310
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica – Asketikon
As Regras Menos Extensas (313 regras).
Interrogações 65 a 80
INTERROGAÇÃO 65
Como alguém injustamente detém a verdade?
Resposta
Quando abusa dos
bens dados por Deus para realizar suas próprias vontades. Desaprova-o o
Apóstolo, dizendo: Não somos, como
tantos outros, falsificadores da palavra de Deus (2Cor 2,17). E
ainda: Nunca usamos de adulação,
como sabeis, nem fomos levados por interesse algum. Não buscamos glórias humanas,
nem de vós nem de outros (lTs 2,5.6).
INTERROGAÇÃO 66
Que é emulação e que é rivalidade?
Resposta
A
imitação se resume em se dedicar alguém por fazer certa coisa, com o objetivo de
não parecer pior que outra pessoa; a rivalidade, no entanto, em estimular e desafiar os outros a fazerem
obras parecidas às suas, com exibicionismo e orgulho. Por isso, o Apóstolo, às vezes cita a rivalidade e inclui o orgulho, dizendo: Nada façais por espírito de conflito ou de orgulho (Fl 2,3), outras vezes, tendo feito menção
do orgulho, depois impede a rivalidade, sob
outro nome, dizendo: Não
sejamos desejosos de orgulho. Nada de desafio entre nós (Gl 5,26).
INTERROGAÇÃO 67
Que é imundície e que é impureza?
Resposta
A
lei se refere à sujeira, usando esta expressão
para os acontecimentos
necessários e involuntários da natureza. Parece-me que o sábio Salomão indica a sujeira quando fala do sensual e do que não suporta a dor, de modo que sujeira seria uma atitude de espírito que não sofre ou não
suporta a dor própria do
combate, como falta de controle
é não ter o domínio sobre os prazeres que nos atacam.
INTERROGAÇÃO 68
Que é próprio do furor ou da justa indignação? Como é que,
frequentemente, começando pela indignação, encontramo-nos enfurecidos?
Resposta
É
característico do furor o impulso da alma com a intenção de
fazer mal àquele que nos irritou; é característico da revolta sensata, a justa indignação, buscar a correção do pecador, devido ao
profundo desgosto perante o acontecido. Não é de admirar que a alma comece bem
e caia para o mal; é fácil
encontrar muitos exemplos disto. É
preciso lembrar-se das Escrituras divinas que dizem: Junto ao caminho me
colocam obstáculos (Sl
139,6), e ainda: Também o que luta nos jogos públicos não é premiado, se não tiver lutado
segundo as regras (2Tm 2,5); e cuidar-se
sempre da falta de equilíbrio,
de ocasião e de ordem. Por
esta razão, o que acaba de
ser mencionado, embora tenha
aparência de bem, com frequência se
transforma em mal.
INTERROGAÇÃO 69
Como agir com aquele que não come menos que os outros, nem consta estar
inválido ou doente, mas se queixa de falta de forças para o trabalho?
Resposta
Todo
motivo para preguiça é motivo para pecado; porque é
preciso mostrar dedicação até
à morte, e da mesma forma
paciência. É evidente que a preguiça unida à maldade condena o preguiçoso, como se conclui das palavras do Senhor:
Servo mau e preguiçoso! (Mt 25,26).
INTERROGAÇÃO 70
Como deve ser tratado o que faz mau uso das vestes e dos calçados; se for
repreendido, suspeita-se haver em quem o repreende parcimônia ou murmuração. Que
convém fazer- lhe, se, depois da segunda e terceira admoestação justa,
continuar do mesmo modo?
Resposta
O Apóstolo retira o desleixo ao dizer: Os que usam deste mundo, mas como
se dele não usassem (1Cor 7,31). A medida dos gastos é a necessidade obrigatória; o que passa da necessidade é doença: apego ao dinheiro, prazer exagerado ou orgulho. Se alguém continuar no pecado, sofrerá a
condenação de quem não faz arrependimento.
INTERROGAÇÃO 71
Há alguns que procuram mais o sabor dos alimentos do que a quantidade;
outros, porém, mais a quantidade do que o sabor, a fim de se saciarem. Como
proceder para com ambos?
Resposta
Os
dois
estão doentes; uns de prazer,
outros de ganância. Nem o sensual, nem o desejoso de uma coisa qualquer
evita a condenação. Os dois
precisam ser cuidados com compaixão,
para se curarem. Se não se recuperarem
da doença, certamente
sofrerão a condenação dos que não fazem arrependimento.
INTERROGAÇÃO 72
Se alguém, ao tomar a refeição em comunidade, se comportar sem polidez,
comendo e bebendo vorazmente, deve ser repreendido?
Resposta
Essa pessoa não obedece o mandamento do Apóstolo que diz: Quer comais, quer
bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1Cor
10,31), e ainda: Faça-se tudo
com respeito e ordem (1Cor
14,40), e precisa de ajuste.
A não ser que haja necessidade
de trabalho ou pressa; mas ainda assim, fuja-se cuidadosamente do que possa causar má
impressão.
INTERROGAÇÃO 73
Como deve ser corrigido quem repreender um delinquente não pelo desejo de
correção fraterna, mas com sentimento de vingança, se, muitas vezes admoestado,
persistir no mesmo vício?
Resposta
Seja considerado egoísta
e desejoso de poder; indique-se a ele o modo de se melhorar, segundo o conhecimento da devoção. Se continuar no mal, é evidente que
sofrerá o castigo dos que não se arrependem.
INTERROGAÇÃO 74
Devem ser separados dos demais os que se apartam da comunidade e querem
viver uma vida solitária, ou seguir, na companhia de poucos, o mesmo escopo de
piedade? Desejamos saber o que ensina a Escritura.
Resposta
Tendo
dito muitas vezes: O Filho por
si mesmo não pode fazer coisa alguma (Jo 5,19) e: Desci do céu, não para fazer
a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou, o Pai (ibid. 6,38) e
segundo o relato do Apóstolo:
Porque os desejos da natureza
humana se opõem aos do Espírito, e estes aos da natureza humana; pois são contrários uns aos outros.
É por isso que não fazemos o que queremos (Gl 5,17), tudo o que se escolhe
segundo a própria vontade é contrário
à vida dos que praticam a devoção.
A este respeito respondemos nas explicações mais longas.
INTERROGAÇÃO 75
Se convém dizer que Satanás é a causa de todos os pecados, por pensamentos,
palavras e obras.
Resposta
De
modo geral, penso que, por si mesmo, o diabo não pode ser a causa de pecado de outra pessoa; ora aproveita os impulsos naturais, ora os desejos proibidos, e por eles tenta levar os que não estão atentos aos resultados próprios dos vícios. Usa dos impulsos naturais, como tentou
fazer em relação ao Senhor, ao notar que estava faminto, dizendo: Se és o Filho
de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães (Mt 4,3). Emprega os sentimentos proibidos, como o
fez com Judas; porque, percebendo que sofria do apego da ganância, aproveitou-se desta fraqueza e empurrou o ganancioso ao crime da traição,
por meio de trinta moedas de prata. Mostra claramente o Senhor que também os
males vêm de nós mesmos: É do
coração que saem os maus
pensamentos (Mt 15,19). É o que acontece àqueles que, por descuido, deixam sem cuidar as boas sementes
naturais, conforme foi dito nos Provérbios: Como um campo, o homem sem juízo, e como uma vinha, o
homem tolo. Se o deixares,
tornar-se-á um deserto e encher-se-á de mato e ficará abandonado (Pr 24,30.31, LXX). A alma
que, por tal falta de cuidado,
permanece sem cultivo e
abandonada, inevitavelmente produzirá espinhos e mato seco e sofrerá o que foi dito: Eu esperava
vê-la produzir uvas, ela não deu senão uvas verdes (Is 5,4). Dela foi dito
anteriormente: Eu plantei uma vinha de Sorec (ibid. 2), isto é, escolhida. Coisa parecida acha-se em Jeremias,
que fala em nome de Deus: Eu que te havia plantado de plantas escolhidas, todas de boa origem; como te transformaste
em galhos ruins de uma
videira estranha (Jr 2,22)?
INTERROGAÇÃO 76
Se é lícito mentir por utilidade.
Resposta
A
decisão do Senhor não o
permite, uma vez que disse vir
do diabo a mentira (Jo 8,44),
sem fazer diferenças em assuntos de mentira. Da mesma forma o Apóstolo o confirma, ao escrever: Também o
que luta nos jogos públicos não
é premiado, se não tiver
lutado segundo as regras (2Tm 2,5).
INTERROGAÇÃO 77
Que é dolo, e que é malignidade?
Resposta
A malignidade é, a
meu ver, a maldade antiga e escondida dos costumes; o engano, porém, é o esforço em armar armadilhas, isto é, quando alguém fingiu um bem qualquer e o
apresenta a outra pessoa,
como isca, e assim lhe arma emboscadas.
INTERROGAÇÃO 78
Quem é inventor de maldades?
Resposta
Aqueles que, além
dos males habituais e conhecidos de muitos, inventam e encontram ainda outros.
INTERROGAÇÃO 79
Como corrigir alguém que é com frequência surpreendido a tratar com
dureza um irmão?
Resposta
O
acontecimento vem, a meu ver, da falsa ideia de ser melhor ou da tristeza por causa dos erros daqueles que deviam agir
bem. Diante de um acontecimento incômodo
e contrário ao bem que esperava, a alma, não sei como, é atingida com maior força. É preciso, então, maior
cuidado, a fim de, no primeiro caso, segurarmos o vício do orgulho; no segundo, antes que cheguemos à revolta, demonstremos compaixão, com conselhos e avisos. Se, porém, este tratamento foi sem efeito, por causa da maldade do vício escondido, por fim, usemos de
modo correto a ocasião da força da revolta, unida à compaixão, para a utilidade e melhora do pecador.
INTERROGAÇÃO 80
Por que, de certo modo, faltam a nossa mente bons pensamentos e cuidados
agradáveis a Deus, e como evitaremos isto?
Resposta
Se Davi disse: Pegou no sono de tristeza a minha
alma (Sl 118,28) é bem evidente que isto acontece devido à preguiça e à falta de sentimento da alma. À
alma atenta e lúcida não podem faltar a preocupação agradável a Deus e
os bons pensamentos; ao contrário, vê que ela é que lhes falta. Se os olhos do
corpo não bastam para a observação,
até mesmo de poucas obras de Deus, nem por ter visto uma vez se enchem, mas ainda que sempre
olhem a mesma coisa, não se cansam de olhar, com maior razão os olhos da alma,
se atentos e despertos, são
insuficientes para a observação
das maravilhas e das decisões
de Deus. Vossas decisões,
diz-se, são profundas como o mar (Sl 35,7) e em outra parte: Conhecimento assim
maravilhoso me supera, ele é
tão alto que não posso alcançá-lo (Sl 138,6) etc. Se
faltarem à alma os bons pensamentos, é claro que ainda precisa de luz; não significa isto que falte o que dá luz, e sim, que dorme aquele que deve receber a luz.
O que você destaca no texto?
O que você destaca na fala do seus irmão/ã?
Como serve para sua vida espiritual?