domingo, 20 de setembro de 2026

326 - As Regras de São Pacômio - A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo - Introdução

 


326

As Regras de São Pacômio

A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo

Introdução

 

1.Origens e Conversão no Exército Imperial (292–313 d.C.):Do paganismo no Alto Egito ao impacto do amor cristão.

1.      São Pacômio nasceu por volta de 292 d.C. em Tebas (atual Luxor, no Egito), no seio de uma família pagã. Durante a juventude, sob o reinado do imperador Maximino Daia, foi conscrito à força no exército romano. A caminho do combate, ao passar por Tebas e Alexandria, o jovem soldado e seus companheiros foram aprisionados temporariamente em condições degradantes.

2.      Nesse cenário de desolação, ocorreu o evento determinante para sua vida: cristãos locais aproximaram-se dos prisioneiros à noite, trazendo-lhes comida, mantimentos e consolo, sem pedir nada em troca. Impressionado por aquele amor desinteressado a estranhos, Pacômio indagou quem era o Deus que os movia a tal compaixão. Ao saber do Deus dos cristãos, fez um voto interior: se fosse libertado do exército, dedicaria o restante de sua vida ao serviço de Deus e do próximo.

3.      Com a derrota de Maximino em 313 d.C., Pacômio foi desmobilizado. Cumpriu imediatamente a promessa: dirigiu-se à aldeia de Seneset (Scheneset), instruiu-se na fé e recebeu o batismo, iniciando uma jornada de serviço comunitário aos doentes e necessitados da região.

2.A Ascese no Deserto e a Inovação Cenobítica (313–340 d.C.):O nascimento da vida monástica comunitária.

4.      Desejando uma entrega radical, Pacômio buscou a orientação de Santo Palamão, um respeitado anacoreta (eremita) do deserto egípcio. Sob a tutela rigorosa de Palamão, viveu anos de profunda austeridade, jejuns e oração contínua. Contudo, percebeu que a vida puramente eremítica apresentava limitações: nem todos os vocacionados suportavam a solidão extrema, e faltava ao eremita a oportunidade de praticar virtudes comunitárias como a caridade, o perdão e o serviço mútuo.

5.      Por volta de 320 d.C., inspirado por uma visão divina enquanto orava em Tabennesi (às margens do Nilo), Pacômio fundou o primeiro mosteiro cenobítico (do grego koinos bios, "vida comum"). Ao contrário dos eremitas isolados, os monges pacomianos viviam sob o mesmo teto, partilhavam bens, alimentavam-se juntos e obedeciam a uma autoridade comum (o Abba ou Abade).

6.      Para organizar essa comunidade crescente, Pacômio redigiu a primeira Regra Monástica da história cristã. Esta legislação estabelecia o equilíbrio entre oração, trabalho manual (como a tecelagem de folhas de palmeira), disciplina gradual, perdão mútuo e caridade fraterna — servindo mais tarde como base direta para a Regra de São Basílio no Oriente e a Regra de São Bento no Ocidente.

3.Consolidação, Legado Monástico e Morte (340–346 d.C.):O impacto duradouro do pai do cenobitismo.

7.      A ordem pacomiana expandiu-se com rapidez extraordinária. Antes de sua morte, Pacômio já supervisionava uma rede de nove mosteiros masculinos e dois femininos (estes fundados com o auxílio de sua irmã, Maria), reunindo milhares de monges sob uma única federação spiritual no Alto Egito.

8.      Pacômio manteve-se profundamente humilde ao longo de toda a sua vida: recusou sistematicamente a ordenação sacerdotal para evitar a vaidade clerical e garantiu que o trabalho manual dos monges sustentasse não apenas a comunidade, mas também os pobres e doentes das cercanias.

9.      Em 346 d.C., uma terrível peste devastou a região do Nilo. Pacômio dedicou-se pessoalmente aos cuidados dos irmãos enfermos até contrair a infecção. Faleceu em 9 de maio de 346 d.C., cercado por seus discípulos. Reconhecido universalmente como o Pai do Cenobitismo, seu modelo organizativo transformou o monacato de um fenômeno individualista numa força de preservação espiritual, cultural e social que moldou a Igreja ao longo de toda a Idade Média.

10.  A tradução da Regra de São Pacômio para o latim, realizada por São Jerônimo em 404 d.C. em Belém, representa um dos episódios mais decisivos para a história do monacato ocidental. Sem este trabalho de mediação linguística e teológica, o modelo cenobítico egípcio não teria chegado ao Ocidente com a força e a precisão estrutural que moldaram a Idade Média.

Contexto e Motivação

11.  No início do século V, a vida monástica no Ocidente crescia rapidamente, mas carecia de uma estrutura disciplinar e institucional sólida. Diferente do Oriente — que já contava com a tradição pacomiana no Egito —, o Ocidente convivia com formas desorganizadas de vida ascética, muitas vezes marcadas pelo excesso individualista ou pela indisciplina.

12.  Em 404 d.C., os monges do mosteiro de Canopo (próximo a Alexandria) enviaram a Jerônimo os textos pacomianos escritos em grego (traduções diretas dos originais em copta sahídico). O objetivo era obter uma versão latina fiel que pudesse servir de código de conduta para os mosteiros da Itália, da Gália e do Norte da África.

13.  Jerônimo, que vivia em seu mosteiro em Belém e já dominava o grego, o latim e o hebraico, traduziu todo o Corpus Pacomiano:

14.  A Regra Monástica (dividida em Preceitos, Preceitos e Julgamentos, Preceitos e Leis, Preceitos e Instituições);

15.  As Cartas de São Pacômio e de seu sucessor, São Teodoro;

16.  O Livro de Teodoro e a Epístola do Bispo Amônio.

Importância Metodológica e Linguística

17.  Na tradução da Regra, Jerônimo aplicou critérios semelhantes aos de suas obras bíblicas, combinando precisão técnica com clareza institucional:

18.  Sistemática Legal e Terminológica: O monasticismo pacomiano possuía uma linguagem comunitária muito específica (termos como casa, semana, sinaxe, prior, catequese). Jerônimo fixou a terminologia latina para a hierarquia e os costumes cenobíticos, permitindo que a administração de um mosteiro pudesse ser replicada em qualquer região do Império Romano.

19.  Preservação da Tradição Copta: Como a maioria dos escritos coptas originais do século IV se perdeu ou sobreviveu apenas em fragmentos, a tradução latina de Jerônimo tornou-se a fonte primária completa e mais antiga para o estudo moderno do monacato pacomiano original.

O Impacto no Monacato Ocidental

20.  A versão latina de Jerônimo serviu como o principal veículo de transmissão da experiência egípcia para os grandes legisladores da Igreja Ocidental:

21.  São João Cassiano: Utilizou a tradução jeroniniana para redigir suas Instituições e Conferências, fundamentando os mosteiros do sul da Gália (como Lérins e Marselha).

22.  São Bento de Nursia: Ao redigir a Regra de São Bento (século VI), a legislação definitiva do Ocidente, Bento citou explicitamente a "Regra de Nosso Pai Pacômio" como uma das autoridades veneráveis que todo monge deveria estudar e praticar (RB 73).

23.  Sem a mediação do latim de Jerônimo, a arquitetura comunitária de Pacômio — baseada na obediência, no trabalho manual, no perdão mútuo e na oração litúrgica comum — não teria chegado aos reinos carolíngios e medievais, onde os mosteiros se tornaram os principais centros de preservação cultural e espiritual da Europa.

24.  A relação entre a tradução latina de São Jerônimo da Regra de São Pacômio (404 d.C.) e a Regra de São Bento (século VI) é direta e profunda. Bento de Nursia não apenas conhecia o texto traduzido por Jerônimo, como o utilizou como matriz conceitual e legislativa para organizar o monacato ocidental.

25.  Ao final de sua obra, no capítulo 73 (RB 73.5), o próprio Bento declara explicitamente sua dívida para com os mestres do Oriente, exortando seus monges a lerem a "Regra do nosso Pai Pacômio".

Canais de Influência Direta

1. A Estrutura Comunitária e Obediência Hierárquica

Antes da difusão da tradução de Jerônimo, o modelo monástico mais admirado no Ocidente era o eremítico (o monge isolado no deserto, no estilo de Santo Antão). Bento adotou a visão pacomiana de que a vida cenobítica (comunitária) é a forma mais segura de vida espiritual.

·         Organização em casas e cargos: Bento reproduziu a estrutura de delegar autoridade (Abade, Prior, Decanos), inspirada na divisão por casas da federação pacomiana.

·         Obediência radical: A ideia pacomiana de que a obediência aos preceitos da comunidade é uma oferta a Deus foi traduzida por Jerônimo e assimilada no Capítulo 5 da Regra Beneditina.

2. O Equilíbrio entre Trabalho Manual e Oração (Ora et Labora)

A Regra Pacomiana foi a primeira a exigir rigorosamente que todos os monges realizassem trabalho manual diário — como a tecelagem de palmeiras — para combater a ociosidade e sustentar os necessitados.

·         Na versão de Jerônimo, o vocabulário do trabalho e da disciplina diária serviu de molde para o Capítulo 48 da Regra de São Bento (Sobre o trabalho manual cotidiano).

3. O Gradualismo Penitentiar e a Correção Fraterna

Tanto no texto pacomiano quanto no beneditino, a disciplina comunitária segue uma pedagogia de misericórdia e gradação. Como visto nos preceitos pacomianos (§160–176):

·         Advertências prévias: Antes de qualquer punição severa, o faltoso recebe advertências privadas (duas ou três vezes).

·         Gradação das penas: Separação da mesa comum, perda de posição na comunidade (ir para o "último lugar") e, em último caso, o exílio ou castigo físico.

·         Bento incorporou essa exata progressão pedagógica nos capítulos 23 a 30 de sua Regra (Do modo de correção).

O Papel Mediador do Latim de Jerônimo

            Sem a tradução de Jerônimo, Bento não teria tido acesso ao vocabulário jurídico e institucional preciso necessário para redigir uma legislação monástica estável. Termos como monasterium, abbas, præpositus (prior), regularis disciplina e synaxis (assembleia/oração comunitária) foram padronizados por Jerônimo a partir do grego/copta e tornaram-se o código genético do monasticismo medieval ocidental.

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

4.      O que você destaca na sua aproximação com os escritos de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo, Regras longas e Regras Breves.

Comparação de Trechos e Conceitos

Aspecto

Regra de Pacômio (Tradução de Jerônimo)

Regra de São Bento (RB)

Correção de Faltas

"Se um irmão... for surpreendido em flagrante crime, será advertido duas vezes." (§160)

"Se algum irmão for encontrado desobediente... seja advertido duas vezes em particular." (RB 23.1)

Perda do Lugar

"Na sétima vez... será colocado entre os últimos." (§160)

"Não esteja no seu lugar no coro... mas no último lugar." (RB 44.1)

Defesa de Outro Monge

"Aquele que defende um irmão que cometeu alguma falta será punido..." (§176)

"Proíba-se terminantemente que um monge defenda outro no mosteiro..." (RB 69.1)

Cuidado com as Roupas

"Se alguém tiver mais roupas do que o autorizado... enviará para quem as guarda..." (§192)

"Tudo o que for além do necessário deve ser tirado; é superfluidade." (RB 55.11)

 

 

5.    O que você destaca no texto?

6.    Como serve para a sua espiritualidade?

7.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

8.      O que você destaca na sua aproximação com os escritos de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo, Regras longas e Regras Breves.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

325 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 301-313

 


Genissom, Edmar, Nathalie, Marisa, Edson, Demétrius, Wender


325

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 301-313

 

INTERROGAÇÃO 301

Se alguém disser: “Minha consciência não me condena”.

Resposta: Dá-se isto também nas doenças corporais. Muitas são as enfermidades que os doentes não sentem; no entanto, creem antes no diagnóstico dos médicos do que atendem à própria insensibilidade. Assim, nas doenças da alma, isto é, nos pecados, embora alguém, inconsciente da falha, não se censure, deve antes acreditar nos que podem ver melhor o que se passa. Deste modo agiram os santos apóstolos quando, embora persuadidos de sua sincera afeição ao Senhor, ao ouvi-lo dizer: “Um de vós há de me trair” (Mt 26,21), acreditaram antes na palavra do Senhor, entristeceram-se e diziam: “Porventura sou eu, Senhor?” (Mt 26,22). Mais claramente no-lo ensina São Pedro, que por fervorosa humildade recusou o serviço de seu Senhor, Deus e Mestre; mas, convencido da verdade das palavras do Senhor ao ouvir: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8), disse: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9).

 

INTERROGAÇÃO 302

Convém tirar do mantimento da comunidade para dar aos necessitados de fora?

Resposta: O Senhor disse: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24); e: “Não convém lançar aos cachorrinhos o pão dos filhos” (Mt 15,26). Não se deve consumir com os indiferentes o que foi destinado aos consagrados a Deus. Se, porém, for possível fazer o que disse a mulher, louvada por sua fé: “Sim, Senhor; mas os cachorrinhos ao menos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27), julgue-o o ecônomo com o consentimento dos seus corresponsáveis, de modo que o sol, em sua superabundância, como está escrito, se levante sobre os maus e os bons (Mt 5,45).

 

INTERROGAÇÃO 303

Se há obrigação de obedecer, na comunidade, às ordens de todos.

Resposta: É muito difícil responder a esta pergunta. Primeiro, porque é evidente indício de indisciplina todos darem ordens, pois diz o Apóstolo: “Quanto aos profetas, falem dois ou três, e os outros julguem” (1Cor 14,29). Ele mesmo, em relação à distribuição dos carismas, estabeleceu a ordem dos que falam com as palavras: “Segundo a medida da fé que Deus distribuiu a cada um” (Rm 12,3). E, pelo exemplo dos membros do corpo, claramente mostrou ser própria a função de quem fala; explica-o bem ao dizer: “Se alguém tem o dom de ensinar, dedique-se ao ensino; o que exorta, à exortação” (Rm 12,7-8). Daí se vê com clareza que nem tudo é lícito a todos, mas cada qual deve permanecer na sua vocação e realizar com maior diligência o que o Senhor lhe confiou.

Aquele que está à frente da comunidade e foi estabelecido acima de todos deve ter esse encargo confirmado após provada experiência. Exerça uma vigilância solícita sobre cada um, de modo que, agradando a Deus e considerando a aptidão e os esforços de cada irmão, determine e ordene o que serve à utilidade comum. Os súditos, porém, guardando a boa ordem e a obediência segundo a justa medida, lembrem-se do Senhor, que disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna” (Jo 10,27-28); e da passagem anterior: “Mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10,5). Também o Apóstolo afirma: “Se alguém ensina de outra forma e não se conserva fiel às salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como à doutrina segundo a piedade, é um homem enfatuado, que nada entende” (1Tm 6,3-4); e acrescenta, após enumerar os males decorrentes: “Foge destas coisas” (1Tm 6,11). E ainda em outra parte: “Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o que é bom. Abstende-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,20-22).

Por isso, se alguma ordem está de acordo com o mandamento do Senhor, ou visa a ele, deve-se obedecer, mesmo sob ameaça de morte; se, porém, é contrária ao mandamento ou o viola, de modo nenhum se deve obedecer — ainda que seja um anjo do céu ou algum dos apóstolos a ordenar, mesmo com promessa de vida ou ameaça de morte, pois diz o Apóstolo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo vindo do céu vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, seja anátema” (Gl 1,8).

 

INTERROGAÇÃO 304

Se os parentes dos irmãos quiserem dar algum presente à comunidade, deve ser aceito?

Resposta: O cuidado e o julgamento desta questão cabem ao superior. Contudo, em minha opinião, evitar-se-á o escândalo de muitos e será mais proveitoso para a edificação da fé se tais presentes forem recusados. A aceitação deles, em primeiro lugar, frequentemente traz censuras à comunidade. Depois, dá ocasião de orgulho aos parentes que presentearam. Além disso, o Apóstolo disse aos que consumiam bens particulares na casa de Deus: “Quereis envergonhar aqueles que nada têm?” (1Cor 11,22). Por advirem daí tantas ocasiões de pecado, será preferível não receber tais presentes; contudo, o superior julgue de quem podem ser aceitos e como devem ser distribuídos.

 

INTERROGAÇÃO 305

Se convém receber algo das pessoas de fora, quer sejam amigos ou parentes.

Resposta: Esta pergunta tem o mesmo alcance daquela em que se interroga se se deve receber algo dos parentes.

 

INTERROGAÇÃO 306

Como se evita a divagação da mente?

Resposta: Adquirindo o espírito daquele eleito de Deus, Davi, que disse: “Tenho sempre o Senhor diante de mim; porque ele está à minha direita, não serei abalado” (Salmo 16,8); e: “Os meus olhos estão continuamente no Senhor, pois ele tirará os meus pés do laço” (Salmo 25,15); ou ainda: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus senhores, e os olhos da serva nas mãos de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus” (Salmo 123,2).

Para que, a partir do exemplo das coisas humanas, empreguemos maior empenho nas coisas divinas, considere cada um como se comporta na presença de seus iguais: como procura manter-se composto, quer esteja de pé, andando, movimentando-se ou falando. Se nos esforçamos por guardar a decoro naquilo que os homens veem, com quanto mais razão alguém, tendo a convicção de ser visto por Deus — que perscruta os corações e os rins (Salmo 7,9) —, pelo Filho Unigênito de Deus — que cumpre sua promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20) —, pelo Espírito Santo — que distribui e opera os carismas —, e também pelos anjos da guarda de cada um — segundo o que disse o Senhor: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus veem continuamente a face de meu Pai” (Mt 18,10) —, terá enorme e constante zelo pelo culto agradável a Deus! Assim a atenção se firma de modo mais intenso e perfeito.

Além disso, deve-se procurar cumprir a palavra: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca” (Salmo 34,1); e: “Na sua lei medita de dia e de noite” (Salmo 1,2). Deste modo, o espírito, ocupado continuamente na meditação e contemplação das vontades e dos juízos de Deus, não encontrará tempo para a divagação.

 

INTERROGAÇÃO 307

Se convém haver revezamento para iniciar a salmodia ou a oração.

Resposta: Havendo muitos que sejam capazes, guarde-se nisso a boa ordem. Não se considere a questão irrelevante ou indiferente, nem a escolha exclusiva de uma pessoa faça o superior ser suspeito de parcialidade ou de desprezo pelos demais.

 

INTERROGAÇÃO 308

Se convém que a comunidade retribua algum doador, e se a retribuição deve ser proporcional ao presente.

Resposta: Esta é uma questão de ordem prudencial humana. Se convém dar mostras de gratidão, julgue-o o ecônomo, tanto a respeito do recebimento dos dons quanto da retribuição a quem os deu.

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 309

Se acontecer a alguém o que é de ordem física/natural, deve a pessoa aproximar-se da comunhão das coisas santas?

Resposta: O Apóstolo mostra que é superior à natureza e ao costume aquele que foi sepultado no batismo com Cristo. Ao tratar do batismo, ele prossegue: “Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6,6). Em outro lugar, ordena: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Cl 3,5-6). E mais uma vez expõe esta norma: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5,24). Sei, porém, que pela graça de Cristo isto se realiza em homens e mulheres através da genuína fé no Senhor.

Aprendemos do Antigo Testamento em que terrível juízo incorre o impuro que se aproxima das coisas santas. Se aqui está alguém que é maior do que o templo (Mt 12,6), ensinar-nos-á o Apóstolo de modo ainda mais severo: “Porque aquele que come e bebe indignamente, come e bebe para si a sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1Cor 11,29).

 

INTERROGAÇÃO 310

Se convém celebrar a Ceia do Senhor em uma casa comum.

Resposta: Assim como a Escritura não permite levar aos lugares santos um vaso profano, também não é lícito celebrar as ações sagradas em uma casa comum, visto que o Antigo Testamento, por ordem expressa de Deus, jamais permitiu tal prática. Diz o Senhor: “Aqui está quem é maior do que o templo” (Mt 12,6); e o Apóstolo: “Não tendes porventura casas para comer e para beber? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisso não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei” (1Cor 11,22-23). Daí aprendemos a não fazer na igreja uma refeição comum de comida e bebida, nem profanar a Ceia do Senhor celebrando-a em uma casa comum — a menos que alguém, por extrema necessidade, escolha um lugar ou casa mais limpos em tempo oportuno.

 

INTERROGAÇÃO 311

Devemos visitar os que nos convidarem?

Resposta: Visitar é agradável a Deus; contudo, o visitante deve ser ouvinte prudente e sábio nas respostas, conforme o dito: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Cl 4,6). Fazer, porém, uma visita apenas por motivo de parentesco ou amizade humana é estranho à nossa profissão monástica.

 

INTERROGAÇÃO 312

Se convém pedir a oração dos visitantes leigos.

Resposta: Se são amigos de Deus, é bom. O Apóstolo lhes escreve: “Orai também por mim, para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho” (Ef 6,19).

 

INTERROGAÇÃO 313

Se convém trabalhar quando há visitantes.

Resposta: Nenhuma das obrigações deve ser interrompida por causa daqueles que nos procuram por cortesia ou amizade, a não ser que se tenha de assumir uma obra espiritual específica, preferível ao trabalho corporal segundo o mandamento do Senhor. Pois os santos apóstolos dizem nos Atos: “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas” (At 6,2).

 

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

4.      O que você destaca na sua aproximação com os escritos de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo, Regras longas e Regras Breves.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

324 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 287-300

 

Frederick, Demétrius, Leopoldo, Marleide, Genisson e Edson


324

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 287-300

 

INTERROGAÇÃO 287

Quais os dignos frutos de arrependimento?

Resposta As obras de justiça opostas ao pecado, que o arrependido deve praticar, conforme está escrito: Frutificando em toda boa obra (Cl 1,10).

 

INTERROGAÇÃO 288

Quem deseja confessar os pecados, deve confessá-los a todos? A qualquer pessoa? Ou a quem?

Resposta Evidencia-se como Deus ama os pecadores pelo que está escrito: Não me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida (Ez 33,11). Visto que a conversão deve ser proporcional ao pecado e são exigidos dignos frutos de arrependimento, segundo o que está escrito: Fazei, portanto, dignos frutos de arrependimento, para não sobrevirem, por carência de frutos, as ameaças seguintes: Toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo (Lc 3,9), faz-se necessário confessar os pecados àqueles que têm a seu cargo a administração dos mistérios de Deus. Assim também agiam junto dos santos os que outrora se convertiam. Pois está escrito no Evangelho que confessavam seus pecados a João Batista, e, nos Atos, que confessavam aos apóstolos, os quais igualmente batizavam a todos.

 

INTERROGAÇÃO 289

Quem se arrepender de um pecado, mas recair, o que fará?

Resposta Quem se arrependeu e recaiu no mesmo pecado demonstra que não expurgou a causa primária daquele pecado; dela, como de uma raiz, germinarão os mesmos pecados. Se alguém cortasse os ramos da árvore, mas deixasse a raiz, restando apenas esta, novamente brotará a planta. Assim, visto que alguns pecados não se originam de si mesmos, mas provêm de outros, quem quiser livrar-se deles deve arrancar as causas primitivas. Por exemplo, a discórdia ou a inveja não têm em si o próprio princípio, mas brotam da raiz do amor à glória. O ambicioso de glória diante dos homens disputa com quem tem boa reputação ou inveja aquele a quem é inferior em renome. Se, pois, alguém se arrepender da inveja ou das contendas e recair, reconheça que está afetado intimamente pela ambição de glória, causa primeira da inveja e das contendas, e cure-se do vício da ambição de glória por meios contrários, isto é, com exercícios de humildade (é exercício de humildade ocupar-se dos serviços mais humildes), a fim de, permanecendo na atitude de humildade, não reincidir nas supracitadas manifestações de ambição de glória. Em cada um dos pecados desta espécie proceda-se de igual modo.

 

INTERROGAÇÃO 290

Como alguém trabalhará sempre e muito na obra do Senhor?

Resposta Quando multiplicar o dom que lhe foi dado para a utilidade e o progresso dos beneficiados, ou demonstrar maior zelo na obra do Senhor do que nas questões em que os homens mais se empenham.

 

INTERROGAÇÃO 291

Que significa a cana rachada ou a torcida que fumega? E como alguém não quebrará àquela e não apagará esta?

Resposta Penso que cana rachada é quem pratica o mandamento de Deus, mas está maldisposto; não se deve quebrá-lo e cortá-lo, porém curá-lo, como ensinou o Senhor: Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1). O Apóstolo preceitua: Fazei todas as coisas sem murmurações e sem hesitações (Fp 2,14). E em outro lugar: Nada façais por espírito de partido ou vangloria (ibid. 3). Torcida fumegante é alguém que pratica o mandamento não com um desejo ardente e zelo perfeito, mas um tanto negligente e frouxamente; não o impeçamos, antes o incitemo-nos com a lembrança dos juízos de Deus e de suas promessas.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 292

Se convém ter na comunidade dos irmãos uma escola de meninos seculares.

Resposta Tendo dito o Apóstolo: E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas educai-os na disciplina e correção segundo o espírito do Senhor (Ef 6,4), se os que trazem os meninos apresentam-nos com tal finalidade e os que os recepcionam têm a convicção de que os podem educar na disciplina e nas instruções do Senhor, observe-se a ordem do Senhor que disse: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham (Mt 19,14). Sem este propósito e sem esta esperança, porém, penso que não seria agradável a Deus, nem a nós conveniente, nem proveitoso.

 

INTERROGAÇÃO 293

Como proceder com os que evitam os pecados mais graves, mas cometem, com indiferença, os leves?

Resposta Primeiro, convém saber que no Novo Testamento não se encontra tal distinção. Uma só é a sentença contra todos os pecados, porque assegura o Senhor: Todo o homem que se entrega ao pecado é seu escravo (Jo 8,34). E ainda: A palavra que anunciei julgá-lo-á no último dia (Jo 12,48). E João clama: Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus (Jo 3,36). A desobediência não é ameaçada por causa da diferença entre os pecados, mas devido à transgressão. Em resumo, se nos é lícito falar em pecado pequeno e grande, sem contradição não se pode negar que para alguém é grande aquele que o domina e pequeno aquele que ele mesmo supera. Entre os atletas, o vencedor é mais forte e o vencido é mais fraco do que o vitorioso, seja ele quem for. Portanto, observe-se em relação a todos os pecadores, quaisquer que sejam os seus pecados, a sentença do Senhor: Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusar ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17). Observe-se para com todos eles o que disse o Apóstolo: Nem tendes manifestado tristeza, para que seja tirado dentre vós o que cometeu tal ação (1Cor 5,2). Importa, por conseguinte, unir a paciência e a misericórdia à severidade.

 

INTERROGAÇÃO 294

Qual o motivo de perder alguém a contínua lembrança de Deus?

Resposta Se alguém se esquecer dos benefícios de Deus e for ingrato para com o benfeitor.

 

INTERROGAÇÃO 295

Por que sinais se reconhece quem se distrai?

Resposta Quando descuida das coisas que agradam a Deus. Diz o profeta: Ponho sempre o Senhor diante dos olhos; pois que ele está à minha direita, não vacilarei (Sl 15,8).

 

INTERROGAÇÃO 296

Como se persuadirá a alma de estar purificada dos pecados?

Resposta Se depreender em si a disposição de Davi, que disse: Odeio o mal, eu o detesto (Sl 118,163), ou verificar que cumpriu em si o preceito do Apóstolo, que disse: Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a concupiscência, que é uma idolatria. Destas coisas provém a ira de Deus (Cl 3,5.6). Daí, estendendo a todo pecado esta sentença, acrescenta sobre os descrentes, de maneira a poder afirmar: Terei horror àquele que pratica o mal, não será ele o meu amigo. Longe de mim o coração perverso. Não quero conhecer o mal (Sl 100,3.4). Reconhecerá alguém em si tal atitude se tiver contra os pecadores a mesma compaixão profunda dos santos, conforme diz Davi: Ao ver os prevaricadores, sinto desgosto, porque eles não observam a vossa palavra (Sl 118,158). E o Apóstolo afirma: Quem é fraco, que eu também não seja fraco? Quem tropeça, que eu não me consuma em febre? (2Cor 11,29). Se, pois, em verdade, a alma é superior ao corpo e vemos a repugnância e o horror que temos de todas as imundícies do corpo, e que o dilaceramento ou o maltrato produz aflição e tristeza para o coração, quanto mais justo não será para quem ama a Cristo e os irmãos sentir o que foi dito acima, acerca dos pecadores, ao ver a alma dos pecadores de certo modo ferida e corroída por feras, ou purulenta e pútrida? Diz Davi: Porque as minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo oprimiram em demasia. São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza (Sl 37,5-7). Assevera, porém, o Apóstolo: O aguilhão da morte é o pecado (1Cor 15,56). Quando alguém vir sua alma em tal disposição diante dos pecados, próprios ou alheios, então pode ter a convicção de estar purificado do pecado.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 297

Como deve alguém arrepender-se dos pecados?

Resposta Imitando a atitude de Davi que, primeiro, disse: Eu vos confessei o meu pecado e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade (Sl 31,5). Depois, manifestando o seu estado, conforme o salmo 6 e outros, de muitos modos, e de acordo com o ensinamento do Apóstolo, a atestar o que os coríntios fizeram por causa do pecado alheio, dizendo: A tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar para a salvação. Acrescenta as propriedades da tristeza: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo! Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor 7,10.11). Daí se torna claro ser imprescindível não só abandonar o pecado e sofrer de tal modo pelos pecadores, mas também afastarmo-nos dos pecadores. Davi o declarou, dizendo: Apartai-vos de mim, vós todos que fazeis o mal (Sl 6,9), e o Apóstolo ordena: Com esse nem sequer deveis comer (1Cor 5,11).

 

 

INTERROGAÇÃO 298

Se a Escritura permite que alguém faça o bem como lhe apraz.

Resposta Apraz a um homem quem se compraz em si mesmo, porque é ele também homem. Como, portanto: Maldito o homem que em outro confia, que da carne faz o seu apoio (Jr 17,5), o que indica confiança em si, acrescenta-se: E cujo coração vive distante do Senhor. Assim também o que agrada a outrem, ou faz alguma coisa por autocomplacência, decai em relação à piedade e recai no desejo do favor dos homens. Fazem, pois, diz o Senhor, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo, já receberam sua recompensa (Mt 6,5). E o Apóstolo confessa: Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo (Gl 1,10). As Escrituras divinas trazem ameaças ainda mais terríveis, dizendo: Deus dissipou os ossos daqueles que procuram agradar aos homens (Sl 52,6).

 

INTERROGAÇÃO 299

Como a alma estará bem cônscia de que não tem a ambição da glória?

Resposta: Se obedece ao Senhor, que disse: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16); e ao Apóstolo, que ordena: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10,31). De modo que o homem temente a Deus, não tendo buscado a glória presente nem a futura, mas tendo posto o amor de Deus acima de tudo, tenha a confiança de dizer, além do supracitado, o seguinte: “Nem as coisas presentes, nem as futuras poderão apartar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Rm 8,38-39). Pois diz o próprio Senhor nosso, Jesus Cristo: “Não busco a minha glória” (Jo 8,50). E ainda: “Quem fala por própria autoridade busca a própria glória; mas quem busca a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro” (Jo 7,18).

 

INTERROGAÇÃO 300

Como se realiza a conversão, sendo ela algo oculto?

Resposta: O modo como se realiza a conversão foi declarado naquela pergunta que trata de como alguém deve converter-se dos pecados. Quanto ao fato de ser algo oculto, lembremo-nos do Senhor, que disse: “Nada há de oculto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). E ainda: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6,45).

 

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sábado, 29 de agosto de 2026

323 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 276-286

 


Wender, Demétrius, Marleide, Kris, Genisson, Nathalie, Leopoldo , Marisa e Edson


323

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 276-286

 

INTERROGAÇÃO 276

O que significa a palavra do Apóstolo: Para que saibais avaliar qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)?

Resposta:

a) Muitas são as coisas que Deus quer: umas, procedentes de sua tolerância e bondade, são chamadas de boas; outras, decorrentes de sua repreensão aos nossos pecados, são chamadas de males. Ele mesmo diz: Sou eu quem faço a paz e envio os males (Is 45,7).

b) Esses males ocorrem não para nos castigar, mas para nos corrigir. Como nos educam e nos levam à conversão por meio das provações, acabam se transformando em bem. Tudo o que Deus, bom e paciente, deseja, também nós devemos desejar e imitar: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36). Da mesma forma, diz o Apóstolo: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Crescei no amor, segundo o exemplo de Cristo que nos amou (Ef 5,1-2).

c) Por outro lado, o que Ele nos envia em sua correção por causa dos nossos pecados — a que chamamos de mal —, de maneira nenhuma nos é lícito praticar. Mesmo que seja da vontade de Deus que os homens muitas vezes morram de fome, peste, guerra ou tragédias semelhantes, não nos convém cooperar para que esses males aconteçam. Para realizar tais propósitos, Deus se utiliza até mesmo de ministros severos, conforme diz a Escritura: Descarregou o ardor de sua cólera, indignação e furor, enviando anjos de desgraça (Sl 77,49).

Em primeiro lugar, portanto, deve-se discernir o que é a vontade de Deus e o que é o bem; depois, uma vez conhecido o bem, é preciso verificar se ele é realizado de modo agradável a Deus. Há atitudes que, por si mesmas, são boas e desejadas por Deus, mas deixam de ser agradáveis se forem praticadas por pessoas impróprias ou em momentos inadequados. Por exemplo, era da vontade de Deus que se oferecesse incenso, mas não era aceitável quando apresentado por Corá, Datã e Abirão. Igualmente, dar esmola é um bem, mas fazê-lo apenas para ser elogiado pelos homens de maneira alguma agrada a Deus. Da mesma forma, era vontade de Deus que os discípulos pregassem abertamente o que ouviram em segredo, mas falar antes do tempo oportuno não era agradável a Ele, como disse: Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos (Mt 17,9).

d) Em resumo, toda vontade de Deus que constitui um bem só nos agrada quando nela se cumpre a palavra do Apóstolo: Fazei tudo para a glória de Deus (1Cor 10,31), e tudo com decência e ordem (1Cor 14,40). Além disso, quando algo é a vontade de Deus, é bom e Lhe agrada, não devemos agir com descuido; é preciso ter o máximo de zelo e cuidado para realizá-lo com perfeição e integridade, avaliando tanto a conformidade com o mandamento quanto as forças de quem o executa. Como Ele declara: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento, e ao teu próximo como a ti mesmo (Lc 10,27), conforme o Senhor ensinou no Evangelho. O mesmo vale para todos os mandamentos, segundo o escrito: Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, na sua volta, encontrar agindo assim (Mt 24,46).

 

INTERROGAÇÃO 277

Qual é o aposento secreto onde o Senhor mandou entrar aquele que vai orar?

Resposta: Costuma-se chamar de aposento a parte reservada e privativa da casa onde guardamos nossos pertences, ou onde alguém pode se esconder, conforme disse o profeta: Vai, povo meu, entra nos teus quartos e esconde-te (Is 26,20). O próprio contexto esclarece o sentido do mandamento, que se dirige àqueles que sofrem da fraqueza de buscar a aprovação humana. Quem padece desse mal faz bem em retirar-se para orar em segredo, até alcançar o hábito de não se importar com os louvores dos homens e voltar seus olhos unicamente para Deus, como expressa o salmista: Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, e os olhos das servas nas mãos de suas senhoras, assim os nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus (Sl 122,2).

No entanto, se alguém, pela graça de Deus, já estiver curado dessa fraqueza, não precisa esconder as suas boas ações. É o que o próprio Senhor nos ensina: Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim sobre o candeeiro, para que brilhe a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14-16). O mesmo princípio se aplica à esmola, ao jejum e a todas as demais práticas de piedade.

 

INTERROGAÇÃO 278

Como pode o espírito de alguém orar, mas o seu entendimento ficar sem fruto?

Resposta: Isso se refere àqueles que oram em uma língua desconhecida por quem ouve. Por isso está escrito: Se eu orar em uma língua estranha, o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto (1Cor 14,14). Quando as palavras da oração são incompreensíveis aos presentes, o entendimento de quem ora não produz frutos, pois não traz proveito para ninguém. Porém, se os presentes compreendem a prece e são ajudados por ela, então aquele que ora colhe o fruto da melhoria espiritual daqueles que se beneficiaram. O mesmo vale para toda proclamação da Palavra de Deus, conforme está escrito: Dizei apenas palavras boas que sirvam para a edificação da fé, conforme a necessidade, para que transmitam graça aos ouvintes (Ef 4,29).

 

INTERROGAÇÃO 279

O que significa: Cantai salmos com sabedoria (Sl 46,8)?

Resposta: A inteligência aplicada às palavras da Sagrada Escritura é o equivalente à percepção do sabor dos alimentos na nutrição. Como diz o texto: O paladar prova os alimentos, e a mente distingue as palavras (Jó 12,11). Se alguém aplica o espírito ao sentido profundo de cada palavra — assim como o paladar aprecia a qualidade de cada alimento —, cumpre o mandamento que diz: Cantai salmos com sabedoria.

 

INTERROGAÇÃO 280

O que quer dizer "puro de coração"?

Resposta: É aquele que não se flagra a si mesmo menosprezando, omitindo ou descuidando de qualquer mandamento de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 281

Deve-se obrigar aquele que não quer cantar salmos?

Resposta: Se alguém se recusa a cantar salmos de boa vontade, não demonstra a atitude daquele que disse: Quão saborosas são para mim as tuas palavras, mais doces que o mel à minha boca (Sl 118,103) e ainda trata a própria preguiça com descaso, deve ser corrigido ou afastado. Faz-se isso para que um pouco de fermento não azede toda a massa (Gl 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 282

Quais são os que dizem: Comemos e bebemos contigo, e ouvem como resposta: Não sei de onde sois (Lc 13,26-27)?

Resposta: São aqueles descritos pelo Apóstolo quando ele diz: Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, nada disso me aproveita (1Cor 13,1-3). O Apóstolo aprendeu isso com o Senhor, que advertiu sobre alguns: Fazem as coisas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam sua recompensa (Mt 6,2). Tudo o que se faz — seja o que for —, se não for motivado pelo amor a Deus, mas pelo desejo de obter elogios humanos, não recebe o mérito da piedade. Pelo contrário, atrai a condenação por buscar agradar aos homens ou a si mesmo por vaidade, rivalidade, inveja ou motivos semelhantes.

Por essa razão, o Senhor chama todas essas atitudes de obras de injustiça, respondendo aos que dizem "Comemos contigo": Apartai-vos de mim, todos vós que praticais a iniquidade (Lc 13,26-27). Como não seriam operários da maldade aqueles que usam os dons de Deus apenas para o próprio proveito? Desses fala o Apóstolo: Não somos, como tantos outros, negociantes da Palavra de Deus (2Cor 2,17), e também: Julgam que a piedade é fonte de lucro (1Tm 6,5). O próprio Apóstolo declarou estar livre dessas intenções ao afirmar: Não buscamos agradar aos homens, mas a Deus, que sonda os nossos corações. Com efeito, nunca usamos de bajulação, como sabeis, nem fomos movidos por ganância. Deus é testemunha. Não buscamos glória humana, nem de vós nem de outros (1Ts 2,4-6).

 

 

INTERROGAÇÃO 283

Aquele que faz a vontade de outrem torna-se seu cúmplice?

Resposta: Se acreditamos no Senhor, que disse: Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado, e também: Vós tendes por pai o diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai (Jo 8,34.44), compreendemos que tal pessoa não é apenas cúmplice; ela reconhece como seu senhor e pai aquele cujas obras pratica. O Apóstolo confirma isso claramente: Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça? (Rm 6,16).

 

INTERROGAÇÃO 284

Se uma comunidade empobrecer devido a uma crise ou doença, pode receber ajuda de outros sem hesitação? E, se puder, de quem deve aceitar?

Resposta: Quem se lembra do Senhor, que disse: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,40), deve agir com grande zelo e cuidado para ser digno de ser considerado irmão do Cristo. Quem se encontra nessa situação não deve hesitar em receber a ajuda, mas deve fazê-lo com gratidão. Cabe ao responsável pela comunidade avaliar com sabedoria de quem, quando e como aceitar tal auxílio, recordando as palavras: Que o azeite do ímpio não venha a ungir a minha cabeça (Sl 140,5), e: O meu ministro será aquele que anda pelo caminho reto (Sl 101,6).

 

INTERROGAÇÃO 285

Deve uma comunidade, ao negociar com outra, averiguar com cuidado qual é o preço justo de um objeto?

Resposta: Se a Palavra de Deus permite a compra e a venda entre irmãos, cabe lembrar que nos foi ensinado a partilhar nossos bens conforme a necessidade. Como está escrito: No tempo presente, a vossa abundância supra a carência deles, para que a abundância deles também supra a vossa carência; assim se estabelece a igualdade (2Cor 8,14). Se, porém, houver necessidade de transação comercial, o comprador deve ter ainda mais cuidado do que o vendedor para não pagar menos do que é justo. Ambos devem lembrar-se da advertência: Não é bom prejudicar o justo (Pr 17,26).

 

INTERROGAÇÃO 286

Se adoecer um membro da comunidade, deve ser levado ao hospital?

Resposta: Deve-se avaliar cada caso tendo em vista o bem comum e a glória de Deus.

 

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.    De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

Provações – Os males de Deus.

Esses males ocorrem não para nos castigar, mas para nos corrigir. Como nos educam e nos levam à conversão por meio das provações, acabam se transformando em bem. Tudo o que Deus, bom e paciente, deseja, também nós devemos desejar e imitar SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogação 276

 

 

Exegese – Hermenêutica.

A inteligência aplicada às palavras da Sagrada Escritura é o equivalente à percepção do sabor dos alimentos na nutrição. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogação 279

 

Puro de Coração

O que quer dizer "puro de coração"? É aquele que não se flagra a si mesmo menosprezando, omitindo ou descuidando de qualquer mandamento de Deus. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogação 280

 

 

Vaidade

Tudo o que se faz — seja o que for —, se não for motivado pelo amor a Deus, mas pelo desejo de obter elogios humanos, não recebe o mérito da piedade. Pelo contrário, atrai a condenação por buscar agradar aos homens ou a si mesmo por vaidade, rivalidade, inveja ou motivos semelhantes. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogação  282