quarta-feira, 8 de abril de 2015

Estudo 21 - Livro III - Capítulos 20 a 23



21
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro III - Capítulos 20 a 23

Texto Bíblico: Marcos 6.3 / Mateus 13.55





XX - Dos parentes de nosso Salvador
XXI - De como o terceiro a dirigir a Igreja de Alexandria é Cerdon
XXII - De como o segundo a dirigir a igreja de Antioquia é Inácio
XXIII - Relato sobre o apóstolo João


XX - Dos parentes de nosso Salvador
1. "Da família do Senhor viviam ainda os netos[1] de Judas, seu irmão segundo a carne[2], aos quais delataram por serem da família de Davi. O evocatus[3]conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo.
2.             Perguntou-lhes se descendiam de Davi; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver."
3.             Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo.
4.      Perguntados acerca de Cristo e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras[4].
5.      Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Igreja[5].
6.             Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das igrejas tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.
7.      Isto diz Hegesipo. Mas não só ele. Também Tertuliano faz uma menção semelhante sobre Domiciano:
"Também Domiciano tentou por algum tempo fazer o mesmo que aquele, ainda que não sendo mais que uma parte da crueldade de Nero. Mas como, segundo creio, tinha algum senso, fez que cessasse rapidamente e chamou novamente os que havia desterrado."
8.   Depois de Domiciano imperar quinze anos e de sucedê-lo Nerva no gover­no, o senado romano decidiu por votação que se anulassem as honras de Domiciano e que regressassem a suas casas os que haviam sido expul­sos injustamente, e que ao mesmo tempo recuperassem seus bens. Isto é referido pelos que transmitiram por escrito os acontecimentos daquele tempo.
9.   Foi então que o apóstolo João, voltando de seu desterro na ilha, retirou-se para viver em Éfeso, segundo relata a tradição de nossos antigos.

XXI - De como o terceiro a dirigir a Igreja de Alexandria é Cerdon
1. Depois de Nerva imperar pouco mais de um ano, foi sucedido por Trajano. Corria o primeiro ano deste quando Cerdon sucedeu a Abílio, que havia regido a igreja de Alexandria durante treze anos. Cerdon era o terceiro dos que ali exerceram a presidência depois do primeiro, Aniano. Neste tempo os romanos eram ainda regidos por Clemente, que também ocupava o terceiro lugar dos que ali foram bispos depois de Paulo e Pedro. O primeiro foi Lino, e depois dele, Anacleto.

XXII - De como o segundo a dirigir a igreja de Antioquia é Inácio
1. Mas dos de Antioquia, depois de Evodio, primeiro que foi instituído, no tempo de que falamos era muito conhecido o segundo: Inácio. Igualmente nestes mesmos anos, o ministério da igreja de Jerusalém era exercido por Simeão, segundo depois do irmão de nosso Salvador.

XXIII - Relato sobre o apóstolo João
1.               Por este tempo vivia ainda na Ásia o mesmo a quem Jesus amou, o apóstolo e evangelista João, e ali continuava regendo as igrejas depois de regressar do desterro na ilha, depois da morte de Domiciano.
2.               Que João permanecia em vida por este tempo é suficientemente confirmado por duas testemunhas. Estas, representantes da ortodoxia da Igreja, são bem dignas de fé, tratando-se de homens como Irineu e Clemente de Alexandria.
3.       O primeiro deles, Irineu, escreve textualmente em alguma parte do livro II de sua obra Contra as heresias como segue:
"E todos os presbíteros que na Ásia estão relacionados com João, o discípulo do Senhor, dão testemunho de que João o transmitiu, porque ainda viveu com eles até os tempos de Trajano."
4.       E no livro III da mesma obra manifesta o mesmo com estas palavras: "Mas também a igreja de Éfeso, por ter sido fundada por Paulo e porque nela viveu João até os tempos de Trajano, é um testemunho veraz da tradição dos apóstolos."
5.            Por sua parte, Clemente assinala o mesmo tempo, e em sua obra que intitulou Quem é o rico que se salvai Acrescenta uma narrativa valiosíssima para os que gostam de escutar coisas belas e proveitosas. Toma pois, e lê o que ali escreveu:
6.     "Escuta uma historieta, que não é uma historieta, mas uma tradição existente sobre o apóstolo João, transmitida e guardada na memória. Efetivamente, depois que morreu o tirano, João mudou-se da ilha de Patmos a Éfeso. Daqui costumava partir, quando o chamavam, até as regiões pagãs vizinhas, com o fim de, em alguns lugares, estabelecer bispos; em outros, erguer igrejas inteiras, e em outros ainda, ordenar a algum dos que haviam sido designados pelo Espírito.
7.           Veio pois a uma cidade não muito distante e cujo nome alguns inclusive mencionam. Depois de consolar os irmãos em tudo o mais, tendo visto um jovem de grande estatura, de aspecto elegante e de alma vivaz, fixou seu olhar no rosto do bispo instituído sobre a comunidade e disse: 'Eu te confio este com toda a atenção, na presença da igreja e com Cristo como teste­munha.' O bispo aceitou o jovem, prometendo-lhe tudo, mas João insistia no mesmo e apelando para as mesmas testemunhas.
8.           Logo regressou a Éfeso, e o presbítero[6] levou para casa o jovem que lhe havia sido confiado e ali o manteve, rodeou-o de afeto e por fim batizou-o. Depois disto afrouxou um pouco sua grande solicitude e vigilância, pensando que havia imposto a salvaguarda perfeita: o selo do Senhor.
9.           Mas certos rapazes de sua idade, malandros, dissolutos e tendentes ao mal, perverteram-no. Sua liberdade era prematura. Primeiramente atraíram-no por meio de suntuosos banquetes; depois levaram-no consigo, inclusive de noite, quando saíam para o roubo, e por fim exigiram-lhe participar com eles de maldades maiores.
10.        O jovem foi se acostumando a isto sem perceber, e desviando-se do caminho reto, como cavalo de boca dura, brioso e que rejeita o freio, por seu vigor natural foi-se precipitando com mais força ao abismo.
11.        Acabou perdendo a esperança na salvação divina. Desde então não planejava coisas pequenas, mas, tendo já cometido grandes crimes, já que estava perdido de uma vez por todas, considerava justo correr o mesmo risco dos demais. Assim foi que, juntando-se aos mesmos e formando um bando de salteadores, era ele seu líder resoluto, o mais violento, o mais homicida, o mais temível de todos.
12.     Depois de algum tempo surgiu certa necessidade e voltaram a chamar João. Este, depois de ter resolvido os assuntos pelos quais tinha vindo, disse: 'Bem, bispo, devolve-me o depósito que eu e Cristo te confiamos na presença da igreja que presides e que é testemunha.'
13. O bispo a princípio ficou estupefato, acreditando ser vítima de calúnia sobre algum dinheiro que ele não havia recebido: não podia crer no que não tinha nem podia deixar de crer em João. Quando este lhe disse: 'O jovem é o que te peço, e a alma do irmão', o ancião prorrompeu em profundos soluços e, marejado de lágrimas, disse: 'este está morto'. Como? Morto de quê? 'Está morto para Deus - disse -, pois afastou-se transformado num perverso, um perdido, e para o cúmulo, um salteador, e agora ocupa o monte que está frente à igreja, com uma quadrilha de sua mesma índole.'
14.     Rasgou o apóstolo sua roupa e, golpeando a cabeça, com grande lamento exclamou: 'Bom guardião deixei para a alma do irmão! Mas tragam já um cavalo e alguém que me guie no caminho.' E dali, tal como estava, saiu da igreja e foi-se.
15. Chegou ao lugar. Os sentinelas dos bandidos deitaram-lhe as mãos, mas ele não fugia nem suplicava, mas aos gritos dizia: 'Para isso vim, levem-me ao vosso chefe.'
16.     Este, entretanto, aguardava armado como estava, mas ao reconhecer João naquele que se aproximava, fugiu cheio de vergonha. João o perseguia com todas suas forças, esquecido de sua idade e gritando:
17.     'Por que foges de mim, filho, de mim, teu pai, desarmado e velho? Tem pie­dade de mim, filho, não tema. Ainda tens esperança de vida. Darei conta por ti a Cristo, e se for necessário, com gosto sofrerei por ti a morte, como o Senhor a sofreu por nós. Por tua vida eu darei em troca a minha própria. Pára! Tenha fé! Foi Cristo que me enviou!'"
18.     O jovem, ao ouvi-lo, primeiramente deteve-se, com os olhos baixos; em seguida largou as armas, e tremendo, abraçou-se a ele. Seus lamentos eram já um discurso de defesa, e suas lágrimas serviam-lhe de segundo batismo. Apenas ocultava a mão direita.
19. Mas João foi-lhe fiador, jurando que havia alcançado o perdão para ele por parte do Salvador, caiu de joelhos, suplicante, e beijou a mesma mão direita considerando-a já purificada pelo arrependimento. Reconduziu-o à igreja, orou com súplicas abundantes, acompanhou-o em sua luta com jejuns prolongados e foi cativando seu espírito com os variados atrativos de sua palavra, e segundo dizem, não saiu dali até tê-lo consolidado na igreja, depois de ter dado grande exemplo de verdadeiro arrependimento e grandes sinais de regeneração, como troféu de uma ressurreição visível.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?





[1] No sentido de descendentes.
[2] Mt 13:55; Mc 6:3.
[3] Soldado veterano mobilizado para serviço dos magistrados em funções adminis­trativas.
[4] Mt 16:27; Jo 18:36; At 10:42; Rm 2:6; 2 Tm 4:1.
[5] Pode tratar-se da perseguição à Igreja de Jerusalém, de onde vinham os acusados, mas nada se sabe sobre este decreto.
[6] O mesmo referido acima como bispo.