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SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)
Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 81 a 90
INTERROGAÇÃO 81
Se devem de igual modo ser
repreendidos os piedosos e os indiferentes, quando ambos forem surpreendidos no
mesmo pecado.
Se considerarmos a disposição do
pecador e o modo do pecado, saberemos também como repreender. Embora pareça idêntico
o pecado do indiferente e o do piedoso, há entre eles
enorme diferença. O piedoso, por
ser piedoso, luta e simultaneamente se esforça por agradar a Deus e devido às circunstâncias,
e quase involuntariamente, resvala e cai; o indiferente não faz caso nem de si
nem de Deus e não vê diferença entre pecar e proceder bem, como o demonstra o próprio
nome, e sofre dos principais e maiores males; isto é, despreza a Deus ou não
crê que Deus existe. São as duas causas pelas quais a alma peca, como
testemunha a Escritura ao dizer: O injusto disse em si mesmo que queria
pecar; não existe o temor de Deus ante os seus olhos (SI 35,1) ou: Diz
o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, sua conduta é
abominável (SI 13,1). Portanto, ou despreza e por isto peca, ou nega
que Deus existe e por esta razão corrompe-se quanto aos costumes embora pareça
confessar. Diz-se: Pretendem conhecer
a Deus, e renegam-no pelas obras (Tt 1,16). Sendo assim, também o
respectivo modo de repreender, a meu ver, deve diferir. O piedoso necessita de
uma espécie de aplicação local e deve sofrer a repreensão a respeito do ponto
em que resvalou. O indiferente, porém, tendo o bem da alma completamente corrompido,
e estando atacado de males mais gerais, deve ser lamentado, admoestado e
repreendido ou como desprezador, conforme já disse, ou como incrédulo, até que
se persuada de ser Deus um juiz justo e o tema; ou fique absolutamente convicto
da existência de Deus e encha-se de susto. É bom saber também
que, muitas vezes, os piedosos pecam por dispensação divina, para seu bem: Deus
permite, por vezes, que caiam para curar a soberba anterior, à semelhança do
que foi predito a Pedro e, de fato, lhe sucedeu.
INTERROGAÇÃO 82
Está escrito: As anciãs como a mães (I Tm
5,2). Se acontecer que uma anciã cometa o mesmo pecado que uma jovem, devem
sofrer igual castigo?
Resposta
O Apóstolo ensinou que as anciãs
devem ser veneradas como mães, enquanto nada fizerem de repreensível. Se
acontecer que uma anciã cometa o mesmo pecado que uma jovem, primeiro sejam
considerados os vícios, por assim dizer, naturais a cada idade e assim
determine-se a respectiva medida da repreensão. Por exemplo, é quase natural à
velhice a preguiça; não, porém, à juventude. A divagação, a agitação, a audácia
e coisas semelhantes são inerentes à juventude e não à velhice; parecem estimuladas
pelo ardor natural da juventude. Pelo que o mesmo pecado, a preguiça, por
exemplo, na mais jovem, merece repreensão mais severa, porque nada na idade a
escusa. E o mesmo pecado, a divagação, a audácia ou a agitação é mais condenável
na anciã, pois a idade fomenta a mansidão e a tranquilidade. Por isto, deve-se
julgar do pecado conforme a pessoa e assim empregar a terapia adequada por um
castigo próprio.
INTERROGAÇÃO 83
Se alguém, tendo praticado
assiduamente o bem, cair uma vez, como o trataremos?
Resposta
Como o Senhor a Pedro.
INTERROGAÇÃO 84
Se alguém, de modos turbulentos
e agitados, for repreendido e disser que Deus fez a uns bons e a outros maus,
falou a verdade?
Resposta
Esta opinião, há muito, foi
condenada como herética; é blasfema e ímpia e torna a alma propensa ao pecado.
Portanto, corrija-se ou seja afastado (I Co 5,2), para não acontecer que um
pouco de fermento levede a massa toda (G1 5,9).
INTERROGAÇÃO 85
Se convém ter algo de próprio na
comunidade.
Resposta
É oposto ao testemunho dos Atos
acerca dos fiéis; neles está escrito: Ninguém dizia que eram suas as coisas
que possuía (At 4,32). Quem diz ter algo de próprio faz-se alheio
à igreja de Deus e à caridade do Senhor que ensinou por palavras e obras que se
deve dar a vida pelos amigos; quanto mais os bens exteriores.
INTERROGAÇÃO 86
Se alguém disser: Nada recebo da
comunidade dos irmãos, nem dou, mas contento-me com o que é meu, como agir com
ele?
Resposta
Se não obedecer ao ensino do Senhor
que disse: Amai- vos uns aos outros, como eu vos tenho amado (Jo
13,34), obedeçamos ao Apóstolo que disse: Seja tirado dentre vós o que
cometeu tal ação (I Co 5,2), para não suceder que um pouco de
fermento levede a massa toda (G1 5,9).
INTERROGAÇÃO 87
Se é lícito a cada um dar a quem
quiser o manto velho ou os sapatos, segundo o mandamento.
Resposta
Dar e receber, mesmo segundo o
mandamento, não compete a todos, mas sim àquele que, depois de experimentado,
tiver a seu cargo a distribuição. Portanto, seja velho ou novo, no tempo adequado
a cada coisa ele dará e receberá.
INTERROGAÇÃO 88
Que é a solicitude desta vida?
Resposta
Toda solicitude, mesmo que pareça
não se estender às coisas proibidas, se não adianta para a piedade, é
solicitude desta vida.
INTERROGAÇÃO 89
Já que está escrito: A riqueza de
um homem é o resgate de sua vida (Pr 13,8), nós que as não possuímos, o que
faremos?
Resposta
Se temos zelo por tal e não podemos
praticá-lo, lembremo-nos da resposta do Senhor a Pedro, preocupado por isto,
que dissera: Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para
nós? (Mt 19,27). Ele lhe respondeu: Todo aquele que por minha
causa deixar casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras, receberá o
cêntuplo e possuirá a vida eterna (ibid. 29). Se não o praticamos por
incúria, agora mostremos zelo. Se não temos mais nem tempo, nem forças,
console-nos o Apóstolo ao dizer: Não busco os vossos bens, mas, sim, a
vós mesmos (2Cor 12,14).
INTERROGAÇÃO 90
Se é lícito ter uma veste para a
noite, quer de pelos, quer de outra espécie.
Resposta
O uso das vestes de pelos tem um
tempo adequado. Não são usadas por causa de necessidade corporal, mas para
afligir o corpo e humilhar a alma. Sendo proibido ter duas vestes, julgue cada
um se é possível seu uso além da causa supracitada.
O que você destaca no texto?
Como serve para a sua espiritualidade?