terça-feira, 19 de setembro de 2017

28 - Justino Mártir (†165) I Apologia: Capítulos 13 ao 20

28
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
I Apologia: Capítulos 13 ao 20

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Profissão de fé cristã

13. 1 Que não somos ateus, quem estiverem são juízo não o dirá, pois cultuamos o Criador deste universo, do qual dizemos, conforme nos ensinaram, que não tem necessidade de sangue, libações ou incenso. Em lugar de todas as ofertas, nós o louvamos conforme nossas forças, com palavras de oração e ação de graças. Aprendemos que o único louvor digno dele não é queimar no fogo o que por ele foi criado para nosso alimento, mas oferecê-lo para nós mesmos e para os necessitados. 2 Depois, mostrando-nos a ele agradecidos, dirigir-lhe por nossa palavra louvores e hinos por ter-nos criado, por todos os meios de saúde, pela variedade das espécies e mudanças das estações, ao mesmo tempo que lhe suplicamos que nos conceda de novo a incorruptibilidade pela fé que nele temos. 3 Em seguida, demonstramos que, com razão, honramos também Jesus Cristo, que foi nosso Mestre nessas coisas e para isso nasceu, o mesmo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, procurador na Judéia no tempo de Tibério César. Aprendemos que ele é o Filho do próprio Deus verdadeiro, e o colocamos em segundo lugar, assim como o Espírito profético, que pomos no terceiro. De fato, tacham-nos de loucos, dizendo que damos o segundo lugar a um homem crucificado, depois do Deus imutável, aquele que existe desde sempre e criou o universo. É que ignoram o mistério que existe nisso e, por isso, vos exortamos que presteis atenção quando o expomos.

Homens novos pela fé em Cristo

14. 1 De antemão vos avisamos que tenhais cuidado, para não serdes enganados por esses mesmos demônios que acabamos de acusar e assim eles vos impeçam totalmente de ler e entender o que dizemos, pois eles lutam para tê-los como seus escravos e servidores. Por aparições em sonhos ou por artes de magia, eles se apoderam de todos aqueles que, de um ou outro modo, não trabalham por sua própria salvação. Depois de crer no Verbo, nós nos afastamos deles e, por meio do Filho, seguimos o único Deus unigênito. 2 Antes, nós nos comprazíamos na dissolução; agora, abraçamos apenas a temperança; antes, nos entregávamos às artes mágicas; agora, nos consagramos ao Deus bom e ingênito; antes, amávamos, acima de tudo, o dinheiro e as rendas de nossos bens; agora, colocamos em comum o que possuímos e disso damos uma parte para todo aquele que está necessitado; 3 antes, nós nos odiávamos e nos matávamos mutuamente e não compartilhávamos o lar com aqueles que não pertenciam à nossa raça pela diferença de costumes; agora, depois da aparição de Cristo, vivemos todos juntos, rezamos por nossos inimigos e tratamos de persuadir os que nos aborrecem injustamente, a fim de que, vivendo conforme os belos conselhos de Cristo, tenham boas esperanças de alcançar conosco os mesmos bens que esperamos de Deus, soberano de todas as coisas. 4 Todavia, para que não pareça que pretendemos vos enganar, acreditamos ser oportuno, antes da demonstração, recordar alguns ensinamentos do mesmo Cristo, deixado para vós, como poderosos imperadores, a tarefa de examinar se, de fato, é isso que nos ensinaram e que nós ensinamos. 5 Seus discursos, porém, são breves e sintéticos, pois ele não era nenhum sofista, mas sua palavra era uma força de Deus.

A doutrina de Cristo

 15. 1 Sobre a temperança, ele disse o seguinte: "Aquele que olhar para uma mulher para desejá-la, diante de Deus já cometeu adultério em seu coração"a . 2 E: "Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o, pois é melhor entrar no reino dos céus com um só olho do que ser mandado para o fogo eterno com os dois"b . 3 E: "Aquele que se casa com a divorciada de outro marido comete adultério"c . 4 E: "Há alguns que foram mutilados pelos homens, há também aqueles que já nasceram mutilados; mas há aqueles que se mutilaram a si mesmos por causa do reino dos céus. Mas nem todos compreendem isso"d . 5 De modo que, para o nosso Mestre, não só são pecadores os que contraem duplo matrimônio, conforme a lei humana, mas também os que olham para uma mulher para desejá-la. Com efeito, para ele não só se rejeita aquele que de fato comete adultério, mas também aquele que quer cometê-lo, pois diante de Deus, tanto as obras como os desejos estão manifestos. 6 Entre nós há muitos homens e mulheres que, tornando-se discípulos de Cristo desde criança, permanecem incorruptos até os sessenta e setenta anos. E eu me glorio de mostrá-los entre toda a raça dos homens. 7 Isso sem contar a multidão inumerável dos que se converteram de uma vida dissoluta e aprenderam esta doutrina, pois Cristo não veio chamar os justos e os temperantes para a penitência, mas os ímpios, intemperantes e injustos. 8 De fato, ele disse: "Não vim chamar os justos, mas os pecadores para a penitência”e . O Pai celestial prefere a penitência do pecador ao seu castigo. 9 Sobre amar a todos, ensinou o seguinte: "Se amais os que vos amam, que novidade fazeis? Os fornicadores também não fazem isso? Eu, porém, vos digo: Orai por vossos inimigos, amai os que vos odeiam e orai pelos que vos caluniam" Mt 5,28 b Mt 5,29; 18,9 c Mt 5,32 d Mt 19,11-12 e Lc 5,32 Mt 5,44-46. 10. Sobre repartir o que temos com os necessitados e não fazer nada por ostentação, ele disse: "Dai a todo aquele que vos pedir, e não vos afasteis daquele que quer pedir-vos um empréstimo. De fato, se emprestais apenas àqueles de quem esperais receber, que novidade fazeis? Até os publicanos fazem isso . 11Vós, porém, não entesoureis para vós sobre a terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões escavam, mas entesourai para vós nos céus, onde nem a traça, nem a ferrugem destroem.12.  Com efeito, o que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? O que dará em troco dela? Entesourai, portanto, nos céus, onde nem a traça, nem a ferrugem destroem".13E: "Sede bons e misericordiosos, assim como vosso Pai é bom e misericordioso e faz sair o seu sol sobre pecadores, justos e maus.l 14Não vos preocupeis sobre o que comer ou vestir. Não valeis mais do que os pássaros e as feras? E Deus as alimenta. 15Não vos preocupeis, portanto, sobre o que comereis ou que vestireis, pois vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade dessas coisas. 16Buscai antes o reino dos céus, e tudo isso vos será dado em acréscimo. Com efeito, onde está o tesouro, aí também está o pensamento do homem"n . 17 E: "Não façais essas coisas para serdes vistas pelos homens, pois nesse caso não tereis recompensa de vosso Pai que está nos céuso ”.

16. Sobre sermos pacientes, prontos para servir a todos e alheios à ira, ele disse o seguinte: "Àquele que te golpeia numa face, oferece-lhe a outra, e a quem quer tirar-te a túnica ou o manto, não o impeçasp . 2 Quem se irritar, será réu do fogoq . A quem te contratar para uma milha, acompanha-o duasr . Que as vossas obras brilhem diante dos homens, a fim de que, vendo-as, admirem vosso Pai que está nos Céuss ". 3 Portanto, não devemos oferecer resistência, pois ele não quer que sejamos imitadores dos malvados, mas mandou-nos afastar a todos da vergonha e do desejo do mal pela paciência e mansidão. 4 E isso vos podemos demonstrar através de muitos que viveram entre vós, que deixaram seus hábitos violentos e tirania, vencidos ora contemplando a constância de vida de seus vizinhos, ora considerando a estranha paciência dos companheiros de viagem ao ser defraudados, ora pondo à prova companheiros de negócio. 5 Sobre não jurar nunca mas dizer sempre a verdade, ele nos ordenou o seguinte: "Nunca jureis; todavia o vosso não seja não, e o vosso sim seja sim, pois tudo que passa disso provém do maligno"t . 6 Sobre adorar unicamente a Deus, ele nos persuadiu, dizendo: "O maior mandamento é este: Adorarás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás de todo o teu coração e com toda a tua força, ao Senhor Deus que te criou"u . 7 Certa vez que alguém se aproximou dele e lhe disse: "Bom Mestre", ele respondeu: "Ninguém é bom a não ser Deus, que fez todas as coisas"v . 8 Aqueles, porém, que se vê que não vivem como ele ensinou, sejam declarados como não cristãos, por mais que repitam com a língua os ensinamentos de Cristo, pois ele disse que se salvariam, não os que apenas falassem, mas que também praticassem as obras. 9 De fato, ele disse: Mt 5,42 Lc 6,34 Mt 6,19-20 Mt 16,26 Mt 6,20 Mt 5,45 Mt 6,25 Mt 6,21 Mt 6,21 Lc 6,29 Mt 5,22 Mt 5,41  Mt 11,16  Mt 5,34.37 Mt 22,37-38 Mc 10,17; Lc 13,26  "Não todo aquele que me diz: "Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus . 10Porque aquele que me ouve e faz o que eu digo, ouve aquele que me enviou . 11Muitos me dirão: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que comemos, bebemos e fizemos prodígios?’ Então eu lhes responderei: -‘Apartai-vos de mim, operadores de iniquidade . 12Então haverá choro e ranger de dentes, quando os justos brilharem como o sol e os injustos forem mandados para o fogo eterno. 13Porque muitos virão em meu nome, vestidos por fora com peles de ovelha, mas por dentro são lobos roubadores. Por suas obras os conhecereis. Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo"aa. 14Aqueles que não vivem conforme os ensinamentos de Cristo e são cristãos apenas de nome, nós somos os primeiros a vos pedir que sejam castigados.

Súditos do império

17. 1 Quanto a tributos e contribuições, procuramos pagá-los antes de todos àqueles que estabelecestes para isso em todos os lugares, assim como fomos ensinados por Cristo. 2 Porque naquele tempo, alguns se aproximaram dele, para perguntar-lhe se se deveria pagar tributo a César. Ele respondeu: "Dizei-me: que imagem tem a moeda?" Eles responderam: "A de César." Então ele tornou a responder-lhes: "Então dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". 3 Portanto, nós somente a Deus adoramos, mas em tudo o mais nós servimos a vós com gosto, confessando que sois imperadores e governantes dos homens e rogando que, junto com o poder imperial, também se encontre que tenhais prudente raciocínio. 4 Todavia, se não atendeis às nossas súplicas, nem esta exposição pública que vos fazemos de todo o nosso modo de viver, em nada ficaremos prejudicados, pois cremos, ou melhor, estamos persuadidos de que cada um pagará a pena, conforme mereçam as suas obras, pelo fogo eterno, e que terá que prestar contas a Deus, segundo as faculdades que recebeu do próprio Deus, conforme nos indicou Cristo, dizendo: "A quem Deus deu mais, mais será exigido por Deus”cc.

A imortalidade da alma

 18. 1 Vede o fim que tiveram os imperadores que vos precederam: todos morreram de morte comum. Se a morte terminasse na inconsciência, seria uma boa sorte para todos os malvados. 2 Admitindo, porém, que a consciência permanece em todos os nascidos, não sejais negligentes em convencer-vos e crer que essas coisas são verdade. 3 De fato, a necromancia, o exame das entranhas de crianças inocentes, as evocações das almas humanas e os que são chamados entre os magos de espíritos dos sonhos e espíritos assistentes, os fenômenos que acontecem sob a ação dos que sabem essas coisas devem persuadir-vos de que, mesmo depois da morte, as almas conservam a consciência. 4 Do mesmo modo, poderíamos citar os que são arrebatados e agitados pelas almas dos mortos, aos quais todos chamam de possessos ou loucos; aqueles que entre vós são chamados de oráculos de Anfiloco, de Dodona, de Piton e outros semelhantes; 5 as doutrinas de escritores como Empédocles e Pitágoras, Platão e Sócrates, aquela caverna de Homero, a descida de Ulisses para averiguar essas coisas, e outros que disseram coisas parecidas. 6 Recebei-nos, portanto, pelo menos de modo semelhante a esses, pois não cremos menos do que eles em Deus e sim mais do que eles: esperamos recuperar nossos próprios corpos depois de mortos e enterrados, porque dizemos que para Deus não há nada impossível. w Mt 7,21 x Lc 10,16 y Mt 7,22-23; Lc 13,26 z Mt 13,42-43 aa Mt 7,15 bb Mt 22,17 cc Lc 12,4.8

A ressurreição não é impossível

19. 1 Para quem reflete, o que pareceria mais incrível do que se, estando fora do nosso corpo, alguém dissesse que de uma pequena gota do sêmen humano seria possível nascer ossos, tendões e carnes com a forma em que os vemos, e víssemos isso em imagem? 2 Façamos uma suposição. Se não fôsseis o que sois e de quem sois e alguém vos mostrasse o sêmen humano e uma imagem pintada de um homem, afirmando que esta se forma daquele, por acaso acreditaríeis antes de vê-lo nascido? Ninguém se atreveria a contradizer isso. 3 Do mesmo modo, por nunca ter visto um morto ressuscitar, a incredulidade agora vos domina. 4 Da mesma forma, como no princípio não teríeis crido que de uma pequena gota nasceriam tais seres e, no entanto, os vedes nascidos, assim também considerai que não é impossível que os corpos humanos, depois de dissolvidos e espalhados como sementes na terra, ressuscitem a seu tempo, por ordem de Deus e se revistam da incorruptibilidade. 5 Na verdade, não saberíamos dizer de qual potência digna de Deus falam aqueles que afirmam que tudo voltará ao lugar de onde procede e que, fora disso, ninguém pode nada, nem mesmo Deus. Nós, porém, vemos bem isto: esses mesmos não teriam acreditado ser possível ter nascido tais e quais eles e o mundo todo se veem ter nascido. 6 Além disso, aprendemos que é melhor crer naquilo que está acima da nossa própria natureza e que é impossível aos homens, do que ser incrédulos como o vulgo. Sabemos que Jesus Cristo, nosso Mestre, disse: "O que é impossível para os homens, é possível para Deus". 7 E disse mais: "Não temais aqueles que vos matam e depois disso nada mais podem fazer; temei antes aquele que, depois da morte, pode lançar alma e corpo no inferno" . 8 Deve-se saber que o inferno é o lugar onde serão castigados os que tiverem vivido iniquamente e não acreditaram que acontecerão essas coisas ensinadas por Deus, através de Cristo.

Afinidades pagãs

20. 1 Também a Sibila e Histapes disseram que todo o corruptível deveria ser consumido pelo fogo; 2 os filósofos estóicos têm por dogma que o próprio Deus se dissolverá em fogo e afirmam que novamente, por transformação, o mundo renascerá. Nós, porém, consideramos Deus, o criador de todas as coisas, superior a todas as transformações. 3 Por fim, se há coisas que dizemos de maneira semelhante aos poetas e filósofos que estimais, e outras de modo superior e divinamente, e somos os únicos que apresentamos demonstração, por que se nos odeiam injustamente mais do que a todos os outros? 4 Assim, quando dizemos que tudo foi ordenado e feito por Deus, parecerá apenas que enunciamos um dogma de Platão; ao falar sobre conflagração, outro dogma dos estóicos; ao dizer que são castigadas as almas dos iníquos que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, parecerá que falamos como vossos poetas e filósofos; 5 que não se devem adorar obras de mãos humanas, não é senão repetir o que disseram Menandro, o poeta cômico, e outros com ele, que afirmaram que o artífice é maior do que aquele que o fabrica.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

27 - Justino Mártir (†165) I Apologia: Introdução e Capítulos 1 ao 12

27
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
I Apologia: Introdução e Capítulos 1 ao 12


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INTRODUÇÃO À I APOLOGIA

Data de Composição
A data da composição desta obra pode ser deduzida de alguns dados internos. O primeiro está emana própria dedicatória: ela é dirigida "Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto, ao seu filho Veríssimo, filósofo, a Lúcio, filho natural do César Augusto, ao seu filho adotivo de Pio, amante do saber, ao sacro Senado e a todo o povo romano". Ora, estes imperadores reinaram do ano 147 ao ano 161. A Apologia deve ter sido escrita ao longo destes 15 anos. Segundo, no capítulo 46,1, Justino menciona que uma das objeções contra a doutrina cristã era a de "dizermos que Cristo nasceu somente há cento e cinquenta anos sob Quirino e ensinou sua doutrina mais tarde, no tempo de Pôncio Pilotos". Embora se deva tomar o ano cento e cinquenta como um arredondamento, pode-se pensar que a redação da I Apologia não se deu antes desta data. Finalmente, no capítulo 29,2-3, Justino menciona o caso de um jovem cristão que recorreu ao prefeito Félix de Alexandria, suplicando-lhe interceder junto ao governador da província uma licença para se castrar. Ora, os especialistas identificam o prefeito Félix como Minúcio Félix, o qual reinou em Alexandria do ano 148 a 154. A I Apologia, portanto, deve ter sido escrita por volta de 155.

I APOLOGIA DE JUSTINO DE ROMA

1. Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto, ao seu filho Veríssimo, filósofo, e a Lúcio, filho natural do César, filósofo e filho adotivo de Pio, amante do saber, ao sacro Senado e a todo o povo romano. Em prol dos homens de qualquer raça que são injustamente odiados e caluniados, eu, Justino, um deles, filho de Prisco, que o foi de Báquio, natural de Flávia Neápolis na Síria Palestina, compus este discurso e esta súplica. 2. A razão exige dos que são verdadeiramente piedosos e filósofos que, desprezando as opiniões dos antigos se estas são más, estimem e, amem apenas a verdade. De fato, o raciocínio sensato não só exige que se abandonem aos que realizaram e ensinaram algo injustamente, mas também que o amante da verdade, de todos os modos e acima da própria vida, mesmo que seja ameaçado de morte, deve estar sempre decidido a dizer e praticar a justiça. Vós ouvis em toda parte que sois chamados piedosos e filósofos, guardiões da justiça e amantes da instrução; mas que o sejais realmente, é coisa que deverá ser demonstrada. 3 Com o presente escrito, não pretendemos bajular-vos, nem dirigir-vos um discurso como mero agrado, mas pedir-vos que realizeis o julgamento contra os cristãos conforme o exato discernimento da investigação, e não deis a sentença contra vós mesmos, levados pelo preconceito ou pelo desejo de agradar homens supersticiosos, ou movidos por impulso irracional ou por boato crônico. De fato, vos dizemos: estamos convencidos de que, através de ninguém, pode ser feito algum mal a nós, enquanto não se demonstrar que somos praticantes da maldade ou nos reconheçamos como malvados. Vós podeis matar-nos, mas não condenar-nos.

3. 1 Para que não se pense que se trata de alguma fanfarronada nossa e opinião audaciosa, pedimos sejam examinadas as acusações contra os cristãos. Se for demonstrado que são reais, castiguem-nos como é conveniente que sejam castigados os réus convictos; porém, se não há nenhum crime para interrogá-los, o verdadeiro discurso proíbe que, por um simples boato malévolo, se cometa injustiça contra homens inocentes ou, melhor dizendo, a cometais contra vós mesmos, que acreditais ser justo que os assuntos sejam resolvidos não por julgamento, mas por paixão. 2 Com efeito, todo homem sensato manifestará que a melhor exigência, ou ainda mais, que a única exigência justa é que os súditos possam apresentar uma vida e um pensar irrepreensíveis e que, por outro lado, igualmente os mandantes dêem sua sentença, não levados pela violência e tirania, mas segundo a piedade e a filosofia. Só assim governantes e governados podem gozar de felicidade. 3 Foi assim que, em algum lugar, um dos antigos disse: "Se os governantes e os governados não forem filósofos, não é possível os Estados prosperarem." 4 Cabe a nós, portanto, expor ao exame de todos a nossa vida e os nossos ensinamentos, para que não nos tornemos responsáveis pelo castigo daqueles que, ignorando a nossa religião, pecam por cegueira contra nós. Contudo, o vosso dever é também ouvir-nos e mostrar-vos bons juízes. 5 Com efeito, daqui para frente, informados como estais, caso não ajais com justiça, não tereis nenhuma desculpa diante de Deus.

Não se deve castigar um nome

4.1 Não se deve julgar que alguém seja bom ou mau por levar um nome, se prescindimos das ações que tal nome supõe. Além disso, se se examina aquilo de que nos acusam, somos os melhores homens. 2 Todavia, como não consideramos justo pretender que nos absolvam por nosso nome se estamos convictos de maldade; do mesmo modo, se nem por nosso nome, nem por nossa conduta se constata que tenhamos cometido crime, o vosso dever é empenhar-vos para não vos tornardes responsáveis de castigo, condenando injustamente aqueles que não foram convencidos judicialmente. 3 Com efeito, em sã razão, de um nome não se pode originar elogio ou reprovação, se não se puder demonstrar por fatos alguma coisa virtuosa ou vituperável. 4 Não castigais ninguém que foi acusado diante dos vossos tribunais antes que ele seja réu convicto. Contudo, quando se trata de nós, tomais o nome como prova, sendo que, se for pelo nome, deveríeis antes castigar os nossos acusadores. 5 De fato, acusam-nos de ser cristãos, isto é, bons, mas odiar o que é bom não é coisa justa. 6 AIém disso, basta que um acusado negue com a palavra ser cristão, vós o pondes em liberdade, como quem não tem outro crime a ser acusado; mas quem confessa que é cristão, vós o castigais apenas por essa confissão. O que se deveria fazer é examinar a vida tanto daquele que confessa, como daquele que nega, a fim de pôr às claras, por suas obras, a qualidade de cada um. 7 De fato, da maneira como alguns, apesar de terem aprendido de seu mestre Cristo a não negá-lo, são induzidos a isso ao serem interrogados; da mesma forma, com sua vida má, eles talvez dêem motivo àqueles que estão dispostos a caluniar de impiedade e iniqüidade todos os cristãos. 8 Mas nem nisso se procede retamente. Sabe-se que o nome e a aparência de filósofo, alguns se arrogam sem terem praticado nenhuma ação digna de sua profissão, e não ignorais que aqueles dos antigos que professam opiniões e doutrinas contrárias entram todos na denominação comum de filósofos. 9 Entre eles, houve os que ensinaram o ateísmo, e os que foram poetas contam as imprudências de Zeus com seus filhos. Todavia, não proibis ninguém de professar as doutrinas deles; ao contrário, dais prêmios e honras para aqueles que clara e elegantemente insultam os vossos deuses.

A obra dos demônios

5. 1 O que pode haver nisso? Nós fizemos profissão de não cometer nenhuma injustiça e não admitir essas ímpias opiniões. Vós, porém, não examinais nossos juízos, mas, movidos de paixão irracional e aguilhoados por demônios perversos, nos castigais sem nenhum processo e sem sentir remorso algum por isso. 2 Digamos a verdade: antigamente, alguns demônios perversos, fazendo suas aparições, violaram as mulheres, corromperam os jovens e mostraram espantalhos aos homens. Com isso, ficaram apavorados aqueles que não julgavam pela razão as ações praticadas e assim, levados pelo medo e não sabendo que eram demônios maus, deram-lhes nomes de deuses e chamaram cada um com o nome que cada demônio havia posto em si mesmo. 3 Quando Sócrates, com raciocínio verdadeiro e investigando as coisas, tentou esclarecer tudo isso e afastar os homens dos demônios, estes conseguiram, por meio de homens que se comprazem na maldade, que ele também fosse executado como ateu e ímpio, alegando que ele estava introduzindo novos demônios. Tentam fazer o mesmo contra nós. 4 De fato, por obra de Sócrates, não só entre os gregos se demonstrou pela razão a ação dos demônios, mas também entre os bárbaros, pela razão em pessoa, que tomou forma, se fez homem e foi chamado Jesus Cristo. Pela fé que nele temos, não dizemos que os demônios que fizeram essas coisas são bons, mas demônios malvados e ímpios, que não alcançam ou praticam ações semelhantes, nem mesmo aos homens que aspiram à virtude.

Não somos ateus

6. 1 Por isso, também nós somos chamados de ateus; e, tratando-se desses supostos deuses, confessamos ser ateus. Não, porém, do Deus verdadeiríssimo, pai da justiça, do bom senso e das outras virtudes, no qual não há mistura de maldade. 2 A ele e ao Filho, que dele veio e nos ensinou tudo isso, ao exército dos outros anjos bons, que o seguem e lhe são semelhantes, e ao Espírito profético, nós cultuamos e adoramos, honrando-os com razão e verdade, e ensinando generosamente, a quem deseja sabê-lo a mesma coisa que aprendemos.

Não castigueis nossos acusadores

7.1 Poderão nos objetar que alguns detidos foram condenados como malfeitores. 2 Pode ser. Contudo, muitas vezes condenais muitos outros, depois de averiguar a vida de cada um dos acusados, mas não os condenais pelos motivos de que antes foram condenados. 3 De modo geral, não há inconveniente em confessar que, da mesma forma que entre os gregos, aos que seguem as opiniões que lhes agradam todo mundo lhes dá o nome de filósofos, como também entre os bárbaros levam um nome comum os que foram e pareceram sábios, o mesmo acontece com os cristãos. 4 Nós vos pedimos, portanto, que sejam examinadas as ações de todos os que vos são denunciados, a fim de que o culpado seja castigado como iníquo, mas não como cristão; por outro lado, aquele que for comprovadamente inocente, seja absolvido como cristão, por não ter cometido nenhum crime. 5 Com efeito, não pedimos que castigueis os nossos acusadores, pois eles já padecem bastante com a maldade que levam consigo e com a sua ignorância do bem.

Não queremos mentir

8. 1 Considerai que vos dissemos essas coisas para o vosso interesse, pelo fato de que está em nós a possibilidade de negar, quando somos interrogados. 2 Todavia, não queremos viver na mentira, pois, desejando a vida eterna e pura, aspiramos à convivência com Deus, Pai e artífice do universo. E, por isso, nós nos apressamos a confessar a nossa fé, pois estamos persuadidos e acreditamos que esses bens podem ser conseguidos por aqueles que por suas obras demonstraram ter seguido a Deus e desejado sua convivência, onde nenhuma maldade poderá nos atingir. 3 De fato, dizendo de maneira breve, isso é o que esperamos, isso é o que aprendemos de Cristo e ensinamos. 4 De modo semelhante, Platão também disse que Minos e Radamante castigarão os iníquos que se apresentam diante deles. Nós afirmamos que isso acontecerá, mas através de Cristo, e que o castigo que receberão em seus corpos unidos às suas almas será eterno, e não só por um período de mil anos, como ele disse. Se alguém diz que isso é incrível ou impossível, nós é que fomos enganados e não outro, até que não sejamos acusados de ter cometido alguma injustiça em nossas ações.

Vaidade da idolatria

9. 1 Também não honramos, com muitos sacrifícios e coroas de flores, esses que os homens, depois de darlhes forma e colocá-los nos templos, chamam de deuses. Com efeito, sabemos que são coisas sem alma e mortas, que não têm forma de Deus. Nós não cremos que Deus tenha semelhante forma, que alguns dizem imitar para tributar-lhes honra. Na verdade, o nome e figura que levam são daqueles maus demônios que um dia apareceram no mundo. 2 Por acaso, é preciso explicar-vos, se já o sabeis, a maneira como os artesãos dispõem a matéria, ora polindo e cortando, ora fundindo e cinzelando? 3 Não só consideramos isso irracional, mas também um insulto a Deus, pois, tendo ele glória e forma inefável, dá-se o nome de Deus a coisas corruptíveis e que necessitam de cuidado. Muitos, apenas mudando a figura e dando forma conveniente através da arte, dão o nome de deus àquilo que serviu de instrumento ignominioso. 4 E vós sabeis perfeitamente que os artesãos de tais deuses são pessoas dissolutas, que vivem envoltas na maldade, o que não vou contar aqui em pormenores. Entre eles não faltam os que corrompem as escravas que trabalham ao lado deles. 5 É estupidez dizer que homens intemperantes fabricam e transformam deuses para ser adorados e que tais pessoas servem como guardas dos templos nos quais aqueles são colocados! E não percebem que já é impiedade pensar ou dizer que os homens podem ser guardiões dos deuses!

O melhor sacrifício é a virtude

10. 1 Além disso, aprendemos que Deus não tem necessidade de nenhuma oferta material dos homens, pois vemos que é ele quem nos concede tudo. Em troca, nos foi ensinado, e disso estamos persuadidos e assim o cremos, que lhe são gratos somente aqueles que lhe procuram imitar os bens que lhe são próprios: o bom senso, a justiça, o amor aos homens e tudo o que convém a um Deus que não pode ser chamado por nenhum nome imposto. 2 Também nos foi ensinado que, por ser bom, no princípio ele fez todas as coisas de uma matéria informe, por amor aos homens. Recebemos a crença de que ele concederá a sua convivência, participando do seu reino, tornados incorruptíveis ou impassíveis, aos homens que por suas obras se mostrem dignos do desígnio de Deus. 3 De fato, do mesmo modo como no princípio nos fez do não ser, assim também cremos que àqueles que escolheram o que lhe é grato, concederá a incorruptibilidade e a convivência com ele, como prêmio dessa mesma escolha. 4 Com efeito, ser criados no princípio não foi mérito nosso; mas agora ele nos persuade e nos conduz à fé para que sigamos o que lhe é grato, por livre escolha, através das potências racionais, com que ele mesmo nos presenteou. 5 Consideramos ainda ser de interesse para todos os homens que não se impeça a eles de aprender estes ensinamentos, mas sejam exortados neles. 6 De fato, o que as leis humanas não conseguiram, o Verbo divino já o teria realizado, se os malvados demônios não tivessem espalhado muitas calúnias ímpias, tomando como aliada a paixão que habita em cada um, má para tudo e multiforme por natureza; nós não temos nada a ver com essas calúnias.

Nosso reino não é deste mundo

11. 1 Até vós, apenas ouvindo que esperamos um reino, logo supondes, sem nenhuma averiguação, que se trata de reino humano, quando nós falamos do reino de Deus. Isso aparece claro pelo fato de que, ao sermos interrogados por vós, confessamos ser cristãos, sabendo como sabemos que tal confissão traz consigo a pena de morte. 2 De fato, se esperássemos um reino humano, o negaríamos para evitar a morte e procuraríamos viver escondidos, a fim de conseguir o que esperamos; mas como não depositamos nossa esperança no presente, não nos importamos que nos matem, além do que, de qualquer modo, haveremos de morrer.

Somos vossos aliados para a paz

12. 1 Somos vossos melhores ajudantes e aliados para a manutenção da paz, pois professamos doutrinas, como a de que não é possível ocultar de Deus o malfeitor, o avaro, o conspirador ou o homem virtuoso, e que cada um caminha para o castigo ou salvação eterna, conforme o mérito de suas ações. 2 Com efeito, se todos os homens conhecessem isso, ninguém escolheria por um momento a maldade, sabendo que caminharia para sua condenação eterna pelo fogo, mas se conteria de todos os modos e se adornaria com a virtude, a fim de conseguir os bens de Deus e livrar-se dos castigos. 3 De fato, aqueles que agora, por medo das leis e dos castigos por vós impostos, ao cometer seus crimes procuram escondê-los, porque sabem que sois homens e que, por isso, é possível ocultá-los de vós, se se inteirassem e se persuadissem de que não se pode ocultar nada a Deus, não só uma ação, mas sequer um pensamento, ao menos por causa do castigo se moderariam de todos os modos, como vós mesmos haveis de convir. 4 Todavia, até parece que temeis que todos se decidam a fazer o bem e não tenhais a quem castigar, coisa que conviria melhor a verdugos do que a príncipes bons. 5 Estamos persuadidos, porém, de que isso também, como dissemos, é obra dos demônios perversos, os quais exigem sacrifícios e culto dos que vivem irracionalmente; contudo, jamais supusemos que vós, amantes da piedade e da filosofia, façais algo irracionalmente. 6 Mas se também tendes mais estima pelo costume do que pela verdade, fazei o que podeis; sabei, porém, que os governantes que colocam a opinião acima da verdade só podem fazer o que fazem os bandidos em lugar despovoado. 7 Que isso, porém, não vos será de bom augúrio, o Verbo o demonstra, ele que é o rei mais alto, o governante mais justo que conhecemos, depois de Deus que o gerou. 8 Com efeito, do mesmo modo como todos recusam a pobreza, o sofrimento e a desonra paterna, assim também não haverá homem sensato que aceite aquilo que a razão ordena não aceitar. 9 Que tudo isso aconteceria, como digo, o predisse nosso Mestre, que é ao mesmo tempo filho e legado de Deus pai e soberano do universo, Jesus Cristo, do qual também originou-se o nosso nome de cristãos. 10 Disso provém nossa firmeza em aceitar seus ensinamentos, pois se manifesta realizado tudo quanto ele predisse que aconteceria. Eis a obra de Deus: dizer as coisas antes que aconteçam e depois mostrar o acontecido tal qual ele foi predito. 11 Poderíamos terminar aqui o nosso discurso, sem acrescentar mais nada, considerando que pedimos coisas justas e verdadeiras. Todavia, como sabemos não ser fácil mudar às pressas uma alma possuída pela ignorância, determinamos acrescentar mais alguns breves pontos, a fim de persuadir os amantes da verdade, pois sabemos que quando esta é proposta, a ignorância bate em retirada.


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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

26 - Justino Mártir (†165)

26
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
 


A Vida de Justino
Acredita-se que Justino nasceu pouco depois de 100 a.D. O lugar do seu nascimento era Flavia Neapolis, na Síria-Palestina, ou Samaria. A educação de Justino na infância incluiu a retórica, poesia e história. Quando jovem, ele adquiriu especial interesse em filosofia, e estudou principalmente o estoicismo e o platonismo. Justino buscava a Deus, que “é o alvo da filosofia de Platão”, dizia ele.
Justino foi apresentado à fé diretamente por um ancião que o envolveu em uma discussão sobre questões filosóficas e então lhe falou a respeito de Jesus. Ele levou Justino aos profetas hebreus, os quais eram anteriores aos filósofos, dizia ele, e falaram “como testemunhas confiáveis da verdade”. Eles profetizaram a vinda de Cristo, e suas profecias foram cumpridas em Jesus.
Justino dizia que, então, “meu espírito imediatamente se incendiou, e uma afeição pelos profetas, e por aqueles que foram amigos de Cristo, tomou conta de mim; enquanto ponderava em suas palavras, descobri que a sua filosofia era a única certa e útil ... é o meu desejo que todos tivessem os mesmos sentimentos que eu, e nunca desprezassem as palavras do Salvador”. Justino procurou cristãos que lhe ensinaram a história e a doutrina cristã, e então “devotou-se totalmente à difusão e vindicação da religião cristã”.
Justino continuou a vestir a capa que o identificava como filósofo, e ensinava a estudantes em Éfeso e mais tarde em Roma. James Kiefer nota que “ele se envolvia em debates e disputas com não-cristãos de todas as variedades, pagãos, judeus e hereges”.
A convicção de Justino sobre a verdade de Cristo era tão completa que ele morreu como mártir em algum momento por volta de 165 a.D. Eusébio, o antigo historiador da igreja, disse que ele foi denunciado pelo cínico Crescente, com o qual se envolvera em debate pouco antes de sua morte. Justino foi decapitado juntamente com seis de seus alunos.

Os Escritos de Justino
O entendimento de Justino sobre o Cristianismo era filtrado pela filosofia que ele havia aprendido. O platonismo do tempo de Justino tinha uma forte inclinação teísta, e seu elevado tom moral parecia estar de acordo com o Cristianismo. Justino (e outros) conectavam o Logos da filosofia com o Logos de João, capítulo 1.
Além desta fonte de verdade, Justino (e outros) acreditava que os ensinos de Moisés foram transmitidos através dos egípcios aos gregos. Deus não era simplesmente conhecido através do raciocínio abstrato; Ele mesmo Se revelou pessoalmente quando falou aos profetas que, por sua vez, O revelaram a nós.

A Apologética de Justino

Cristãos Tratados Injustamente
Em suas duas Apologias, o objetivo primário de Justino era mais defender os cristãos do que o Cristianismo em si. Os cristãos eram tratados injustamente; a ambição de Justino era obter tratamento justo para eles. A perseguição havia avançado a ponto de os cristãos serem merecedores de juízo simplesmente por trazerem o nome de cristãos. Seus estranhos hábitos de culto, sua recusa em participar dos cultos cívicos e do culto ao imperador, e suas crenças estranhas eram suficientes para criar um preconceito geral contra eles. Assim foi que, sob alguns imperadores e governadores locais, os cristãos podiam ser levados a julgamento simplesmente por trazerem o nome.

Cristãos e Ateísmo
Parte do problema era uma deturpação das crenças cristãs. Como os cristãos não cultuavam os deuses gregos e romanos, eles eram chamados de ateístas. Justino questionava como eles poderiam ser ateus se adoravam “ao Deus Mais Verdadeiro”. Os cristãos adoram ao Pai, ao Filho e ao Espírito Profético, dizia ele, e “prestam homenagem a eles na razão e na verdade”. Justino também assinalava a inconsistência dos governantes romanos. Alguns dos seus próprios filósofos ensinavam que não havia nenhum deus, mas eles não eram perseguidos simplesmente por trazerem o nome de filósofos. Pior ainda, alguns poetas denunciavam Júpiter, mas eram honrados por líderes do governo.

Cristãos e Cidadania
Outra acusação contra os cristãos era de que eles eram inimigos do Estado. Sua falta de participação nos rituais religiosos pagãos, os quais faziam parte da vida pública cotidiana durante aqueles tempos, e a sua conversa sobre pertencer a outro reino levavam a acusações de que eles não eram bons cidadãos. Justino respondia que eles não estavam esperando um reino terreno, um que ameaçasse Roma. Se estivessem, eles não iriam para a morte tão tranquilamente, mas fugiriam e se esconderiam até que o reino viesse sobre a terra. Além disso, ele insistia que “nós, mais do que todos os demais homens, na verdade somos os vossos auxiliares e aliados no fomento da paz”, porque os cristãos sabiam que um dia se encontrariam com Deus e prestariam contas de suas vidas. “Somente a Deus adoramos”, dizia ele, “mas em outras coisas alegremente vos obedecemos, reconhecendo-vos como reis e governantes dos homens”. Como um exemplo específico de que eram bons cidadãos, Justino citou que os cristãos são fiéis em pagar as taxas, porque Jesus disse que eles deveriam fazê-lo (Mateus 22:20-21). O argumento geral de Justino era de que, vivendo vidas virtuosas – algo que era altamente considerado na filosofia grega – os cristãos eram, por convicção, bons cidadãos.

Cristianismo como Moral
Além de serem chamados de inimigos do Estado e de ateístas, os cristãos da igreja primitiva eram acusados de se envolverem em grosseira imoralidade. Por exemplo, diziam que eles se envolviam em orgias (casados com irmãs) e em canibalismo nos seus serviços de culto (Eucaristia). Em suas apologias, Justino defendeu os cristãos como sendo, pelo contrário, pessoas de elevado caráter moral.
Por exemplo, dizia Justino, os cristãos demonstravam sua honestidade não mentindo quando trazidos a julgamento. Como eram pessoas de veracidade, eles confessavam sua fé até a morte. Eles amavam a verdade mais do que a própria vida. Os cristãos eram pacientes em tempos de perseguição, e mostravam amor até para com seus inimigos.
Esta atitude de viver de acordo com a verdade era apenas um exemplo da mudança realizada nas vidas das pessoas após a sua conversão. Certo escritor nota que esta mudança chegou a ser conhecida como “o canto triunfal dos apologistas”. Justino dizia:

Nós, que outrora nos divertíamos em impurezas, agora nos apegamos à pureza; nós, que nos devotávamos às artes da magia, agora nos consagramos ao bom e incriado Deus; nós, que amávamos mais do que tudo os meios de adquirir riquezas e posses, agora entregamos a um fundo comunitário aquilo que possuímos, e o repartimos com todo o necessitado; nós, que odiávamos e matávamos uns aos outros e não tínhamos compaixão dos que eram de outra tribo por causa de seus costumes [diferentes], agora, após a vinda de Cristo, vivemos junto com eles, e oramos pelos nossos inimigos, e tentamos convencer aqueles que nos odeiam injustamente ...
Justino também enfatizava o comportamento casto dos cristãos, em resposta às acusações de comportamento imoral durante o culto. Para mostrar o quanto isso estava distante da verdade, ele contou a história de um jovem que pediu a um cirurgião que o fizesse eunuco para provar que os cristãos não praticam a promiscuidade. O pedido foi negado, por isso o jovem escolheu permanecer solteiro e responsável perante seus irmãos.
Uma das táticas apologéticas de Justino era contrastar aquilo de que os cristãos eram falsamente acusados de fazer, e pelo que eram punidos, com o que os romanos faziam com impunidade. Por exemplo, os cristãos eram acusados de matar crianças em serviços de culto e então consumi-las. Justino contradizia que eram os adoradores de Saturno que se envolviam em homicídio e ingestão de sangue, e outros pagãos que aspergiam o sangue de homens e animais sobre seus ídolos. Os cristãos eram acusados de imoralidade sexual, mas eram seus críticos, dizia Justino, que imitavam “Júpiter e os outros deuses em sodomia e relações pecaminosas com mulheres”.
O Argumento de Justino em favor de Cristo
Como parte de sua defesa em favor dos cristãos diante do Imperador e do Senado romano, Justino também argumentava que o Cristianismo era verdadeiro. Isto era importante porque a razão e a busca da verdade eram altamente valorizadas pela  intelligentsia  romana. Como uma das acusações contra os cristãos era de que eles tinham crenças supersticiosas, devia ser demonstrado que suas crenças eram racionais. Consideremos o argumento central de Justino em favor da veracidade do Cristianismo, a saber, de que a vinda de Cristo – o Logos de Deus – fora predita através do Espírito Profético, milhares de anos antes.

O Logos Eterno
Anteriormente falei sobre como Cristo era identificado com o Logos – o locus da razão no universo – de que os filósofos falavam. Falar sobre Ele nestes termos ajudaria a obter a atenção das classes cultas de seu tempo.
Onde o Logos era mencionado, o interesse de todos era imediatamente garantido.
Era importante demonstrar a racionalidade da fé, e o Logos era o locus da razão nas principais escolas da filosofia grega.
O Cristianismo é a mais elevada razão para Justino. “O Logos é a Razão pré-existente, absoluta, pessoal, e Cristo é a sua personificação, o Logos encarnado. Tudo o que é racional é cristão, e tudo o que é cristão é racional.
Além de assegurar a racionalidade do Cristianismo, identificar Jesus com o Logos indicava a Sua antiguidade, o que era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença. Repetidamente ele se refere à fé em suas apologias. Ele fala de termos sido curados “pela fé através do sangue e da morte de Cristo”.
Ele até se refere a Abraão que “foi justificado e abençoado por Deus por causa da sua fé nEle”. Porém, mesmo aqui a questão do conhecimento é central, pois Justino colocava mais peso em crer nos ensinos de Cristo do que em crer no próprio Cristo.

Profecias Cumpridas
Mas por que esta afirmação sobre Jesus deve ser crida? A razão era porque Ele era o cumprimento das profecias feitas milhares de anos antes – o que provava que Ele não era apenas um homem que podia fazer magia, mas o prometido Filho de Deus. “Nós somos testemunhas reais dos eventos que aconteceram e estão acontecendo do mesmo modo em que foram preditos”, dizia ele. Justino resumiu as profecias do Antigo Testamento a respeito de Cristo da seguinte maneira:
Nos livros dos Profetas, de fato, encontramos Jesus, o nosso Cristo, predito como vindo a nós nascendo de uma virgem, alcançando a maturidade, curando toda doença e dor, ressuscitando os mortos, sendo odiado, não reconhecido, e crucificado, morrendo, ressuscitando dos mortos, ascendendo ao Céu, e sendo chamado e realmente sendo o Filho de Deus. E que Ele enviaria certas pessoas a toda nação para que fizessem conhecer estas coisas, e que antes os gentios [do que os judeus] creriam nEle. Ele foi predito, na verdade, antes que realmente aparecesse, primeiro cinco mil anos antes, depois quatro mil, depois três mil, depois dois mil, depois mil e finalmente oitocentos. Pois, nas sucessivas gerações, novos profetas se levantaram vez após outra.
Não somente o cumprimento da profecia era notável em si mesmo, mas também era significativo que tais profecias tivessem sido feitas muito tempo antes dos filósofos gregos, pois, diferente de hoje, a antiguidade era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença.

Conclusão
Apesar de todas as fraquezas em sua teologia e apologética, Justino Mártir fornece um exemplo daqueles que levaram a sua fé muito a sério na igreja primitiva, e que buscaram ser porta-vozes do Senhor e defensores de Seu povo.

Fonte: http://historiasacra.blogspot.com.br/2013/07/justino-martir-defensor-da-igreja.html

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