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SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)
Regra
Monástica – Asketikon
As
Regras Menos Extensas (313 regras).
Introdução
e Interrogações 1 a 12
INTRODUÇÃO
1.
Deus, dos homens amigo, que ensina a ciência
ao homem (SI 93,10), de um lado ordena por intermédio do Apóstolo (lTm 1,3) aos
que receberam o carisma de ensinar perseverarem no magistério, e de outro,
exorta, por meio de Moisés, aos necessitados da edificação dos ensinamentos
divinos, dizendo: Interroga teu pai, e ele te contará, teus avós, e eles te
dirão (Dt 32,7).
2.
Por
isto, nós, a quem foi confiado o ministério da palavra, devemos em qualquer
tempo estar desejosos de orientar as almas; e não só testemunhar publicamente
diante de toda a Igreja, mas também em particular permitir a cada um dos que
nos procuram interrogarem à vontade o que interessa à integridade da fé e à
autenticidade deste gênero de vida, segundo o evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo. As duas coisas constantemente completam o homem de Deus.
3.
Vós,
porém, nada deixeis sem fruto, nada ocioso; mas, além do que aprendeis em
comum, fazei perguntas em particular sobre assuntos proveitosos e empregai
utilmente todos os lazeres da vida.
4.
Se
Deus nos reuniu para este fim e gozamos de muita tranquilidade, sem ruídos do
exterior, não nos afastemos para fazer outro trabalho, nem entreguemos
novamente o corpo ao sono, mas passemos o restante da noite na meditação e
exame de nossas necessidades, cumprindo a palavra do bem-aventurado Davi: Na
lei do Senhor medita dia e noite (SI 1,2).
INTERROGAÇÃO 1
É lícito ou
útil a alguém fazer ou dizer o que pensa ser bom, sem ter o testemunho das
Escrituras divinas?
Resposta:
5.
Se
Nosso Senhor Jesus Cristo afirma do Espírito Santo: Não falará por si mesmo,
mas dirá o que ouvir (Jo 16,13) e de si mesmo: O Filho por si mesmo não pode
fazer coisa alguma (Jo 5,19) e ainda: Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que ɬɟ
enviou, ele mesmo ɬɟ prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei
que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que digo, digo-o segundo ɬɟ
falou o Pai (Jo 12,49.50), quem chegará a tamanha loucura que ouse por si mesmo
até cogitar alguma coisa, quando necessita ter por guia o santo e bom Espírito
para dirigi-lo no caminho da verdade, em relação a pensamentos, palavras e
obras, e se é cego e anda nas trevas, sem o sol de justiça, Nosso Senhor Jesus
Cristo, que ilumina por raios de luz, os seus mandamentos?
6.
O
mandamento do Senhor é luminoso, diz-se, esclarece os olhos (SI 18,9). Quanto
às questões ou palavras habituais, umas são determinadas pelo mandamento de
Deus na Sagrada Escritura, outras são passadas em silêncio. Das escritas,
ninguém absolutamente pode fazer o que foi proibido ou omitir o que foi
prescrito, uma vez que o Senhor ordenou: Não ajuntareis nada a tudo o que vos
prescrevo, nem tirareis nada daí, mas guardareis os mandamentos como hoje vos
prescrevo (Dt 4,2). Terrível ameaça do juízo aguarda os que têm tal ousadia e o
ardor do fogo há de devorá-los (Hb 10,27).
7.
Quanto
aos que passa em silêncio, o apóstolo Paulo estabeleceu uma regra, dizendo:
Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica.
Ninguém busque o seu interesse, mas o de outrem (ICor 10,22s).
8.
Por
isso, é indispensável submeter- se a Deus, segundo seu mandamento, ou aos
outros por causa de seu mandamento, porque está escrito: Sujeitai-vos uns aos
outros no temor de Cristo (Ef 5,21); e o Senhor disse: Se alguém quer ser o
primeiro, seja o último de todos e o servo de todos (Mc 9,34), contrariando as
próprias vontades, à imitação do Senhor que disse: Desci do céu, não para jazer
minha vontade, mas a vontade daquele que ɬɟ enviou (o Pai) (Jo 6,38).
INTERROGAÇÃO 2
Que espécie de
profissão devem exigir uns dos outros, os que querem viver em comum segundo
Deus?
Resposta:
9.
A
proposta pelo Senhor a todos os que dele se aproximavam, ao dizer: Se alguém
quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mt
16,24). Na pergunta que trata do assunto referiu-se sobre o sentido de cada uma
destas afirmações.
INTERROGAÇÃO 3
Como converter um pecador? Ou se
não se converter, como agir?
Resposta:
10. Como ordena o Senhor que disse: Se
teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se
te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas
pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duns ou três
testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a
Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).
11. Se isto acontecer, basta a esse
homem o castigo que a maioria lhe infligiu (2Cor 2,6), conforme o Apóstolo
escreveu: Repreende, ameaça, exorta, mas sempre com paciência e não cesses de
instruir (lTm 4,2). E ainda: Se alguém não obedecer ao que ordenamos por esta
carta notai-o, e para confundi-lo, não tenhais comunicação com ele, a fim de
que fique confundido (2Ts 3,14).
INTERROGAÇÃO 4
Se alguém,
mesmo por causa de pecados leves, insiste com seus irmãos, dizendo: “Deveis
fazer penitência”, acaso é sem misericórdia e destrói a caridade?
Resposta:
12. Como o Senhor assegurou que tudo se
cumprirá antes que desapareça um iota, um traço da lei (Mt 5,18) e afirmou: No
dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem
proferido (Mt 12,36), nada se menospreze, como se fosse pequeno. Quem
menospreza a palavra será por ela menosprezado (Pr 13,13).
13. Aliás, quem ousará dizer que um
pecado é pequeno, se o Apóstolo asseverou: Desonras a Deus pela transgressão da
lei (Rm 2,23)?
14. Se o estímulo da morte é o pecado,
não este ou aquele, mas qualquer pecado sem distinção, é sem misericórdia quem
se cala, não quem censura, assim como o é quem deixa o veneno em alguém que foi
mordido por um animal peçonhento, não quem o extrai. Aquele destrói a caridade.
Pois está escrito: Quem poupa a vara, odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na
hora precisa (Pr 13,24).
INTERROGAÇÃO 5
Como fazer
penitência de cada pecado e mostrar dignos frutos de penitência?
Resposta:
15. Tendo a disposição daquele que
disse: Odeio o mal e o detesto (SI 118,163) e praticando o que foi referido no
Salmo 6 e em muitos outros, hem como seguindo o testemunho do Apóstolo acerca
dos que se contristaram, conforme quer Deus, por causa do pecado alheio.
16. Vede, pois, que disposições operou
em vós a tristeza segundo Deus! Que digo eu? Que escusas, que indignação, que
temor, que ardor, que zelo, que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis
culpa neste assunto (2Cor 7,11).
17. E ainda como Zaqueu, tendo um
procedimento multiplicadamente oposto ao anterior.
INTERROGAÇÃO 6
Que pensar de
quem confessa seu arrependimento por palavras, mas não se corrige do pecado?
Resposta:
18. Julgo ter sido por causa dele que
foi escrito: Quando o inimigo te falar com amabilidade, não te fies nele,
porque há sete abominações em seu coração (Pr 26,25). E em outra passagem: Um
cão que volta a seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (ibid. 11).
INTERROGAÇÃO 7
Qual a sentença
dos defensores daqueles que pecaram?
Resposta:
19. Julgo ser mais grave do que a
pronunciada contra aquele, do qual se disse: Melhor lhe seria que se lhe atasse
em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que
levar para o mal a um só destes pequeninos (Lc 17,2).
20. Pois o pecador não é admoestado
para sua emenda, mas encontra defesa para confirmá-lo no pecado, sendo outros
incitados a vícios semelhantes. Por isso, se não mostrar dignos frutos de
penitência, a tal defensor aplica- se a palavra do Senhor: Se teu olho direito
é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é
preferível perder-se um só de teus membros, a que o teu corpo inteiro seja
lançado na geena (Mt 5,29).
INTERROGAÇÃO 8
Como receber
quem está verdadeiramente arrependido?
Resposta:
21. Como ensinou o Senhor: Reúne os
amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que
se havia perdido (Lc 15,6).
INTERROGAÇÃO 9
Que atitude
tomaremos para com o pecador não contrito?
Resposta:
22. A que ordena o Senhor ao dizer: Se
recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano
(Mt 18,17) e a que ensinou o Apóstolo, quando escreveu: Que vos aparteis de
qualquer irmão que vive na preguiça, sem observar as instruções que de nós
tendes recebido (2Ts 3,6).
INTERROGAÇÃO 10
Com que temor e
com quantas lágrimas deve a mísera alma que muito pecou abandonar os pecados e
possuída de que esperança e sentimentos, há de se aproximar de Deus?
Resposta:
23. Em primeiro lugar, deve odiar a
reprovável vida anterior e execrar e detestar até mesmo a sua lembrança, pois
está escrito: Odeio o mal, e o detesto, mas amo a vossa lei (SI 118,163).
24. Em seguida, ter como mestra do
temor a ameaça do juízo e do suplício eterno; também reconheça ser o tempo de
penitência um tempo de lágrimas, como Davi o ensinou no Salmo 6.
25. Creia firmemente na remissão dos
pecados pelo sangue de Cristo, devido à grandeza da misericórdia e à multidão
das comiserações de Deus, que disse: Se vossos pecados forem escarlates,
tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão
brancos como a lã! (Is 1,18).
26. Então, tendo recebido faculdade e
força para agradar a Deus, diz: Pela tarde, vem o pranto, mas de manhã, volta a
alegria (SI 30.5)! Vós convertestes o meu pranto em prazer; tirastes minhas
vestes de penitência e me cingistes de alegria. E assim minha glória vos
louvará (ibid. 12.13). Aproximando-se assim, salmodia diante de Deus: Eu vos
exaltarei, Senhor, porque me livrastes. Não permitistes que exultassem sobre
mim meus inimigos (ibid. 2).
INTERROGAÇÃO 11
Como odiará alguém os pecados?
Resposta:
27. Sempre um acontecimento triste e
penoso provoca ódio contra os que o ocasionaram. Se, pois, alguém está
convencido de quantos e quão grandes males causam os pecados, espontânea e
animosamente os odeia, como o demonstrou aquele que disse: Odeio o mal, e
o detesto (SI 118,163).
INTERROGAÇÃO 12
Como pode a alma persuadir-se de
que Deus lhe perdoou os pecados?
Resposta:
28. Se vir que está com os sentimentos
daquele que disse: Odeio o mal, e o detesto (SI 118,163). Pois
Deus, tendo enviado seu Filho Unigênito para a remissão dos nossos pecados, na
medida em que dependia dele, de antemão perdoou a todos. Mas o santo Davi canta
(SI 101,1) a misericórdia e a justiça; e atesta ser Deus misericordioso e
justo; portanto, é necessário realizarmos as palavras dos profetas e dos
apóstolos nos lugares em que falam de arrependimento, a fim de que os juízos da
justiça de Deus se manifestem e se exerça a sua misericórdia na remissão dos
pecados.
a)
O
que você destaca no texto?
b)
Como
ele serve para a sua espiritualidade?
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