quarta-feira, 14 de outubro de 2026

328 - As Regras de São Pacômio (292 - 348) - OS PRECEITOS DE NOSSO PAI PACÔMIO - Regras 1 ao 48

 

328

As Regras de São Pacômio (292 - 348)

A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo

OS PRECEITOS DE NOSSO PAI PACÔMIO

Regras 1 ao 48

O Homem de Deus que Originalmente Fundou o Modo de Vida Cenobítico Segundo o Mandamento de Deus (§1–144)

Este é o início dos preceitos.

1.      QUANDO uma pessoa sem instrução chega à reunião dos santos, será apresentada pelo porteiro do mosteiro e receberá um assento de acordo com sua posição na assembleia dos irmãos; ela não poderá mudar de assento ou posição até que o oikiakos (chefe da casa), isto é, o superior [prior] da casa, a transfira para o lugar que lhe for apropriado.

2.      Ele se sentará com toda a compostura e modéstia, colocando sob as nádegas a parte inferior de sua pele de cabra (que amarra no ombro) e fechando com muito cuidado sua vestimenta — a túnica de linho sem mangas chamada lebitonarium (originário da palavra Levita) —, de modo que seus joelhos fiquem cobertos.

3.      Quando se ouvir o som da trombeta que chama para a sinaxe (assembleia), irão imediatamente para a cela, meditando em uma passagem das Escrituras até chegarem à porta da assembleia comunitária.

4.      Quando forem à igreja para ocupar o lugar onde devem sentar-se ou ficar de pé, terão cuidado para não pisar nos juncos embebidos preparados para a tecelagem de cordas, para que a negligência não cause qualquer dano, por menor que seja, ao mosteiro.

5.      À noite, ao ouvirem o sinal, não demorem a se aproximar do fogo que costuma ser aceso para aquecer o corpo e protegê-lo do frio. Não fiquem sentados sem fazer nada durante a sinaxe, mas preparem com atenção os juncos que servirão para tecer as cordas dos colchonetes do dormitório. Contudo, para evitar o cansaço, quem estiver fraco terá permissão para interromper seu dever de tempos em tempos.

RPach. 6 : cf. RB 20.5

6.      Quando aquele que está de pé em primeiro lugar bater palmas, repetindo uma passagem memorizada das Escrituras para dar o sinal do fim da oração, ninguém se atrasará em se levantar, mas todos se levantarão ao mesmo tempo.

7.      Ninguém deve ficar olhando para o irmão ao lado que esteja tecendo uma corda ou orando; seus olhos devem estar focados em seu próprio trabalho.

8.      Eis os preceitos de vida que os anciãos transmitiram: se alguém falar ou rir durante o canto dos salmos, as orações ou as leituras, deverá imediatamente soltar o cinto e dirigir-se ao altar com a cabeça baixa e os braços estendidos para o chão. Depois de ser repreendido ali pelo superior do mosteiro, deverá repetir essa mesma penitência no refeitório, quando todos os irmãos estiverem reunidos.

RPach. 9 : cf. RB 43.10–11

9.      Durante o dia, quando a trombeta soar para a sinaxe (assembleia) , aquele que chegar atrasado, após a primeira oração, será repreendido por seu superior e permanecerá de pé no refeitório.

 

RPach. 10 : cf. RB 43.4

10.  Mas, durante a noite, visto que nessas horas cedemos mais à fraqueza do corpo, quem chegar atrasado, depois das três primeiras orações, será corrigido da mesma maneira na igreja e no refeitório.

11.  Quando os irmãos estiverem orando durante a sinaxe, ninguém poderá sair sem ordem dos anciãos ou sem ter pedido e recebido permissão para se ausentar para necessidades fisiológicas.

12.  Ninguém distribuirá os juncos para a tecelagem de cordas a menos que seja aquele que estiver de serviço durante a semana para fazê-lo. Se alguém for impedido por causa de um trabalho justificado, aguardará as ordens de seu superior.

13.  Para o serviço durante a semana em cada casa, não serão escolhidos os que ocupam os primeiros lugares na recitação de passagens das Escrituras na assembleia de todos os irmãos. Serão escolhidos, por ordem dos irmãos sentados e de pé, aqueles que forem capazes de repetir de cor tudo o que lhes for ordenado. Se o encarregado semanal de oficiar o coro ou o altar se esquecer ou hesitar ao recitar algo, receberá a correção que a negligência e o esquecimento merecem.

14.  Ninguém pode faltar aos domingos ou quando fazem a oblação, pois deve ocupar o lugar de cantor para responder ao que canta. Isso se aplica, pelo menos, aos que pertencem à casa que está de serviço na semana grande. Pois em cada casa há um serviço de semana pequena, assegurado por um número menor de irmãos.

15.  Se esse número aumentar, o chefe da casa da semana grande convocará outros irmãos do mesmo grupo ao qual sua casa pertence. Mas, sem a sua ordem, ninguém que pertença a outra casa do mesmo grupo cantará. É absolutamente proibido a um irmão de uma casa participar do serviço de outra casa, a menos que faça parte da mesma tribo que a sua.

16.  Chamamos de tribo o grupo de três ou quatro casas (esse número varia dependendo da quantidade de irmãos e da importância do mosteiro), as quais poderíamos chamar de famílias ou clãs de uma mesma nação.

17.  Ninguém receberá permissão para cantar aos domingos ou durante a sinaxe em que se deve oferecer a oblação, exceto o chefe da casa, os anciãos do mosteiro ou aqueles a quem cabe essa função.

18.  Se um ancião cometer um erro ao cantar — isto é, ao ler o Saltério —, submeter-se-á imediatamente, diante do altar, ao ritual de penitência e de repreensão.

19.  Aquele que abandonar a sinaxe da oferta da oblação sem a permissão de seu superior será imediatamente repreendido.

20.  Pela manhã, em cada casa, após terminarem a oração, os irmãos não retornarão imediatamente às suas celas. Primeiro, terão um colóquio sobre o que foi exposto pelo superior nas conferências e, em seguida, retornarão aos seus quartos.

21.  Os que governam as casas darão três conferências por semana; nessas conferências, quando os irmãos se sentarem ou se levantarem, ocuparão seus próprios lugares, de acordo com a ordem das casas e dos indivíduos.

22.  Se alguém que estiver sentado adormecer durante a conferência, o superior da casa ou o padre do mosteiro ordenará que se levante imediatamente e permaneça de pé até receber a ordem de se sentar novamente.

23.  Quando soar o sinal para a reunião a fim de ouvir os preceitos dos anciãos, ninguém permanecerá onde estiver nem reacenderá o fogo até o final da conferência. Quem omitir algum desses preceitos será repreendido conforme mencionado anteriormente.

24.  Aquele que estiver de serviço durante a semana não poderá entregar as cordas ou qualquer outro objeto sem a ordem do padre do mosteiro. Sem ela, não poderá nem mesmo dar o sinal para se reunirem para a sinaxe ao meio-dia ou para as seis orações da tarde.

25.  Após a oração da manhã, o encarregado da semana, a quem foi confiada a tarefa, perguntará ao padre do mosteiro sobre tudo o que julgar necessário e sobre o horário em que os irmãos devem ir trabalhar no campo; de acordo com a ordem recebida, percorrerá cada casa e ensinará a cada um o que deve fazer. Se alguém pedir um livro para ler, receberá; porém, no fim da semana, devolverá o livro ao seu devido lugar aos irmãos encarregados do serviço.

26.  Se tecerem esteiras, o responsável semanal pelo coro e pelo altar perguntará, à tarde, aos chefes de cada casa a quantidade de juncos de que precisam. Dependendo da resposta, molhará a quantidade necessária para distribuí-la na manhã seguinte a cada um, por ordem. Se durante a manhã perceber que precisará de mais, molhará os juncos e os levará a cada casa até que deem o sinal para o almoço.

27.  O chefe da casa que termina a semana e aquele que o substitui, assim como o padre do mosteiro, encarregar-se-ão de verificar o que foi omitido ou negligenciado no trabalho. Farão também sacudir as esteiras que normalmente são estendidas no chão da igreja e contarão os fios que devem ser tecidos a cada semana. Anotarão o resultado em tábuas de madeira que guardarão até a reunião anual, na qual acertarão as contas e concederão a absolvição das faltas.

28.  Ao saírem da sinaxe, os irmãos, saindo um a um para suas celas ou para o refeitório, meditarão sobre alguma passagem das Escrituras; ninguém estará com a cabeça coberta enquanto medita.

29.  Quando chegarem ao refeitório, sentar-se-ão na ordem dos lugares que lhes foram designados e cobrirão a cabeça.

RPach. 30 : cf. RB 5.4

30.  Quando um ancião lhe disser para trocar de mesa, você não lhe oferecerá resistência alguma. Não ousará se servir antes do chefe da casa. Não observará aqueles que estão comendo.

31.  Cada um dos presidentes ensinará aos membros de sua casa como comer com disciplina e modéstia. Se alguém falar ou rir durante as refeições, fará penitência e será repreendido imediatamente em seu lugar: levantar-se-á e permanecerá de pé até que alguns dos outros irmãos que estiverem sentados se levantem.

32.  Se alguém chegar atrasado à mesa, a menos que o atraso tenha sido causado por ordem de um superior, fará a mesma penitência ou voltará para casa sem ter comido.

RPach. 33 : cf. RB 38.7

33.  Se à mesa precisarem de alguma coisa, ninguém se atreverá a falar; em vez disso, por meio de um som, farão um sinal aos que servem.

34.  Se você se levantar da mesa, não poderá falar ao voltar, até que tenha retornado ao seu lugar.

35.  Os que servem não comerão nada além daquilo que foi preparado para todos os irmãos em geral; não lhes será permitido fazer pratos diferentes.

36.  A pessoa encarregada de chamar os irmãos ao refeitório meditará enquanto o faz.

37.  Aquele que, à porta do refeitório, distribui a sobremesa aos irmãos que se levantam da mesa meditará sobre alguma passagem das Escrituras enquanto cumpre o seu dever.

38.  A pessoa que receber a sobremesa oferecida não a colocará em seu capuz, mas sim em sua pele de cabra, e não a comerá antes de chegar à sua casa.

39.  Aquele que distribuir a sobremesa aos irmãos receberá a sua porção das mãos do seu chefe, e os demais servirão da mesma forma. O que receberem deverá ser suficiente para três dias. Se, ao final desses três dias, houver excedente, deverão devolvê-lo ao chefe da casa, que o reintegrará à despensa, onde permanecerá até ser misturado com os demais mantimentos e distribuído a todos os irmãos.

Os Doentes

40.  Ninguém dará mais a um do que a outro. Se alguém estiver doente, o superior irá ver os encarregados do doente e receberá deles o que for necessário.

41.  Se o doente for um dos encarregados da mesa, não lhe será permitido entrar na cozinha ou na despensa para pegar qualquer coisa. Os outros encarregados lhe darão tudo o que precisar. Não lhe será permitido cozinhar para si mesmo, ainda que assim o deseje; os chefes receberão dos outros encarregados o que considerarem necessário.

42.  Ninguém entrará na enfermaria sem estar doente. Quem estiver doente será conduzido à enfermaria pelo superior de sua casa. Se precisar de uma túnica ou de outras coisas, como roupas ou comida, o superior as receberá das mãos dos encarregados e as entregará imediatamente ao doente. Um irmão doente não poderá entrar no local onde se come, nem consumir o que desejar, sem ser levado para lá pelo superior encarregado daquele serviço.

43.  Ele não poderá levar nada para o quarto que lhe foi atribuído na enfermaria, nem mesmo frutas.

44.  Os que estiverem cozinhando servirão, por sua vez, aos que estiverem à mesa.

45.  Ninguém poderá receber vinho ou sopa, exceto na enfermaria.

46.  Se algum dos que forem enviados em viagem adoecer durante o trajeto ou na embarcação e tiver necessidade ou desejo de comer sopa de peixe ou outras coisas que são normalmente consumidas no mosteiro, não comerá com os outros irmãos, mas à parte deles; os que o servem lhe darão em abundância, para que o irmão doente não fique triste em nada.

47.  Ninguém se atreverá a visitar um doente sem a permissão do seu superior. Nem mesmo um parente ou irmão poderá vê-lo sem a ordem do presidente.

48.  Se alguém transgredir ou negligenciar alguma dessas prescrições, será repreendido com a repreensão usual.

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

327 - As Regras de São Pacômio (292 - 348) - A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo - Prefácio de São Jerônimo

 


Kris, Luiz, Demétrius, Marleide, Frei Isaac e Edson 



327

As Regras de São Pacômio (292 - 348)

A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo

Prefácio de São Jerônimo

1.      Embora uma espada seja afiada e polida, se for mantida na bainha por muito tempo, suja-se de ferrugem e perde o esplendor de sua antiga beleza.

2.      Portanto, lamentando a morte da santa e venerável Paula[1] — não para agir contrariamente ao mandamento do Apóstolo, mas para que eu pudesse suspirar de alívio pela perda de muitos com sua morte —, recebi livros do homem de Deus Silvano, um sacerdote, endereçados a mim, os quais ele havia recebido de Alexandria, para que também pudesse ordenar que fossem traduzidos.

3.      Pois ele disse que nos mosteiros da Tebaida e no mosteiro de Metanoia ("arrependimento" em grego, Metanoia).

4.      Ora, Canopo[2], uma ilha há muito infame pelo luxo e pelos prazeres, foi chamada de Metanoia porque os monges haviam sido transferidos para lá por Teófilo ou Cirilo para levarem uma vida de penitentes.

5.      Atanásio, o sacerdote, no pequeno livro que apresentou ao Concílio de Calcedônia contra Dióscoro, escreve: Metanoia ou Metanoea, um subúrbio da grande cidade de Alexandria, que antes se chamava Canopo,  — cuja penalidade foi alterada pela feliz conversão do nome —, viviam muitos latinos que desconheciam as línguas egípcia e grega, nas quais foram escritos os preceitos de Pacômio, Teodoro e Orsísio.

6.      Estes foram os primeiros a lançar os alicerces dos mosteiros através da Tebaida e do Egito, segundo o preceito de Deus e dos Anjos, que lhes foram enviados para esta mesma instituição.

7.      Portanto, como eu havia permanecido em silêncio por muito tempo e engolido minha tristeza, o sacerdote Leôncio e os outros irmãos que estavam com ele, enviados a mim justamente por esse motivo, insistiram para que eu chamasse um notário, pois os documentos já haviam sido traduzidos do egípcio para o grego.

8.      Assim, ditei em nossa língua para obedecer às ordens — ou melhor, aos pedidos — de tantos homens e, com bons auspícios, como se costuma dizer, romper o longo silêncio, retornando aos meus estudos anteriores e renovando a alma da santa mulher, que sempre ardia de amor pelos mosteiros e meditava na terra sobre o que veria no céu.

9.      Sua venerável filha virgem, Eustóquia[3], também possuía esses escritos, que deveria dar às suas irmãs e aos nossos irmãos egípcios.

10.  Devem ser seguidos os exemplos dos monges de Tabenna, que têm em cada mosteiro pais, dispensadores, hebdomadários (semanais), ministros e superiores para cada casa, de modo que em uma casa vivam mais ou menos quarenta irmãos sob a obediência ao superior; e deve haver trinta ou quarenta casas, de acordo com o número de irmãos no mosteiro, sendo três ou quatro casas unidas em uma tribo, para que possam ir juntos aos trabalhos ou sucederem-se mutuamente em ordem no ministério dos hebdomadários.

RPach. praef. 3 : cf. RB 63.4

11.  Mas quem entra primeiro no mosteiro, senta-se primeiro, caminha primeiro, etc. Antigamente, os salmos não eram cantados por todos os monges ou clérigos um após o outro, como acontece hoje, mas por um de cada vez; assim, enquanto um cantava o salmo em ordem, os outros escutavam em completo silêncio.

12.  Eles nada possuem em suas celas, além da esteira (psiátio) e dos seguintes itens: duas túnicas de linho sem mangas (lebitonários), das quais uma já trajam para dormir ou trabalhar; um manto de linho, dois capuzes, uma pele de cabra (chamada melote), um cinto de linho, calçados e um cajado para a viagem.

RPach. praef. 5 : cf. RB 41.1–4

13.  Os doentes são amparados por serviços admiráveis e comida preparada em abundância; os sãos fortalecem-se com a abstinência.

14.  Duas vezes por semana, no quarto e no sexto dia da semana [quarta e sexta-feira], todos jejuam, exceto no tempo da Páscoa e do Pentecostes.

15.  Nos outros dias, os que desejam comem à tarde; e, no jantar, uma mesa é posta da mesma forma para os trabalhadores, os idosos, as crianças e os que estão muito doentes.

16.  Há aqueles que comem pouco no almoço; outros contentam-se com apenas uma refeição, seja no almoço ou no jantar. Alguns, depois de provarem um pouco de pão, saem. Todos comem juntos. Quem não deseja ir à mesa recebe apenas pão, água e sal em sua cela, quer comam a cada dia, quer após dois dias.

17.  Os irmãos do mesmo ofício são reunidos em uma casa sob um único Superior: por exemplo, os que tecem linho ficam juntos; os que tecem esteiras são considerados uma família; os empacotadores, carpinteiros, pisoeiros (tapete de junco) e criadores de aves são regidos separadamente por seus respectivos superiores; e, toda semana, prestam contas de seus trabalhos ao Pai do mosteiro.

18.  O governante de todos os mosteiros é um só chefe, que reside no mosteiro principal durante os dias da Páscoa: com exceção daqueles cujos serviços são indispensáveis no mosteiro, todos se reúnem a ele, de modo que quase cinquenta mil pessoas celebram juntas a festa da Paixão do Senhor.

RPach. 9 : cf. RB 43.10–11

8.      No mês chamado Mesore (isto é, agosto), observam-se dias de remissão semelhantes ao Jubileu: os pecados são perdoados a todos, e aqueles que tiveram alguma desavença reconciliam-se uns com os outros; também são nomeados, conforme a necessidade, os chefes dos mosteiros, dispensadores, superiores e ministros.

9.      Os tebanos dizem que um anjo concedeu a Pacômio, Cornélio e ao Sírio — que se diz ter vivido mais de cento e dez anos — o conhecimento de uma língua mística, de modo que podiam escrever entre si e falar por meio de um alfabeto especial, que envolvia significados ocultos em certos sinais e símbolos.

10.  Traduzimos as Epístolas para a nossa língua tal como eram lidas entre os egípcios e gregos, utilizando os mesmos elementos que encontramos e imitando a simplicidade da fala egípcia.

11.  A fidelidade da interpretação serve para que os homens apostólicos e toda a graça espiritual não sejam alterados pela retórica. O restante, porém, que consta em seus tratados, não quis mencionar, para que aprendam diretamente com seus autores; pois aqueles que se deleitam com os estudos da santa conversação devem beber nas fontes, e não nos ribeiros.

 

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?



[1] Santa Paula de Roma, grande patrícia romana que se tornou discípula de São Jerônimo, principal colaboradora financeira e parceira em fundações monásticas na Terra Santa; juntos, mantiveram um profundo vínculo de direção espiritual e colaboração nos estudos bíblicos e literários em Belém por cerca de 25 anos, desde o encontro em Roma, por volta de 382 d.C., até o falecimento de Paula, em 404 d.C.

 

[2] A chamada ilha de Canopo (ou, mais precisamente, a região de Canopo) ficava no baixo Egito, no delta do Nilo, a cerca de 19 a 20 quilômetros (12 milhas) a leste de Alexandria, na costa do mar Mediterrâneo (na área onde hoje se localiza a cidade moderna de Abu Quir).  Na Antiguidade, Canopo era uma cidade portuária famosa e um centro de festividades e cultos pagãos. O envolvimento de São Jerônimo com esse local ocorre porque, por volta de 391 d.C., o Patriarca Teófilo de Alexandria instalou ali uma comunidade de monges pacomianos (os Tabenesiotas, seguidores das regras de São Pacômio vindos do sul do Egito) para ocupar antigos santuários pagãos desativados. Esse famoso mosteiro ficou conhecido como o Mosteiro da Metanoia (da Penitência) ou Mosteiro de Canopo. Foi justamente para os monges dessa comunidade em Canopo/Metanoia que São Jerônimo traduziu do grego/copto para o latim as obras e a Regra de São Pacômio, em 404 d.C., incluindo o prefácio onde menciona a transição daquele solo antes dedicado aos cultos pagãos para a vida ascética cristã. Canopo significa Terra do Ouro.

 

[3] Eustóquia (c. 368 – c. 419 d.C.), formalmente conhecida como Santa Eustóquia de Belém, foi uma nobre patrícia romana, filha de Santa Paula e neta da ilustre matriarca Toxícia. Sua trajetória está profundamente ligada à história do monaquismo e aos estudos bíblicos de São Jerônimo: Vocação e Virgindade Consagrada: Educada em meio à alta nobreza romana, Eustóquia decidiu consagrar sua virgindade a Deus ainda jovem, resistindo às pressões sociais e familiares para se casar com alguém da aristocracia. Ela foi uma das primeiras jovens romanas de estirpe senatorial a abraçar formalmente a vida ascética. Acompanhante da Mãe e Discípula de Jerônimo: Quando sua mãe, Paula, decidiu deixar Roma para fixar residência na Terra Santa, Eustóquia a acompanhou. Em Belém, ela se tornou não apenas companheira de sua mãe na fundação e administração do mosteiro feminino, mas também uma dedicada discípula de São Jerônimo nos estudos das Sagradas Escrituras e das línguas originais (hebraico e grego). Parceria Literária: Jerônimo nutria por Eustóquia grande admiração intelectual e espiritual. Várias de suas obras mais importantes — incluindo comentários bíblicos e famosas cartas de exortação sobre a preservação da virgindade e o valor da vida ascética (como a célebre Carta 22, De custodia virginitatis) — foram escritas a pedido ou dedicadas diretamente a ela. Abadessa em Belém: Após a morte de sua mãe Santa Paula (em 404 d.C.), Eustóquia assumiu a direção do mosteiro feminino em Belém, liderando a comunidade até o fim de sua vida, enfrentando inclusive as turbulências e ataques ao mosteiro durante os conflitos teológicos da época.

 

domingo, 20 de setembro de 2026

326 - As Regras de São Pacômio - A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo - Introdução

 

Isaac, Wender, Kris, Luiz, Marisa e Edson




326

As Regras de São Pacômio

A versão latina da Regra de São Pacômio por São Jerônimo

Introdução

 

1.Origens e Conversão no Exército Imperial (292–313 d.C.):Do paganismo no Alto Egito ao impacto do amor cristão.

1.      São Pacômio nasceu por volta de 292 d.C. em Tebas (atual Luxor, no Egito), no seio de uma família pagã. Durante a juventude, sob o reinado do imperador Maximino Daia, foi conscrito à força no exército romano. A caminho do combate, ao passar por Tebas e Alexandria, o jovem soldado e seus companheiros foram aprisionados temporariamente em condições degradantes.

2.      Nesse cenário de desolação, ocorreu o evento determinante para sua vida: cristãos locais aproximaram-se dos prisioneiros à noite, trazendo-lhes comida, mantimentos e consolo, sem pedir nada em troca. Impressionado por aquele amor desinteressado a estranhos, Pacômio indagou quem era o Deus que os movia a tal compaixão. Ao saber do Deus dos cristãos, fez um voto interior: se fosse libertado do exército, dedicaria o restante de sua vida ao serviço de Deus e do próximo.

3.      Com a derrota de Maximino em 313 d.C., Pacômio foi desmobilizado. Cumpriu imediatamente a promessa: dirigiu-se à aldeia de Seneset (Scheneset), instruiu-se na fé e recebeu o batismo, iniciando uma jornada de serviço comunitário aos doentes e necessitados da região.

2.A Ascese no Deserto e a Inovação Cenobítica (313–340 d.C.):O nascimento da vida monástica comunitária.

4.      Desejando uma entrega radical, Pacômio buscou a orientação de Santo Palamão, um respeitado anacoreta (eremita) do deserto egípcio. Sob a tutela rigorosa de Palamão, viveu anos de profunda austeridade, jejuns e oração contínua. Contudo, percebeu que a vida puramente eremítica apresentava limitações: nem todos os vocacionados suportavam a solidão extrema, e faltava ao eremita a oportunidade de praticar virtudes comunitárias como a caridade, o perdão e o serviço mútuo.

5.      Por volta de 320 d.C., inspirado por uma visão divina enquanto orava em Tabennesi (às margens do Nilo), Pacômio fundou o primeiro mosteiro cenobítico (do grego koinos bios, "vida comum"). Ao contrário dos eremitas isolados, os monges pacomianos viviam sob o mesmo teto, partilhavam bens, alimentavam-se juntos e obedeciam a uma autoridade comum (o Abba ou Abade).

6.      Para organizar essa comunidade crescente, Pacômio redigiu a primeira Regra Monástica da história cristã. Esta legislação estabelecia o equilíbrio entre oração, trabalho manual (como a tecelagem de folhas de palmeira), disciplina gradual, perdão mútuo e caridade fraterna — servindo mais tarde como base direta para a Regra de São Basílio no Oriente e a Regra de São Bento no Ocidente.

3.Consolidação, Legado Monástico e Morte (340–346 d.C.):O impacto duradouro do pai do cenobitismo.

7.      A ordem pacomiana expandiu-se com rapidez extraordinária. Antes de sua morte, Pacômio já supervisionava uma rede de nove mosteiros masculinos e dois femininos (estes fundados com o auxílio de sua irmã, Maria), reunindo milhares de monges sob uma única federação spiritual no Alto Egito.

8.      Pacômio manteve-se profundamente humilde ao longo de toda a sua vida: recusou sistematicamente a ordenação sacerdotal para evitar a vaidade clerical e garantiu que o trabalho manual dos monges sustentasse não apenas a comunidade, mas também os pobres e doentes das cercanias.

9.      Em 346 d.C., uma terrível peste devastou a região do Nilo. Pacômio dedicou-se pessoalmente aos cuidados dos irmãos enfermos até contrair a infecção. Faleceu em 9 de maio de 346 d.C., cercado por seus discípulos. Reconhecido universalmente como o Pai do Cenobitismo, seu modelo organizativo transformou o monacato de um fenômeno individualista numa força de preservação espiritual, cultural e social que moldou a Igreja ao longo de toda a Idade Média.

10.  A tradução da Regra de São Pacômio para o latim, realizada por São Jerônimo em 404 d.C. em Belém, representa um dos episódios mais decisivos para a história do monacato ocidental. Sem este trabalho de mediação linguística e teológica, o modelo cenobítico egípcio não teria chegado ao Ocidente com a força e a precisão estrutural que moldaram a Idade Média.

Contexto e Motivação

11.  No início do século V, a vida monástica no Ocidente crescia rapidamente, mas carecia de uma estrutura disciplinar e institucional sólida. Diferente do Oriente — que já contava com a tradição pacomiana no Egito —, o Ocidente convivia com formas desorganizadas de vida ascética, muitas vezes marcadas pelo excesso individualista ou pela indisciplina.

12.  Em 404 d.C., os monges do mosteiro de Canopo (próximo a Alexandria) enviaram a Jerônimo os textos pacomianos escritos em grego (traduções diretas dos originais em copta sahídico). O objetivo era obter uma versão latina fiel que pudesse servir de código de conduta para os mosteiros da Itália, da Gália e do Norte da África.

13.  Jerônimo, que vivia em seu mosteiro em Belém e já dominava o grego, o latim e o hebraico, traduziu todo o Corpus Pacomiano:

14.  A Regra Monástica (dividida em Preceitos, Preceitos e Julgamentos, Preceitos e Leis, Preceitos e Instituições);

15.  As Cartas de São Pacômio e de seu sucessor, São Teodoro;

16.  O Livro de Teodoro e a Epístola do Bispo Amônio.

Importância Metodológica e Linguística

17.  Na tradução da Regra, Jerônimo aplicou critérios semelhantes aos de suas obras bíblicas, combinando precisão técnica com clareza institucional:

18.  Sistemática Legal e Terminológica: O monasticismo pacomiano possuía uma linguagem comunitária muito específica (termos como casa, semana, sinaxe, prior, catequese). Jerônimo fixou a terminologia latina para a hierarquia e os costumes cenobíticos, permitindo que a administração de um mosteiro pudesse ser replicada em qualquer região do Império Romano.

19.  Preservação da Tradição Copta: Como a maioria dos escritos coptas originais do século IV se perdeu ou sobreviveu apenas em fragmentos, a tradução latina de Jerônimo tornou-se a fonte primária completa e mais antiga para o estudo moderno do monacato pacomiano original.

O Impacto no Monacato Ocidental

20.  A versão latina de Jerônimo serviu como o principal veículo de transmissão da experiência egípcia para os grandes legisladores da Igreja Ocidental:

21.  São João Cassiano: Utilizou a tradução jeroniniana para redigir suas Instituições e Conferências, fundamentando os mosteiros do sul da Gália (como Lérins e Marselha).

22.  São Bento de Nursia: Ao redigir a Regra de São Bento (século VI), a legislação definitiva do Ocidente, Bento citou explicitamente a "Regra de Nosso Pai Pacômio" como uma das autoridades veneráveis que todo monge deveria estudar e praticar (RB 73).

23.  Sem a mediação do latim de Jerônimo, a arquitetura comunitária de Pacômio — baseada na obediência, no trabalho manual, no perdão mútuo e na oração litúrgica comum — não teria chegado aos reinos carolíngios e medievais, onde os mosteiros se tornaram os principais centros de preservação cultural e espiritual da Europa.

24.  A relação entre a tradução latina de São Jerônimo da Regra de São Pacômio (404 d.C.) e a Regra de São Bento (século VI) é direta e profunda. Bento de Nursia não apenas conhecia o texto traduzido por Jerônimo, como o utilizou como matriz conceitual e legislativa para organizar o monacato ocidental.

25.  Ao final de sua obra, no capítulo 73 (RB 73.5), o próprio Bento declara explicitamente sua dívida para com os mestres do Oriente, exortando seus monges a lerem a "Regra do nosso Pai Pacômio".

Canais de Influência Direta

1. A Estrutura Comunitária e Obediência Hierárquica

Antes da difusão da tradução de Jerônimo, o modelo monástico mais admirado no Ocidente era o eremítico (o monge isolado no deserto, no estilo de Santo Antão). Bento adotou a visão pacomiana de que a vida cenobítica (comunitária) é a forma mais segura de vida espiritual.

·         Organização em casas e cargos: Bento reproduziu a estrutura de delegar autoridade (Abade, Prior, Decanos), inspirada na divisão por casas da federação pacomiana.

·         Obediência radical: A ideia pacomiana de que a obediência aos preceitos da comunidade é uma oferta a Deus foi traduzida por Jerônimo e assimilada no Capítulo 5 da Regra Beneditina.

2. O Equilíbrio entre Trabalho Manual e Oração (Ora et Labora)

A Regra Pacomiana foi a primeira a exigir rigorosamente que todos os monges realizassem trabalho manual diário — como a tecelagem de palmeiras — para combater a ociosidade e sustentar os necessitados.

·         Na versão de Jerônimo, o vocabulário do trabalho e da disciplina diária serviu de molde para o Capítulo 48 da Regra de São Bento (Sobre o trabalho manual cotidiano).

3. O Gradualismo Penitentiar e a Correção Fraterna

Tanto no texto pacomiano quanto no beneditino, a disciplina comunitária segue uma pedagogia de misericórdia e gradação. Como visto nos preceitos pacomianos (§160–176):

·         Advertências prévias: Antes de qualquer punição severa, o faltoso recebe advertências privadas (duas ou três vezes).

·         Gradação das penas: Separação da mesa comum, perda de posição na comunidade (ir para o "último lugar") e, em último caso, o exílio ou castigo físico.

·         Bento incorporou essa exata progressão pedagógica nos capítulos 23 a 30 de sua Regra (Do modo de correção).

O Papel Mediador do Latim de Jerônimo

            Sem a tradução de Jerônimo, Bento não teria tido acesso ao vocabulário jurídico e institucional preciso necessário para redigir uma legislação monástica estável. Termos como monasterium, abbas, præpositus (prior), regularis disciplina e synaxis (assembleia/oração comunitária) foram padronizados por Jerônimo a partir do grego/copta e tornaram-se o código genético do monasticismo medieval ocidental.

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

4.      O que você destaca na sua aproximação com os escritos de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo, Regras longas e Regras Breves.

Comparação de Trechos e Conceitos

Aspecto

Regra de Pacômio (Tradução de Jerônimo)

Regra de São Bento (RB)

Correção de Faltas

"Se um irmão... for surpreendido em flagrante crime, será advertido duas vezes." (§160)

"Se algum irmão for encontrado desobediente... seja advertido duas vezes em particular." (RB 23.1)

Perda do Lugar

"Na sétima vez... será colocado entre os últimos." (§160)

"Não esteja no seu lugar no coro... mas no último lugar." (RB 44.1)

Defesa de Outro Monge

"Aquele que defende um irmão que cometeu alguma falta será punido..." (§176)

"Proíba-se terminantemente que um monge defenda outro no mosteiro..." (RB 69.1)

Cuidado com as Roupas

"Se alguém tiver mais roupas do que o autorizado... enviará para quem as guarda..." (§192)

"Tudo o que for além do necessário deve ser tirado; é superfluidade." (RB 55.11)

 

 

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6.    Como serve para a sua espiritualidade?

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

325 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 301-313

 


Genissom, Edmar, Nathalie, Marisa, Edson, Demétrius, Wender


325

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 301-313

 

INTERROGAÇÃO 301

Se alguém disser: “Minha consciência não me condena”.

Resposta: Dá-se isto também nas doenças corporais. Muitas são as enfermidades que os doentes não sentem; no entanto, creem antes no diagnóstico dos médicos do que atendem à própria insensibilidade. Assim, nas doenças da alma, isto é, nos pecados, embora alguém, inconsciente da falha, não se censure, deve antes acreditar nos que podem ver melhor o que se passa. Deste modo agiram os santos apóstolos quando, embora persuadidos de sua sincera afeição ao Senhor, ao ouvi-lo dizer: “Um de vós há de me trair” (Mt 26,21), acreditaram antes na palavra do Senhor, entristeceram-se e diziam: “Porventura sou eu, Senhor?” (Mt 26,22). Mais claramente no-lo ensina São Pedro, que por fervorosa humildade recusou o serviço de seu Senhor, Deus e Mestre; mas, convencido da verdade das palavras do Senhor ao ouvir: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8), disse: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9).

 

INTERROGAÇÃO 302

Convém tirar do mantimento da comunidade para dar aos necessitados de fora?

Resposta: O Senhor disse: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24); e: “Não convém lançar aos cachorrinhos o pão dos filhos” (Mt 15,26). Não se deve consumir com os indiferentes o que foi destinado aos consagrados a Deus. Se, porém, for possível fazer o que disse a mulher, louvada por sua fé: “Sim, Senhor; mas os cachorrinhos ao menos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27), julgue-o o ecônomo com o consentimento dos seus corresponsáveis, de modo que o sol, em sua superabundância, como está escrito, se levante sobre os maus e os bons (Mt 5,45).

 

INTERROGAÇÃO 303

Se há obrigação de obedecer, na comunidade, às ordens de todos.

Resposta: É muito difícil responder a esta pergunta. Primeiro, porque é evidente indício de indisciplina todos darem ordens, pois diz o Apóstolo: “Quanto aos profetas, falem dois ou três, e os outros julguem” (1Cor 14,29). Ele mesmo, em relação à distribuição dos carismas, estabeleceu a ordem dos que falam com as palavras: “Segundo a medida da fé que Deus distribuiu a cada um” (Rm 12,3). E, pelo exemplo dos membros do corpo, claramente mostrou ser própria a função de quem fala; explica-o bem ao dizer: “Se alguém tem o dom de ensinar, dedique-se ao ensino; o que exorta, à exortação” (Rm 12,7-8). Daí se vê com clareza que nem tudo é lícito a todos, mas cada qual deve permanecer na sua vocação e realizar com maior diligência o que o Senhor lhe confiou.

Aquele que está à frente da comunidade e foi estabelecido acima de todos deve ter esse encargo confirmado após provada experiência. Exerça uma vigilância solícita sobre cada um, de modo que, agradando a Deus e considerando a aptidão e os esforços de cada irmão, determine e ordene o que serve à utilidade comum. Os súditos, porém, guardando a boa ordem e a obediência segundo a justa medida, lembrem-se do Senhor, que disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna” (Jo 10,27-28); e da passagem anterior: “Mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10,5). Também o Apóstolo afirma: “Se alguém ensina de outra forma e não se conserva fiel às salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como à doutrina segundo a piedade, é um homem enfatuado, que nada entende” (1Tm 6,3-4); e acrescenta, após enumerar os males decorrentes: “Foge destas coisas” (1Tm 6,11). E ainda em outra parte: “Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o que é bom. Abstende-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,20-22).

Por isso, se alguma ordem está de acordo com o mandamento do Senhor, ou visa a ele, deve-se obedecer, mesmo sob ameaça de morte; se, porém, é contrária ao mandamento ou o viola, de modo nenhum se deve obedecer — ainda que seja um anjo do céu ou algum dos apóstolos a ordenar, mesmo com promessa de vida ou ameaça de morte, pois diz o Apóstolo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo vindo do céu vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, seja anátema” (Gl 1,8).

 

INTERROGAÇÃO 304

Se os parentes dos irmãos quiserem dar algum presente à comunidade, deve ser aceito?

Resposta: O cuidado e o julgamento desta questão cabem ao superior. Contudo, em minha opinião, evitar-se-á o escândalo de muitos e será mais proveitoso para a edificação da fé se tais presentes forem recusados. A aceitação deles, em primeiro lugar, frequentemente traz censuras à comunidade. Depois, dá ocasião de orgulho aos parentes que presentearam. Além disso, o Apóstolo disse aos que consumiam bens particulares na casa de Deus: “Quereis envergonhar aqueles que nada têm?” (1Cor 11,22). Por advirem daí tantas ocasiões de pecado, será preferível não receber tais presentes; contudo, o superior julgue de quem podem ser aceitos e como devem ser distribuídos.

 

INTERROGAÇÃO 305

Se convém receber algo das pessoas de fora, quer sejam amigos ou parentes.

Resposta: Esta pergunta tem o mesmo alcance daquela em que se interroga se se deve receber algo dos parentes.

 

INTERROGAÇÃO 306

Como se evita a divagação da mente?

Resposta: Adquirindo o espírito daquele eleito de Deus, Davi, que disse: “Tenho sempre o Senhor diante de mim; porque ele está à minha direita, não serei abalado” (Salmo 16,8); e: “Os meus olhos estão continuamente no Senhor, pois ele tirará os meus pés do laço” (Salmo 25,15); ou ainda: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus senhores, e os olhos da serva nas mãos de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus” (Salmo 123,2).

Para que, a partir do exemplo das coisas humanas, empreguemos maior empenho nas coisas divinas, considere cada um como se comporta na presença de seus iguais: como procura manter-se composto, quer esteja de pé, andando, movimentando-se ou falando. Se nos esforçamos por guardar a decoro naquilo que os homens veem, com quanto mais razão alguém, tendo a convicção de ser visto por Deus — que perscruta os corações e os rins (Salmo 7,9) —, pelo Filho Unigênito de Deus — que cumpre sua promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20) —, pelo Espírito Santo — que distribui e opera os carismas —, e também pelos anjos da guarda de cada um — segundo o que disse o Senhor: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus veem continuamente a face de meu Pai” (Mt 18,10) —, terá enorme e constante zelo pelo culto agradável a Deus! Assim a atenção se firma de modo mais intenso e perfeito.

Além disso, deve-se procurar cumprir a palavra: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca” (Salmo 34,1); e: “Na sua lei medita de dia e de noite” (Salmo 1,2). Deste modo, o espírito, ocupado continuamente na meditação e contemplação das vontades e dos juízos de Deus, não encontrará tempo para a divagação.

 

INTERROGAÇÃO 307

Se convém haver revezamento para iniciar a salmodia ou a oração.

Resposta: Havendo muitos que sejam capazes, guarde-se nisso a boa ordem. Não se considere a questão irrelevante ou indiferente, nem a escolha exclusiva de uma pessoa faça o superior ser suspeito de parcialidade ou de desprezo pelos demais.

 

INTERROGAÇÃO 308

Se convém que a comunidade retribua algum doador, e se a retribuição deve ser proporcional ao presente.

Resposta: Esta é uma questão de ordem prudencial humana. Se convém dar mostras de gratidão, julgue-o o ecônomo, tanto a respeito do recebimento dos dons quanto da retribuição a quem os deu.

 

 

 

 

INTERROGAÇÃO 309

Se acontecer a alguém o que é de ordem física/natural, deve a pessoa aproximar-se da comunhão das coisas santas?

Resposta: O Apóstolo mostra que é superior à natureza e ao costume aquele que foi sepultado no batismo com Cristo. Ao tratar do batismo, ele prossegue: “Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6,6). Em outro lugar, ordena: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Cl 3,5-6). E mais uma vez expõe esta norma: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5,24). Sei, porém, que pela graça de Cristo isto se realiza em homens e mulheres através da genuína fé no Senhor.

Aprendemos do Antigo Testamento em que terrível juízo incorre o impuro que se aproxima das coisas santas. Se aqui está alguém que é maior do que o templo (Mt 12,6), ensinar-nos-á o Apóstolo de modo ainda mais severo: “Porque aquele que come e bebe indignamente, come e bebe para si a sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1Cor 11,29).

 

INTERROGAÇÃO 310

Se convém celebrar a Ceia do Senhor em uma casa comum.

Resposta: Assim como a Escritura não permite levar aos lugares santos um vaso profano, também não é lícito celebrar as ações sagradas em uma casa comum, visto que o Antigo Testamento, por ordem expressa de Deus, jamais permitiu tal prática. Diz o Senhor: “Aqui está quem é maior do que o templo” (Mt 12,6); e o Apóstolo: “Não tendes porventura casas para comer e para beber? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisso não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei” (1Cor 11,22-23). Daí aprendemos a não fazer na igreja uma refeição comum de comida e bebida, nem profanar a Ceia do Senhor celebrando-a em uma casa comum — a menos que alguém, por extrema necessidade, escolha um lugar ou casa mais limpos em tempo oportuno.

 

INTERROGAÇÃO 311

Devemos visitar os que nos convidarem?

Resposta: Visitar é agradável a Deus; contudo, o visitante deve ser ouvinte prudente e sábio nas respostas, conforme o dito: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Cl 4,6). Fazer, porém, uma visita apenas por motivo de parentesco ou amizade humana é estranho à nossa profissão monástica.

 

INTERROGAÇÃO 312

Se convém pedir a oração dos visitantes leigos.

Resposta: Se são amigos de Deus, é bom. O Apóstolo lhes escreve: “Orai também por mim, para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho” (Ef 6,19).

 

INTERROGAÇÃO 313

Se convém trabalhar quando há visitantes.

Resposta: Nenhuma das obrigações deve ser interrompida por causa daqueles que nos procuram por cortesia ou amizade, a não ser que se tenha de assumir uma obra espiritual específica, preferível ao trabalho corporal segundo o mandamento do Senhor. Pois os santos apóstolos dizem nos Atos: “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas” (At 6,2).

 

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.      De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

4.      O que você destaca na sua aproximação com os escritos de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo, Regras longas e Regras Breves.