como é terrível nas coisas que dependem de nós escandalizar um irmão, que dizer dos que escandalizam fazendo ou falando coisas proibidas? Principalmente, quando o que dá escândalo parece ter uma ciência mais vasta ou está estabelecido num grau sacerdotal. Deverá então estar à frente dos outros como regra e modelo; se negligenciar o mínimo que seja do que está escrito ou fizer uma coisa proibida, ou omitir algum preceito, ou, em resumo, deixar passar em silêncio quaisquer coisas destas, é o bastante para ser severamente julgado, de modo que do sangue do que pecou, como foi dito, ser-lhe-á pedida conta (Ez 3,18).

 

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2.      Como serve para sua vida espiritual?

3.      O que você destaca na fala do seu irmão?

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Liberdade do Claustro: O Resgate Evangélico da Vida Monástica


A Liberdade do Claustro: O Resgate Evangélico da Vida Monástica

Por: Irmão Rev. Edson - Mosteiro Terra Santa — OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores

Para muitos, a Reforma Protestante do século XVI é vista erroneamente como o fim da vida monástica. No entanto, para nós que caminhamos sob a égide da **OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores**, a história revela uma verdade mais profunda: a Reforma não destruiu o mosteiro; ela o libertou para ser, verdadeiramente, um lugar de proclamação do Evangelho e intercessão pura.
Para compreendermos nossa identidade como eremitas de vocação protestante, devemos olhar para dois marcos fundamentais que fundamentam nossa prática no **Mosteiro Terra Santa**: o tratado de Martinho Lutero de 1521 e o Artigo XXVII da Confissão de Augsburgo.

1. 1521: O Grito de Liberdade de Wartburg
Enquanto estava refugiado no Castelo de Wartburg, Lutero escreveu *De Votis Monasticis* (Sobre os Votos Monásticos). Sua intenção não era abolir a vida comunitária, mas atacar a teologia que transformava o voto em uma "segunda salvação".
Lutero argumentou que o valor de um cristão não reside no seu estado de vida, mas na sua fé em Cristo. Para ele, o mosteiro deveria ser uma **escola de caridade**. A clausura não pode ser uma corrente que aprisiona a consciência, mas um espaço voluntário onde o cristão se retira para **orar**, estudar e exercer o ministério da intercessão. No **Mosteiro Terra Santa**, vivemos essa liberdade: estamos aqui não para "comprar" a salvação, mas porque a gratidão pela Graça nos impele a uma vida de entrega total.

2. A Confissão de Augsburgo e o Equilíbrio Teológico
O Artigo XXVII da nossa Confissão de Fé (1530) é um documento de equilíbrio precioso para a **OESI**. Ele corrige o erro de elevar os votos monásticos acima do Batismo, lembrando-nos que:

 * **A Glória de Cristo é Central:** Nenhum esforço humano, nem mesmo o mais rigoroso silêncio eremítico, pode substituir o sacrifício de Jesus na Cruz.

 * **A Vocação é para o Serviço:**
 A vida monástica é uma ferramenta específica dentro do sacerdócio universal de todos os crentes.

 3. A Vida Monástica na OESI: O Modelo de Ji-Paraná
Qual é, então, o papel do eremita intercessor hoje? Baseados nestes textos, defendemos uma vida monástica que:

 1. Exalte a Justificação pela Fé:
 O mosteiro é o lugar onde reconhecemos diariamente nossa necessidade de **arrependimento** e da graça divina.

 2. Seja um Centro de Intercessão:
 Como membros da **OESI**, nossa reclusão serve para sustentar a Igreja invisível através da oração contínua, agindo como sentinelas espirituais.

 3. Integre a Espiritualidade Cristã:
 Unimos a disciplina contemplativa ao rigor teológico reformado e metodista, focando naquilo que é essencial para a saúde da alma.
Ao lado da Irmã Marisa, reafirmamos que o **Mosteiro Terra Santa — OESI — Ordem Evangélica dos Servos Intercessores** é uma célula de resistência espiritual. Não fugimos do mundo; nos retiramos dele para, sob a luz da *Theologia Crucis*, enxergar melhor as dores da humanidade e apresentá-las ao Pai através da intercessão.
Que nossa vida seja um "Aleluia" constante, fundamentado não em nossos esforços, mas na promessa inabalável Daquele que ressuscitou por nós.

Paz e Bem.

**Referências Acadêmicas:**
 * LUTERO, Martinho. *Sobre os Votos Monásticos* (1521).
 * *Confissão de Augsburgo*, Artigo XXVII: "Dos Votos Monásticos".
 * MELANCHTHON, Filipe. *Apologia da Confissão de Augsburgo*.