sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estudo 16 - Capítulos 17 a 21

16
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro II - Capítulos 17 a 21



XVII - O que Fílon conta sobre os ascetas do Egito
XVIII - Obras de Fílon que chegaram até nós
XIX  - Calamidades que se abateram sobre os judeus de Jerusalém no dia da Páscoa
XX - Do que ocorreu em Jerusalém nos dias de Nero
XXI - Do egípcio, também mencionado pelos Atos dos Apóstolos


Texto Bíblico: Romanos 8.35

XVII - O que Fílon conta sobre os ascetas do Egito

1.            Um documento diz que Fílon, nos tempos de Cláudio, chegou a Roma para conversar com Pedro, que então estava pregando aos dali. Isto na verdade pode não ser inverossímil, já que a própria obra de que falo - composta por ele mais tarde, passado muito tempo - contém claramente as regras da Igreja, observadas ainda em nossos dias.
2.            Ocorre no entanto que, ao descrever com a maior exatidão possível a vida de nossos ascetas, fica evidente que ele não somente conhecia, mas também aprovava, reverenciava e honrava os valores apostólicos de seu tempo, de origem hebraica ao que parece, e que por isso conservavam ainda a maior parte dos antigos costumes muito à maneira dos judeus.
3.            Em primeiro lugar, no livro que intitulou Da vida contemplativa ou Suplicantes, Fílon deixa bem estabelecido que não acrescentaria ao que contasse nada contrário à verdade nem de sua própria criação. Diz que eram chamados terapeutas, e as mulheres que estavam com eles terapeutisas, e comenta as razões de tais nomes: ou porque como médicos livravam aqueles que os cercavam dos sofrimentos causados pela maldade às almas, curando-os e cuidando deles, ou pela limpeza e pureza de seu serviço e culto à divindade.
4.            Portanto não é necessário estender-se discutindo se Fílon colocou-lhes ele mesmo este nome, escrevendo o nome que correspondia à índole desses homens, ou se na verdade já se chamavam assim aos primeiros quando começaram, já que o nome de cristãos ainda não era bem conhecido em qualquer lugar.
5.     De qualquer forma, em primeiro lugar atesta seu afastamento das riquezas, afirmando que, quando começam a viver esta filosofia, cedem seus bens aos parentes e assim, livres de toda preocupação pela vida, saem para fora das muralhas para seguir sua vida em campos isolados e em bosques, sabendo que o convívio com pessoas de sentimentos diferentes é nocivo e sem proveito. Naquele tempo, ao que parece, os que agiam assim exercitavam-se em imitar com sua fé entusiástica e ardorosa a vida dos profetas.
6.            Com efeito, também nos Atos dos Apóstolos, que são reconhecidos como autênticos, descreve-se que todos os discípulos dos apóstolos vendiam suas posses e riquezas e as repartiam a todos conforme a necessidade de cada um, de forma que entre eles não havia indigentes[1]. Portanto, segundo diz o livro[2], todos os que possuíam campos ou casas os vendiam, e levando o produto da venda, depositavam-no aos pés dos apóstolos, de modo que os repartissem a cada um segundo suas necessidades.
7.     Fílon, depois de atestar práticas semelhantes a estas continua dizendo textualmente:
"Este tipo de homens se encontra em muitos lugares do mundo, pois é mis­ter que tanto a Grécia como as terras bárbaras participem do bem perfeito. Mas onde abundam é no Egito, em cada um dos chamados nomos[3], e sobretudo em torno de Alexandria.
8.   Os melhores de cada região são enviados a um tipo de colônia, como a uma pátria dos terapeutas, um lugar muito adequado, que se encontra às margens do lago Mareia, sobre uma colina baixa, nas melhores condições devido à segurança e à salubridade do ar."
Descreve então como eram suas moradias, e sobre as igrejas da região diz o que segue:
9.             "Em cada casa há uma sala sagrada, que se chama oratório privado e monastério[4], na qual se isolam e realizam os mistérios da vida sagrada. Nela não introduzem bebida, nem alimento, nem nada do que é necessário para o corpo, mas leis, oráculos anunciados por meio dos profetas, hinos e tudo aquilo com que o conhecimento e a religião crescem e se aperfeiçoam." E depois de outras coisas, diz:
10.  "O tempo que vai do alvorecer ao ocaso é empregado inteiramente nesta prática: lêem as Escrituras Sagradas, filosofam e expõe a filosofia pátria empregando a alegoria, já que pensam que a expressão falada é símbolo da natureza oculta, que se manifesta em alegorias.
11.      Possuem também escritos de antigos varões que foram os fundadores de sua seita e deixaram numerosos monumentos de sua doutrina em forma de alegorias. Tomam-nos por modelos e imitam sua maneira de pensar e agir."
12.     Isto parece ser, portanto, o que disse o homem que os ouviu interpretar as Sagradas Escrituras. E talvez os escritos dos antigos, que ele diz que possuem, sejam possivelmente os Evangelhos, os escritos dos apóstolos e algumas explicações que interpretam, como é natural, os antigos profetas, que são as que contêm a Carta aos Hebreus e outras cartas de Paulo.
13.     Depois Fílon continua escrevendo o que segue sobre como compõem para si novos salmos:
"De forma que não somente se dedicam à contemplação, mas também compõem cantos e hinos a Deus, em todas as formas de metros e melodias, ainda que marcando-os forçosamente com números bastante graves."
14.     Muitas outras coisas sobre o tema são explicadas no mesmo livro, mas pareceu-me necessário enumerar aquelas pelas quais se expõe as características da vida da Igreja.
15.     Mas se a alguém parecer que o que dissemos não é próprio unicamente da forma de vida segundo o Evangelho, mas pode aplicar-se também a outros, além dos indicados, que se convença pelas palavras seguintes de Fílon, nas quais, se sua intenção é boa, encontrará um testemunho incontestável sobre este ponto, pois escreve assim:
16.     "Começam estabelecendo como fundamento da alma a continência, e sobre esta edificam as demais virtudes. Nenhum deles tomaria alimento ou bebida antes do pôr-do-sol, pois entendem que a luz é conveniente para filosofar, enquanto que às necessidades do corpo servem bem as trevas; por isso deixam o dia para aquele mister, e um breve espaço da noite para estas.
17.     Alguns inclusive descuidam do alimento durante três dias: neles está mais arraigado o amor pela ciência. Outros de tal maneira se alegram e deleitam no banquete da sabedoria, que tão rica e abundantemente lhes abastece de doutrina, que podem resistir o dobro do tempo e tomar apenas o alimento necessário ao fim de seis dias, por costume."
Cremos que estas palavras de Fílon referem-se clara e indiscutivelmente aos nossos.
18.     Mas se depois do que foi dito alguém ainda se empenhar em contradizê-lo, afaste-se também este de sua incredulidade e convença-se com provas mais claras, que não podem ser achadas em outra parte senão na religião cristã segundo o Evangelho.
19. Diz efetivamente que, com os homens de que fala convivem também mulheres, a maioria das quais chegam virgens à velhice depois de guardar a castidade, não por necessidade como algumas sacerdotisas dos gregos, mas sim por convicção voluntária, devido ao seu zelo e sede de sabedoria, com a qual se esforçam em viver, sem importar-se em nada com os prazeres do corpo e desejosas de ter não filhos mortais, mas imortais, os quais somente a alma amante de Deus pode gerar de si mesma.
20. Um pouco mais adiante expõe ainda mais claramente o que segue:
"Mas eles fazem as interpretações das Sagradas Escrituras por meio de sentidos simbólicos, em alegorias, já que toda a legislação parece a estes homens semelhante a um ser vivo: como corpo têm as expressões conven­cionadas; como alma, o sentido invisível encerrado nas palavras, sentido que esta seita começou a contemplar como que refletida no espelho dos homens, a beleza extraordinária dos conceitos."
21.  Para que acrescentar a tudo isto suas reuniões num mesmo lugar, o modo de vida que levam separadamente os homens e as mulheres e os exercícios que nós mesmos por costume ainda praticamos, sobretudo os que costumamos realizar na festa da Paixão do Salvador: abstinência, vigílias noturnas e a aplicação às palavras divinas?
22.  Tudo isto nos transmitiu muito exatamente o mencionado autor em sua pró­pria obra, com o mesmo caráter que se pode observar até hoje somente entre nós. Descreve as vigílias completas da grande festa, os exercícios que nela são feitos e os hinos que costumamos dizer, e como, enquanto um vai salmodiando com ritmo e ordenadamente, os demais escutam em silêncio e repetem com ele somente o estribilho dos hinos, e também como nos dias assinalados deitam-se sobre leitos de palha e não tomam do vinho em absoluto - como escreve textualmente -, nem sequer carne, antes têm como única bebida a água e como condimento do pão apenas sal e hissôpo.
23.  Além disso, descreve a ordem de precedência daqueles a quem estão con­fiados os ofícios eclesiásticos públicos, o serviço e as presidências do episcopado, que estão acima de todas. Quem desejar um conhecimento exato de tudo isto pode consegui-lo na mencionada obra do referido autor.
24.  E que Fílon escreveu isto depois de aceitar os primeiros arautos da doutrina evangélica e dos costumes que desde o princípio transmitiram os apóstolos, é evidente para todos[5].

XVIII - Obras de Fílon que chegaram até nós
1.      Rico em linguagem, de pensamentos amplos, sublime e elevado na contem­plação das divinas Escrituras, Fílon fez sobre as palavras sagradas uma exposição variada e multiforme. Primeiro, em ordem concatenada e seguida, expôs detalhadamente as dificuldades do conteúdo do Gênesis nos livros que intitulou Alegorias das leis sagradas, depois, em parte distinguin­do, suprimindo e fazendo concordar capítulos das escrituras postos num mesmo quadro de referência, nos mesmos a que aplicou o título Problemas e soluções sobre o Gênesis e sobre o Êxodo, respectivamente.
2.      Tem além destes alguns estudos de certos problemas particularmente trabalhados, como são: dois livros Sobre a agricultura, e outros dois Sobre a embriaguez[6] e alguns outros que levam títulos diversos e apropriados, tais como Sobre as coisas que o sóbrio entendimento deseja e abomina[7], Sobre a confusão das línguas, Sobre a fuga e a invenção, Sobre o agrupa­mento para o ensino, Sobre quem é o herdeiro das coisas divinas ou Sobre a divisão em partes iguais e desiguais, e também Sobre as três virtudes que Moisés descreveu junto com outras.
3.      Há também a obra Sobre as trocas de nomes e o por quê destas trocas, na qual diz que escreveu também os livros I e II Sobre os testamentos[8].
4.      Também é sua a obra Sobre a emigração e vida do sábio perfeito segundo a justiça[9] ou Sobre as leis não escritas; e também Sobre os gigantes ou De como a divindade não muda, assim como os livros I-V da obra De como, segundo Moisés, é Deus quem envia os sonhos. Estas são as obras que chegaram até nós das que tratam sobre o Gênesis.
5.      Quanto ao Êxodo, conhecemos dele o seguinte: os livros I-V de Problemas e soluções, as obras Sobre o tabernáculo, Sobre o decálogo e os livros I-IV Sobre as leis que em especial se referem aos capítulos principais do decálogo; Sobre os animais para os sacrifícios e espécies de sacrifícios e Sobre os prêmios para os bons, e castigos e maldições para os maus, que estão na lei.
6.      Além destas todas, dão-se como suas obras de um só livro, como: Sobre a Providência[10], o tratado que compôs Sobre os judeus, O Político e ainda Alexandre ou de como os animais irracionais têm razão, e também De como todo homem mau é escravo[11], ao qual se segue outra obra: De como todo homem bom é livre.
7.              Depois destas compôs a obra Da vida contemplativa ou Suplicantes, da qual citamos passagens sobre a vida dos varões apostólicos[12]; e diz-se que são também suas as Interpretações dos nomes hebreus que há na Lei e nos Profetas.
8.              Chegou Fílon em Roma nos tempos de Caio, e diz-se que seus escritos sobre a teofobia de Caio, que ele intitulou, com sua ponta de ironia, Sobre as virtudes, foram por ele expostos diante do senado romano reunido, nos tempos de Cláudio, de forma que suas obras foram muito admiradas e consideradas dignas de ser colocadas nas bibliotecas.
9.              Por este tempo Paulo realizava sua viagem desde Jerusalém até o Ilírico[13], Cláudio expulsava os judeus de Roma e Áquila e Priscila, lançados de Roma com os demais judeus, desembarcavam na Ásia e conviviam com o após­tolo Paulo, que consolidava os fundamentos daquelas igrejas, recém lan­çados por ele. Quem nos ensina tudo isto é também a sagrada escritura dos Atos[14].

XIX  - Calamidades que se abateram sobre os judeus de Jerusalém no dia da Páscoa
1.            Cláudio ainda regia o império quando ocorreu que, na festa da Páscoa, produziu-se em Jerusalém uma insurreição e uma confusão tamanhas que apenas dentre os judeus, que se apertavam com toda a força nas saídas do templo, morreram trinta mil, esmagados uns contra os outros, transformando-se a festa em dor para toda a nação e em pranto para cada família. Também isto é expressamente referido por Josefo.
2.            Cláudio estabeleceu como rei dos judeus Agripa, filho de Agripa, e enviou Félix como procurador de toda a região da Samaria, da Galiléia e da chamada Peréia. Depois de ter exercido o comando durante treze anos e oito meses, morreu, deixando Nero como sucessor no império.

XX - Do que ocorreu em Jerusalém nos dias de Nero
1.            Nos tempos de Nero e sendo Félix procurador da Judéia, os sacerdotes se levantaram uns contra os outros; Josefo o descreve textualmente no livro XX de suas Antigüidades, como segue:
2.            "Os sumos sacerdotes levantaram disputa contra os sacerdotes e principais personalidades do povo de Jerusalém, e cada um deles criou para si uma tropa de homens dos mais atrevidos e revolucionários e fez-se seu chefe. Quando se enfrentavam insultavam-se uns aos outros e lançavam pedras. Não havia ninguém que o reprimisse, pelo contrário, como numa cidade sem governo, isto acontecia com toda a liberdade.
3.            Tamanho descaramento e audácia se apoderou dos sumos sacerdotes, que se atreveram a enviar escravos às eiras para tomar para si os dízimos devi­dos aos sacerdotes, e chegou-se ao ponto de sacerdotes pobres morrerem na indigência. Assim é como a força dos facciosos prevalecia sobre toda a justiça."
4.            Relata também o mesmo escritor que naquele tempo surgiu em Jerusalém certa espécie de ladrões que, segundo diz, em pleno dia e no meio da cidade assassinavam quem quer que os encontrasse.
5.     Principalmente nos dias de festas, misturavam-se à multidão levando adagas[15] escondidas sob as roupas e com elas apunhalavam seus adversários. Quando estes caíam, os próprio assassinos uniam-se aos que manifestavam sua indignação, e por isso, com tal aparência de honradez, não havia quem os descobrisse.
6.     O primeiro que degolaram foi o sumo sacerdote Jonatan, e depois dele, a cada dia foram matando muitos. O medo era mais terrível do que as calamida­des, pois todos esperavam a morte a qualquer momento, como numa guerra.

XXI - Do egípcio, também mencionado pelos Atos dos Apóstolos
1.   Em continuação, acrescenta depois de outros detalhes:
"Com uma praga pior do que esta foram os judeus prejudicados pelo pseudoprofeta Egípcio. De fato, chegou este ao país como feiticeiro e com ares de profeta. Conseguiu reunir trinta mil iludidos e os conduziu ao deserto até o monte chamado das Oliveiras, de onde lhe seria possível entrar à força em Jerusalém e subjugar a guarnição romana e o povo, utilizando despoticamente as forças que o haviam acompanhado.
2.            Mas Félix antecipou-se a seu ataque saindo logo com os soldados romanos, e todo o povo contribuiu com a defesa, de modo que, iniciado o combate, o Egípcio empreendeu a fuga com uns poucos, enquanto a maior parte dos que estavam com ele pereceram ou foram feitos prisioneiros."
3.     Isto escreve Josefo no livro II de suas Histórias. Contudo, será bom relacio­nar o que ele diz sobre o Egípcio com o que é dito nos Atos dos Apóstolos[16], na passagem onde o tribuno militar de Jerusalém pergunta a Paulo nos tem­pos de Félix, quando o populacho judeu se voltara contra ele: Então não és tu o Egípcio que há alguns dias levantou uma sedição e levou ao deserto os quatro mil sicários?
Isto sucedeu nos tempos de Félix.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?










[1] At 2:45.
[2] At 4:34-35.
[3] Distritos em que era dividido o Egito.
[4] Fílon não fala de igreja, como diz Eusébio, mas de habitação sagrada, com o duplo nome de oratório privado e monastério (lugar para uma só pessoa).
[5] Eusébio trata Fílon como "um dos nossos", um escritor cristão, no que é seguido por S. Jerônimo, apesar de este duvidar da autenticidade do texto de Fílon.
[6] O segundo livro foi perdido totalmente.
[7] Desta obra só se conservaram fragmentos.
[8] Isto indica que Eusébio já não conheceu diretamente esta obra, que está perdida.
[9] São na verdade duas obras: Sobre a emigração e Sobre a vida do sábio perfeito segundo a justiça.
[10] Só se conserva completa uma tradução armênia; em grego somente o que foi transmi­tido por Eusébio.
[11] Obra perdida.
[12] Vide XVII:7-ss.
[13] Rm 15:19.
[14] At 18:2, 18-19,23.
[15] Estas adagas eram as sicae, o que deu origem à palavra sicário, aquele que mata com a adaga e a traição.
[16] At 21:38.