terça-feira, 20 de janeiro de 2026

303 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras).

 

Vídeo do Encontro - 14 participantes.





 
303

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras)

Introdução

 

 

Resumo da Vida de Basílio

 

1.      São Basílio Magno foi um bispo, teólogo e monge que viveu na Capadócia (atual Turquia) no século IV. Foi um dos mais influentes defensores do Credo de Niceia. Principalmente no tratado do Espírito Santo.

2.      Basílio empenhou todas as suas forças intelectuais e físicas na interpretação da doutrina cristã, na reforma da liturgia, na edificação da vida monástica, na defesa da ortodoxia, sem se descuidar, ao mesmo tempo, dos necessitados.

3.      Pertenceu a uma família rica, numerosa (10 irmãos) e de santos. Seu avô morreu mártir na perseguição romana. Sua avó Macrina lhe transmitiu os ensinos de Gregório (o Taumaturgo – 213-270). Seu irmão Pedro foi bispo de Sebaste. Sua irmã Macrina e seu irmão Gregório de Nissa também foram canonizados. Por motivação de Macrina, visitou os ascetas do Egito, da Palestina, da Síria e Mesopotâmia (cf. Carta 1 e 223). De volta para sua terra, em 358, foi batizado pelo velho bispo de Cesareia, Diânios. Foi um homem de saúde frágil.

4.      Formação: Estudou em Bizâncio, Antioquia e Atenas. Em Antioquia conhece  Eustácio de Sebástia. Importante no Monaquismo da Ásia Menor. Sua irmã Macrina interpretava as cartas Eustácio. Conheceu Gregório de Nazianzo em Atenas.

5.      Viveu uma experiência monástica no deserto. Com a morte do pai, vende tudo e vai viver no deserto.  Retirou-se, na companhia de sua mãe e da irmã Macrina, para Anesi, no Ponto, numa propriedade da família, às margens do rio Íris, vivendo como eremita.

6.      Gregório de Nazianzo vai juntar-se a eles. Funda uma pequena comunidade monacal. Juntos estudam as obras de Orígenes.

7.      Redigiu as Grandes e Pequenas Regras, que são a base do monaquismo oriental. Teve que abandonar o monastério para ser sacerdote e depois Bispo. Escreveu 366 cartas, comentários sobre a Sagrada Escritura, obras dogmáticas, morais, ascéticas e polêmicas.

8.      Fundou hospitais, asilos e orfanatos. Trabalhou em favor dos pobres. Defendeu o Credo de Niceia. Lutou contra as heresias que surgiram nos primeiros anos do cristianismo. Foi um adversário do arianismo e dos seguidores de Apolinário de Laodiceia

9.      Faleceu esgotado pelas austeridades e pelas tribulações, prematuramente, à idade de cinquenta anos, em 1º de janeiro de 379.

 

Introdução a Regra Monástica

 

Os princípios do monaquismo brasiliano

 

10.  São Basílio Magno está na origem do movimento monástico, não no sentido absoluto, pois o monaquismo já existia antes dele até na forma comunitária-cenobítica, mas está na origem de uma determinada forma desse estilo de vida, que se estendeu por todo o Oriente, com importantes influências também no monaquismo ocidental.

11.  Os princípios do monaquismo basiliano estão contidos fundamentalmente no “Pequeno Asketikon” (ou “Regras Breves”) e no “Grande Asketikon” (ou “Regras Extensas”), com referências também em outras obras, como “Ética” (“Regras Morais”), “Sobre o Batismo” e outras mais.

12.  Os “Asketikons” foram escritos por Basílio já bispo e que têm o caráter mais de ensinamentos espirituais que de normas para quem deseje seguir Cristo de forma radical.

13.  Esses ensinamentos são totalmente deduzidos da Sagrada Escritura, são a própria Palavra de Deus aplicada à vida.

14.  Por conseguinte, as “Regras” de São Basílio não são “regras” no sentido atual; não são “Constituições” ou “Estatutos” que configurem uma instituição.

15.  São Basílio não fundou nenhuma “Ordem” ou “Congregação” no sentido institucional ou canônico, como entendemos hoje.

16.  No entanto, devemos reconhecer que Basílio é o iniciador de um amplo movimento monástico e seus ensinamentos são fonte da espiritualidade monástica que marca uma determinada característica a esse movimento.

17.  Podemos dizer, no tocante ao lugar de São Basílio no monaquismo, que ele se define como “mestre”, e não “fundador”.

 

Características

 

18.  A vida em comunidade. Para Basílio, a vida em comunidade é inquestionavelmente superior à vida eremítica. Por uma simples razão: a essência do Evangelho de Cristo é a caridade, o amor a Deus e ao próximo. E como praticar a caridade vivendo sozinho?

 

19.  A comunidade como comunhão carismática. A vida cenobítica-comunitária já existia antes de Basílio. Ele, no entanto, pretende imprimir um determinado fundamento e uma determinada forma para a comunidade monástica. E esse fundamento ele vai buscar exclusivamente na Sagrada Escritura. Para tanto, Basílio tem na Sagrada Escritura duas referências básicas e constantes para formar sua ideia de comunidade.

20.  A primeira é a imagem da comunidade dos primeiros cristãos de Jerusalém, como descrito nos Atos dos Apóstolos (At 2, 42-47). Basílio crê firmemente na utopia cristã: é possível vivê-la concretamente, é possível existir uma fraternidade, uma comunidade de irmãos, na qual todos têm “todas as coisas em comum” e na qual há “uma só alma e um só coração”.

21.  A segunda referência, pela qual Basílio tem uma verdadeira devoção, é a imagem da comunidade ou da Igreja como Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo, como comunhão de carismas, conforme vem na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 12. Essa imagem ilumina todas as relações entre os membros da comunidade: são membros uns para os outros, sempre em função da unidade. Todo o dom é para o serviço aos irmãos, no sentido de complementariedade e unidade, para a construção da comunidade do Corpo de Cristo.

 

22.  A primazia da Palavra de Deus. A Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura se entende como fonte de todas as normas e de todas as práticas na vida monástica. É o fundamento absoluto da espiritualidade monástica. Com isso, São Basílio vem a purificar a “ideologia” do monaquismo anterior, que muitas vezes continha elementos dúbios, procedentes da filosofia neoplatônica e estoica, e até de religiões mistéricas.

23.  Em tudo o que Basílio afirma, ele vai primeiro ouvir a Sagrada Escritura, ou vai ler a Sagrada Escritura. Vai primeiro ouvir a Sagrada Escritura para depois compor as suas ideias. A Sagrada Escritura é fonte de todas as normas e regras. Norma para a prática das virtudes, para todo o comportamento, para o que se deve e o que não se deve fazer, para as relações comunitárias e até para as coisas práticas na vida comunitária concreta.

24.  São Basílio sustenta um princípio de que, no tocante à Sagrada Escritura, é o Espírito Santo que nos fala diretamente. Por isso, para ele, a Sagrada Escritura não necessita de interpretação; é necessário colocar-se à escuta do Espírito e basta. Não são necessários recursos auxiliares para a leitura da Palavra de Deus, como não é necessário acender velas quando brilha o sol.

 

25.  Inserção na Igreja. Outro ponto importante em São Basílio é a inserção da comunidade monástica na Igreja. Os ascetas ou monges de Basílio têm de participar da vida da Igreja. Quando Basílio fundou as suas comunidades, pensou na Igreja como um núcleo eclesial. Basílio tinha em vista restaurar o vigor original da Igreja. Ele acreditava na utopia da primitiva comunidade de cristãos. Vivendo em profundidade o mandamento da caridade e realizando a comunhão dos carismas, essas comunidades iriam contribuir para o crescimento e para a unidade do Corpo de Cristo total, que é a Igreja.

26.  O próprio Basílio deu seu próprio exemplo de serviço à Igreja quando, mesmo estando determinado a viver o ideal ascético, ouviu a voz da Igreja e aceitou o episcopado e dedicou-se intensamente à defesa da fé e ao pastoreio do povo de Deus.

27.  Historicamente, os mosteiros que seguiam as “Regras” de São Basílio, em todos os lugares, cumpriram importante papel pastoral, de serviço à Igreja, e mesmo de serviço social, de serviço à comunidade humana.

 

A influência de Eustácio de Sebaste

 

28.  Não há dúvida de que Basílio e sua família estavam sob a influência de Eustácio de Sebaste, que fundou muitas comunidades monásticas. (Lembre-se de Naucrácio, irmão de Basílio, que se tornou asceta. E quatro dos membros da família de Basílio permaneceram celibatários). 

29.  Eustácio era conhecido por sua estrita vida ascética e obras de misericórdia. (Quando Basílio tornou-se bispo, ele abriu uma casa para os pobres e doentes, dirigida pelos discípulos de Eustácio). 

30.  Basílio comunicou-se com Eustácio “desde a infância” (Carta 1 – A Eustácio de Sebaste) e isso indica que a família de Basílio foi de fato influenciada por seu ascetismo. 

31.  Eustácio, juntamente com seus discípulos, repetidamente visitou Basílio e passou “noites inteiras em oração, falando e ouvindo palestras de Deus” (Carta 223, 5). Pode-se dizer com segurança que Eustácio era o pai espiritual de Basílio.

32.  Em Anessi, sem dúvida, Basílio tinha amigos, que compartilhavam seu ideal. Seu amigo dos tempos de estudante, Gregório, viveu com ele e estudou essa “verdadeira filosofia”, a ciência de Cristo. 

33.  Alguns estudiosos atribuem a eles a coleção baseada nos escritos de Orígenes chamada Filocália.

34.  Basílio já havia tido um projeto comum de vida monástica: a renúncia ao mundo, uma vida de pobreza e oração, e a frequente leitura da Sagrada Escritura (Carta 2 – A Gregório (Bose), 21). Então, é claro, ele escreveu a primeira edição das Regras Morais (Cremaschi Lisa, 29).

35.  Os temas não foram inventados por Basílio, mas foram baseados em 1500 citações retiradas do Novo Testamento e divididas por um título e um resumo introdutório. 

36.  Segundo suas próprias palavras, Basílio fez isso para entender melhor as Escrituras. Em resumo, as RM são uma antologia de textos bíblicos.

37.  À primeira vista, as RM parecem ser uma peça sem forma (sem um esboço claro), mas sobre elas Basílio constrói todos os seus outros escritos, revelando sua originalidade e a continuidade de seu pensamento. 

38.  As RM estão no centro de seus trabalhos ascéticos. É o núcleo (a parte mais importante) de seu pensamento ascético. 

 

O Pequeno Asketikon

 

39.  Naquela época, Basílio visitou as comunidades de Eustácio, que viviam de maneira caótica em vários lugares do Ponto, sem qualquer orientação. 

40.  Foi então que publicou sua primeira edição do Pequeno Asketikon, existente apenas na tradução latina de Rufino Aquitânia, em 397.

41.  Sobreviveu apenas na língua síria. Consiste em 200 perguntas e respostas. As respostas são curtas e pode-se ver que as questões foram formadas pelos discípulos de Eustácio. 

42.  Basílio expandiu esse Pequeno Asketikon e, subsequentemente, publicou o Grande Asketikon .

43.  Em 365, o bispo Eusébio mais uma vez chamou Basílio à Capadócia e deu-lhe liberdade de ação. Em 369, quando a grande seca causou uma fome sem precedentes em toda a Capadócia, Basílio chamou os ricos para ajudar os pobres e ele mesmo organizou assistência para os famintos. Neste momento, ele compôs suas homilias: Deus não é a causa do malContra os ricos (dois sermões) e durante os tempos de fome e seca .

44.  Em 370, quando o bispo Eusébio morreu, Basílio, não sem dificuldade, tornou-se bispo de Cesareia. Em menos de dez anos, embora sem boa saúde, ele realizou uma atividade extensiva. 

45.  No entanto, vamos nos concentrar principalmente em suas comunidades ascéticas, que ele frequentemente visitou, falou e instruiu a observar estritamente todas as coisas que as Escrituras exigem de um cristão; então, examinaremos as Regras Extensas (RE) e as Regras Breves (RB). 

46.  Durante a vida de Basílio, elas foram chamados de Asketikon (Ascentismo); somente após sua morte, um compilador desconhecido renomeou as Regras Extensas e as Regras Breves

47.  Basílio afirmou que estava muito feliz em responder a qualquer pergunta, abordando questões de fé e moral de acordo com o Evangelho (Introdução às RB). 

48.  Ele nunca as chamou de regras, já que o cristão tem apenas uma regra – a Escritura. 

49.  Ele nunca compôs quaisquer regras para comunidades monásticas, ou formou uma Ordem no entendimento de hoje, mas apenas explicou as Escrituras àqueles que desejam viver uma vida verdadeiramente ascética. Ele nem queria ser considerado um mestre, mas um instrumento dado por Deus para explicar as Escrituras.

 

 

As Regras Extensas (55 regras)

 

50.  Este trabalho é uma expansão do Pequeno Asketikon. As regras são tão sistematicamente estruturadas que alguns autores até chamam as RE de “um catecismo sistemático”.

51.  Primeiro, elas explicam os Mandamentos de Deus e sua ordem; então falam do amor de Deus e do próximo e do temor de Deus; além disso, elas advertem contra as ilusões e os assuntos deste mundo que são um grande obstáculo para a vida cristã e ascética; enfim, falam da renúncia e das várias categorias de pessoas que desejam consagrar-se ao Senhor, as virtudes e os diversos problemas associados à vida cenobítico-comunitária.

 

As Regras Breves (313 regras)

 

52.  Apesar de chamá-las de “breves”, elas são, na verdade, mais longas. Eles não estão em uma ordem sistemática, embora haja uma associação entre elas. 

53.  Os discípulos de São Basílio estavam bastante familiarizados com as Escrituras e desejavam aprofundar seu conhecimento e esclarecer algumas dúvidas, até mesmo exegéticas. Muitas perguntas são de natureza prática.

54.  Além de RMRE e RB, todos relacionados com a vida ascético-monástica, Basílio escreveu várias cartas que delineavam os princípios da vida monástica, como a Carta 22  e Carta 173 (para as irmãs) que fala de profissão monástica e dá uma breve lista de responsabilidades para aqueles que desejam obedecer incondicionalmente ao Evangelho (por exemplo, Carta 374).

 

55.  Que duradouro serviço São  Basílio Magno fez pela vida monástica?

56.  Como sabemos, São Basílio não era o “criador” nem o “proto-patriarca” do monasticismo oriental. Antes dele, havia várias tentativas e exemplos de vida monástica. Sua genialidade e mérito, no entanto, é que ele sabiamente aperfeiçoou o que já existia.

57.  Desde o século V, o monasticismo oriental geralmente se baseia quase exclusivamente nas Regras de São Basílio Magno, embora nem ele nem outros legisladores monásticos tenham estabelecido no Oriente uma Ordem religiosa no sentido atual do termo, nem deixaram um resumo de regras disciplinares, como São Bento de Núrsia, São Domingos e São Francisco de Assis fizeram no Ocidente. 

58.  No entanto, sem dúvida, as Regras de São Basílio influenciaram fortemente a vida cenobítica, isto é, o sistema comunal da vida monástica, embora os typikons bizantinos raramente citem as Regras de Basílio (os typikons  são as diretrizes e rubricas que estabelece na Igreja Ortodoxa Cristã)

59.  O grande mérito dos trabalhos ascéticos de São Basílio é sua incontestabilidade – eles estão fundamentados nas Escrituras. Mas ainda mais para o seu crédito é a sua concepção de vida monástica.

60.  São Basílio foi um criador de um ideal monástico particular, que pode ser representado em várias áreas:

 

61.  A vida comunal é melhor que a vida eremítica-anacorética. Corresponde melhor à natureza humana, pois o amor ao próximo é melhor vivido na vida comunitária, permitindo que se cumpra mais facilmente o mandamento de Cristo, pois cada dom individual é empregado no serviço do bem comum e, assim, a serviço do bem comum. O próprio Cristo… Os ideais ascéticos da comunidade devem ser os mesmos da primeira comunidade cristã, onde todos eram de um só coração e uma só alma. Tudo era em comum: oração, trabalho, refeições…

62.  O superior (proestos) é o pai espiritual, líder da comunidade. Ele é responsável pelas almas dos monges e por seu progresso na perfeição. Ele deve conhecer todo mundo; portanto, o mosteiro não deve ser muito grande. Ele deve ter o controle sobre tudo que os ascetas fazem, incluindo o jejum e outras práticas penitenciais …

63.  O propósito da vida monástica é ser como Deus em amor. E não apenas praticar o amor por si mesmo em oração e trabalho, mas em relação aos outros por palavras e ações. São Basílio exorta seus monges a ter fervor espiritual, adquirido vivendo na presença de Deus e dedicando seu conhecimento e trabalho ao serviço de seu próximo – a Igreja. Basílio exemplificou e provou isso em sua própria vida. O programa de seus ascetas incluía o trabalho social e educacional.

 

 

O que você destaca no texto?

Como ele serve para sua espiritualidade?

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Dia de Santo Antão do Deserto.


Hoje lembramos de Antão do Deserto. 17/01.

Santo Antão do Deserto (†356) – Pai dos Monges, Mestre do Combate Espiritual

Hoje, ao lembrarmos Santo Antão, a Igreja cristã contempla uma das figuras mais decisivas da história da espiritualidade. Antão não pertence apenas à tradição oriental ou medieval; ele é patrimônio de toda a Igreja de Cristo. Para nós, da OESI – Ordem Evangélica dos Servos Intercessores, sua vida é um chamado vivo à radicalidade do Evangelho, à simplicidade, à oração perseverante e ao combate espiritual vivido sob a graça de Deus.

Antão nasceu no Egito, no final do século III, e, ao ouvir na congregação a palavra do Senhor — “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e segue-me” (Mt 19,21) — respondeu não com discursos, mas com obediência. Sua leitura das Escrituras era direta, viva e transformadora. Ele não buscava méritos, mas conformar toda a sua vida à vontade de Deus. Aqui reconhecemos um princípio profundamente evangélico: a Palavra de Deus é suficiente e eficaz para conduzir o discípulo à maturidade espiritual.

O retiro de Antão ao deserto não foi fuga do mundo, mas enfrentamento. No silêncio, ele discerniu as batalhas do coração humano, lutou contra tentações, pensamentos desordenados e falsas imagens de Deus. Sua vida testemunha que a verdadeira guerra espiritual não se vence por técnicas, mas pela oração constante, jejum sóbrio, vigilância e confiança total no Senhor. Como escreveu Atanásio de Alexandria, seu biógrafo, Antão aprendeu que “não é o lugar que faz o monge, mas o coração entregue a Deus”.

Como protestantes, reconhecemos em Antão não um mediador, mas um irmão na fé, um testemunho da obra do Espírito Santo na Igreja primitiva. Sua santidade não se fundamenta em obras para salvação, mas numa vida rendida à graça que transforma. Ele nos ensina que a disciplina espiritual não substitui o Evangelho, mas o serve; não nos justifica, mas nos conforma a Cristo.

Para a OESI, formada por servos e servas que vivem no mundo, em igrejas, famílias e vocações diversas, Santo Antão recorda que o “deserto” pode ser vivido no coração: um espaço de silêncio interior, de escuta da Palavra, de intercessão e de fidelidade cotidiana. Seu testemunho ecoa com força em nossa vocação monástica evangélica: orar sem cessar, viver com sobriedade, resistir ao mal e amar profundamente a Cristo.

Neste dia, damos graças a Deus pela vida de Santo Antão. Que seu exemplo nos conduza não à admiração distante, mas à imitação fiel, sempre lembrando que o mesmo Senhor que o sustentou no deserto é aquele que hoje sustenta a sua Igreja.

“O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1Co 4,20).

Que o Senhor nos conceda, como concedeu a Antão, um coração indiviso e perseverante. Amém.

domingo, 4 de janeiro de 2026

302 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Extensas (55 regras). - Regras 46 a 55

 

Marleide, Frei Isaac, Nathalie, Genisson, Leopoldo, Luiz Daniel, Ir. Edson

Marleide, Frei Isaac, Nathalie, Genisson, Leopoldo, Luiz Daniel, Ir. Edson

Oração das Vésperas




302

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Extensas (55 regras). Regras 46 a 55

 

QUESTÃO 46 - NÃO SE OCULTEM OS PECADOS DE UM IRMÃO OU OS SEUS PRÓPRIOS

 

Resposta

1.      Declare ao superior qualquer pecado, seja quem pecou, ou quem deste pecado tiver conhecimento, se não o puder curar, como foi ordenado pelo Senhor. O mal encoberto pelo silêncio é uma doença mal cicatrizada na alma. Não denominaríamos benfeitor quem guardasse num corpo males fatais, e sim, ao contrário, aquele que mesmo com dores e incisões manifestasse a ferida, ou provocando vômito eliminasse o que era molesto, ou finalmente, pelo diagnóstico desse a conhecer facilmente a terapia.

2.      Assim, é evidente que ocultar o pecado é predispor o doente para a morte. Ora, diz-se, o aguilhão da morte é o pecado(ICor 15,56). Melhor é a correção manifesta do que uma amizade escondida (Pr 27,5). Portanto, que um não esconda o pecado de outro, para não se tornar fratricida, ao invés de amigo de seu irmão; nem proceda assim em relação a si mesmo. Aquele que é descuidado em seu trabalho, é irmão do que vai à perdição (Pr18,9).

 

QUESTÃO 47 - OS QUE NÃO ACEITAM O QUE O SUPERIOR ESTABELECEU

 

Resposta

3.      Quem não concordar com as decisões do superior deve abertamente ou em particular dizê-lo, se tiver alguma razão válida, apoiada no sentido das Escrituras, ou cumpra, calado, o que foi ordenado. Se tiver acanhamento, empregue outros como intermediários, de modo que, se a ordem for contra a Escritura, evite o mal para si e para os irmãos; se, porém, ficar demonstrando que não é contra a Escritura, livre-se de um juízo vão e perigoso. Mas aquele que come, apesar de suas dúvidas, é condenado, porque não se guia pela convicção (Rm 14,23).

4.      Não se dê aos mais simples ocasião resvaladiça de desobediência. Mass e alguém fizer cair em pecado um destes pequeninos, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó que um asno faz girar e o lançassem no fundo do mar (Mt 18,6). Se alguns persevera- rem na desobediência, sem revelarem tristeza, mas murmurarem às ocultas, pelo fato de serem causa de divisão na comunidade e abalarem a autoridade certa das ordens, tornando-se mestres de rebelião e de desobediência, sejam expulsos da comunidade dos irmãos. Expulsa o mofador do conselho e cessará a discórdia (Pr22,10). E ainda: Um pouco de fermento leveda a massa toda (ICor 5,6).

 

QUESTÃO 48 - NÃO SE DEVE INVESTIGAR CURIOSAMENTE O GOVERNO DO SUPERIOR, MAS ANTES ESTAR ATENTO A SEU PRÓPRIO DEVER.

 

Resposta

5.      Além do mais, para não acontecer que facilmente caia alguém no vício da contestação, com prejuízo próprio e alheio, que de modo absoluto nenhum dos irmãos, de início, investigue curiosamente o governo do superior, nem se preocupe com o que se faz, exceto os mais próximos dele, tanto pelo grau, quanto pela prudência. O superior chamará a esses necessariamente a conselho e deliberação sobre as questões de interesse comum, obediente à exortação do que disse: Não faças coisa alguma sem conselho (Eclo 32,24).

6.      Se, pois, lhe confiamos o governo das nossas almas, como quem há de prestar contas a Deus, seria completamente ilógico desconfiar nas coisas mais vis e enchermo-nos de suspeitas absurdas contra um irmão, dando aos demais também ocasião de fazerem o mesmo. Para isto não acontecer, cada um fique no lugar aonde foi chamado e dê-se completamente ao que lhe foi entregue, sem indagar curiosamente dos negócios dos outros, imitando os santos discípulos do Senhor, entre os quais a questão da samaritana podia ter suscitado uma suspeita. Nenhum, todavia, lhe perguntou: Que desejas? ou: Que falas com ela? (Jo 4,27).

 

QUESTÃO 49 - CONTROVÉRSIAS ENTRE OS IRMÃOS.

 

Resposta

7.      Quanto às controvérsias entre os irmãos, se alguns discordarem a respeito de alguma questão, não devem de modo contencioso se defrontarem, mas deixem o julgamento aos mais idôneos. Para não se perturbar a ordem, perguntando todos sempre, nem dar ocasião a zombarias e bagatelas, é preciso haver uma pessoa bem experiente, que possa propor o ponto duvidoso à deliberação comum dos irmãos ou referi-la ao superior.

8.      Assim, o exame da questão será mais exato e mais prudente. Se em qualquer negócio são precisas ciência e experiência, nesses muito mais ainda.  E se ninguém entrega instrumentos a inexpertos, com maior razão, só se conceda o manejo da palavra a peritos que sabem discernir o lugar, a ocasião e o modo de interrogar, perguntam sem contradição e com prudência, ouvem com sabedoria, e com diligência dão a solução desejada, para a edificação da comunidade.

 

QUESTÃO 50 - DE QUE MODO DEVE O SUPERIOR CORRIGIR.

 

Resposta

9.      Mesmo nas correções, não aja o superior para com os delinquentes sob o impulso da emoção. Repreender encolerizado e irado a um irmão não é livrá-lo do pecado e sim envolver-se a si mesmo em falta. Por isso se diz: É com mansidão que deve corrigir os adversários (2Tm 2,25). Não seja violento, nem mesmo contra aqueles que, acaso, o desprezarem, e ao invés, se vir um outro menosprezado, seja indulgente para com o pecador, mas revele maior indignação contra o pecado.

10.  Assim evitará suspeita de egoísmo, por agir diversamente em relação a si ou aos outros; não mostre ódio ao pecador e sim aversão ao pecado. Se ele se indignar contra o que foi dito, é evidente que não se irrita por causa de Deus, ou do perigo em que incorre o pecador, mas por ambição de glória e de domínio. Revele, pois, zelo pela glória de Deus, ofendida pela transgressão do mandamento, de dois modos: através da misericórdia fraterna que quer salvar o irmão em perigo por causa do pecado (porque: É o culpado que morrerá, Ez 18,4), e através do ataque que move contra qualquer pecado enquanto pecado, patenteando o ardor do espírito na severidade da pena.

 

 

 

QUESTÃO 51 - A MANEIRA DE CORRIGIR AS FALTAS DE QUEM PECOU.

 

Resposta

11.  Proceda-se nas correções à maneira da medicina em relação aos pacientes: não se irrita contra os doentes, mas combate a doença. Ataque os vícios e, se necessário, com meios mais penosos, cure as doenças da alma. A vangloria, por exemplo, com exercícios de humildade; as palavras ociosas, com o silêncio; o sono exagerado com vigílias de oração; a preguiça corporal com o labor, a imoderação no comer com o jejum; a murmuração com o retiro.

12.  Nenhum dos irmãos trabalhe com o murmurador, nem o produto de seu trabalho seja englobado com os dos outros, como foi dito acima, a não ser que, pela penitência, da qual não se core, mostre que se libertou deste vício. Então, também a obra que fez murmurando pode ser aceita; no entanto, não seja usada para serviço dos irmãos, mas destinada a outra finalidade. A razão disto foi suficientemente exposta acima.

 

QUESTÃO 52 - COM QUE DISPOSIÇÃO SERÃO RECEBIDOS OS CASTIGOS

 

Resposta

13.  Dissemos que o superior deve aplicar os tratamentos aos doentes de modo desapaixonado; assim também os pacientes recebam os castigos sem ódio, sem considerar tirania o cuidado que lhes é prestado por misericórdia, para a salvação de suas almas. É vergonhoso que os fisicamente doentes confiem nos médicos a tal ponto que, se cortam, queimam ou receitam remédios amargos, são considerados benfeitores e nós não mantenhamos idêntica atitude para com os médicos das almas, quando por meios severos agem em prol de nossa salvação, conforme diz o Apóstolo: Porque, se eu vos entristeço, como poderia esperar alegria daqueles que por mim foram entristecidos? (2Cor 2,2). E ainda: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que zelo! Que ardor! (2Cor 7,11). Se olharmos para o fim, consideraremos benfeitor quem nos entristece, segundo Deus.

 

QUESTÃO 53 - COMO OS MESTRES DOS OFÍCIOS HÃO DE CORRIGIR AS FALTAS DOS MENINOS

 

Resposta

14.  Os mestres dos ofícios, no caso de os discípulos cometerem erros contra a própria arte, corrijam em particular a falta e emendem os erros. Todos os pecados, porém, que denotarem perversidade nos costumes, como sejam contumácia e contradição, preguiça no trabalho, ou palavras ociosas, ou mentira, ou qualquer outra coisa proibida aos que praticam a piedade, devem ser denunciados junto do responsável pela disciplina comum e repreendidos. Excogite ele a medida e o modo a empregar a fim de curar os pecados. Se a repreensão é o tratamento da alma, não compete a qualquer um repreender ou curar, senão àquele a quem o superior, após maduro exame, o permitir.

 

QUESTÃO 54 - CONVENIÊNCIA DE TEREM OS SUPERIORES DAS COMUNIDADES DIÁLOGOS A RESPEITO DOS RESPECTIVOS INTERESSES

 

Resposta

15.  É bom que haja, em tempos e lugares determinados, reuniões dos superiores das comunidades dos irmãos. Exponham eles mutuamente as questões fortuitas, os pontos morais mais difíceis e o que cada um estabeleceu, de modo que, se houver erro, pelo julgamento de muitos se esclareça devidamente, e se foi acertado, seja confirmado pelo testemunho de muitos.

 

QUESTÃO 55 - SE O USO DA MEDICINA CONVÉM ÀS FINALIDADES DA PIEDADE

 

Resposta

16.  Deus nos concedeu o auxílio das artes para suprir às debilidades de nossa natureza. A agricultura, por exemplo, porque os produtos espontâneos da terra não seriam suficientes para satisfazer às nossas necessidades; a têxtil, porque as vestes são indispensáveis, tanto para o decoro quanto para defesa contra as intempéries; e igualmente a arte da construção das casas. Assim também a medicina.

17.  Como o corpo passível está sujeito a vários males, quer sobrevindos de fora, quer intrínsecos ocasionados pelos alimentos, e ora é afligido pelo excesso, ora pela insuficiência, a medicina, cortando o supérfluo e suprindo as deficiências, foi-nos concedida por Deus, que governa a nossa vida, como tipo do tratamento a ser empregado para sanar a alma.

18.  Se estivéssemos ainda no paraíso de delícias, não precisaríamos das invenções e do labor agrícola; assim também, se tivéssemos ainda o dom da imunidade como antes da queda, quando as coisas foram criadas, não necessitaríamos do alívio da medicina. Mas depois de expulsos para a terra e ouvirmos a palavra: Comerás o teu pão com o suor de teu rosto (Gn 3,19), após uma longa experiência e muito labor no cultivo da terra, para suavizar as tristezas desta maldição, descobrimos a agricultura, da qual Deus nos deu a inteligência e o conhecimento.

19.  Igualmente, tendo recebido ordem de voltar à terra de onde fomos tirados, e ligados à carne molesta, condenada à corrupção e sujeita às doenças em consequência do pecado, foi-nos oferecida também a ajuda da medicina, para proporcionar aos doentes certa assistência.

20.  Não foi fortuitamente que as ervas apropriadas à cura de cada uma das doenças germinaram da terra. Ao contrário, foram produzidas de acordo com a vontade do Criador, para prover às nossas necessidades. A descoberta de força natural que há nas raízes e nas flores, nas folhas e nos frutos, nas substâncias, no que há nas minas ou no que existe no mar presta-se ao bem do corpo. Assemelha-se aos outros inventos, referentes à comida e à bebida. Os cristãos, no entanto, têm o dever de evitar o que foi excogitado supérflua e minuciosamente, é obtido com grande trabalho e absorve de certo modo nossa vida nos cuidados com o corpo.

21.  Esforcemo-nos por usar desta arte, se precisarmos, sem lhe atribuir a causa da boa ou má saúde, mas empreguemo-la a fim de manifestar a glória de Deus e enquanto imagem do tratamento da alma. Se precisarmos dos socorros da medicina de modo nenhum ponhamos a esperança da melhora dos males somente nessa arte. Devemos saber que o Senhor não permitirá sermos tentados além do que podemos suportar (ICor 10,13), ou fará como outrora, quando fez um pouco de lodo, ungiu (o cego) e ordenou-lhe se fosse lavar em Siloé (Jo 9,6.7), ou quando se limitou a manifestar a própria vontade, dizendo: Quero, sê purificado (Mt 8,3).

22.  Na verdade permite que alguns combatam em meio de aflições, tomando-os mais recomendáveis por meio da prova. Assim também agora quer agir conosco, algumas vezes curando de maneira invisível e escondida, quando julga proveitoso para nossas almas; de outras vezes, porém, determina que usemos dos socorros materiais em nossas doenças, a fim de ser duradoura a lembrança do benefício recebido pela demora da cura, ou ainda, como disse, dá-nos um exemplo de terapêutica espiritual. Como é forçoso para o corpo eliminar os elementos estranhos e suprir as deficiências, assim convém remover de nossas almas o que lhes é alheio e tomar o que é de acordo com sua natureza. Na verdade, Deus criou o homem reto e nos fez para a prática das boas obras (Ecl 7,30).

23.   E se aceitamos para curar o corpo os cortes, as cauterizações, os medicamentos amargos, de igual modo importa suportar para a cura da alma as palavras cortantes da censura e os remédios amargos das repreensões. A palavra profética exprobra os que assim não se emendam, ao dizer: Não haverá bálsamo em Gileade? Nem se poderá encontrar um médico? Por que, então, a ferida da filha de meu povo não se há de cicatrizar? (Jr 8,22). Se nas doenças crônicas procura-se por muito tempo obter a saúde, empregando recursos vários e dolorosos, isto indica que devemos corrigir os pecados da alma também com orações prolongadas, diuturna penitência e regime mais severo, talvez mais ainda do que a razão sugere como suficiente para a cura. Se alguns não usam convenientemente da medicina, nem por isso somos obrigados a recusar todas as suas vantagens.

24.  Se os intemperantes, à busca de delícias, abusam da arte culinária, da panificação, da arte têxtil, excedendo os limites da necessidade, não rejeitamos logo todos esses ofícios; ao contrário, pelo bom uso dos mesmos, corrigiremos o seu abuso. Assim também quanto à medicina é ilógico opor-se a um dom de Deus, porque alguns a empregam mal. Seria irracional colocar nas mãos do médico a esperança da saúde; no entanto vemos que alguns infelizes o fazem, não se corando de denominá-los seus salvadores. Seria, porém, obstinação ser inteiramente avesso aos bens que a medicina traz.

25.  Como Ezequias não tinha a massa de figos na conta da causa primeira de sua saúde (2Rs 20,7), nem lhe atribuía a cura do corpo, mas acrescentou à glorificação de Deus a ação de graças por ter criado os figos, assim também nós, se feridos por Deus, que governa de maneira boa e sábia a nossa vida, peçamos-lhe, em primeiro lugar, conhecimento da razão por que deste modo nos flagela; em segundo, que nos livre dessas dores e nos dê a paciência, de modo que com a tentação nos conceda também os meios de sairmos dela, dando nos poder de suportá-la (ICor 10,13).

26.  Recebamos com ações de graças a concessão da graça da saúde, seja por meio de um misto de vinho com óleo (Lc 10,34), como sucedeu ao que caiu nas mãos dos ladrões, seja por meio dos figos, como aconteceu a Ezequias (2Rs 20,7).

27.  Não há diferença se Deus nos trata de um modo invisível ou emprega elementos corpóreos; estes, com frequência, nos levam mais eficazmente a entender o dom do Senhor. Muitas vezes, por castigo caímos doentes e somos condenados a tratamento duro e pesado, em substituição da pena. A reta razão nos persuade a não repudiarmos nem os cortes, nem as cauterizações, nem a acerbidade dos remédios acres e molestos, nem os regimes, nem a dieta estrita, nem a abstinência de coisas mortíferas; salvo, repito-o, o bem da alma, à qual é proposto este exemplo para seu próprio tratamento.

28.  Perigo não pequeno há em cair no erro de pensar que toda doença reclama os subsídios da medicina. Nem todas as doenças provêm da natureza, ou de uma alimentação imprópria, ou de outra causa somática, para cuja terapia vemos, por vezes, ser útil a medicina.

29.  Frequentemente, porém, as doenças são flagelos por causa dos pecados, para nos convertermos. O Senhor castiga aquele que ele ama (Pr 3,12); e: Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos e muitos mortos. Se nos examinássemos a nós mesmos, nós não seríamos julgados. Mas, sendo julgados pelo Senhor, ele nos castiga para não sermos condenados com este mundo (ICor 11,30.32).

30.  Por isso, em tais casos, logo que reconhecermos nossos delitos, desistindo da medicina, soframos em silêncio nossas penas, segundo a palavra: Suportei a cólera do Senhor porque tenho pecado contra ele (Mq 7,9). E assim, emendemo-nos, produzindo dignos frutos de penitência, lembrados do Senhor que disse: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior (Jo 5,14).

31.  Às vezes, as doenças nos advêm a pedido do maligno, quando o Senhor, amigo dos homens, lhe apresenta para combate um grande lutador e deprime sua jactância com a suma tolerância de seus servos, conforme sabemos ter sucedido a Jó (Jó 2,6).

32.  Deus propõe aos intolerantes de seus próprios males o exemplo de alguns que suportaram com perseverança as adversidades até à morte, como Lázaro do qual, afligido por profundas úlceras (Lc 16,20), não está escrito que tivesse pedido alguma coisa ao rico ou se mostrasse impaciente por causa da própria situação. Por isso alcançou o repouso no seio de Abraão (ibid. 22.25), tendo recebido males em sua vida.

33.  Encontramos ainda outra causa das doenças que atacam os santos, como se deu com o Apóstolo. Para não parecer ultrapassar os limites da natureza humana, nem julgasse alguém possuir ele naturalmente algo de extraordinário (como sucedeu aos licaônios, que lhe trouxeram coroas e touros, At 14,12) e a fim de comprovar que possuía natureza humana, pelejava continuamente com a doença.

34.  Que vantagens, portanto, pode trazer a medicina a tais homens? Ou antes, que perigo não será se os desviar da reta razão para cuidarem do corpo? Os que contraíram uma enfermidade devida a uma dieta prejudicial devem servir de modelo, pelo tratamento do corpo, ao da alma, como se disse mais acima. Pois, convém-nos também, de acordo com a medicina, abster-nos do que é nocivo, escolher o que é útil, observar as prescrições.

35.  Analogamente, a passagem da enfermidade corporal à saúde serve-nos de consolo, para não desanimarmos a respeito da alma, como se não pudesse voltar, pela penitência, dos pecados à própria integridade. Não evitemos, portanto, inteiramente esta arte, nem tampouco coloquemos nela toda a nossa esperança.

36.  Mas, como usamos da agricultura, suplicando a Deus os frutos, e como entregamos o leme ao piloto, rogando a Deus escapemos incólumes do mar, assim também se chamamos o médico, quando razoável, não perdemos a esperança que devemos colocar em Deus.

37.  Parece-me também que esta arte auxilia não pouco à continência. Vejo como corta os prazeres, condena a saciedade e variedade dos alimentos, rejeita como inconveniente o excessivo apuro no preparo da alimentação; em resumo, chama à sobriedade mãe da saúde, e assim, até por esse ponto de vista, seus conselhos não são vãos.

38.  Quer, portanto, respeitemos algumas vezes as prescrições medicinais, quer não as sigamos por alguma das causas acima enumeradas, preservado fique o escopo de agradar a Deus e buscar o bem da alma, cumprindo o mandamento do Apóstolo: Quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (ICor 10,31).



 Minhas anotações

 

Pecado

Declare ao superior qualquer pecado, seja quem pecou, ou quem deste pecado tiver conhecimento, se não o puder curar, como foi ordenado pelo Senhor. O mal encoberto pelo silêncio é uma doença mal cicatrizada na alma. Não denominaríamos benfeitor quem guardasse num corpo males fatais, e sim, ao contrário, aquele que mesmo com dores e incisões manifestasse a ferida, ou provocando vômito eliminasse o que era molesto, ou finalmente, pelo diagnóstico desse a conhecer facilmente a terapia. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 46

 

Pecado

Assim, é evidente que ocultar o pecado é predispor o doente para a morte. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 46

 

Disciplina e Correção

Se alguns perseverarem na desobediência, sem revelarem tristeza, mas murmurarem às ocultas, pelo fato de serem causa de divisão na comunidade e abalarem a autoridade certa das ordens, tornando-se mestres de rebelião e de desobediência, sejam expulsos da comunidade dos irmãos. Expulsa o mofador do conselho e cessará a discórdia (Pr22,10). E ainda: Um pouco de fermento leveda a massa toda (ICor 5,6). SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 47

 

Disciplina e Correção

Mesmo nas correções, não aja o superior para com os delinquentes sob o impulso da emoção. Repreender encolerizado e irado a um irmão não é livrá-lo do pecado e sim envolver-se a si mesmo em falta. Por isso se diz: É com mansidão que deve corrigir os adversários (2Tm 2,25). Não seja violento, nem mesmo contra aqueles que, acaso, o desprezarem, e ao invés, se vir um outro menosprezado, seja indulgente para com o pecador, mas revele maior indignação contra o pecado. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 50

 

Disciplina e Correção

Proceda-se nas correções à maneira da medicina em relação aos pacientes: não se irrita contra os doentes, mas combate a doença. Ataque os vícios e, se necessário, com meios mais penosos, cure as doenças da alma. A vangloria, por exemplo, com exercícios de humildade; as palavras ociosas, com o silêncio; o sono exagerado com vigílias de oração; a preguiça corporal com o labor, a imoderação no comer com o jejum; a murmuração com o retiro. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 51

 

Disciplina e Correção

Nenhum dos irmãos trabalhe com o murmurador, nem o produto de seu trabalho seja englobado com os dos outros, como foi dito acima, a não ser que, pela penitência, da qual não se core, mostre que se libertou deste vício. Então, também a obra que fez murmurando pode ser aceita; no entanto, não seja usada para serviço dos irmãos, mas destinada a outra finalidade. A razão disto foi suficientemente exposta acima. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 51

 

Disciplina e Correção

 Dissemos que o superior deve aplicar os tratamentos aos doentes de modo desapaixonado; assim também os pacientes recebam os castigos sem ódio, sem considerar tirania o cuidado que lhes é prestado por misericórdia, para a salvação de suas almas. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 51

 

Medicina

Deus nos concedeu o auxílio das artes para suprir às debilidades de nossa natureza. A agricultura, por exemplo, porque os produtos espontâneos da terra não seriam suficientes para satisfazer às nossas necessidades; a têxtil, porque as vestes são indispensáveis, tanto para o decoro quanto para defesa contra as intempéries; e igualmente a arte da construção das casas. Assim também a medicina. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 55

 

Medicina

Mas, como usamos da agricultura, suplicando a Deus os frutos, e como entregamos o leme ao piloto, rogando a Deus escapemos incólumes do mar, assim também se chamamos o médico, quando razoável, não perdemos a esperança que devemos colocar em Deus. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Regra Monástica – Asketikon. As Regras Extensas (55 regras). Regra 55

 

 

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