segunda-feira, 28 de junho de 2021

172 - A Vida de Santo Antão (Parte IV – 1,2)

 



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172

Atanásio de Alexandria (285-373)

A Vida de Santo Antão (Parte IV – 1,2)

 

Parte IV

 

I - Discernimento dos Espíritos

1.      Agora, pois, quando se lhes apareçam de noite e queiram contar-lhes o futuro ou lhes digam: 'Somos os anjos', ignorem-nos porque estão mentindo.

2.      Se louvam sua prática da vida ascética ou os chamam santos, não os ouçam nem tenham nada que ver com eles.

3.      Façam antes o sinal da cruz sobre si mesmos, sobre sua morada e oração, e vê-los-ão desaparecer. São covardes e têm terror mortal do sinal da cruz de Nosso Senhor, desde que na cruz o Senhor os despojou e escarmentou-os.

4.      Se insistem, porém, com maior cinismo, bailando em torno e mudando de aparência, não os temam nem se acovardem nem lhes prestem atenção como se fossem bons; é totalmente possível distinguir entre o bem e o mal com a garantia de Deus.

5.      Uma visão dos santos não é turbulenta, 'pois não contenderá nem gritará' e ninguém ouvirá sua voz nas ruas (Mt 12,19; cf Is 42,2). Essa visão chega tão tranquila e suave, que logo haverá alegria, gozo e valor na alma. Com eles está nosso Senhor, que é nossa alegria, e o poder de Deus Pai. E os pensamentos da alma permanecem desembaraçados e sem agitação, de modo que em sua própria brilhante transparência é possível contemplar a aparição.

6.      Um anelo das coisas divinas e da vida futura se apossa da alma, e seu desejo é unir-se totalmente a eles e com eles poder partir. Se alguns, porém, por ser humanos, têm medo ante a visão dos bons, então os que aparecem expulsam o temor pelo amor, como o fez Gabriel com Zacarias (Lc 1,13), e o anjo que apareceu às mulheres no santo sepulcro (Mt 28,5) e o anjo que apareceu aos pastores. 'Não temam' (Lc 2,10). Temor, nestes casos, não é covardia da alma, antes, porém, consciência da presença de seres superiores. Tal é, pois, a visão dos santos.

7.      Por outro lado, o ataque e a aparição dos maus estão cheios de confusão, acompanhada de ruídos, bramidos e alaridos; bem poderia ser o tumulto produzido por homens grosseiros ou salteadores.

8.      Isto no começo ocasiona terror na alma, distúrbios e confusão de pensamentos, desalento, ódio da vida ascética, tédio, tristeza, lembrança dos parentes, medo da morte; e logo vem o desejo do mal, o desprezo da virtude e completa mudança do caráter.

9.      Por isso, se vocês têm uma visão e sentem medo, mas se o medo se afasta logo e em seu lugar lhes vem inefável alegria e contentamento, recuperação da força e da calma do pensamento e tudo o mais que mencionei, e valentia de coração e amor de Deus, então alegrem-se e orem; seu gozo e a tranquilidade da alma dão prova da santidade Daquele que está presente.

10.  Assim, Abraão, vendo o Senhor, alegrou-se (Jo 8.56), e João, ouvindo a voz de Maria, a mãe de Deus, saltou de alegria (Lc 1.41).

11.  Se, porém, visões os surpreendem e confundem e há abertamente tumulto e aparições terrenas e ameaças de morte e tudo o mais que mencionei, saibam então que a visita é do mau.

12.  Tenham, também este outro sinal: se a alma prossegue com medo, o inimigo está presente.

13.  Os demônios não tiram o medo que produzem, como o fez o grande arcanjo Gabriel com Maria e Zacarias, e o que apareceu às mulheres no sepulcro.

14.  Os demônios, ao contrário, quando veem que os homens têm medo, aumentam suas fantasmagorias para aterrorizá-los ainda mais, depois descem e os enganam dizendo-lhes: 'Prostrem-se e adorem-nos' (cf Mt 4.9).

15.  Assim enganaram aos gregos, pois entre eles os havia, tomados falsamente por deuses.

16.  Nosso Senhor, porém, não permitiu que fôssemos enganados pelo demônio, quando uma vez repeliu-o quando intentava utilizar suas alucinações com Ele: 'Aparta-se, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás' (Mt 4,10).

17.  Por isso, desprezemos sempre mais o autor do mal, pois o que nosso Senhor disse foi por nós: quando os demônios ouvem tais palavras, são expulsos pelo Senhor que com essa palavras os repreendeu.

18.  Não devemos jactar-nos de expulsar os demônios nem vangloriar-nos por curas realizadas; não devemos honrar só ao que expulsa os demônios e desprezar o que não o faz.

19.  Que cada um observe atentamente a vida ascética do outro, e então imite-a e emule, ou a corrija; quanto a fazer milagres, não nos compete. Isto está reservado ao Salvador, que, por outro lado, disse a seus discípulos: 'Alegrem-se, não porque os demônios se lhes submetem, mas porque têm seus nomes escritos no céu' (Lc 10,20).

20.  E o fato de estarem nossos nomes escritos no céu é testemunho para nossa vida de virtude, mas quanto a expulsar demônios, é dom do Salvador.

21.  Por isso, aos que se gloriavam não de sua virtude, mas de seus milagres e diziam: 'Senhor, não expulsamos demônios em teu nome e não operamos milagres, também em teu nome?' (Mt 7.22). Ele respondeu: 'Em verdade lhes digo que não os conheço' (Mt 7.23), pois o Senhor não conhece o caminho dos ímpios (cf Sl 1.6).

22.  Em resumo, deve-se orar, como já disse, pelo dom do discernimento dos espíritos, a fim de que, como está escrito, não creiamos em todo espírito (cf 1 Jo 4.1).

 

II - Antão narra suas experiências com os Demônios

23.  Em realidade, queria agora deter-me e não dizer nada mais que viesse de mim mesmo, já que basta o que foi dito.

24.  Mas para que vocês não pensem que simplesmente digo estas coisas por falar, mas para que se convençam de que o faço por verdadeira experiência, por isso quero contar-lhes o que vi quanto às práticas dos demônios.

25.  Talvez me chamem de tonto, mas o Senhor que está ouvindo o sabe que minha consciência é limpa e que não é por mim mesmo mas para vocês e para alentá-los que digo tudo isto.

26.  Quantas vezes me chamaram bendito, enquanto eu os maldizia em nome do Senhor! Quantas vezes faziam predições acerca da água do Rio! E eu lhes dizia: 'Que têm vocês a ver com isto?

27.  'Uma vez chegaram com ameaças e me rodearam como soldados armados até os dentes. Noutra ocasião encheram a casa com cavalos e bestas e répteis, mas eu cantei o salmo: 'Uns confiam nos carros, outros em sua cavalaria, mas nós confiamos no nome do Senhor nosso Deus' (Sl 19,8), e a esta oração foram rechaçados pelo Senhor.

28.  Outra vez, no escuro, chegam com uma luz fátua dizendo: 'Vimos trazer-te luz, Antão'. Fechei, porém os olhos,  orei, e de um golpe apagou-se a luz dos ímpios.

29.  Poucos meses depois chegaram cantando salmos e citando as Escrituras. Mas 'eu fui como um surdo que não ouve' (Sl 37,14).

30.  Uma vez sacudiram a cela de um lado a outro, mas eu orei, permanecendo inalterável em minha mente. Voltaram então e fizeram um ruído contínuo, dando golpes, sibilando e fazendo cabriolas.

31.  Pus-me então a orar e cantar salmos, e então começaram a gritar e lamentar-se como se estivessem extenuados, e eu louvei ao Senhor que reduziu a nada seu descaramento e insensatez e lhes deu uma lição.

32.  Uma vez apareceu-me em visão um demônio realmente enorme, que teve a desfaçatez de dizer: 'Sou o Poder de Deus' e: 'Sou a Providência. Que favor desejas que te faça?' Então soprei-lhe meu bafo, invocando o nome de Cristo e fiz empenho de golpeá-lo. Parece que tive êxito, porque logo, grande como era, desapareceu, e todos seus companheiros com ele, ao nome de Cristo.

33.  Outra vez, estava eu jejuando e chegou-se a mim o velhaco trazendo pães ilusórios. Pôs-se a dar-me conselhos: 'Come e deixa-te de privações. Também tu és homem e estás a ponto de adoecer.' Mas eu, percebendo seu embuste, levantei-me para orar e ele não aguentou: desapareceu como fumaça através da porta.

34.  Quantas vezes me mostrou no deserto uma visão de ouro que eu podia pegar e levar! Opus-me cantando um salmo e se dissolveu.

35.  Bateu-me muitas vezes e eu dizia: 'Nada poderá separar-me do amor de Cristo' (cf Rm 8.35), e eles então se golpeavam uns aos outros.

36.  Não fui eu, porém, quem deteve e paralisou seus esforços, mas o Senhor que disse: 'Vi Satanás caindo do céu como um relâmpago' (Lc 10.18).

37.  Filhinhos meus, lembrem-se do que disse o Apóstolo: 'Apliquei-me isto a mim mesmo' (1 Cor 4.6), e aprenderão a não descoroçoar-se em sua vida ascética e a não temer as ilusões do demônio e de seus companheiros.

38.  Já que me fiz louco entrando em todas estas coisas, escutem também o que segue, para que possa servir-lhes para sua segurança; creiam-me, não minto.

39.  Uma vez ouvi um golpe na porta de minha cela, saí e vi uma figura enormemente alta. Quando lhe perguntei: 'Quem és?', respondeu-me: 'Sou Satanás'. 'Que estás fazendo aqui?' Ele respondeu: 'Que falta encontram em mim os monges e os demais cristãos, sem razão alguma? Por que me expulsam a cada momento?'

40.  'Bem, por que os molestas?, disse-lhe. Ele contestou: 'Não sou eu que os molesto, mas seus embaraços têm origem neles mesmos, pois eu me enfraqueci. Não leste por acaso: O inimigo foi desarmado, arrasaste suas cidades (Sl 9.7)? Agora não tenho nem lugar nem armas nem cidade. Em toda parte há cristãos e até o deserto está cheio de monges. Que se dediquem ao que lhes é próprio e não me maldigam sem causa.

41.  Maravilhei-me então ante a graça do Senhor e lhe disse: 'Ainda que sejas sempre mentiroso e nunca fales a verdade, no entanto desta vez a disseste, por mais que te desagrade fazê-lo. Vês, Cristo, com sua vinda te fez impotente, derrubou-te e te despojou'. Ele, ouvindo o nome do Salvador e incapaz de suportar o calor que isto lhe causava, desvaneceu-se.

42.  Por isso, se até o próprio demônio confessa que não tem poder, deveríamos desprezá-lo totalmente.

43.  O mau e seus cães têm, é verdade, todo um provimento de velhacaria; nós, porém, conhecendo sua impotência, podemos desprezá-los.

44.  Não nos entreguemos, pois, nem nos desalentos, nem deixemos que haja covardia em nossa alma nem nos causemos medo a nós próprio, pensando: 'Oxalá não venha o demônio e me faça cair! Queira Deus que não me leve para cima ou para baixo, ou apareça de repente e me tire dos eixos!

45.  Não deveríamos absolutamente ter semelhantes pensamentos nem afligir-nos como se fôssemos perecer. Antes tenhamos coragem e alegremo-nos sempre como homens que estão sendo salvos.

46.  Pensemos que o Senhor está conosco, Ele que afugentou os maus espíritos e lhes tirou o poder.

47.  Meditemos sempre sobre isto e recordemos que enquanto o Senhor estiver conosco, nossos inimigos não nos causarão dano. Pois quando vêm, atuam como nos encontram, e, no estado de alma em que nos encontrem, apresentam suas ilusões.

48.  Se nos veem cheios de medo, de pânico, imediatamente tomam posse como bandidos que encontram a praça desguarnecida; tudo o que pensemos de nós, aproveitam-no com redobrado interesse.

49.  Se nos veem temerosos e acovardados, aumentam nosso medo o mais que possam em forma de imaginações e ameaças, e assim a pobre alma é atormentada para o futuro.

50.  Se nos encontram, porém, alegrando-nos no Senhor; meditando nos bens futuros e contemplando as coisas que são do Senhor; considerando que tudo isto está em Suas mãos e que o demônio não tem poder sobre um cristão, que, de fato, não tem poder sobre ninguém, absolutamente, então, vendo a alma salvaguardada com tais pensamentos, envergonham-se e voltam atrás.

51.  Assim, quando o inimigo viu Jó fortificado, retirou-se dele, enquanto que encontrando Judas desprovido de toda defesa, aprisionou-o.

52.  Por isso, se quisermos desprezar o inimigo, mantenhamos sempre nosso pensamento nas coisas do Senhor e que nossa alma goze com a esperança (cf Rm 12.12).

53.  Veremos então como os enganos do demônio se desvanecem como fumo e vê-lo-emos fugir em lugar de perseguir-nos. Eles são, como disse, abjetos covardes, sempre receosos do fogo preparado para eles (Mt 25.41).

54.  Observem também isto quanto à intrepidez que devem ter na presença deles. Cada vez que venha uma aparição não se precipitem imediatamente cheios de medo covarde, mas seja como for, perguntem primeiro com coração resoluto: 'Quem és e donde vens?' Se é uma visão boa, há de tranquiliza-los e mudar o medo em alegria. No entanto, se tem que ver com o demônio, vai desvanecer-se logo vendo o ânimo decidido de vocês, pois a simples pergunta: 'quem és e donde vens? 'é sinal de tranquilidade.

55.  Assim o aprendeu o filho de Nun (Js 5.13s) e o inimigo se livrou de ser descoberto quando Daniel o interrogou (citação do apócrifo Dan 13,51-59).

 

O que você destaca no texto e como ele serve para sua espiritualidade?

O que você deseja destacar na fala do seu irmão/irmã?

terça-feira, 22 de junho de 2021

171 - A Vida de Santo Antão (Parte III – 2,3)

                                                                             171

Atanásio de Alexandria (285-373)

A Vida de Santo Antão (Parte III – 2,3)

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2 - Impotência dos Demônios

1.      Bem, até agora só falei deste tema de passagem. Mas agora não devo deixar de tratá-lo com maiores detalhes; recordar-lhes isto só pode redundar em maior segurança.

2.      Desde que o Senhor habitou conosco, o inimigo caiu e declinaram seus poderes. Por isso não pode nada; no entanto, ainda que caído, não pode ficar quieto, mas como tirano que não pode fazer outra coisa, vai-se com ameaças, sejam elas embora puras palavras.

3.      Cada qual se lembre disto e poderá desprezar os demônios. Se estivessem confinados a corpos como os nossos, deveriam então dizer: 'Aos que se escondem, não os vamos encontrar; mas se os encontramos, então vamos daná-los'.

4.      E neste caso poderíamos escapar deles escondendo-nos e trancando as portas. Não é este, porém, o caso, e podem entrar apesar das portas trancadas. Vemos que estão

5.      presentes em todas as partes no ar, eles e seu chefe, o demônio, e sabemos que sua vontade é má e que estão inclinados a danar, e que, como diz o Salvador, 'o demônio foi homicida desde o princípio' (Jo 8,44); então, se apesar de tudo vivemos, e vivemos nossas vidas desafiando-o, é claro que não tem nenhum poder.

6.      Como veem, o lugar não lhes impede a conspiração; tampouco nos veem amáveis com eles como para que nos perdoem, nem tampouco são amantes do bem para mudar seus caminhos. Não, ao contrário, são maus e nada há que desejem mais ansiosamente do que fazer dano aos amantes da virtude e aos adoradores de Deus. Pela simples razão de serem impotentes para fazer algo, nada fazem senão ameaçar.

7.      Se pudessem, estejam vocês seguros de que não esperariam, mas, antes, realizariam seus mais fortes desejos: o mal, e isso contra nós. Notem, por exemplo, como agora estamos reunidos aqui falando contra eles, e ademais eles sabem que na medida em que fazemos progressos, eles se debilitam.

8.      Em verdade, se estivesse em seu poder, não deixariam vivo nenhum cristão, porque o serviço de Deus é abominação para o pecador (Sir 1,25). E posto que não podem nada, fazem dano a si mesmos, já que não podem cumprir suas ameaças.

9.      Ademais, para acabar com o medo a eles, dever-se-ia também levar em conta que, se tivessem algum poder, não viriam em manadas, nem recorreriam a aparições, nem usariam o artifício de transformar-se.

10.  Bastaria que viesse apenas um e fizesse o que fosse capaz de fazer, ou de acordo com sua inclinação. O mais importante de tudo é que o detentor do poder não se esforça em matar com fantasmas nem trata de aterrorizar com hordas, mas, sem mais histórias, usa de seu poder como quer.

11.  Atualmente, porém, os demônios, impotentes como são, fazem piruetas como se estivessem sobre um cenário, mudando suas formas em espantalhos infantis, com manadas ilusórias e contorções, tornando-se assim mais desprezível sua carência de vigor.

12.  Estejamos seguros: o anjo verdadeiro, enviado pelo Senhor contra os assírios, não teve necessidade de grande número, nem de ilusões visíveis, nem de sopros retumbantes, nem de ressoar de guizos; não, ele exerceu tranquilamente seu poder, e de uma vez matou cento e oitenta e cinco mil deles (cf 2 Rs 19.35).

13.  Mas os demônios, impotentes criaturas como são, tratam de aterrorizar, e isto com meros fantasmas!

14.  Se alguém, ao examinar a história de Jo dissesse: 'Por que, então, continuou o demônio agindo contra ele? Despojou-o de suas posses, matou seus filhos e o feriu com graves úlceras' (cf Jó 1.13ss; 2,7), que essa pessoa se aperceba de que não se trata de que o demônio tivesse poder para fazer isso, mas Deus é que lhe entregou Jo para que o tentasse (cf Jó 1.12).

15.  Fica suposto que não tinha poder para fazê-lo; pediu esse poder e só depois de havê-lo recebido agiu. Aqui temos outra razão para desprezar o inimigo, pois ainda que tal fosse o seu desejo, não foi capaz de vencer o homem justo.

16.  Se o poder houvesse sido dele, não haveria necessidade de pedi-lo, e o fato de o pedir não uma, mas duas vezes, mostra sua fraqueza e incapacidade.

17.  Não é de estranhar que não tivesse poder contra Jo, quando lhe foi impossível destruir nem mesmo seus animais, a não ser que Deus lhe desse permissão.

18.  Mas não tem poder nem sequer contra porcos, como está escrito no Evangelho: (Mt 8.31). Mas se não têm poder nem sequer sobre animais, muito menos o têm sobre os homens feitos à imagem de Deus.

19.  Por isso se deve temer a Deus só e desprezar esses seres, sem lhes ter medo, absolutamente. E quanto mais se dedicam a tais coisas, tanto mais dediquemo-nos à vida ascética para contra atacá-los, pois uma vida reta e a fé em Deus são grande arma contra eles.

20.  Temem aos ascetas por seu jejum, suas vigílias, orações, mansidão, tranquilidade, desprezo do dinheiro, falta de presunção, humildade, amor aos pobres, esmolas, ausência de ira, e, acima de tudo, sua lealdade para com Cristo.

21.  Esta é a razão pela qual tudo fazem para que ninguém os espezinhe. Conhecem a graça dada pelo Salvador aos crentes quando diz: 'Olhem: dei-lhes o poder de calcar aos pés serpentes e escorpiões e todo o poder do inimigo' (Lc 10.19).

 

3 - Falsas Predições do Futuro

22.  Também, se pretendem predizer o futuro, não lhes façam caso. Às vezes, por exemplo, nos comunicam dias antes a visita de irmãos, e efetivamente chegam.

23.  Mas não é por se preocuparem com seus ouvintes que fazem isto, mas para induzi-los a colocar sua confiança neles, e assim, tendo-os bem nas mãos, poderem destruí-los. Não os escutemos, mas deitemo-los fora, pois não precisamos deles.

24.  Que prodígio haverá em que eles, tendo corpos mais sutis que os homens, vendo que alguém se põe a caminho, se adiantem e anunciem sua chegada?

25.  Uma pessoa a cavalo poderia também adiantar-se de outro a pé e dar a mesma informação. Assim, pois, tampouco nisto não há de que admirar-nos deles.

26.  Não têm nenhum conhecimento prévio do que ainda não aconteceu, mas só Deus conhece todas as coisas antes que existam (cf Dn 13.42).

27.  Neste ponto são como ladrões que correm adiante e anunciam o que viram. Neste momento mesmo, a quantos já terão anunciado o que estamos fazendo, como estamos aqui discutindo sobre eles, antes que nenhum de nós possa levantar-se e informar o mesmo!

28.  Mas até um menino veloz para correr faria o mesmo, adiantando-se a uma pessoa mais lenta. Vou ilustrar com um exemplo o que quero dizer. Se alguém quiser pôr-se em viagem de Tebaida ou de qualquer outro lugar, antes que efetivamente parta não sabem se vai sair ou não; mas quando o veem caminhar, adiantam-se e anunciam de antemão sua chegada.

29.  E assim sucede que depois de alguns dias chega. Às vezes, porém, o viajante volta e a informação é falsa.

30.  Também às vezes falam sandices a respeito da água do Rio (Isto é, o Nilo que, para um egípcio, era o que fazia o Egito. Também no AT o Nilo é geralmente chamado "o Rio", ou "o grande Rio". MEYER 114).

31.  Por exemplo, vendo as grossas chuvas nas regiões da Etiópia e sabendo que as enchentes do Rio tem ali sua origem, adiantam-se e o anunciam antes que as águas alcancem o Egito.

32.  Também os homens poderiam fazê-lo, se pudessem correr com a rapidez deles. E como a sentinela de Davi (2 Sm 18.24), subindo a uma altura, conseguiu avistar o que chegava antes do que os que estavam em baixo, e correndo informou logo, não o que ainda não havia passado, mas o que estava por acontecer logo, assim também os demônios se apressam a anunciar coisas a outros com o único fim de enganá-los.

33.  Em verdade, se entretanto, a Providência tivesse uma disposição especial quanto à água ou aos viajantes, e isto é perfeitamente possível, então se veria ser mentira a informação dos demônios, e ficariam enganados os que neles puseram sua confiança.

34.  Assim surgiram os oráculos gregos e assim foi desviado o povo da antiguidade pelos demônios. Com isto deve-se dizer também quanto engano foi preparado para o futuro, mas o Senhor veio para suprimir os demônios e sua vilania.

35.  Não conhecem nada fora de si mesmos, mas vendo que outros têm conhecimento, como ladrões apoderam-se dele e o desfiguram. Praticam mais a conjectura do que a profecia.

36.  Por isso, ainda que às vezes pareçam estar na verdade, ninguém deveria se admirar. Na realidade, também os médicos, cuja experiência em enfermidades lhes vem de haver observado a mesma doença em diferentes pessoas, fazem muitas vezes conjecturas baseadas em sua prática e predizem o que se vai passar.

37.  Também os pilotos e camponeses, observando as condições do tempo, prognosticam se vai haver tempestade ou bom tempo. A ninguém ocorreria dizer que profetizam por inspiração divina, mas pela experiência que lhes dá a prática.

38.  Em consequência, se também os demônios adivinham algumas destas mesmas coisas e as dizem, nem por isso devemos maravilhar-nos nem fazer absolutamente caso delas. De que serve aos ouvintes saber dias antes o que se vai passar? Ou porque afanar-se em saber tais coisas, mesmo supondo que este conhecimento seja verdadeiro?

39.  Por certo não é este o elemento fundamental da virtude nem tampouco prova de nosso progresso; pois ninguém é julgado pelo que não sabe, e ninguém é chamado bem-aventurado pelo que aprendeu e sabe.

40.  O juízo que nos espera a cada um é se guardamos a fé e observamos fielmente os mandamentos.

41.  Daí, não demos importância a estas coisas, nem nos afanemos na vida ascética com o fim de sabermos o futuro, mas para agradar a Deus vivendo bem.

42.  Deveríamos orar, não para conhecer o futuro nem deveríamos pedir isto como recompensa pela prática ascética, mas que o fim de nossa oração deve ser que o Senhor seja nosso companheiro para conseguirmos a vitória sobre o demônio.

43.  Se algum dia, porém, chegarmos a conhecer o futuro, mantenhamos pura nossa mente. Tenho a absoluta confiança de que se a alma é integralmente pura e está em seu estado natural, alcança a claridade da visão e vê mais e mais longe que os demônios.

44.  A ela o Senhor revela as coisas. Tal era a alma de Eliseu que viu o que se passou com Geazi (2 Rs 5,26), e contemplou os exércitos que estavam perto (2 Rs 6.17).

 

O que você destaca no texto? Como ele serve para sua espiritualidade?

O que você destaca na fala do seu irmão/irmã?

 

 

sábado, 19 de junho de 2021

Breve Cronologia de Santo Antão

 


Santo Antão

também conhecido como Santo Antão do EgitoSanto Antão, o GrandeSanto Antão, o EremitaSanto Antão, o Anacoreta, ou ainda O Pai de Todos os Monges

Sua festa:

17 de Janeiro, no novo calendário da Igreja Ortodoxa, da Igreja Católica Romana e da Igreja Copta.

Biografia

O Escrito sobre sua vida:

360 - A vida de Santo Antão foi relatada por Atanásio de Alexandria, Vita Antonii; escrito em 360.

Cronologia:

251

- Antão teria nascido em 251 na Tebaida, no Alto Egito,

272

- Com 20 anos tomou o Evangelho à letra e distribuiu todos os seus bens aos pobres, partindo de seguida para viver no deserto onde foi terrivelmente atacado por demônios. Fica perto de sua aldeia em um lugar reservado e solitário e busca ajuda de outros monges para aprender o caminho da ascese. Logo após muda para os sepulcros perto da cidade.

286

- Com 35 anos muda para o deserto, em uma montanha. Trata-se da chamada "Montanha Exterior", onde Santo Antão passou vinte anos de absoluta reclusão. É em Pispir, a margem oriental do Nilo, a mais ou menos 90 km ao sul de Mênfis. Em lugar distante do rio encontrou um fortim (fortificação pequena, um forte) deserto que com o correr do tempo achava-se infestado de répteis

306

– Depois de 20 anos, deixa a solidão e passa a ser discipulador. Depois disto, como havia muitos que ansiavam e aspiravam imitar sua santa vida, e alguns de seus amigos vieram e forçaram a porta, derrubando-a, Antão saiu como de um santuário, como um iniciado nos sagrados mistérios e cheio do Espírito de Deus

311

- Em 311, viajou até Alexandria para ajudar os cristãos perseguidos por Maximino Daia,

355

– Regressou para Alexandria em 355 para impugnar a doutrina ariana.

356

- Faleceu em 356 (viveu 105 anos).