quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Livro V - Prólogo e Capítulo 1

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro V – Prólogo e Capítulo 1



Texto Bíblico: Hebreus 12.4

Prólogo
I - Quantos foram e de que modo lutaram nos tempos de Vero pela religião na Gália



Prólogo
1.            Assim pois, Sotero, o bispo da igreja de Roma, morreu depois de governar até seu oitavo ano, e foi sucedido por Eleutério, décimo segundo a partir dos apóstolos. Corria o décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero. Neste tempo reavivou-se com maior violência em algumas partes da terra a perseguição contra nós e, pelos ataques dos habitantes das cidades, pode-se conjeturar que foram milhares os mártires que se distinguiram se levamos em conta o ocorrido em uma só nação, que por ser realmente digno de lembrança imorredoura, foi transmitido por escrito à posteridade.
2.            O escrito inteiro do completíssimo relato sobre estes fatos consta de nossa Recompilação de Martírios, que compreende uma explicação não apenas narrativa, mas também instrutiva. Na presente obra tomarei e citarei ao menos o que aquela contenha sobre o tema que nos ocupa.
3.            Outros, ao fazerem as narrativas históricas, não transmitem por escrito mais do que vitórias em guerras, troféus de inimigos, façanhas de generais e valentias de soldados manchados de sangue e de mortes inumeráveis por causa dos filhos, da pátria e demais bens.
4.     Nossa obra, por outro lado, que descreve o modo de vida segundo Deus, gravará em lápides eternas as mais pacíficas lutas pela própria paz da alma e o nome dos que nelas se comportaram varonilmente, mais pela verdade do que pela terra pátria, e mais pela religião do que pelos seres queridos, e se proclamará publicamente, para eterna memória, a resistência dos atletas da fé, sua bravura, curtida em mil sofrimentos, os troféus conquistados contra os demônios, as vitórias sobre os adversários invisíveis e, depois de tudo, suas coroas.

I - Quantos foram e de que modo lutaram nos tempos de Vero pela religião na Gália
1.            Foi pois a Gália o país em que se preparou o estádio, lugar dos fatos mencionados. Duas metrópoles eram célebres por sua distinção e por sua importância entre as outras: Lion e Viena. Ambas são atravessadas pelo Ródano, que flui ao longo de todo o país com grande caudal.
2.            As ilustríssimas igrejas daquela região transmitiram às igrejas da Ásia e Frígia[1] a carta sobre os mártires, e narram o ocorrido da seguinte maneira. Citarei suas próprias palavras.
3.             "Os servos de Cristo que peregrinam em Viena e em Lion da Gália, aos irmãos que na Ásia e na Frígia compartilham conosco a mesma fé e a mesma esperança da redenção: paz, graça e glória por parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Senhor."
4.             Depois, em continuação, seguem dizendo outras coisas como prólogo e dão início a seu relato nos seguintes termos:
"Descrever pois, com justiça a magnitude desta tribulação daqui, o grau de irritação dos pagãos contra os santos e o número de sofrimentos que os bem-aventurados mártires suportaram, nem está em nossa capacidade nem sequer é possível encerrar em um escrito.
5.             E ocorreu que o adversário[2] atacou com todas as suas forças, como prelúdio já do descaramento de sua vinda iminente. Meteu-se por todos os lados, acostumando os seus e exercitando-os de antemão contra os servos de Deus, de forma que não só nos expulsam das casas, dos banhos e das praças, mas que inclusive proíbem que algum de nós deixe-se ver de qualquer forma em qualquer lugar que seja.
6.      Mas a graça de Deus opunha-se a sua estratégia: retinha os fracos e apresen­tava à frente uma formação de sólidas colunas, capazes de atrair sobre si, com sua paciência, todo o ímpeto do malvado. Estes marcharam a seu encontro, suportando toda sorte de injúrias e castigos[3]. Considerando pouco o que era muito, apressavam seu passo para Cristo e mostravam realmente que os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória que está para ser revelada em nós[4].
7.      Em primeiro lugar suportaram generosamente os assaltos massivos de toda a plebe: insultos, golpes, sacudidas, rapinas, apedrejamentos, passagem por apertos e tudo quanto fosse do gosto de uma plebe enfurecida contra pessoas que considera odiosas e inimigas.
8.             E depois de serem conduzidos a praça pública e de serem julgados pelo tribuno e pelos magistrados da cidade em presença de toda a multidão, foram encerrados no cárcere até a chegada do governador.
9.      Mais tarde conduziram-nos ante o governador. Como estes usou de toda sua crueldade contra nós, um dos irmãos, Vetio Epágato, que possuía em plenitude o amor a Deus e ao próximo e cuja conduta tinha sido tão estrita que, sendo ainda jovem, fez-se merecedor do testemunho do ancião Zacarias, já que havia caminhado irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor, diligente em todo serviço ao próximo, com muito zelo com Deus e fervor de espírito, por ser de tal índole, não suportou que se procedesse contra nós com um juízo tão irracional. Fortemente indignado, pediu para ser também ele ouvido e defendeu, em favor dos irmãos, que entre nós nada há de ateu nem de ímpio.
10.     Os que rodeavam o tribunal passaram a gritar contra ele - pois era homem importante -, e o juiz, não tolerando a petição assim proposta por ele, queria unicamente saber se também era cristão. Como Vetio o confessasse com voz claríssima, também ele foi recebido nas fileiras dos mártires. Foi chama­do consolador[5] dos cristãos, pois dentro de si tinha o consolador, o Espírito de Zacarias, o que havia mostrado com a plenitude de seu amor achar bom sair em defesa dos irmãos e expor sua própria vida, porque era e conti­nua sendo genuíno discípulo de Cristo, que vai atrás do Cordeiro onde quer que este vá.
11.     A partir daqui, os demais se dividem: aparecem claramente os preparados para dar testemunho, os que com todo ser ardor completavam a confissão do martírio; mas também se manifestaram os que não estavam dispostos, destreinados e até fracos, incapazes de agüentar a tensão de um grande combate. Destes uns dez abortaram. Grande foi a aflição e imensa a dor que nos causaram e grave o dano causado ao entusiasmo dos outros que não haviam sido presos com eles e que, apesar de estar sofrendo toda classe de horrores, contudo, assistiam os mártires e não os abandonaram.
12.     Mas então todos ficamos muito aterrados ante a incerteza da confissão, não por temor aos castigos, mas porque víamos como distante o fim e temíamos que alguém sucumbisse.
13.     Mesmo assim, a cada dia detinham os que eram dignos de completar o número daqueles, tanto que juntaram todas as pessoas importantes das duas igrejas, graças às quais, sobretudo, tem importância os assuntos daqui.
14.     Foram presos também alguns pagãos, criados dos nossos, quando o governa­dor mandou que se buscassem todos os nossos. Estes, pelas insídias de Sata­nás, temendo os tormentos que viam padecer os santos e forçados a isto pelos soldados, acusaram-nos falsamente de ceias canibais, de promiscuida­des edípicas e de tantas outras coisas que para nós não é lícito nem dizer nem pensar, nem mesmo crer que tais coisas tenham ocorrido entre os homens.
15. Quando este rumor se espalhou, todos se revoltaram como feras contra nós, tanto que, se a princípio alguns se comportaram com moderação por amizade, começaram então a mostrar-se muito hostis e raivosos contra nós. Estava se cumprindo o que dissera nosso Senhor: Virá um tempo em que todo aquele que vos matar pensará estar prestando culto a Deus[6].
16.     Desde então os santos mártires suportaram castigos que excedem a toda descrição, enquanto Satanás se esforçava para arrancar-lhes também alguma palavra blasfema.
17. Toda a fúria da multidão, do governador e dos soldados abateu-se transbordante sobre o diácono Santos, de Viena, sobre Maturo, recém-batizado mas nobre lutador, sobre Atalo, oriundo de Pérgamo e que sempre havia sido coluna e fundamento dos cristãos daqui, e sobre Blandina, por meio da qual Cristo demonstrou que o que entre os homens parece vulgar, disforme e facilmente desprezável, por parte de Deus é considerado digno de grande glória devido ao amor a Ele, amor que se mostra na força e que não se van­gloria da aparência.
18.     Efetivamente, enquanto todos nós estávamos temerosos e sua própria senhora segundo a carne - também ela uma de nossos mártires combatentes -temíamos que por fraqueza de seu corpo não tivesse forças para proclamar livremente sua confissão, Blandina viu-se cheia de uma força tão grande que extenuava e esgotava aqueles que, em turnos e de todas as maneiras, torturavam-na desde o amanhecer até o ocaso; eles mesmos confessavam que estavam vencidos, sem nada poder fazer com ela, e se admiravam de como podia manter-se com alento estando todo seu corpo dilacerado e aberto, e atestavam que um só tipo de suplício bastaria para tirar a vida, sem neces­sidade de tantos e tão terríveis.
19. Mas a bem-aventurada mulher, como nobre atleta, rejuvenescia na confissão, e para ela era recuperação de forças, descanso e ausência de dor em meio aos acontecimentos o dizer: "Sou cristã, e nada de mal é feito entre nós!"
20. Também Santos suportou nobremente, além de toda medida humana, todos os maus-tratos que provêm dos homens. Os iníquos esperavam que pela persistência e magnitude dos tormentos ouviriam dele algo indevido, mas resistiu-lhes com tal firmeza, que não revelou nem seu próprio nome, nem de sua família, nem da cidade de onde vinha nem se era escravo ou se era livre, mas a tudo que lhe perguntavam respondia em latim: "Sou cristão!" Em lugar de seu nome, de sua cidade, de sua família e de tudo, isto é o que confessava sucessivamente, e nenhuma outra palavra ouviram dele os pagãos.
21.  Por esta razão, tanto o governador quanto os torturadores ensandeceram-se de tal maneira contra ele que, quando já não sabiam o que fazer-lhe, por último aplicaram-lhe placas de cobre em brasa aos membros mais delicados de seu corpo.
22.  Estes certamente se queimaram, mas ele se manteve inflexível e firme, constante na confissão, borrifado e fortalecido pela fonte santa da água viva que brota das entranhas de Cristo[7].
23.  Seu corpo atestava o ocorrido: todo ele era uma chaga, todo confusão, moído e tendo perdido toda forma humana; mas Cristo padecia nele e realizava grandes glórias anulando o adversário e mostrando, para exemplo dos demais, que nada há de temível onde está o amor do Pai, nem doloroso onde está a glória de Cristo.
24.  Efetivamente, depois de alguns dias, aqueles malvados começaram nova­mente a torturar o mártir, pensando que poderiam vencê-lo se, estando suas carnes inchadas e inflamadas, lhe aplicassem os mesmos suplícios agora que nem sequer suportava o toque das mãos, ou então que, morrendo em meio aos tormentos, infundiria temor aos outros. Mas não somente nada disso aconteceu com ele, mas, contra o que todos pensavam, recuperou-se, e seu corpo se endireitou entre os tormentos que seguiram e recobrou sua forma original e o uso dos membros, de maneira que a segunda tortura foi para ele não um suplício, mas cura pela graça de Cristo.
25.  E Biblida também, uma das que haviam renegado. O diabo já pensava que a havia devorado[8], mas querendo também condená-la por blasfêmia, con­duziu-a à tortura e a forçava a declarar sobre nós aquelas ímpias calúnias, já seguro de sua fragilidade e covardia.
26.  Mas ela, no tormenta, voltou a si e, por assim dizer, despertou de um sono profundo. Recordando então, graças àqueles castigos temporários, o castigo eterno no inferno[9], pôs-se pelo contrário, a replicar aos detratores e dizia: "Como poderiam estas pessoas comer uma criança se nem sequer lhes é permitido comer sangue de animais irracionais?"[10] E desde esse instante passou a confessar que também ela mesma era cristã, e foi incorporada à fila dos mártires.
27.  Anulados por Cristo os tormentos dos tiranos por meio da constância dos santos, o diabo pôs-se a imaginar outros recursos, o encerramento no pior e mais escuro lugar do cárcere, a distensão dos pés no cepo, separados até o quinto furo, e os demais suplícios que os funcionários irritados e endiabrados costumavam infligir aos presos, tanto que no cárcere a maior parte morreu asfixiada, ao menos quando o Senhor quis que assim morressem, mostrando sua própria glória.
28. Efetivamente, alguns que haviam sido cruelmente torturados até o ponto de parecer que não poderiam viver ainda que se lhes desse todo tipo de cuidados, permaneciam no cárcere, desprovidos, naturalmente, de toda assistência humana; mas fortalecidos pelo Senhor em seus corpos e em suas almas, animavam e consolavam os demais. Outros, em compensação, jovens e recém-detidos, cujos corpos não haviam sido torturados antes, não suportavam o peso do encerramento e morriam lá dentro.
29.  O bem-aventurado Potino, a quem fora confiado o ministério do episcopado de Lion, passava já da idade de noventa anos e seu corpo estava fraco. Por causa desta sua debilidade corporal apenas conseguia respirar, mas por seu grande desejo do martírio[11], o ardor de seu espírito devolvia-lhe as forças. Também ele foi arrastado ao tribunal com o corpo desfazendo-se pela velhice e pela enfermidade, mas com sua alma conservada para que por ela Cristo triunfasse.
30.  Levado pelos soldados ante o tribunal com acompanhamento das autoridades da cidade e de toda a plebe gritando-lhe toda classe de injúrias, como se ele mesmo fosse o Cristo, deu formoso testemunho.
31.  Quando o governador perguntou-lhe quem era o Deus dos cristãos, disse: "Se fores digno, o conhecerás." Então arrastaram-no sem cuidados e sofreu diversas feridas; os que estavam perto faziam-lhe todo tipo de afronta com pés e mãos, sem o menor respeito por sua idade, e os que estavam distantes atiravam cada um o que tivesse à mão, e todos criam errar gravemente e ser uns ímpios se omitissem alguma insolência contra ele, pois pensavam que assim vingavam seus deuses. Ele, apenas respirando, foi jogado no cárcere, e ao fim de alguns dias entregou sua alma.
32.  Foi então que teve lugar uma grande dispensação de Deus e se manifestou a imensa misericórdia de Jesus, como raramente havia ocorrido na comuni­dade dos irmãos, mas muito de acordo com o modo de Cristo.
33.  Efetivamente, os que haviam renegado nas primeiras detenções foram também encarcerados e compartilhavam dos mesmos horrores, já que nesta ocasião de nada lhes serviu sua apostasia. Os que confessavam o que na verdade eram, eram encerrados como cristãos, sem nenhuma outra acusação; em compensação, os outros eram presos como homicidas e impuros e castigavam-nos em dobro do que aos demais[12].
34.  E assim os primeiros eram aliviados pela alegria do martírio, pela esperança do prometido, pelo amor de Cristo e o Espírito do Pai, enquanto que para estes outros, a consciência os atormentava grandemente, ao ponto de que, ao morrerem, podia-se reconhecer seu aspecto entre todos.
35.  De fato, enquanto uns avançavam prazerosamente, com um misto de glória e graça abundantes em seus rostos, de modo que até suas correntes os cingiam como esplêndido adorno, como uma noiva ataviada com multicoloridos fios de ouro, e ao mesmo tempo espalhavam o suave odor de Cristo a ponto de fazer os outros pensarem que tinham-se ungido com perfumes mundanos, os outros, pelo contrário, faziam-no sombrios, cabisbaixos, disformes e cheios de rancor, e como se fosse pouco, até os pagãos tachavam-nos de ignóbeis e covardes: levavam a acusação de homicidas além de terem perdido seu nome venerabilíssimo, glorioso e vivificador. Quando os demais viram isto, reafirmaram-se, e os que iam sendo detidos confessavam já sem vacilação e sem ter um único pensamento de cálculo diabólico."
36.  Depois de juntar a isto algumas coisas intermediárias continuam: "Além disto, os gêneros de morte dos mártires eram muito variados, pois com flores de toda espécie trançavam uma só coroa para oferecê-la ao Pai, e assim era necessário que aqueles generosos atletas, depois de ter sustentado uma luta variada e ter vencido em toda a linha, recebessem a grande coroa da imortalidade[13].
37.  Assim pois, Maturo e Santos, assim como Blandina e Atalo, foram condu­zidos às feras, ao local público e para espetáculo comum da inumanidade dos pagãos, pois o dia de luta de feras deu-se precisamente por causa dos nossos.
38.  No anfiteatro, Maturo e Santos passaram novamente por todo tipo de tormentos como se antes não tivessem padecido absolutamente nada, ou melhor, como atletas que já venceram os adversários em muitos combates e que seguem lutando pela mesma coroa. De novo sofreram as passadas dos chicotes que ali eram de costume, os puxões das feras e tudo o que o povo enlouquecido, cada qual de seu lugar, gritava e ordenava. E como arremate de tudo, a cadeira de ferro, de onde os corpos, ao serem assados, lançavam ao público um odor de carne queimada.
39.  Mas estes, nem com tudo isto recuavam, mas até aumentava-se-lhes o frenesi querendo vencer a constância daqueles. Mas nem assim conseguiram ouvir de Santos outra coisa além da frase de confissão que desde o começo costumava repetir.
40.  Assim pois, os mártires, que depois de atravessar o grande combate seguiam com muita vida foram por fim sacrificados[14], convertidos naquele dia em espetáculo para o mundo em substituição à variada série de combates de gladiadores.
41.  Blandina, por outro lado, foi pendurada num madeiro e ficou exposta às feras, que se lançavam sobre ela. Apenas por vê-la pendendo em forma de cruz e com sua oração contínua, infundia-se muito ânimo aos outros combatentes, que neste combate viam com seus olhos corpóreos, através de sua irmã, aquele que por eles próprios havia sido crucificado. E assim ela persuadia aos que crêem n'Ele de que todo aquele que padece pela glória de Cristo entra em comunhão perpétua com o Deus vivo.
42.  Por não ter sido tocada então por nenhuma fera, desceram-na do madeiro e de novo levaram-na ao cárcere, guardando-a para outro combate; assim, depois de vencer em mais lutas, por um lado tornaria implacável a conde­nação da serpente tortuosa[15], e por outro animaria seus irmãos; ela. Pequena, frágil e desprezada, mas revestida do grande e invencível atleta, Cristo, bateria o adversário em sucessivos combates, e pelo combate seria cingida com a coroa da incorruptibilidade.
43.  Atalo, por sua vez, também foi reclamado com grande empenho pela plebe (pois tinha grande renome). Entrou já como lutador treinado, graças a sua boa consciência, pois havia-se exercitado sinceramente na disciplina cristã e sempre havia sido entre nós uma testemunha da verdade.
44.  Conduziram-no dando a volta ao anfiteatro, precedido de um cartaz no qual estava escrito em latim "Este é Atalo, o cristão"[16], enquanto o público se inflamava terrivelmente contra ele. Ao saber o governador que ele era romano, mandou que o levassem com os demais que estavam no cárcere, acerca dos quais escreveu uma carta ao imperador e ficou esperando sua resposta.
45.  O tempo que passou não foi ocioso nem estéril para eles, mas por sua paciência manifestou-se a imensa misericórdia de Cristo: por viverem eles, reviviam os mortos, e por serem mártires, outorgavam a graça aos que não o eram; assim, grande foi a alegria da Virgem Mãe ao recuperar vivos os que havia abortado mortos[17].
46.  Efetivamente, por meio deles, a maioria dos que haviam renegado voltavam sobre seus passos e de novo eram concebidos, reanimavam-se e aprendiam a confessar, e já com vida e fortalecidos, aproximavam-se do tribunal para serem novamente interrogados pelo governador, enquanto Deus, que não quer a morte do pecador[18], preferindo o arrependimento, suavizava-lhes o caminho.
47.  De fato, o imperador dispunha em seu edito que uns fossem degolados e os outros, contanto que renegassem, absolvidos[19]. Ao iniciar-se a grande festa local (comparece a ela grande multidão de pessoas de todas as raças), o governador fez levar novamente ao tribunal os bem-aventurados, como forma de teatro e de espetáculo para as multidões. Por isso interrogou-os novamente, e aos que pareciam ter título de cidadãos romanos, fazia decapitar[20], enquanto os demais eram mandados às feras.
48. Mas Cristo foi grandemente glorificado naqueles que primeiramente haviam renegado e que agora, contra o que poderiam esperar os pagãos, confessavam sua fé. Estes, na verdade, eram interrogados privadamente, como para serem em seguida postos em liberdade, mas ao confessar sua fé foram sendo juntados à fila dos mártires. Ficaram fora, porém, os que nunca tiveram nem um vestígio de fé, nem o sentido da vestimenta nupcial[21] nem idéia do temor a Deus, mas que com sua maneira de viver infamavam o caminho[22], ou seja, os filhos da perdição.
49. Por outro lado, todos os demais foram incorporados à Igreja. Quando estavam sendo interrogados, um tal Alexandre, frígio de nascimento e médico por profissão, que tinha vivido muitos anos nas Gálias e era conhecido de quase todos por seu amor a Deus e pela franqueza de seu falar (pois também participava do carisma apostólico), achava-se de pé junto ao tribunal e com gestos animava-os à confissão, parecendo aos que rodeavam a tribuna como se tivesse dores de parto.
50. A plebe, enfurecendo-se porque novamente confessavam aqueles que primeiro tinham renegado, pôs-se a gritar contra Alexandre, considerando-o causador de tudo, e o governador, notando-o, perguntou-lhe quem era, e como respondesse: "Um cristão", encolerizou-se e condenou-o às feras. No dia seguinte entrou na arena junto com Atalo, já que o governador, para agradar a plebe, entregou novamente Atalo às feras.
51.  Os que passaram por todos os instrumentos inventados para torturar no anfiteatro e sustentaram um grande combate, também eles foram ao final sacrificados. Alexandre nem soluçou nem murmurou um mínimo sequer, mas em seu coração conversava com Deus.
52.  Atalo, por outro lado, quando foi posto sobre a cadeira de ferro e começou a queimar-se e de seu corpo desprendia-se o cheiro de carne queimada, disse dirigindo-se em latim à multidão: "Estais vendo! Isto é comer homens, o que estais fazendo. Nós, por outro lado, nem comemos homens nem fazemos nada de mau." E como lhe perguntassem que nome tem Deus, respondeu: "Deus não tem nome como um homem."
53.  Depois de tudo isto, no último dia de lutas de gladiadores, levaram nova­mente Blandina junto com Pôntico, rapaz de uns quinze anos. Cada dia tinham sido apresentados para que vissem as torturas dos outros. Começa­ram obrigando-os a jurar pelos ídolos dos pagãos; mas como eles perma­neciam firmes e até os menosprezaram, a multidão ficou enfurecida contra eles ao ponto de não ter pena da idade do rapaz nem respeito pelo sexo feminino.
54. Entregaram-nos a todos os horrores e fizeram-nos percorrer todo o ciclo de torturas, uma após a outra, tentando forçá-los a jurar, sem que o conseguis­sem. Efetivamente, Pôntico, animado por sua irmã tanto que até os pagãos podiam ver que era ela que o exortava e confortava, depois de sofrer genero­samente todo tipo de tormentos, entregou o espírito.
55. E a bem-aventurada Blandina, a última de todos, como nobre mãe que infun­diu ânimo a seus filhos e os enviou adiante vitoriosos para seu rei, depois de percorrer também ela todos os combates de seus filhos, voava para eles alegre e prazerosa da partida, como se fosse convidada a um banquete de bodas e não lançada às feras.
56. Depois dos açoites, depois da feras e depois das chamas, por último atiraram-na a um touro. Lançada ao alto longo tempo pelo animal, insensível já ao que lhe acontecia por sua esperança mantida em tudo o que havia crido e por sua conversação com Cristo, também ela foi sacrificada, enquanto os próprios pagãos confessavam que jamais entre eles uma mulher havia padecido tantos e tais suplícios.
57. Mas nem assim fartou-se sua loucura e crueldade para com os santos, porque, incitada por uma fera selvagem, aquela tribo selvagem e bárbara não podia calar-se facilmente. Sua cruel insolência tomou outro rumo particular: fartar-se nos cadáveres.
58. De fato, não lhes causava a menor vergonha terem sido vencidos, já que não raciocinavam como homens, mas inflamava-se ainda mais sua cólera, como a de uma fera, e assim, tanto o governador como a plebe demonstravam ter o mesmo ódio injusto contra nós, para que se cumprisse a Escritura: que o injusto continue em sua injustiça, e que o justo continue sendo justificado[23].
59. Efetivamente, os que haviam perecido asfixiados no cárcere eram lançados aos cães, sendo vigiados noite e dia para evitar que algum dos nossos lhes fizesse as honras fúnebres. Também então expuseram os restos deixados pelas feras e pelo fogo, em parte despedaçados e em parte carbonizados, e durante alguns dias seguidos custodiaram com guarda militar as cabeças dos outros, junto com seus troncos, assim mesmo insepultos.
60. E sobre estes restos alguns resmungavam e rangiam os dentes, buscando tomar deles alguma vingança suplementar; outros riam-se e zombavam, ao mesmo tempo que engrandeciam seus ídolos, a quem atribuíam o castigos daqueles, e os mais moderados e que pareciam compadecer-se um pouco repetiam insultos dizendo: "Onde está seu Deus e de que lhes valeu sua religião, a qual preferiram inclusive a sua própria vida?"
61.  Assim variada era a atitude daqueles; nós, por outro lado, afundávamos em grande dor porque não podíamos enterrar os corpos, já que nem a noite nos ajudava nisto, nem o dinheiro conseguia persuadir nem as súplicas abrandar, mas por todos os meios os custodiavam, como se no fato de que os corpos não receberem sepultura eles tivessem grande vantagem."
62.  Em continuação a isto, depois de algumas outras coisas, dizem: "Assim pois, os corpos dos mártires, depois de serem expostos ao escárnio de todos os modos possíveis e de ficarem às intempéries durante seis dias, foram logo queimados e reduzidos a cinzas, que aqueles ímpios lançaram ao rio Ródano, que passa perto dali, para que nem sequer suas relíquias ficassem ainda visíveis sobre a terra.
63.  E faziam isto pensando que poderiam vencer Deus e arrebatar daqueles seu novo nascimento, com a finalidade de que, como eles diziam, "nem sequer esperança tenham de ressurreição; persuadidos dela, estão introduzindo uma religião estranha e nova, desprezam os tormentos e vêm dispostos e alegres à morte: vejamos agora se vão ressuscitar e se seu Deus pode socorrê-los e arrancá-los de nossas mãos".

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?





[1] A explicação tradicional sobre a relação de pontos tão distantes é que as igrejas destas cidades seriam formadas principalmente por cristãos emigrados da Ásia Menor, mas existe a possibilidade de que Eusébio tenha confundido a Galácia do Ponto com a Gália do ocidente.
[2] Depois de destacar a irritação popular contra os cristãos, declara-se o causador: o "adversário", Satanás.
[3] Hb 10:33.
[4] Rm 8:18.
[5] Pode ser traduzido também como "advogado".
[6] Jo 16:2.
[7] Jo 7:38; 19:34; Ap 21:6.
[8] 1Pe 5:8.
[9] Mt 25:46.
[10] Alusão à norma apostólica de At 15:29, não implica que ainda estivesse vigente em Lion.
[11] Martírio significa originalmente "testemunho".
[12] Eram considerados criminosos comuns.
[13] 1 Co 9:25.
[14] Provavelmente pelo confector.
[15] Is 27:1.
[16] Cartaz obrigatório para condenados que eram cidadãos romanos, mas a mente do redator pode estar mais próxima ao cartaz sobre a cruz de Jesus (Mt 27:37; Mc 15:26; Lc 23:38; Jo 19:19).
[17] A "Virgem Mãe" é a Igreja.
[18] Ez 18:23; 33:11; 2 Pe 3:9.
[19] Marco Aurélio na verdade atém-se em sua resposta à regra de Trajano em sua carta a Plínio.
[20] Atalo seria uma exceção.
[21] Mt 22:11-13.
[22] At 19:9; 2 Pe 2:2.
[23] Ap 22:11.