Sermão de Santo Agostinho
sobre a Páscoa
“SOBRE A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, SEGUNDO SÃO MARCOS”
Santo Agostinho (*350 -
†430) - Bispo de Hipona
1. A
ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume,
segundo cada um dos livros do santo Evangelho.
2. Na
leitura de hoje ouvimos Jesus Cristo censurando os discípulos, primeiros
membros seus, companheiros seus porque não criam estar vivo aquele mesmo por
cuja morte choravam.
3. Pais
da fé, mas ainda não fiéis; mestres - e a terra inteira haveria de crer no que
pregariam, pelo que, aliás, morreriam - mas ainda não criam.
4. Não
acreditavam ter ressuscitado aquele que haviam visto ressuscitando os mortos.
Com razão, censurados: ficavam patenteados a si mesmos, para saberem o que
seriam por si mesmos os que muito seriam graças a ele.
5. E
foi deste modo que Pedro se mostrou quem era: quando iminente a Paixão do
Senhor, muito presumiu; chegada a Paixão, titubeou. Mas caiu em si, condoeu-se,
chorou, convertendo-se a seu Criador.
6. Eis
quem eram os que ainda não criam, apesar de já verem. Grande, pois, foi a honra
a nós concedida por aquele que permitiu crêssemos no que não vemos! Nós cremos
pelas palavras deles, ao passo que eles não criam em seus próprios olhos.
7. A
ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é a vida nova dos que creem em Jesus,
e este é o mistério da sua Paixão e Ressurreição, que muito devíeis conhecer e
celebrar.
8. Porque
não sem motivo desceu a Vida até a morte. Não foi sem motivo que a fonte da
vida, de onde se bebe para viver, bebeu desse cálice que não lhe convinha. Por
que a Cristo não convinha a morte.
9. De
onde veio a morte? Vamos investigar a origem da morte. O pai da morte é o
pecado. Se nunca houvesse pecado ninguém morreria. O primeiro homem recebeu a
lei de Deus, isto é, um preceito de Deus, com a condição de que se o observasse
viveria e se o violasse morreria. Não crendo que morreria, fez o que o faria
morrer; e verificou a verdade do que dissera quem lhe dera a lei.
10. Desde
então, a morte. Desde então, ainda, a segunda morte, após a primeira, isto é,
após a morte temporal a eterna morte. Sujeito a essa condição de morte, a essas
leis do inferno, nasce todo homem; mas por causa desse mesmo homem, Deus se fez
homem, para que não perecesse o homem. Não veio, pois, ligado às leis da morte,
e por isso diz o Salmo: “Livre entre os mortos” [Sl 87].
11. Concebeu-o,
sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu.
Ele viveu sem culpa, não morreu por motivo de culpa, comungava conosco no
castigo mas não na culpa. O castigo da culpa é a morte.
12. Nosso
Senhor Jesus Cristo veio morrer, mas não veio pecar; comungando conosco no
castigo sem a culpa, aboliu tanto a culpa como a castigo.
13. Que
castigo aboliu? O que nos cabia após esta vida. Foi assim crucificado para
mostrar na cruz o fim do nosso homem velho; e ressuscitou, para mostrar em sua
vida, como é a nossa vida nova. Ensina-o o Apóstolo: “Foi entregue por causa
dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação” [Rm 4,25].
14. Como
sinal disto, fora dada outrora a circuncisão aos patriarcas: no oitavo dia todo
indivíduo do sexo masculino devia ser circuncidado. A circuncisão fazia-se com
cutelos de pedra: porque Cristo era a pedra. Nessa circuncisão significava-se a
espoliação da vida carnal a ser realizada no oitavo dia pela Ressurreição de
Cristo.
15. Pois
o sétimo dia da semana é o sábado; no sábado o Senhor jazia no sepulcro, sétimo
dia da semana. Ressuscitou no oitavo. A sua Ressurreição nos renova. Eis por
que, ressuscitando no oitavo dia, nos circuncidou.
16. É
nessa esperança que vivemos. Ouçamos o Apóstolo dizer. “Se ressuscitasses com
Cristo...” [Cl 3,1] Como ressuscitamos, se ainda morremos? Que quer dizer o
Apóstolo: “Se ressuscitasses com Cristo?” Acaso ressuscitariam os que não
tivessem antes morrido? Mas falava aos vivos, aos que ainda não morreram ... os
quais, contudo, ressuscitaram: que quer dizer?
17. Vede
o que ele afirma: “Se ressuscitasses com Cristo, procurai as coisas que são do
alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto,
não o que está sobre a terra. Porque estais mortos!”
18. É
o próprio Apóstolo quem está falando, não eu. Ora, ele diz a verdade, e,
portanto, digo-a também eu... E por que também a digo? “Acreditei e por causa
disto falei” [Sl 115].
19. Se
vivemos bem, é que morremos e ressuscitamos. Quem, porém, ainda não morreu,
também não ressuscitou, vive mal ainda; e se vive mal, não vive: morra para que
não morra. Que quer dizer: morra para que não morra? Converta-se, para não ser
condenado.
20. “Se
ressuscitasses com Cristo”, repito as palavras do Apóstolo, “procurai o que é
do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do
alto, não o que é da terra. Pois morrestes e a vossa vida está escondida com
Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também
aparecereis com ele na glória”. São palavras do Apóstolo.
21. A
quem ainda não morreu, digo-lhe que morra; a quem ainda vive mal, digo-lhe que
se converta. Se vivia mal, mas já não vive assim, morreu; se vive bem,
ressuscitou.
22. Mas,
que é viver bem? Saborear o que está no alto, não o que sobre a terra. Até
quando és terra e à terra tornarás? Até quando lambes a terra? Lambes a terra,
amando-a, e te tornas inimigo daquele de quem diz o Salmo: “os inimigos dele
lamberão a terra” [Sl 79,9].
23. Que
éreis vós? Filhos de homens. Que sois vós? Filhos de Deus. Ó filhos dos homens,
até quando tereis o coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a
mentira? Que mentira buscais? O mundo.
24. Quereis
ser felizes, sei disto. Dai-me um homem que seja ladrão, criminoso, fornicador,
malfeitor, sacrílego, manchado por todos os vícios, soterrado por todas as
torpezas e maldades, mas não queira ser feliz.
25. Sei
que todos vós quereis viver felizes, mas o que faz o homem viver feliz, isso
não quereis procurar.
26. Tu,
aqui, buscas o ouro, pensando que com o ouro serás feliz; mas o ouro não te faz
feliz. Por que buscas a ilusão? E com tudo o que aqui procuras, quando procuras
mundanamente, quando o fazes amando a terra, quando o fazes lambendo a terra,
sempre visas isto: ser feliz. Ora, coisa alguma da terra te faz feliz.
27. Por
que não cessas de buscar a mentira? Como, pois, haverás de ser feliz? “Ó filhos
dos homens, até quando sereis pesados de coração, vós que onerais com as coisas
da terra o vosso coração?” [Sl 4,3] Até quando foram os homens pesados de
coração? Foram-no antes da vinda de Cristo, antes que ressuscitasse o Cristo.
Até quando tereis o coração pesado? E por que amais a vaidade e procurais a
mentira?
28. Querendo
tornar-vos felizes, procurais as coisas que vos tornam míseros! Engana-vos o
que descaiais, é ilusão o que buscais.
29. Queres
ser feliz? Mostro-te, se te agrada, como o serás. Continuemos ali adiante (no
versículo do Salmo): “Até quando sereis pesados de coração? Por que amais a
vaidade e buscais a mentira?” “Sabei” - o quê? – “que o Senhor engrandeceu o
seu Santo” [Sl 4,3].
30. O
Cristo veio até nossas misérias, sentiu a fone, a sede, a fadiga, dormiu,
realizou coisas admiráveis, padeceu duras coisas, foi flagelado, coroado de
espinhos, coberto de escarros, esbofeteado, pregado no lenho, traspassado pela
lança, posto no sepulcro; mas no terceiro dia ressurgiu, acabando-se o
sofrimento, morrendo a morte.
31. Eia,
tende lá os vossos olhos na ressurreição de Cristo; porque tanto quis o Pai
engrandecer o seu Santo, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a honra de se
assentar no Céu à sua direita.
32. Mostrou-te
o que deves saborear se queres ser feliz, pois aqui não o poderás ser. Nesta
vida não podes ser feliz, ninguém o pode.
33. Boa
coisa a que desejas, mas não nesta terra se encontra o que desejas. Que
desejas? A vida bem-aventurada. Mas aqui não reside ela.
34. Se
procurasses ouro num lugar onde não houvesse, alguém, sabendo da sua não
existência, haveria de te dizer: “Por que estás a cavar? Que pedes à terra?
Fazes uma fossa na qual hás de apenas descer, na qual nada encontrarás!” Que
responderias a tal conselheiro? “Procuro ouro”. Ele te diria: “Não nego que
exista o que descias, mas não existe onde o procuras”.
35. Assim
também, quando dizes: “Quero ser feliz”. Boa coisa queres, mas aqui não se
encontra. Se aqui a tivesse tido o Cristo, igualmente a teria eu. Vê o que ele
encontrou nesta região da tua morte: vindo de outros paramos, que achou aqui
senão o que existe em abundância? Sofrimentos, dores, morte. Comeu contigo do
que havia na cela de tua miséria. Aqui bebeu vinagre, aqui teve fel. Eis o que
encontrou em tua morada.
36. Contudo,
convidou-te à sua grande mesa, à mesa do Céu, à mesa dos anjos, onde ele é o
pão. Descendo até cá, e tantos males recebendo de tua cela, não só não rejeitou
a tua mesa, mas prometeu-te a sua.
37. E
que nos diz ele? “Crede, crede que chegareis aos bens da minha mesa, pois não
recusei os males da vossa”.
38. Tirou-te
o mal e não te dará o seu bem? Sim, da-lo-á. Prometeu-nos sua vida, mas é ainda
mais incrível o que fez: ofereceu-nos a sua morte.
39. Como
se dissesse: “À minha mesa vos convido. Nela ninguém morre, nela está a vida
verdadeiramente feliz, nela o alimento não se corrompe, mas refaz e não se
acaba. Eia para onde vos convido, para a morada dos anjos, para a amizade do
Pai e do Espírito Santo, para a ceia eterna, para a fraternidade comigo; enfim,
a mim mesmo, à minha vida eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a
minha vida? Retende, como penhor a minha morte”.
40. Agora,
pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível, morramos com Cristo pela
conversão dos costumes, vivamos com Cristo pelo amor da justiça. Não haveremos
de receber a vida bem-aventurada senão quando chegarmos àquele que veio até
nós, e quando começarmos a viver com aquele que por nós morreu.