quarta-feira, 4 de março de 2026

304 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras). - Introdução e Interrogações 1 a 12

 


304

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon

As Regras Menos Extensas (313 regras).

Introdução e Interrogações 1 a 12

 

INTRODUÇÃO

1.       Deus, dos homens amigo, que ensina a ciência ao homem (SI 93,10), de um lado ordena por intermédio do Apóstolo (lTm 1,3) aos que receberam o carisma de ensinar perseverarem no magistério, e de outro, exorta, por meio de Moisés, aos necessitados da edificação dos ensinamentos divinos, dizendo: Interroga teu pai, e ele te contará, teus avós, e eles te dirão (Dt 32,7).

2.      Por isto, nós, a quem foi confiado o ministério da palavra, devemos em qualquer tempo estar desejosos de orientar as almas; e não só testemunhar publicamente diante de toda a Igreja, mas também em particular permitir a cada um dos que nos procuram interrogarem à vontade o que interessa à integridade da fé e à autenticidade deste gênero de vida, segundo o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. As duas coisas constantemente completam o homem de Deus.

3.      Vós, porém, nada deixeis sem fruto, nada ocioso; mas, além do que aprendeis em comum, fazei perguntas em particular sobre assuntos proveitosos e empregai utilmente todos os lazeres da vida.

4.      Se Deus nos reuniu para este fim e gozamos de muita tranquilidade, sem ruídos do exterior, não nos afastemos para fazer outro trabalho, nem entreguemos novamente o corpo ao sono, mas passemos o restante da noite na meditação e exame de nossas necessidades, cumprindo a palavra do bem-aventurado Davi: Na lei do Senhor medita dia e noite (SI 1,2).

 

INTERROGAÇÃO 1

É lícito ou útil a alguém fazer ou dizer o que pensa ser bom, sem ter o testemunho das Escrituras divinas?

 

Resposta:

5.      Se Nosso Senhor Jesus Cristo afirma do Espírito Santo: Não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir (Jo 16,13) e de si mesmo: O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma (Jo 5,19) e ainda: Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que ɬɟ enviou, ele mesmo ɬɟ prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que digo, digo-o segundo ɬɟ falou o Pai (Jo 12,49.50), quem chegará a tamanha loucura que ouse por si mesmo até cogitar alguma coisa, quando necessita ter por guia o santo e bom Espírito para dirigi-lo no caminho da verdade, em relação a pensamentos, palavras e obras, e se é cego e anda nas trevas, sem o sol de justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo, que ilumina por raios de luz, os seus mandamentos?

6.      O mandamento do Senhor é luminoso, diz-se, esclarece os olhos (SI 18,9). Quanto às questões ou palavras habituais, umas são determinadas pelo mandamento de Deus na Sagrada Escritura, outras são passadas em silêncio. Das escritas, ninguém absolutamente pode fazer o que foi proibido ou omitir o que foi prescrito, uma vez que o Senhor ordenou: Não ajuntareis nada a tudo o que vos prescrevo, nem tirareis nada daí, mas guardareis os mandamentos como hoje vos prescrevo (Dt 4,2). Terrível ameaça do juízo aguarda os que têm tal ousadia e o ardor do fogo há de devorá-los (Hb 10,27).

7.      Quanto aos que passa em silêncio, o apóstolo Paulo estabeleceu uma regra, dizendo: Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica. Ninguém busque o seu interesse, mas o de outrem (ICor 10,22s).

8.      Por isso, é indispensável submeter- se a Deus, segundo seu mandamento, ou aos outros por causa de seu mandamento, porque está escrito: Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5,21); e o Senhor disse: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos (Mc 9,34), contrariando as próprias vontades, à imitação do Senhor que disse: Desci do céu, não para jazer minha vontade, mas a vontade daquele que ɬɟ enviou (o Pai) (Jo 6,38).

 

INTERROGAÇÃO 2

Que espécie de profissão devem exigir uns dos outros, os que querem viver em comum segundo Deus?

 

Resposta:

9.      A proposta pelo Senhor a todos os que dele se aproximavam, ao dizer: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Na pergunta que trata do assunto referiu-se sobre o sentido de cada uma destas afirmações.

 

INTERROGAÇÃO 3

Como converter um pecador? Ou se não se converter, como agir?

 

Resposta:

10.  Como ordena o Senhor que disse: Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duns ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).

11.  Se isto acontecer, basta a esse homem o castigo que a maioria lhe infligiu (2Cor 2,6), conforme o Apóstolo escreveu: Repreende, ameaça, exorta, mas sempre com paciência e não cesses de instruir (lTm 4,2). E ainda: Se alguém não obedecer ao que ordenamos por esta carta notai-o, e para confundi-lo, não tenhais comunicação com ele, a fim de que fique confundido (2Ts 3,14).

 

INTERROGAÇÃO 4

Se alguém, mesmo por causa de pecados leves, insiste com seus irmãos, dizendo: “Deveis fazer penitência”, acaso é sem misericórdia e destrói a caridade?

 

Resposta:

12.  Como o Senhor assegurou que tudo se cumprirá antes que desapareça um iota, um traço da lei (Mt 5,18) e afirmou: No dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido (Mt 12,36), nada se menospreze, como se fosse pequeno. Quem menospreza a palavra será por ela menosprezado (Pr 13,13).

13.  Aliás, quem ousará dizer que um pecado é pequeno, se o Apóstolo asseverou: Desonras a Deus pela transgressão da lei (Rm 2,23)?

14.  Se o estímulo da morte é o pecado, não este ou aquele, mas qualquer pecado sem distinção, é sem misericórdia quem se cala, não quem censura, assim como o é quem deixa o veneno em alguém que foi mordido por um animal peçonhento, não quem o extrai. Aquele destrói a caridade. Pois está escrito: Quem poupa a vara, odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa (Pr 13,24).

 

INTERROGAÇÃO 5

Como fazer penitência de cada pecado e mostrar dignos frutos de penitência?

 

Resposta:

 

15.  Tendo a disposição daquele que disse: Odeio o mal e o detesto (SI 118,163) e praticando o que foi referido no Salmo 6 e em muitos outros, hem como seguindo o testemunho do Apóstolo acerca dos que se contristaram, conforme quer Deus, por causa do pecado alheio.

16.  Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que digo eu? Que escusas, que indignação, que temor, que ardor, que zelo, que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor 7,11).

17.  E ainda como Zaqueu, tendo um procedimento multiplicadamente oposto ao anterior.

 

INTERROGAÇÃO 6

Que pensar de quem confessa seu arrependimento por palavras, mas não se corrige do pecado?

 

Resposta:

18.  Julgo ter sido por causa dele que foi escrito: Quando o inimigo te falar com amabilidade, não te fies nele, porque há sete abominações em seu coração (Pr 26,25). E em outra passagem: Um cão que volta a seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (ibid. 11).

 

INTERROGAÇÃO 7

Qual a sentença dos defensores daqueles que pecaram?

 

Resposta:

19.  Julgo ser mais grave do que a pronunciada contra aquele, do qual se disse: Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos (Lc 17,2).

20.  Pois o pecador não é admoestado para sua emenda, mas encontra defesa para confirmá-lo no pecado, sendo outros incitados a vícios semelhantes. Por isso, se não mostrar dignos frutos de penitência, a tal defensor aplica- se a palavra do Senhor: Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só de teus membros, a que o teu corpo inteiro seja lançado na geena (Mt 5,29).

 

INTERROGAÇÃO 8

Como receber quem está verdadeiramente arrependido?

 

Resposta:

21.  Como ensinou o Senhor: Reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido (Lc 15,6).

 

INTERROGAÇÃO 9

Que atitude tomaremos para com o pecador não contrito?

 

Resposta:

22.  A que ordena o Senhor ao dizer: Se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,17) e a que ensinou o Apóstolo, quando escreveu: Que vos aparteis de qualquer irmão que vive na preguiça, sem observar as instruções que de nós tendes recebido (2Ts 3,6).

 

INTERROGAÇÃO 10

Com que temor e com quantas lágrimas deve a mísera alma que muito pecou abandonar os pecados e possuída de que esperança e sentimentos, há de se aproximar de Deus?

 

Resposta:

23.  Em primeiro lugar, deve odiar a reprovável vida anterior e execrar e detestar até mesmo a sua lembrança, pois está escrito: Odeio o mal, e o detesto, mas amo a vossa lei (SI 118,163).

24.  Em seguida, ter como mestra do temor a ameaça do juízo e do suplício eterno; também reconheça ser o tempo de penitência um tempo de lágrimas, como Davi o ensinou no Salmo 6.

25.  Creia firmemente na remissão dos pecados pelo sangue de Cristo, devido à grandeza da misericórdia e à multidão das comiserações de Deus, que disse: Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Is 1,18).

26.  Então, tendo recebido faculdade e força para agradar a Deus, diz: Pela tarde, vem o pranto, mas de manhã, volta a alegria (SI 30.5)! Vós convertestes o meu pranto em prazer; tirastes minhas vestes de penitência e me cingistes de alegria. E assim minha glória vos louvará (ibid. 12.13). Aproximando-se assim, salmodia diante de Deus: Eu vos exaltarei, Senhor, porque me livrastes. Não permitistes que exultassem sobre mim meus inimigos (ibid. 2).

 

INTERROGAÇÃO 11

Como odiará alguém os pecados?

 

Resposta:

27.  Sempre um acontecimento triste e penoso provoca ódio contra os que o ocasionaram. Se, pois, alguém está convencido de quantos e quão grandes males causam os pecados, espontânea e animosamente os odeia, como o demonstrou aquele que disse: Odeio o mal, e o detesto (SI 118,163).

 

INTERROGAÇÃO 12

Como pode a alma persuadir-se de que Deus lhe perdoou os pecados?

 

Resposta:

28.  Se vir que está com os sentimentos daquele que disse: Odeio o mal, e o detesto (SI 118,163). Pois Deus, tendo enviado seu Filho Unigênito para a remissão dos nossos pecados, na medida em que dependia dele, de antemão perdoou a todos. Mas o santo Davi canta (SI 101,1) a misericórdia e a justiça; e atesta ser Deus misericordioso e justo; portanto, é necessário realizarmos as palavras dos profetas e dos apóstolos nos lugares em que falam de arrependimento, a fim de que os juízos da justiça de Deus se manifestem e se exerça a sua misericórdia na remissão dos pecados.

 

a)      O que você destaca no texto?

b)      Como ele serve para a sua espiritualidade?