sexta-feira, 10 de abril de 2026
A Defesa Protestante do Monasticismo
terça-feira, 7 de abril de 2026
308 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 48-56
308
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica – Asketikon
As Regras Menos Extensas (313
regras).
Interrogações 48-56
INTERROGAÇÃO 48 – Como se define
a avareza?
Resposta
Consiste em transgredir os limites
da lei. De acordo com o Antigo Testamento isto se dá quando alguém cuida mais
de si do que do próximo, porque está escrito: Amarás o teu próximo como a ti
mesmo (Lv 19,18). Segundo o Evangelho, está em se buscar para si mais do
que o necessário ao dia de hoje, como aquele que ouviu a palavra: Insensato!
nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas que ajuntaste, de quem
serão? (Lc 12,20). A isto acrescenta, de modo geral: Assim acontece ao
homem que entesoura para si mesmo e não é rico
para Deus (ibid. 21).
INTERROGAÇÃO 49 - Que é agir
com leviandade?
Resposta
A acusação de agir com leviandade
recai sobre tudo aquilo que não se toma por necessidade e sim para adorno.
INTERROGAÇÃO 50 - Se alguém
rejeita vestes mais preciosas, mas quer para si coisa vulgar, um manto ou um
calçado que lhe fique bem, peca? Ou de que mal sofre?
Resposta
Todo aquele que, para agradar aos
homens, procurar uma veste que lhe fique bem, sofre do mal de querer aprazer
aos homens, e se afasta de Deus. Possui o vício de ostentação, mesmo nas coisas
vis.
INTERROGAÇÃO 51 - Que é raca?
(Mt 5,32).
Resposta
É uma expressão regional que
significa um insulto mais leve, usado para com os familiares.
(aramaico = sig. Tolo, cabeça-dura,
imbecil ou desprezível. Insulto comum no primeiro século. Relacionado ao termo
hebraico Rekim – Juízes 11.3 “homens sem valor).
INTERROGAÇÃO 52 - O Apóstolo
ora diz: Não sejamos ávidos de vangloria; ora: sem servilismo, como para vos
fazerdes bem vistos (Ef 6,6). Quem é ávido da vangloria e quem é que busca o
beneplácito dos homens?
Resposta
Julgo que é ávido de vanglória quem
faz ou diz alguma coisa tendo em vista uma frágil glória mundana, da parte de espectadores
ou de ouvintes. Busca o beneplácito dos homens, quem faz alguma coisa, até
mesmo ignominiosa, conforme o arbítrio de outrem e no fito de lhe agradar.
INTERROGAÇÃO 53 - Que é
mancha da carne e nódoa do espírito e como delas nos manteremos puros ou que é
a santidade e como a alcançaremos?
Resposta
Mancha da carne é juntar-se àqueles
que cometem o que é proibido; nódoa do espírito, porém, é mostrar-se
indiferente para com os que assim pensam, ou agem. Mantém-se puro quem obedece
ao Apóstolo que dia (ICor 5,11) nem mesmo se dever tomar alimento com tal homem
e com quantos se lhe assemelham; ou quando sente em si o que disse Davi: Revolto-me
à vista dos pecadores, que abandonam a vossa lei (SI 118,53) e demonstra
ter a tristeza de que ficaram possuídos os coríntios, quando acusados de
indiferença diante do pecador (2Cor 7,11), e na verdade mostraram-se totalmente
puros naquela questão. A santidade, porém, é unir-se ao Deus santo,
integralmente, sem cessar, em todo o tempo, com diligência e solicitude pelas coisas
que lhe agradam. Pois coisa mutilada não é aceita como dom sagrado e o que foi
uma vez dedicado a Deus, seria ímpio e intolerável reduzi-lo a um uso comum e
humano.
INTERROGAÇÃO 54 - Que é o
egoísmo e como se conhecerá o egoísta?
Resposta
Muitas coisas são impropriamente
ditas, como, por exemplo, a palavra: Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas
quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna (Jo
12,25). Egoísta é evidentemente quem se ama a si mesmo. Reconhece-se a si mesmo
como tal, se age por causa de si mesmo, ainda quando de acordo com os
mandamentos. Se, por comodidade, omitir qualquer coisa de útil a um irmão, em relação
à alma ou ao corpo, manifesta-se até aos outros que está com o vício do
egoísmo, cujo fim é a perdição.
INTERROGAÇÃO 55 - Qual a
diferença entre amargura, furor, ira e exasperação?
Resposta
A diferença entre furor e ira
consiste no sentimento e no impulso. Às vezes, quem se irrita perturba-se só
pelo
sentimento, conforme indica aquele
que disse: Tremei, pois, e não pequeis mais; o furor (furioso)
vai mais longe, pois: Semelhante ao das serpentes é o seu veneno (SI
57,5), e: Estava Herodes em conflito com os habitantes de Tiro e de
Sidônia (At 12,20). Uma comoção mais veemente de furor chama-se exasperação.
Amargura demonstra mais terrível duração do mal.
INTERROGAÇÃO 56 - Tendo
proferido o Senhor que: Todo o que se exalta será humilhado (Lc 18,44), e como
preceituou o Apóstolo: Não te ensoberbeças (Rm 11,20), e em outro lugar:
Arrogantes, soberbos, altivos (2Tm 3,2), e de novo: A caridade não se
ensoberbece (Icor 13,4). Quem é que se ensoberbece, quem é o arrogante, é quem
o orgulhoso, é quem o presunçoso, quem o inchado?
Resposta
Ensoberbece-se quem se gloria, tem
alto conceito de si mesmo por causa das boas obras, exalta-se como aquele fariseu
(Lc 18,11) e não se abaixa às coisas humildes. Merece igualmente o nome de
soberbo, como foram acusados os coríntios. Arrogante é quem não anda de acordo
com as normas, nem procura seguir a mesma regra e o mesmo modo de pensar, mas traça
o próprio caminho de justiça e de piedade. Orgulhoso é quem se jacta do que
possui e procura parecer mais do que é. Presunçoso talvez seja idêntico a
orgulhoso, ou pouco difere, segundo o dito do Apóstolo: É um homem
orgulhoso, um ignorante (lTm 6,4).
1.
O
que você destaca no texto?
2.
Como
serve para sua vida espiritual?
3.
O
que você destaca na fala do seu irmão?
sábado, 28 de março de 2026
307 - Sermão de Santo Agostinho sobre a Páscoa - “SOBRE A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, SEGUNDO SÃO MARCOS”
Sermão de Santo Agostinho
sobre a Páscoa
“SOBRE A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, SEGUNDO SÃO MARCOS”
Santo Agostinho (*350 -
†430) - Bispo de Hipona
1. A
ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume,
segundo cada um dos livros do santo Evangelho.
2. Na
leitura de hoje ouvimos Jesus Cristo censurando os discípulos, primeiros
membros seus, companheiros seus porque não criam estar vivo aquele mesmo por
cuja morte choravam.
3. Pais
da fé, mas ainda não fiéis; mestres - e a terra inteira haveria de crer no que
pregariam, pelo que, aliás, morreriam - mas ainda não criam.
4. Não
acreditavam ter ressuscitado aquele que haviam visto ressuscitando os mortos.
Com razão, censurados: ficavam patenteados a si mesmos, para saberem o que
seriam por si mesmos os que muito seriam graças a ele.
5. E
foi deste modo que Pedro se mostrou quem era: quando iminente a Paixão do
Senhor, muito presumiu; chegada a Paixão, titubeou. Mas caiu em si, condoeu-se,
chorou, convertendo-se a seu Criador.
6. Eis
quem eram os que ainda não criam, apesar de já verem. Grande, pois, foi a honra
a nós concedida por aquele que permitiu crêssemos no que não vemos! Nós cremos
pelas palavras deles, ao passo que eles não criam em seus próprios olhos.
7. A
ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é a vida nova dos que creem em Jesus,
e este é o mistério da sua Paixão e Ressurreição, que muito devíeis conhecer e
celebrar.
8. Porque
não sem motivo desceu a Vida até a morte. Não foi sem motivo que a fonte da
vida, de onde se bebe para viver, bebeu desse cálice que não lhe convinha. Por
que a Cristo não convinha a morte.
9. De
onde veio a morte? Vamos investigar a origem da morte. O pai da morte é o
pecado. Se nunca houvesse pecado ninguém morreria. O primeiro homem recebeu a
lei de Deus, isto é, um preceito de Deus, com a condição de que se o observasse
viveria e se o violasse morreria. Não crendo que morreria, fez o que o faria
morrer; e verificou a verdade do que dissera quem lhe dera a lei.
10. Desde
então, a morte. Desde então, ainda, a segunda morte, após a primeira, isto é,
após a morte temporal a eterna morte. Sujeito a essa condição de morte, a essas
leis do inferno, nasce todo homem; mas por causa desse mesmo homem, Deus se fez
homem, para que não perecesse o homem. Não veio, pois, ligado às leis da morte,
e por isso diz o Salmo: “Livre entre os mortos” [Sl 87].
11. Concebeu-o,
sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu.
Ele viveu sem culpa, não morreu por motivo de culpa, comungava conosco no
castigo mas não na culpa. O castigo da culpa é a morte.
12. Nosso
Senhor Jesus Cristo veio morrer, mas não veio pecar; comungando conosco no
castigo sem a culpa, aboliu tanto a culpa como a castigo.
13. Que
castigo aboliu? O que nos cabia após esta vida. Foi assim crucificado para
mostrar na cruz o fim do nosso homem velho; e ressuscitou, para mostrar em sua
vida, como é a nossa vida nova. Ensina-o o Apóstolo: “Foi entregue por causa
dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação” [Rm 4,25].
14. Como
sinal disto, fora dada outrora a circuncisão aos patriarcas: no oitavo dia todo
indivíduo do sexo masculino devia ser circuncidado. A circuncisão fazia-se com
cutelos de pedra: porque Cristo era a pedra. Nessa circuncisão significava-se a
espoliação da vida carnal a ser realizada no oitavo dia pela Ressurreição de
Cristo.
15. Pois
o sétimo dia da semana é o sábado; no sábado o Senhor jazia no sepulcro, sétimo
dia da semana. Ressuscitou no oitavo. A sua Ressurreição nos renova. Eis por
que, ressuscitando no oitavo dia, nos circuncidou.
16. É
nessa esperança que vivemos. Ouçamos o Apóstolo dizer. “Se ressuscitasses com
Cristo...” [Cl 3,1] Como ressuscitamos, se ainda morremos? Que quer dizer o
Apóstolo: “Se ressuscitasses com Cristo?” Acaso ressuscitariam os que não
tivessem antes morrido? Mas falava aos vivos, aos que ainda não morreram ... os
quais, contudo, ressuscitaram: que quer dizer?
17. Vede
o que ele afirma: “Se ressuscitasses com Cristo, procurai as coisas que são do
alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto,
não o que está sobre a terra. Porque estais mortos!”
18. É
o próprio Apóstolo quem está falando, não eu. Ora, ele diz a verdade, e,
portanto, digo-a também eu... E por que também a digo? “Acreditei e por causa
disto falei” [Sl 115].
19. Se
vivemos bem, é que morremos e ressuscitamos. Quem, porém, ainda não morreu,
também não ressuscitou, vive mal ainda; e se vive mal, não vive: morra para que
não morra. Que quer dizer: morra para que não morra? Converta-se, para não ser
condenado.
20. “Se
ressuscitasses com Cristo”, repito as palavras do Apóstolo, “procurai o que é
do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do
alto, não o que é da terra. Pois morrestes e a vossa vida está escondida com
Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também
aparecereis com ele na glória”. São palavras do Apóstolo.
21. A
quem ainda não morreu, digo-lhe que morra; a quem ainda vive mal, digo-lhe que
se converta. Se vivia mal, mas já não vive assim, morreu; se vive bem,
ressuscitou.
22. Mas,
que é viver bem? Saborear o que está no alto, não o que sobre a terra. Até
quando és terra e à terra tornarás? Até quando lambes a terra? Lambes a terra,
amando-a, e te tornas inimigo daquele de quem diz o Salmo: “os inimigos dele
lamberão a terra” [Sl 79,9].
23. Que
éreis vós? Filhos de homens. Que sois vós? Filhos de Deus. Ó filhos dos homens,
até quando tereis o coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a
mentira? Que mentira buscais? O mundo.
24. Quereis
ser felizes, sei disto. Dai-me um homem que seja ladrão, criminoso, fornicador,
malfeitor, sacrílego, manchado por todos os vícios, soterrado por todas as
torpezas e maldades, mas não queira ser feliz.
25. Sei
que todos vós quereis viver felizes, mas o que faz o homem viver feliz, isso
não quereis procurar.
26. Tu,
aqui, buscas o ouro, pensando que com o ouro serás feliz; mas o ouro não te faz
feliz. Por que buscas a ilusão? E com tudo o que aqui procuras, quando procuras
mundanamente, quando o fazes amando a terra, quando o fazes lambendo a terra,
sempre visas isto: ser feliz. Ora, coisa alguma da terra te faz feliz.
27. Por
que não cessas de buscar a mentira? Como, pois, haverás de ser feliz? “Ó filhos
dos homens, até quando sereis pesados de coração, vós que onerais com as coisas
da terra o vosso coração?” [Sl 4,3] Até quando foram os homens pesados de
coração? Foram-no antes da vinda de Cristo, antes que ressuscitasse o Cristo.
Até quando tereis o coração pesado? E por que amais a vaidade e procurais a
mentira?
28. Querendo
tornar-vos felizes, procurais as coisas que vos tornam míseros! Engana-vos o
que descaiais, é ilusão o que buscais.
29. Queres
ser feliz? Mostro-te, se te agrada, como o serás. Continuemos ali adiante (no
versículo do Salmo): “Até quando sereis pesados de coração? Por que amais a
vaidade e buscais a mentira?” “Sabei” - o quê? – “que o Senhor engrandeceu o
seu Santo” [Sl 4,3].
30. O
Cristo veio até nossas misérias, sentiu a fone, a sede, a fadiga, dormiu,
realizou coisas admiráveis, padeceu duras coisas, foi flagelado, coroado de
espinhos, coberto de escarros, esbofeteado, pregado no lenho, traspassado pela
lança, posto no sepulcro; mas no terceiro dia ressurgiu, acabando-se o
sofrimento, morrendo a morte.
31. Eia,
tende lá os vossos olhos na ressurreição de Cristo; porque tanto quis o Pai
engrandecer o seu Santo, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a honra de se
assentar no Céu à sua direita.
32. Mostrou-te
o que deves saborear se queres ser feliz, pois aqui não o poderás ser. Nesta
vida não podes ser feliz, ninguém o pode.
33. Boa
coisa a que desejas, mas não nesta terra se encontra o que desejas. Que
desejas? A vida bem-aventurada. Mas aqui não reside ela.
34. Se
procurasses ouro num lugar onde não houvesse, alguém, sabendo da sua não
existência, haveria de te dizer: “Por que estás a cavar? Que pedes à terra?
Fazes uma fossa na qual hás de apenas descer, na qual nada encontrarás!” Que
responderias a tal conselheiro? “Procuro ouro”. Ele te diria: “Não nego que
exista o que descias, mas não existe onde o procuras”.
35. Assim
também, quando dizes: “Quero ser feliz”. Boa coisa queres, mas aqui não se
encontra. Se aqui a tivesse tido o Cristo, igualmente a teria eu. Vê o que ele
encontrou nesta região da tua morte: vindo de outros paramos, que achou aqui
senão o que existe em abundância? Sofrimentos, dores, morte. Comeu contigo do
que havia na cela de tua miséria. Aqui bebeu vinagre, aqui teve fel. Eis o que
encontrou em tua morada.
36. Contudo,
convidou-te à sua grande mesa, à mesa do Céu, à mesa dos anjos, onde ele é o
pão. Descendo até cá, e tantos males recebendo de tua cela, não só não rejeitou
a tua mesa, mas prometeu-te a sua.
37. E
que nos diz ele? “Crede, crede que chegareis aos bens da minha mesa, pois não
recusei os males da vossa”.
38. Tirou-te
o mal e não te dará o seu bem? Sim, da-lo-á. Prometeu-nos sua vida, mas é ainda
mais incrível o que fez: ofereceu-nos a sua morte.
39. Como
se dissesse: “À minha mesa vos convido. Nela ninguém morre, nela está a vida
verdadeiramente feliz, nela o alimento não se corrompe, mas refaz e não se
acaba. Eia para onde vos convido, para a morada dos anjos, para a amizade do
Pai e do Espírito Santo, para a ceia eterna, para a fraternidade comigo; enfim,
a mim mesmo, à minha vida eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a
minha vida? Retende, como penhor a minha morte”.
40. Agora,
pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível, morramos com Cristo pela
conversão dos costumes, vivamos com Cristo pelo amor da justiça. Não haveremos
de receber a vida bem-aventurada senão quando chegarmos àquele que veio até
nós, e quando começarmos a viver com aquele que por nós morreu.
quarta-feira, 18 de março de 2026
306 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 30 a 47
306
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Menos
Extensas (313 regras)
Interrogações 30
a 47
INTERROGAÇÃO 30
Como eliminaremos
o vício da concupiscência má?
Resposta
Com o desejo ardente da vontade de Deus,
tal como demonstrou possuir aquele que disse: Os juízos do Senhor são
verdadeiros, todos igualmente justos. Mais desejáveis que o ouro, que muito
ouro fino. Mais doces que o mel, que o puro mel dos favos (SI
18,10.11). O desejo das coisas melhores, quando se tem a capacidade e a força
de fruir do que se deseja, sempre impõe o desprezo e o afastamento das mais
insignificantes, como o ensinaram todos os santos; com quanto maior razão das coisas
más e vergonhosas!
INTERROGAÇÃO 31
Se não é lícito,
absolutamente, rir-se.
Resposta
Como o Senhor condena os que riem
agora (Lc 6,25), é evidente não haver para o fiel tempo algum próprio ao riso, principalmente
sendo tão grande a multidão dos que ofendem a Deus (Rm 2,23), por violação da
lei, e morrem no pecado; por todos eles devemos contristar-nos e gemer.
INTERROGAÇÃO 32
Donde vem o torpor
(preguiça) inoportuno e excessivo e como o repeliremos?
Resposta
Este torpor sobrevém ao se tornar a
alma mais indolente quanto aos pensamentos de Deus, menosprezando os juízos divinos.
Sacudimo-lo se pensarmos sincera e dignamente na grandeza de Deus e desejarmos
sua vontade, conforme aquele que disse: Não darei sono aos meus olhos,
nem repouso às minhas
pálpebras, nem
descanso às minhas têmporas, até que encontre residência para o Senhor, uma
morada ao Poderoso de Jacó (SI 131,4.5).
INTERROGAÇÃO 33
Como se descobre
que alguém está procurando agradar aos homens?
Resposta
Quando mostra solicitude pelos que o
louvam e indolência para com os que o censuram. Se quer agradar a Deus, sempre
e em toda a parte será o mesmo, realizando a palavra: Pelas armas da
justiça ofensivas e defensivas; através da honra e da desonra, da boa e da má
fama; embora sejamos tidos como impostores, somos, no entanto, sinceros (2Cor
6,7.8).
INTERROGAÇÃO 34
Como fugir do
vício de agradar aos homens e como menoscabar (diminuir a importância) os
louvores dos homens?
Resposta
Com a convicção firme da presença de
Deus, com a solicitude contínua de agradar a Deus, com o desejo ardente das bem-aventuranças
prometidas pelo Senhor. Ninguém, sob o olhar de seu senhor, oscila, buscando
agradar a um companheiro de servidão, com desacato a seu senhor e condenação
para si mesmo.
INTERROGAÇÃO 35
Como se conhecerá
o soberbo e como ficará curado?
Resposta
Conhecer-se-á pelo fato de procurar
o predomínio; curar-se-á, se tiver fé no julgamento daquele que disse: O Senhor
resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes (Tg 4,6). Convém
saber que, apesar do receio de ser julgado soberbo, ninguém se curará desse
vício se não abandonar inteiramente a ambição de prevalecer, como não poderá esquecer
uma língua ou uma arte, quem não deixar completamente não só de fazer ou de
falar a respeito de tal arte, mas até de ouvir os que falam, e de olhar os que
fazem; o mesmo seja observado em relação a qualquer vício.
INTERROGAÇÃO 36
Se as honras devem
ser ambicionadas.
Resposta
Foi-nos ensinado que devemos prestar
honras a quem a honra é devida (Rm 13,7); ambicioná-la, porém, foi proibido
pelo Senhor que disse: Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos
outros e não buscais a glória que é só de Deus (Jo 5,44)? Portanto,
buscar a glória que vem dos homens é demonstração de infidelidade e oposição à
piedade, pois diz o Apóstolo: Se quisesse ainda agradar aos homens, não
seria servo de Cristo (G1 1,10). Se de tal modo são condenados os que
aceitam a glória que os homens lhes dão, os que procuram a que lhes não é oferecida
sofrerão um juízo indizível.
INTERROGAÇÃO 37
De que modo o
preguiçoso em cumprir o mandamento poderá recuperar a diligência?
Resposta
Se
estiver firmemente persuadido da presença do Senhor Deus que tudo vê, das
ameaças contra o preguiçoso, da esperança da grande recompensa por parte do
Senhor que prometeu por meio do apóstolo Paulo haver de alcançar cada qual a
própria recompensa de acordo com o labor (ICor 3,8); e ainda quanto de
semelhante foi escrito para suscitar o zelo de cada um, ou a paciência para a
glória de Deus.
INTERROGAÇÃO 38
Se um irmão
receber uma ordem e contradisser, mas depois for espontaneamente.
Resposta
Pelo fato de contradizer, enquanto é
contumaz e provoca os outros a agirem de igual modo, saiba que é réu daquela sentença:
O perverso só busca a rebeldia (Pr 17,11). Persuada-se bem de não
ser a um homem que contradiz ou obedece, mas ao próprio Senhor, que disse: Quem
vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita (Lc 10,16). E
arrependido primeiro, apresente escusas, e assim, se lho permitirem, faça o
trabalho.
INTERROGAÇÃO 39
Se alguém
obedecer murmurando.
Resposta
Uma vez que disse o Apóstolo: Fazei
todas as coisas sem murmurações e sem hesitações (F1 2,14), quem
murmura aliena-se da unidade dos irmãos e o seu trabalho é excluído do uso dos mesmos.
Evidencia-se estar enfermo de incredulidade e hesitação na esperança.
INTERROGAÇÃO 40
Se um irmão
contrista a outro, como deve ser corrigido?
Resposta
Se o entristeceu da mesma forma que
o Apóstolo, quando diz: Fostes entristecidos segundo Deus, de modo que
nenhum dano sofrestes de nossa parte (2Cor 7,9), não é quem entristece
que necessita de correção, e sim o entristecido é quem deve mostrar as
propriedades da tristeza, segundo Deus. Se o entristeceu em coisas
indiferentes, quem contristou lembre-se do Apóstolo que diz: Se, por uma
questão de comida, entristeces o teu irmão, já não vives segundo a caridade (Rm
14,15), e tendo reconhecido o seu pecado, cumpra o que foi dito pelo Senhor: Se
estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares que teu
irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro
reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta (Mt
5,23.24).
INTERROGAÇÃO 41
Se aquele que
contristou se recusar a pedir desculpas.
Resposta
Cumpram-se as palavras do Senhor sobre
o pecador impenitente: Se recusar ouvir a Igreja, seja ele para ti como
um pagão ou um publicano (Mt 18,17).
INTERROGAÇÃO 42
Se quem contristou
pedir desculpas, mas o entristecido recusar reconciliar-se.
Resposta
É
clara a sentença do Senhor a seu respeito, na parábola do servo em relação a
seu companheiro de serviço; o primeiro, rogado, não quis ter paciência: Vendo
isto, os outros servos vieram contar a seu senhor o que se tinha passado. E o
senhor, encolerizado, retirou-lhe o seu favor, entregou-o aos algozes, até que
pagasse toda a dívida (Mt 18,31.34).
INTERROGAÇÃO 43
Como atender
àquele que nos desperta para a oração?
Resposta
Quem reconhece o detrimento
proveniente do sono, já que a alma perde até a percepção de si mesma, e
compreende a vantagem das vigílias, especialmente como é excelente e glorioso
aproximar-se de Deus para rezar, atenderá àquele que o desperta, seja para a
oração, seja para cumprir uma ordem, como a alguém que lhe presta os maiores
benefícios, acima de todos os desejos.
INTERROGAÇÃO 44
Que merece quem
ficar de mau humor ou mesmo se irritar, ao ser despertado?
Resposta
Seja, por algum tempo, castigado com
o isolamento e o jejum, se for capaz de compreender, arrependido, de quantos e de
quais bens se privou imperceptivelmente e, assim, convertido, alegre-se de
receber idêntico benefício ao daquele que afirmou: Alegra-me a lembrança
de Deus (SI 76,4). Se, porém, continuar insensível, seja cortado do
corpo corno um membro gangrenado e corrupto. Está escrito, em verdade: É preferível
perder-se um só dos teus membros a que o teu corpo inteiro seja atirado na
geena (Mt 5,30).
INTERROGAÇÃO 45
Se alguém, tendo
ouvido do Senhor que: O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu Senhor,
não a fez, nada preparou e lhe desobedeceu, será açoitado com muitos golpes, e
aquele que a ignorou e fez coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes
(Lc 12,47-48), negligencia, no entanto, conhecer a vontade do Senhor, terá ele
alguma desculpa?
Resposta
É evidente que simula ignorância e
não pode fugir à condenação do seu pecado. Se eu não viesse, diz
o Senhor, e não lhe tivesse falado, não teriam pecado, mas agora não há
desculpa para o seu pecado (Jo 15,22), porque a Sagrada Escritura em
toda parte e a todos anuncia a vontade de Deus. Esse, portanto, não sofrerá
menor condenação em companhia dos ignorantes, mas ao contrário será condenado
mais severamente com aqueles, dos quais está escrito: Semelhante ao
veneno da víbora que fecha os ouvidos, para não ouvir a voz dos fascinadores,
do mágico que enfeitiça habilmente (SI 57,5-6). Se, porém, o
encarregado do ministério da palavra negligenciar anunciá-la, será condenado como
homicida, conforme está escrito (Ez 33,8).
INTERROGAÇÃO 46
Se é réu de pecado
quem permite a outrem pecar.
Resposta
Sua sentença evidencia-se das
palavras do Senhor a Pilatos: Quem entregou a ti tem pecado maior (Jo
19,11). Daí se deduz que também Pilatos, ao tolerar os que o entregaram,
tornou-se réu de pecado, embora mais leve. Vemo-lo igualmente em Adão que
suportou a Eva; em Eva, que tolerou a serpente. Nenhum deles ficou impune, como
se fosse inocente. A própria indignação de Deus contra eles, ponderada bem a
questão, o
demonstra, pois
quando Adão, à guisa de escusa, disse aquela palavra: A mulher que deste
apresentou-me deste fruto e eu (Gn 3,12), Deus respondeu: Porque
ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia
proibido comer, a terra será maldita por tua causa (Gn 3,17), etc.
INTERROGAÇÃO 47 Se convém
calar diante dos que pecam.
Resposta
Verifica-se pelos preceitos do
Senhor que não convém; disse ele no Antigo Testamento: Repreende
publicamente o teu irmão, para que não incorras em pecado por sua causa (Lv
19,17).
No Evangelho, porém: Se teu
irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente: se te
ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas
pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas.
Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar também ouvir a Igreja, seja
ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).
Depreende-se a gravidade da sentença
desse pecado, primeiro da palavra do Senhor, quando afirmou, em geral: Quem
não crê no Filho, não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus (Jo
3,36). A seguir, das histórias narradas na Escritura, antiga e nova.
Eis, por exemplo, quando Acã roubou
o lingote de ouro e a veste, a ira do Senhor recaiu sobre todo o povo, embora
esse ignorasse o autor do pecado e o próprio pecado, até que o acima mencionado
fosse descoberto e sofresse, com todos os seus, aquela horrível ruína (Js
7,21-26).
Eli, ainda que não tivesse guardado
silêncio para com seus filhos, que eram pestilentos, mas frequentemente os admoestasse,
dizendo: Não façais assim, meus filhos, não são boas as informações que chegam
a vosso respeito (ISm 2,24) e ainda, com outras palavras, mostrasse o
absurdo do pecado e sua inevitável condenação, porque não os punira
devidamente, nem demonstrara a energia conveniente contra eles, de tal modo exasperou
a ira de Deus que o povo pereceu com os filhos, a própria arca foi tomada pelos
estrangeiros e ele mesmo teve um fim miserável.
Se tamanha ira se inflamou contra
aqueles que não estavam cientes do autor do pecado e contra os que proibiram o
pecado e testemunharam contra ele, que se dirá dos que sabem, contudo se calam?
A não ser que façam o que recomendou o Apóstolo aos coríntios com as seguintes
palavras: Nem tendes manifestado tristeza, para que seja tirado dentre vós o
que cometeu tal ação (ICor 5,2). Ele mesmo atesta como os coríntios agiram
a seguir, escrevendo: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo
Deus! Que digo eu? Que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo!
Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor
7,11).
Mesmo agora existe em geral o perigo
para todos juntos de serem sujeitos à mesma ruína, ou até mais grave, na medida
em que é pior do que aquele que despreza a lei de Moisés, quem despreza
o Senhor (Hb 10,29) e ousa cometer o mesmo pecado que aquele que anteriormente
pecou e foi condenado. Se Caim será vingado sete vezes, Lameque, que cometeu
pecado semelhante, o será setenta vezes sete (Gn 4,24).
O
que você destaca no texto?
Como
ele serve para sua vida espiritual?
O
que você destaca na fala do seu/sua irmãos/ã?