319
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica – Asketikon - As Regras
Menos Extensas (313 regras) Interrogações 205-222
INTERROGAÇÃO
205
Quem são os
"pobres de espírito" mencionados em Mateus 5,3?
Resposta
O Senhor diz que as palavras que Ele nos transmite são "espírito e
vida" (Jo 6,63) e que o Espírito Santo nos ensinará tudo o que Ele nos
disse (Jo 14,26), pois o Espírito não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir
do Pai (Jo 16,13). Portanto, "pobres de espírito" são aqueles que se
tornaram pobres motivados unicamente pela doutrina do Senhor, que ordenou:
"Vai, vende os teus bens, dá-os aos pobres" (Mt 19,21). No entanto,
se alguém aceitar a pobreza que lhe sobrevier por qualquer outra circunstância
da vida, mas a orientar para a vontade do Senhor — a exemplo de Lázaro —, essa
pessoa também não está excluída dessa bem-aventurança.
INTERROGAÇÃO
206
O Senhor
ordena que não nos inquietemos com o que comeremos, beberemos ou vestiremos (Mt
6,31). Até onde vai esse mandamento e como devemos praticá-lo?
Resposta
Este mandamento, como todos os outros do Senhor, estende-se até o momento da
morte (cf. Fl 2,8), pois o próprio Senhor obedeceu até à morte. A prática desse
mandamento se realiza por meio da confiança plena em Deus. Após proibir a
ansiedade, o Senhor nos dá uma promessa de segurança, ao declarar: "Vosso
Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso" (Mt 6,32). Assim era o
Apóstolo, que dizia: "Sentimos dentro de nós a sentença de morte; isso
aconteceu para que aprendêssemos a não confiar em nós mesmos, mas em Deus, que
ressuscita os mortos" (2 Coríntios 1,9). Pela sua disposição e prontidão
de espírito, ele morria todos os dias; contudo, era preservado pela bondade de
Deus. Por isso, afirmava com plena confiança: "Somos vistos como quem está
morrendo, embora estejamos vivos" (2 Coríntios 6,9). Esse propósito é
fortalecido por um zelo ardente e por um desejo insaciável de cumprir os
mandamentos do Senhor. Quando esses sentimentos predominam em alguém, eles não
permitem que a pessoa se distraia com as preocupações e necessidades do corpo.
INTERROGAÇÃO
207
Uma vez que
não devemos nos inquietar com o nosso próprio sustento, e considerando que há
outro mandamento que diz: "Trabalhai, não pela comida que perece" (Jo
6,27), seria supérfluo trabalhar?
Resposta
O próprio Senhor explicou o sentido desse mandamento em outras passagens.
Primeiramente,
ao proibir a preocupação com o sustento — dizendo: "Não vos aflijais,
nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos
que se preocupam com tudo isso" (Mt 6,31-32) —, Ele nos ordenou: "Buscai
em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6,33). Ele
deixou claro que esse Reino deve ser buscado por meio de ações dignas. Ao
proibir o trabalho focado apenas na sobrevivência pessoal (alimento perecível),
Ele nos ensinou a trabalhar pelo alimento que permanece para a vida eterna. O
próprio Jesus revelou isso ao dizer: "Meu alimento é fazer a vontade
daquele que me enviou" (Jo 4,34). Sendo a vontade de Deus que
alimentemos o faminto, que demos de beber ao sedento e que vistamos o que está
nu (Mt 25,35-36), devemos imitar o Apóstolo Paulo, que afirmou: "Em
tudo vos tenho mostrado que, trabalhando assim, convém acudir aos fracos"
(At 20,35). Devemos obedecer ao que ele ensina: "Trabalhe, executando
com as próprias mãos o que é bom, para ter com que socorrer os
necessitados" (Ef 4,28). Portanto, esta instrução do Senhor, tanto no
Evangelho quanto nos ensinamentos dos Apóstolos, nos mostra que é proibido
viver preocupado consigo mesmo ou trabalhar apenas para o próprio benefício.
Segundo o mandamento do Senhor, devemos trabalhar e nos dedicar às necessidades
do próximo. Isso é especialmente importante porque o Senhor considera como
feitas a Ele mesmo todas as atenções prestadas aos que sofrem, prometendo, por
causa disso, o Reino dos Céus.
NTERROGAÇÃO 208
A Ascese do
silêncio contínuo é sempre algo bom?
Resposta
A utilidade do silêncio depende do momento e da pessoa, como aprendemos nas
Escrituras. Quanto ao momento: O profeta diz: "Por isso, o
prudente se cala neste tempo, porque é tempo mau" (Amós 5,13); e o
salmista afirma: "Porei um freio em minha boca enquanto o ímpio estiver
diante de mim" (Salmo 39,1). Quanto à pessoa: O Apóstolo
orienta que, se alguém estiver falando e outro receber uma revelação, o
primeiro deve calar-se (1 Coríntios 14,30). Ele também instrui que as mulheres
devem manter-se caladas nas assembleias (1 Coríntios 14,34). Além disso, para
aqueles que não conseguem controlar a língua — e, portanto, falham em seguir o
mandamento: "Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas apenas palavras
boas que sirvam para a edificação da fé" (Efésios 4,29) —, o silêncio
total é necessário. Essa prática deve ser mantida até que eles se curem do
vício da fala imprudente. Assim, aprenderão, através da abstinência, o momento
certo, o conteúdo adequado e a maneira correta de falar, para que suas palavras
sejam, de fato, um benefício para quem as ouve.
INTERROGAÇÃO
209
Como podemos
desenvolver o temor aos juízos de Deus?
Resposta
O medo surge naturalmente quando esperamos que algo ruim aconteça. É assim que
tememos as feras ou os governantes, quando receamos algum dano vindo deles. Da
mesma forma, se alguém crê profundamente que as advertências do Senhor são
verdadeiras e reflete sobre o que significará vivenciar a severidade dessas
promessas, naturalmente temerá os juízos de Deus.
INTERROGAÇÃO
210
O que
constitui uma vestimenta decente, segundo o ensinamento do Apóstolo?
Resposta
Para vestir-se de maneira honesta e adequada ao seu propósito de vida, deve-se
considerar o contexto: o tempo, o lugar, a pessoa e a necessidade. A própria
lógica desaconselha o uso da mesma roupa no inverno e no verão, ou o mesmo
hábito para quem está trabalhando e para quem está descansando. Da mesma forma,
o vestuário deve ser apropriado conforme a função e a identidade de cada um —
seja servo ou senhor, soldado ou civil, homem ou mulher.
INTERROGAÇÃO
211
Qual é a
medida do amor a Deus?
Resposta
A medida do amor a Deus é a disposição constante da alma em realizar a vontade
dEle, sempre com o máximo esforço — indo além de nossas próprias forças —,
tendo como único foco e desejo a Sua glória.
INTERROGAÇÃO
212
Como alcançar
a verdadeira caridade (amor) para com Deus?
Resposta
Alcançamos esse amor quando, agindo com prudência e uma consciência reta, nos
deixamos tocar pelos benefícios que Ele nos concede. Isso é algo que até os
seres irracionais compreendem: observamos que até os cães demonstram afeição
por aqueles que lhes garantem o sustento. Aprendemos isso também pela
repreensão do profeta Isaías, que diz: "Criei filhos e os enaltecí, mas
eles se revoltaram contra mim. O boi conhece o seu dono, e o asno, a manjedoura
de quem o alimenta; mas Israel não conhece nada, e o meu povo não tem
entendimento" (Isaías 1,2-3). Assim como o boi e o asno sentem, por
instinto, afeição por quem os alimenta — por causa do benefício recebido —, da
mesma forma, se estivermos atentos e formos prudentes, como não amaríamos a
Deus, o autor de tantas e tão grandes bênçãos? Afinal, em uma alma que está
saudável, essa disposição de gratidão é algo quase inato, algo que surge
naturalmente, mesmo sem que um mestre precise nos ensinar.
INTERROGAÇÃO
213
Quais são os
sinais da verdadeira caridade (amor) para com Deus?
Resposta
O próprio Senhor nos ensinou o sinal principal: "Se me amais,
guardareis os meus mandamentos" (João 14,15).
INTERROGAÇÃO
214
Qual é a diferença
entre benignidade e bondade?
Resposta
Ao observarmos os Salmos e Jeremias, vemos que o termo "benigno" é
usado de forma mais ampla, referindo-se àquele que se compadece e estende ajuda
a qualquer pessoa necessitada (cf. Sl 145,9; 112,5). Já a "bondade"
parece ser mais específica, aplicada quando alguém age com benevolência guiado
por critérios de justiça e retidão (cf. Sl 125,4; Lm 3,25).
INTERROGAÇÃO
215
Quem é o
"pacífico" que o Senhor chama de bem-aventurado?
Resposta
É aquele que colabora com a obra de Deus, agindo como embaixador de Cristo para
promover a reconciliação entre as pessoas e o Criador (2 Coríntios 5,20). Esse
pacífico é aquele que, tendo sido justificado pela fé, vive a verdadeira paz
com Deus (Romanos 5,1). Essa paz é diferente da paz que o mundo oferece, pois
foi o próprio Cristo quem disse: "Dou-vos a minha paz. Não vo-la dou
como o mundo a dá" (João 14,27).
INTERROGAÇÃO
216
Em que
aspectos devemos nos converter e nos tornar como crianças (Mateus 18,3)?
Resposta
O próprio Evangelho esclarece o motivo: devemos renunciar à busca por
privilégios ou superioridade, reconhecendo a igualdade de natureza entre todos
e tratando com simplicidade aqueles que parecem inferiores a nós. As crianças
agem assim entre si, enquanto ainda não foram corrompidas pela malícia do
convívio social.
INTERROGAÇÃO
217
Como receber
o Reino de Deus "como uma criança"?
Resposta
Devemos nos comportar diante da doutrina do Senhor da mesma maneira que as
crianças se comportam diante de seus professores: sem contradizer ou discutir
as lições, mas recebendo as instruções com fé, docilidade e obediência sincera.
INTERROGAÇÃO
218
Que tipo de
entendimento devemos pedir a Deus e como nos tornamos dignos de recebê-lo?
Resposta
Deus mesmo nos ensina pelo profeta o que é o verdadeiro entendimento: "Não
se orgulhe o sábio do seu saber, nem o forte de sua força, nem o rico de sua
riqueza! Mas quem quiser vangloriar-se, glorie-se de possuir inteligência e de
saber que Eu sou o Senhor" (Jeremias 9,23-24). O Apóstolo reforça: "Procurai
compreender qual é a vontade de Deus" (Efésios 5,17). Tornamo-nos
dignos desse entendimento quando atendemos ao chamado: "Parai e
reconhecei que Eu sou Deus" (Salmo 46,10), e quando acreditamos
firmemente que toda palavra de Deus é verdadeira, lembrando o que está escrito:
"Se não crerdes, não subsistireis" (Isaías 7,9).
INTERROGAÇÃO
219
Quando
recebemos um benefício de alguém, como podemos oferecer a Deus uma ação de
graças pura, total e equilibrada?
Resposta
Oferecemos essa gratidão quando estamos convictos de que Deus é a fonte de todo
bem e Aquele que o realiza. Devemos reconhecer que a pessoa que nos prestou o
serviço é, na verdade, um instrumento, um "ministro" do benefício que
Deus nos enviou.
INTERROGAÇÃO
220
Deve-se
permitir que qualquer pessoa tenha um encontro com as irmãs? Quem, quando e
como se deve falar com elas?
Resposta
Este tema já foi abordado anteriormente: ninguém deve buscar um encontro com
outra pessoa por vontade própria, ao acaso ou sem um motivo claro. Deve-se
haver um exame prévio para garantir que o encontro seja proveitoso para quem
ajuda e para quem é ajudado — e esse cuidado deve ser redobrado quando se trata
de um encontro com uma mulher. Aquele que se recorda do aviso do Senhor — "No
dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem
proferido" (Mateus 12,36) — teme essa sentença e obedece à orientação
apostólica: "Quer comais, ou bebais ou façais qualquer outra coisa,
fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10,31) e "tudo
se faça para a edificação" (1 Coríntios 14,26). Portanto, nada deve
ser feito de modo ocioso ou inútil.
Quanto ao quem, quando e como: escolha-se sempre um tempo, um
lugar e uma companhia que não deem margem a qualquer suspeita. O encontro deve
ter como objetivo a edificação da fé e ser realizado com cautela para não
causar escândalo. Não é sensato que uma pessoa esteja a sós com outra; a
Escritura nos lembra: "Melhor dois do que um" (Eclesiástico
4,9), pois oferecem mais segurança e testemunho. Como diz o mesmo texto: "Ai
do que está só, porque, quando cair, não tem quem o levante"
(Eclesiástico 4,10).
INTERROGAÇÃO
221
Como o Senhor
nos ensinou a orar para não cairmos em tentação, devemos pedir especificamente
para não sofrermos dores físicas? E, se as dores surgirem, como devemos
suportá-las?
Resposta
O Senhor não especificou quais tipos de tentações devemos evitar, mas deu uma
ordem geral: "Orai para que não caiais em tentação" (Lucas
22,40). Por isso, aquele que se encontra diante de uma prova ou dor deve pedir
a Deus que lhe conceda um meio de escapar dela, ou, caso não seja possível, que
lhe dê forças para suportá-la. O objetivo é cumprir o que está escrito: "Aquele
que perseverar até o fim, será salvo" (Mateus 24,13).
INTERROGAÇÃO
222
Quem é o
nosso "adversário" e de que maneira devemos "concordar" com
ele?
Resposta
Nesta passagem, o Senhor chama de "adversário" aquele que tenta nos
retirar algo que consideramos de nosso interesse. Nós "concordamos"
com ele quando seguimos o mandamento do Senhor: "Se alguém te levar ao
tribunal para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa" (Mateus
5,40). Devemos agir da mesma forma em todas as situações semelhantes.
1.
O que você destaca no
texto?
2.
Como serve para a sua
espiritualidade?
3.
De que forma esse texto
desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?