terça-feira, 14 de novembro de 2017

34 - Hipólito de Roma (160 - 235) Introdução

34
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Hipólito de Roma (160 - 235)
Introdução

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Hipólito de Roma foi o mais importante teólogo do século III na Igreja antiga em Roma, onde ele provavelmente nasceu.
Hipólito foi discípulo de Policarpo. Ele entrou em conflito com os bispos de sua época e parece ter sido líder de um grupo cismático como um bispo rival de Roma (mais tarde estes bispos passaram a ser chamados de papas. Isso somente no século V).
Ele se opôs aos bispos de Roma que afrouxaram as regras de penitência para acomodarem um grande número de novos convertidos da religião pagã. Quando morreu martirizado, já havia se reconciliado com a igreja e com os bispos.
Tudo começou sob o governo do imperador Alexandre Severo, que, condescendente, aceitou a diversidade religiosa, não perseguiu os cristãos e permitiu que a Igreja se reorganizasse. Durante essa trégua externa, a batalha foi travada internamente, no meio do clero cristão, ocasionando a primeira ruptura na Igreja de Roma.
Hipólito era um sacerdote culto, austero, pouco tolerante e indulgente, sempre enxergando, ou mesmo temendo, que cada reforma pudesse violar a verdadeira doutrina cristã. Por esse extremado cuidado acusou de heresia o bispo Zeferino e o diácono Calisto. Seu ímpeto de guardião culminou quando este último foi eleito Bispo de Roma (Papa) em 217. Hipólito rebelou-se e acabou sendo indevidamente eleito bispo de Roma (papa) pelos bispos seus partidários.
Esse cisma manteve-se na Igreja até mesmo nos pontificados de Ubaldo I e Ponciano, que foi eleito em 230.
Na ocasião, morrera em combate o imperador Alexandre Severo, sendo sucedido por Maximino, tirano que retomou a perseguição aos cristãos. E começou de forma singular: deparando-se com a existência de dois bispos (papas), deportou ambos, condenando-os a trabalhos forçados numa mina de pedras da Sardenha.
Ponciano foi o primeiro bispo (papa) a ser deportado. Era um fato novo para a Igreja, que ele administrou com sabedoria, sagacidade e muita humildade. Para que seu rebanho não ficasse sem pastor, renunciou ao episcopado, tornando-se, também, o primeiro bispo (papa) da Igreja a usar este recurso extremo. Foi sucedido pelo bispo (papa) Antero, de origem grega, que exerceu a função por apenas quarenta dias.
Todavia seu gesto comoveu Hipólito, que percebeu o sincero zelo apostólico de Ponciano. Por isso também renunciou ao seu posto, interrompendo o prolongado cisma e reconciliando-se com a Igreja de Roma, antes de morrer, em 235, mesmo ano da morte de Ponciano. Os dois são lembrados como “santos” no mesmo dia: 13 de agosto.
O cristianismo só se beneficiou porque Hipólito tornou-se o mais importante filósofo cristão do final do século III. As suas obras mais conhecidas são "Teorias filosóficas", o "Livro de Daniel", comentário ao Livro de Cantares e "A tradição apostólica", que aborda temas importantes, como rito, disciplina e costumes cristãos da época.
Iremos estudar o texto Tradição Apostólica. Que é a constituição eclesiática mais antiga que possuímos.
Entre os diversos destaques desta obra, assinalamos os seguintes: a existência de ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e não ordenados (viúvas, virgens, leitores, etc.); as profissões incompatíveis com o cristão; o catecumenato fixado em 3 anos; o batismo estendido também às crianças; a oração eucarística e os cuidados devidos ao pão e ao vinho, Corpo e Sangue do Senhor; e a eficácia da oração na vida do cristão (celebrada várias vezes ao dia), em especial o sinal da cruz.



O que você deseja destacar sobre a vida de Hipólito?
O que serve para a sua espiritualidade? 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Estudo 33 - Justino Mártir - I Apologia - Capítulos 60 a 67

33
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
I Apologia: Capítulos 60-67


 Resultado de imagem para I e II Apologias ; Diálogo com Trifão


60.
1 O que Platão, explicando a criação, diz no Timeu sobre o Filho de Deus: "Deu-lhe a forma de X no universo", ele o tomou igualmente de Moisés.
2 De fato, nos escritos de Moisés conta-se que, no tempo em que os israelitas tinham saído do Egito e se encontravam no deserto, foram atacados por feras venenosas, víboras, áspides e todo tipo de serpentes, que causavam a morte do povo.
3 Então, por inspiração e impulso de Deus, Moisés pegou bronze, fez uma figura de cruz e a colocou sobre o tabernáculo santo, dizendo ao povo: "Se olhardes para esta figura e crerdes, sereis salvos por meio dela."
4 Feito isso, ele conta que as serpentes morreram e que o povo então escapou da morte.
5 Platão deve ter lido isso e, não compreendendo exatamente, nem entendendo que se tratava da figura da cruz, tomou-a pela letra X grega, e disse que o poder que acompanha a Deus estava primeiro estendido pelo universo em forma de X.
6 Ao falar de terceiro princípio, deve-se também ao fato de ter lido, como dissemos, em Moisés que o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
7 Com efeito, Platão dá o segundo lugar ao Verbo, que vem de Deus e que ele disse estar espalhado em forma de X no universo; e dá o terceiro lugar ao Espírito que se disse pairar sobre as águas, e assim fala: "E o terceiro sobre o terceiro".
8 Que haverá uma conflagração universal, escutai como o Espírito profético o anunciou de antemão.
9 Ele diz o seguinte: "Descerá um fogo sempre vivo e devorará o abismo até embaixo".
10Portanto, não somos nós que professamos opiniões iguais aos outros, e sim todos, por imitação, repetem as nossas doutrinas.
11Entre nós tudo isso pode-se ouvir e aprender até daqueles que ignoram as formas das letras, pessoas ignorantes e bárbaras de língua, mas sábias e fiéis de inteligência, e até pessoas mutiladas e privadas de visão. De onde se pode entender que isso não acontece pela sabedoria humana, mas se diz que é pela força de Deus.

O batismo: iluminação e regeneração
61. 1Explicaremos agora de que modo, depois de renovados por Jesus Cristo, nos consagramos a Deus, para que não aconteça que, omitindo este ponto, demos a impressão de proceder um pouco maliciosamente em nossa exposição.
2 Todos os que se convencem e acreditam que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e prometem que poderão viver de acordo com elas, são instruídos em primeiro lugar para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles.
3 Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração com que também nós fomos regenerados eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo.
4 É assim que Cristo disse: "Se não nascerdes de novo, não entrareis no Reino dos Céus"
 5 É evidente para todos que, uma vez nascidos, não é possível entrar de novo no seio de nossas mães.
6 Também o profeta Isaías, como citamos anteriormente, disse como fugiriam dos pecados aqueles que antes pecaram e agora se arrependem.
7 Eis o que ele disse: "Lavai-vos, purificai-vos, tirai as maldades de vossas almas e aprendei a fazer o bem, julgai o órfão e fazei justiça à viúva; então vinde e conversemos, diz o Senhora. Se vossos pecados forem como a púrpura, eu os tornarei brancos como a lã; se forem como o escarlate, eu os alvejarei como a neve.
8 Se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor."
9 A explicação que aprendemos dos apóstolos sobre isso é a seguinte:
10Uma vez que não tivemos consciência de nosso primeiro nascimento, pois fomos gerados por necessidade de um germe úmido, através da união mútua de nossos pais, e nos criamos em costumes maus e em conduta perversa, agora, para que não continuemos sendo filhos da necessidade e da ignorância, mas da liberdade e do conhecimento e, ao mesmo tempo, alcancemos o perdão de nossos pecados anteriores, pronuncia-se na água, sobre aquele que decidiu regenerar-se e se arrepende de seus pecados, o nome de Deus, Pai e soberano do universo; e aquele que conduz ao banho pronuncia este único nome sobre aquele que vai ser lavado.
11Com efeito, ninguém é capaz de dar um nome ao Deus inefável; se alguém se atrevesse a dizer que esse nome existe, sofreria a mais vergonhosa loucura.
12Esse banho chama-se iluminação, para dar a entender que são iluminados os que aprendem estas coisas.
13O iluminado se lava também em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e no nome do Espírito Santo, que, por meio dos profetas, nos anunciou previamente tudo o que se refere a Jesus.

O arremedo diabólico do batismo
62. 1 Os demônios também ouviram que esse banho tinha sido anunciado pelo profeta, e então também se fizeram aspergir aqueles que entram em seus templos e vão aproximar-se deles para lhes-oferecer libações e gorduras, e chegam até a obrigar a um banho completo, antes de entrar nos templos, onde eles se assentam.
2 Também o fato de que os sacerdotes mandem que se descalcem aqueles que entram nos templos e cultuam os demônios, estes conceberam e imitaram daquilo que aconteceu a Moisés, o profeta de que antes falamos.
3 De fato, deve-se saber que, no tempo em que se mandou Moisés desceu ao Egito para daí tirar o povo de Israel, quando ele estava apascentando as ovelhas do seu tio materno na terra da Arábia, nosso Cristo falou com ele de dentro de uma sarça em forma de fogo, e lhe disse: "Desata as sandálias de teus pés, aproxima-te e ouve.
4Ele, descalço, aproximou-se e ouviu que o mandavam descer ao Egito e daí tirar o povo de Israel. Foi aí que recebeu uma força tão grande do mesmo Cristo que lhe falara em forma de fogo. E, de fato, desceu ao Egito e tirou o povo, depois de realizar grandes prodígios que, se desejardes, podeis conhecer fielmente através dos livros do próprio Moisés.

O Verbo na sarça e Moisés
63. 1 Todos os judeus, porém, ainda hoje, ensinam que foi o Deus inominado que falou a Moisés.
2 Por isso, o já mencionado profeta Isaías, repreendendo-os no texto anteriormente citado, disse: "O boi conheceu o seu dono e o asno a manjedoura de seu senhor, mas Israel não me conheceu e meu povo não me compreendeu"
3 E o próprio Jesus Cristo, repreendendo os judeus por não saberem distinguir o que era o Pai e o que era o Filho, também disse: "Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho; ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai e aqueles aos quais o Filho o revelar"
4 O Verbo de Deus é seu Filho, como dissemos antes.
5 E também se chama mensageiro e embaixador, porque ele anuncia o que se deve conhecer e é enviado para nos manifestar tudo o que o Pai nos comunica. O próprio nosso Senhor o deu a entender, quando disse: "Quem ouve a mim, ouve aquele que me enviou. "
6 O mesmo aparece claramente pelos escritos de Moisés.
7 Com efeito, nestes se diz assim: "O anjo do Senhor falou com Moisés da chama de fogo na sarça e lhe disse: Eu sou Aquele que é, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, o Deus de teus pais.
8 Desce ao Egito e tira dali o meu povo"
9 O que segue podereis, se quiserdes, sabê-lo através dos próprios escritos, pois não é possível transcrever tudo aqui.
10As palavras citadas são suficientes para demonstrar que Jesus Cristo é Filho e embaixador de Deus, e antes era Verbo, que apareceu algumas vezes em forma de fogo, outras em imagem incorpórea e agora, feito homem por vontade de Deus, por causa do gênero humano submeteu-se a sofrer tudo o que os demônios quiseram que os insensatos judeus fizessem com ele.
11Estes, tendo expressamente dito nos escritos de Moisés: “E o anjo de Deus falou a Moisés em fogo de chama desde a sarça e lhe disse: Eu sou Aquele que sou; o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó", insistem que foi o Pai e Artífice do universo quem disse essas palavras.
12Então, repreendendo-os, o Espírito profético disse: "Mas Israel não me conheceu, nem meu povo me compreendeu."
13Por sua vez, Jesus, como já indicamos, estando entre eles, disse: "Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho; ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai e aqueles aos quais o Filho o revelar".
14Portanto, os judeus que pensam ter sido sempre o Pai do universo quem falou a Moisés, quando na realidade falou-lhe o Filho de Deus, que se chama também mensageiro e embaixador dele, com razão são repreendidos pelo Espírito profético e pelo próprio Cristo, por não terem conhecido nem o Pai, nem o Filho.
15Porque os que dizem que o Filho é o Pai dão prova de que não sabem nem quem é o Pai, nem tomaram conhecimento de que o Pai do universo tenha um Filho que, sendo Verbo e primogênito de Deus, também é Deus.
16Foi este que primeiramente apareceu a Moisés e aos outros profetas em forma de fogo ou por imagem incorpórea e aquele que agora, nos tempos de vosso império, como já dissemos, nasceu homem de uma virgem, conforme o desígnio do Pai. E pela salvação dos que nele creem, quis ser desprezado e sofrer para, com sua morte e ressurreição, vencer a própria morte.
17O que da sarça foi dito a Moisés: "Eu sou Aquele que é, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó", significa que, mesmo depois de mortos, aqueles homens continuavam sendo de Cristo, assim como foram os primeiros de todos os homens que se ocuparam na busca de Deus, pois Abraão foi pai de Isaac, e este pai de Jacó, como o próprio Moisés deixou escrito. Não conhecemos outro texto além de Ex 3,1-6, que mencione este fato. Jetro, sacerdote de Madiã, era sogro de Moisés. Que fosse também seu tio materno, não temos noticia. Contudo, há duas versões que não se conciliam sobre o nome do sogro de Moisés. Em Ex 3,1; 4,18; 18,1 ele se chama Jetro. Em Ex 2,18, Reuel (Nm 10.29).

Outras lembranças pagãs
64. 1 Do que foi dito até aqui, podeis entender que também foram os demônios que introduziram o uso de instalar a imagem da chamada Coré sobre as fontes das águas, dizendo que ela era filha de Zeus, querendo assim imitar o que disse Moisés.
2 Este, com efeito, como citamos antes, disse: "No princípio Deus criou o céu e a terra.
3 A terra era invisível e informe, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas"
4 À imitação desse Espírito de Deus que se dizia pairar sobre as águas, disseram eles que Coré era filha de Zeus.
5 Com igual malícia, disseram também que Atena era filha de Zeus, mas não nascida de união carnal; de fato, ao tomarem conhecimento de que Deus, depois de pensar, criou o mundo por meio de seu Verbo, disseram que Atenas era como que o primeiro pensamento; coisa que consideramos absolutamente ridícula, apresentar uma mulher como imagem do pensamento.
6 De modo semelhante, suas ações argüem os outros chamados filhos de Zeus.

Fraternidade e eucaristia
65. 1 De nossa parte, depois que assim foi lavado aquele que creu e aderiu a nós, nós o levamos aos que se chamam irmãos, no lugar em que estão reunidos, a fim de elevar fervorosamente orações em comum por nós mesmos, por aquele que acaba de ser iluminado e por todos os outros espalhados pelo mundo inteiro, suplicando que se nos conceda, já que conhecemos a verdade, ser encontrados por nossas obras como homens de boa conduta e observantes do que nos mandaram, e assim consigamos a salvação eterna.
2 Terminadas as orações, nos damos mutuamente o ósculo da paz.
3 Depois àquele que preside aos irmãos é oferecido pão e uma vasilha com água e vinho; pegando-os, ele louva e glorifica ao Pai do universo através do nome de seu Filho e do Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças, por ter-nos concedido esses dons que dele provêm. Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, todo o povo presente aclama, dizendo: "Amém."
4 Amém, em hebraico, significa "assim seja".
5 Depois que o presidente deu ação de graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam ministros ou diáconos dão a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da água sobre os quais se pronunciou a ação de graças e os levam aos ausentes.

Teologia da eucaristia
66. 1 Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
2 De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado.
3 Foi isso que os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: "Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo"iiii. E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: "Este é o meu sangue", e só participou isso a eles.
4 E certo que isso também, por arremedo, foi ensinado pelos demônios perversos para ser feito nos mistérios de Mitra; com efeito, nos ritos de um novo iniciado, apresenta-se pão e uma vasilha de água com certas orações, como sabeis ou podeis informar-vos.
Liturgia dominical
67. 1 Depois dessa primeira iniciação, recordamos constantemente entre nós essas coisas e aqueles de nós que possuem alguma coisa socorrem todos os necessitados e sempre nos ajudamos mutuamente.
2 Por tudo o que comemos, bendizemos sempre ao Criador de todas as coisas, por meio de seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo.
3 No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.
4 Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos.
5 Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: "Amém". Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos.
6 Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade.
7 Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.

Petição final
68. 1 Portanto, se vos parece que tais doutrinas provêm da razão e da verdade, respeitai-as; mas se as considerais como charlatanice ou coisa de charlatães, desprezai-as. Não decreteis, porém, pena de morte, como contra inimigos, contra aqueles que nenhum crime cometem.
2 De fato, vos avisamos de antemão, que, se vos obstinais em vossa iniquidade, não escapareis do futuro julgamento de Deus. De nossa parte, exclamaremos: "Aconteça o que Deus quiser".
3 Poderíamos também exigir que mandeis celebrar os julgamentos dos cristãos conforme nossa petição, apoiando-nos na carta do máximo e gloriosíssimo César Adriano, vosso pai. Todavia, não vos fizemos nossa súplica, nem dirigimos nossa exposição, porque Adriano o julgasse assim, mas porque estamos persuadidos da justiça de nossas petições.
4 Contudo, anexamos para vós uma cópia da carta de Adriano, para que vejais, segundo o seu teor, que dizemos a verdade.
5 A cópia é a seguinte: "A Mimício Fundano.
6 Recebi uma carta que me foi escrita por Serênio Graniano, homem distinto, a quem sucedeste.
7 Não me parece que o assunto deva ficar sem esclarecimento, a fim de que os homens não se perturbem, nem se facilitem as malfeitorias dos delatores.
8 Dessa forma, se os provincianos são capazes de sustentar abertamente a sua demanda contra os cristãos, de modo que respondam a ela diante do tribunal, deverão ater-se a esse procedimento e não a meras petições e gritarias.
9 Com efeito, é muito mais conveniente que, se alguém pretende fazer uma acusação, examines tu o assunto.
10Em conclusão, se alguém acusa os cristãos e demonstra que realizam alguma coisa contra as leis, determina a pena, conforme a gravidade do delito. Mas, por Hércules, se a acusação é caluniosa, castiga-o com maior severidade e cuida para que não fique impune."


Quais versículos você gostaria de destacar?
Em que este texto serviu para sua espiritualidade?



terça-feira, 24 de outubro de 2017

Estudo 32 - I Apologia de Justino Mártir - Capítulos 51-59

32
Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (+165)
I Apologia. Capítulos 51-59
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51. 1 O Espírito profético, afim de fazer-nos entender que quem padece essas coisas é de origem inexplicável e reina sobre seus inimigos, assim disse: "Quem explicará a sua geração? De fato, sua vida é arrebatada da terra, pelas iniquidades deles caminha para a morte.
2 Em lugar de sua sepultura darei os mares e por sua morte os rios, porque ele não cometeu iniquidade e nem se achou engano em sua boca e o Senhor quer purificá-lo do açoite.
3 Se oferecerdes pelo pecado, vossa alma verá descendência duradoura.
4 O Senhor quer afastar a alma dele da fadiga, mostrar-lhe luz, formá-lo na inteligência, justificar o justo que serviu bem a muitos, e ele mesmo carregará os nossos pecados.
5 Por isso, herdará a muitos e repartirá os despojos dos fortes, porque sua alma foi entregue à morte e por ter sido contado entre os iníquos, por ter carregado os pecados e ter-se entregue pelas iniquidades deles".
6 Escutai como foi profetizado que ele deveria subir ao céu.
7 Diz o seguinte: "Levantai as portas dos céus; abri-vos, portas, para que entre o rei da glória. Quem é esse rei da glória? O Senhor forte e o Senhor poderoso"
8 Que ele também há de vir dos céus com glória, escutai o que sobre isso foi dito pelo profeta Jeremias.
9 Ele diz assim: "Eis como um filho de homem vem sobre as nuvens do céu, e seus anjos com ele.

A dupla vinda de Cristo

52. 1 Como demonstramos que tudo o que aconteceu até agora foi previamente anunciado pelos profetas, agora, como em tudo, é necessário também que creiamos no que foi igualmente profetizado, mas que ainda vai acontecer.
 2 Com efeito, do mesmo modo que o acontecido, antecipadamente anunciado, por mais que não tivesse sido compreendido, aconteceu; assim também o que ainda falta para ser cumprido, acontecerá, por mais que não se compreenda nem se creia.
3 Assim é que os profetas anunciaram duas vindas de Cristo: uma, já cumprida, como homem desonrado e passível; a segunda, quando virá dos céus acompanhado de seu exército de anjos, quando ressuscitará também os corpos de todos os homens que existiram; revestirá de incorruptibilidade os que forem dignos, e enviará os iníquos, com percepção eterna, ao fogo eterno, junto com os perversos demônios.
4 Vamos mostrar como foi profetizado que isso deverá acontecer.
5 Foi o profeta Ezequiel quem disse assim: "Unir-se- á juntura com juntura, osso com osso, e as carnes voltarão a brotar.
6 E todo joelho se dobrará diante do Senhor e toda língua o confessará".
7 Escutai o que foi dito sobre a percepção e o tormento em que se encontrarão os injustos.
8 É o seguinte: "Seu verme não descansará e seu fogo não se extinguirá".
9 Então eles se arrependerão, quando de nada mais lhes valerá.
10Sobre o que dirão e farão os povos dos judeus, quando o virem vir em glória, o profeta Zacarias disse esta profecia: "Mandarei que os quatro ventos reúnam meus filhos dispersos, ordenarei ao vento norte que os traga e ao vento sul que não se oponha.
11Então haverá grande choro em Jerusalém, não pranto de bocas e lábios, mas pranto de coração; não rasgarão suas roupas, mas suas almas.
12Cada tribo baterá no peito, olharão aquele que transpassaram e dirão: Por que, Senhor, nos desviaste de teu caminho? A glória que nossos pais bendisseram converteu-se em opróbrio para nós."

Profecia sobre a gentilidade
53. 1 Poderíamos mostrar muitas outras profecias. Entretanto, terminamos essa prova por aqui, considerando que as citadas são suficientes para convencer aqueles que têm ouvidos para ouvir e entender, e podem assim precaver-se que não somos como os que inventam suas fábulas sobre os supostos filhos de Zeus, que nos contentamos apenas com afirmar, sem termos provas para alegar.
2 De fato, por que motivo haveríamos de crer que um homem crucificado é o primogênito do Deus ingênito e que julgará todo o gênero humano, se não encontrássemos testemunhos sobre ele, publicados antes de ele ter nascido como homem e não os víssemos literalmente cumpridos:
3 a devastação da terra dos judeus, homens de todas as raças que creem através do ensinamento dos apóstolos e recusam seus antigos costumes em cujos erros se criaram e ainda ao vermos que nós mesmos, procedentes das nações, somos mais numerosos e mais sinceros cristãos do que os judeus e os samaritanos?
4 Deve-se saber que o restante de todas as raças humanas são chamadas de nações pelo Espírito profético; a casta dos judeus e samaritanos, porém, chama-se Israel e Casa de Jacó.
5 Citarei para vós a profecia que prediz que os crentes serão em maior número entre aqueles que procedem da gentilidade do que entre os judeus e samaritamos. Diz assim: "Alegra-te, estéril, tu que não concebes; rompe e grita de júbilo, tu que não sofres dores de parto, porque são mais numerosos os filhos da abandonada do que daquela que tem marido".
6 De fato, todas as nações que cultuavam obras manufaturadas estavam abandonadas pelo verdadeiro Deus; mas os judeus e samaritanos, que tinham a palavra de Deus transmitida pelos profetas e estavam constantemente esperando Cristo, vindo este, o desconheceram, exceto alguns poucos, dos quais o Espírito profético havia predito, através de Isaías, que se salvariam.
7 Disse pessoalmente sobre eles mesmos: "Se o Senhor não nos tivesse deixado semente, nos teríamos tornado como Sodoma e Gomorra"
8 Moisés conta que Sodoma e Gomorra foram cidades de homens ímpios que Deus destruiu, queimando-as com fogo e enxofre, sem que nelas alguém se salvasse, a não ser um estrangeiro, de origem caldéia, chamado Ló, juntamente com suas filhas.
9 Ainda hoje, quem quiser, pode ver toda essa terra que continua deserta, calcinada e estéril.
 10 Que os cristãos da gentilidade seriam mais sinceros e fiéis,
11eis o que disse o profeta Isaías: "Israel é incircunciso de coração, as nações o são de prepúcio".
12A contemplação de tantos fatos pode bem levar razoavelmente à persuasão e à fé os que amam a verdade, que não seguem a opinião, nem se deixam dominar por suas paixões.

As fábulas pagãs
54. 1 Ao contrário, os que ensinam os mitos inventados pelos poetas não podem oferecer nenhuma prova aos jovens que os aprendem de cor. E nós demonstramos que foram ditos por obra dos demônios perversos, para enganar e extraviar o gênero humano.
2 Com efeito, ouvindo os profetas anunciarem que Cristo viria e que os homens ímpios seriam castigados através do fogo, colocaram na frente muitos que se disseram filhos de Zeus, crendo que assim conseguiriam que os homens considerassem as coisas a respeito de Cristo como um conto de fada, semelhante aos contados pelos poetas.
3 Tudo se propagou principalmente entre os gregos e outras nações, onde mais os demônios tinham ouvido, pelo anúncio dos profetas, que se deveria crerem Cristo.
4 Nós colocaremos às claras que, embora ouvindo o que dizem os profetas, não o entenderam exatamente, mas parodiaram como charlatães aquilo que se refere a Cristo.
5 Como já dissemos, o profeta Moisés é mais antigo do que todos os escritores e por ele, como já indicamos, foi feita esta profecia: "Não faltará príncipe de Judá, nem chefe de seus músculos, até que venha aquele a quem está reservado, e ele será a esperança das nações, amarrando seu jumentinho na sua videira e lavando sua roupa no sangue da uva".
6 ouvindo essas palavras proféticas, os demônios disseram que Dioniso tinha sido filho de Zeus, ensinaram que ele tinha inventado a vinha, introduziram o asno em seus mistérios e propagaram que ele, depois de ter sido esquartejado, subiu ao céu.
7 Acontece, porém, que na profecia de Moisés não aparecia com clareza se aquele que devia nascer seria Filho de Deus, nem se aquele que deveria montar o jumentinho permaneceria na terra ou subiria ao céu. Por outro lado, o nome de jumentinho, originariamente pode tanto significar a cria do asno como do cavalo. Assim, não sabendo se a profecia deveria ser tomada como símbolo de sua vinda montado num jumentinho de asno ou num potro de cavalo, nem se seria filho de Deus, como dissemos, ou de homem, os demônios inventaram que, Belerofonte, homem nascido de homens, subiu ao céu montado no cavalo Pégaso.
8 Como também ouviram por outro profeta, Isaías, que haveria de nascer de uma virgem e que por sua própria virtude subiria ao céu, adiantaram-se com a lenda de Perseu.
9 Pela mesma razão, conhecendo o que fora dito dele nas profecias anteriormente citadas: "Forte como um gigante para percorrer seu caminho", inventaram um Hércules forte, que andava peregrinando por toda a terra.
10 Por fim, ao inteirarem-se que estava profetizado que ele curaria todas as enfermidades e ressuscitaria mortos, nos trouxeram a fábula de Asclépio.

A cruz desconhecida pelos demônios
55. 1 Todavia, em nenhum lugar e em nenhum dos supostos filhos de Zeus arremedaram a crucifixão, por não tê-la entendido, pois, conforme dissemos antes, tudo o que se refere à cruz foi dito de forma simbólica.
2 Ela é justamente, como predisse o profeta, o maior símbolo de sua força e de seu império, como se manifesta ainda pelas mesmas coisas que caem sob os nossos olhos. Com efeito, considerai se tudo o que existe no mundo pode ser administrado ou ter comunicação entre si sem essa figura.
3 De fato, não é possível sulcar o mar se esse troféu de vitória, que aqui se chama vela, não se mantém de pé no navio; sem ela não se ara a terra; também os cavadores e artesãos não realizam o seu trabalho sem instrumentos que têm essa figura.
4 A própria figura humana não se distingue em qualquer outra coisa dos animais irracionais, senão por ser reta, poder abrir os braços e levar, partindo de frente, proeminente, o chamado nariz, pelo qual se verifica a respiração do animal, e que não mostra outra coisa que a forma da cruz.
5 E o profeta falou desta maneira: "A respiração diante do nosso rosto, Cristo Senhor".
6 E ainda as vossas próprias insígnias deixam manifesta a força dessa figura, isto é, vossos estandartes e troféus de vitória, com os quais em todo lugar realizais as vossas marchas, mostrando os sinais do império e do poder, até quando o fazeis sem vos dar conta deles.
7 As próprias imagens de vossos imperadores, quando morrem, são consagradas por vós com essa figura, e vós os chamais deuses em vossas inscrições.
8 Uma vez que os exortamos pelo raciocínio e por uma figura patente, na medida de nossas forças, daqui por diante nós não nos sentiremos irresponsáveis, mesmo que continueis incrédulos, pois o que dependia de nós já foi feito e chegou ao fim.

Outra vez Simão mago
56. 1 Os maus demônios, porém, não se contentaram em inventar antes da aparição de Cristo as fábulas dos supostos filhos de Zeus. Pelo contrário, tendo aparecido e conversado com os homens, ficaram sabendo que fora predito pelos profetas que todos nele creriam e que seria esperado em todas as nações e, por isso, como dissemos, lançaram outros, como Simão e Menandro, ambos de Samaria, os quais, realizando prodígios mágicos, enganaram a muitos e ainda os mantêm enganados.
2 E, com efeito, como já dissemos, estando Simão em Roma, a vossa cidade imperial, no tempo de Cláudio César, de tal modo ele impressionou o sacro Senado e o povo romano, que foi tido como deus e honrado com uma estátua como a dos outros que vós considerais como deuses.
3 Por isso nós vos suplicamos que o sacro Senado e o povo romano conheçam este nosso escrito, a fim de que, se houver alguém que ainda esteja enganado pelos ensinamentos dele, conheça a verdade e fuja do erro.
4 Quanto à estátua, se quiserdes, derrubai-a.

Não tememos a morte
57. 1 Os demônios não conseguem convencer que não haverá a conflagração para castigar os ímpios, do mesmo modo que não conseguiram esconder a Cristo depois que ele nasceu. A única coisa que conseguem é fazer que aqueles que vivem irracionalmente e se desenvolvem em meio aos maus costumes, entregues às suas paixões e seguindo a opinião vã, nos tirem a vida e nos odeiem. Nós, porém, não só não os odiamos, mas, como é evidente, queremos, por pura compaixão que temos por eles, persuadi-los a que se convertam.
2 Com efeito, não tememos a morte quando reconhecemos que se deve absolutamente morrer e nada de novo acontece nessa ordem de coisas, mas o mesmo de sempre. Se estas produzem fartura aos que delas usufruem ainda que só por um ano, que prestem atenção ao nosso ensinamento, para que estejam isentos de dor e de necessidades.
3Contudo, se acreditam que não existe nada depois da morte, afirmando que os que morrem terminam em uma absoluta inconsciência, nesse caso fazem-nos um beneficio ao livrar-nos dos sofrimentos e necessidades daqui. Mas eles se mostram maus, inimigos dos homens e seguidores de opinião, pois não nos tiram a vida para nos libertar, mas nos matam para privarnos da vida e do prazer.

Marcião, inspirado pelo demônio
58. 1 Como dissemos antes, os maus demônios também lançaram à frente Marcião do Ponto, que agora ensina a negar o Deus criador de tudo o que é celeste e terrestre, assim como a Cristo, Filho de Deus, que foi anunciado pelos profetas, e prega não sabemos qual outro deus fora do criador de todas as coisas, assim como outro filho seu.
2 Muitos lhe deram fé, como se ele fosse o único que conhece a verdade, e zombam de nós, apesar de não terem nenhuma prova do que dizem, mas, sem qualquer razão, são presa de doutrinas ímpias e dos demônios, como cordeiros arrebatados pelo lobo.
3 De fato, os chamados demônios em nada despedem tanto empenho como em afastar os homens de Deus Criador e de Cristo, seu primogênito. Para isso, àqueles que são capazes de levantar da terra, eles os prenderam e continuam prendendo ao terreno e às obras de mãos dos homens, e aos que se lançam à contemplação do divino, se não possuem uma fala discreta e limpa e uma vida isenta de paixão, preparam-lhes a armadilha para lançá-los à impiedade.

Platão, discípulo de Moisés
59. 1 De nossos mestres também, isto é, do Verbo que falou pelos profetas, Platão tomou o que disse sobre Deus ter criado o mundo, transformando uma matéria informe.Para convencer-nos disso, escutai o que disse literalmente Moisés, o primeiro dos profetas, anteriormente já citado, mais antigo do que os escritores gregos. Por meio dele, dando-nos a entender de que maneira e com quais elementos Deus fez o mundo no princípio, o Espírito profético assim disse:
 2 "No princípio, Deus fez o céu e a terra.
3 A terra era invisível e informe, as trevas ficavam por cima do abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
4 E Deus disse: ‘Faça-se a luz'. E a luz foi feita" .
5 Consequentemente, todo o mundo foi feito pela palavra de Deus a partir de elemento preexistente, antes indicado por Moisés, coisa que tanto Platão como os que seguem as suas doutrinas aprenderam, e também nós a aprendemos, e vós podeis persuadir-vos disso.
6 E mesmo aquilo que entre os poetas se chama "Érebo" ou abismo, sabemos que já fora dito antes por Moisés.

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Estudo 31 - Justino Mártir (165) Apologia I – Capítulos 41 ao 50

31
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (165)
Apologia I – Capítulos 41 ao 50

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Profecia sobre o Reino de Cristo
41. 1 Em outra profecia, o Espírito profético, dando a entender, através de Davi, que Cristo haveria de reinar depois de crucificado, diz assim: “Louvai o Senhor, terra inteira, e anunciai dia a dia a sua salvação, porque o Senhor é grande e digno do maior louvor, temível sobre todos os deuses. Com efeito, todos os deuses das nações são imagens de demônios, mas Deus fez os céus.
2  Glória e louvor em sua presença, força e orgulho no lugar de sua santificação. Glorificai ao Senhor, aquele que é Pai dos séculos.
3 Tomai graça e entrai em sua presença, adorando-o em seus santos átrios. Toda a terra tema diante de sua face, endireite seu caminho e não se perturbe. 4 Que as nações se alegrem: o Senhor reinou pelo madeiro".

Cristo, nossa alegria
42. 1 Esclarecemos também o caso no qual o Espírito profético fala do futuro como já realizado, como já se pode conjecturar na passagem antes mencionada, a fim de que também nisso os que lêem não tenham desculpa.
2 O que é absolutamente conhecido como algo que acontecerá, é predito pelo Espírito profético como já conhecido. Que as coisas devam ser assim, ponde toda atenção de vossa mente ao que vamos dizer.
3 Davi fez a profecia citada, mil e quinhentos anos antes que Cristo feito homem fosse crucificado, e nenhum dos antes nascidos ofereceu, ao ser crucificado, alegria para as nações, e ninguém também depois dele.
4 Em troca, Cristo, que foi crucificado, morreu e ressuscitou em nosso tempo, não só reinou ao subir ao céu, mas pela sua doutrina, pregada pelos apóstolos em todas as nações, é a alegria de todos os que esperam a imortalidade que ele nos prometeu.



Profecia e livre-arbítrio
43. 1 Do que dissemos anteriormente, ninguém deve tirar a conclusão de que afirmamos que tudo o que acontece, acontece por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos que os acontecimentos foram conhecidos de antemão. Por isso, resolveremos também essa dificuldade.
2 Nós aprendemos dos profetas e afirmamos que esta é a verdade: os castigos e tormentos, assim como as boas recompensas, são dadas a cada um conforme as suas obras. Se não fosse assim, mas tudo acontecesse por destino, não haveria absolutamente livre-arbítrio. Com efeito, se já está determinado que um seja bom e outro mau, nem aquele merece elogio, nem este, vitupério.
3 Se o gênero humano não tem poder de fugir, por livre determinação, do que é vergonhoso e escolher o belo, ele não é irresponsável de nenhuma ação que faça.
4 Mas que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, podemos demonstrar pelo seguinte argumento:
5 Vemos que o mesmo sujeito passa de um contrário a outro.
6 Ora, se estivesse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de coisas contrárias, nem mudaria com tanta frequência. Na realidade, nem se poderia dizer que uns são bons e outros maus, desde o momento que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que realiza coisas contrárias a si mesmo, ou que se deveria tomar como verdade o que já anteriormente insinuamos, isto é, que virtude e maldade são puras palavras, e que só por opinião se tem algo como bom ou mau. Isso, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade.
7 Afirmamos ser destino ineludível que aqueles que escolheram o bem terão digna recompensa e os que escolheram o contrário, terão igualmente digno castigo. 8 Com efeito, Deus não fez o homem como as outras criaturas. Por exemplo: árvores ou quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação. Nesse caso, não seria digno de recompensa e elogio, pois não teria escolhido o bem por si mesmo, mas nascido já bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não o seria livremente, mas por não ter podido ser algo diferente do que foi.

Platão depende de Moisés
44. 1 Esta doutrina foi ensinada a nós pelo Espírito profético que, por meio de Moisés, nos testemunha que falou ao primeiro homem que havia criado do seguinte modo: “Olha que diante de tua face está o bem e o mal: escolhe o bem”.
2 E, de novo, através de Isaías, outro profeta, sabemos que, na pessoa de Deus, Pai e soberano do universo, foi dito o seguinte sobre esse mesmo assunto:
3"Lavai-vos e purificai-vos, tirai a maldade de vossas almas. Aprendei a fazer o bem, julgai o órfão, fazei justiça à viúva; então, vinde e conversaremos, diz o Senhor. Mesmo que vossos pecados sejam como a púrpura, eu os deixarei brancos como a lã; mesmo que sejam como escarlate, e os tornarei brancos como a neve.
4 Se quiserdes e me escutardes, comereis os bens da terra; mas se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor".
5 A expressão anterior "A espada vos devorará" não quer dizer que os que desobedecerem serão passados a fio de espada, mas por "espada" deve-se entender o fogo, cuja presa são os que escolheram praticar o mal.
6 Por isso, diz: "A espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor."
7 Se tivesse falado da espada que corta e se separa imediatamente, não teria dito "devorará".
 8 De modo que o próprio Platão, ao dizer: "A culpa é de quem escolhe. Deus não tem culpa", falou isso por tê-lo tomado do profeta Moisés, pois sabe-se que este é mais antigo do que todos os escritores gregos.
9 Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso.
10Daí que parece haver em todos algo como germes de verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros.
11Concluindo: Se dizemos que os acontecimentos futuros foram profetizados, nem por isso afirmamos que aconteçam por necessidade do destino; afirmamos sim que Deus conhece de antemão tudo o que será feito por todos os homens e é decreto seu recompensar cada um segundo o mérito de suas obras e, por isso, justamente prediz, por meio do Espírito profético, o que para cada um virá da parte dele, conforme o que suas obras mereçam. Com isso, ele constantemente conduz o gênero humano à reflexão e à lembrança, demonstrando-lhe que cuida e usa de providência para com os homens.
12Todavia, pela ação dos maus demônios, decretou-se pena de morte contra aqueles que lerem os livros de Histaspes, da Sibila e dos profetas, a fim de impedir, por meio do terror, que os homens consigam, lendo-os, o conhecimento do bem, e retê-los como seus escravos; coisa que definitivamente os demônios não puderam conseguir.
13Com efeito, não só os lemos intrepidamente, mas também, como vedes, nós vo-los oferecemos, para que os examineis, pois estamos seguros de que agradarão a todos. Mesmo que consigamos persuadir algumas poucas pessoas, nosso ganho será muito grande, pois, como bons agricultores, receberemos do amo a nossa recompensa.

Ascensão e glória de Jesus
45. 1 Agora escutai o que disse o profeta Davi sobre o fato de que Deus, Pai do universo, levaria Cristo ao céu, depois de sua ressurreição dos mortos, e retê-lo-ia consigo até ferir os demônios, seus inimigos, e até se completar o número dos que por ele, de antemão conhecidos como bons e virtuosos, em respeito dos quais justamente ainda não foi levada a cabo a conflagração universal.
2 As palavras do profeta são estas: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés.
3 O Senhor te enviará o cetro de poder de Jerusalém, e tu dominarás em meio aos esplendores de teus inimigos.
4 Contigo o império no dia de tua potência, em meio aos esplendores de teus santos. Do meu seio, antes do astro da manhã, eu te gerei”.
5 Portanto, o que ele diz "Enviar-te-á de Jerusalém o cetro de poder" era anúncio antecipado da palavra poderosa que, saindo de Jerusalém, os apóstolos pregaram por toda parte e que nós, a despeito da morte decretada dos que ensinam ou absolutamente confessam o nome de Cristo, em todo lugar também a abraçamos e ensinamos.
6 E se também vós ledes como inimigos estas nossas palavras, além de matar-nos, como já dissemos antes, nada podeis fazer. A nós, isso nenhum dano causará; a vós, porém, e a todos os que injustamente nos odeiam e não se convertem, trazer-vos-á castigo de fogo eterno.

Cristãos antes de Cristo
46. 1 Alguns, sem motivo, para rejeitar o nosso ensinamento, poderiam nos objetar que, ao dizermos que Cristo nasceu somente há cento e cinquenta anos sob Quirino e ensinou sua doutrina mais tarde, no tempo de Pôncio Pilatos, os homens que o precederam não têm nenhuma responsabilidade. Tratemos de resolver essa dificuldade.
2 Nós recebemos o ensinamento de que Cristo é o primogênito de Deus e indicamos antes que ele é o Verbo, do qual todo o gênero humano participou.
3 Portanto, aqueles que viveram conforme o Verbo são cristãos, quando do foram considerados ateus, como sucedeu entre os gregos com Sócrates, Heráclito e outros semelhantes; e entre os bárbaros com Abraão, Ananias, Azarias e Misael, e muitos outros, cujos fatos e nomes omitimos agora, pois seria longo enumerar.
4 De modo que também os que antes viveram sem razão, se tornaram inúteis e inimigos de Cristo e assassinos daqueles que vivem com razão; mas os que viveram e continuam vivendo de acordo com ela, são cristãos e não experimentam medo ou perturbação.
5 O motivo pelo qual ele nasceu homem de uma virgem, pela virtude do Verbo conforme o desígnio de Deus, Pai e soberano do universo, e foi chamado Jesus e, depois de crucificado e morto, ressuscitou e subiu ao céu, o leitor inteligente poderá perfeitamente compreendê-lo pelas longas explicações que foram dadas até aqui.
6 De nossa parte, como não é necessário demonstrar esse ponto agora, passaremos às demonstrações mais urgentes.

Sobre a ruína de Jerusalém
 47. 1 Escutai o que foi predito pelo Espírito profético sobre á devastação futura da terra dos judeus. As palavras foram ditas como que na pessoa daqueles que se maravilham com o acontecido.
2 São as seguintes: "Sião ficou deserta, Jerusalém ficou solitária, e a casa, nosso santuário, foi profanada; a glória que nossos pais bendisseram tornou-se presa do fogo e todas as suas maravilhas se fundiram.
3 A esse repeito, tu suportaste, te calaste e nos humilhaste muito".
4 Que Jerusalém tenha ficado deserta, tal como fora predito, é coisa de que estais bem convencidos.
5 E não só se predisse a sua devastação, mas também, pelo profeta Isaías, que a nenhum deles seria permitido habitar nela, com estas palavras: "A terra deles está deserta, e os próprios inimigos a devoram diante deles; e deles não haverá ninguém que nela se encontrasse e decretastes pena de morte contra o judeu que nela habite". Que vós mesmos montastes guarda para que ninguém nela fosse encontrado, é coisa que sabeis perfeitamente.

Os milagres de Cristo
48. 1 Que nosso Cristo curaria todas as enfermidades e ressuscitaria mortos, escutai as palavras com que isso foi profetizado.
2 São estas: "Diante dele, o coxo saltará como cervo e a língua dos mudos se soltará, os cegos recobrarão a vista, os leprosos ficarão limpos e os mortos ressuscitarão e começarão a andar".
3 Que tudo isso foi feito por Cristo, vós o podeis comprovar pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos.
4 Sobre como foi de antemão indicado que ele haveria de ser morto, juntamente com os homens que nele esperam, escutai as palavras do profeta Isaías:
5 "Eis como pereceu o justo, e ninguém reflete em seu coração; varões justos são tirados do meio, e ninguém considera. O justo é tirado da vista da iniquidade, e ficará em paz: seu sepulcro é tirado do meio" .

A gentilidade
49. 1Novamente olhai o que o profeta Isaías diz: os povos das nações que não o esperavam, iriam adorá-lo; ao contrário, os judeus que o esperavam, o desconheceram quando ele veio. As palavras são ditas na pessoa de Cristo.
2Ei-las: "Manifestei-me aos que não perguntavam por mim, fui encontrado por aqueles que não me buscavam. Eu disse: ‘Eis-me aqui' a uma nação que não invocava o meu nome. 3 Estendi minhas mãos a um povo que não crê e contradiz, aos que andam por caminho não bom, mas atrás de seus pecados.
4 O povo que me exaspera está diante de mim"
5 Foi assim que os judeus, que possuíam as profecias e esperavam continuamente Cristo, quando este veio não o reconheceram; e não apenas isso, pois inclusive o maltrataram. Ao contrário, os gentios, que nunca tinham ouvido falar dele até que os apóstolos, tendo saído de Jerusalém, lhes contaram sua vida e lhes entregaram as profecias, cheios de alegria e de fé, renunciaram aos ídolos e se consagraram ao Deus ingênito, por meio de Cristo.
6 Que de antemão foram conhecidas essas ignomínias que se propagariam contra os que confessam a Cristo e como são miseráveis aqueles que o blasfemam, dizendo que é bom preservar os antigos costumes, escutai como o profeta Isaías o diz brevemente.
7 São suas as palavras: "Ai daqueles que chamam amargo ao doce e doce, ao amargo!"

 A paixão e glória de Cristo
50. 1 Escutai agora as profecias relativas à paixão e desonras que, feito homem, ele sofreria por nós, e a glória com que voltará.
2 São estas: "Porque entregaram sua alma à morte e foi contado entre os iníquos, ele tomou os pecados de muitos e se reconciliará com os iníquos.
3 Eis que meu servo entenderá, será levantado e glorificado muito.
4 Do mesmo modo como muitos ficarão atônitos à tua vista - tão desonrada está a tua figura dos homens e tua glória tão longe dos homens - assim muitas nações ficarão maravilhadas e reis permanecerão silenciosos, porque aqueles para os quais não foi anunciado verão, e os que não ouviram, entenderão.
5 Senhor quem creu naquilo que ouviu de nós? Para quem foi revelado o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como menino, como raiz em terra sedenta.
6 Ele não tem beleza nem glória; nós o vimos e não tinha beleza nem formosura, mas o seu aspecto estava desonrado e debilitado em comparação com os homens.
7 Homem sujeito ao açoite e que sabe suportar a enfermidade, seu rosto está escondido, foi desonrado e desprezado.
8 Leva sobre si nossos pecados e padece por nós, e nós consideramos que ele estava em fadiga, em açoite e desgraça.
9 Ele foi ferido por causa de nossas iniquidades e debilitado por causa de nossos pecados. A disciplina da paz estava sobre ele, fomos curados por sua chaga.
10Todos nós andávamos errantes como ovelhas, cada um se desviou pelo próprio caminho. Entregou-se por nossos pecados e, ao ser maltratado, não abre a boca. Foi levado como ovelha ao matadouro; como cordeiro que fica mudo diante daquele que o tosquia, ele também não abre a boca.
11Em sua humilhação, o seu julgamento foi tirado"mmm.
12Depois de ser crucificado, até seus discípulos o abandonaram e negaram. Depois, porém, quando ressuscitou dentre os mortos e foi visto por eles, depois que lhes ensinou a ler as profecias nas quais estava predito que isso deveria acontecer, e o viram subir ao céu e creram, depois que receberam a força que de lá lhes foi enviada por ele, espalharam-se entre todo tipo de homens, ensinaram-lhes todas essas coisas e foram chamados apóstolos.


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