quinta-feira, 26 de março de 2015

Estudo 20 - Livro III - Capítulos 09 a 19

20
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro III - Capítulos 09 a 19
 
Texto Bíblico: Lc 24.18;  Jo 19.25


IX - De Josefo e os escritos que deixou
X - De que maneira cita os livros divinos
XI - De como Simeão dirige a Igreja de Jerusalém depois de Tiago
XII - De como Vespasiano ordena que se busquem os descendentes de Davi
XIII - De como o segundo bispo de Roma é Anacleto
XIV - De como o segundo a dirigir os alexandrinos é Abílio
XV - De como o terceiro bispo de Roma, depois de Anacleto, é Clemente
XVI - Da carta de Clemente
XVII - Da perseguição sob Domiciano
XVIII - Sobre o apóstolo João e o "Apocalipse"
XIX - De como Domiciano ordena a morte aos descendentes de Davi

 IX - De Josefo e os escritos que deixou
1.   Depois de todas estas coisas, seria bom não ignorar o próprio Josefo – que tanto material forneceu para a obra que tens entre as mãos - de que país e de que família procedia. Também será ele mesmo quem nos declarará isto.
      Diz assim:
"Josefo, filho de Matias, sacerdote originário de Jerusalém, que primeiro fez guerra pessoalmente contra os romanos e logo, por necessidade, ficou à mercê dos acontecimentos posteriores[1]."
2.     Foi o mais famoso de todos os judeus de sua época, e não somente entre seus compatriotas, mas também entre os romanos, ao ponto de ser honrado com uma estátua[2] em Roma, e seus livros serem considerados dignos de uma biblioteca.
3.     Josefo expôs toda a Antigüidade judaica em vinte livros completos, e a História da guerra romana de seu tempo em sete. Ele mesmo atesta que não a entregou apenas em língua grega, mas também em sua língua materna[3]. Por tudo o mais é digno de crédito.
4.      Há também dele outros livros dignos de estudo, intitulados Sobre a antigüi­dade dos judeus. Neles refuta o gramático Apion, que tinha então composto um tratado contra os judeus. Também refuta a outros que haviam tentado igualmente caluniar as instituições pátrias do povo judeu.
5.             No primeiro destes livros estabelece o número de escritos do chamado Antigo Testamento, mostrando quais são os não discutidos entre os hebreus, como provenientes de uma antiga tradição. Diz textualmente:

X - De que maneira cita os livros divinos
1.            "Não há pois entre nós milhares de livros em desacordo e em mútua contradição, mas há sim, apenas vinte e dois livros que contêm a relação de todo o tempo e que com justiça são considerados divinos.
2.            Destes, cinco são de Moisés, e compreendem as leis e a tradição da criação do homem até a morte de Moisés. Este período abarca quase três mil anos.
3.            Desde a morte de Moisés até a de Artaxerxes, rei dos persas depois de Xerxes, os profetas posteriores a Moisés escreveram os fatos de suas épocas em treze livros. Os outros quatro contêm hinos em honra a Deus e regras de vida para os homens.
4.     Desde Artaxerxes até nossos dias tudo foi escrito, mas nem tudo merece a mesma confiança que o anterior, por não apresentar sucessão exata dos profetas.
5.            Mas os fatos manifestam como nós nos sentimos próximos a nossas escri­turas. Assim é que, transcorrido já tanto tempo, ninguém se atreveu a acres­centar, nem tirar, nem mudar nada nelas, antes, é natural a todos os judeus, já desde seu nascimento, crer que estes escritos são decretos de Deus, e aferrar-se a eles e prazerosamente morrer por eles caso seja necessário."
6.            Estas palavras do autor aqui apresentadas não deixarão de ser úteis. Há também outra obra escrita por ele, não sem nobreza, Sobre a supremacia da razão, que alguns intitularam Macabeus, porque contém as lutas dos hebreus valentemente sustentadas em defesa da piedade para com Deus e referidas nos escritos assim chamados Dos Macabeus[4].
7.        E quase no final do livro XX de suas, Antigüidades, o mesmo autor acrescenta a declaração de que tem o propósito de escrever em quatro livros, seguindo as crenças pátrias dos judeus, acerca de Deus e de sua essência, e sobre as leis; porque, segundo elas, algumas coisas podem ser feitas e outras são proibidas. O mesmo autor, em seus próprios tratados, menciona outras obras por ele produzidas.
8.             Além disso, será bom mencionar também as palavras que estão no final de suas Antigüidades, para confirmação dos testemunhos que dele tomei. Quando acusa Justo de Tiberíades - que tentara fazer, assim como ele mesmo, uma história dos fatos daquele tempo - de não haver escrito a verdade, depois de incluir outras muitas emendas, acrescenta textualmente o que segue:
9.             "Na verdade eu não tenho os mesmos temores que tu tens no que se refere a meus escritos, pois entreguei meus livros aos próprios imperadores estando os fatos ainda quase ante os olhos, porque tinha consciência de ter conservado a tradição da verdade, e não me enganei ao esperar obter seu testemunho.
10.      Também enviei minha narrativa a muitos outros, alguns dos quais tinham estado na guerra, como o rei Agripa e alguns parentes seus.
11. E ocorre que o imperador Tito quis que o público fosse informado dos fatos somente através destes livros, tanto é assim que ele assinou a ordem de publicá-los de próprio punho. E o rei Agripa escreveu sessenta e duas cartas atestando que os livros transmitem a verdade." Destas cartas Josefo inclusive cita duas. Mas baste o que já dissemos sobre ele, e prossigamos.

XI - De como Simeão dirige a Igreja de Jerusalém depois de Tiago
1. Depois do martírio de Tiago e da tomada de Jerusalém, que se seguiu ime­diatamente, é tradição que os apóstolos e discípulos do Senhor que ainda viviam reuniram-se de todas as partes num mesmo lugar, junto com os que eram da família do Senhor segundo a carne (pois muitos deles ainda viviam), e todos celebraram um conselho sobre quem seria considerado digno de suceder a Tiago, e todos, por unanimidade, decidiram que Simeão, o filho de Clopas - mencionado também pelo texto do Evangelho[5] -, era digno do trono daquela igreja, por ser primo do Salvador, ao menos segundo se diz, pois Hegesipo refere que Clopas era irmão de José.

XII - De como Vespasiano ordena que se busquem os descendentes de Davi
1. Depois disso Vespasiano, após a tomada de Jerusalém, deu a ordem de buscar todos os descendentes de Davi, para que entre os judeus não sobras­se ninguém da estirpe real. Por esta causa justificou-se mais uma grande perseguição aos judeus[6].

XIII - De como o segundo bispo de Roma é Anacleto
1. Depois de imperar Vespasiano durante dez anos, sucede-o como imperador seu filho Tito. No segundo ano de seu reinado, Lino, bispo da igreja de Roma, depois de exercer o cargo durante doze anos, transmite-o a Anacleto. Tito, que imperou dois anos e uns poucos meses, foi sucedido por seu irmão Domiciano.

XIV - De como o segundo a dirigir os alexandrinos é Abílio
1. No quarto ano de Domiciano morre Aniano, primeiro bispo da igreja de Alexandria, após haver completado vinte e dois anos, sucede-o Abílio como segundo bispo.

XV - De como o terceiro bispo de Roma, depois de Anacleto, é Clemente
1. No duodécimo ano do mesmo reinado[7], Clemente sucede a Anacleto, que havia sido bispo da igreja de Roma durante doze anos. O apóstolo, em sua carta aos Filipenses, faz saber a estes que Clemente era colaborador seu, dizendo: Com Clemente também e os demais colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida[8].

XVI - Da carta de Clemente
1. Deste existe uma Carta universalmente admitida, longa e admirável, que escreveu em nome da igreja de Roma à dos Coríntios, tendo como motivo uma sedição ocorrida em Corinto. Sabemos que esta carta foi lida publica­mente na assembléia na maior parte das igrejas, não apenas antigamente, mas também em nossos dias. E Hegesipo é testemunha suficiente de que no tempo indicado houve a sedição de Corinto.

XVII - Da perseguição sob Domiciano
1. Domiciano deu provas de uma grande crueldade para com muitos, dando morte sem julgamento razoável a não pequeno número de patrícios e de homens ilustres, e castigando com o desterro fora das fronteiras e confisco de bens a outras inúmeras personalidades sem causa alguma. Terminou por constituir a si mesmo sucessor de Nero na animosidade e guerra contra Deus. Efetivamente ele foi o segundo a promover a perseguição contra nós, apesar de que seu pai Vespasiano nada de mal planejou contra nós.

XVIII - Sobre o apóstolo João e o "Apocalipse"
1.            É tradição[9] que, neste tempo, o apóstolo e evangelista João, que ainda vivia, foi condenado a habitar a ilha de Patmos por ter dado testemunho do Verbo de Deus.
2.            Pelo menos Irineu, quando escreve acerca do número do nome aplicado ao anticristo no chamado Apocalipse de João[10], diz no livro V Contra as heresias, textualmente sobre João o que segue:
3.            Mas se fosse necessário atualmente proclamar abertamente seu nome[11], seria feito por meio daquele que também viu o Apocalipse, já que não faz muito tempo que foi visto, mas quase em nossa geração, ao final do império de Domiciano."
4.     Mas deve-se saber que de tal maneira brilhou por aqueles dias o ensinamento de nossa fé, que até os escritores alheios a nossa doutrina não vacilaram em transmitir em suas narrativas a perseguição e os martírios que então ocorreram. Indicaram inclusive com total exatidão a data ao referir que no décimo quinto ano de Domiciano, Flávia Domitila, filha de uma irmã de Flávio Clemente, um dos cônsules daquele ano em Roma, junto com muitos outros, foi castigada com o desterro à ilha de Pontia, por causa de seu testemunho sobre Cristo.

XIX - De como Domiciano ordena a morte aos descendentes de Davi
1. O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de Davi, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descen­dentes de Judas - que era irmão do Salvador segundo a carne —, com o pretexto de que eram da família de Davi e parentes do próprio Cristo[12]. Isto é o que declara Hegesipo quando diz textualmente:



O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?




[1] Nasceu no primeiro ano de Calígula (37-38 d.C), entrou em contato com os romanos em 64. Em 66 comanda parte das forças revolucionárias da Galiléia e cai prisioneiro dos romanos em 67. Desde sua libertação em 69 toma parte dos acontecimentos ao lado dos romanos e vive em Roma o resto de seus dias.
[2] Esta é a única referência que existe sobre esta estátua.
[3] Conserva-se apenas a versão grega, perdeu-se a aramaica.
[4] Esta obra não foi escrita por Josefo, mas por um autor contemporâneo ou pouco posterior.
[5] Lc 24:18; Jo 19:25. Escrito Cléopas em português.
[6] Não há outro registro sobre esta ordem e a perseguição conseqüente; é difícil avaliar o valor histórico desta citação.
[7] O duodécimo ano do reinado de Domiciano corresponde a 93 d.C.
[8] Fp 4:3, a identificação com este Clemente não tem o menor fundamento.
[9] Tradição escrita, consta das Memórias de Hegesipo.
[10] Ap 13:17-18.
[11] O do anticristo.
[12] Não se sabe quem eram estes hereges.