segunda-feira, 4 de setembro de 2017

26 - Justino Mártir (†165)

26
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
 


A Vida de Justino
Acredita-se que Justino nasceu pouco depois de 100 a.D. O lugar do seu nascimento era Flavia Neapolis, na Síria-Palestina, ou Samaria. A educação de Justino na infância incluiu a retórica, poesia e história. Quando jovem, ele adquiriu especial interesse em filosofia, e estudou principalmente o estoicismo e o platonismo. Justino buscava a Deus, que “é o alvo da filosofia de Platão”, dizia ele.
Justino foi apresentado à fé diretamente por um ancião que o envolveu em uma discussão sobre questões filosóficas e então lhe falou a respeito de Jesus. Ele levou Justino aos profetas hebreus, os quais eram anteriores aos filósofos, dizia ele, e falaram “como testemunhas confiáveis da verdade”. Eles profetizaram a vinda de Cristo, e suas profecias foram cumpridas em Jesus.
Justino dizia que, então, “meu espírito imediatamente se incendiou, e uma afeição pelos profetas, e por aqueles que foram amigos de Cristo, tomou conta de mim; enquanto ponderava em suas palavras, descobri que a sua filosofia era a única certa e útil ... é o meu desejo que todos tivessem os mesmos sentimentos que eu, e nunca desprezassem as palavras do Salvador”. Justino procurou cristãos que lhe ensinaram a história e a doutrina cristã, e então “devotou-se totalmente à difusão e vindicação da religião cristã”.
Justino continuou a vestir a capa que o identificava como filósofo, e ensinava a estudantes em Éfeso e mais tarde em Roma. James Kiefer nota que “ele se envolvia em debates e disputas com não-cristãos de todas as variedades, pagãos, judeus e hereges”.
A convicção de Justino sobre a verdade de Cristo era tão completa que ele morreu como mártir em algum momento por volta de 165 a.D. Eusébio, o antigo historiador da igreja, disse que ele foi denunciado pelo cínico Crescente, com o qual se envolvera em debate pouco antes de sua morte. Justino foi decapitado juntamente com seis de seus alunos.

Os Escritos de Justino
O entendimento de Justino sobre o Cristianismo era filtrado pela filosofia que ele havia aprendido. O platonismo do tempo de Justino tinha uma forte inclinação teísta, e seu elevado tom moral parecia estar de acordo com o Cristianismo. Justino (e outros) conectavam o Logos da filosofia com o Logos de João, capítulo 1.
Além desta fonte de verdade, Justino (e outros) acreditava que os ensinos de Moisés foram transmitidos através dos egípcios aos gregos. Deus não era simplesmente conhecido através do raciocínio abstrato; Ele mesmo Se revelou pessoalmente quando falou aos profetas que, por sua vez, O revelaram a nós.

A Apologética de Justino

Cristãos Tratados Injustamente
Em suas duas Apologias, o objetivo primário de Justino era mais defender os cristãos do que o Cristianismo em si. Os cristãos eram tratados injustamente; a ambição de Justino era obter tratamento justo para eles. A perseguição havia avançado a ponto de os cristãos serem merecedores de juízo simplesmente por trazerem o nome de cristãos. Seus estranhos hábitos de culto, sua recusa em participar dos cultos cívicos e do culto ao imperador, e suas crenças estranhas eram suficientes para criar um preconceito geral contra eles. Assim foi que, sob alguns imperadores e governadores locais, os cristãos podiam ser levados a julgamento simplesmente por trazerem o nome.

Cristãos e Ateísmo
Parte do problema era uma deturpação das crenças cristãs. Como os cristãos não cultuavam os deuses gregos e romanos, eles eram chamados de ateístas. Justino questionava como eles poderiam ser ateus se adoravam “ao Deus Mais Verdadeiro”. Os cristãos adoram ao Pai, ao Filho e ao Espírito Profético, dizia ele, e “prestam homenagem a eles na razão e na verdade”. Justino também assinalava a inconsistência dos governantes romanos. Alguns dos seus próprios filósofos ensinavam que não havia nenhum deus, mas eles não eram perseguidos simplesmente por trazerem o nome de filósofos. Pior ainda, alguns poetas denunciavam Júpiter, mas eram honrados por líderes do governo.

Cristãos e Cidadania
Outra acusação contra os cristãos era de que eles eram inimigos do Estado. Sua falta de participação nos rituais religiosos pagãos, os quais faziam parte da vida pública cotidiana durante aqueles tempos, e a sua conversa sobre pertencer a outro reino levavam a acusações de que eles não eram bons cidadãos. Justino respondia que eles não estavam esperando um reino terreno, um que ameaçasse Roma. Se estivessem, eles não iriam para a morte tão tranquilamente, mas fugiriam e se esconderiam até que o reino viesse sobre a terra. Além disso, ele insistia que “nós, mais do que todos os demais homens, na verdade somos os vossos auxiliares e aliados no fomento da paz”, porque os cristãos sabiam que um dia se encontrariam com Deus e prestariam contas de suas vidas. “Somente a Deus adoramos”, dizia ele, “mas em outras coisas alegremente vos obedecemos, reconhecendo-vos como reis e governantes dos homens”. Como um exemplo específico de que eram bons cidadãos, Justino citou que os cristãos são fiéis em pagar as taxas, porque Jesus disse que eles deveriam fazê-lo (Mateus 22:20-21). O argumento geral de Justino era de que, vivendo vidas virtuosas – algo que era altamente considerado na filosofia grega – os cristãos eram, por convicção, bons cidadãos.

Cristianismo como Moral
Além de serem chamados de inimigos do Estado e de ateístas, os cristãos da igreja primitiva eram acusados de se envolverem em grosseira imoralidade. Por exemplo, diziam que eles se envolviam em orgias (casados com irmãs) e em canibalismo nos seus serviços de culto (Eucaristia). Em suas apologias, Justino defendeu os cristãos como sendo, pelo contrário, pessoas de elevado caráter moral.
Por exemplo, dizia Justino, os cristãos demonstravam sua honestidade não mentindo quando trazidos a julgamento. Como eram pessoas de veracidade, eles confessavam sua fé até a morte. Eles amavam a verdade mais do que a própria vida. Os cristãos eram pacientes em tempos de perseguição, e mostravam amor até para com seus inimigos.
Esta atitude de viver de acordo com a verdade era apenas um exemplo da mudança realizada nas vidas das pessoas após a sua conversão. Certo escritor nota que esta mudança chegou a ser conhecida como “o canto triunfal dos apologistas”. Justino dizia:

Nós, que outrora nos divertíamos em impurezas, agora nos apegamos à pureza; nós, que nos devotávamos às artes da magia, agora nos consagramos ao bom e incriado Deus; nós, que amávamos mais do que tudo os meios de adquirir riquezas e posses, agora entregamos a um fundo comunitário aquilo que possuímos, e o repartimos com todo o necessitado; nós, que odiávamos e matávamos uns aos outros e não tínhamos compaixão dos que eram de outra tribo por causa de seus costumes [diferentes], agora, após a vinda de Cristo, vivemos junto com eles, e oramos pelos nossos inimigos, e tentamos convencer aqueles que nos odeiam injustamente ...
Justino também enfatizava o comportamento casto dos cristãos, em resposta às acusações de comportamento imoral durante o culto. Para mostrar o quanto isso estava distante da verdade, ele contou a história de um jovem que pediu a um cirurgião que o fizesse eunuco para provar que os cristãos não praticam a promiscuidade. O pedido foi negado, por isso o jovem escolheu permanecer solteiro e responsável perante seus irmãos.
Uma das táticas apologéticas de Justino era contrastar aquilo de que os cristãos eram falsamente acusados de fazer, e pelo que eram punidos, com o que os romanos faziam com impunidade. Por exemplo, os cristãos eram acusados de matar crianças em serviços de culto e então consumi-las. Justino contradizia que eram os adoradores de Saturno que se envolviam em homicídio e ingestão de sangue, e outros pagãos que aspergiam o sangue de homens e animais sobre seus ídolos. Os cristãos eram acusados de imoralidade sexual, mas eram seus críticos, dizia Justino, que imitavam “Júpiter e os outros deuses em sodomia e relações pecaminosas com mulheres”.
O Argumento de Justino em favor de Cristo
Como parte de sua defesa em favor dos cristãos diante do Imperador e do Senado romano, Justino também argumentava que o Cristianismo era verdadeiro. Isto era importante porque a razão e a busca da verdade eram altamente valorizadas pela  intelligentsia  romana. Como uma das acusações contra os cristãos era de que eles tinham crenças supersticiosas, devia ser demonstrado que suas crenças eram racionais. Consideremos o argumento central de Justino em favor da veracidade do Cristianismo, a saber, de que a vinda de Cristo – o Logos de Deus – fora predita através do Espírito Profético, milhares de anos antes.

O Logos Eterno
Anteriormente falei sobre como Cristo era identificado com o Logos – o locus da razão no universo – de que os filósofos falavam. Falar sobre Ele nestes termos ajudaria a obter a atenção das classes cultas de seu tempo.
Onde o Logos era mencionado, o interesse de todos era imediatamente garantido.
Era importante demonstrar a racionalidade da fé, e o Logos era o locus da razão nas principais escolas da filosofia grega.
O Cristianismo é a mais elevada razão para Justino. “O Logos é a Razão pré-existente, absoluta, pessoal, e Cristo é a sua personificação, o Logos encarnado. Tudo o que é racional é cristão, e tudo o que é cristão é racional.
Além de assegurar a racionalidade do Cristianismo, identificar Jesus com o Logos indicava a Sua antiguidade, o que era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença. Repetidamente ele se refere à fé em suas apologias. Ele fala de termos sido curados “pela fé através do sangue e da morte de Cristo”.
Ele até se refere a Abraão que “foi justificado e abençoado por Deus por causa da sua fé nEle”. Porém, mesmo aqui a questão do conhecimento é central, pois Justino colocava mais peso em crer nos ensinos de Cristo do que em crer no próprio Cristo.

Profecias Cumpridas
Mas por que esta afirmação sobre Jesus deve ser crida? A razão era porque Ele era o cumprimento das profecias feitas milhares de anos antes – o que provava que Ele não era apenas um homem que podia fazer magia, mas o prometido Filho de Deus. “Nós somos testemunhas reais dos eventos que aconteceram e estão acontecendo do mesmo modo em que foram preditos”, dizia ele. Justino resumiu as profecias do Antigo Testamento a respeito de Cristo da seguinte maneira:
Nos livros dos Profetas, de fato, encontramos Jesus, o nosso Cristo, predito como vindo a nós nascendo de uma virgem, alcançando a maturidade, curando toda doença e dor, ressuscitando os mortos, sendo odiado, não reconhecido, e crucificado, morrendo, ressuscitando dos mortos, ascendendo ao Céu, e sendo chamado e realmente sendo o Filho de Deus. E que Ele enviaria certas pessoas a toda nação para que fizessem conhecer estas coisas, e que antes os gentios [do que os judeus] creriam nEle. Ele foi predito, na verdade, antes que realmente aparecesse, primeiro cinco mil anos antes, depois quatro mil, depois três mil, depois dois mil, depois mil e finalmente oitocentos. Pois, nas sucessivas gerações, novos profetas se levantaram vez após outra.
Não somente o cumprimento da profecia era notável em si mesmo, mas também era significativo que tais profecias tivessem sido feitas muito tempo antes dos filósofos gregos, pois, diferente de hoje, a antiguidade era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença.

Conclusão
Apesar de todas as fraquezas em sua teologia e apologética, Justino Mártir fornece um exemplo daqueles que levaram a sua fé muito a sério na igreja primitiva, e que buscaram ser porta-vozes do Senhor e defensores de Seu povo.

Fonte: http://historiasacra.blogspot.com.br/2013/07/justino-martir-defensor-da-igreja.html

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