sábado, 15 de agosto de 2026

321 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 236-255

 


321

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 236-255

 

INTERROGAÇÃO 236

Como aqueles que foram julgados aptos para aprender os quatro Evangelhos devem receber esta graça?

RESPOSTA

O próprio Senhor afirmou que “daquele a quem muito se deu, muito será exigido” (Lc 12,48). Por isso, quem recebe esse privilégio deve ter ainda mais temor e zelo, como exorta o Apóstolo: “Sendo seus colaboradores, exortamo-vos a não receberdes a graça de Deus em vão” (2Cor 6,1). Isso se cumprirá se crerem na palavra do Senhor quando diz: “Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de as praticardes” (Jo 13,17).

 

INTERROGAÇÃO 237

Qual é a alma que conseguirá se guiar segundo a vontade de Deus?

RESPOSTA

É aquela que abraça de coração o ensinamento do Senhor: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Afinal, se a pessoa não começar por renunciar a si mesma e carregar a sua cruz, ela encontrará em si mesma — ao tentar avançar — inúmeros obstáculos que a impedirão de prosseguir.

 

INTERROGAÇÃO 238

É possível salmodiar, ler ou dedicar-se às palavras de Deus de modo totalmente ininterrupto, sem qualquer intervalo de tempo, já que a todos sobrevêm as necessidades corporais básicas?

RESPOSTA

O Apóstolo estabelece a regra ao dizer: “Faça-se tudo com decência e ordem” (1Cor 14,40). Por isso, deve-se priorizar o cuidado com a sobriedade e a boa disciplina, ajustando cada atividade ao tempo e ao lugar adequados.

 

INTERROGAÇÃO 239

O que é o bom e o mau tesouro?

RESPOSTA

O bom tesouro é a prudência orientada para a prática de todas as virtudes em Cristo, tendo em vista a glória de Deus. O mau tesouro, por sua vez, é a astúcia voltada para o mal, aplicada às coisas proibidas pelo Senhor. É a partir desse tesouro interno — como ensina a palavra do Senhor — que cada pessoa retira e manifesta o bem ou o mal em suas ações e palavras.

 

INTERROGAÇÃO 240

Por que se diz que é larga a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição?

RESPOSTA

O Senhor, em seu grande amor pela humanidade, utiliza termos e imagens bem conhecidos para expor os ensinamentos da verdade. Assim como, em um terreno físico, qualquer desvio da rota correta abre uma área imensa e sem limites, diz-se também que aquele que se desvia do caminho do Reino dos Céus cai na grande vastidão do erro. Acredito que “largo” e “espaçoso” expressam a mesma ideia, pois os autores profanos costumam chamar de “largo” o que é “espaçoso”. Portanto, o lugar do erro é espaçoso — ou seja, largo —, e o seu fim é a perdição.

 

INTERROGAÇÃO 241

Por que é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida? E como se entra por ele?

RESPOSTA

Também aqui, “estreito” e “apertado” não significam coisas diferentes. Na verdade, a palavra “apertado” indica algo extremamente estreito — como quando o caminho se afunila até comprimir o viajante de ambos os lados, tornando perigoso qualquer desvio, seja para a direita, seja para a esquerda. É como atravessar uma ponte estreita: para qualquer lado que a pessoa se inclinar, cairá no rio que corre abaixo. Por isso diz Davi: “Junto ao caminho colocam tropeços” (Sl 139,6). Portanto, quem se propõe a entrar na vida pelo caminho estreito e apertado deve acautelar-se para não se desviar nem declinar dos mandamentos do Senhor, cumprindo o que foi escrito: “Sem te apartares nem para a direita, nem para a esquerda” (Dt 17,11).

 

INTERROGAÇÃO 242

O que quer dizer: “Amai-vos reciprocamente com caridade fraterna”?

RESPOSTA

O amor que brota da verdadeira amizade traduz-se em um desejo sincero e uma afeição viva daquele que ama em relação à pessoa amada. Para que o amor entre os irmãos não seja algo frio ou superficial, mas sim corajoso, dedicado e fervoroso, foi dito: “Amai-vos uns aos outros com amor terno e fraternal” (Rm 12,10).

 

INTERROGAÇÃO 243

O que quer dizer o Apóstolo com as palavras: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26), visto que diz em outra parte: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31)?

RESPOSTA

Julgo que, neste trecho, o Apóstolo fala imitando o procedimento do Senhor. No Evangelho, o Senhor primeiro diz: “Foi dito aos antigos...” e, a seguir, acrescenta: “Eu, porém, vos digo...”. Da mesma forma, o Apóstolo aqui primeiro recorda o que fora dito outrora aos antigos: “Irai-vos e não queirais pecar” (Sl 4,5), para logo depois acrescentar, por autoridade própria, o que de fato nos convém como cristãos: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31).

 

INTERROGAÇÃO 244

O que significa: “Deixai agir a ira” (Rm 12,19)?

RESPOSTA

Significa não resistir ao mal, conforme está escrito: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39); ou ainda: “Se alguém vos perseguir numa cidade, fugi para outra” (Mt 10,23).

 

INTERROGAÇÃO 245

O que significa ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16)?

RESPOSTA

É prudente como a serpente aquele que transmite a doutrina com circunspecção, considerando as capacidades do público e o caminho mais eficaz para persuadir os ouvintes. Por sua vez, é simples como a pomba aquele que nem sequer cogita se vingar de quem lhe arma ciladas, mas persevera em praticar o bem, segundo o preceito do Apóstolo: “Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Ts 3,13). O Senhor prescreveu essa atitude aos discípulos ao enviá-los a pregar, pois eles precisavam tanto de sabedoria para persuadir quanto de paciência diante dos perseguidores. Assim como a serpente, outrora, soube adotar uma postura acessível e uma fala persuasiva para afastar o ser humano de Deus e induzi-lo ao pecado, nós também devemos escolher a expressão, o tom, o momento e o lugar adequados, empregando nossas palavras com discernimento para afastar as pessoas do pecado e convertê-las a Deus. De resto, cumpre-nos conservar a paciência nas provações até o fim, como está escrito.

 

INTERROGAÇÃO 246

O que quer dizer: “A caridade nada faz de inconveniente” (1Cor 13,5)?

RESPOSTA

É o mesmo que dizer: a caridade não deixa de ser o que ela é. A própria identidade da caridade consiste no conjunto de características enumeradas pelo Apóstolo nesta mesma passagem.

 

INTERROGAÇÃO 247

A Escritura diz: “Não vos glorieis e não faleis coisas elevadas” (1Sm 2,3). Contudo, o Apóstolo confessa em um trecho: “O que vou dizer na certeza de poder gloriar-me, não o digo sob a inspiração do Senhor, mas como num acesso de delírio” (2Cor 11,17) e “Tornai-me insensato” (2Cor 12,11); enquanto em outro lugar afirma: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (2Cor 10,17). Afinal, o que é gloriar-se no Senhor e de que maneira se deve gloriar?

RESPOSTA

Nesses textos, revela-se abertamente a luta exigida do Apóstolo contra as falsas pretensões dos seus opositores. Ele não diz tais coisas para se autoproclamar ou se recomendar, mas para conter a ousadia, a arrogância e o orgulho de alguns. Gloriar-se no Senhor, por sua vez, consiste em alguém nunca atribuir a si próprio as suas boas obras, mas sim ao Senhor, dizendo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). Por outro lado, pode-se considerar dois tipos de glorificação proibida: A vaidade no mal: De acordo com o que diz a Escritura: “O pecador gloria-se dos desejos de sua alma” (Sl 9,25) e “Por que te glorias de tua malícia, ó prepotente?” (Sl 51,3). O orgulho nas boas obras: Ocorre quando as pessoas, por desejarem ser louvadas em razão do bem que praticam, gloriam-se de seus próprios atos. Esses podem ser considerados sacrílegos, pois se apropriam dos dons de Deus e roubam para si a glória que pertence unicamente a Ele.

 

INTERROGAÇÃO 248

Se é o Senhor quem dá a sabedoria e é de sua face que procedem a ciência e a prudência (Pr 2,6); e se, pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria e a outro a palavra de ciência (1Cor 12,8); por que o Senhor repreende os discípulos dizendo: “Também vós estais ainda sem inteligência?” (Mt 15,16)? E por que o Apóstolo acusa alguns de serem insensatos (Rm 1,31)?

RESPOSTA

Quem conhece a bondade de Deus — que “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4) — e compreende como o Espírito Santo atua na distribuição e na eficácia dos dons divinos, reconhece que a demora em alcançar a inteligência espiritual não provém de qualquer limitação do Benfeitor, mas sim da incredulidade dos próprios beneficiados. Por isso, censura-se com razão o insensato: ele age como alguém que fecha os olhos diante do sol nascente para continuar vivendo nas trevas, recusando-se a olhar para cima a fim de ser iluminado.

 

INTERROGAÇÃO 249

O que é o “honesto” e o que é o “justo”?

RESPOSTA

Julgo ser honesto aquilo que é conveniente e devido ao superior por parte dos inferiores, em razão de sua precedência; e justo, o que é dado a cada um segundo o valor e a importância de suas obras. Assim, o honesto abrange somente o dever de gratidão e de recompensa, enquanto o justo inclui o exame rigoroso e a punição do mal.

 

INTERROGAÇÃO 250

Como alguém dá o que é santo aos cães ou lança pérolas aos porcos? E como se evita o que vem a seguir: “para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem” (Mt 7,6)?

RESPOSTA

O Apóstolo nos explica isso claramente ao acrescentar o que dissera contra os judeus: “Tu, que te glorias da Lei, desonras a Deus pela transgressão da Lei” (Rm 2,23). Portanto, o Senhor proíbe aqui o ultraje que cometemos contra as suas santas palavras por meio de nossas próprias transgressões. É por causa dessas faltas que aqueles que estão de fora passam a julgar desprezíveis os ensinamentos do Senhor; em consequência, insurgem-se contra nós com maior audácia e, de certo modo, despedaçam o transgressor cobrindo-o de injúrias e acusações.

 

INTERROGAÇÃO 251

Por que o Senhor, em certo momento, proíbe levar bolsa e alforje no caminho (Lc 10,4), mas em outro diz: “Quem tem bolsa, tome-a, e aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda a sua capa para comprar uma” (Lc 22,36)?

RESPOSTA

O próprio Senhor o explica ao acrescentar: “É necessário que se cumpra em mim este oráculo: 'E foi contado entre os malfeitores'” (Lc 22,37). Logo após a profecia da espada se cumprir, Ele ordena a Pedro: “Embainha a tua espada, porque todos os que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Disso decorre que a frase “quem tem bolsa, tome-a” (ou “tomará”, como consta em muitos manuscritos) não é um mandamento, mas sim uma profecia. Por ela, o Senhor previu que os apóstolos, esquecendo-se temporariamente dos dons e da lei do Senhor, chegariam ao ponto de recorrer à espada. Fica evidente em muitas passagens que a Escritura usa frequentemente o modo imperativo no lugar da forma profética, como por exemplo: “Fiquem órfãos os seus filhos” e “Levante-se à sua direita um acusador” (Sl 108,9.6).

 

INTERROGAÇÃO 252

Qual é o pão cotidiano que fomos ensinados a pedir a cada dia?

RESPOSTA

É o alimento necessário à sustentação de nossa natureza na vida diária. Quando alguém trabalha recordando-se do Senhor — que disse: “Não vos preocupeis por vossa vida: que comeremos? que beberemos?” (Mt 6,25) — e do Apóstolo, que ordena trabalhar não para o proveito próprio, mas para ter o que dar ao necessitado por causa do mandamento (pois “o operário é digno do seu alimento”), essa pessoa não confia em si mesma, mas pede a Deus o pão cotidiano. Assim, reconhecendo a própria indigência, ela receberá o necessário das mãos daquele que, após ter sido provado, foi encarregado de distribuir diariamente o sustento, conforme se lê: “Repartia-se, então, a cada um deles segundo a sua necessidade” (At 4,35).

 

INTERROGAÇÃO 253

O que é o talento e como devemos multiplicá-lo?

RESPOSTA

Julgo que esta parábola foi dita para representar todos os dons concedidos por Deus. Cada pessoa, seja qual for o dom que tenha recebido, deve multiplicá-lo empregando-o para fazer o bem e ser útil aos outros, pois não há ninguém que não tenha participado da bondade de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 254

Qual é a mesa de banqueiros onde se deve, como disse o Senhor, depositar o dinheiro?

RESPOSTA

As parábolas não descrevem perfeitamente as realidades espirituais em si mesmas, mas conduzem a mente até elas. Assim como é costume depositar dinheiro com banqueiros para render juros, aquele que recebe um dom qualquer deve partilhá-lo com quem necessita — ou agir segundo o que o Apóstolo disse a respeito da doutrina: “Confia-o a homens fiéis, que por sua vez sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2). Isso se aplica não apenas ao ensino da fé, mas a qualquer recurso ou carisma, pois alguns possuem os meios e outros recebem a perícia para administrá-los.

 

INTERROGAÇÃO 255

Para onde foi mandado ir aquele a quem o Senhor disse: “Toma o que é teu e vai-te” (Mt 20,14)?

RESPOSTA

Provavelmente para o mesmo lugar para onde serão enviados aqueles que estiverem à esquerda, condenados pela ausência de boas obras. Afinal, aquele que tem inveja do próprio irmão encontra-se em estado pior do que aquele que simplesmente nada faz. É por isso que a Escritura costuma, em diversas passagens, associar diretamente a inveja ao homicídio (Rm 1,29; Gl 5,21).

 

 

 

 

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

320 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 223-235

 

Nathalia, Demétrius, Wender, Liliam, Genisson, Isaac, Marisa e Edson 


Nathalia, Demétrius, Wender, Liliam, Genisson, Isaac, Marisa e Edson 




Nathalia, Demétrius, Wender, Liliam, Genisson, Isaac, Marisa e Edson 

320

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 223-235

 

Interrogação 223

O Senhor disse: “Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas” (Mt 6,17-18). Se alguém quiser jejuar por um motivo agradável a Deus — como os santos muitas vezes fizeram — e for visto por outras pessoas, mesmo sem querer, o que deve fazer?

      RESPOSTA

A ordem do Senhor dirige-se àqueles que cumprem os mandamentos buscando a aprovação humana, a fim de curá-los do vício de querer agradar aos homens. Por outro lado, quando a observância do mandamento busca a glória de Deus, torna-se difícil escondê-la por sua própria natureza, se a pessoa realmente ama a Deus. É como o próprio Senhor declarou: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma vela para colocá-la debaixo de um cesto, mas sim no candelabro...” (Mt 5,14-15).

 

INTERROGAÇÃO 224

Será que, ainda nos dias de hoje, algumas pessoas começam a servir a Deus desde cedo (na primeira hora) e outras só bem mais tarde (na última hora)? Quem são essas pessoas?

 

RESPOSTA

Pelas Sagradas Escrituras, todos nós sabemos que existem dois tipos de pessoas: Os que começam cedo: Aqueles que, como diz o Apóstolo, aprenderam os ensinamentos de Deus desde a infância. Os que chegam mais tarde: Aqueles que, como o centurião Cornélio, têm uma boa intenção natural para fazer o bem, mas demoram para alcançar a fé completa porque não tiveram quem os ensinasse. Afinal, como o Apóstolo Paulo escreveu: “Como vão crer em alguém de quem nunca ouviram falar?” (Rm 10,14). Sendo assim, se existirem pessoas que — do mesmo jeito que Cornélio — não buscam o mal, têm vontade de melhorar e praticam com sinceridade o pouco de bem que já conhecem, Deus dará a elas a mesma graça que deu a Cornélio. Deus não vai julgá-las nem chamá-las de preguiçosas pelo tempo que passou, porque essa demora não foi culpa delas. Deus se agrada ao ver o bom desejo e o empenho que elas colocam em praticar o bem a partir do momento em que aprendem a verdade, dedicando-se com mais cuidado até o fim.

 

INTERROGAÇÃO 225

Como nos tornaremos dignos da promessa do Senhor: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali no meio deles” (Mt 18,20)?

 

RESPOSTA

Quando as pessoas se reúnem em nome de alguém, elas precisam entender qual é o objetivo de quem as chamou e se adaptar a ele. Só assim serão bem recebidas e não serão acusadas de falsidade ou descuido.

Por exemplo: se quem convida tem o objetivo de fazer uma colheita, os convidados se preparam para colher; se o objetivo é construir, eles se preparam para construir. Da mesma forma, aqueles que foram chamados pelo Senhor devem se lembrar do que escreveu o Apóstolo Paulo: “Peço-vos que leveis uma vida digna do chamado que recebestes, com toda humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros com amor, e fazendo de tudo para manter a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4,1-4). O próprio Senhor explica isso de forma ainda mais clara quando faz esta promessa: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23). Portanto, assim como Deus faz morada na vida de quem obedece aos seus mandamentos, Ele também está no meio de duas ou três pessoas que se alinham à vontade Dele. Já aqueles que se reúnem sem viver de modo digno e sem a intenção de cumprir a vontade de Deus — embora digam que estão reunidos no nome do Senhor —, ouvirão Dele esta repreensão: “Por que me chamais: 'Senhor, Senhor...', e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6,46).

 

INTERROGAÇÃO 226

O Apóstolo Paulo disse: “Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando somos caluniados, consolamos” (1Cor 4,12-13). Como a pessoa amaldiçoada deve abençoar, e como a pessoa caluniada deve consolar?

 

RESPOSTA

Acredito que, de modo geral, o Apóstolo nos ensina com o seu próprio exemplo a termos paciência com todos e a pagar o mal com o bem. Não devemos agir assim apenas com quem nos amaldiçoa, mas com qualquer pessoa que pratique o mal contra nós, cumprindo o que está escrito: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Além disso, parece que a Escritura não usa a palavra “consolar” no sentido comum do dia a dia (como apenas dar um abraço de carinho), mas no sentido de ajudar o coração da pessoa a se convencer da verdade. É nesse mesmo sentido que a Bíblia usa a palavra nas seguintes passagens: “Consolai o meu povo, diz o vosso Deus” (Is 40,1); Quando o Apóstolo diz: “Desejo muito ver-vos para compartilhar com vocês algum dom espiritual... ou melhor, para nos encorajarmos juntos pela fé que temos em comum” (Rm 1,11-12); E em outra carta: “Mas Deus, que consola os humildes, nos consolou com a chegada de Tito” (2Cor 7,6).

 

INTERROGAÇÃO 227

A pessoa deve contar para os outros o que pensa, ou deve guardar só para si quando acha que está agradando a Deus com aquilo?

 

RESPOSTA

Devemos nos lembrar da palavra de Deus pelo profeta Isaías, que diz: “Ai daqueles que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes na sua própria opinião!” (Is 5,21). Também devemos nos lembrar do Apóstolo Paulo, quando escreveu: “Desejo muito ver vocês para compartilhar algum dom espiritual e fortalecê-los — ou melhor, para nos encorajarmos juntos pela fé que temos em comum” (Rm 1,11-12). Por isso, entendemos que devemos conversar com irmãos que tenham a mesma fé que nós e que já demonstraram ter maturidade e prudência. Fazemos isso para corrigir o que estiver errado, confirmar o que estiver correto e, assim, não cair no erro de nos acharmos sábios aos próprios olhos.

 

INTERROGAÇÃO 228

Será que devemos fazer a vontade das pessoas que se escandalizam em todas as situações, ou existe alguma coisa que não devemos fingir ou deixar de fazer, mesmo que alguns se escandalizem?

 

RESPOSTA

Quando fomos perguntados sobre isso anteriormente, mostramos, no momento oportuno, que existem diferenças bem claras nessas situações, e tratamos desse assunto com toda a atenção possível.

 

Observação: Na Interrogação 228, São Basílio Magno está se referindo principalmente à Interrogação 84 das Regras Curtas. Nessas interrogações anteriores, Basílio faz uma distinção clara sobre o escândalo: Quando o ato envolve um mandamento de Deus: Não se deve abrir mão da obediência a Deus para agradar a quem se escandaliza. A vontade de Deus e os Seus mandamentos vêm sempre em primeiro lugar. Quando se trata de coisas neutras (ou costumes da comunidade): Deve-se ter caridade e ceder, evitando fazer aquilo que possa fazer o irmão fraco tropeçar ou se chatear sem necessidade (seguindo o princípio de São Paulo em 1Coríntios 8 e 10). Portanto, quando ele diz na Interrogação 228 que "já mostrou haver nítidas diferenças nestas questões", ele remete o leitor ao ensinamento de que não se pode transgredir a lei de Deus para evitar um escândalo, mas deve-se ter paciência e renúncia nas coisas secundárias para não ferir a consciência do próximo.

 

INTERROGAÇÃO 229

Devemos vencer a vergonha e confessar a todas as pessoas as ações proibidas que praticamos, ou apenas a algumas? E a quem devemos confessar?

 

RESPOSTA

A confissão dos pecados deve seguir a mesma regra que a revelação das doenças do corpo. As pessoas não mostram suas enfermidades físicas para qualquer um, nem para todos, mas apenas para aqueles que são peritos em curar. Da mesma forma, a confissão dos pecados deve ser feita àqueles que têm a capacidade de curar, como está escrito: “Vós, que sois fortes, deveis carregar as fraquezas dos fracos” (Rm 15,1) — isto é, com os vossos cuidados, ajudai a eliminá-las.

 

INTERROGAÇÃO 230

O que significa culto e culto racional?

 

RESPOSTA

A meu ver, o culto é a dedicação intensa, constante e firme àquilo que se adora. O Apóstolo Paulo nos mostra a diferença entre o culto racional e o não racional quando diz, por um lado: “Sabeis que, quando éreis pagãos, éreis levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados” (1Cor 12,2); e, por outro lado: “Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12,1). Quem vai para onde é levado presta um culto irracional, porque não é guiado pela razão, mas sim movido por impulsos e pela vontade de outros. Essa pessoa segue sem pensar os desejos de quem a guia, e não o que ela própria quer consciente e sabiamente. Já quem segue a reta razão e uma boa vontade, com grande cuidado e buscando sempre praticar em tudo o que agrada a Deus, cumpre o mandamento do culto racional. Vive assim aquele que diz: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 118,105), e também: “Os teus ensinamentos são os meus conselheiros” (Sl 118,24).

 

INTERROGAÇÃO 231

Se um irmão, ou até mesmo um sacerdote, me prejudica e age como meu inimigo, é permitido praticar com ele os mandamentos de Deus que falam sobre como tratar os inimigos?

 

RESPOSTA

O Senhor, ao dar os mandamentos sobre como tratar os inimigos, não fez distinção sobre quem é o inimigo nem sobre o tipo de inimizade. Pelo contrário, Ele mostrou que, para aqueles que ocupam uma posição superior, o mesmo pecado é ainda mais grave, ao dizer: “Por que olhas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7,3). É preciso ter cuidado e atenção principalmente com esses, ou seja, com os que parecem ter uma posição mais elevada. Devemos ter com eles a devida consideração, seja consolando, seja repreendendo com a paciência necessária. Cumprindo tudo o mais segundo o mandamento do Senhor, permaneçamos irrepreensíveis também na forma de agir com eles.

 

INTERROGAÇÃO 232

Se uma pessoa for ofendida por outra, não contar para ninguém por paciência e mansidão, e preferir deixar o assunto para o julgamento de Deus, ela está agindo como Deus quer?

 

RESPOSTA

O Senhor disse, por um lado: “Se tendes algum ressentimento contra alguém, perdoai” (Mc 11,25). E, por outro lado: “Se o teu irmão pecar, vai e repreende-o a sós com ele. Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão. Se não te ouvir, leva contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão se resolva pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Se ele se recusar a ouvi-los, dize-o à Igreja; e se recusar ouvir também a Igreja, considera-o como um pagão ou um cobrador de impostos” (Mt 18,15-17). Por isso, a pessoa ofendida deve mostrar o fruto da paciência orando a Deus por quem foi injusto, com amor verdadeiro e dizendo: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,60), para não cair em julgamento por se irar contra o seu irmão. No entanto, é preciso aconselhar e corrigir quem cometeu a ofensa, para libertá-lo da ira de Deus. Se a pessoa que foi ofendida se omitir, ficar calada e usar a própria paciência como desculpa, ela comete um pecado duplo: Primeiro, porque desobedece ao mandamento que diz: “Repreende com firmeza o teu próximo, para que não te tornes culpado por causa dele” (Lv 19,17). Assim, torna-se cúmplice do pecado ao se calar. Segundo, porque deixa perecer no erro aquele irmão que poderia ter sido salvo pela correção, como o Senhor ordenou.

 

INTERROGAÇÃO 233

Se faltar a uma pessoa apenas uma das boas obras, será que por causa disso ela não vai se salvar?

 

RESPOSTA

Embora existam muitas passagens no Antigo e no Novo Testamento que nos mostram a resposta para isso, penso que para quem tem fé basta lembrar do que o Senhor disse a Pedro. Afinal, Pedro tinha praticado tantas e tão grandes boas obras, e já tinha recebido elogios e bênçãos da parte do Senhor. No entanto, por causa de uma única coisa em que pareceu desobedecer — e ele não fez isso por preguiça ou desprezo, mas por respeito e honra ao Senhor —, apenas por esse detalhe ouviu de Jesus: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8).

 

INTERROGAÇÃO 234

Como uma pessoa anunciará a morte do Senhor?

 

RESPOSTA

Como o próprio Senhor ensinou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). E como o Apóstolo declarou ao afirmar: “O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Nós já prometemos isso antes do nosso batismo, pois a Escritura diz: “Todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte” (Rm 6,3). E o Apóstolo acrescenta, explicando o que significa ser batizado na morte do Senhor: “O nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído e não sejamos mais escravos do pecado” (Rm 6,6). Portanto, livres do amor excessivo a esta vida, tornamo-nos dignos do testemunho do Apóstolo, que diz: “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Assim, poderemos dizer com toda a confiança: “Vem o príncipe deste mundo, e ele não tem nenhum poder sobre mim” (Jo 14,30).

 

INTERROGAÇÃO 235

Se é útil aprender bem e em detalhes muitas coisas das Escrituras.

 

RESPOSTA

Existem duas categorias principais de pessoas, conforme os diferentes dons de Deus: aqueles que lideram os outros e aqueles que têm o dever de ouvir e obedecer. Por isso, penso que aquele que é responsável por guiar e cuidar de muitos deve saber e conhecer exatamente tudo o que é necessário para todos, a fim de ensinar a vontade de Deus e mostrar a cada um o seu dever. Já os demais devem se lembrar do que diz o Apóstolo: “Ninguém tenha de si mesmo uma opinião maior do que deve ter, mas pense de forma modesta, de acordo com a medida da fé que Deus lhe deu” (Rm 12,3). Esses devem aprender com dedicação aquilo que diz respeito às suas próprias responsabilidades e colocá-lo em prática, sem se preocupar com o restante. Assim, se tornarão dignos de ouvir do Senhor: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel no pouco, eu te confiarei muito” (Mt 25,21).

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

domingo, 19 de julho de 2026

319 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 205-222

 

Demétrius, Victor Hugo, Kris, Leopoldo e Edson




319

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 205-222

 

 

INTERROGAÇÃO 205

Quem são os "pobres de espírito" mencionados em Mateus 5,3?

 

Resposta O Senhor diz que as palavras que Ele nos transmite são "espírito e vida" (Jo 6,63) e que o Espírito Santo nos ensinará tudo o que Ele nos disse (Jo 14,26), pois o Espírito não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir do Pai (Jo 16,13). Portanto, "pobres de espírito" são aqueles que se tornaram pobres motivados unicamente pela doutrina do Senhor, que ordenou: "Vai, vende os teus bens, dá-os aos pobres" (Mt 19,21). No entanto, se alguém aceitar a pobreza que lhe sobrevier por qualquer outra circunstância da vida, mas a orientar para a vontade do Senhor — a exemplo de Lázaro —, essa pessoa também não está excluída dessa bem-aventurança.

 

INTERROGAÇÃO 206

O Senhor ordena que não nos inquietemos com o que comeremos, beberemos ou vestiremos (Mt 6,31). Até onde vai esse mandamento e como devemos praticá-lo?

 

Resposta Este mandamento, como todos os outros do Senhor, estende-se até o momento da morte (cf. Fl 2,8), pois o próprio Senhor obedeceu até à morte. A prática desse mandamento se realiza por meio da confiança plena em Deus. Após proibir a ansiedade, o Senhor nos dá uma promessa de segurança, ao declarar: "Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso" (Mt 6,32). Assim era o Apóstolo, que dizia: "Sentimos dentro de nós a sentença de morte; isso aconteceu para que aprendêssemos a não confiar em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2 Coríntios 1,9). Pela sua disposição e prontidão de espírito, ele morria todos os dias; contudo, era preservado pela bondade de Deus. Por isso, afirmava com plena confiança: "Somos vistos como quem está morrendo, embora estejamos vivos" (2 Coríntios 6,9). Esse propósito é fortalecido por um zelo ardente e por um desejo insaciável de cumprir os mandamentos do Senhor. Quando esses sentimentos predominam em alguém, eles não permitem que a pessoa se distraia com as preocupações e necessidades do corpo.

 

INTERROGAÇÃO 207

Uma vez que não devemos nos inquietar com o nosso próprio sustento, e considerando que há outro mandamento que diz: "Trabalhai, não pela comida que perece" (Jo 6,27), seria supérfluo trabalhar?

 

Resposta O próprio Senhor explicou o sentido desse mandamento em outras passagens.

Primeiramente, ao proibir a preocupação com o sustento — dizendo: "Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso" (Mt 6,31-32) —, Ele nos ordenou: "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6,33). Ele deixou claro que esse Reino deve ser buscado por meio de ações dignas. Ao proibir o trabalho focado apenas na sobrevivência pessoal (alimento perecível), Ele nos ensinou a trabalhar pelo alimento que permanece para a vida eterna. O próprio Jesus revelou isso ao dizer: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou" (Jo 4,34). Sendo a vontade de Deus que alimentemos o faminto, que demos de beber ao sedento e que vistamos o que está nu (Mt 25,35-36), devemos imitar o Apóstolo Paulo, que afirmou: "Em tudo vos tenho mostrado que, trabalhando assim, convém acudir aos fracos" (At 20,35). Devemos obedecer ao que ele ensina: "Trabalhe, executando com as próprias mãos o que é bom, para ter com que socorrer os necessitados" (Ef 4,28). Portanto, esta instrução do Senhor, tanto no Evangelho quanto nos ensinamentos dos Apóstolos, nos mostra que é proibido viver preocupado consigo mesmo ou trabalhar apenas para o próprio benefício. Segundo o mandamento do Senhor, devemos trabalhar e nos dedicar às necessidades do próximo. Isso é especialmente importante porque o Senhor considera como feitas a Ele mesmo todas as atenções prestadas aos que sofrem, prometendo, por causa disso, o Reino dos Céus.

 

NTERROGAÇÃO 208

A Ascese do silêncio contínuo é sempre algo bom?

 

Resposta A utilidade do silêncio depende do momento e da pessoa, como aprendemos nas Escrituras. Quanto ao momento: O profeta diz: "Por isso, o prudente se cala neste tempo, porque é tempo mau" (Amós 5,13); e o salmista afirma: "Porei um freio em minha boca enquanto o ímpio estiver diante de mim" (Salmo 39,1). Quanto à pessoa: O Apóstolo orienta que, se alguém estiver falando e outro receber uma revelação, o primeiro deve calar-se (1 Coríntios 14,30). Ele também instrui que as mulheres devem manter-se caladas nas assembleias (1 Coríntios 14,34). Além disso, para aqueles que não conseguem controlar a língua — e, portanto, falham em seguir o mandamento: "Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas apenas palavras boas que sirvam para a edificação da fé" (Efésios 4,29) —, o silêncio total é necessário. Essa prática deve ser mantida até que eles se curem do vício da fala imprudente. Assim, aprenderão, através da abstinência, o momento certo, o conteúdo adequado e a maneira correta de falar, para que suas palavras sejam, de fato, um benefício para quem as ouve.

 

INTERROGAÇÃO 209

Como podemos desenvolver o temor aos juízos de Deus?

 

Resposta O medo surge naturalmente quando esperamos que algo ruim aconteça. É assim que tememos as feras ou os governantes, quando receamos algum dano vindo deles. Da mesma forma, se alguém crê profundamente que as advertências do Senhor são verdadeiras e reflete sobre o que significará vivenciar a severidade dessas promessas, naturalmente temerá os juízos de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 210

O que constitui uma vestimenta decente, segundo o ensinamento do Apóstolo?

 

Resposta Para vestir-se de maneira honesta e adequada ao seu propósito de vida, deve-se considerar o contexto: o tempo, o lugar, a pessoa e a necessidade. A própria lógica desaconselha o uso da mesma roupa no inverno e no verão, ou o mesmo hábito para quem está trabalhando e para quem está descansando. Da mesma forma, o vestuário deve ser apropriado conforme a função e a identidade de cada um — seja servo ou senhor, soldado ou civil, homem ou mulher.

 

INTERROGAÇÃO 211

Qual é a medida do amor a Deus?

 

Resposta A medida do amor a Deus é a disposição constante da alma em realizar a vontade dEle, sempre com o máximo esforço — indo além de nossas próprias forças —, tendo como único foco e desejo a Sua glória.

 

INTERROGAÇÃO 212

Como alcançar a verdadeira caridade (amor) para com Deus?

 

Resposta Alcançamos esse amor quando, agindo com prudência e uma consciência reta, nos deixamos tocar pelos benefícios que Ele nos concede. Isso é algo que até os seres irracionais compreendem: observamos que até os cães demonstram afeição por aqueles que lhes garantem o sustento. Aprendemos isso também pela repreensão do profeta Isaías, que diz: "Criei filhos e os enaltecí, mas eles se revoltaram contra mim. O boi conhece o seu dono, e o asno, a manjedoura de quem o alimenta; mas Israel não conhece nada, e o meu povo não tem entendimento" (Isaías 1,2-3). Assim como o boi e o asno sentem, por instinto, afeição por quem os alimenta — por causa do benefício recebido —, da mesma forma, se estivermos atentos e formos prudentes, como não amaríamos a Deus, o autor de tantas e tão grandes bênçãos? Afinal, em uma alma que está saudável, essa disposição de gratidão é algo quase inato, algo que surge naturalmente, mesmo sem que um mestre precise nos ensinar.

 

INTERROGAÇÃO 213

Quais são os sinais da verdadeira caridade (amor) para com Deus?

 

Resposta O próprio Senhor nos ensinou o sinal principal: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (João 14,15).

 

INTERROGAÇÃO 214

Qual é a diferença entre benignidade e bondade?

 

Resposta Ao observarmos os Salmos e Jeremias, vemos que o termo "benigno" é usado de forma mais ampla, referindo-se àquele que se compadece e estende ajuda a qualquer pessoa necessitada (cf. Sl 145,9; 112,5). Já a "bondade" parece ser mais específica, aplicada quando alguém age com benevolência guiado por critérios de justiça e retidão (cf. Sl 125,4; Lm 3,25).

 

INTERROGAÇÃO 215

Quem é o "pacífico" que o Senhor chama de bem-aventurado?

 

Resposta É aquele que colabora com a obra de Deus, agindo como embaixador de Cristo para promover a reconciliação entre as pessoas e o Criador (2 Coríntios 5,20). Esse pacífico é aquele que, tendo sido justificado pela fé, vive a verdadeira paz com Deus (Romanos 5,1). Essa paz é diferente da paz que o mundo oferece, pois foi o próprio Cristo quem disse: "Dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá" (João 14,27).

 

INTERROGAÇÃO 216

Em que aspectos devemos nos converter e nos tornar como crianças (Mateus 18,3)?

 

Resposta O próprio Evangelho esclarece o motivo: devemos renunciar à busca por privilégios ou superioridade, reconhecendo a igualdade de natureza entre todos e tratando com simplicidade aqueles que parecem inferiores a nós. As crianças agem assim entre si, enquanto ainda não foram corrompidas pela malícia do convívio social.

 

INTERROGAÇÃO 217

Como receber o Reino de Deus "como uma criança"?

 

Resposta Devemos nos comportar diante da doutrina do Senhor da mesma maneira que as crianças se comportam diante de seus professores: sem contradizer ou discutir as lições, mas recebendo as instruções com fé, docilidade e obediência sincera.

 

INTERROGAÇÃO 218

Que tipo de entendimento devemos pedir a Deus e como nos tornamos dignos de recebê-lo?

 

Resposta Deus mesmo nos ensina pelo profeta o que é o verdadeiro entendimento: "Não se orgulhe o sábio do seu saber, nem o forte de sua força, nem o rico de sua riqueza! Mas quem quiser vangloriar-se, glorie-se de possuir inteligência e de saber que Eu sou o Senhor" (Jeremias 9,23-24). O Apóstolo reforça: "Procurai compreender qual é a vontade de Deus" (Efésios 5,17). Tornamo-nos dignos desse entendimento quando atendemos ao chamado: "Parai e reconhecei que Eu sou Deus" (Salmo 46,10), e quando acreditamos firmemente que toda palavra de Deus é verdadeira, lembrando o que está escrito: "Se não crerdes, não subsistireis" (Isaías 7,9).

 

 

 

INTERROGAÇÃO 219

Quando recebemos um benefício de alguém, como podemos oferecer a Deus uma ação de graças pura, total e equilibrada?

 

Resposta Oferecemos essa gratidão quando estamos convictos de que Deus é a fonte de todo bem e Aquele que o realiza. Devemos reconhecer que a pessoa que nos prestou o serviço é, na verdade, um instrumento, um "ministro" do benefício que Deus nos enviou.

 

INTERROGAÇÃO 220

Deve-se permitir que qualquer pessoa tenha um encontro com as irmãs? Quem, quando e como se deve falar com elas?

 

Resposta Este tema já foi abordado anteriormente: ninguém deve buscar um encontro com outra pessoa por vontade própria, ao acaso ou sem um motivo claro. Deve-se haver um exame prévio para garantir que o encontro seja proveitoso para quem ajuda e para quem é ajudado — e esse cuidado deve ser redobrado quando se trata de um encontro com uma mulher. Aquele que se recorda do aviso do Senhor — "No dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido" (Mateus 12,36) — teme essa sentença e obedece à orientação apostólica: "Quer comais, ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10,31) e "tudo se faça para a edificação" (1 Coríntios 14,26). Portanto, nada deve ser feito de modo ocioso ou inútil.  Quanto ao quem, quando e como: escolha-se sempre um tempo, um lugar e uma companhia que não deem margem a qualquer suspeita. O encontro deve ter como objetivo a edificação da fé e ser realizado com cautela para não causar escândalo. Não é sensato que uma pessoa esteja a sós com outra; a Escritura nos lembra: "Melhor dois do que um" (Eclesiástico 4,9), pois oferecem mais segurança e testemunho. Como diz o mesmo texto: "Ai do que está só, porque, quando cair, não tem quem o levante" (Eclesiástico 4,10).

 

INTERROGAÇÃO 221

Como o Senhor nos ensinou a orar para não cairmos em tentação, devemos pedir especificamente para não sofrermos dores físicas? E, se as dores surgirem, como devemos suportá-las?

 

Resposta O Senhor não especificou quais tipos de tentações devemos evitar, mas deu uma ordem geral: "Orai para que não caiais em tentação" (Lucas 22,40). Por isso, aquele que se encontra diante de uma prova ou dor deve pedir a Deus que lhe conceda um meio de escapar dela, ou, caso não seja possível, que lhe dê forças para suportá-la. O objetivo é cumprir o que está escrito: "Aquele que perseverar até o fim, será salvo" (Mateus 24,13).

 

INTERROGAÇÃO 222

Quem é o nosso "adversário" e de que maneira devemos "concordar" com ele?

 

Resposta Nesta passagem, o Senhor chama de "adversário" aquele que tenta nos retirar algo que consideramos de nosso interesse. Nós "concordamos" com ele quando seguimos o mandamento do Senhor: "Se alguém te levar ao tribunal para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa" (Mateus 5,40). Devemos agir da mesma forma em todas as situações semelhantes.

 

1.         O que você destaca no texto?

2.         Como serve para a sua espiritualidade?

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