terça-feira, 23 de junho de 2026

316 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras)- Interrogações 149-168




316

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 149-168

 

PERGUNTA 149 Qual é a punição para o administrador que agir com favoritismo ou por espírito de discórdia?

Resposta Assim como o Apóstolo ora determina que nada seja feito por preferência pessoal (1Tm 5,21), ora afirma: "Se alguém quiser criar discórdia, nós não temos esse costume, e nem as igrejas de Deus" (1Cor 11,16), quem agir de tal forma deve ser declarado contrário à Igreja de Deus até que se corrija. Deve-se avaliar, com muito critério e cuidado, a competência de cada pessoa antes de lhe confiar qualquer tarefa. Isso evita que aqueles que delegam a função a alguém incapaz sejam condenados como maus gestores das almas e do mandamento do Senhor. Da mesma forma, evita que os escolhidos tentem encontrar desculpas para os seus erros.

PERGUNTA 150 Se alguém, por negligência, deixar de dar a um irmão o que lhe é necessário.

Resposta O seu julgamento revela-se nas palavras do Senhor: "Afastem-se de mim, malditos! Vão para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber" (Mt 25,41-42). E ainda: "Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor" (Jr 48,10).

PERGUNTA 151 Se é permitido falar em voz mais alta durante o trabalho.

Resposta A necessidade de quem escuta é o que determina a intensidade da voz. Se for muito baixa e fraca, assemelha-se a um sussurro e deve ser evitada. Por outro lado, se for mais alta do que o necessário — quando o ouvinte poderia muito bem escutar quem fala em tom moderado —, torna-se uma gritaria reprovável (Ef 4,31). A menos, é claro, que a falta de atenção do ouvinte nos obrigue a falar mais alto para, de certa forma, despertá-lo de seu torpor. Narra-se que o Senhor também agiu assim, como diz o evangelista: "Jesus exclamou em alta voz: Aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou" (Jo 12,44).

PERGUNTA 152 Se alguém, ao chegar a sua vez de servir na cozinha, trabalhar além de suas forças a ponto de ficar impossibilitado de trabalhar habitualmente por alguns dias, convém impor-lhe essa função?

Resposta Já foi dito que o responsável por distribuir as tarefas deve dar as ordens considerando a habilidade e os limites de quem trabalha, para que não se aplique o ditado: "Aquele que cria dificuldades sob a aparência de lei" (Sl 93,20). Por outro lado, quem recebe a ordem não deve contestar, porque o dever da obediência estende-se até a morte.

PERGUNTA 153 Como a encarregada das lãs deve guardá-las, e de que maneira atenderá as que trabalham?

Resposta Ela deve guardar as lãs como se estivesse cuidando de um bem confiado por Deus. Deve também organizar e distribuir o trabalho de cada irmã sem rivalidade nem favoritismo.

PERGUNTA 154 Se os irmãos forem poucos e tiverem que servir a muitas irmãs, de modo que precisem se separar para dividir o trabalho, haverá perigo?

Resposta Se esse serviço é fundamentado no mandamento do Senhor e realizado segundo a vontade de Deus, cada um dos que se dedicam à sua própria tarefa agrada a Deus. A união mútua entre eles consiste em estarem todos unidos no mesmo propósito e em plena harmonia, cumprindo a palavra do Apóstolo: "Porque, embora esteja ausente no corpo, estou presente convosco em espírito" (Cl 2,5).

PERGUNTA 155 Aprendemos que devemos servir aos doentes no hospital como a irmãos do Senhor; mas se aquele que é servido não agir como tal, como devemos tratá-lo?

Resposta O Senhor disse: "Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mt 12,50). Se alguém não se enquadra nisso, mas se mostra um pecador obstinado, aplicando-se a ele a sentença: "Todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo" (Jo 8,34), essa pessoa precisa, primeiro, receber uma advertência e orientação do superior. Se ela persistir nos mesmos vícios, fica evidente que recai sobre ela a outra frase do Senhor: "O escravo não fica na casa para sempre" (Jo 8,35), bem como a ordem do Apóstolo que determina: "Tirai o perverso do vosso meio" (1Cor 5,13). Dessa forma, quem serve não terá dúvidas sobre como agir e todos os que vivem juntos se sentirão em segurança.

PERGUNTA 156 Se o responsável pelo celeiro ou por uma função semelhante deve ser mantido no cargo, ou se seria bom substituí-lo.

Resposta Se ele demonstra conhecimento das normas e integridade no cumprimento da regra, não há motivo para trocá-lo. Fazer isso seria, na verdade, desgastante e difícil. O ideal é que ele tenha um auxiliar que aprenda a função aos poucos para que, se uma mudança for realmente necessária, não sejamos pegos de surpresa pela falta de um sucessor. Isso evita que sejamos obrigados a colocar alguém despreparado à frente do trabalho que, por falta de experiência, acabe desrespeitando as regras e prejudicando a disciplina.

PERGUNTA 157 Com que atitude se deve servir a Deus; e o que é, em resumo, essa atitude?

Resposta Considero que a atitude correta é a intenção de agradar a Deus de forma intensa, constante, firme e inabalável. Isso se alcança por meio da reflexão consciente e frequente sobre a grandeza da glória de Deus, acompanhada por pensamentos de gratidão e pela lembrança contínua dos bens que Ele nos concedeu. Dessa forma, nasce na alma o amor: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças" (Mc 12,30), como bem disse aquele que escreveu: "Como a corça anseia pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por vós, ó Deus" (Sl 41,1). Deus deve ser servido com uma disposição de espírito tamanha que se cumpra a palavra do Apóstolo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?" (Rm 8,35).

PERGUNTA 158 Com que atitude se deve receber uma punição?

Resposta Com a mesma atitude de um filho doente e em perigo de vida para com o pai ou o médico que o trata. Mesmo que o remédio seja amargo e doloroso, ele deve estar convencido do amor e da competência de quem o corrige, movido pelo profundo desejo de recuperar a saúde.

PERGUNTA 159 O que se deve pensar de quem fica ressentido com a pessoa que o repreende?

Resposta Essa pessoa não compreende o perigo do pecado, especialmente diante de Deus, nem o valor do arrependimento. Ela não acredita naquele que disse: "Quem ama, corrige" (Pr 13,24) e deixa de receber o benefício desejado por aquele que afirmou: "Se o justo me bate, é um favor; se ele me repreende..." (Sl 140,5). Além disso, ela se torna prejudicial para a comunidade, pois faz com que aqueles que se dedicam a ajudar os outros desanimem de sua missão.

PERGUNTA 160 Com que atitude devemos servir aos irmãos?

Resposta Com a atitude de quem presta serviço ao próprio Senhor, que disse: "Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim mesmo que o fizestes" (Mt 25,40). Se as pessoas que recebem essa atenção agirem de forma correta, essa atitude se torna mais fácil. Por isso, os superiores devem cuidar com zelo para que os irmãos não se tornem escravos da gula e dos prazeres, como aqueles que apenas mimam o próprio corpo. Pelo contrário, como amigos de Deus e de Cristo, por meio de uma paciência perfeita à semelhança do justo Jó, eles devem se tornar uma glorificação do Senhor, para a vergonha e derrota do diabo.

PERGUNTA 161 Com que humildade se deve receber um serviço prestado por um irmão?

Resposta Com a mesma humildade com que um servo recebe o serviço de seu senhor, e com a atitude demonstrada por Pedro quando o Senhor o servia; exemplo pelo qual aprendemos também o grave perigo em que incorrem aqueles que se recusam a aceitar um serviço.

PERGUNTA 162 Como deve ser o amor e a caridade para com os outros?

Resposta Conforme o Senhor mostrou e ensinou quando disse: "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 15,12). "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos" (Jo 15,13). Se devemos estar prontos para dar até a nossa própria vida, quanto mais precisamos demonstrar boa vontade e disposição nas pequenas coisas do dia a dia; não por obrigação humana, mas com o objetivo de agradar a Deus e promover o bem de todos.

PERGUNTA 163 De que modo alguém deve praticar o amor e a caridade para com o próximo?

Resposta Primeiro, se tiver temor ao julgamento daqueles que desobedecem ao mandamento do Senhor, que disse: "Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (Jo 3,36). Segundo, se estiver em busca da vida eterna, pois: "O seu mandamento é a vida eterna" (Jo 12,50). "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22,37-39).

Depois, se desejar parecer-se com o Senhor, que disse: "Dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei" (Jo 13,34).

Finalmente, se guardar os seguintes pensamentos: se o nosso irmão nos faz o bem, devemos a ele — até por uma questão de humanidade — aquele amor que os próprios pagãos praticam, conforme a afirmação do Senhor no Evangelho: "Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam" (Lc 6,32). Por outro lado, se ele nos faz o mal, ainda assim devemos amá-lo; não apenas por causa do mandamento, mas porque ele se torna um benfeitor ainda maior para nós, caso acreditemos no Senhor, que disse: "Bem-aventurados sois vós quando vos caluniarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus" (Mt 5,11-12).

PERGUNTA 164 O que quer dizer: "Não julgueis e não sereis julgados" (Lc 6,37)?

Resposta Como o Senhor disse: "Não julgueis e não sereis julgados", mas também ordena que se julgue "segundo a reta justiça" (Jo 7,24), Ele não proíbe inteiramente o julgamento, mas nos ensina a distinguir entre os diferentes tipos de juízo. O Apóstolo nos ensinou claramente o que convém e o que não convém julgar. Quanto àquilo que está no poder de escolha de cada um e não foi prescrito na Escritura, ele diz: "Por que julgas o teu irmão?" (Rm 14,10), e ainda: "Cessemos, pois, de julgar uns aos outros" (Rm 14,13). No entanto, relativamente àquilo que desagrada a Deus, o Apóstolo condena os que não julgam e apresenta-lhes o seu próprio julgamento: "Pois eu, em verdade, ainda que ausente em corpo, mas presente em espírito, já julguei, como se estivesse presente, aquele que assim se comportou. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo — reunidos vós e o meu espírito com o poder de Nosso Senhor Jesus —, seja este homem entregue a Satanás para a destruição de sua carne, a fim de que o seu espírito seja salvo no dia de Nosso Senhor Jesus" (1Cor 5,3-5).

Portanto, se alguma coisa depende do arbítrio de cada um ou, por vezes, é incerta, não devemos julgar o irmão por isso, conforme o que o Apóstolo diz a respeito do que se ignora: "Não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele trará à luz o que está escondido nas trevas e manifestará as intenções dos corações" (1Cor 4,5). Por outro lado, é de absoluta necessidade defender os julgamentos de Deus, para que aquele que se cala não fique sujeito à ira divina; a não ser que a pessoa, por praticar o mesmo erro que censura no outro, não tenha coerência para julgar o irmão, ouvindo o Senhor que diz: "Tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão" (Mt 7,5).

PERGUNTA 165

Como pode alguém saber se é por zelo de Deus que se irrita contra o irmão que pecou, ou por ira?

 

Resposta

Se sentir contra qualquer pecado aquilo que foi escrito: Sinto-me esgotado pelo zelo ao ver meus inimigos esquecerem vossas palavras (Sl 118,139), é claro que possui o zelo de Deus. Mas também aqui é necessária uma inteligente sabedoria, para a construção da fé. Se não houver previamente esta disposição que mova o coração, suas atitudes serão inconstantes e não se alcançará o objetivo da devoção.

 

PERGUNTA 166

Com que postura se deve ouvir quem pede com insistência para obedecermos ao mandamento?

 

Resposta

Com a mesma pressa com que o menino com fome obedece a quem o chama para comer; e como o homem que procura o seu sustento atende a quem lhe oferece o alimento; e muito mais ainda, já que a vida eterna vale mais do que a vida de agora. Pois o mandamento de Deus, diz o Senhor, é vida eterna (Jo 12,50). O que o comer representa para o pão, a prática da boa ação representa para o mandamento, conforme o que diz o Senhor: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, o Pai (Jo 4,34)

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PERGUNTA 167

Como deve ser o coração de quem for considerado digno de trabalhar na obra de Deus?

 

Resposta

Deve ser como o de quem dizia: Quem sou eu, ó meu Senhor, e qual é a minha família, para que me ame tanto? (2Sm 7,18). Deve viver o que foi escrito: Agradeçam ao Pai, que nos tornou capazes de participar da herança dos santos na luz. Ele nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o reino de seu Filho muito amado (Cl 1,12-13).

 

PERGUNTA 168

Com que atitude deve ser recebida o hábito (a roupa) e o calçado, sejam quais forem?

 

Resposta

Se o tamanho for maior ou menor, explique a sua necessidade com educação e equilíbrio. Se, porém, você não gostar da roupa pela má qualidade ou por não ser nova, lembre-se do Senhor que disse: O trabalhador — e não qualquer pessoa de fora — merece o seu sustento (Mt 10,10). Examine-se a si mesmo se você tem feito algo à altura dos mandamentos do Senhor ou de Suas promessas. Assim, você não reclamará de nada; pelo contrário, ficará sem graça com o que receber, achando que está ganhando mais do que merece. Como regra geral, para todas as necessidades do corpo, vale o mesmo que já foi ensinado sobre a alimentação.

1. Qual ensinamento ou frase desse texto mais chamou a sua atenção e por quê?

2. Como você pode colocar essa mensagem em prática na sua vida espiritual?

3. De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 


quarta-feira, 17 de junho de 2026

315 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 138-148

 

Frei Leopoldo, Kris, Luiz, Genisson, Edson e Marisa


315

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 138-148

 

PERGUNTA 138 Se na comunidade será permitido a alguém jejuar ou fazer vigílias mais do que os outros, por iniciativa própria.

 

Resposta Tendo dito o Senhor: "Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou, o Pai" (Jo 6,38), tudo o que alguém fizer por vontade própria, sendo uma escolha isolada de quem o faz, é contrário à devoção; essa pessoa deve temer ouvir de Deus o seguinte: "Teus desejos se voltarão para ti e tu os dominarás" (Gn 3,16).

Querer fazer mais do que os outros, mesmo nas coisas boas, é uma rivalidade prejudicial que nasce da vaidade. O Apóstolo mostra que isso é proibido ao dizer: "Não ousamos nos comparar com alguns que elogiam a si mesmos" (2Cor 10,12). Por isso, deixando de lado as próprias vontades e o desejo de parecer que fazemos melhor do que os outros, devemos obedecer ao Apóstolo, que aconselha e diz: "Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor 10,31).

A disputa, a vaidade e o orgulho próprio são absolutamente contrários aos que lutam honestamente o bom combate. Por isso, a Escritura diz: "Não sejamos cheios de vaidade" (Gl 5,26) ou: "Se alguém quiser criar polêmica, nós não temos esse costume, nem as igrejas de Deus" (1Cor 11,16) e, em outro lugar: "Não devemos procurar agradar a nós mesmos" (Rm 15,1), acrescentando palavras ainda mais impactantes: "Cristo não buscou o próprio agrado" (Rm 15,3).

Se alguém notar que precisa ser mais rigoroso em relação ao jejum, às vigílias ou a qualquer outra prática, revele aos responsáveis pelo cuidado de todos o motivo que o leva a pensar que precisa de mais rigor, e siga o que eles aprovarem. Muitas vezes, é melhor atender à necessidade dessa pessoa de uma maneira diferente.

 

PERGUNTA 139 Se intensificamos o jejum, tornamo-nos mais fracos para o trabalho. O que é preferível? Prejudicar o trabalho por causa do jejum ou negligenciar este último por causa do trabalho?

Resposta É preciso jejuar e comer com um equilíbrio voltado à devoção. Assim, se o maior dever for cumprir o mandamento de Deus pelo jejum, jejuemos; quando, porém, o mandamento de Deus exigir que nos alimentemos para fortalecer o corpo, comamos — não como pessoas gulosas, mas como trabalhadores de Deus. Guarde-se o ensinamento do Apóstolo: "Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor 10,31).

 

PERGUNTA 140 Se alguém não se privar dos alimentos que lhe fazem mal e, comendo-os em excesso, ficar doente, deve ser tratado?

Resposta A falta de controle é um mal reconhecido. Em primeiro lugar, é necessário preocupar-se em curar esse vício. Deus, que ama os seres humanos, querendo mostrar a gravidade do mal da falta de domínio próprio, permite muitas vezes que a pessoa caia no vício do descontrole, consumindo o que é prejudicial ao corpo, a fim de que possa, pela doença física decorrente da gula, perceber o próprio prejuízo e ser levada ao equilíbrio em todas as coisas.

Quanto ao tratamento do corpo dos que adoeceram devido à gula, é sensato e bondoso aplicá-lo imediatamente, mas não de forma impensada, e sim com atenção cuidadosa, para não acontecer que, cuidando do corpo, deixemos a alma sem o devido remédio.

Se percebermos que a pessoa aprende com bom senso durante o tratamento do corpo e cuida da alma que estava mergulhada no vício, devem ser aplicados os cuidados físicos. Se houver a certeza de que, cuidando do corpo, ela deixa de lado a alma, é melhor deixar com suas dores aquele que sofre por causa do seu próprio descontrole. Isso porque, talvez com o tempo, ao ganhar consciência de si mesmo e dos castigos eternos, ele possa cuidar do bem de sua alma. Afinal, quando somos julgados pelo Senhor, ele nos corrige para não sermos condenados com este mundo (1Cor 11,32).

 

PERGUNTA 141 Se é correto que fiquem hóspedes nas oficinas, ou que alguns membros da casa saiam dos seus próprios lugares de trabalho.

Resposta Exceto o responsável por supervisionar os trabalhadores ou por distribuir as tarefas, quem for flagrado agindo dessa forma — como alguém que atrapalha a boa ordem e a harmonia entre os membros — deve ser proibido até mesmo das saídas autorizadas. Essa pessoa deve se sentar no local considerado adequado para a sua correção e realizar, com dedicação, uma tarefa mais pesada do que o costume, até que aprenda a guardar a palavra do Apóstolo: "Cada um permaneça na condição em que estava quando Deus o chamou" (1Cor 7,24).

 

PERGUNTA 142 Se os artesãos devem aceitar alguma encomenda sem o conhecimento do responsável por esses trabalhos.

Resposta Sujeita-se à mesma condenação de um ladrão, ou de quem é cúmplice de um ladrão, tanto quem faz a encomenda quanto quem a aceita.

 

PERGUNTA 143 De que modo os que trabalham devem cuidar das ferramentas sob sua responsabilidade?

Resposta Primeiro, considerando-as como objetos dedicados e consagrados a Deus; em seguida, como algo sem o qual não se pode demonstrar um esforço dedicado, como é necessário.

 

PERGUNTA 144 Se alguém perder alguma coisa por descuido, ou fizer mau uso dela com desprezo.

Resposta Quem fizer mau uso de algo deve ser considerado culpado de sacrilégio; quem perder, deve ser julgado como o causador do sacrilégio, pois todas as coisas são dedicadas e consagradas a Deus.

 

PERGUNTA 145 Se alguém, por conta própria, emprestar ou pegar algo emprestado.

Resposta Seja considerado imprudente e desobediente. Essas decisões cabem ao responsável por cuidar dos objetos e da sua distribuição.

 

PERGUNTA 146 Se, por necessidade urgente, o responsável pela comunidade lhe pedir uma ferramenta, mas a pessoa se recusar a entregar.

Resposta Quem entregou a si mesmo e a suas próprias forças para o bem dos outros, no amor de Cristo, como poderá discutir por causa desses objetos com o responsável, a quem compete também o cuidado das ferramentas?

 

PERGUNTA 147 Quem estiver ocupado no celeiro, na cozinha ou em atividade semelhante, se não comparecer no momento dos salmos e da oração, sofrerá prejuízo espiritual?

Resposta Cada um, em seu trabalho, seguirá, como um membro do corpo, a regra que é própria da sua função. Se deixar de lado o que lhe foi ordenado, sofrerá ele próprio o prejuízo. O perigo será ainda maior se criar armadilhas para a comunidade. Portanto, cumpra, de acordo com o sentido exato das palavras, o que está escrito: "Cantando e louvando ao Senhor em vossos corações" (Ef 5,19). Se não puder comparecer fisicamente com os demais, não se preocupe, mas coloque em prática a palavra: "Cada um permaneça na condição em que estava quando Deus o chamou" (1Cor 7,24).

É preciso cuidado, porém, para não acontecer que alguém, tendo condições de terminar a tempo o que lhe foi mandado e dar aos outros um bom exemplo, use o trabalho como pretexto ou desculpa, servindo de tropeço para os demais, e assim receba a condenação dos que são negligentes.

 

PERGUNTA 148 Qual é o limite da autoridade do responsável pelo celeiro?

Resposta Em relação ao superior que o avaliou e lhe confiou essa tarefa, lembre-se do Senhor, que disse: "De mim mesmo não posso fazer coisa alguma" (Jo 5,30). Já em relação aos que dependem de sua gestão, leve em consideração o que cada um precisa, pois está escrito: "Repartia-se a cada um deles, conforme a sua necessidade" (At 4,35). Esse mesmo critério deve ser seguido por todos os responsáveis por funções semelhantes.

 

1. Qual ensinamento ou frase desse texto mais chamou a sua atenção e por quê?

2. Como você pode colocar essa mensagem em prática na sua vida espiritual?

3. De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

quarta-feira, 3 de junho de 2026

314 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 121-137

 

Frei Isaac, Nathalie, Demétrius, Marisa e Edson



314

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 121-137

 

Pergunta 121

É permitido ou aceitável recusar os trabalhos mais pesados e difíceis?

 

Resposta

Quem ama a Deus de verdade e confia plenamente na recompensa divina nunca se dá por satisfeito com o que já alcançou; pelo contrário, busca sempre ir além e deseja fazer mais. Mesmo que essa pessoa pareça estar trabalhando um pouco acima de suas forças, ela não se acomoda como se já tivesse cumprido sua meta. Ela se mantém sempre zelosa, como se tivesse feito menos do que deveria, guardando no coração a ordem do Senhor: "Depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer" (Lc17.10). Essa é a mesma postura do Apóstolo Paulo, para quem o mundo estava crucificado (e ele para o mundo) (Gl 6,14), e que não teve vergonha de dizer: "Não julgo que já o tenha alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fl 3,13-14). Além disso, embora Paulo tivesse o direito de viver do Evangelho por pregá-lo (1 Cor 9,14), ele afirmou: "Trabalhamos dia e noite com esforço e fadiga... não porque não tivéssemos esse direito, mas para vos dar em nós mesmos um modelo a imitar" (2 Ts 3,8-9). Diante disso, quem seria tão insensível ou sem fé a ponto de se contentar com o que já fez, ou de rejeitar um trabalho só por ser mais pesado e trabalhoso?

 

INTERROGAÇÃO 122

Deve-se permitir a recusa da eulógia (grego: abençoado) a alguém que disser: Se não receber a eulógia não como?

 

Resposta

Se o pecado merece o castigo de ser ele excluído da refeição, julgue-o quem impôs a pena. Se alguém for julgado indigno somente da eulógia e tenha licença de comer, mas recuse, seja considerado desobediente, amante de disputas. Conheça-se a si mesmo e simultaneamente entenda que, ao proceder assim, não obtém a cura, mas acrescenta pecado a pecado.

 

INTERROGAÇÃO 123

Se alguém se entristece porque não lhe permitem fazer aquilo que não é capaz de fazer, isto deve ser tolerado?

 

Resposta

Em vários lugares foi dito que, geralmente, seguir a própria vontade ou agir ao próprio arbítrio é contrário à reta razão, e não se submeter ao juízo de muitos é incorrer no perigo de desobediência e de contradição.

 

INTERROGAÇÃO 124

Se deve alguém que se encontrou com hereges ou gentios comer com eles ou saudá-los.

 

Resposta

O Senhor não proibiu a saudação comum, ao dizer: Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? (Mt 5,47). Quanto a comer à mesma mesa, temos o preceito do Apóstolo de que se deve evitá-lo, quando diz: Na minha carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os impudicos. Mas não se tratava de um modo absoluto de todos os impudicos deste mundo, ou os avarentos e ladrões, ou os idólatras, pois neste caso deveríeis sair deste mundo. Mas eu simplesmente quis dizer-vos que não tenhais comunicação com aquele que, chamando-se irmão, é impudico ou avarento, ou idólatra, ou difamador, ou bêbado, ou ladrão; com esse nem sequer deveis comer (I Cor 5,9-11).

 

INTERROGAÇÃO 125

Se alguém a quem foi confiado um trabalho e sem avisar fizer algo aquém da ordem ou além do prescrito, deve ser mantido no trabalho?

 

Resposta

De modo geral, desagrada a Deus o que alguém assume por si mesmo; e isto não convém, nem é proveitoso aos que têm empenho de conservar o vínculo da paz. Se continuar a ser

precipitado, é útil retirá-lo do trabalho. Pois não observa o preceito daquele que disse: Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o chamou (Icor 7,24), e o que é ainda mais convincente: Não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus lhe distribuiu (Rm 12,3).

 

Pergunta 126

Como podemos evitar ser dominados ou vencidos pelo prazer da comida?

 

Resposta

A regra é decidir que a utilidade real e a necessidade do corpo sejam sempre as guias e mestras na hora de se alimentar, independentemente de a comida ser agradável ao paladar ou não.

 

INTERROGAÇÃO 127

Dizem alguns ser impossível ao homem não se irar.

 

Resposta

Mesmo se fosse possível ao soldado irar-se diante dos olhos do rei, nem assim seria razoável tal afirmação. Se o olhar de um homem, igual por natureza, reprime o mal, devido à preeminência da dignidade, quanto mais não o fará a convicção de ter a Deus por observador de seus sentimentos? Deus, que perscruta os corações e as entranhas, vê muito melhor os atos da alma do que o homem contempla o que está diante de si.

 

INTERROGAÇÃO 128

Se é lícito permitir a quem quiser fazer abstinência além de suas forças, de modo a ficar tolhido de praticar o mandamento que lhe é proposto.

 

Resposta

Esta pergunta não me parece bem feita. A abstinência não consiste numa abstenção de alimentos indiferentes, a qual teria como consequência aquela aflição do corpo condenada pelo Apóstolo (Cl 2,23), e sim, no perfeito abandono das próprias vontades. Evidencia-se das palavras do Apóstolo quão perigoso é apartar-se do mandamento do Senhor, por causa da própria vontade, quando diz: Fazendo a vontade da carne e da concupiscência, éramos, por natureza, objetos da ira (Ef 2,3).

 

Pergunta 129

Se alguém faz um jejum muito rigoroso e, por causa disso, não consegue comer o que é servido na mesa comum da comunidade, o que é mais recomendável? Que essa pessoa jejue junto com os irmãos e coma a mesma refeição que eles, ou que, devido ao seu jejum extremo, precise de alimentos especiais na hora de comer?

 

Resposta

O momento e a prática do jejum não devem ser decididos pelo desejo ou vontade de cada um. O jejum deve seguir o que é necessário para o culto e o serviço a Deus, como vemos nos relatos dos Atos dos Apóstolos e no exemplo do rei Davi ($At\ 13,2\text{-}3$; $Sl\ 34,13$). Se alguém jejua com esse propósito correto, Deus também lhe dará as condições físicas para suportá-lo, pois aquele que fez a promessa é fiel ($Hb\ 10,23$).

 

INTERROGAÇÃO 130

Como se deve jejuar, quando for preciso jejuar por motivo de piedade? Por obrigação? Ou de boa vontade?

 

Resposta

Se o Senhor diz: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6), tudo o que se faz por causa da piedade, se não for realizado de boa vontade e com empenho, é perigoso. Quem jejua, mas de má vontade, não está seguro. Visto que é necessário jejuar no tempo em que é prescrito o jejum, o Apóstolo o enumera entre outras boas ações suas, para nosso ensinamento: com frequentes jejuns (2Cor 11,27).

 

Pergunta 131

Está correto alguém recusar a refeição que é servida quando os irmãos estão comendo e, em vez disso, ir procurar outros alimentos por conta própria?

 

Resposta

De modo geral, andar à procura de alimentos especiais vai contra o mandamento do Senhor, que disse: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, e não andeis com preocupações vãs" ($Lc\ 12,29$). E Ele ainda acrescenta um alerta importante: "Porque os pagãos do mundo é que se preocupam com todas essas coisas" ($Lc\ 12,30$). Por outro lado, cabe ao responsável pela comunidade cumprir com dedicação a palavra da Escritura: "Repartia-se, então, a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$).

 

Pergunta 132

O que devemos pensar daquele que diz: "Isto me faz mal", e fica profundamente chateado ou ressentido se não lhe derem outra opção de comida?

 

Resposta

Essa atitude demonstra que a pessoa não possui a paciência e a esperança que o pobre Lázaro teve, e que também não reconhece o amor e o zelo daquele que foi encarregado de cuidar de todos. De modo geral, não se deve permitir que cada indivíduo decida por si mesmo o que lhe faz bem ou mal. Em vez disso, deve-se confiar ao responsável a tarefa de avaliar as reais necessidades de cada um. O encarregado, por sua vez, deve priorizar o bem da alma e, em segundo lugar, distribuir o que é necessário para o corpo, sempre de acordo com a vontade de Deus.

 

 

INTERROGAÇÃO 133

Se alguém murmurar por causa da comida.

 

Resposta

Sofrerá o juízo dos que murmuraram no deserto (Nm 11,1). Diz o Apóstolo: Não murmureis como murmuraram alguns deles, e foram mortos pelo exterminador (ICor 10,10).

 

INTERROGAÇÃO 134

Se alguém, irado, se recusar a tomar o necessário.

 

Resposta

Merece não receber, mesmo se depois o pedir, até que o superior julgue curado o vício, ou antes os vícios.

 

Pergunta 135

É correto que alguém, por realizar um trabalho muito cansativo ou pesado, peça ou procure receber algo a mais além do que já é oferecido habitualmente a todos?

 

Resposta

Se essa pessoa assumiu o cansaço do trabalho de olho na recompensa que vem de Deus, ela não deve ficar buscando privilégios ou alívios por conta própria. Em vez disso, deve focar na recompensa do Senhor, sabendo que receberá de Deus — que ama a humanidade — a justa retribuição pelo seu esforço e o consolo pelo seu desgaste. Por outro lado, o responsável por colocar em prática a palavra da Escritura — "Repartia-se a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$) — tem a obrigação de conhecer bem a realidade de cada trabalhador e cuidar de suas necessidades físicas de maneira adequada.

 

INTERROGAÇÃO 136

Se é de obrigação reunirem-se todos à hora do almoço; e como receberemos o que estiver ausente e chegar depois do almoço?

 

Resposta

Se esteve ausente por necessidade, devido ao lugar ou ao trabalho, observando a ordem daquele que disse: Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o chamou (ICor 7,24), o responsável pela disciplina comum, tendo examinado o caso, desculpe-o; se, porém, podia chegar com os outros e não se apressou, reconhecida a culpa da negligência, permaneça em jejum até à hora determinada do dia

seguinte.

 

INTERROGAÇÃO 137

Se é bom que alguém decida, por exemplo, por algum tempo, abster-se de alguma coisa na comida ou na bebida.

 

Resposta

Como diz o Senhor: Não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38), qualquer juízo por própria vontade não é seguro. Ciente disto, dizia Davi: Faço juramento e determino guardar os vossos justos decretos (SI 118,106) e não as minhas vontades.

 

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terça-feira, 19 de maio de 2026

313 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 103-120

 

                                                                                  


                                                                                313

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 103-120

 

INTERROGAÇÃO 103

Já aprendemos que devemos obedecer aos mais velhos até à morte. Acontece algumas vezes que o próprio velho erra. Deve ser admoestado? Como e por quem? Desejamos sabê-lo. Se não aceitar, o que se deve fazer?

 

Resposta

A este respeito foi dito o bastante na resposta mais extensa (Basílio se refere a Regra Mais Extensa 27 - Como deve ser admoestado o superior, se porventura cair em algum erro.

 

            "O irmão que notar que o superior caiu em algum erro ou cometeu um deslize na observância dos mandamentos não deve calar-se por negligência, nem tampouco deve ele mesmo, por conta própria, proferir a censura ou espalhar a murmuração entre os outros irmãos, o que geraria o pecado da discórdia. Em vez disso, se o irmão for jovem ou não tiver a devida autoridade, deve relatar o fato em particular aos irmãos que se destacam pela sabedoria, maturidade e capacidade de discernimento dentro da comunidade. Estes anciãos, após examinarem a questão à luz das Sagradas Escrituras, devem admoestar o superior em segredo, com toda a mansidão, respeito e caridade fraterna, para que ele reconheça a sua falta e se corrija. Se o superior aceitar a correção, o erro é perdoado e a paz é restaurada. Porém, se ele rejeitar a advertência dos anciãos e persistir no erro, violando os mandamentos de Deus, o caso deve ser levado ao conhecimento daqueles que presidem as outras fraternidades ou à autoridade maior, pois a obediência humana cessa quando se opõe à soberana vontade de Deus."

 

INTERROGAÇÃO 104

Como entregar os ofícios aos irmãos? Só a juízo do superior, ou com o voto dos irmãos? E o mesmo, quanto às irmãs.

 

Resposta

Se cada um aprendeu a propor aos outros o que pensa, quanto mais devem tais coisas ser feitas com a aprovação daqueles que são capazes de julgar! Por isso, a administração das coisas de Deus, segundo Deus, seja confiada àqueles que já deram provas de poderem exercer o ofício que lhes foi entregue, de modo agradável ao Senhor. Em suma, é necessário que o superior em todos os negócios se lembre da Sagrada Escritura, que diz: Nada façais sem conselheiro (Eclo 32,24).

 

INTERROGAÇÃO 105

Se devem os recém-vindos para a comunidade aprender logo os ofícios.

 

Resposta

Julguem os superiores.

 

INTERROGAÇÃO 106

Que penas serão usadas na comunidade em vista da conversão dos pecadores?

 

Resposta

Depende do juízo do superior o tempo e o modo, de acordo com o vigor do corpo, a disposição da alma e a diferença dos pecados.

 

INTERROGAÇÃO 107

Se alguém disser que deseja viver na comunidade dos irmãos, mas, devido aos cuidados com os parentes carnais, ou por causa dos tributos, estiver muitas vezes impedido de se entregar de uma vez a esta vida, deve ser-lhe permitido o acesso junto dos irmãos?

 

Resposta

É perigoso cortar um bom desejo; não é seguro, contudo, dar ao que entrou oportunidade de tratar de coisas externas e alheias à vida segundo Deus. Se o que entrou entregar-se às obras internas e nada trouxer das de fora, dá melhores esperanças.

 

INTERROGAÇÃO 108

Se convém que o superior, na ausência da superiora, fale com uma irmã do que se refere à edificação da fé.

 

Resposta

Seria inobservância do preceito do Apóstolo, que diz: Faça-se tudo com decência e ordem (ICor 14,40).

 

INTERROGAÇÃO 109

Se convém que o superior fale com frequência com a superiora, principalmente se alguns dos irmãos se aborrecem com isto.

 

Resposta

Tendo dito o Apóstolo: Por que razão seria julgada a minha liberdade pela consciência alheia? (ICor 10,29) é bom imitá-lo, quando diz: Não temos feito uso deste direito, para não pôr obstáculo algum ao Evangelho de Cristo (ICor 9,12), e na medida do possível, os colóquios sejam raros e breves.

 

INTERROGAÇÃO 110

Se deve estar presente a superiora quando una irmã se confessa a um presbítero.

 

Resposta

Será mais importante e precavida a confissão feita diante da superiora a um presbítero que possa com conhecimento e prudência sugerir o modo da penitência e da correção.

 

INTERROGAÇÃO 111

Se o presbítero ordenar algo às irmãs, sem conhecimento da superiora, tem ela o direito de se indignar?

 

Resposta

E muito.

 

INTERROGAÇÃO 112

Se é conveniente, quando alguém vem seguir uma vida dedicada a Deus, ser recebido pelo superior sem o conhecimento dos irmãos, ou deve isto ser-lhes comunicado primeiro?

 

Resposta

O Senhor ensina a convocar os amigos e vizinhos, por causa de um arrependido. É bem mais necessário, pois, receber o recém-vindo com o conhecimento de todos os irmãos, para que juntos se alegrem e orem.

 

INTERROGAÇÃO 113

Se é possível àquele que tem a responsabilidade das almas observar a palavra: Se não vos transformardes e vos tomar  como criancinhas (Mt 18,3), visto ter relação com muitas e diferentes pessoas.

 

Resposta

Conforme disse o sábio Salomão: Para tudo há um tempo (Ecl 3,1), é notório haver um tempo próprio para a humildade, outro para a autoridade, a repreensão, a exortação, a misericórdia, a liberdade no falar, a benignidade, a severidade, em uma palavra, para cada coisa. Por vezes, deve-se manifestar atitude humilde e imitar a humildade das crianças, principalmente por ocasião de honras e obséquios mútuos, de serviços e tratamentos corporais, como o ensinou o Senhor; às vezes, usar da autoridade concedida pelo Senhor para edificar e não para destruir (2Cor 13,10), quando a necessidade exigir liberdade no falar. E se na hora da exortação faz-se mister mostrar benignidade, no momento da severidade mostre-se zelo e no restante faça-se de igual modo.

 

INTERROGAÇÃO 114

Se é dever obedecer a todos os que dão ordens e a qualquer um deles, porque o Senhor ordenou: Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, vai com ele dois mil (Mt 5,41) e c Apóstolo ensinou a nos sujeitarmos uns aos outros, no temor de Cristo (Ef 5,21)

 

Resposta

A diferença entre os que dão ordens em nada prejudique a obediência dos que as recebem. Moisés não desprezou a Jetro que lhe dava bons conselhos. Como não são pequenas as diferenças entre as ordens (algumas são contrárias ao mandamento do Senhor, ou o destroem, ou o mancham porque se misturam a coisas proibidas; outras coincidem com o mandamento; outras, embora visivelmente não coincidam com ele, concordam com ele e como que o reforçam) é preciso lembrar-se do Apóstolo que diz: Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o que for bom. Guardai-vos de toda a espécie de mal (lTs 5,20-22). E ainda: Nós aniquilamos todo o raciocínio e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e cativamos todo o pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo (2Cor 10,4.5). Por isto, se alguma coisa nos é ordenada que coincida

com o mandamento do Senhor, ou concorde com ele, devemos recebê-la zelosa e diligentemente, como vontade de Deus, cumprindo o que foi dito: Suportai-vos caridosamente uns aos outros (Ef 4,2). Quando, porém, nos é prescrito algo de contrário

ao mandamento do Senhor, ou que o destrua, ou manche, é o momento de dizermos: Importa obedecer mais a Deus do que aos homens (At 5,29), lembrados do Senhor, que disse: Mas não seguem o estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos (Jo 10,5), e do Apóstolo que ousou, para nossa segurança, referir-se aos anjos, dizendo: Mas, ainda que alguém, ou nós ou um anjo baixado do céu;  vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja rejeitado (G11,8). Daí deduzimos que, por mais próximo ou por mais ilustre que for, quem proíba aquilo que o Senhor ordenou, ou persuada a fazer o que ele proibiu, deve ser evitado a execrado por

qualquer um dos que amam o Senhor.

 

INTERROGAÇÃO 115

Como hão de obedecer uns aos outros?

 

Resposta

Como servos a seus senhores, segundo a ordem do Senhor: E todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o escravo de todos (Mc 10,44). Acrescentou palavras mais persuasivas: Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir (ibid. 45); e ainda foi dito pelo Apóstolo: Fazei-vos servos uns dos outros pela caridade (G1 5,13).

 

INTERROGAÇÃO 116

Até onde vai a obediência, segundo as normas para agradarmos a Deus?

 

Resposta

Mostrou-o o Apóstolo, propondo-nos a obediência do Senhor, que se tornou obediente até à morte, e morte de cruz (PI 2,8). Disse anteriormente: Tende em vós a estima que se deve em Cristo Jesus (ibid. 5).

 

INTERROGAÇÃO 117

De que vício sofre quem não aceita receber ordens diárias para a realização de um mandamento, mas quer aprender um ofício? Deve ser tolerado?

 

Resposta

É presunçoso, complacente consigo e incrédulo, porque não teme o juízo do Senhor que disse: Estai, pois, preparados porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do homem (Lc 12,40). Se alguém a cada dia e hora espera o Senhor, preocupa-se de não passar ocioso aquele dia e de nada mais cuida. Se lhe ordenar aprender um ofício, pela obediência terá a recompensa de comprazer a Deus e não sofrerá a condenação por causa das delongas.

 

INTERROGAÇÃO 118

Qual será a recompensa de quem é zeloso em cumprir o mandamento, mas não faz aquilo que lhe é ordenado e sim o que quer?

 

Resposta

A da autocomplacência. Como o Apóstolo diz: Cada um de vós procure agradar a seu próximo, para seu bem e sua edificação (Rm 15,2), e mais ainda nos convida, acrescentando: Cristo não se comprazeu em si mesmo (ibid. 3), conheça o autocomplacente o perigo em que incorre. Será também convencido de ser insubordinado.

 

INTERROGAÇÃO 119

Se é lícito a alguém recusar o trabalho que lhe é confiado e procurar outro.

 

Resposta

Como a medida da obediência, conforme já foi dito, vai até à morte, quem recusa o que lhe é entregue e procura outro trabalho, primeiro destrói a obediência e manifesta não ter renunciado a si mesmo; segundo, torna-se causa de muitos outros males para si e para os demais. Além disso, abre a porta da contradição para os outros e acostuma-se à mesma. Uma vez: que não pode cada um julgar o que é bom para si, escolhe muitas vezes um serviço que lhe é prejudicial. Também desperta suspeitas entre os irmãos de que é mais propenso ao trabalho que escolhe do que àqueles nos quais deve colaborar. Em suma, desobedecer torna-se a raiz de muitos e grandes males. Se julga ter uma razão para recusar o trabalho, declare-a aos superiores e deixe a questão a seu juízo.

 

INTERROGAÇÃO 120

Se convém sair para algum lugar, sem avisar ao superior.

 

Resposta

O Senhor diz: Não vim de mim mesmo, mas (é verdadeiro) aquele que me enviou (Jo 7,28). Quanto maior razão não temos de não nos permitirmos agir assim? Quem toma essa liberdade, mostra claramente que sofre de soberba e está sujeito ao juízo do Senhor, que disse: O que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus (Lc 16,15). Em resumo, é culpada qualquer concessão a si mesmo.

 

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