quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

História Eclesiástica - Livro 1 - Capítulos 11 a 13

12
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro I – Capítulos 11 a 13

XI - Testemunhos sobre João Batista e Cristo
XII - Dos discípulos de nosso Salvador
XIII - Relato sobre o rei de Edessa

13 de dezembro de 2014.



XI - Testemunhos sobre João Batista e Cristo
1. Não muito depois, Herodes o Jovem mandou decapitar João o Batista. O texto sagrado do Evangelho também o menciona[1] e Josefo o confirma, ao menos quando faz referência a Herodias e de como Herodes se casou com ela, apesar de ser mulher de seu irmão, depois de repudiar sua pri­meira e legítima esposa (filha de Aretas, rei de Petra) e de separar Hero­dias de seu marido, que ainda vivia; menciona também que por causa dela deu morte a João e promoveu uma guerra contra Aretas, cuja filha tinha desonrado.
2.             E diz ainda que nesta guerra, durante a batalha, o exército de Herodes foi desbaratado por inteiro, e que tudo isso aconteceu por ter atentado contra João.
3.             O mesmo Josefo confessa que João era um homem extremamente justo e que batizava, confirmando assim o que está escrito sobre ele no texto dos evangelhos. Menciona ainda que Herodes foi destronado por culpa da mesma Herodias, e com ela foi desterrado, condenado a habitar na cidade de Viena, na Gália[2].
4.      Isto é o que narra no mesmo livro XVIII das Antigüidades, onde escreve sobre João o que segue textualmente:
"Para alguns judeus parece que foi Deus que desbaratou o exército de Herodes, fazendo-o pagar muito justamente pelo que fez a João, chamado o Batista.
5.      Porque Herodes havia-lhe dado morte. Era um homem bom e que exortava os judeus ao exercício da virtude, a usar da justiça no trato de uns com os outros e da piedade para com Deus, e a aceitar o batismo. Porque desta maneira também o batismo lhe parecia aceitável, não como instrumento de perdão para alguns pecados, mas para a purificação do corpo, desde que a justiça já de antemão houvesse purificado a alma.
6.             E como outros se fossem aglomerando em torno de João (pois ficavam suspensos escutando suas palavras), Herodes, temeroso de que uma tal força de persuasão sobre os homens conduzisse a alguma revolta (já que em tudo pareciam proceder segundo os conselhos de João), pensou que o melhor era antecipar-se e fazê-lo matar antes que armasse uma revolução, em vez de ver-se envolto em dificuldades por uma mudança de situação e ter que se arrepender mais tarde. E João, devido à suspeita de Herodes, foi mandado prisioneiro a Maqueronte, a célebre fortaleza mais acima, e ali foi executado."
7.   Depois de explicar tudo isto a respeito de João, na mesma obra histórica menciona também nosso Salvador nos seguintes termos:
"Por este mesmo tempo viveu Jesus, homem muito sábio se é que de homem devemos chamá-lo, porque realizava obras portentosas, era mestre dos homens que recebiam com prazer a verdade e atraiu não somente muitos judeus, mas também muitos gregos.
8.    Este era o Cristo. Havendo-lhe infligido Pilatos o suplício da cruz, instigado por nossos líderes, os que primeiro o haviam amado não cessaram de amá-lo, pois ao fim de três dias novamente apareceu-lhes vivo. Os profetas de Deus tinham dito estas mesmas coisas e outras incontáveis maravilhas sobre ele. A tribo dos Cristãos, que dele tomou o nome, ainda não desapareceu até hoje."
9.  Quando um escritor saído dentre os próprios judeus transmite desde o começo em suas próprias obras estas coisas referentes a João Batista e a nosso Salvador, que subterfúgio resta aos que tramaram contra eles as Memórias, sem que fique evidente seu descaramento? Mas seja bastante o que foi dito.

XII - Dos discípulos de nosso Salvador
1.            Dos apóstolos do Salvador, pelo menos os nomes aparecem claramente em todos os evangelhos[3]. Dos setenta discípulos por outro lado, em nenhum lugar se encontra lista alguma; mesmo assim, sabe-se ao menos que Barnabé era um deles; dele fazem menção especial os Atos dos Apóstolos[4], igual­mente Paulo quando escreve aos Gálatas[5]. Dizem ainda que também Sóstenes, um dos que escrevem com Paulo aos Coríntios, era um deles[6].
2.            A referência se encontra em Clemente, no livro V das Hypotyposeis, onde afirma que também Cefas - de quem Paulo diz: Mas quando Cefas veio a Antioquia, enfrentei-me com ele[7]-, era um dos setenta discípulos e que sua homonímia com o apóstolo Pedro era casual.
3.            E um documento[8] ensina também que Matias - o que foi juntado à lista dos apóstolos em substituição a Judas - e o outro que com ele teve a honra de disputar a sorte foram dignos de serem dos setenta[9]. Diz-se ainda[10] que também Tadeu era um deles, sobre este chega a nós um relato que exporei em seguida[11].
4.     Mas observando bem, encontraremos que os discípulos do Salvador eram muito mais do que os setenta, aceitando o testemunho de Paulo, que diz que depois de sua ressurreição dentre os mortos apareceu primeiro a Cefas, depois aos doze, e depois destes a mais de quinhentos irmãos juntos, sobre os quais afirmava que alguns já tinham morrido, mas que a maior parte ainda vivia no tempo em que ele escrevia estas coisas[12].
5.     Depois diz que apareceu a Tiago. Pois bem, este era também um dos men­cionados irmãos do Salvador. Portanto, de qualquer forma, os apóstolos à imagem dos doze eram muitos mais - o próprio Paulo o era -, prossegue dizendo: depois apareceu a todos os apóstolos. Sobre este tema, baste o que foi dito.

XIII - Relato sobre o rei de Edessa
1.             O relato acerca de Tadeu[13] é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam inclusive no estrangeiro, muito longe da Judéia.
2.             Nestas condições se achava o rei Abgaro, que reinava excelentemente sobre os povos do outro lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Jesus e os milagres unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.
3.      Mas Jesus não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.
4.      Não passou muito tempo sem que Jesus cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomás, um dos doze apóstolos, movido por Deus, enviou à região de Edessa Tadeu -que também era um dos setenta discípulos de Cristo - como arauto e evangelista da doutrina de Cristo, e por meio dele se cumpriu o que o Sal­vador havia prometido.
5.      Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos de Abgaro, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do siríaco[14], dizem textualmente como segue:
      Cópia da carta escrita por Abgaro, toparca, a Jesus e enviada a Jerusalém pelo mensageiro Ananías.
6.      "Abgaro Ucama[15], toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém, saudações: Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demô­nios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.
7.      E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que descendo pessoalmente do céu realizas estas mara­vilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais obras.
8.      Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois[16]."
9.      Esta é a carta que Abgaro escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom que escutemos a carta que Jesus enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas de muita força, cujo teor é o que segue:
Resposta de Jesus a Abgaro, toparca, por meio do mensageiro Ananías.
10. "Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou[17]. Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença
e trará a vida a ti e aos teus."
11. A estas cartas estava anexado ainda, em siríaco, o seguinte:
"Depois da ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou-lhe como apóstolo a Tadeu, um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobías, filho de Tobías. Quando se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgaro que havia chegado ali um apóstolo de Jesus, como tinha sido descrito na carta.
12. Começou pois Tadeu, com o poder de Deus[18], a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de todos se admirarem. Mas, quando Abgaro ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Jesus falava na carta, ali onde dizia: Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença.
13.     Fez pois chamar a Tobías, em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobías para junto de Tadeu e lhe disse: O toparca Abgaro mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para que o cures; e Tadeu respondeu-lhe: Subirei, posto que fui enviado a ele com poder."
14.     "No dia seguinte Tobías madrugou, e tomando consigo a Tadeu, foi até Abgaro. Entrou Tadeu, estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande visão apareceu a Abgaro no rosto do apóstolo Tadeu. Ao vê-la, Abgaro se prosternou ante Tadeu, deixan­do em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só se mostrou a Abgaro.
15.     Este perguntou a Tadeu: És tu em verdade discípulo de Jesus, o filho de Deus, o que me disse: te mandarei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida? E Tadeu respondeu: Porque é muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele, segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.
16.     E Abgaro respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano. E Tadeu lhe disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.
17.     Disse-lhe Abgaro: Também cri nele e em seu Pai, e Tadeu disse: Por isto vou pôr minha mão sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e das dores que tinha.
18.     E Abgaro se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Jesus, assim acabava de experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadeu, que o tinha curado sem remédios nem ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que, aproximando-se também de Tadeu, caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos outros concidadãos curou Tadeu, operando maravilhas e proclamando a palavra de Deus.

19.      Depois disso disse Abgaro: Tadeu, tu fazes estes milagres com o poder de Deus, e nós ficamos maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Jesus, como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que ouvi falar.
20.  E Tadeu respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a palavra, convoca em assembléia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Jesus: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao Hades, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.
21. Mandou pois Abgaro que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a pregação de Tadeu, e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio?
Corria o ano de 340.[19]
22. Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?











[1] Mt 14:1; Mc 6:14-29; Lc 3:19-20; 9:7-9.
[2] Engana-se o autor. Quem foi desterrado para Viena foi Arquelau; Herodes o Jovem foi desterrado para Lion (Lugdunum).
[3] Mt 10:2-4; Mc 3:16-19; Lc 6:14-16.
[4] At 4:36; 9:27; 11:22-30; 12:25; 13:15.
[5] Gl 2:1, 9, 13.
[6] 1 Co 1:1.
[7] Gl 2:11.
[8] Significando tradição passada por escrito.
[9] At 1:23-26.
[10] Tradição oral, sem registro escrito.
[11] Para Mt 10:3 e Mc 3:14, 18. Tadeu era um dos doze, mas em Lucas ele não aparece.
[12] 1 Co 15:5-7.
[13] Cf. 12:3.
[14] Eusébio provavelmente copiou os documentos já traduzidos anteriormente.
[15] Abgaro o Negro.
[16] Gn 19:20.
[17] At l:2-ss.;Jo 16:5.
[18] Mt 10:1.
[19] Isto seria os anos 28-29 d.C; o texto segue a Era Selêucida, iniciada em 1º de outubro de 312a.C.