306
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Menos
Extensas (313 regras)
Interrogações 30
a 47
INTERROGAÇÃO 30
Como eliminaremos
o vício da concupiscência má?
Resposta
Com o desejo ardente da vontade de Deus,
tal como demonstrou possuir aquele que disse: Os juízos do Senhor são
verdadeiros, todos igualmente justos. Mais desejáveis que o ouro, que muito
ouro fino. Mais doces que o mel, que o puro mel dos favos (SI
18,10.11). O desejo das coisas melhores, quando se tem a capacidade e a força
de fruir do que se deseja, sempre impõe o desprezo e o afastamento das mais
insignificantes, como o ensinaram todos os santos; com quanto maior razão das coisas
más e vergonhosas!
INTERROGAÇÃO 31
Se não é lícito,
absolutamente, rir-se.
Resposta
Como o Senhor condena os que riem
agora (Lc 6,25), é evidente não haver para o fiel tempo algum próprio ao riso, principalmente
sendo tão grande a multidão dos que ofendem a Deus (Rm 2,23), por violação da
lei, e morrem no pecado; por todos eles devemos contristar-nos e gemer.
INTERROGAÇÃO 32
Donde vem o torpor
(preguiça) inoportuno e excessivo e como o repeliremos?
Resposta
Este torpor sobrevém ao se tornar a
alma mais indolente quanto aos pensamentos de Deus, menosprezando os juízos divinos.
Sacudimo-lo se pensarmos sincera e dignamente na grandeza de Deus e desejarmos
sua vontade, conforme aquele que disse: Não darei sono aos meus olhos,
nem repouso às minhas
pálpebras, nem
descanso às minhas têmporas, até que encontre residência para o Senhor, uma
morada ao Poderoso de Jacó (SI 131,4.5).
INTERROGAÇÃO 33
Como se descobre
que alguém está procurando agradar aos homens?
Resposta
Quando mostra solicitude pelos que o
louvam e indolência para com os que o censuram. Se quer agradar a Deus, sempre
e em toda a parte será o mesmo, realizando a palavra: Pelas armas da
justiça ofensivas e defensivas; através da honra e da desonra, da boa e da má
fama; embora sejamos tidos como impostores, somos, no entanto, sinceros (2Cor
6,7.8).
INTERROGAÇÃO 34
Como fugir do
vício de agradar aos homens e como menoscabar (diminuir a importância) os
louvores dos homens?
Resposta
Com a convicção firme da presença de
Deus, com a solicitude contínua de agradar a Deus, com o desejo ardente das bem-aventuranças
prometidas pelo Senhor. Ninguém, sob o olhar de seu senhor, oscila, buscando
agradar a um companheiro de servidão, com desacato a seu senhor e condenação
para si mesmo.
INTERROGAÇÃO 35
Como se conhecerá
o soberbo e como ficará curado?
Resposta
Conhecer-se-á pelo fato de procurar
o predomínio; curar-se-á, se tiver fé no julgamento daquele que disse: O Senhor
resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes (Tg 4,6). Convém
saber que, apesar do receio de ser julgado soberbo, ninguém se curará desse
vício se não abandonar inteiramente a ambição de prevalecer, como não poderá esquecer
uma língua ou uma arte, quem não deixar completamente não só de fazer ou de
falar a respeito de tal arte, mas até de ouvir os que falam, e de olhar os que
fazem; o mesmo seja observado em relação a qualquer vício.
INTERROGAÇÃO 36
Se as honras devem
ser ambicionadas.
Resposta
Foi-nos ensinado que devemos prestar
honras a quem a honra é devida (Rm 13,7); ambicioná-la, porém, foi proibido
pelo Senhor que disse: Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos
outros e não buscais a glória que é só de Deus (Jo 5,44)? Portanto,
buscar a glória que vem dos homens é demonstração de infidelidade e oposição à
piedade, pois diz o Apóstolo: Se quisesse ainda agradar aos homens, não
seria servo de Cristo (G1 1,10). Se de tal modo são condenados os que
aceitam a glória que os homens lhes dão, os que procuram a que lhes não é oferecida
sofrerão um juízo indizível.
INTERROGAÇÃO 37
De que modo o
preguiçoso em cumprir o mandamento poderá recuperar a diligência?
Resposta
Se
estiver firmemente persuadido da presença do Senhor Deus que tudo vê, das
ameaças contra o preguiçoso, da esperança da grande recompensa por parte do
Senhor que prometeu por meio do apóstolo Paulo haver de alcançar cada qual a
própria recompensa de acordo com o labor (ICor 3,8); e ainda quanto de
semelhante foi escrito para suscitar o zelo de cada um, ou a paciência para a
glória de Deus.
INTERROGAÇÃO 38
Se um irmão
receber uma ordem e contradisser, mas depois for espontaneamente.
Resposta
Pelo fato de contradizer, enquanto é
contumaz e provoca os outros a agirem de igual modo, saiba que é réu daquela sentença:
O perverso só busca a rebeldia (Pr 17,11). Persuada-se bem de não
ser a um homem que contradiz ou obedece, mas ao próprio Senhor, que disse: Quem
vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita (Lc 10,16). E
arrependido primeiro, apresente escusas, e assim, se lho permitirem, faça o
trabalho.
INTERROGAÇÃO 39
Se alguém
obedecer murmurando.
Resposta
Uma vez que disse o Apóstolo: Fazei
todas as coisas sem murmurações e sem hesitações (F1 2,14), quem
murmura aliena-se da unidade dos irmãos e o seu trabalho é excluído do uso dos mesmos.
Evidencia-se estar enfermo de incredulidade e hesitação na esperança.
INTERROGAÇÃO 40
Se um irmão
contrista a outro, como deve ser corrigido?
Resposta
Se o entristeceu da mesma forma que
o Apóstolo, quando diz: Fostes entristecidos segundo Deus, de modo que
nenhum dano sofrestes de nossa parte (2Cor 7,9), não é quem entristece
que necessita de correção, e sim o entristecido é quem deve mostrar as
propriedades da tristeza, segundo Deus. Se o entristeceu em coisas
indiferentes, quem contristou lembre-se do Apóstolo que diz: Se, por uma
questão de comida, entristeces o teu irmão, já não vives segundo a caridade (Rm
14,15), e tendo reconhecido o seu pecado, cumpra o que foi dito pelo Senhor: Se
estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares que teu
irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro
reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta (Mt
5,23.24).
INTERROGAÇÃO 41
Se aquele que
contristou se recusar a pedir desculpas.
Resposta
Cumpram-se as palavras do Senhor sobre
o pecador impenitente: Se recusar ouvir a Igreja, seja ele para ti como
um pagão ou um publicano (Mt 18,17).
INTERROGAÇÃO 42
Se quem contristou
pedir desculpas, mas o entristecido recusar reconciliar-se.
Resposta
É
clara a sentença do Senhor a seu respeito, na parábola do servo em relação a
seu companheiro de serviço; o primeiro, rogado, não quis ter paciência: Vendo
isto, os outros servos vieram contar a seu senhor o que se tinha passado. E o
senhor, encolerizado, retirou-lhe o seu favor, entregou-o aos algozes, até que
pagasse toda a dívida (Mt 18,31.34).
INTERROGAÇÃO 43
Como atender
àquele que nos desperta para a oração?
Resposta
Quem reconhece o detrimento
proveniente do sono, já que a alma perde até a percepção de si mesma, e
compreende a vantagem das vigílias, especialmente como é excelente e glorioso
aproximar-se de Deus para rezar, atenderá àquele que o desperta, seja para a
oração, seja para cumprir uma ordem, como a alguém que lhe presta os maiores
benefícios, acima de todos os desejos.
INTERROGAÇÃO 44
Que merece quem
ficar de mau humor ou mesmo se irritar, ao ser despertado?
Resposta
Seja, por algum tempo, castigado com
o isolamento e o jejum, se for capaz de compreender, arrependido, de quantos e de
quais bens se privou imperceptivelmente e, assim, convertido, alegre-se de
receber idêntico benefício ao daquele que afirmou: Alegra-me a lembrança
de Deus (SI 76,4). Se, porém, continuar insensível, seja cortado do
corpo corno um membro gangrenado e corrupto. Está escrito, em verdade: É preferível
perder-se um só dos teus membros a que o teu corpo inteiro seja atirado na
geena (Mt 5,30).
INTERROGAÇÃO 45
Se alguém, tendo
ouvido do Senhor que: O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu Senhor,
não a fez, nada preparou e lhe desobedeceu, será açoitado com muitos golpes, e
aquele que a ignorou e fez coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes
(Lc 12,47-48), negligencia, no entanto, conhecer a vontade do Senhor, terá ele
alguma desculpa?
Resposta
É evidente que simula ignorância e
não pode fugir à condenação do seu pecado. Se eu não viesse, diz
o Senhor, e não lhe tivesse falado, não teriam pecado, mas agora não há
desculpa para o seu pecado (Jo 15,22), porque a Sagrada Escritura em
toda parte e a todos anuncia a vontade de Deus. Esse, portanto, não sofrerá
menor condenação em companhia dos ignorantes, mas ao contrário será condenado
mais severamente com aqueles, dos quais está escrito: Semelhante ao
veneno da víbora que fecha os ouvidos, para não ouvir a voz dos fascinadores,
do mágico que enfeitiça habilmente (SI 57,5-6). Se, porém, o
encarregado do ministério da palavra negligenciar anunciá-la, será condenado como
homicida, conforme está escrito (Ez 33,8).
INTERROGAÇÃO 46
Se é réu de pecado
quem permite a outrem pecar.
Resposta
Sua sentença evidencia-se das
palavras do Senhor a Pilatos: Quem entregou a ti tem pecado maior (Jo
19,11). Daí se deduz que também Pilatos, ao tolerar os que o entregaram,
tornou-se réu de pecado, embora mais leve. Vemo-lo igualmente em Adão que
suportou a Eva; em Eva, que tolerou a serpente. Nenhum deles ficou impune, como
se fosse inocente. A própria indignação de Deus contra eles, ponderada bem a
questão, o
demonstra, pois
quando Adão, à guisa de escusa, disse aquela palavra: A mulher que deste
apresentou-me deste fruto e eu (Gn 3,12), Deus respondeu: Porque
ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia
proibido comer, a terra será maldita por tua causa (Gn 3,17), etc.
INTERROGAÇÃO 47 Se convém
calar diante dos que pecam.
Resposta
Verifica-se pelos preceitos do
Senhor que não convém; disse ele no Antigo Testamento: Repreende
publicamente o teu irmão, para que não incorras em pecado por sua causa (Lv
19,17).
No Evangelho, porém: Se teu
irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente: se te
ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas
pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas.
Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar também ouvir a Igreja, seja
ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).
Depreende-se a gravidade da sentença
desse pecado, primeiro da palavra do Senhor, quando afirmou, em geral: Quem
não crê no Filho, não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus (Jo
3,36). A seguir, das histórias narradas na Escritura, antiga e nova.
Eis, por exemplo, quando Acã roubou
o lingote de ouro e a veste, a ira do Senhor recaiu sobre todo o povo, embora
esse ignorasse o autor do pecado e o próprio pecado, até que o acima mencionado
fosse descoberto e sofresse, com todos os seus, aquela horrível ruína (Js
7,21-26).
Eli, ainda que não tivesse guardado
silêncio para com seus filhos, que eram pestilentos, mas frequentemente os admoestasse,
dizendo: Não façais assim, meus filhos, não são boas as informações que chegam
a vosso respeito (ISm 2,24) e ainda, com outras palavras, mostrasse o
absurdo do pecado e sua inevitável condenação, porque não os punira
devidamente, nem demonstrara a energia conveniente contra eles, de tal modo exasperou
a ira de Deus que o povo pereceu com os filhos, a própria arca foi tomada pelos
estrangeiros e ele mesmo teve um fim miserável.
Se tamanha ira se inflamou contra
aqueles que não estavam cientes do autor do pecado e contra os que proibiram o
pecado e testemunharam contra ele, que se dirá dos que sabem, contudo se calam?
A não ser que façam o que recomendou o Apóstolo aos coríntios com as seguintes
palavras: Nem tendes manifestado tristeza, para que seja tirado dentre vós o
que cometeu tal ação (ICor 5,2). Ele mesmo atesta como os coríntios agiram
a seguir, escrevendo: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo
Deus! Que digo eu? Que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo!
Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor
7,11).
Mesmo agora existe em geral o perigo
para todos juntos de serem sujeitos à mesma ruína, ou até mais grave, na medida
em que é pior do que aquele que despreza a lei de Moisés, quem despreza
o Senhor (Hb 10,29) e ousa cometer o mesmo pecado que aquele que anteriormente
pecou e foi condenado. Se Caim será vingado sete vezes, Lameque, que cometeu
pecado semelhante, o será setenta vezes sete (Gn 4,24).
O
que você destaca no texto?
Como
ele serve para sua vida espiritual?
O
que você destaca na fala do seu/sua irmãos/ã?