quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Estudo 18 - Livro III - Capítulos 1 a 5

18
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro III - Capítulos 01 a 05


Texto Bíblico: I Pedro 5.10
 



I - Em que partes da terra os apóstolos pregaram sobre Cristo
II - Quem foi o primeiro que presidiu a Igreja de Roma
III - Sobre as cartas dos apóstolos
IV - Sobre a primeira sucessão dos apóstolos
V - Sobre o último assédio dos judeus depois de Cristo


I - Em que partes da terra os apóstolos pregaram sobre Cristo
1.            Esta era a situação dos judeus, enquanto os santos apóstolos e discípulos de nosso Salvador haviam se espalhado por toda a terra: a Tomás, como quer uma tradição, coube a Partia; a André a Cítia, a João a Ásia, entre os quais[1] se estabeleceu, morrendo em Éfeso.
2.            Pedro, segundo parece, pregou no Ponto, na Galácia e na Bitínia, na Capadócia e na Ásia[2], aos judeus da diáspora; por fim chegou a Roma e foi crucificado com a cabeça para baixo, como ele mesmo pediu para sofrer.
3.     E o que dizer de Paulo, que desde Jerusalém até o Ilírico cumpriu com a pregação do Evangelho de Cristo[3] e finalmente sofreu martírio em Roma sob Nero? Isto é dito por Orígenes literalmente no tomo III de seus Comentários ao Gênesis[4].

 II - Quem foi o primeiro que presidiu a Igreja de Roma
1. Depois do martírio de Paulo e de Pedro, o primeiro a ser eleito para o episcopado da Igreja de Roma foi Lino. Ele é mencionado por Paulo quando escreve de Roma a Timóteo, na despedida ao final da carta[5].

III - Sobre as cartas dos apóstolos
1.                De Pedro reconhecemos uma única carta, a chamada I de Pedro. Os pró­prios presbíteros antigos utilizaram-na como algo indiscutível em seus próprios escritos. Por outro lado, sobre a chamada II carta, a tradição nos diz que não é testamentária[6]; ainda assim, por parecer proveitosa a muitos, é tomada em consideração junto com as outras Escrituras.
2.       Quanto aos Atos que levam seu nome e o Evangelho dito como seu, assim como a Pregação que se diz ser sua e o chamado Apocalipse, sabemos que de modo algum foram transmitidos entre os escritos católicos, pois nenhum autor eclesiástico, nem antigo nem moderno, utilizou testemunho tirado deles.
3.       À medida em que avance esta História farei propositadamente que, junto às sucessões, sejam indicados os escritores eclesiásticos, segundo as épocas, que utilizaram os livros discutidos e quais deles, e também o que dizem dos escritos testamentários e admitidos, e dos que não o são.
4.             Pois bem, os escritos que levam o nome de Pedro, dos quais somente uma única carta conhecemos como autêntica e admitida pelos presbíteros antigos, são os já referidos.
5.             Por outro lado, é evidente e claro que as catorze cartas são de Paulo. Contudo, não é justo ignorar que alguns rechaçaram a carta aos Hebreus, dizendo que a Igreja de Roma não a admite por crer que não é de Paulo. O que foi dito sobre ela por aqueles que me precederam será exposto a seu devido tempo. Naturalmente, também não aceitei entre os escritos indiscutidos os Atos que se dizem ser dele.
6.             Mas, como ocorre que o mesmo apóstolo, nas despedidas finais da carta aos Romanos, menciona, junto com outros, a Hermas - de quem se diz que é o livro do Pastor-, deve-se saber que alguns também rechaçam este livro e que por causa deles não se pode contá-lo entre os admitidos; por outro lado, outros julgam-no muito necessário, especialmente para os que preci­sam de uma introdução elementar. Por esta razão sabemos que foi lido publicamente nas igrejas e comprovamos que alguns escritores dos mais antigos fizeram uso dele.
7.      Baste o dito como exposição de quais são as divinas Escrituras não discutidas e quais são as que nem todos admitem.

IV - Sobre a primeira sucessão dos apóstolos
1.                Que Paulo pregou aos gentios e que, desde Jerusalém até o Ilírico, deitou os alicerces das igrejas, está bem claro em suas próprias palavras[7] e no que Lucas narra nos Atos.
2.       Pelas palavras de Pedro em sua Carta, da qual já dissemos que é aceita, e que escreve aos hebreus da diáspora, moradores do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia, percebe-se claramente em que províncias ele pregou a Cristo e transmitiu a doutrina do Novo Testamento aos que procediam da circuncisão[8].
3.                Não é porém fácil dizer quantos e quais destes, convertidos em homens de zelo genuíno, foram considerados capazes de apascentar as igrejas fundadas por estes apóstolos, a não ser os que podem ser vistos nos escritos de Paulo.
4.       Este realmente teve inúmeros colaboradores e - como ele mesmo os chama - companheiros de luta[9]. A maior parte ele considera digna de memória imorredoura e em suas próprias cartas dá contínuo testemunho deles. E não somente isto, mas também Lucas nos Atos dá uma lista dos discípulos de Paulo e os menciona pelo nome.
5.             Pelo menos sobre Timóteo refere-se que foi o primeiro a ser designado para o episcopado da igreja de Éfeso[10], assim como Tito, das igrejas de Creta[11].
6.             Lucas, por outro lado, oriundo de Antioquia por sua linhagem e médico de profissão[12], foi durante a maior parte do tempo companheiro de Paulo. Mas seu trato com os outros apóstolos também não foi superficial: deles adquiriu a terapêutica das almas, da qual nos deixou exemplos em dois livros divinamente inspirados: o Evangelho, que ele confessa ter composto segundo o que lhe transmitiram os que foram testemunhas oculares e se fizeram servidores da doutrina, dos quais ele diz que seguiu já desde o começo[13], e os Atos dos Apóstolos que compôs, já não com o que tinha ouvido, mas com o que viu com os próprios olhos.
7.      Diz-se também que Paulo costumava mencionar o Evangelho de Lucas sempre que, escrevendo, dizia como se se tratasse de um evangelho seu: segundo meu Evangelho[14].
8.      Dos restantes seguidores de Paulo, está provado que Crescente foi enviado por ele à Gália[15]; e Lino, que é mencionado na II carta a Timóteo indican­do que se encontra com ele em Roma[16], já foi demonstrado anteriormente que foi designado para o episcopado da igreja de Roma, o primeiro depois de Pedro.
9.             Paulo também atesta que Clemente - instituído terceiro bispo da Igreja de Roma - foi seu colaborador e companheiro de luta[17].
10.     Além destes há também o areopagita chamado Dionísio, sobre o qual Lucas escreve nos Atos[18] que foi o primeiro que creu depois do discurso de Paulo aos atenienses no Areópago, e de quem outro antigo Dionísio, pastor da igreja de Corinto, conta que foi o primeiro bispo de Atenas.
11. Mas, à medida que avançarmos no caminho, diremos oportunamente, segundo as épocas, o referente à sucessão dos apóstolos. Agora sigamos o fio da narrativa.

V - Sobre o último assédio dos judeus depois de Cristo
1.            Depois de Nero ter exercido o poder durante treze anos, e tendo os reinados de Galba e Oto durado um ano e seis meses, Vespasiano, que havia se distinguido nas operações bélicas contra os judeus, foi nomeado imperador na própria Judéia, após ser proclamado senhor absoluto pelo exército ali acampado. Encaminhando-se então a Roma, pôs em mãos de seu filho Tito a guerra contra os judeus.
2.            Depois da ascensão de nosso Salvador, os judeus acrescentaram ao crime cometido contra ele a invenção de inúmeras ameaças contra seus apóstolos: Estevão foi o primeiro que eliminaram, apedrejando-o[19]; depois dele, Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, a quem decapitaram[20]; e depois de todos, Tiago, o que depois da ascensão de nosso Salvador foi o primeiro designado para o trono episcopal de Jerusalém e morreu da forma que já descrevemos. E os demais apóstolos sofreram milhares de ameaças de morte e foram expulsos da terra da Judéia. Porém, com o poder de Cristo, que havia-lhes dito: Ide e fazei discípulos de todas as nações em meu nome [21], dirigiram seus passos para todas as nações para ensinar a mensagem.
3.            E não apenas eles. Também o povo da igreja de Jerusalém, por seguir um oráculo enviado por revelação aos notáveis do lugar, receberam a ordem de mudar de cidade antes da guerra e habitar certa cidade da Peréia chamada Pella. Tendo os que creram em Cristo emigrado até lá desde Jerusalém, a partir deste momento, como se todos os homens santos tivessem abandonado por completo a própria metrópole real dos judeus e toda a região da Judéia, a justiça divina alcançou os judeus pelas iniqüidades que cometeram contra Cristo e seus apóstolos, e apagou dentre os homens toda aquela geração de ímpios.
4.   Quem pois quiser saber com exatidão os males que então caíram sobre a nação em todo lugar, e como especialmente os habitantes da Judéia viram-se empurrados ao fundo das calamidades, quantos milhares de jovens, de mulheres e de crianças morreram pela espada, pela fome, e inúmeras outras formas de morte, e quantas e quais cidades da Judéia foram sitiadas, e também quantos horrores e pior do que horrores atingiram os que se refugiaram na mesma Jerusalém, por ser um metrópole muito fortificada, assim como a índole de toda a guerra, os acontecimentos que nela se sucederam e como, finalmente, a abominação da desolação anunciada pelos profetas se instalou no próprio templo de Deus, tão célebre antigamente, que sofreu todo tipo de destruição e, por último, foi aniquilado pelo fogo: tudo isso encontrará na narrativa escrita por Josefo.
5.            Mas é necessário assinalar que este mesmo autor refere que o número dos que se concentraram nos dias da festa da Páscoa, vindos de toda a Judéia para Jerusalém, como num cárcere, para usar suas palavras, era de uns três milhões.
6.            Era necessário pois, que nos dias em que causaram a paixão do Salvador e benfeitor de todos e Cristo de Deus, nestes mesmos, encerrados como num cárcere, recebessem a ruína que os alcançava da justiça de Deus.
7.     Mas passando por alto o que lhes sobreveio e o que lhes foi feito pela espada e de outras maneiras, acho necessário apresentar apenas as cala­midades causadas pela fome, para que os que leiam este escrito possam saber em parte como não tardou muito para que os alcançasse o castigo divino por seu crime contra o Cristo de Deus.


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[1] O autor provavelmente estava pensando nos habitantes, escrevendo "entre os quais" e não "onde".
[2] 1 Pe 1:1.
[3] Rm 15:19.
[4] Esta obra de Orígenes está perdida.
[5] 2 Tm 4:21.
[6] Isto é, canônica.
[7] Rm 15:19.
[8] Gl 2:7-10.
[9] Fp 2:25.
[10] 1 Tm 1:3.
[11] Tt 1:5.
[12] Cl  4:14.
[13] Lc 1:2-3.
[14] Rm 2:l6;2 Tm 2:8.
[15] 2 Tm 4:10.
[16] 2 Tm 4:21.
[17] Fp 4:3.
[18] At 17:34.
[19] At 7:58-60.
[20] At 12:2.
[21] Mt 28:19.