terça-feira, 10 de março de 2026

305 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 13 a 29

 



305

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras)

Interrogações 13 a 29

 

 

 

INTERROGAÇÃO 13

Quem pecou depois do batismo deve desesperar de sua salvação, por se achar envolvido numa multidão de pecados, ou até que quantidade de pecados deve confiar na benignidade de Deus, por meio da penitência?

 

Resposta

            Se for possível enumerar a multidão das comiserações de Deus e medir a grandeza das suas misericórdias, em confronto com a quantidade e a grandeza dos pecados, então, perca-se a esperança. Se as últimas, porém, como se sabe, estão sujeitas a medida e número, e se é impossível medir a misericórdia de Deus e calcular as suas comiserações, não é tempo de desesperar, e sim, de reconhecer a misericórdia e de detestar os pecados, cuja remissão é proposta por meio do sangue de Cristo, como está escrito.

            Aprendemos que não se deve desesperar, de muitos lugares e de muitas maneiras, principalmente da parábola de Nosso Senhor Jesus Cristo acerca do filho que, tendo recebido as riquezas paternas, desperdiçou-as em pecados (Lc 15,13s). Instruem-nos as próprias palavras do Senhor sobre que grande festa mereceu a penitência.

            Também por Isaías diz Deus: Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! se forem vermelhos como a purpura, ficarão brancos como a lã! (Is 1,18). Devemos saber que isto só será verdade, se for adequado o modo de penitência, procedente de uma disposição de horror ao pecado, conforme está escrito no Antigo e no Novo Testamento; e se der dignos frutos, como foi dito na interrogação que trata deste assunto.

 

INTERROGAÇÃO 14

Com que espécie de frutos se há de comprovar a verdadeira penitência?

 

Resposta

            A atitude dos próprios penitentes, a disposição dos que abandonam o pecado e o zelo pelos dignos frutos de penitência foram descritos no devido lugar.

 

INTERROGAÇÃO 15

Que significa a palavra: Quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? (Mt 18,21). E quais os pecados que devo perdoar?

 

Resposta

            O poder de perdoar não foi dado de modo absoluto, mas depende da obediência do pecador arrependido e de sua concórdia com aquele que está cuidando de sua alma. Pois está escrito a respeito desses: Se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus (ibid. 19).

Quanto à espécie de pecados, nem se deve perguntar. O Novo Testamento não faz diferença alguma, mas promete a remissão de todos os pecados aos que se penitenciam devidamente; e, principalmente, porque o Senhor em pessoa o prometeu a respeito de todos.

 

INTERROGAÇÃO 16

Por que é que às vezes a alma sem esforço sente compunção por um pesar espontâneo que dela de repente se apossa; e por vezes de tal modo não sente contrição que, mesmo fazendo-se violência, não pode se compungir?

 

Resposta

            Tal compunção é dom de Deus, ou para excitar o desejo, de modo que a alma, tendo provado a doçura de tal pesar, empenhasse em cultivá-lo, ou para demonstrar que o espírito pode, por meio de uma aplicação mais diligente, ter sempre a compunção, de maneira que não há desculpas para os que a perdem por negligência; mas, o fato de esforçar-se e não poder, acusa nosso desleixo no passado (pois não é possível alguém de repente enfrentar uma tarefa e conseguir fazê-la, sem aplicação e muitos e assíduos exercícios), e simultaneamente mostra que a alma está dominada por outros vícios, que não a deixam livre de fazer o que quer, segundo a sentença proferida pelo Apóstolo: Mas eu sou carnal, vendido ao pecado. Não faço o que quero, mas faço o que aborreço (Rm 7,14-15). E ainda: Mas então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita (ibid. 17). Deus permite que isto aconteça para nosso bem, a fim de que, talvez, possa a alma, pelo que sofre a contragosto, sentir qual o poder que a subjuga e conhecer em que ponto involuntariamente serve ao pecado, e assim rejeitar as ciladas do diabo e encontrar a misericórdia de Deus, pronta a receber os que se arrependem sinceramente.

 

INTERROGAÇÃO 17

Se alguém pensar em comer, depois censurar-se a si mesmo, deve ser acusado de ter sido inquieto?

 

Resposta

            Se vem a lembrança da fome antes da hora, sem que a natureza o moleste, é claro que foi um desvio da mente, onde se trai a propensão para as coisas presentes e a negligência pelas coisas que agradam a Deus. Mesmo assim lhe está reservada a misericórdia de Deus. Porque, ao acusar-se alguém, é absolvido do crime pela penitência e se para o futuro se precaver da queda, lembrado do Senhor que disse: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior (Jo 5􀈾4). Se, porém, por necessidade natural, a fome aumentar, a sensação de fato mover a memória, mas a razão vencê-la por meio de zelo, ou ocupação com coisas melhores, esta lembrança não é condenável e sim, a vitória, louvável.

 

INTERROGAÇÃO 18

Se deve um membro ãa comunidade que pecou, depois de muitos exercidos, receber um ofício. E se deve, qual?

 

Resposta

            Lembrados do Apóstolo que disse: Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus. Fazei como eu: em todas as circunstâncias procuro agradar a todos, não buscando o meu interesse próprio, mas o de muitos, para que sejam salvos (ICor 10,32.33), devemos empregar grande cuidado em não sermos obstáculo ao Evangelho de Cristo e um impedimento para os fracos, nem instruirmos a alguns no mal. Nestas questões, considere-se e julgue-se o que contribui para a edificação da fé e o progresso das virtudes em Cristo.

 

INTERROGAÇÃO 19

Se incorrer em suspeita de pecado alguém que não o comete às claras, deve ser vigiado a fim de que se depreenda o que se suspeitou?

 

Resposta

            As suspeitas más e as provenientes de um preconceito malévolo são condenadas pelo Apóstolo. O encarregado de cuidar de todos deve observar a todos na caridade de Cristo, desejando a cura do suspeito, a fim de que se realize a palavra do Apóstolo: Para tornar todo o homem perfeito em Cristo (Cl 1,28).

 

INTERROGAÇÃO 2Ò

Se deve o que viveu no pecado fugir da companhia dos heterodoxos ou também evitar a dos que vivem mal.

 

Resposta

            Tendo dito o Apóstolo: que vos aparteis de qualquer irmão que viva na preguiça, sem observar as instruções que de nós tendes recebido (2Ts 3,6), de modo geral é muito perigoso e prejudicial para todos qualquer participação em pontos proibidos, seja por pensamento, palavra ou obra. Os que viveram no pecado devem ter ainda mais cautela. Primeiro, porque a alma acostumada ao pecado é na maior parte das vezes mais inclinada a ele; em seguida, porque, como o tratamento dos corpos enfermos exige a maior atenção, a ponto de, muitas vezes, se lhes proibir o que é útil aos sãos, assim também os doentes de espírito necessitam de muito maior vigilância e cuidado. O próprio Apóstolo declara como é grande o prejuízo da sociedade com os pecadores, com o seguinte argumento: Um pouco de fermento leveda a massa toda (ICor 5,6). Se é tamanho o dano causado pelos que erram moralmente, que dizer dos que opinam falsamente de Deus?

            Seu parecer malvado não lhes permite terem juízo reto no restante, porque ele os entrega, de uma vez, às paixões ignominiosas; isto se evidencia em muitas passagens e principalmente no trecho da epístola aos Romanos: Como se recusaram a procurar uma noção exata de Deus, Deus entregou-os a um sentimento depravado, e daí seu procedimento indigno. Então, cheios de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade, são difamadores, maldizentes, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, desobedientes aos pais. São insensatos, imodestos, sem afeição, sem palavra e sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, eles não somente as fazem, mas também aplaudem os que as cometem (Rm 1,28-32).

 

 

INTERROGAÇÃO 21

Donde vêm as divagações e as cogitações e como corrigi-las?

 

Resposta

            A divagação se origina na ociosidade da mente, que não se ocupa do necessário. A mente torna-se ociosa e descuidada, porque não crê estar presente Deus, que perscruta os corações e os rins. Se acreditasse nisto, realizaria plenamente a palavra: Ponho sempre o Senhor diante dos olhos; pois que ele está à minha direita, não vacilarei (SI 15,8). Quem faz isto e outras coisas semelhantes, jamais ousará, nem terá tempo para cogitar algo que não se destine à edificação da fé, mesmo que pareça bom, e muito menos o que é proibido e não agrada a Deus.

 

INTERROGAÇÃO 22 Donde provêm os sonhos indecorosos?

 

Resposta

            Vêm dos impulsos desordenados da alma durante o dia. Se, porém, a alma ocupada com os juízos de Deus se purifica e medita continuamente coisas boas e agradáveis a Deus, também sonhará com isto.

 

INTERROGAÇÃO 23

Que espécie de palavras torna ociosa uma conversa?

 

Resposta

            Em suma, qualquer palavra que não vise um fim útil, no Senhor, é ociosa. É tão grande o perigo de tal palavra que, embora seja bom o que for dito, se não servir para a edificação da fé, a bondade da palavra não afasta do perigo a quem falou, mas porque este não a empregou para edificar, contrista o Espírito Santo de Deus. O Apóstolo ensinou-o claramente: Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só boas palavras que eventualmente sirvam para a edificação da fé, e sejam benfazejas aos que as ouvem (Ef 4,29), e acrescentou: Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados (ibid. 30). Será preciso dizer que é grande mal entristecer o Espírito Santo de Deus?

 

INTERROGAÇÃO 24

O que é a injúria?

 

Resposta

            Toda palavra dita com o propósito de insultar é injúria, mesmo se a palavra não parecer ofensiva. Evidencia-se pelo Evangelho, que diz dos judeus: Então eles o cobriram de injúrias e lhe disseram: Tu que és discípulo dele! (Jo 9,28).

 

 

 

INTERROGAÇÃO 25

O que é a detração?

 

Resposta

            Há duas ocasiões, a meu ver, em que é lícito falar mal de outrem: quando alguém precisa aconselhar-se com pessoas idôneas, sobre como corrigir o pecador; e ainda quando for necessário prevenir a alguns que, por ignorância, poderiam associar-se a um mau, julgando-o bom, pois o Apóstolo proíbe (2Ts 3,14) unir-se a eles, a fim de que ninguém arme laços para a própria alma. Vemos que o Apóstolo agiu assim, através do que escreveu a Timóteo: Alexandre, o ferreiro, tem-me feito muito mal. Evita-o também tu, porque faz grande oposição às nossas palavras (2Tm 4,14.15). Exceto esses casos necessários, quem fala qualquer coisa contra alguém, para incriminá-lo ou denegri-lo, é maldizente, mesmo se falar a verdade.

 

INTERROGAÇÃO 26

Que merece quem fala mal de seu irmão ou escuta a um detrator e o tolera?

 

Resposta

            Ambos sejam excluídos da companhia dos demais. Exterminarei o que em segredo caluniar seu próximo (SI 100,5). E em outra passagem foi dito: Não ouças com agrado um falador (Pr 20,13), para não seres derrubado.

 

INTERROGAÇÃO 27

Como receberemos alguém que fale mal do superior?

 

Resposta

            Manifesta-se o seu julgamento pela ira de Deus contra Marian, quando falou mal de Moisés. Deus não deixou sem castigo este pecado, nem mesmo a pedido de Moisés.

 

INTERROGAÇÃO 28

Deve-se acreditar, quando alguém com palavras ousadas e tom insolente responder a outrem e, advertido, disser que nada de mal tem no coração?

 

Resposta

            Nem todos os vícios da alma são conhecidos de todos, mesmo daquele que deles sofre, como acontece com os males corporais. Os peritos descobrem no corpo certos sinais de doenças ocultas que escapam à percepção do próprio doente; assim também, mesmo se o pecador não sentir a doença da alma, deve crer no Senhor ao lhe dizer e a seus sequazes que o mau retira males do mau tesouro de seu coração. Pois o mau, algumas vezes, simula o bem em palavras e obras; o bom, porém, não pode simular mal algum. Aplicai-vos a fazer o bem, não diante de Deus, mas também diante de todos os homens (Rm 12,17).

 

INTERROGAÇÃO 29

Como pode alguém evitar a ira?

 

Resposta

            Se julgar estar sempre sendo visto por Deus que o observa, pelo Senhor presente. Qual o súdito que, diante dos olhos de seu príncipe, ousará fazer qualquer coisa que lhe desagrade? E mesmo se não esperar obediência da parte dos outros, esteja pronto a obedecer, considerando os demais como acima de si. Se procura ser obedecido por sua própria causa, saiba que a palavra do Senhor ensina a cada um a servir aos outros; se, porém, castiga a transgressão a um mandamento do Senhor, não há necessidade de ira e sim de misericórdia e de compaixão, segundo a palavra: Quem é fraco, que eu também não seja fraco? (2Cor 11,29).

 

O que você destaca no texto?

Como ele serve para sua vida espiritual?

O que você destaca na fala do seu/sua irmãos/ã?

quarta-feira, 4 de março de 2026

304 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Introdução e Interrogações 1 a 12

 


Frederick, Fredson, Marco, Genisson, Marleide, Demétrius, Marisa e Edson


304

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Introdução e Interrogações 1 a 12

 

INTRODUÇÃO

1.       Deus, dos homens amigo, que ensina a ciência ao homem (SI 93,10), de um lado ordena por intermédio do Apóstolo (lTm 1,3) aos que receberam o carisma de ensinar perseverarem no magistério, e de outro, exorta, por meio de Moisés, aos necessitados da edificação dos ensinamentos divinos, dizendo: Interroga teu pai, e ele te contará, teus avós, e eles te dirão (Dt 32,7).

2.      Por isto, nós, a quem foi confiado o ministério da palavra, devemos em qualquer tempo estar desejosos de orientar as almas; e não só testemunhar publicamente diante de toda a Igreja, mas também em particular permitir a cada um dos que nos procuram interrogarem à vontade o que interessa à integridade da fé e à autenticidade deste gênero de vida, segundo o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. As duas coisas constantemente completam o homem de Deus.

3.      Vós, porém, nada deixeis sem fruto, nada ocioso; mas, além do que aprendeis em comum, fazei perguntas em particular sobre assuntos proveitosos e empregai utilmente todos os lazeres da vida.

4.      Se Deus nos reuniu para este fim e gozamos de muita tranquilidade, sem ruídos do exterior, não nos afastemos para fazer outro trabalho, nem entreguemos novamente o corpo ao sono, mas passemos o restante da noite na meditação e exame de nossas necessidades, cumprindo a palavra do bem-aventurado Davi: Na lei do Senhor medita dia e noite (SI 1,2).

 

INTERROGAÇÃO 1

É lícito ou útil a alguém fazer ou dizer o que pensa ser bom, sem ter o testemunho das Escrituras divinas?

 

Resposta:

5.      Se Nosso Senhor Jesus Cristo afirma do Espírito Santo: Não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir (Jo 16,13) e de si mesmo: O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma (Jo 5,19) e ainda: Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que ɬɟ enviou, ele mesmo ɬɟ prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que digo, digo-o segundo ɬɟ falou o Pai (Jo 12,49.50), quem chegará a tamanha loucura que ouse por si mesmo até cogitar alguma coisa, quando necessita ter por guia o santo e bom Espírito para dirigi-lo no caminho da verdade, em relação a pensamentos, palavras e obras, e se é cego e anda nas trevas, sem o sol de justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo, que ilumina por raios de luz, os seus mandamentos?

6.      O mandamento do Senhor é luminoso, diz-se, esclarece os olhos (SI 18,9). Quanto às questões ou palavras habituais, umas são determinadas pelo mandamento de Deus na Sagrada Escritura, outras são passadas em silêncio. Das escritas, ninguém absolutamente pode fazer o que foi proibido ou omitir o que foi prescrito, uma vez que o Senhor ordenou: Não ajuntareis nada a tudo o que vos prescrevo, nem tirareis nada daí, mas guardareis os mandamentos como hoje vos prescrevo (Dt 4,2). Terrível ameaça do juízo aguarda os que têm tal ousadia e o ardor do fogo há de devorá-los (Hb 10,27).

7.      Quanto aos que passa em silêncio, o apóstolo Paulo estabeleceu uma regra, dizendo: Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica. Ninguém busque o seu interesse, mas o de outrem (ICor 10,22s).

8.      Por isso, é indispensável submeter- se a Deus, segundo seu mandamento, ou aos outros por causa de seu mandamento, porque está escrito: Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5,21); e o Senhor disse: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos (Mc 9,34), contrariando as próprias vontades, à imitação do Senhor que disse: Desci do céu, não para jazer minha vontade, mas a vontade daquele que ɬɟ enviou (o Pai) (Jo 6,38).

 

INTERROGAÇÃO 2

Que espécie de profissão devem exigir uns dos outros, os que querem viver em comum segundo Deus?

 

Resposta:

9.      A proposta pelo Senhor a todos os que dele se aproximavam, ao dizer: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Na pergunta que trata do assunto referiu-se sobre o sentido de cada uma destas afirmações.

 

INTERROGAÇÃO 3

Como converter um pecador? Ou se não se converter, como agir?

 

Resposta:

10.  Como ordena o Senhor que disse: Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duns ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).

11.  Se isto acontecer, basta a esse homem o castigo que a maioria lhe infligiu (2Cor 2,6), conforme o Apóstolo escreveu: Repreende, ameaça, exorta, mas sempre com paciência e não cesses de instruir (lTm 4,2). E ainda: Se alguém não obedecer ao que ordenamos por esta carta notai-o, e para confundi-lo, não tenhais comunicação com ele, a fim de que fique confundido (2Ts 3,14).

 

INTERROGAÇÃO 4

Se alguém, mesmo por causa de pecados leves, insiste com seus irmãos, dizendo: “Deveis fazer penitência”, acaso é sem misericórdia e destrói a caridade?

 

Resposta:

12.  Como o Senhor assegurou que tudo se cumprirá antes que desapareça um iota, um traço da lei (Mt 5,18) e afirmou: No dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido (Mt 12,36), nada se menospreze, como se fosse pequeno. Quem menospreza a palavra será por ela menosprezado (Pr 13,13).

13.  Aliás, quem ousará dizer que um pecado é pequeno, se o Apóstolo asseverou: Desonras a Deus pela transgressão da lei (Rm 2,23)?

14.  Se o estímulo da morte é o pecado, não este ou aquele, mas qualquer pecado sem distinção, é sem misericórdia quem se cala, não quem censura, assim como o é quem deixa o veneno em alguém que foi mordido por um animal peçonhento, não quem o extrai. Aquele destrói a caridade. Pois está escrito: Quem poupa a vara, odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa (Pr 13,24).

 

INTERROGAÇÃO 5

Como fazer penitência de cada pecado e mostrar dignos frutos de penitência?

 

Resposta:

 

15.  Tendo a disposição daquele que disse: Odeio o mal e o detesto (SI 118,163) e praticando o que foi referido no Salmo 6 e em muitos outros, hem como seguindo o testemunho do Apóstolo acerca dos que se contristaram, conforme quer Deus, por causa do pecado alheio.

16.  Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que digo eu? Que escusas, que indignação, que temor, que ardor, que zelo, que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor 7,11).

17.  E ainda como Zaqueu, tendo um procedimento multiplicadamente oposto ao anterior.

 

INTERROGAÇÃO 6

Que pensar de quem confessa seu arrependimento por palavras, mas não se corrige do pecado?

 

Resposta:

18.  Julgo ter sido por causa dele que foi escrito: Quando o inimigo te falar com amabilidade, não te fies nele, porque há sete abominações em seu coração (Pr 26,25). E em outra passagem: Um cão que volta a seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (ibid. 11).

 

INTERROGAÇÃO 7

Qual a sentença dos defensores daqueles que pecaram?

 

Resposta:

19.  Julgo ser mais grave do que a pronunciada contra aquele, do qual se disse: Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos (Lc 17,2).

20.  Pois o pecador não é admoestado para sua emenda, mas encontra defesa para confirmá-lo no pecado, sendo outros incitados a vícios semelhantes. Por isso, se não mostrar dignos frutos de penitência, a tal defensor aplica- se a palavra do Senhor: Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só de teus membros, a que o teu corpo inteiro seja lançado na geena (Mt 5,29).

 

INTERROGAÇÃO 8

Como receber quem está verdadeiramente arrependido?

 

Resposta:

21.  Como ensinou o Senhor: Reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido (Lc 15,6).

 

INTERROGAÇÃO 9

Que atitude tomaremos para com o pecador não contrito?

 

Resposta:

22.  A que ordena o Senhor ao dizer: Se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,17) e a que ensinou o Apóstolo, quando escreveu: Que vos aparteis de qualquer irmão que vive na preguiça, sem observar as instruções que de nós tendes recebido (2Ts 3,6).

 

INTERROGAÇÃO 10

Com que temor e com quantas lágrimas deve a mísera alma que muito pecou abandonar os pecados e possuída de que esperança e sentimentos, há de se aproximar de Deus?

 

Resposta:

23.  Em primeiro lugar, deve odiar a reprovável vida anterior e execrar e detestar até mesmo a sua lembrança, pois está escrito: Odeio o mal, e o detesto, mas amo a vossa lei (SI 118,163).

24.  Em seguida, ter como mestra do temor a ameaça do juízo e do suplício eterno; também reconheça ser o tempo de penitência um tempo de lágrimas, como Davi o ensinou no Salmo 6.

25.  Creia firmemente na remissão dos pecados pelo sangue de Cristo, devido à grandeza da misericórdia e à multidão das comiserações de Deus, que disse: Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Is 1,18).

26.  Então, tendo recebido faculdade e força para agradar a Deus, diz: Pela tarde, vem o pranto, mas de manhã, volta a alegria (SI 30.5)! Vós convertestes o meu pranto em prazer; tirastes minhas vestes de penitência e me cingistes de alegria. E assim minha glória vos louvará (ibid. 12.13). Aproximando-se assim, salmodia diante de Deus: Eu vos exaltarei, Senhor, porque me livrastes. Não permitistes que exultassem sobre mim meus inimigos (ibid. 2).

 

INTERROGAÇÃO 11

Como odiará alguém os pecados?

 

Resposta:

27.  Sempre um acontecimento triste e penoso provoca ódio contra os que o ocasionaram. Se, pois, alguém está convencido de quantos e quão grandes males causam os pecados, espontânea e animosamente os odeia, como o demonstrou aquele que disse: Odeio o mal, e o detesto (SI 118,163).

 

INTERROGAÇÃO 12

Como pode a alma persuadir-se de que Deus lhe perdoou os pecados?

 

Resposta:

28.  Se vir que está com os sentimentos daquele que disse: Odeio o mal, e o detesto (SI 118,163). Pois Deus, tendo enviado seu Filho Unigênito para a remissão dos nossos pecados, na medida em que dependia dele, de antemão perdoou a todos. Mas o santo Davi canta (SI 101,1) a misericórdia e a justiça; e atesta ser Deus misericordioso e justo; portanto, é necessário realizarmos as palavras dos profetas e dos apóstolos nos lugares em que falam de arrependimento, a fim de que os juízos da justiça de Deus se manifestem e se exerça a sua misericórdia na remissão dos pecados.

 

a)      O que você destaca no texto?

b)      Como ele serve para a sua espiritualidade?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

303 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras).

 

Vídeo do Encontro - 14 participantes.

google Meet 

oração das Vésperas 

liturgia de domingo.  Primeiras vésperas. 

estudo




 
303

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras)

Introdução

 

Resumo da Vida de Basílio

1.      São Basílio Magno foi um bispo, teólogo e monge que viveu na Capadócia (atual Turquia) no século IV. Foi um dos mais influentes defensores do Credo de Niceia. Principalmente no tratado do Espírito Santo.

2.      Basílio empenhou todas as suas forças intelectuais e físicas na interpretação da doutrina cristã, na reforma da liturgia, na edificação da vida monástica, na defesa da ortodoxia, sem se descuidar, ao mesmo tempo, dos necessitados.

3.      Pertenceu a uma família rica, numerosa (10 irmãos) e de santos. Seu avô morreu mártir na perseguição romana. Sua avó Macrina lhe transmitiu os ensinos de Gregório (o Taumaturgo – 213-270). Seu irmão Pedro foi bispo de Sebaste. Sua irmã Macrina e seu irmão Gregório de Nissa também foram canonizados. Por motivação de Macrina, visitou os ascetas do Egito, da Palestina, da Síria e Mesopotâmia (cf. Carta 1 e 223). De volta para sua terra, em 358, foi batizado pelo velho bispo de Cesareia, Diânios. Foi um homem de saúde frágil.

4.      Formação: Estudou em Bizâncio, Antioquia e Atenas. Em Antioquia conhece  Eustácio de Sebástia. Importante no Monaquismo da Ásia Menor. Sua irmã Macrina interpretava as cartas Eustácio. Conheceu Gregório de Nazianzo em Atenas.

5.      Viveu uma experiência monástica no deserto. Com a morte do pai, vende tudo e vai viver no deserto.  Retirou-se, na companhia de sua mãe e da irmã Macrina, para Anesi, no Ponto, numa propriedade da família, às margens do rio Íris, vivendo como eremita.

6.      Gregório de Nazianzo vai juntar-se a eles. Funda uma pequena comunidade monacal. Juntos estudam as obras de Orígenes.

7.      Redigiu as Grandes e Pequenas Regras, que são a base do monaquismo oriental. Teve que abandonar o monastério para ser sacerdote e depois Bispo. Escreveu 366 cartas, comentários sobre a Sagrada Escritura, obras dogmáticas, morais, ascéticas e polêmicas.

8.      Fundou hospitais, asilos e orfanatos. Trabalhou em favor dos pobres. Defendeu o Credo de Niceia. Lutou contra as heresias que surgiram nos primeiros anos do cristianismo. Foi um adversário do arianismo e dos seguidores de Apolinário de Laodiceia

9.      Faleceu esgotado pelas austeridades e pelas tribulações, prematuramente, à idade de cinquenta anos, em 1º de janeiro de 379.

 

Introdução a Regra Monástica

 

Os princípios do monaquismo brasiliano

10.  São Basílio Magno está na origem do movimento monástico, não no sentido absoluto, pois o monaquismo já existia antes dele até na forma comunitária-cenobítica, mas está na origem de uma determinada forma desse estilo de vida, que se estendeu por todo o Oriente, com importantes influências também no monaquismo ocidental.

11.  Os princípios do monaquismo basiliano estão contidos fundamentalmente no “Pequeno Asketikon” (ou “Regras Breves”) e no “Grande Asketikon” (ou “Regras Extensas”), com referências também em outras obras, como “Ética” (“Regras Morais”), “Sobre o Batismo” e outras mais.

12.  Os “Asketikons” foram escritos por Basílio já bispo e que têm o caráter mais de ensinamentos espirituais que de normas para quem deseje seguir Cristo de forma radical.

13.  Esses ensinamentos são totalmente deduzidos da Sagrada Escritura, são a própria Palavra de Deus aplicada à vida.

14.  Por conseguinte, as “Regras” de São Basílio não são “regras” no sentido atual; não são “Constituições” ou “Estatutos” que configurem uma instituição.

15.  São Basílio não fundou nenhuma “Ordem” ou “Congregação” no sentido institucional ou canônico, como entendemos hoje.

16.  No entanto, devemos reconhecer que Basílio é o iniciador de um amplo movimento monástico e seus ensinamentos são fonte da espiritualidade monástica que marca uma determinada característica a esse movimento.

17.  Podemos dizer, no tocante ao lugar de São Basílio no monaquismo, que ele se define como “mestre”, e não “fundador”.

Características

18.  A vida em comunidade. Para Basílio, a vida em comunidade é inquestionavelmente superior à vida eremítica. Por uma simples razão: a essência do Evangelho de Cristo é a caridade, o amor a Deus e ao próximo. E como praticar a caridade vivendo sozinho?

19.  A comunidade como comunhão carismática. A vida cenobítica-comunitária já existia antes de Basílio. Ele, no entanto, pretende imprimir um determinado fundamento e uma determinada forma para a comunidade monástica. E esse fundamento ele vai buscar exclusivamente na Sagrada Escritura. Para tanto, Basílio tem na Sagrada Escritura duas referências básicas e constantes para formar sua ideia de comunidade.

20.  A primeira é a imagem da comunidade dos primeiros cristãos de Jerusalém, como descrito nos Atos dos Apóstolos (At 2, 42-47). Basílio crê firmemente na utopia cristã: é possível vivê-la concretamente, é possível existir uma fraternidade, uma comunidade de irmãos, na qual todos têm “todas as coisas em comum” e na qual há “uma só alma e um só coração”.

21.  A segunda referência, pela qual Basílio tem uma verdadeira devoção, é a imagem da comunidade ou da Igreja como Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo, como comunhão de carismas, conforme vem na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 12. Essa imagem ilumina todas as relações entre os membros da comunidade: são membros uns para os outros, sempre em função da unidade. Todo o dom é para o serviço aos irmãos, no sentido de complementariedade e unidade, para a construção da comunidade do Corpo de Cristo.

22.  A primazia da Palavra de Deus. A Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura se entende como fonte de todas as normas e de todas as práticas na vida monástica. É o fundamento absoluto da espiritualidade monástica. Com isso, São Basílio vem a purificar a “ideologia” do monaquismo anterior, que muitas vezes continha elementos dúbios, procedentes da filosofia neoplatônica e estoica, e até de religiões mistéricas.

23.  Em tudo o que Basílio afirma, ele vai primeiro ouvir a Sagrada Escritura, ou vai ler a Sagrada Escritura. Vai primeiro ouvir a Sagrada Escritura para depois compor as suas ideias. A Sagrada Escritura é fonte de todas as normas e regras. Norma para a prática das virtudes, para todo o comportamento, para o que se deve e o que não se deve fazer, para as relações comunitárias e até para as coisas práticas na vida comunitária concreta.

24.  São Basílio sustenta um princípio de que, no tocante à Sagrada Escritura, é o Espírito Santo que nos fala diretamente. Por isso, para ele, a Sagrada Escritura não necessita de interpretação; é necessário colocar-se à escuta do Espírito e basta. Não são necessários recursos auxiliares para a leitura da Palavra de Deus, como não é necessário acender velas quando brilha o sol.

25.  Inserção na Igreja. Outro ponto importante em São Basílio é a inserção da comunidade monástica na Igreja. Os ascetas ou monges de Basílio têm de participar da vida da Igreja. Quando Basílio fundou as suas comunidades, pensou na Igreja como um núcleo eclesial. Basílio tinha em vista restaurar o vigor original da Igreja. Ele acreditava na utopia da primitiva comunidade de cristãos. Vivendo em profundidade o mandamento da caridade e realizando a comunhão dos carismas, essas comunidades iriam contribuir para o crescimento e para a unidade do Corpo de Cristo total, que é a Igreja.

26.  O próprio Basílio deu seu próprio exemplo de serviço à Igreja quando, mesmo estando determinado a viver o ideal ascético, ouviu a voz da Igreja e aceitou o episcopado e dedicou-se intensamente à defesa da fé e ao pastoreio do povo de Deus.

27.  Historicamente, os mosteiros que seguiam as “Regras” de São Basílio, em todos os lugares, cumpriram importante papel pastoral, de serviço à Igreja, e mesmo de serviço social, de serviço à comunidade humana.

A influência de Eustácio de Sebaste

28.  Não há dúvida de que Basílio e sua família estavam sob a influência de Eustácio de Sebaste, que fundou muitas comunidades monásticas. (Lembre-se de Naucrácio, irmão de Basílio, que se tornou asceta. E quatro dos membros da família de Basílio permaneceram celibatários). 

29.  Eustácio era conhecido por sua estrita vida ascética e obras de misericórdia. (Quando Basílio tornou-se bispo, ele abriu uma casa para os pobres e doentes, dirigida pelos discípulos de Eustácio). 

30.  Basílio comunicou-se com Eustácio “desde a infância” (Carta 1 – A Eustácio de Sebaste) e isso indica que a família de Basílio foi de fato influenciada por seu ascetismo. 

31.  Eustácio, juntamente com seus discípulos, repetidamente visitou Basílio e passou “noites inteiras em oração, falando e ouvindo palestras de Deus” (Carta 223, 5). Pode-se dizer com segurança que Eustácio era o pai espiritual de Basílio.

32.  Em Anessi, sem dúvida, Basílio tinha amigos, que compartilhavam seu ideal. Seu amigo dos tempos de estudante, Gregório, viveu com ele e estudou essa “verdadeira filosofia”, a ciência de Cristo. 

33.  Alguns estudiosos atribuem a eles a coleção baseada nos escritos de Orígenes chamada Filocália.

34.  Basílio já havia tido um projeto comum de vida monástica: a renúncia ao mundo, uma vida de pobreza e oração, e a frequente leitura da Sagrada Escritura (Carta 2 – A Gregório (Bose), 21). Então, é claro, ele escreveu a primeira edição das Regras Morais (Cremaschi Lisa, 29).

35.  Os temas não foram inventados por Basílio, mas foram baseados em 1500 citações retiradas do Novo Testamento e divididas por um título e um resumo introdutório. 

36.  Segundo suas próprias palavras, Basílio fez isso para entender melhor as Escrituras. Em resumo, as RM são uma antologia de textos bíblicos.

37.  À primeira vista, as RM parecem ser uma peça sem forma (sem um esboço claro), mas sobre elas Basílio constrói todos os seus outros escritos, revelando sua originalidade e a continuidade de seu pensamento. 

38.  As RM estão no centro de seus trabalhos ascéticos. É o núcleo (a parte mais importante) de seu pensamento ascético. 

O Pequeno Asketikon

39.  Naquela época, Basílio visitou as comunidades de Eustácio, que viviam de maneira caótica em vários lugares do Ponto, sem qualquer orientação. 

40.  Foi então que publicou sua primeira edição do Pequeno Asketikon, existente apenas na tradução latina de Rufino Aquitânia, em 397.

41.  Sobreviveu apenas na língua síria. Consiste em 200 perguntas e respostas. As respostas são curtas e pode-se ver que as questões foram formadas pelos discípulos de Eustácio. 

42.  Basílio expandiu esse Pequeno Asketikon e, subsequentemente, publicou o Grande Asketikon .

43.  Em 365, o bispo Eusébio mais uma vez chamou Basílio à Capadócia e deu-lhe liberdade de ação. Em 369, quando a grande seca causou uma fome sem precedentes em toda a Capadócia, Basílio chamou os ricos para ajudar os pobres e ele mesmo organizou assistência para os famintos. Neste momento, ele compôs suas homilias: Deus não é a causa do malContra os ricos (dois sermões) e durante os tempos de fome e seca .

44.  Em 370, quando o bispo Eusébio morreu, Basílio, não sem dificuldade, tornou-se bispo de Cesareia. Em menos de dez anos, embora sem boa saúde, ele realizou uma atividade extensiva. 

45.  No entanto, vamos nos concentrar principalmente em suas comunidades ascéticas, que ele frequentemente visitou, falou e instruiu a observar estritamente todas as coisas que as Escrituras exigem de um cristão; então, examinaremos as Regras Extensas (RE) e as Regras Breves (RB). 

46.  Durante a vida de Basílio, elas foram chamados de Asketikon (Ascentismo); somente após sua morte, um compilador desconhecido renomeou as Regras Extensas e as Regras Breves

47.  Basílio afirmou que estava muito feliz em responder a qualquer pergunta, abordando questões de fé e moral de acordo com o Evangelho (Introdução às RB). 

48.  Ele nunca as chamou de regras, já que o cristão tem apenas uma regra – a Escritura. 

49.  Ele nunca compôs quaisquer regras para comunidades monásticas, ou formou uma Ordem no entendimento de hoje, mas apenas explicou as Escrituras àqueles que desejam viver uma vida verdadeiramente ascética. Ele nem queria ser considerado um mestre, mas um instrumento dado por Deus para explicar as Escrituras.

As Regras Extensas (55 regras)

50.  Este trabalho é uma expansão do Pequeno Asketikon. As regras são tão sistematicamente estruturadas que alguns autores até chamam as RE de “um catecismo sistemático”.

51.  Primeiro, elas explicam os Mandamentos de Deus e sua ordem; então falam do amor de Deus e do próximo e do temor de Deus; além disso, elas advertem contra as ilusões e os assuntos deste mundo que são um grande obstáculo para a vida cristã e ascética; enfim, falam da renúncia e das várias categorias de pessoas que desejam consagrar-se ao Senhor, as virtudes e os diversos problemas associados à vida cenobítico-comunitária.

As Regras Breves (313 regras)

52.  Apesar de chamá-las de “breves”, elas são, na verdade, mais longas. Eles não estão em uma ordem sistemática, embora haja uma associação entre elas. 

53.  Os discípulos de São Basílio estavam bastante familiarizados com as Escrituras e desejavam aprofundar seu conhecimento e esclarecer algumas dúvidas, até mesmo exegéticas. Muitas perguntas são de natureza prática.

54.  Além de RMRE e RB, todos relacionados com a vida ascético-monástica, Basílio escreveu várias cartas que delineavam os princípios da vida monástica, como a Carta 22  e Carta 173 (para as irmãs) que fala de profissão monástica e dá uma breve lista de responsabilidades para aqueles que desejam obedecer incondicionalmente ao Evangelho (por exemplo, Carta 374).

55.  Que duradouro serviço São  Basílio Magno fez pela vida monástica?

56.  Como sabemos, São Basílio não era o “criador” nem o “proto-patriarca” do monasticismo oriental. Antes dele, havia várias tentativas e exemplos de vida monástica. Sua genialidade e mérito, no entanto, é que ele sabiamente aperfeiçoou o que já existia.

57.  Desde o século V, o monasticismo oriental geralmente se baseia quase exclusivamente nas Regras de São Basílio Magno, embora nem ele nem outros legisladores monásticos tenham estabelecido no Oriente uma Ordem religiosa no sentido atual do termo, nem deixaram um resumo de regras disciplinares, como São Bento de Núrsia, São Domingos e São Francisco de Assis fizeram no Ocidente. 

58.  No entanto, sem dúvida, as Regras de São Basílio influenciaram fortemente a vida cenobítica, isto é, o sistema comunal da vida monástica, embora os typikons bizantinos raramente citem as Regras de Basílio (os typikons  são as diretrizes e rubricas que estabelece na Igreja Ortodoxa Cristã)

59.  O grande mérito dos trabalhos ascéticos de São Basílio é sua incontestabilidade – eles estão fundamentados nas Escrituras. Mas ainda mais para o seu crédito é a sua concepção de vida monástica.

60.  São Basílio foi um criador de um ideal monástico particular, que pode ser representado em várias áreas:

61.  A vida comunal é melhor que a vida eremítica-anacorética. Corresponde melhor à natureza humana, pois o amor ao próximo é melhor vivido na vida comunitária, permitindo que se cumpra mais facilmente o mandamento de Cristo, pois cada dom individual é empregado no serviço do bem comum e, assim, a serviço do bem comum. O próprio Cristo… Os ideais ascéticos da comunidade devem ser os mesmos da primeira comunidade cristã, onde todos eram de um só coração e uma só alma. Tudo era em comum: oração, trabalho, refeições…

62.  O superior (proestos) é o pai espiritual, líder da comunidade. Ele é responsável pelas almas dos monges e por seu progresso na perfeição. Ele deve conhecer todo mundo; portanto, o mosteiro não deve ser muito grande. Ele deve ter o controle sobre tudo que os ascetas fazem, incluindo o jejum e outras práticas penitenciais …

63.  O propósito da vida monástica é ser como Deus em amor. E não apenas praticar o amor por si mesmo em oração e trabalho, mas em relação aos outros por palavras e ações. São Basílio exorta seus monges a ter fervor espiritual, adquirido vivendo na presença de Deus e dedicando seu conhecimento e trabalho ao serviço de seu próximo – a Igreja. Basílio exemplificou e provou isso em sua própria vida. O programa de seus ascetas incluía o trabalho social e educacional.

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