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SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras
Menos Extensas (313 regras) Interrogações 301-313
INTERROGAÇÃO
301
Se alguém disser: “Minha consciência não me
condena”.
Resposta: Dá-se isto também nas
doenças corporais. Muitas são as enfermidades que os doentes não sentem; no
entanto, creem antes no diagnóstico dos médicos do que atendem à própria
insensibilidade. Assim, nas doenças da alma, isto é, nos pecados, embora
alguém, inconsciente da falha, não se censure, deve antes acreditar nos que
podem ver melhor o que se passa. Deste modo agiram os santos apóstolos quando,
embora persuadidos de sua sincera afeição ao Senhor, ao ouvi-lo dizer: “Um
de vós há de me trair” (Mt 26,21), acreditaram antes na palavra do Senhor,
entristeceram-se e diziam: “Porventura sou eu, Senhor?” (Mt 26,22). Mais
claramente no-lo ensina São Pedro, que por fervorosa humildade recusou o
serviço de seu Senhor, Deus e Mestre; mas, convencido da verdade das palavras
do Senhor ao ouvir: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo
13,8), disse: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a
cabeça” (Jo 13,9).
INTERROGAÇÃO
302
Convém tirar do mantimento da comunidade para dar
aos necessitados de fora?
Resposta: O Senhor disse: “Não fui
enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24); e: “Não
convém lançar aos cachorrinhos o pão dos filhos” (Mt 15,26). Não se deve
consumir com os indiferentes o que foi destinado aos consagrados a Deus. Se,
porém, for possível fazer o que disse a mulher, louvada por sua fé: “Sim,
Senhor; mas os cachorrinhos ao menos comem das migalhas que caem da mesa de
seus donos” (Mt 15,27), julgue-o o ecônomo com o consentimento dos seus
corresponsáveis, de modo que o sol, em sua superabundância, como está escrito,
se levante sobre os maus e os bons (Mt 5,45).
INTERROGAÇÃO
303
Se há obrigação de obedecer, na comunidade, às
ordens de todos.
Resposta: É muito difícil responder a
esta pergunta. Primeiro, porque é evidente indício de indisciplina todos darem
ordens, pois diz o Apóstolo: “Quanto aos profetas, falem dois ou três, e os
outros julguem” (1Cor 14,29). Ele mesmo, em relação à distribuição dos
carismas, estabeleceu a ordem dos que falam com as palavras: “Segundo a
medida da fé que Deus distribuiu a cada um” (Rm 12,3). E, pelo exemplo dos
membros do corpo, claramente mostrou ser própria a função de quem fala;
explica-o bem ao dizer: “Se alguém tem o dom de ensinar, dedique-se ao
ensino; o que exorta, à exortação” (Rm 12,7-8). Daí se vê com clareza que
nem tudo é lícito a todos, mas cada qual deve permanecer na sua vocação e
realizar com maior diligência o que o Senhor lhe confiou.
Aquele
que está à frente da comunidade e foi estabelecido acima de todos deve ter esse
encargo confirmado após provada experiência. Exerça uma vigilância solícita
sobre cada um, de modo que, agradando a Deus e considerando a aptidão e os
esforços de cada irmão, determine e ordene o que serve à utilidade comum. Os
súditos, porém, guardando a boa ordem e a obediência segundo a justa medida,
lembrem-se do Senhor, que disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as
conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna” (Jo 10,27-28); e da
passagem anterior: “Mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão
dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10,5). Também o Apóstolo
afirma: “Se alguém ensina de outra forma e não se conserva fiel às salutares
palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como à doutrina segundo a piedade, é
um homem enfatuado, que nada entende” (1Tm 6,3-4); e acrescenta, após
enumerar os males decorrentes: “Foge destas coisas” (1Tm 6,11). E ainda
em outra parte: “Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o que é
bom. Abstende-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,20-22).
Por
isso, se alguma ordem está de acordo com o mandamento do Senhor, ou visa a ele,
deve-se obedecer, mesmo sob ameaça de morte; se, porém, é contrária ao
mandamento ou o viola, de modo nenhum se deve obedecer — ainda que seja um anjo
do céu ou algum dos apóstolos a ordenar, mesmo com promessa de vida ou ameaça
de morte, pois diz o Apóstolo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo vindo
do céu vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, seja
anátema” (Gl 1,8).
INTERROGAÇÃO
304
Se os parentes dos irmãos quiserem dar algum
presente à comunidade, deve ser aceito?
Resposta: O cuidado e o julgamento
desta questão cabem ao superior. Contudo, em minha opinião, evitar-se-á o
escândalo de muitos e será mais proveitoso para a edificação da fé se tais
presentes forem recusados. A aceitação deles, em primeiro lugar, frequentemente
traz censuras à comunidade. Depois, dá ocasião de orgulho aos parentes que
presentearam. Além disso, o Apóstolo disse aos que consumiam bens particulares
na casa de Deus: “Quereis envergonhar aqueles que nada têm?” (1Cor
11,22). Por advirem daí tantas ocasiões de pecado, será preferível não receber
tais presentes; contudo, o superior julgue de quem podem ser aceitos e como
devem ser distribuídos.
INTERROGAÇÃO
305
Se convém receber algo das pessoas de fora, quer
sejam amigos ou parentes.
Resposta: Esta pergunta tem o mesmo
alcance daquela em que se interroga se se deve receber algo dos parentes.
INTERROGAÇÃO
306
Como se evita a divagação da mente?
Resposta: Adquirindo o espírito
daquele eleito de Deus, Davi, que disse: “Tenho sempre o Senhor diante de
mim; porque ele está à minha direita, não serei abalado” (Salmo 16,8); e: “Os
meus olhos estão continuamente no Senhor, pois ele tirará os meus pés do laço”
(Salmo 25,15); ou ainda: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos
seus senhores, e os olhos da serva nas mãos de sua senhora, assim os nossos
olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus” (Salmo 123,2).
Para
que, a partir do exemplo das coisas humanas, empreguemos maior empenho nas
coisas divinas, considere cada um como se comporta na presença de seus iguais:
como procura manter-se composto, quer esteja de pé, andando, movimentando-se ou
falando. Se nos esforçamos por guardar a decoro naquilo que os homens veem, com
quanto mais razão alguém, tendo a convicção de ser visto por Deus — que
perscruta os corações e os rins (Salmo 7,9) —, pelo Filho Unigênito de Deus —
que cumpre sua promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome,
ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20) —, pelo Espírito Santo — que
distribui e opera os carismas —, e também pelos anjos da guarda de cada um —
segundo o que disse o Senhor: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos,
porque eu vos digo que os seus anjos nos céus veem continuamente a face de meu
Pai” (Mt 18,10) —, terá enorme e constante zelo pelo culto agradável a
Deus! Assim a atenção se firma de modo mais intenso e perfeito.
Além
disso, deve-se procurar cumprir a palavra: “Bendirei ao Senhor em todo o
tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca” (Salmo 34,1); e: “Na
sua lei medita de dia e de noite” (Salmo 1,2). Deste modo, o espírito,
ocupado continuamente na meditação e contemplação das vontades e dos juízos de
Deus, não encontrará tempo para a divagação.
INTERROGAÇÃO
307
Se convém haver revezamento para iniciar a salmodia
ou a oração.
Resposta: Havendo muitos que sejam
capazes, guarde-se nisso a boa ordem. Não se considere a questão irrelevante ou
indiferente, nem a escolha exclusiva de uma pessoa faça o superior ser suspeito
de parcialidade ou de desprezo pelos demais.
INTERROGAÇÃO
308
Se convém que a comunidade retribua algum doador, e
se a retribuição deve ser proporcional ao presente.
Resposta: Esta é uma questão de ordem
prudencial humana. Se convém dar mostras de gratidão, julgue-o o ecônomo, tanto
a respeito do recebimento dos dons quanto da retribuição a quem os deu.
INTERROGAÇÃO
309
Se acontecer a alguém o que é de ordem
física/natural, deve a pessoa aproximar-se da comunhão das coisas santas?
Resposta: O Apóstolo mostra que é
superior à natureza e ao costume aquele que foi sepultado no batismo com
Cristo. Ao tratar do batismo, ele prossegue: “Sabendo isto: que o nosso
velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito,
a fim de que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6,6). Em outro lugar, ordena:
“Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a
prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência e a avareza, que é
idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da
desobediência” (Cl 3,5-6). E mais uma vez expõe esta norma: “E os que
são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”
(Gl 5,24). Sei, porém, que pela graça de Cristo isto se realiza em homens e
mulheres através da genuína fé no Senhor.
Aprendemos
do Antigo Testamento em que terrível juízo incorre o impuro que se aproxima das
coisas santas. Se aqui está alguém que é maior do que o templo (Mt 12,6),
ensinar-nos-á o Apóstolo de modo ainda mais severo: “Porque aquele que come
e bebe indignamente, come e bebe para si a sua própria condenação, não
discernindo o corpo do Senhor” (1Cor 11,29).
INTERROGAÇÃO
310
Se convém celebrar a Ceia do Senhor em uma casa
comum.
Resposta: Assim como a Escritura não
permite levar aos lugares santos um vaso profano, também não é lícito celebrar
as ações sagradas em uma casa comum, visto que o Antigo Testamento, por ordem
expressa de Deus, jamais permitiu tal prática. Diz o Senhor: “Aqui está quem
é maior do que o templo” (Mt 12,6); e o Apóstolo: “Não tendes porventura
casas para comer e para beber? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisso não vos
louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei” (1Cor
11,22-23). Daí aprendemos a não fazer na igreja uma refeição comum de comida e
bebida, nem profanar a Ceia do Senhor celebrando-a em uma casa comum — a menos
que alguém, por extrema necessidade, escolha um lugar ou casa mais limpos em
tempo oportuno.
INTERROGAÇÃO
311
Devemos visitar os que nos convidarem?
Resposta: Visitar é agradável a Deus;
contudo, o visitante deve ser ouvinte prudente e sábio nas respostas, conforme
o dito: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que
saibais como vos convém responder a cada um” (Cl 4,6). Fazer, porém, uma
visita apenas por motivo de parentesco ou amizade humana é estranho à nossa
profissão monástica.
INTERROGAÇÃO
312
Se convém pedir a oração dos visitantes leigos.
Resposta: Se são amigos de Deus, é
bom. O Apóstolo lhes escreve: “Orai também por mim, para que me seja dada,
no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério
do evangelho” (Ef 6,19).
INTERROGAÇÃO
313
Se convém trabalhar quando há visitantes.
Resposta: Nenhuma das obrigações deve
ser interrompida por causa daqueles que nos procuram por cortesia ou amizade, a
não ser que se tenha de assumir uma obra espiritual específica, preferível ao
trabalho corporal segundo o mandamento do Senhor. Pois os santos apóstolos
dizem nos Atos: “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e
sirvamos às mesas” (At 6,2).
1.
O que você destaca no
texto?
2.
Como serve para a sua
espiritualidade?
3.
De que forma esse texto
desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?
4.
O que você destaca na sua aproximação com os escritos
de Basílio? Lembra que estudamos três materiais? Tradado do Espírito santo,
Regras longas e Regras Breves.