terça-feira, 28 de julho de 2020

143 - Cipriano de Cartago (210-258) A Conduta das Virgens - 1 a 4


Santa Agnes, por Domenichino
Agnes de Roma (291-304)

143
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Cipriano de Cartago (210-258)
A Conduta das Virgens - 1 a 4


Introdução:
Talvez este tratado seja anterior a seu episcopado (248-249). O texto é uma exortação às consagradas a estarem atentas à vaidade e aos vícios pagãos. Uma verdadeira vida ascética manifesta-se no portar-se e no que se porta. A obra é inspirada no De cultu feminarum de Tertuliano.

1. Vantagens, utilidade e fim da disciplina
A disciplina, guarda da esperança, laço da fé, guia no caminho da salvação, incentivo e alimento da boa índole, mestra da virtude, faz permanecer no Cristo, viver sempre e continuamente para Deus, faz obter as promessas celestes e os prêmios divinos. Segui-la  é salutar; desviar-se dela, negligenciá-la, é mortal. Nos Salmos, diz o Espírito Santo: “Abraçai a disciplina, para que o Senhor não se ire, e não pereçais fora do caminho reto, quando daqui a pouco se incendiar contra vós a sua ira”.[ Sl 2,12.] E, de novo: “Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tens a minha aliança na tua boca? Tu que aborreces a disciplina e rejeitaste as minhas palavras”.[ Sl 50(49),16-17.]
E, mais uma vez, lemos: “É desgraçado aquele que rejeita a disciplina”.[ Sb 3,11.] Também de Salomão recebemos as [mesmas] recomendações de sabedoria: “Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama”.[ Pv 3,11-12.] Por conseguinte, se Deus castiga a quem ama, e castiga para que se corrija, também os irmãos e, principalmente, os sacerdotes não odeiam, mas amam aqueles mesmos que estes castigam para que se emendem, visto que o próprio Deus, por Jeremias, prenunciou os nossos tempos, quando disse: “E vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com a disciplina”.[ Jr 3,15.]
Se a Sagrada Escritura frequentemente e em diversas passagens recomenda a disciplina, e se o fundamento da religião e da fé começa pela observância e pelo temor, que mais ardentemente desejar, que mais nos convém querer e possuir do que – lançando raízes mais profundas e consolidando as nossas moradas com forte edificação sobre a pedra – permanecermos inabaláveis diante das procelas e tempestades do século e alcançarmos os dons de Deus pela observância de seus preceitos?
Consideremos e reconheçamos que os nossos membros, purificados de todo vestígio do antigo contágio pela santificação do batismo vivificante, são templos de Deus, e que não nos é lícito violá-los ou maculá-los, pois quem os profana será também profanado. Somos os adoradores e os pontífices desses templos; sirvamos àquele de quem já começamos a ser propriedade.
Diz São Paulo em suas epístolas, onde nos instruiu com os divinos ensinamentos para a carreira da vida: “Não pertenceis a vós mesmos: fostes comprados por alto preço; glorificai e trazei a Deus no vosso corpo”.[ 2Cor 6,19-20.]
Glorifiquemos e tenhamos a Deus num corpo imaculado e puro, e com melhores costumes. Remidos pelo sangue de Cristo, obedeçamos ao mandato do Redentor com total submissão e acautelemo-nos para que não se introduza algo de impuro ou profano no templo de Deus, para que ele, ofendido, não venha a abandonar a sua morada. “Olha, que foste curado; não tornes a pecar, para que não te suceda coisa pior”,[ Jo 5,14.] são palavras do Senhor, que salva, ensina, cura e aconselha.
Depois de haver concedido a saúde, dá a vida temente a Deus, a lei da inocência e, ameaçando com mais pesada escravidão, não permite vaguearem a rédeas soltas os que antes sanara. Pois é menor a culpa de teres pecado antes de conhecer a disciplina de Deus, [mas] nem mesmo é possível admitir que se peque depois que se começa a conhecê-lo.
A isto atentem tanto os homens quanto as mulheres, os moços e as moças, qualquer sexo ou idade, e, pela religião e fé devidas a Deus, cuidem em conservar com temor não menos sólido o dom santo e puro recebido da misericórdia do Senhor.

2. A beleza da virgindade
Agora falamos às virgens, a quem devemos tanto maior cuidado quanto mais sublime é a sua glória. São elas a flor da semente da Igreja, beleza e honra da graça espiritual, índole feliz, obra íntegra e incorrupta, digna de louvor e estima, imagem de Deus correspondendo à santidade do Senhor, a mais ilustre porção do rebanho de Cristo.
Alegra-se por elas, e nelas profusamente floresce a gloriosa fecundidade da Igreja, nossa mãe, e quanto mais cresce o número das virgens, tanto maior é o gáudio da mãe. Falamos às virgens, exortamo-las mais por afeto do que em razão de nosso poder; não que, sendo os últimos e os menores, conscientes de nossa abjeção, reivindiquemos algum direito de censurar os abusos, mas porque, quanto mais prudentes somos em nossa solicitude, mais receamos o ataque do demônio.
Não é vã essa precaução, nem inútil esse receio que velam pelo caminho da salvação, guardam os preceitos vivificantes do Senhor, a fim de que aquelas que se dedicaram ao Cristo e – renunciando à concupiscência carnal – consagraram a Deus seu corpo e sua alma consumam a sua obra destinada a grande recompensa.
E, assim, não mais se apliquem a ornar-se, nem a agradar a quem quer que seja, a não ser ao seu Senhor, do qual esperam a recompensa de sua virgindade, porquanto ele mesmo diz: “Nem todos compreendem essa palavra, mas só aqueles a quem foi dado compreendê-la: há eunucos que assim nasceram do seio materno, há eunucos que a isso foram reduzidos pelos homens, e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus”.[ Mt 19,11-12.]
Enfim, o valor da continência é também manifestado por estas palavras do anjo, pregando a virgindade: “Estes são os que não se mancharam com mulheres: são virgens e seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá”.[ Ap 14,4.]
E Deus não prometeu a graça da continência somente aos homens, negligenciando as mulheres; mas porque a mulher é uma parte do homem e porque dele é tirada e formada,[ Cf. Gn 2,21-22.] em quase todas as Escrituras Deus se dirige àquele que foi formado primeiro, por serem dois numa só carne,[ Cf. Gn 2,24; Mt 19,6.] e pelo masculino se designa também a mulher.

4. Os perigos das vaidades
Mas, se a continência segue o Cristo e a virgindade é destinada ao Reino de Deus, o que têm elas a ver com os cuidados mundanos e os ornamentos, pelos quais procuram agradar aos homens e ofendem a Deus? Não refletem na predição [do profeta]: “os que agradam aos homens foram confundidos porque Deus os reduziu a nada”?[ Sl 53(52),6.] Nem na pregação sublime e gloriosa de Paulo: “Se procurasse agradar aos homens, não seria servo do Cristo”?[ Gl 1,10.]
De fato, continência e pureza não consistem apenas na integridade da carne, mas também na dignidade e no pudor dos costumes e dos ornamentos, a fim de que, segundo diz o Apóstolo, a mulher não casada seja santa de corpo e de alma. Ensina São Paulo: “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor e procura agradar a Deus; mas quem contraiu matrimônio cuida das coisas deste mundo e procura agradar à mulher.
Destarte, a virgem e a mulher não casada cuidam das coisas do Senhor e procuram ser santas de corpo e alma”.[ 1Cor 7,32ss.] A virgem não deve simplesmente ser virgem, mas conhecida e acreditada como tal.
Que ninguém, ao ver uma virgem, possa duvidar da sua virgindade. Mostre-se igualmente a integridade em todas as coisas, e os cuidados do corpo não desonrem o bem da alma. Por que se apresenta ornada, ataviada como se tivesse marido ou como se o procurasse?
Se é virgem, antes receie agradar [aos outros pelos ornamentos]; não incorra nesse risco aquela que se guarda para realidades melhores e divinas. Aquela que não tem esposo, a quem pretenda agradar, persevere íntegra e pura, não só corporal, mas também espiritualmente. Não é permitido a uma virgem ornar-se para parecer mais bela ou gloriar-se do corpo e de sua beleza, pois ela não tem luta maior que aquela contra a carne, nem certame mais pertinaz senão para vencer e domar o corpo.
Paulo proclama em alto e bom som: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”;[ Gl 6,14.] e a virgem na Igreja se gloria da formosura da carne e da beleza do corpo! Paulo acrescenta: “Os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as paixões e as concupiscências”;[1Gl 5,24.] e aquela que professa haver renunciado às concupiscências e vícios da carne é encontrada nessas mesmas coisas a que renunciara! Foste surpreendida, ó virgem, foste descoberta: te vanglorias de uma coisa e procuras outra.
Manchas-te com as nódoas da concupiscência carnal, embora te apresentes à integridade e ao pudor. “Clama”, diz Deus a Isaías, “toda carne é feno e toda sua glória é como a flor do feno! O feno secou, e a flor caiu, mas a palavra do Senhor permanece eternamente”.[Is 40,6ss.] A nenhum cristão convém, muito menos a uma virgem, contar com algum brilho e honra da carne, mas só desejar a palavra de Deus, alcançar os bens que hão de permanecer para sempre.
Se há motivo de gloriar-se na carne, seja então quando ela é atormentada na confissão do nome [do Senhor], quando a mulher se torna mais forte do que os homens que a torturam, quando suporta o fogo, as cruzes, a espada ou as feras, a fim de ser coroada.
Essas são as joias preciosas da carne, são estes os seus melhores ornamentos do corpo. Existem, porém, algumas, ricas e opulentas pela abundância de bens, que ostentam as suas riquezas e afirmam que devem fazer uso delas. Saibam, antes de tudo, que é rico quem o é em Deus, que é opulento quem o é no Cristo; que os verdadeiros bens são os divinos, os espirituais, os celestes, que nos levam a Deus e que permanecem conosco na posse eterna junto dele.
Quaisquer outros bens terrenos, recebidos neste mundo e que hão de ficar com este mundo, devem ser desprezados na mesma medida em que se despreza o mundo, a cujas pompas e delícias já renunciamos quando, por melhor caminho, voltamos a Deus. São João nos desperta e exorta com voz espiritual e celeste, afirmando: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo.
Quem ama o mundo não tem em si o amor do Pai; porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isso não vem do Pai, mas da concupiscência do mundo.
Passará o mundo e a sua concupiscência, mas quem fizer a vontade de Deus permanece eternamente, como também Deus permanece para sempre”.[ 1Jo 2,15-17.] Por conseguinte, devemos desejar as realidades divinas e eternas, e fazer tudo o que for da vontade de Deus, a fim de seguir os passos e os ensinamentos de nosso Senhor, que advertiu dizendo: “Não desci do céu para cumprir a minha vontade, mas sim a vontade daquele que me enviou”;[ Jo 6,38.] e se o servo não é maior que o seu senhor e se o liberto deve obséquio ao seu libertador, os que desejamos ser cristãos devemos imitar o que o Cristo disse.
Está escrito e lê-se e ouve-se e, para exemplo nosso, repete-se pela boca da Igreja: “Quem afirma estar no Cristo deve também caminhar assim como ele caminhou”.[ 1Jo 11,6.] Devemos caminhar com passos iguais, esforçar-nos por imitar-lhe o andar. Então, à fé expressa corresponderá a sequela da verdade e o prêmio será dado ao crente, se pratica aquilo em que crê.

5. As vaidades alimentadas pela riqueza
Dizes que és rica e opulenta; mas Paulo opõe-se às tuas riquezas e com sua própria voz ordena que os teus cuidados e adornos devem ser moderados por um justo limite. “As mulheres” – diz ele – “ataviem-se com recato e modéstia, e não venham com cabelos frisados, adereços de ouro, pérolas e vestidos de luxo; mas com boa conversação, como convém a mulheres que fazem profissão de castidade”.[ 1Tm 3,9-10.]
Concordando com os mesmos preceitos, diz também Pedro: “Que não haja na mulher um adorno exterior de ouro ou de vestuário, mas antes o ornato do coração”.[ 1Pd 3,3.4.] Se eles advertem que devem ser corrigidas e levadas à disciplina eclesiástica por um viver religioso as mulheres que costumam apresentar o marido como desculpa dos seus cuidados exagerados, quanto mais justo é que a virgem o observe.
No seu caso, os atavios não encontram desculpa, nem o disfarce da culpa pode ser atribuído a outrem, mas permanece ela sozinha no delito. Dizes que és rica e opulenta; mas nem tudo o que se pode deve-se fazer, nem os desejos fúteis ou provenientes de ambição mundana devem ultrapassar a honra e o pudor da virgindade, porque está escrito: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica”.[ 1Cor 10,23.]
De resto, se tu te penteias luxuosamente, se andas em público com ostentação, se seduzes os olhares dos jovens, se atrais os suspiros dos adolescentes, se nutres a paixão, se inflamas os incentivos do desejo, de modo que, embora não te percas, leves outros à perdição, oferecendo-te como gládio e como veneno aos que te contemplam, não te podes desculpar como sendo casta e pudica em espírito.
O luxo inconveniente e o ornato impudico acusam-te [de falsidade]. Já não podes ser contada entre as donzelas e virgens de Cristo, pois vives de modo a poder suscitar paixão. Dizes que és rica e opulenta; mas não convém à virgem gabar-se de suas riquezas, porquanto diz a Sagrada Escritura: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas?
Todas elas passaram como sombra”,[ Sb 5,8.] e o Apóstolo, além disso, adverte: “E os que compram sejam como se não comprassem, os que possuem como se não possuíssem, e os que usam deste mundo como se não usassem; porque passa a figura deste mundo”.[ 2Cor 7,30,] Pedro, por sua vez – a quem o Senhor confia o pastoreio e a guarda de suas ovelhas, sobre quem firmou e fundou a Igreja –, afirma não possuir ouro nem prata, porém ser rico da graça do Cristo, opulento na fé e na força dele, pelas quais milagrosamente faria numerosos prodígios, pelas quais abundaria em bens espirituais para a graça da glória.
Não pode possuir tais bens e riquezas aquela que prefere ser rica para o mundo a sê-lo para o Cristo. Dizes que és rica e opulenta, e julgas que deves usar das posses que Deus te concedeu. Usa-as, mas em coisas proveitosas. Usa-as, mas em boas obras. Faze uso delas, mas para o fim que Deus ordenou e que o Senhor manifestou: que os pobres reconheçam que és rica; os indigentes reconheçam que és opulenta; de teu patrimônio empresta a Deus com juros, alimenta o Cristo.[ Cf. Mt 25,34ss.]
Para que possas conservar até o fim a glória da virgindade e chegues a obter a recompensa do Senhor, roga com as orações de muitos. Deposita os teus bens lá onde nenhum ladrão os desenterre, onde nenhum salteador de emboscada faça irrupção. Junta de preferência riquezas celestiais, cujos lucros perenes, inesgotáveis e livres de qualquer influência prejudicial do século a ferrugem não gasta, o granizo não fere, o sol não queima, nem a chuva faz apodrecer. Pois pecas, e contra Deus, se julgas que ele te concedeu as riquezas para que delas fizesses um uso que não fosse salutar.
Com efeito, foi Deus quem deu a voz ao homem, mas nem por isso se deve cantar coisas dissolutas ou indignas. Deus quis que o ferro existisse para a cultura da terra e nem por isso se devem cometer homicídios. Ou, então, porque Deus criou o incenso, o vinho e o fogo deveis sacrificar aos ídolos? Ou imolar vítimas e holocaustos aos deuses porque abundam os rebanhos de ovelhas nos teus campos?
Na verdade, um grande patrimônio é uma tentação, se a fortuna não servir para boas obras, de modo que, cada qual, quanto mais rico for, tanto mais deve resgatar os pecados com o seu patrimônio, em vez de aumentá-los.

O que você destaca no texto?
Como é útil para sua espiritualidade?












terça-feira, 21 de julho de 2020

A vida de Francisco de Assis a partir de Tomás de Celano - Ir. Edson Cortasio Sardinha Partes 3 e 4 Aprovação da Igreja e Viagens e Expansão


A vida de Francisco de Assis a partir de Tomás de Celano
Ir. Edson Cortasio Sardinha
Partes 3 e 4

Aprovação da Igreja e Viagens e Expansão

Franciscanos - Província São Maximilliano Maria Kolbe - Quem é São ... 


3. Aprovação da Igreja
            Francisco desejava viver integralmente o Evangelho. Como o número de discípulos aumentava, “escreveu para si e para seus irmãos, presentes e futuros, com simplicidade e com poucas palavras, uma forma e Regra de vida, usando, principalmente, expressões do santo Evangelho” (1Cel 13.32.1). Depois da Regra pronta, levou-a, com os seus discípulos, a Roma, para que o Papa Inocêncio III a aprovasse. Era o ano de 1209.
Nesta época, o amigo e bispo de Assis, Guido, estava em Roma; num primeiro momento, Guido não “gostou” da presença de Francisco e seus amigos em Roma, pois achava que estavam abandonando Assis. Para Tomás de Celano, o motivo do desagrado estava no fato de que o bispo desejava muito o trabalho de Francisco e seus discípulos em Assis (1Cel 13.32.5,6): “Gostava muito de ter esses homens de valor em sua diocese e esperava muito de sua vida e de seus bons costumes”. Contudo, quando soube o motivo da ida a Roma, ficou alegre e prometeu “seu apoio e influência”. Francisco também teve o apoio do bispo de Sabina, João de São Paulo, homem que se destacava de “entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana”; contudo, Bispo João também tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica...
Como Francisco permaneceu firme em seu propósito, “procurou apoiar sua causa diante do Papa” (1Cel 13.33.4). No primeiro encontro com o Papa, este achou sua vida muito dura e difícil e lhe disse: “Meu filho, pede a Cristo que nos manifeste sua vontade, para que, conhecendo-a, possamos concordar com maior segurança com os teus piedosos desejos” (2Cel 16.1). Francisco foi orar e Deus lhe deu uma parábola para falar ao Papa:

Francisco, dirás isto ao Papa: uma mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto. Um rei se apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, desposou-a todo feliz e teve com ela filhos belíssimos. Quando já estavam adultos e nobremente educados, a mãe lhes disse: “Não vos envergonheis, meus queridos, porque sois pobres, pois sois todos filhos daquele grande rei. Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que precisais’. Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era parecido com o deles.  Vendo neles essa semelhança, o rei perguntou, admirado, de quem eram filhos.  Quando disseram que eram filhos daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo: ‘Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo!  Se até estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda’. Por isso o rei mandou que a mulher levasse todos os seus filhos para serem alimentados em sua corte (2Cel 16.4-13).

             Quando o Papa recebeu esta palavra, lembrou-se de um sonho que teve, onde tinha visto a Basílica de Latrão prestes a ruir, mas sendo sustentada por um religioso, homem pequeno e desprezível, que a sustentava com seu ombro para não cair. “E disse: ‘Na verdade, este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja’” (2Cel 17.5). O Papa entendeu que a obra era de Cristo e confirmou a Regra de Vida de Francisco.

Aceitou o pedido e deu-lhe despacho. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: “Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos o arrependimento. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores” (1Cel 13.33.7,8). 

            Mais tarde, Francisco teve um sonho, que entendeu ser uma revelação de Deus. No Senhor, ele crescia e ficava da altura de uma árvore de grande porte. Uma árvore bela e forte, grossa e muito alta. Francisco, com suas mãos, conseguia “vergá-la facilmente até o chão”. Ele entendeu que esta árvore era o Papa Inocêncio III que, sendo poderoso, se inclinou com benignidade e atendeu à sua vontade. Em Roma, aproveitaram para visitar o Túmulo de São Pedro e, depois, retornaram para o Vale de Espoleto. No caminho, discutiam sobre a vida da nova Ordem que nascia, de acordo com o Evangelho. Chegaram a um lugar solitário e não tinham nada para comer. Um homem os encontrou e lhes deu pão e se foi. Viram este gesto como um milagre da providência divina. Finalmente, chegaram a um lugar perto de Orte, e “ali ficaram quase quinze dias”. Para terem o que comer, iam à cidade e pediam, de porta em porta, alimentos. Os alimentos que sobravam guardavam em um sepulcro para comerem depois (1Cel 14.34). 
            Essas experiências levaram os discípulos e Francisco a louvarem a Deus por nada possuírem: a pobreza era uma liberdade espiritual. “Pondo de lado toda solicitude pelos bens terrenos, só lhes interessava a consolação de Deus. Por isso, resolveram, com firmeza, não se apartar dos braços da pobreza, por maiores que fossem as tribulações e tentações” (1Cel 14.35). Certa vez, tentou destruir uma casa em Porciúncula, que estava sendo levantada para a reunião do Capítulo dos Irmãos Menores.

Quando o santo voltou e viu a casa, levando a mal, não sofreu pouco. Levantou-se para ser o primeiro a eliminar o edifício. Subiu ao telhado e pôs abaixo telhas e cobertura com mão forte. Mandou os frades subirem também para acabar de uma vez com aquele monstro contrário à pobreza. Porque dizia que logo se haveria de espalhar pela Ordem e ser tomado por exemplo tudo que se visse de mais pretensioso naquele lugar. Teria acabado de uma vez com o prédio se os soldados que lá estavam não tivessem feito frente ao seu fervor dizendo que ele pertencia à comuna e não aos frades. (2Cel 57.1-6).

            Com a autorização de Roma, Francisco teve mais vigor para pregar o Evangelho e exortar o povo cristão à conversão. Sua pregação era direta e vigorosa.

Valoroso soldado de Cristo, Francisco percorria as cidades e povoados anunciando o reino de Deus, proclamando a paz, pregando a salvação e a penitência para a remissão dos pecados, sem usar os argumentos da sabedoria humana, mas a doutrina e a força do Espírito. Apoiado na autorização apostólica que lhe fora concedida, agia em tudo destemidamente, sem adular nem tentar seduzir ninguém com moleza. Não sabia lisonjear as culpas de ninguém, mas pungi-las. Não tentava desculpar a vida dos pecadores, mas atacava-os com áspera reprimenda, tanto mais que tinha posto primeiro em prática as coisas que aconselhava aos outros. Sem medo de que o repreendessem, anunciava a verdade destemidamente, de maneira que até os homens mais letrados, que gozavam de renome e dignidade, admiravam seus sermões e em sua presença sentiam-se possuídos de temor salutar. (1Cel 15.36.1-3)

            Não apenas leigos, mas também clérigos, procuravam ouvir os sermões de Francisco. Tinha tanta persuasão, que suas mensagens pareciam “fluir de uma luz” vinda de Deus. “Brilhava como uma estrela fulgente na escuridão da noite e como a aurora que se estende sobre as trevas” (1Cel 14.37). Ocorreram, assim, muitas conversões em toda a região, de nobres e plebeus, sacerdotes e leigos, homens e mulheres – pessoas de toda parte desejavam seguir este novo modo de vida.
A Ordem cresceu e passou a ser chamada de “Ordem dos Frades Menores”: foi o próprio Francisco que lhe deu o nome. “Quando estavam escrevendo na Regra: ‘e sejam menores’, ao ouvir essas palavras disse: ‘Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos Frades Menores’ (1Cel 14.38). O nome “Menor” estava ligado ao fato de que a espiritualidade da Ordem foi baseada na verdadeira humildade: sempre procurava os piores lugares e fazer o que os outros detestavam. O carisma da Ordem era servir a Deus e ao próximo com um coração verdadeiramente pobre. A Ordem estava baseada na alegria, na comunhão de seus membros e na obediência. Não tinham nada e nada desejavam:  eram contentes com suas únicas túnicas – algumas vezes, remendadas por dentro e por fora. “Cingiam-se com uma corda e usavam calças de pano rude” (1Cel 14.39.7). Não possuíam abrigos contra o frio; durante o dia, trabalhavam e serviam aos leprosos. Preferiam trabalhar em lugares onde eram perseguidos. “Foram muitas vezes cobertos de opróbrios e de ofensas, despidos, açoitados, amarrados, encarcerados, sem recorrer à proteção de ninguém, e suportavam tudo varonilmente, vindo à sua boca apenas a voz do louvor e da ação de graças” (1Cel 14.40).
            Para permanecerem em oração durante a noite, se apoiavam em cordas suspensas; uns usavam cilícios de metal e outros amarravam madeiras na cintura para mantê-los alertas. Lutavam, também, contra os apelos da carne: “Punham tanto esforço em reprimir as tentações da carne, que, muitas vezes, não se horrorizavam de despir-se no gelo mais frio, nem de molhar o corpo todo com o sangue derramado por duros espinhos” (1Cel 14.40).

4. Viagens e Expansão
                Francisco e seus discípulos se recolheram em um lugar perto de Assis, chamado Rivotorto, no ano de 1210. Passaram a viver numa cabana abandonada e, neste lugar, viveram muitas privações. Esta casa passou a ser um lugar de discipulado e busca da perfeição cristã para Francisco e seus discípulos. A “cabana dos Irmãos Menores” ficava na beira da estrada; o Imperador Otão passou em frente à cabana para receber a coroa do Império e, “apesar do enorme ruído e pompa, o santo pai e seus companheiros, cuja cabana ficava à beira do caminho, nem saíram para vê-lo, nem permitiram que ninguém olhasse, a não ser um, a quem mandou para anunciar-lhe repetidamente que sua glória ia durar pouco” (1Cel 16.44).  Francisco “sentia-se investido de autoridade apostólica e, por isso, se recusava absolutamente a bajular reis e príncipes”.
            A cabana era muito estreita e Francisco teve que escrever o nome dos irmãos nos caibros da cabana, para que cada um soubesse seu lugar, “quando quisesse orar ou repousar, e não se perturbasse o silêncio espiritual pela estreiteza do ambiente”. Certa vez, apareceu um camponês que intencionava reformar a cabana e construir casas para os frades. Francisco ficou tão chocado com a ideia, que resolveu abandonar o lugar.  Deixou Rivotorto e foi morar em Porciúncula, onde havia reparado uma igreja. Francisco entendia que, para possuir tudo no Senhor, em maior plenitude, precisava abrir mão de tudo e não possuir propriedade nenhuma. Em Porciúncula, os discípulos de Francisco pediram para que ele os ensinasse a orar e Francisco respondeu-lhes: “Quando orardes, dizei: ‘Pai nosso’ e ‘Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as vossas igrejas que estão pelo mundo inteiro, e vos bendizemos, porque por vossa santa cruz remistes o mundo” (1Cel 17.45). Esta oração passou a ser praticada pelos seus frades diariamente: em qualquer lugar onde houvesse uma igreja, mesmo que não entrassem nela, contanto que a pudessem ver de longe, prostravam-se por terra na sua direção e, inclinados de corpo e alma, adoravam o Todo-Poderoso, dizendo: “Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as vossas igrejas, porque pela sua santa cruz remistes o mundo”. “E, o que não é menos para se admirar, faziam o mesmo onde quer que vissem uma cruz ou seu sinal: no chão, numa parede, nas árvores ou nas cercas do caminho” (1Cel 17.45).
            Em Porciúncula, existia um padre de má fama. Eles procuravam o padre regularmente, para confessarem seus pecados. Apesar de serem alertados pela população sobre a conduta má do padre, eles, simplesmente, se recusaram a acreditar e continuaram honrando o padre e confessando a ele seus pecados. Certa noite, durante a oração do Pai Nosso cantada, Francisco teve um êxtase: quando chegou a meia noite, “entrou pela pequena porta um rutilante carro de fogo, deu duas ou três voltas para cá e para lá na casa, tendo, sobre ele, um globo enorme, que era parecido com o sol, e iluminou a noite” (1Cel 18.47). Os frades entenderam que era uma graça especial de Deus concedida a Francisco, que estava em êxtase de oração.
Francisco recebeu de Deus o dom da revelação e da profecia: Deus lhe revelava a vida secreta dos frades e anunciava eventos vindouros; com isso, podia orientar seus discípulos com relação à disciplina cristã. Passou a ter uma vida com muito rigor ascético: proibia seus discípulos de possuir objetos – até mesmo um prato ou uma caneca. Quando ia dormir na casa de alguém, recusava cobertores e preferia dormir no chão. Certa vez, doente, comeu carne de galinha; ao se recuperar da doença, foi até Assis e, chegando à porta da cidade, mandou o frade que o acompanhava que lhe amarrasse uma corda no pescoço e o conduzisse assim, feito um ladrão, por toda a cidade, clamando como um pregoeiro:

 ‘Vejam o comilão, que engordou com carne de galinha, que comeu sem vocês saberem’ ” (1Cel 19.52). Este gesto estranho causou a conversão de muitas pessoas em Assis. Francisco “sentia uma dor imensa quando era venerado por todos e, para se livrar da consideração humana, encarregava alguém de o insultar” (1Cel 19.53).

Quando cometia alguma falta, confessava-a publicamente, durante sua pregação.
            No sexto ano de sua conversão, desejando o martírio, navegou para a Síria com a intenção de pregar o Evangelho aos sarracenos. Contudo, por causa da tempestade no mar, foi parar na Esclavônia. Soube que alguns marinheiros iriam para Ancona e aproveitou para embarcar junto; como não poderia pagar e não conseguiu a passagem, resolveu, em oração, entrar escondido no navio com um companheiro. Um desconhecido passou a dar as provisões necessárias para a viagem, sem que ninguém soubesse. O navio enfrentou uma grande tempestade e a provisão que Francisco recebeu foi multiplicada, ao ponto de suprir a necessidade de todos. Quando chegaram em Ancona, os marinheiros descobriram que foi por causa da intercessão de Francisco que o navio não naufragou e agradeceram a Deus.
Ao chegar em Ancona, Francisco pregou o Evangelho e aconteceram muitas conversões entre leigos e clérigos. Algum tempo depois, empreendeu uma viagem a Marrocos, para pregar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e a seus sequazes. “Seu entusiasmo era tanto, que, às vezes, deixava para trás seu companheiro de viagem, na pressa de realizar seu intento, com verdadeira embriaguez espiritual” (1Cel 20.56). Mas, por causa de uma doença, foi impedido de seguir viagem; nesta ocasião, encontrou seu discípulo e primeiro biógrafo Tomás de Celano. Este diz:

Mas o bom Deus lembrou-se, em sua misericórdia, de mim e de muitos outros, e se opôs frontalmente a ele quando já tinha chegado à Espanha, impedindo-o de continuar o caminho, por uma doença que o fez voltar atrás. Não fazia muito tempo que tinha voltado a Santa Maria da Porciúncula, quando alguns homens de letras e alguns nobres juntaram-se a ele com grande satisfação. A estes, sempre educado e discreto, tratou com respeito e dignidade, servindo piedosamente a cada um, conforme lhe cabia (1Cel 20.56 e 57).

            Francisco retornou para Porciúncula e, no décimo terceiro ano de sua conversão, foi para a Síria. Nesta época, estava ocorrendo uma grande batalha entre os cristãos e os mulçumanos; contudo, não teve medo de se apresentar ao sultão dos sarracenos, levando um companheiro. Francisco foi açoitado, mas permaneceu sereno. O Sultão o recebeu muito bem; tentou lhe dar presentes, mas, quando percebeu que Francisco recusava tudo, ficou muito admirado e honrou Francisco. Não ocorreram conversões, mas testemunharam o Evangelho. Logo após, Francisco retornou para sua terra.

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terça-feira, 14 de julho de 2020

142 - Cipriano de Cartago (210-258) Os Lapsos – Partes 10 a 12





142
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Cipriano de Cartago (210-258)
Os Lapsos – Partes 10 a 12



10. Exortação à verdadeira penitência
Cada um, peço-vos, irmãos, confesse o seu pecado enquanto quem pecou ainda está nesta vida, enquanto a sua confissão pode ser recebida, enquanto a penitência e a remissão pelas mãos dos sacerdotes é grata junto a Deus. Convertamo-nos ao Senhor com toda a mente e, exprimindo o arrependimento do pecado com palavras verdadeiras, imploremos a misericórdia de Deus.
 A ele a alma se prosterne, a Ele a tristeza dê satisfação, a ele a esperança se incline. Ele próprio nos diz como devemos rogar: “Retornai a mim com todo o vosso coração e ao mesmo tempo com jejum e choro e pranto, e rasgai vossos corações, não vossas vestes”.[Mc 8,38.]
Voltemos ao Senhor com todo o coração: aplaquemos a sua ira e a ofensa [que cometemos], como ele próprio recomenda, com jejuns, choros e prantos. Podemos, por acaso, considerar que lamenta de todo coração com jejuns, choros e prantos e intercede ao Senhor aquele que, a partir do primeiro dia do pecado, começa a frequentar os banhos públicos; aquele que, empanturrado em iguarias abundantes e espraiado em gordura maior ainda, arrota no dia seguinte as suas indigestões, e não partilha com a necessidade dos pobres seus alimentos e suas bebidas?
Como pode chorar a sua morte aquele que anda alegre e contente? E, mesmo estando escrito: “Não corrompais o aspecto de vossa barba”,[ Lv 19,27.] corta a barba e cobre o rosto de cabelos longos, e procura agradar a todos aquele que desagrada a Deus? Ou, por acaso, se entristece e chora aquela mulher a quem falta vestir o culto da veste preciosa e a veste de Cristo que ela perdeu, aquela mulher que aceita ornamentos preciosos e colares rebuscados, e não chora as perdas dos ornamentos divinos e celestes? Tu, mesmo vestindo indumentárias exóticas e vestes de seda, estás nua; mesmo que te adornes de ouro, de pérolas e joias, és deforme sem o decoro de Cristo.
Tu, que tinges os teus cabelos, pelo menos agora em meio às dores deixa de fazê-lo! Tu, que pintas os lineamentos do olho com o traçado de pós negros, pelo menos agora lava os olhos com lágrimas. Se tivesses perdido algum dos teus queridos em razão do término da sua vida mortal, gemerias de dor e chorarias; mostrarias indícios de aflição mediante a face descuidada, o vestido diverso, o cabelo transcurado, o rosto anuviado, a boca abatida. Perdeste, ó infeliz, a tua alma; morta espiritualmente, começaste a sobreviver aqui para ti e a carregar tu mesma, andando, o teu funeral.
 Por que não choras acremente, não gemes continuamente, não te escondes pela vergonha do pecado ou pela continuidade do lamento? Estas são as feridas piores que o pecado, estas as culpas
maiores: ter pecado e não ter expiado, ter errado e não chorar as culpas. Ananias, Azarias e Misael, meninos ilustres e nobres, nem entre as chamas e os fogos de um caminho ardente deixaram de fazer a confissão de Deus.
Mesmo em boa consciência e frequentemente merecedores de Deus pelo obséquio da fé e do temor, nem entre as penas gloriosas de suas virtudes, deixaram de manter a humildade e agradar ao Senhor. Diz a Escritura Divina: “Estando em pé, Azarias orou e abriu a sua boca, e confessava a Deus com os seus amigos no meio do fogo”.[ Dn 3,25.] Daniel, mesmo após a multíplice graça de sua fé e inocência, mesmo após a repetida benignidade do Senhor acerca de suas virtudes e seus louvores, ainda se esforça por merecer a Deus com jejuns. Envolvido em saco e cinza, faz a confissão com aflição e diz: “Senhor, Deus grande e forte e tremendo, que respeitas o juramento e a misericórdia com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos, pecamos, cometemos a iniquidade, fomos ímpios, transgredimos e abandonamos os teus preceitos e julgamentos.
Não temos escutado dos teus servos profetas as coisas que falaram no teu nome sobre os nossos reis e sobre todos os povos e sobre toda a terra. A ti, Senhor, a ti a justiça, mas a nós a confusão”.[ Dn 9,4-7.] Essas coisas fizeram os mansos, os simples, os inocentes, para merecer a majestade de Deus. Nestes nossos tempos, porém, aqueles que negaram o Senhor recusam-se a fazer penitência e a suplicar ao Senhor. Peço-vos, irmãos, comprazei-vos com os remédios salutares, obedecei aos melhores conselhos. Uni vossas lágrimas às nossas lágrimas, juntai vossos lamentos aos nossos lamentos.
Rogamo-vos de modo que possamos rogar a Deus por vós; endereçamos primeiramente a vós as mesmas preces com as quais suplicamos a Deus que tenha misericórdia de vós. Fazei uma penitência plena, mostrai as aflições de um coração que se aflige e lamenta.

 11. Evitem-se o exemplo dos que não se arrependerame sua companhia
Não vos perturbe o erro imprudente ou o entorpeci mento vão de alguns; os quais, mesmo reféns de um grave pecado, foram feridos pela cegueira da alma, de modo a não entender nem lamentar os pecados. Esta punição de um Deus que se indigna é maior, como está escrito: “E Deus lhes deu o espírito da morte”.[ Is 29,10.] E ainda: “Não receberam o amor da verdade para que sejam salvos; e por isso Deus lhes manda a operação do erro, para que creiam na mentira, para que sejam julgados todos aqueles que não acreditam na verdade, mas se comprazem na injustiça”.[ 2Ts 2,10-12.]
Aqueles que se comprazem indevidamente de si mesmos e enlouquecem no delírio da mente vacilante desprezam os ensinamentos do Senhor, negligenciam a medicina da ferida, se recusam a fazer penitência. Imprudentes diante do pecado cometido, obstinados após o erro, não estáveis antes e não súplices depois, caíram quando deviam estar firmes e acham que devem estar de pé quando deveriam cair e se prosternar a Deus.
Seduzidos por uma falsa promessa e unidos aos apóstatas e aos maus, eles deram a si a paz por si mesmos, sem que outrem a desse; tomam o erro por verdade, reputam justa a comunhão dos que não estão em comunhão: creem nos homens contra Deus aqueles que contra os homens não creram em Deus. Fugi de homens deste tipo o máximo que puderdes, evitai com sã cautela os que aderem aos contatos perniciosos.
O discurso deles serpeia como um câncer, a conversação se espalha como um contágio, a persuasão nociva e venenosa mata, pior que a própria perseguição. Nesse caso, só resta a penitência reparadora, mas aqueles que eliminam a penitência do pecado fecham o caminho da reparação. E assim acontece que, enquanto uma salvação falsa é prometida, ou até mesmo aceita em razão da ousadia de alguns, é tolhida a esperança da salvação verdadeira.

12. Pela penitência e a prática da caridade, busque-se sempre a misericórdia divina
Mas vós, irmãos, cujo temor de Deus é pronto e cujo ânimo, ainda que no erro, reconhece seu próprio mal, olhai os vossos pecados com penitência e com arrependimento, reconhecei o erro gravíssimo da consciência, abri os olhos do coração para o reconhecimento do vosso pecado, não desesperando da misericórdia do Senhor, mas também não exigindo de imediato o perdão. Deus, o quanto é sempre indulgente e bom por sua piedade de pai, tanto deve ser temido pela majestade de juiz.
Quão grandemente pecamos, tão grandemente choremos: para uma ferida profunda não falte uma cura diligente e longa, o arrependimento não seja menor que o pecado. Achas que podes logo aplacar a Deus, que renegaste com palavras pérfidas, a quem preferiste
prepor o patrimônio, cujo templo violaste com contágio sacrílego? Achas que ele tem facilmente misericórdia de ti, tu que disseste que ele não era teu Deus?
É necessário orar e suplicar mais intensamente, transcorrer o dia em luto, passar as
noites em vigílias e prantos, ocupar todo o tempo em lamentações lacrimosas, estender-se pelo solo e espargir-se de cinza, envolver-se com o cilício e as vestes de luto, não querer um vestido depois de ter perdido a indumentária de Cristo, preferir o jejum depois de ter tomado o alimento do diabo, dedicar-se às boas obras com as quais os pecados são purgados, persistir frequentemente nas esmolas com as quais as almas são liberadas da
morte. Aquilo que o adversário tirava, receba-o Cristo, e o patrimônio não deve ser mais possuído nem amado, pois por causa dele foste enganado e vencido.
O patrimônio deve ser evitado como se fosse um inimigo, banido como se fosse um ladrão, temido pelos possuidores como se fosse uma espada e um veneno. Aquilo que restou dele serve somente para que por ele o pecado e a culpa sejam quitados; essa obra deve ser feita sem demora e com prodigalidade, toda a riqueza deve ser despendida em remédio da ferida: o Senhor, que irá nos julgar, receba em empréstimo as nossas riquezas e propriedades. Assim vigorou a fé sob os apóstolos. Assim a primeira comunidade dos crentes observou os ensinamentos de Cristo.
Eram prontos, eram generosos, davam tudo aos apóstolos para ser distribuído, e, mesmo assim, não como resgate para tais pecados. Se alguém rezar com todo o coração, se suspirar com lamentações verdadeiras de penitência e com lágrimas, se inclinar o Senhor ao perdão de seu pecado com obras justas e contínuas, o Senhor pode ter misericórdia disso tudo, ele que manifestou a sua misericórdia dizendo: “Quando, convertido, gemerdes, aí serás salvo e saberás onde foste”.[ Is 30,15.] E ainda: “Não quero a morte de quem está morrendo, mas que volte e viva”. [Ez 18,32.]
E o profeta Joel declara a piedade do Senhor, com o próprio Senhor falando: “Voltai ao Senhor vosso Deus, pois ele é misericordioso, pio, paciente e de muita comiseração, ele que muda a sentença lançada contra as iniquidades”.[ Jl 2,13.] Ele pode mostrar indulgência, ele pode mudar a sua sentença; ele pode perdoar com clemência o penitente, o atuante e o suplicante; ele pode considerar como aceito em favor desses tais tudo aquilo que os mártires pedirem e que os sacerdotes fizerem.
E se alguém o mover ainda mais com suas reparações, se aplacar com justa súplica a sua ira e a ofensa que o indignou, ele dará de volta também as armas com as quais o vencido possa se armar; ele reparará e corroborará as forças com as quais a fé restabelecida se revigorará. Repetirá a luta o seu soldado, retomará a batalha; e, realmente, aquele que pela dor se tornou mais forte para o combate provocará o inimigo.
Quem assim tiver satisfeito Deus, quem, pela penitência do seu agir e pela vergonha da sua culpa, tiver engendrado mais virtude e mais fé a partir da própria dor do seu lapso, este, ouvido e ajudado pelo Senhor, fará alegre a Igreja que tinha recentemente contristado, e não merecerá somente o perdão, mas também a coroa de Deus.

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