segunda-feira, 20 de maio de 2019

96 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilias 5 e 6)


Imagem relacionada

96
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilias 5 e 6)



HOMILIA 5 - Lc 1.20-22 - SOBRE O MUTISMO DE ZACARIAS

O silêncio de Zacarias e o dos profetas
O sacerdote Zacarias, enquanto oferece incenso no templo, é condenado ao silêncio e não pode mais falar ou, antes, só fala por sinais e permanece mudo até o nascimento de João.
Aonde leva esta história? O silêncio de Zacarias é o silêncio dos profetas no povo de Israel, aos quais Deus [já] não fala de nenhum modo. E “a Palavra, que, do princípio, era Deus junto do Pai”, veio até nós, e conosco o Cristo não se cala; para os judeus até hoje silencia. Por isso também o profeta Zacarias calou-se.
Muito claramente, a partir de suas próprias palavras, se comprova que ele foi profeta e sacerdote. Mas o que significa o que se segue: “Ele lhes fazia sinais com a cabeça”, e com tais sinais compensava o prejuízo da voz?
Eu considero que há ações que, sem palavra e sem razão, em nada diferem dos sinais. Onde, porém, palavra e razão precedem e, assim, uma obra subsegue, as ações, providas de palavra e razão, não devem ser consideradas simples sinais.
Se, portanto, consideras a instituição dos judeus como sem palavra e sem razão, a ponto de não poderem dar conta de seus atos, entende que o que então se passou em Zacarias como imagem é o que se cumpre para eles até os dias de hoje. Sua circuncisão é similar aos sinais. Se, com efeito, não se dá conta da circuncisão, a circuncisão é um sinal e uma obra muda. A páscoa e outras solenidades são mais gestos do que verdade.
Até hoje o povo de Israel é surdo e mudo; nem podia, com efeito, suceder que não fosse surdo e mudo quem havia atirado para longe de si a Palavra.
Outrora, sem dúvida, Moisés dizia: “eu, porém, sou álogos” – o que, embora o latino se expressaria de outro modo, pode se traduzir apropriadamente: “sem palavra” e “sem razão” –, e depois de haver dito essas palavras, recebeu a razão e a palavra, que havia confessado antes não ter.
O povo de Israel no Egito, antes de receber
a Lei, encontrando-se sem palavra e sem razão, era, de certo modo, mudo. Em seguida recebeu a Palavra, cuja imagem foi Moisés.
O povo não reconhece o que confessou Moisés, que era mudo e álogos, mas por gestos e pelo silêncio manifesta não ter palavra e não ter razão. Não te parece ser uma confissão de estultícia, quando ninguém deles pode dar conta dos preceitos da Lei e dos ditos proféticos?

A rejeição de Israel e a salvação das nações
Cristo cessou de estar com eles, a Palavra os abandonou, cumpriu-se aquilo que está escrito em Isaías: “A filha de Sião será deixada como uma tenda na vinha, e como uma sentinela em um pepineiro, como uma cidade que é atacada”.
Depois desse abandono, a salvação foi transferida às nações, para que os judeus sejam incitados ao zelo.
Considerando, portanto, a economia e o mistério de Deus, como Israel foi apartado para nossa salvação, devemos estar atentos para que também os judeus não sejam excluí dos por nossa causa e que nós não sejamos dignos de um suplício maior, por cuja causa também os judeus foram abandonados, e nós nada faremos de digno da adoção de Deus e de sua clemência, com a qual nos adotou e colocou-nos no lugar de seus filhos em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder no século dos séculos. Amém”.

HOMILIA 6 - Lc 1.24-33 - Sobre isto que está escrito: “Depois que havia concebido, Isabel se manteve escondida”, até esta passagem que diz: “Este será grande”.

Isabel permanece escondida
Quando Isabel concebeu, “ela se escondia por cinco meses, dizendo: porque isto por mim fez o Senhor nos dias em que voltou seu olhar para trás para tirar o meu opróbrio de dentre os homens”. Pergunto por que razão, depois que se entendeu grávida, afastou-se do meio público.
Se não me engano, é por isto: mesmo aqueles que estão unidos pelas núpcias não têm todo tempo livre entre si para o ato conjugal, mas há um tempo em que se abstêm do intercurso sexual. Se o homem for um velho e a mulher uma anciã, é a maior falta de vergonha se entregar à libido e entregar-se à realização do ato conjugal, que parecem suprimidos pelo depauperamento do corpo e velhice e pela vontade de Deus.
Mas Isabel, porque pela palavra do anjo e pela economia divina havia copulado com um varão, se enrubescia por, idosa e quase decrépita, ter voltado a um ato da juventude.
Daí que “se escondia por cinco meses”, não até o nono mês, até o momento iminente do parto, mas até o momento da concepção de Maria.
Quando, com efeito, Maria concebeu e veio até Isabel, e sua saudação chegou aos seus ouvidos, exultou de alegria a criança no ventre de Isabel e Isabel profetizou e, cheia do Espírito Santo, pronunciou as palavras que o Evangelho reporta, “E se espalharam por todas as montanhas essas palavras”.
Quando, pois, se espalhou o rumor no meio do povo de que ela trazia no ventre um profeta e de que aquele que ela tinha concebido era maior que um homem, ela então não se esconde, mas se mostra com toda liberdade e exulta de ter em seu seio o precursor do Salvador.

O Mistério da Encarnação oculto ao demônio
Em seguida, a Escritura rememora que, “no sexto mês em que Isabel tinha concebido, foi enviado o anjo Gabriel por Deus a uma cidade da Galileia, cujo nome era Nazaré, a uma virgem desposada com um varão, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria”.
Novamente refletindo [sobre esses fatos], pergunto por que Deus, quando uma vez julgou que o Salvador deveria nascer de uma virgem, não escolheria uma moça sem esposo, mas [escolheu] sobretudo aquela desposada.
E a não ser que me engane, é por esta causa: teve de nascer daquela virgem que, não só tivesse esposo, mas, como escreve Mateus, já havia sido entregue a um homem, embora ele ainda não a tivesse conhecido, a fim de que o próprio fato de ser virgem não fosse motivo de vergonha, se a virgem aparecesse com o ventre crescendo.
É por isso que encontrei elegantemente escrito na epístola de certo mártir (refiro-me a Inácio, segundo bispo de Antioquia depois de Pedro, que, na perseguição de Roma, foi entregue às feras): “A virgindade de Maria se fez oculta ao Príncipe deste século”, se fez oculta por causa de José, se fez oculta por causa das núpcias, se fez oculta porque era considerada pertencente a um varão.
Se, de fato, não tivesse tido um esposo e, como se considerava, um varão, em vão teria podido se esconder do “Príncipe deste mundo”.
Imediatamente, pois, um pensamento teria se insinuado secretamente na mente do diabo: “Como esta [mulher], que não teve relações com um varão, está grávida? Essa concepção deve ser obra divina, deve ser algo mais sublime que a natureza humana”.
Pelo contrário, o Salvador havia decretado que o diabo ignorasse a sua economia da Encarnação e da assunção de um corpo. Assim também o deixou na ignorância quanto à sua geração, e aos discípulos depois preceituava que não o fizessem conhecer.
E quando era tentado pelo próprio diabo, em nenhum momento [o Salvador] confessou ser Filho de Deus, mas tão somente respondia: não devo adorar-te, nem que faça pães destas pedras, nem que do alto eu me precipite. E quando dizia estas coisas, sempre silenciou que era Filho de Deus. Procura em outras passagens pela Escritura, e encontrarás que foi vontade de Cristo que o diabo ignorasse o advento do Filho de Deus.
O Apóstolo, afirmando que as forças adversas ignoraram a sua paixão, diz: “É uma sabedoria que nós pregamos entre os perfeitos, não é, porém, a sabedoria deste século, nem dos príncipes deste século, que são destruídos; mas pregamos a sabedoria de Deus escondida no mistério, que nenhum dos príncipes deste século conheceu.
Se, com efeito, tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória”.  Escondido, portanto, esteve dos príncipes deste século o mistério do Salvador.
O que se pode objetar, pelo contrário, me parece poder ser resolvido, antes que por outro seja proposto: por qual razão o que escapou aos príncipes deste mundo não escapou ao demônio, que no Evangelho dizia: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? Sabemos quem tu és, ó Filho de Deus”. Mas, tem presente [isto]: é o menor em malícia que reconheceu o Salvador; mas o maior no crime, o mais maldoso, o mais malvado, porque ele é o maior no mal, não pôde reconhecer o Filho de Deus. E nós também, quanto menos pertencermos ao mal, mais facilmente poderemos avançar sobre o caminho da virtude. Ao contrário, quanto mais o mal for grande em nós, maior será nosso trabalho, mais abundante nosso suor, para nos liberar de tão grande malícia.
Eis o comentário sobre o noivado de Maria.

A saudação do anjo
Pois, na verdade, o anjo saudou Maria com uma fórmula nova, que não pude encontrar em [nenhuma] outra parte da Escritura e da qual pouca coisa se deve dizer.
Eis, de fato, o que diz: “Ave, cheia de graça”, que em grego se diz: “kekharitoméne”.
Não me recordo em que outra parte da Escritura eu tenha lido. Nunca essa fórmula foi dirigida a um homem: “Salve, cheio de graça”.
Somente a Maria essa saudação estava reservada. Se, com efeito, Maria tivesse sabido que uma fórmula semelhante havia sido dirigida a algum outro – ela tinha, com efeito, o conhecimento da Lei e era santa e havia conhecido, por suas meditações quotidianas, os anúncios dos profetas –, nunca a haveria espantado uma saudação que lhe parecesse estranha.
É por isso que o anjo lhe disse: “Não temas, Maria, porque encontraste graça aos olhos de Deus. Eis que conceberás em teu ventre, e darás à luz um filho, e o chamarás pelo nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”.

A grandeza de Jesus
Também se diz de João: “Ele será grande”, e é o anjo Gabriel também que o atesta; mas quando veio Jesus, verdadeiramente grande, verdadeiramente sublime, João que, antes, fora grande, se tornou menor.
João, com efeito, disse Jesus, “foi uma lâmpada ardente e brilhante, e vós quisestes exultar um instante, à sua luz”. A grandeza de nosso Salvador não apareceu quando nasceu, mas agora ela resplandece, depois que parecia ter sido esmagada pelos adversários.
Vê a grandeza do Senhor: “sobre toda a terra se espalhou o som de sua doutrina, e até os confins da terra suas palavras”. Nosso Senhor Jesus, porque é a “força de Deus”, espalhou-se sobre toda a terra, e atualmente está conosco, segundo o que se lê no Apóstolo: “Vós estais reunidos e meu espírito está no meio de vós com a força do Senhor Jesus”.
A força do Senhor Salvador está com aqueles que, na Bretanha, estão separados de nosso continente e com aqueles que, na Mauritânia, e com todos aqueles que, sob o sol, creram em seu nome. Vê, portanto, a grandeza do Salvador, como sobre toda a terra se difundiu; e, certamente, ainda não expus sua verdadeira grandeza.
Sobe aos céus e vê como ele enche as moradas celestes, porque “ele apareceu aos anjos”. Desce, pelo pensamento, aos abismos, e verás que ele também para lá desceu. Pois, “Quem desceu,  este é o mesmo que subiu, a fim de tudo preencher”, “para que, em nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos”.
Reflete sobre o poder do Senhor, como preencheu o mundo, isto é, os céus, a terra e os infernos, como penetrou o próprio céu e como atingiu o cume. Lemos, com efeito, que o Filho de Deus “atravessou os céus”.
Se tu tiveres compreendido essas verdades, compreenderás igualmente que não é incidentalmente que se diz: “Ele será grande”.
A obra do Senhor realiza por completo essa palavra. Grande é o nosso Senhor Jesus, seja presente, seja ausente; e ele concedeu uma parte de seu poder também à nossa assembleia e à nossa reunião, mas para que cada um de nós mereça recebê-la, oremos ao Senhor Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no texto? Como ele serve para sua espiritualidade?


terça-feira, 14 de maio de 2019

95 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilias 3 e 4)


Resultado de imagem para icone Zacarias pai de João Batista

95
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilias 3 e 4)


HOMILIA 3
Lc 1.11 - Sobre o que está escrito: “Apareceu-lhe um anjo do Senhor, de pé à direita do altar do incenso”.


Visão dos seres espirituais
As realidades físicas que existem e carecem de inteligência não exercem por si próprias nenhuma atividade para serem objeto de percepção visual: é somente o olhar alheio que, dirigido para elas, quer elas queiram ou não queiram, as penetra, quando ele orienta em direção a elas sua contemplação. O que pode, com efeito, fazer um homem ou qualquer outra realidade, que a circunde com um corpo espesso, quando estiver em presença de outrem, para que não seja percebido?
Ao contrário, aquelas realidades que são superiores e divinas, mesmo quando estão em presença de outrem, não são vistas, a não ser que elas mesmas queiram [ser vistas]; e está no controle de sua vontade serem ou não serem vistas. E foi por uma graça de Deus que Ele [mesmo] apareceu a Abraão e aos outros profetas: o olho do coração de Abraão não foi a única causa para que visse Deus, mas [foi] porque a graça de Deus se ofereceu livremente ao homem justo, para que fosse ela mesma contemplada.
Não entendas isso, porém, só sobre Deus Pai, mas também sobre o Senhor Salvador e sobre o Espírito Santo; e, se eu quiser chegar a seres que lhes são inferiores, sobre os Querubins e Serafins. Pode acontecer que, agora, a nós que estamos falando, nos assista um anjo, e, entretanto, porque não o merecemos, não o possamos ver.
Embora o olho, seja do corpo seja de nossa alma, se esforce, com efeito, para contemplá-lo, a não ser que, por sua própria vontade, o anjo apareça e se ofereça a ser visto, aquele que o deseja ver não o verá. É por isso que, onde quer que estiver escrito: “Deus apareceu” a esse ou a àquele – como ouvimos há pouco: “apareceu-lhe o anjo do Senhor, de pé à direita do altar do incenso” –, entende assim como eu disse. Seja Deus, seja o anjo de Abraão ou de Zacarias, quando não quiser ou quiser, ou não será visto ou será visto.
E dizemos isso não somente no “século presente”,mas também no futuro, quando tivermos migrado deste mundo, porque Deus ou os anjos não aparecem para todos, como se aquele que tenha acabado de sair de seu corpo mereça imediatamente ver tanto os anjos quanto o Espírito Santo, o Senhor Salvador e o próprio Deus Pai; mas o verá apenas aquele que tiver o coração puro e se mostrar de tal forma que seja digno de ver a Deus. E ainda que estejam no mesmo lugar aquele que é de coração puro e aquele que ainda está respingado por alguma mancha, não é a unidade do lugar que o poderá prejudicar ou favorecer, porque quem tiver o coração puro verá a Deus, mas quem não o tiver não verá aquilo que os outros contemplam.
Tal fato, para mim, deve ser entendido também acerca do Cristo, quando era corporalmente visto, porque não o podia ver qualquer um que o visse.
Viam, claro, apenas seu corpo, mas não o podiam ver enquanto Cristo. Ao contrário, os discípulos o viam e contemplavam a grandeza de sua divindade. Por essa razão, creio que também a Filipe, que o suplicava e dizia: “Mostra-nos o Pai e isso nos basta”, o Salvador tenha respondido: “Por tanto tempo estou convosco, e não me conhecestes? Ó Filipe, quem me vê, vê também o Pai”.
Pilatos, com efeito, que via Jesus, não contemplava o Pai, o traidor Judas também não, porque nem o próprio Pilatos nem Judas viam o Cristo segundo o que Cristo era; nem a multidão que o apertava [de todos os lados]. Só viam a Jesus aqueles que ele julgava dignos de sua contemplação.
Trabalhemos, portanto, nós também, para que, no tempo presente, Deus nos apareça, porque a palavra santa da Escritura prometeu: “porque será encontrado por aqueles que não o tentam, ele possa se manifestar àqueles que não são incrédulos a seu respeito” e, no século futuro, não nos seja oculto, mas que o vejamos “face a face” e tenhamos a garantia de uma vida feliz e gozemos da visão de Deus onipotente em Cristo Jesus e no Espírito Santo, “a quem pertence a glória e o poder nos séculos dos séculos.  Amém”.


HOMILIA 4
Lc 1,13-17 - Sobre o que está escrito: “Não temas, Zacarias”, até aquela passagem em que se fala de João: “Ele o precederá no espírito e no poder de Elias”.


Nascimento de João Batista
Zacarias atemorizou-se, assim que viu o anjo. Uma figura nova que se ofereça aos olhares humanos perturba a mente e apavora o coração. Por isso, o anjo, sabendo que essa é a natureza humana, primeiramente remedia a perturbação, dizendo: “Não temas, Zacarias”, e reconforta aquele que está agitado e o alegra com uma mensagem nova, dizendo: “Tua oração foi ouvida e tua esposa Isabel dará à luz um filho, e o chamarás com o nome de João; e será teu júbilo e exultação”. Quando algum justo aparece no mundo e penetra no estádio desta vida, os responsáveis por seu nascimento se alegram e se entusiasmam. Mas quando nasce aquele que foi preparado para uma má vida e condenado, por assim dizer, à prisão por castigo, o responsável fica consternado e abatido.
Queres tomar um exemplo de um homem santo, de quem todo o fruto esteja no louvor? Vê Jacó, que gerou a doze filhos do sexo masculino, que se tornaram todos os patriarcas, os chefes do povo de Deus e de sua herança: em todos estes o pai Jacó se alegrava, assim como agora o nascimento de João é, para todo o mundo, o anúncio de uma jubilosa notícia. E quem uma vez, para ser útil aos outros, consentiu em ter filhos e quis se sujeitar a esta função deve suplicar a Deus que seu filho, tal como João, ingresse no mundo, ao qual o nascimento dele traria mais alegria. Pois sobre João foi escrito: “Ele será grande aos olhos do Senhor”. Isso que foi dito, “Ele será grande aos olhos do Senhor”, revela a grandeza da alma de João, que seria clara aos olhos de Deus.
Há algo de pequenez que se percebe propriamente na virtude da alma. É assim, pelo menos, que entendo esta passagem do Evangelho: “Não desprezeis nenhum destes pequeninos que estão na Igreja”. Pequenino aí se entende por comparação com um maior. Não me é preceituado que eu despreze o que é grande, porque não pode ser desprezado aquele que é grande, mas é dito a mim: “Não desprezes nenhum destes pequeninos”. Para que saibas, porém, que pequenino e pequeno não são palavras ditas ao acaso, mas com o sentido que citamos, está escrito: “Quem quer que tiver escandalizado um só destes pequeninos [...]”. Um pequenino é escandalizado, um maior não pode suportar um escândalo.


Presença do Espírito Santo
Segue-se sobre João: “E ele será repleto do Espírito Santo desde o seio de sua mãe”. E o nascimento de João é cheio de milagres. Como um arcanjo anunciou o advento de Nosso Senhor e Salvador, da mesma forma um arcanjo anuncia o nascimento de João. “Ele será repleto do Espírito Santo desde o seio de sua mãe”. O povo judeu não via absolutamente que nosso Senhor realizava “milagres e prodígios” e curava suas doenças. Mas João, ainda no seio de sua mãe, exulta de alegria e não pode ser contido; e à chegada da mãe de Jesus, parece querer sair do ventre de Isabel. “Desde o instante em que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, exultou de júbilo a criança
em meu ventre”. João ainda estava no ventre da mãe e já havia recebido o Espírito Santo. Não era, pois, o Espírito Santo aquele princípio de sua substância e natureza.
Em seguida, a Escritura diz que ele “converterá numerosos filhos de Israel ao Senhor seu Deus”. João converteu a vários, o Senhor, porém, não vários, mas todos.
Esta é a obra d’Ele: a todos converter ao Deus Pai. “E ele andará à frente do Cristo, no espírito e na virtude de Elias”. Não diz: na alma de Elias, mas “no espírito e virtude de Elias”. Houve em Elias a virtude e o espírito, tal como em todos os profetas, e, segundo a economia da Encarnação, em nosso próprio Senhor Salvador, do qual, poucos versículos depois, é dito a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”.
O Espírito, portanto, que existira em Elias, veio sobre João, e o poder, que naquele habitava, neste também apareceu. Aquele foi transportado ao céu, mas este foi o precursor do Senhor e morreu antes desse, para que, descendo aos infernos, anunciasse seu advento.


O mistério de João
Eu considero que o mistério de João até hoje se cumpre no mundo. Quem quer que houver de acreditar em Cristo Jesus, primeiramente o espírito e o poder de João vem à sua alma, e “prepara ao Senhor um povo perfeito”, e, nas asperezas do coração, aplaina os caminhos e endireita as veredas. Não foi somente naquele tempo que os caminhos foram preparados e endireitadas as veredas, mas até hoje o advento do Senhor Salvador é precedido pelo espírito e o poder de João. 
Ó grandes mistérios do Senhor e de sua economia! Os anjos correm na frente de Jesus, os anjos quotidianamente ou sobem ou descem para a salvação dos homens em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no texto? Como ele serve para sua espiritualidade?

domingo, 5 de maio de 2019

94 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 2. Lucas 1.6)


Imagem relacionada
94
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 2. Lucas 1.6)


HOMILIA 2
Leia Lucas 1.6
Sobre o que foi escrito: (Zacarias e Isabel, os pais de João) “Ambos, porém, eram justos diante de Deus, andando segundo todos os mandamentos e preceitos do Senhor, de um modo irrepreensível, sem censura”.

Ser sem pecado
1. Os que querem dar a seus pecados alguma desculpa, julgam que não existe ninguém isento de pecado e invocam o testemunho que se acha escrito em Jó: “Ninguém está imune da sordidez, nem se fosse de um só dia sua vida sobre a terra; seus meses, porém, são contáveis”.
Deste testemunho, só proferem o conteúdo verbal, mas ignoram profundamente seu conteúdo. Em resposta a esses, brevemente responderemos, haja vista que ser sem pecado nas Escrituras deve ser entendido de dois modos, seja [o primeiro] não ter nunca pecado, e o outro ter cessado de pecar. Se afirmam, pois, que não se pode dizer isento de pecado senão aquele que nunca pecou, nós estamos de acordo em que ninguém está isento do pecado, porque todos os homens pecamos uma vez ou outra, embora em seguida tenhamos seguido a senda da virtude. Se, na verdade, assim entendem que não há homem isento de pecado, a tal ponto que neguem que alguém com uma vida pregressa nos vícios possa se voltar para as virtudes, para que nunca mais peque, é falsa opinião destes. Pode acontecer, com efeito, que um pecador veterano, ao cessar de pecar, seja declarado sem pecado.
Assim também nosso Senhor Jesus Cristo fez aparecer diante dele uma Igreja resplandecente, que não tem mancha, não porque o homem que pertence à Igreja nunca tenha tido mancha, mas porque, a partir de então, não será mais manchado; que não tem ruga, não porque a ruga do homem velho não tenha existido nele uma outra vez, mas porque a tenha cessado de ter. Desse modo, também se deve entender aquilo que se segue: “que seja santa e imaculada”, não porque tenha sido imaculada desde o princípio – isto não se pode sequer suspeitar acerca do homem, que sua alma não tenha sido manchada –, mas porque se estima pura e intacta aquela que tenha cessado de se manchar.
Fizemos todas essas observações, com efeito, para que fizéssemos entender que o homem, pelo fato de ter cessado de pecar, pode ser chamado isento de pecado e imaculado. Também, a partir disso, está escrito muito claramente sobre Zacarias e Isabel: “ambos, porém, eram justos aos olhos de Deus, andando segundo todos os mandamentos e preceitos do Senhor, de um modo irrepreensível, sem censura”.

Ser justo aos olhos de Deus
Contemplemos de mais perto o elogio de Zacarias e de Isabel que o santo Lucas relata em sua história, não tanto para que saibamos que eles foram louváveis, mas para
que também nós próprios nos tornemos dignos de louvor, fazendo nosso seu santo zelo. Ele teria podido simplesmente escrever: “ambos, porém, eram justos, andando segundo todos os mandamentos e preceitos do Senhor, de um modo irrepreensível”.
Mas era necessário acrescentar: “ambos, porém, eram justos aos olhos de Deus”. Pode, com efeito, acontecer a alguém ser justo aos olhos do homem, não o sendo aos olhos de Deus. Por exemplo: um homem não encontra nenhum mal e, examinando tudo o que me diz respeito, não encontra nada para me censurar: eu sou justo aos olhos dos homens.
Imagina que todos os homens têm de mim a mesma opinião, se eles procuram em mim um assunto de crítica sem poder descobri-lo e me louvam com uma boca unânime, eu sou justo aos olhos de vários homens. Ora, com efeito, o julgamento dos homens não é seguro: eles ignoram se pequei um dia no recôndito do meu coração, se olhei uma mulher desejando-a, ou se nasceu em meu coração um adultério.
Ignoram os homens, quando me tiverem visto segundo meus meios dar a esmola, se [o] fiz por causa do mandamento de Deus ou se busquei o louvor e o favor dos homens.
Coisa difícil é ser justo aos olhos de Deus, para que não faças algo de bom não por outra causa senão pelo próprio bem, e busques somente a Deus, retribuidor da boa ação. Semelhante fato também o Apóstolo atesta: “Seu louvor não vem dos homens, mas de Deus”. Feliz aquele que é justo e louvável aos olhos de Deus.
Os homens, com efeito, embora pareçam ter um julgamento certo, não podem, porém, pronunciar [um julgamento] certo. E de fato acontece, às vezes, que louvem àquele que não merece elogio, e àquele, que não é nem um pouco digno de crítica, façam críticas. Apenas Deus é justo juiz no louvor e no vitupério.
Daí é normal que acrescentemos ao louvor dos justos: “ambos, porém, eram justos aos olhos de Deus”. Salomão igualmente exorta-nos a uma atitude semelhante, dizendo nos Provérbios: “Procura o bem aos olhos de Deus e dos homens”.

Andar segundo os mandamentos e julgamentos do Senhor
Zacarias e Isabel recebem em seguida outro elogio: “andando segundo todos os mandamentos e preceitos do Senhor, de um modo irrepreensível”.
Quando nossos julgamentos são justos e corretos, andamos segundo os preceitos do Senhor; mas quando fazemos isto ou aquilo, andamos segundo seus mandamentos. É por isso que, a meu ver, São Lucas, querendo fazer deles um elogio perfeito, acrescentou: “ambos, porém, eram justos aos olhos de Deus, andando segundo todos os mandamentos e preceitos do Senhor”.

Fugir da vanglória
Alguém me diria: se este louvor é perfeito, o que quer dizer esta expressão: “sem censura”? Bastava, pois, dizer: “andando em todos os caminhos e preceitos do Senhor”, não poderia dar-se que ande alguém em todos os mandamentos de Deus, e, porém, não ande “sem censura”.
E como pode acontecer que alguém, andando em todos os mandamentos e preceitos de Deus, possa estar sob censura? A isso brevemente
responderei: se não fosse possível, nunca teríamos conhecido este texto, reportado em outra passagem: “segue com justiça o que é justo”.
Se não fosse justa, pois, alguma coisa, que não seguíssemos com justiça, seria vão prescrever-nos que seguíssemos com
justiça o que é justo.
Quando, com efeito, cumprimos o mandamento de Deus, mas, em nossa consciência, somos respingados pelas manchas da vanglória, de modo a [querer] agradar aos homens, ou então [quando] qualquer outra causa que não agrade a Deus precede nosso bem agir, ainda que cumpramos o preceito de Deus, não o fazemos, porém, isentos de censura, e seguimos sem justiça o que é justo. Difícil é, portanto, andar “em todos os mandamentos e preceitos do Senhor sem censura”, segundo o testemunho e o louvor de Deus em Cristo Jesus, que há de ser rendido no dia do Juízo por Aquele “diante do tribunal de quem nós devemos todos ser postos a descoberto para que cada um reencontre o que tiver cumprido durante sua vida, seja de bom ou de ruim”. “Todos, com efeito, apareceremos diante do tribunal de Deus” para receber o que merecemos no Cristo Jesus, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no Texto?
Como ele serve para sua espiritualidade?

terça-feira, 30 de abril de 2019

93 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Prólogo e Homilia 1)


Resultado de imagem para icone são lucas
93
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Prólogo e Homilia 1)


PRÓLOGO DA TRADUÇÃO DE SÃO JERÔNIMO

Inicia-se o prólogo do bem-aventurado presbítero Jerônimo para as homilias de Orígenes sobre o evangelista Lucas Jerônimo a Paula e Eustóquia

Há alguns dias, vós dissestes que havíeis lido certos comentários sobre [São] Mateus e [São] Lucas, um dos quais seria embotado tanto no pensamento quanto no estilo, o outro jogaria com as palavras, ao passo que cochilaria em suas ideias. Por essa razão, pedistes, desprezando semelhantes frivolidades, que eu traduzisse pelo menos as trinta e nove homilias, sobre [São] Lucas, de nosso caro Adamâncio, tal como se encontram em grego – tarefa desagradável esta e similar a um tormento escrever, como diz Túlio [Cícero], segundo o gosto alheio, e não o seu próprio,  a qual agora mesmo, porém, por causa disso, eu empreenderei porque não me exigis algo acima da minha capacidade. Outrora em Roma, nossa santa amiga Blesila havia solicitado que eu
entregasse aos leitores de nossa língua os vinte e seis tomos de Orígenes sobre [São] Mateus, e outros cinco sobre [São] Lucas, e os trinta e dois sobre [São] João, mas sabeis que isso não estava ao alcance de minhas forças, nem de meu tempo disponível, nem de minhas possibilidades de trabalho. Eis o quão grande é, junto a mim, vossa influência e vontade! Eu pus um pouco de lado os livros das Questões Hebraicas, para que, para seguir vosso arbítrio, eu pudesse ditar estas páginas, quaisquer que sejam, de uma obra tão proveitosa que não é minha, mas alheia, principalmente quando ouço o crocitar de um corvo de mau agouro, que se ri de modo estranho das cores de todas as aves, quando ele próprio é inteiramente tenebroso.
E assim confesso, antes que aquele indivíduo me faça suas críticas, que Orígenes, nestes tratados, brinca de dados como um menino.
As outras obras de sua maturidade e velhice são totalmente sérias. Se me aprouver, se eu tiver a possibilidade, se o Senhor me der a licença para que eu verta para a língua latina estas obras acima, e se eu tiver arrematado a obra anteriormente deixada de lado, então podereis ver, ou melhor, através de vós a língua romana conhecerá quanta riqueza não só até aqui ignorou, tanto quanto ela agora começará a conhecer. Além disso, eu me dispus a enviar-vos em alguns dias os comentários que publicaram sobre [São] Mateus, um de Hilário, escritor eloquentíssimo e o outro do bem-aventurado mártir Vitorino, cada um em estilo diverso, mas sob a inspiração única do Espírito Santo, para que não ignoreis quanto empenho pelas Sagradas Escrituras outrora houve também em nossos companheiros.
Aqui termina o prólogo. Começam as homilias de Orígenes sobre São Lucas em número de trinta e nove, vertidas para o latim por Eusébio Jerônimo, proferidas aos domingos.

COMEÇA A HOMILIA

PRIMEIRA HOMILIA 1
Lc 1,1-4
Sobre o Prólogo de Lucas, até aquela passagem, quando diz: “...escrever a ti, excelente Teófilo”.
Os Evangelhos canônicos
1. Como outrora, no seio do povo judeu, muitos prediziam a profecia, e certos deles eram pseudoprofetas – dos quais um foi Ananias, filho de Azur – outros, em verdade, eram verdadeiros profetas. E havia junto ao povo o dom de discernimento dos espíritos, pelo qual outros eram reconhecidos no número dos profetas, [e] alguns eram rejeitados ao modo de cambistas treinadíssimos.
No momento presente, no tempo do Novo Testamento, muitos também tentaram escrever evangelhos, mas nem todos foram aceitos. E a fim de que saibais que se escreveram não apenas quatro evangelhos, mas vários outros, dos quais estes, que temos, foram escolhidos e entregues às igrejas, que deste prólogo de Lucas, cujo texto assim se apresenta, aprendamos isto: “Porque evidentemente muitos tentaram compor uma narrativa”. Esta palavra “tentaram” tem uma acusação latente contra aqueles que, sem a graça do Espírito Santo, lançaram-se na redação dos Evangelhos. Mateus, Marcos, João e Lucas, com efeito, não “tentaram” escrever, mas, cheios do Espírito Santo, escreveram os Evangelhos.
“Muitos”, pois, “tentaram compor uma narrativa destes acontecimentos, que nos são perfeitamente conhecidos”.
2. A Igreja possui quatro Evangelhos; os hereges, vários, dos quais um se intitula “segundo os egípcios”, outro “segundo os doze Apóstolos”. Basílides mesmo teve a audácia de escrever um evangelho e de intitulá-lo com seu próprio nome. Assim, muitos tentaram escrever, mas apenas quatro Evangelhos foram aprovados, e é deles que se devem tirar os preceitos acerca da pessoa de nosso Senhor e Salvador. Conheço certo Evangelho que se chama “segundo [São] Tomé” e outro “segundo [São] Matias”; e muitos outros lemos, a fim de não parecermos ignorantes por causa daqueles que se julgam saber algo, caso tenham conhecido estes. Mas, em tudo isso, não aprovamos nada diferente do que aprova a Igreja, ou seja, que sejam admitidos apenas quatro Evangelhos. Por essa razão, eis o que se leu no prólogo: “Muitos tentaram compor uma narrativa acerca destes eventos que se consolidaram entre nós”. Eles ensaiaram e “tentaram” escrever uma narrativa destes eventos que para nós se revelaram
absolutamente certos.

O conhecimento sensível e o conhecimento da fé
3. Lucas revela seus sentimentos a partir do trecho em que diz: “Foram-nos muito claramente manifestadas”, segundo o sentido do grego pepleroforeménon que a língua latina não pode explicar com uma só palavra. Era, pois, com a certeza da fé e da razão que ele havia conhecido os fatos, e não hesitava absolutamente em alguma coisa se era assim ou de outro modo que sucedia. Isso, porém, sucede àqueles que acreditaram com muita fidelidade: aquilo que o profeta roga com insistência, eles obtiveram; e dizem: “confirma-me nas tuas palavras”.
 Por isso, o Apóstolo diz também sobre os que estavam firmes e sólidos: “Que sejais enraizados e fundados na fé”. Se alguém está, pois, enraizado e fundado na fé, pode a tempestade elevar-se, podem os ventos soprar, pode a chuva cair a cântaros, não será abalado, nada ocorrerá, porque sobre a pedra o edifício foi fundado com sólida base. E não pensemos que é
dada a estes olhos carnais a firmeza da fé, que a inteligência e a razão concederam. Que os infiéis acreditem por causa de sinais e prodígios que a penetração do homem considera atentamente. Que o fiel verdadeiramente avisado e firme siga a razão espiritual e assim discirna o que é verdadeiro do que é falso.
4. “Como transmitiram a nós aqueles que desde o princípio eles próprios viram e se tornaram servidores da palavra.” No Êxodo está escrito: “O povo via a voz do Senhor”. E com certeza ouve-se a voz, mais do que se vê, mas por isto foi escrito, para que nos fosse mostrado que ver a voz de Deus é ver com outros olhos, com os
quais os que merecem são capazes de ver. Mas, no Evangelho, não se discerne a voz, e sim a palavra, que é mais excelente que a voz. Donde se diz agora: “Como nos transmitiram aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra”. Os apóstolos contemplaram a palavra, não porque tivessem  avistado o corpo do Senhor Salvador, mas porque haviam visto o Verbo. Se, com efeito, ter visto a Jesus segundo a carne é ter visto a Palavra de Deus, portanto também Pilatos, que condenou Jesus, viu a Palavra de Deus, bem como o traidor Judas e todos os que clamaram: “Crucifica-o, crucifica-o, tira da terra tal indivíduo”, viram a Palavra de Deus. Longe de mim esse pensamento de que qualquer incrédulo possa ver a Palavra de Deus. Ver a Palavra de Deus é tal qual o Salvador diz: “Quem me vê, vê também o Pai, que me enviou”.

Conhecimento e ação
5.  “Como nos transmitiram aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra”. Implicitamente, somos instruídos pelas palavras de Lucas de que o fim de um ensinamento é o próprio ensinamento, mas que há outro tipo de ensinamento cujo fim é o cômputo das obras. Assim, por exemplo, a ciência da geometria tem como finalidade apenas a própria ciência e ensinamento. Há outra ciência, cuja finalidade exige a prática, como a Medicina. É necessário que eu saiba o método e os princípios da Medicina, não para que saiba somente o que eu deva fazer, mas para que faça, isto é, fazer uma incisão em uma ferida, receitar um regime moderado e estrito, sentir o calor da febre ao tomar o pulso, secar os humores muito abundantes com cuidados periódicos, moderá-los e contê-los. Se alguém só souber essa ciência e não vier acompanhado da prática, inútil será a sua ciência. Há algo semelhante à ciência da Medicina e à [sua] prática, de um lado, e conhecimento e ministério da Palavra, de outro lado. Daí está escrito: “Como nos transmitiram aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra”, para que saibamos que a expressão “testemunhas oculares” indica o conhecimento teórico, mas a palavra “servidores” designa as obras.
6. “Pareceu-me por bem também, depois de ter-me informado cuidadosamente de tudo, desde o princípio”. Lucas incute e repete, visto que aquilo que há de escrever não conheceu a partir de boato, mas colheu pessoalmente desde o início. Desse modo, meritoriamente é louvado pelo Apóstolo, que diz: “[o irmão] cujo louvor, quanto ao Evangelho, está disperso por todas as igrejas”. Não se diz isso de nenhum outro, mas é-nos transmitido esse comentário de Lucas.

Todos somos Teófilos
“Pareceu-me por bem também, depois de ter-me informado cuidadosamente de tudo, desde o princípio, escrever para ti o relato detalhado de tudo, excelente Teófilo”. Alguém poderia pensar que era para algum personagem de nome Teófilo que ele teria escrito o Evangelho. Todos os que nos ouvis falar, se tais fordes que sejais amados por Deus, ao mesmo tempo vós sois “teófilos”, e para vós o Evangelho está escrito. Se alguém é um “Teófilo”, este é, ao mesmo tempo, “muito bom” e “muito forte”, como o exprime de forma mais significativa a língua grega, [com o termo] “krátistos”. Nenhum “Teófilo” é fraco, e como foi escrito sobre o povo de Israel, quando saía do Egito, que não houve em suas tribos alguém fraco; assim, audaciosamente falarei: que todo aquele que é “Teófilo” é forte, tendo a força e o vigor tanto de Deus quanto de sua palavra, de tal forma que possa conhecer a verdade de suas palavras, com as quais se instruiu, entendendo a palavra do Evangelho em Cristo, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no Texto?
Como ele serve para sua espiritualidade?

quarta-feira, 24 de abril de 2019

92 - Orígines de Alexandria (185-253) Biografia


Resultado de imagem para Origenes


92

Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra

Orígines de Alexandria (185-253)

Biografia





Orígenes é um dos mais distinto discípulo de Amônio de Alexandria. Foi um grande escritor cristão, de grande erudição, ligado à Escola Catequética de Alexandria, no período pré-niceno (antes do Concílio de Nicéia).
Inspirados em Orígenes e na Escola de Alexandria, muitos escritores cristãos desenvolveram suas obras: Sexto Júlio Africano, Dionísio de Alexandria, o Grande, Gregório Taumaturgo, Firmiliano, bispo de Cesareia (Capadócia), Teognosto, Pedro de Alexandria, Pânfilo e Hesíquio.
Nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. Seu pai, Leônides, foi morto em 202 durante as purificações do imperador Severo. Ele incentivou seu pai a não fugir do martírio. Orígenes em ato de piedade extrema e insana, castrou a si mesmo ao tomar literalmente o capítulo 19, versículo 12, do Evangelho de Mateus.
Assumiu, em 203, a direção da escola catequética de Alexandria - fundada por um estoico chamado Panteno, que se havia convertido à mensagem de Jesus - atraindo muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais.
Depois de ter também frequentado, desde 205, a escola de Amônio Sacas, fundador do neo-platonismo e mestre de Plotino, apercebeu-se da necessidade do conhecimento apurado dos grandes filósofos.
No decurso de uma viagem à Grécia, no ano de 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesareia.
Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo facto de se ter castrado e convocou o Concílio de Alexandria (231) com esta finalidade. Também, contribui para esse fato o de Orígenes ter levado ao extremo a apropriação da filosofia platónica, tendo sido considerado herético.
Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia muitas vezes estado: Cesareia de Filipe, no norte de Israel (atual Banias), onde prosseguiu suas atividades com grande sucesso, abrindo a chamada Escola de Cesareia.
Na sequência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.
Os seus ensinos foram condenados ainda pelo Concílio de Alexandria de 400 e pelo Segundo Concílio de Constantinopla, em 533, o que demonstra terem perdurado até ao século VI.

A produção teológica
Orígenes escreveu nada menos que 600 obras, entre as quais as mais conhecidas são: De Princippis; Contra Celso e a Héxapla. Entre os seus numerosos comentários bíblicos devem ser realçados: Comentário ao Evangelho de Mateus e Comentário ao Evangelho de João. O número das suas homílias que chegaram até aos dias de hoje ultrapassam largamente a centena.

A importância do Espírito Santo:
“O Espírito sopra onde quer (Jo 3. 8). Isto significa que o Espírito é um ser substancial e não, como alguns afirmam, uma simples força ou actividade de Deus sem existência individual. O Apóstolo (São Paulo), depois de enumerar os dons do Espírito, prossegue: "um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um de acordo com a sua vontade" (1 Cor 12, 11). Portanto, se atua e distribui de acordo com a sua vontade, é um ser substancial ativo, e não uma mera atividade ou manifestação”!.

Pensamentos condenados
Orígenes, além dos seus trabalhos teológicos, dedicou-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial Platão e os filósofos estoicos.
No seu pensamento, podemos referir a tese da pré-existência da alma e a doutrina da "Apocatástase", ou seja, da restauração universal (palingenesia), ambas posteriormente condenadas no Segundo Concílio de Constantinopla, realizado em 553, por serem formalmente contrárias ao núcleo irredutível do ensinamento bíblico. A condenação de algumas doutrinas de Orígenes se deu muito pelos exageros cometidos pelos seus discípulos, os origenistas.

Interpretação da Bíblia
Orígenes, embora não duvidando de que o texto sagrado seja invariavelmente verdadeiro, insiste na necessidade da sua correcta interpretação. Assim, teve a suficiente percepção para distinguir três níveis de leitura das escrituras:
1- Literal
2- Moral;
3- Espiritual, que é o mais importante e também o mais difícil.

Segundo Orígenes, cada um destes níveis indica um estado de consciência e amadurecimento espiritual e psicológico.

Santíssima Trindade
Orígenes como é comum nos escritores cristãos influenciados pelas doutrinas derivadas de Platão coloca as Ideias platônicas na Mente Divina, na Sabedoria de Deus. O Filho de Deus, Segunda pessoa da Trindade, é a Sabedoria bíblica: Mente de Deus, substancialmente subsistente:
“ […] Deus sempre foi Pai, e sempre teve o Filho unigênito, que, conforme tudo o que expusemos acima, é chamado também de sabedoria (…) nesta sabedoria que sempre estava com o Pai, estava sempre contida, preordenada sob a forma de idéias, a criação, de modo que não houve momento em que a ideia daquilo que teria sido criado não estivesse na sabedoria…(Orígenes. Os princípios, livro I, 4, 4-5.) ”

Primado de Pedro
Conforme fragmento conservado na "História Eclesiástica" de Eusébio, III, 1 Orígenes conta como foi o martírio do apóstolo Pedro em Roma: "Pedro, finalmente tendo ido para Roma, lá foi crucificado de cabeça para baixo".
E professa também o Primado de Pedro: "E Pedro, sobre quem a Igreja de Cristo foi edificada, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão”.

Batismo
Orígenes também atesta que a Igreja como sempre fez, deve batizar as crianças: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar batismo também aos recém nascidos". (Epist. ad Rom. Livro 5,9).

A Contra Celso e a exegese alegórica
Orígenes dedicou uma de suas obras contra Celso, considerado um dos primeiros críticos da doutrina do cristianismo. Do que sabemos de Celso foi o próprio Orígenes quem nos deu a conhecer, inclusive a sua obra a Alêthês Lógos (O logos verdadeiro) e o livro "Discurso contra os Cristãos", obra em que Celso coloca claramente a forma como o judaísmo e Cristianismo se tornaram cópias de outras religiões, tanto na questão dos mitos da arca de Noé como a circuncisão onde Celso afirma que os Judeus receberam essa tradição dos egípcios.
A partir de Orígenes, sabemos ainda apenas que ele é do século II, e que escreveu a sua obra por volta de 178, e, portanto, sob o reinado do imperador Marco Aurélio (que se deu de 161 a 180).
“ A Alêthês Lógos, de Celso, coloca em questão vários assuntos da crença relacionados à criação e à unidade de Deus, à encarnação e ressurreição de Jesus, aos profetas, aos milagres, etc. Ela questiona também assuntos da vida religiosa, não só sobre a moral, mas também sobre a participação da Igreja e dos cristãos na vida política e social.”
A obra exegética de Orígenes se concentra sobretudo no tratado que ele desenvolveu Sobre os princípios (Perì archôn). A exegese difundida e aplicada por ele está apoiada no que o judeu Fílon de Alexandria (20 a.C. a 42 d.C.) concebeu como interpretação alegórica dos textos sagrados do judaísmo.
“ Filon era de opinião de que o texto bíblico, de um modo geral, carecia de ser interpretado historicamente (no sentido da crítica das fontes, da origem do texto e de seu contexto). Dado que as palavras tinham um sentido escondido, mas admirável e profundo, era necessário adentrar-se nessa profundeza, a fim de trazer à tona, além do sentido magnífico, todo o seu valor… É nessa mesma perspectiva de Fílon (representante da Escola Bíblica Judaica), e no ambiente das escolas exegéticas de Alexandria… que se desenvolveu a exegese de Orígenes.”

O Maior Teólogo de Alexandria
Não por acaso, Orígenes foi considerado o maior teólogo da antiga escola de Alexandria. Seu pensamento, ou melhor, suas especulações extremamente audaciosas para a época, granjearam-lhe um número imenso de discípulos, mas, talvez em proporção muito maior, uma quantidade enorme de inimigos. Conseqüentemente, muitas posições suas foram condenadas em vários sínodos de diferentes épocas. Mesmo tendo admiradores do porte de Gregório do Ponto, Eusébio de Cesaréia, Dionísio, o Grande, Atanásio, dos Pais Capadócios (Basílio, o Grande, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa), além de Ambrósio de Milão e Hilário de Poitiers, nenhum deles se animou a defender as suas idéias mais avançadas para a época, sendo que a série de condenações culminou com o concílio convocado por Justiniano em Constantinopla, no ano de 553. Ato contínuo, a polícia imperial confiscou e destruiu boa parte dos escritos de Orígenes, razão pela qual muito do seu pensamento original (com o perdão da redundância) se perdeu.
Entretanto, algo importante sobre Orígenes foi (convenientemente ou não) sublimado e esquecido com todas as controvérsias teológicas que se lhe seguiram, ou seja, o fato de que Orígenes, dada a sua genialidade, trabalhava com hipóteses, exercendo aquilo que melhor sabia fazer: especular. Muitas de suas idéias eram apenas idéias, especulações, indagações que seu espírito investigativo requeria de seu alto nível intelectual. Suas idéias eram expostas de boa fé, mas talvez fossem avançadas demais para a sua época, e tenha lhe faltado o senso de oportunidade e a prudência para perceber que essas mesmas idéias poderiam ser-lhe atribuídas como dogmas, por pessoas que se valeriam de seu nome para justificar posições com as quais Orígenes sequer havia pensado. O próprio Orígenes fazia questão de distinguir entre as suas proposições de fé, aquelas que eram aceitas e defendidas pela ortodoxia da Igreja, e aquelas que eram meramente hipotéticas, como sugestões para que seus discípulos e leitores nelas trabalhassem, a fim de se chegar a um consenso.


A Doutrina Ortodoxa Cristã
Orígenes ajudou a formular boa parte da doutrina ortodoxa cristã. Como lembra Justo L. González (“Uma História do Pensamento Cristão”, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, págs. 210/1), Orígenes sempre fez questão de frisar que Deus não pode ser compreendido por qualquer inteligência humana, porque “Deus é invisível, não apenas no sentido físico, mas também no sentido intelectual, pois não há mente que seja capaz de contemplar a essência divina. Não importa quão perfeito seja nosso conhecimento sobre Deus, devemos constantemente nos lembrarmos que Deus é muito mais elevado do que qualquer coisa que nossa inteligência possa conceber (De principiis, 1.1.5). Deus é a natureza absoluta e intelectual, além de toda definição de essência (Contra Celso 7.38). A linguagem antropomórfica que a Escritura aplica a Deus deve ser entendida alegoricamente, como uma tentativa de nos mostrar alguma faceta da maneira pela qual Deus se relaciona com a criação e com a humanidade. Por outro lado, se há uma coisa que podemos dizer sobre Deus em um sentido quase literal, é que Deus é Um (De principiis 1.1.6). Unidade absoluta, aquela unidade que é diametralmente oposta à multiplicidade do mundo transitório – e que era um dos temas característicos do platonismo contemporâneo – é o principal atributo do ser de Deus. Contudo, este Um inefável também é o Deus triúno da regra de fé da Igreja. Orígenes não apenas conhecia e frequentemente usava o termo “trindade”, como também contribuiu para o desenvolvimento da doutrina trinitariana, uma vez que sua teologia é uma das principais fontes dos debates trinitarianos que sacudiriam a igreja quase um século mais tarde”.

Orígenes e Origenismo
Para finalizar, uma distinção é essencial: uma coisa é Orígenes; outra muito diferente é o movimento que se tornou conhecido como “origenismo”. O Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs (Ed. Paulus – Ed. Vozes, 2002, pág. 1051) distingue 6 fases do movimento:

1) o próprio Orígenes, ou seja, o conjunto de suas especulações que, com as incompreensões de seus sucessores, constituiu-se na base do origenismo posterior;
2) o segundo momento é dado pelo origenismo tal como o entendem seus detratores entre o séc. III e o IV, Metódio, Pedro de Alexandria e Eustácio de Antioquia: a estes responde a “Apologia de Orígenes”, escrita por Pânfilo. Além da preexistência da alma e da apocatástase (a redenção e salvação final e universal de todos os seres), são contestadas, por uma série de mal-entendidos, a doutrina do corpo ressuscitado e a criação eterna;
3) o dos monges egípcios e palestinos da segunda metade do séc. IV, exposto principalmente por Evágrio Pôntico nos “Kephalaia Gnostica”. Evágrio fez uma “escolástica” do pensamento de Orígenes, suprimindo as tensões internas e omitindo grande parte da doutrina para construir com o restante um sistema: era o modo mais seguro para torná-lo herético, pois a heresia é a supressão e o corte das antíteses que caracterizam a doutrina cristã;
4) o mais importante é o origenismo como o supõem os antiorigenistas dos séculos IV-V, Epifânio, Jerônimo e Teófilo de Alexandria (ao passo que Orígenes é defendido por João de Jerusalém e por Rufino de Aquiléia). Suas proposições devem passar pelo crivo da crítica, pois lhes falta sobretudo senso histórico, o que é bem normal para sua época: não tinham noção alguma do desenvolvimento do dogma, a cuja consciência se chegou bem recentemente, e não julgavam Orígenes a partir de seu tempo. Além do mais, não primavam nem pela compreensão filosófica nem pela teológica. Na realidade, não apreenderam a mudança de mentalidade que separava a Igreja em minoria, perseguida, do tempo de Orígenes, e a Igreja triunfante de sua época, principalmente no que diz respeito à importância de uma cristianização da filosofia para a pastoral do mundo e da necessidade de uma teologia “em exercício”, isto é, em procura.
5) o evagrianismo dos monges palestinos da primeira metade do séc. VI, que viviam nos conventos da obediência de São Sabas, a Grande Laura e a Nova Laura. A principal manifestação de sua doutrina é o “Livro de Santo Hieróteo”, obra do monge sírio Estevão bar Sudayle, que agrava a “escolástica” origenista até chegar a um panteísmo radical.
6) o do tempo da condenação do imperador Justiniano. Os documentos a respeito do Concílio de Constantinopla II não fazem referência expressa a Orígenes, cujo nome foi muito provavelmente acrescentado depois ao cânon 11 (acompanhando os anátemas a Ário, Nestório e Apolinário, entre outros), já que nem o esboço do Imperador, nem a carta em que o papa Virgílio aprova o concílio, tocam no nome de Orígenes. Formalmente, Orígenes não foi considerado um herético, mas boa parte de seus escritos se perdeu depois da condenação dos origenistas. Só no século XX é que a espiritualidade de Orígenes é redescoberta por W. Völker (1931) e a compreensão de sua exegese é obra de H. de Lubac (1950), fazendo com que sua personalidade reencontrasse, 1700 anos depois, suas dimensões essenciais. Atualmente, Orígenes é, dentre os escritores eclesiásticos da antiguidade, o mais lido depois de Agostinho.

A Espiritualidade de Orígenes
Orígenes levava uma vida austera, rigorosa, a ponto de ser quase certo que, interpretando ao pé da letra Mateus 19:12, castrar-se a si mesmo e fazer-se eunuco para Deus, atitude extrema que o impediu de ser ordenado sacerdote por Demétrio. O historiador Paul Johnson (“História do Cristianismo”, Ed. Imago, 2001, pág. 75), qualificando-o de “fanático religioso”, relata que Orígenes “abriu mão de seu emprego e vendeu seus livros para concentrar-se na religião. Dormia no chão, não comia carne, não bebia vinho, tinha apenas um casaco e não possuía sapatos”. Já próximo dos 30 anos de idade, deixa a direção da escola com Héraclas e, seguido de alguns discípulos que ele próprio escolheu, aprofunda-se nos estudos bíblicos e filosóficos, passando a escrever sua vasta obra, incentivado por Ambrósio, um homem rico de Alexandria que, pela pregação de Orígenes, havia abandonado a heresia valentiniana convertendo-se à ortodoxia da Igreja. Ambrósio tinha uma profunda sede intelectual e, vendo em Orígenes as qualidades do pensamento que tanto prezava, passa a financiá-lo para que suas idéias sejam conhecidas de todos. Nesse período, Orígenes também viaja muito, visitando Roma, Cesaréia, Jordânia, chegando a ser levado com escolta militar a Antioquia, onde a mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Maméia, desejava conhecer melhor o cristianismo.
Orígenes adquire, então, o status de uma espécie de “celebridade mundial” da época, segundo relata Hans von Campenhausen (“Os Pais da Igreja”, Ed. CPAD, 2005, pág. 51): “o governador da Arábia solicitou ao seu colega egípcio e também escreveu ao bispo Demétrio uma carta amável pedindo que fosse permitido que Orígenes desse algumas palestras em sua presença”. Por volta do ano 231, é convidado pelos bispos gregos a ir a Atenas discutir com os grupos de heréticos. De passagem, visita Cesaréia da Palestina, onde os bispos Teoctisto e Alexandre o ordenam sacerdote. De volta a Alexandria, Demétrio se irrita profundamente com esse fato e, reunindo um pequeno concílio, o exila do Egito e, pouco depois, o suspende da ordem sacerdotal. Orígenes vai, então, a Cesaréia, onde é bem recebido pelos amigos palestinos, que, a exemplo de outras igrejas do Oriente, não dão importância alguma à sentença de Demétrio.
Moderno a seu tempo, Orígenes dirige um tipo de escola para “simpatizantes” do cristianismo, ou seja, jovens pagãos que queriam entender melhor o que a nova religião pregava, e que Orígenes apresentava-lhes a visão cristã dos grandes problemas filosóficos. Entre suas muitas viagens, uma feita à Jordânia reconduz o bispo Berilo de Bostra à ortodoxia, e aproveita para discutir com um grupo de cristãos que afirmavam que a alma morre com o corpo e ressuscita com ele. Entretanto, nova perseguição irrompe sob o comando do imperador Décio, em 250, e Orígenes é preso e torturado, não com o fim de matá-lo, mas para que renegasse a sua fé, visto que uma eventual apostasia sua produziria efeitos notáveis nos demais fiéis, já que, dos seus contemporâneos, era a figura mais relevante do cristianismo. Pouco tempo depois, Décio morre e Orígenes é liberto, morrendo pouco depois, aos 69 anos de idade, provavelmente em 253. No século XIII, o seu túmulo era ainda visível em Tiro, na igreja chamada do Santo Sepulcro.

O que você destaca no texto?
Como ele serve para sua espiritualidade?