quinta-feira, 30 de abril de 2015

Livro III - Capítulos 29 a 35

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro III - Capítulos 29 a 35

Texto Bíblico: Ap 2.6-15.

XXIX- De Nicolau e dos que dele tomam o nome
XXX - Dos apóstolos cujo matrimônio está comprovado
XXXI - Da morte de João e de Felipe
XXXII - De como sofreu o martírio Simeão, bispo de Jerusalém
XXXIII - De como Trajano impediu que se perseguisse os cristãos
XXXIV - De como o quarto a dirigir a Igreja de Roma é Evaristo
XXXV - De como o terceiro a dirigir a de Jerusalém é Justo

 XXIX- De Nicolau e dos que dele tomam o nome
1.            Nesta época surgiu também a heresia chamada dos nicolaítas, que durou pouquíssimo tempo e da qual também faz menção o Apocalipse de João[1]. Estes se jactavam de que Nicolau era um dos diáconos companheiros de Estevão encarregados pelos apóstolos do serviço aos necessitados[2]. Pelo menos Clemente de Alexandria, no livro III dos Stromateis, conta sobre ele, literalmente, o que segue:
2.            "Este, dizem, tinha uma mulher muito formosa. Depois da ascensão do Sal­vador, tendo os apóstolos reprovado seu ciúme, trouxe sua mulher a público e permitiu que se entregasse a quem quisesse, pois diz-se que esta prática está de acordo com o dito: 'Deve-se abusar da carne'[3]." E na verdade, por seguir o que foi feito e dito por simplicidade e impensadamente, os que compartilham sua heresia se prostituem sem a menor reserva.
3.            No entanto, eu sei que Nicolau não teve trato com nenhuma mulher que não aquela com quem estava casado, e que de seus filhos, as mulheres che­garam virgens à velhice e o rapaz permaneceu puro. Sendo isto assim, a exposição de sua mulher, da qual tinha ciúmes, no meio dos apóstolos, era um desprezo à paixão, e a abstenção dos prazeres que mais ansiosamente são procuradas ensinava a "abusar da carne", pois creio que, conforme o mandato do Salvador, ele não queria ser escravo de dois senhores[4], o prazer e o Senhor.
4.            Dizem igualmente que Matias ensinava isto mesmo: para a carne: combatê-la e abusar dela, sem consentir-lhe nada para o prazer; e para a alma, fazê-la crescer mediante a fé e o conhecimento. Isto, pois, seja o bastante sobre aqueles que, se na época mencionada[5] empreenderam a tarefa de perverter a verdade, extinguiram-se contudo por completo em menos tempo do que leva para dizê-lo.

XXX - Dos apóstolos cujo matrimônio está comprovado
1.   Clemente, cujas palavras acabamos de ler, em seguida ao que foi dito anteriormente e por causa dos que rechaçam o matrimônio, dá-nos uma lista dos apóstolos que comprovadamente foram casados e diz:
"Ou também vão desaprovar os apóstolos? Porque Pedro[6] e Felipe criaram filhos; e mais, Felipe deu maridos a suas filhas[7], e Paulo, ao menos em certa Carta, não vacila em dirigir-se a sua consorte[8], que não levava consigo para facilitar o ministério."
2.   Já que lembramos destas coisas, nada impede que citemos também outro relato de Clemente digno de ser exposto. Escreveu-o no livro VII dos Stromateis e narra-os da seguinte forma:
"Conta-se pois que o bem-aventurado Pedro, quando viu que sua própria mulher era conduzida ao suplício, alegrou-se por seu chamamento e seu retorno para casa, e gritou forte para animá-la e consolá-la, chamando-a por seu nome e dizendo: "Oh, tu, lembra-te do Senhor!" Assim era o matri­mônio dos bem-aventurados e a perfeita disposição dos mais queridos." Este era o momento oportuno para isto, por relacionar-se com o tema de que tratamos.

XXXI - Da morte de João e de Felipe
1.            Já explicamos anteriormente o tempo e o modo da morte de Paulo e de Pedro, assim como também o lugar onde foram depositados seus corpos depois que partiram desta vida[9].
2.            Sobre João, quanto ao tempo, também já foi dito; mas quanto ao lugar de seu corpo, indica-se na carta de Polícrates, bispo da igreja de Éfeso, que foi escrita para o bispo de Roma, Victor. Junto com João menciona o apóstolo Felipe e as filhas deste nos seguintes termos:
3.            "Porque também na Ásia repousam grandes luminares que ressuscitarão no último dia da vinda do Senhor, quando virá dos céus com glória em busca de todos os santos: Felipe, um dos doze apóstolos, que repou­sa em Hierápolis com duas filhas suas que chegaram virgens à velhice, e a outra filha, que depois de viver no Espírito Santo, descansa em Éfeso; e também há João, o que se recostou sobre o peito do Senhor[10] e que foi sacerdote portador do pétalon[11], mártir e mestre; este repousa em Éfeso."
4.            Isto há sobre a morte destes luminares. Mas também no Diálogo de Caio -de quem já falamos pouco acima -, Proclo - contra quem é dirigida a disputa -, coincidindo com o exposto, diz sobre a morte de Felipe e de suas filhas o seguinte:
"Depois deste houve em Hierápolis, a da Ásia, quatro profetisas, as filhas de Felipe. Ali estão seus sepulcros e o de seu pai."
5.   Assim diz Proclo. E Lucas, nos Atos dos Apóstolos, menciona as filhas de Felipe, que então viviam em Cesaréia da Judéia junto com seu pai, e que haviam sido agraciadas com o dom da profecia; diz textualmente o que segue: Viemos a Cesaréia e entramos na casa de Felipe o evangelista - pois era um dos sete - e permanecemos em sua casa. Tinha ele quatro filhas virgens, que eram profetisas[12].
6.   Depois de haver descrito sobre o que chegou ao nosso conhecimento acerca dos apóstolos e dos tempos apostólicos, assim como dos escritos sagra­dos que nos deixaram, e inclusive dos que são controversos, mas que na maioria das igrejas muitos lêem em público, e dos que são inteiramen­te espúrios e alheios à ortodoxia apostólica, continuemos avançando em nossa narrativa.

XXXII - De como sofreu o martírio Simeão, bispo de Jerusalém
1.            Depois de Nero e Domiciano, conta uma tradição que, sob o imperador cuja época estamos agora investigando[13], voltaram a ocorrer perseguições contra nós, parcialmente e por cidades, devido a levantes populares. Nesta época, sobre Simeão, o filho de Clopas, do qual já dissemos que foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sabemos que terminou sua vida no martírio.
2.     Testemunha disto é aquele mesmo Hegesipo, de quem já utilizamos diferentes passagens. Ao falar de alguns hereges, acrescenta claramente que por esse tempo, efetivamente, o mencionado Simeão teve que sofrer uma acusação e que durante muitos dias foi maltratado de muitas maneiras por ser cristão, e que depois de deixar admiradíssimos o juiz e os que o acompanhavam, alcançou um final semelhante à paixão do Senhor.
3.            Mas nada melhor do que ouvir o próprio escritor, que relata isto mesmo textualmente como segue:
"A partir disto, evidentemente alguns hereges acusam Simão[14], o filho de Clopas, por ser descendente de Davi e cristão, e assim sofre martírio na idade de cento e vinte anos, sob o imperador Trajano e o governador Ático."
4.     O mesmo autor diz que inclusive os próprios carrascos foram presos quando se procuraram os descendentes da tribo real dos judeus, já que também eles o eram. Com um pouco de cálculo pode-se dizer que tam­bém Simeão viu e ouviu pessoalmente o Senhor, baseando-se na longa duração de sua vida e na menção que o texto dos evangelhos faz de Maria de Clopas[15], de quem já se demonstrou que Simeão era filho.
5.            O mesmo escritor diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, de nome Judas, sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em Cristo sob Domiciano, como já referimos anteriormente[16]. Escreve o seguinte:
6.   "Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Igreja como mártires e como mem­bros da família do Salvador. Quando em toda a Igreja se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Simão[17], filho de Clopas, foi denun­ciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos, inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus cento e vinte anos[18] E mandaram crucificá-lo."
7.             Depois disto o mesmo autor, explicando o referente aos tempos indicados, acrescenta que efetivamente, até aquelas datas a Igreja permanecia virgem, pura e incorrupta, como se até esse momento os que se propunham corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que existiam, ocultavam-se em escuras trevas.
8.             Mas quando o coro sagrado dos apóstolos alcançou de diferentes maneiras o final da vida e desapareceu aquela geração dos que foram dignos de escutar com seus próprios ouvidos a divina Sabedoria, então teve início a confabulação do erro ímpio por meio do engano de mestres de falsa doutrina, os quais, não restando nenhum apóstolo, daí em diante já a descoberto, tentaram opor à pregação da verdade a pregação da falsamente chamada gnosis[19].

XXXIII - De como Trajano impediu que se perseguisse os cristãos
1.            Tão grande foi realmente a perseguição que naquele tempo estendeu-se em muitos lugares contra nós, que Plínio Segundo[20], notável entre os governa­dores, inquieto pela multidão de mártires, relata ao imperador sobre o exces­sivo número dos que eram executados por sua fé, e no mesmo documento adverte que nunca foram surpreendidos cometendo nada ímpio ou contrário às leis, se não for pelo fato de levantarem-se à aurora para entoar hinos a Cristo como a um Deus, mas que adulterar e cometer homicídios e crimes do mesmo tipo também era proibido para eles, e que em tudo agem conforme as leis.
2.            A resposta de Trajano foi promulgar um decreto do seguinte teor: que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse. Graças a isto extinguiu-se parcialmente a perseguição, que ameaçava apertar terrivelmente, mas nem por isso faltaram pretextos aos que queriam fazer-nos mal. Algumas vezes eram as populações, outras as próprias autoridades locais que preparavam os assédios contra nós, de forma que, ainda que sem perseguições manifestas, acenderam-se focos parciais, segundo as provín­cias, e grande número de crentes combateram em diversos gêneros de martírio.
3.     O relato foi tomado da Apologia latina de Tertuliano, mencionada mais acima, traduzido, é como segue:
"Mesmo assim, encontramos que foi proibido até que nos persigam. Efetivamente, Plínio Segundo, governador de uma província[21], depois de condenar alguns cristãos e depô-los de suas dignidades, assustado por seu número e já não sabendo o que lhe restava fazer, consultou o imperador Trajano, alegando que, exceto por não quererem adorar os ídolos, nada de ímpio havia encontrado neles. Informava-lhe também o seguinte: que os cristãos se levantavam à aurora e cantavam hinos a Cristo como a Deus e que, para manter seu conhecimento[22], era-lhes proibido matar, cometer adultério, cobiçar, roubar e coisas parecidas. A isto Trajano respondeu que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse." Também isto ocorreu neste tempo.

XXXIV - De como o quarto a dirigir a Igreja de Roma é Evaristo
1. Dos bispos de Roma, no terceiro ano do imperador anteriormente cita­do, Clemente terminou sua vida depois de transmitir seu cargo a Evaristo e de haver estado no total nove anos à frente do ensinamento da palavra divina[23].

XXXV - De como o terceiro a dirigir a de Jerusalém é Justo
1. Mas, quando Simeão morreu do modo como relatamos, o trono do episcopado de Jerusalém foi recebido em sucessão por um judeu chamado Justo, que era um dos inúmeros que, procedendo da circuncisão, havia então crido em Cristo.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

Ícone da Capa: Evaristo - Nasceu em Belém na Palestina ou Grécia (50 d.C) e morreu em 105 d.C. (com 55 anos). Foi um Judeu Helenita convertido ao cristianismo e foi morar em Roma. Aí ele aceitou o perigoso (na época) oficio de Bispo de Roma, após a morte do Bispo Clemente entre os anos de 96 a  107 . Evaristus contribuiu para organizar a Igreja. Ele dividiu a Igreja em sete setores (diaconiae, ou tituli) segundo os lugares dos mártires, e nomeou os cardeais (diáconos) que seriam os diretores de cada setor para servir a cidade. Foi sepultado ao lado de Pedro e foi também o primeiro a dar a bênção publica depois do matrimônio civil.



[1] Ap 2:6-15.
[2] At 6:5.
[3] O dito é equívoco, significava originalmente que se deve colocar a carne sob as provações mais rigorosas. Os nicolaítas interpretaram-no em sentido licencioso.
[4] Mt 6:24; Lc 16:13.
[5] Sob o império de Trajano
[6] Mc 1:30; diz apenas que Pedro era casado, nada fala sobre filhos.
[7] Esta declaração de Clemente não tem respaldo na Bíblia.
[8] Segundo 1 Co 7:8 Paulo não estava casado. A afirmação de Clemente baseia-se numa leitura de Fp 4:3 diferente do texto aceito.
[9] Vide II:XXV:5.
[10] Jo 13:25; 21:20.
[11] Ex 28:36-38.
[12] At 21:8-9.
[13] Ou seja, Trajano.
[14] Na verdade Simeão.
[15] Jo 19:25.
[16] Vide XX: 1.
[17] (= Simeão).
[18] Segundo estes dados, Simeão teria nascido no ano 13 a.C, sendo portanto mais velho que seu primo Jesus.
[19] 1 Tm 6:20; gnosis significa conhecimento.
[20] Caio Plínio Cecilio Segundo, conhecido como Plínio o Jovem, sobrinho e filho ado­tivo de Plínio o Velho, autor da Historia naturalis.
[21] Plínio foi governador da Bitínia em 111-112.
[22] Esta expressão fica obscura no texto grego.
[23] O terceiro ano de Trajano foi 100-101, mas Clemente deve ter morrido antes, Evaristo provavelmente assumiu em 99.