quarta-feira, 13 de maio de 2015

Livro IV - Capítulos 01 a 11

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro IV - Capítulos 01 a 11

Texto Bíblico:  Filipenses 1.29

I - Quais foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Trajano
II - O que padeceram os judeus nos tempos de Trajano
III - Os que saíram em defesa da fé nos tempos de Adriano
IV - Os bispos de Roma e de Alexandria nos tempos deste
V - Os bispos de Jerusalém, desde o Salvador até os tempos de Adriano
VI - O último assédio de Jerusalém, nos tempos de Adriano
VII - Quem foram neste tempo os líderes da gnosis de enganoso nome
VIII - Quem foram os escritores eclesiásticos nos tempos de Adriano
IX - Uma carta de Adriano dizendo que não se deveria perseguir-nos sem julgamento
X - Quem foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Antonino
XI - Dos heresiarcas daqueles tempos


 I - Quais foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Trajano
1. Corria o duodécimo ano do reinado de Trajano[1], morre o bispo da Igreja de Alexandria, a quem aludimos pouco acima[2], e é eleito para o cargo nela Primo, quarto bispo a partir dos apóstolos. Neste tempo também, tendo Evaristo cumprido seu oitavo ano[3], o episcopado de Roma passa para Alexandre, quinto na sucessão a partir de Pedro e Paulo.

II - O que padeceram os judeus nos tempos de Trajano
1.            Enquanto o ensinamento de nosso Salvador e sua Igreja floresciam a cada dia e progrediam mais e mais, a ruína dos judeus chegava ao máximo com sucessivas calamidades. Corria já o ano dezoito do imperador[4] quando estourou novamente uma rebelião dos judeus que levou à ruína uma enorme multidão dentre eles.
2.            Efetivamente, em Alexandria, assim como no resto do Egito e ainda em Cirene, como que instigados por um espírito terrível e faccioso, amotinaram-se contra seus vizinhos, os gregos. A rebelião cresceu enormemente, e no ano seguinte, sendo então Lupo o governador de todo o Egito, provocaram uma guerra nada pequena.
3.            Ocorreu que no primeiro choque eles venceram aos gregos, os quais, refugiando-se em Alexandria, prenderam os judeus da cidade e mataram-nos. Mas os judeus de Cirene, não recebendo a ajuda que esperavam destes, dedicaram-se a saquear o país do Egito e a devastar seu nomos, sob o comando de Lucúa[5]. Contra eles o imperador enviou Márcio Turbon com forças de infantaria e de marinha e inclusive de cavalaria.
4.     Este, depois de manter dura luta contra eles em muitas batalhas e durante bastante tempo, deu morte a muitos milhares de judeus não apenas em Cirene, mas também aos que vinham do Egito, que haviam se sublevado com Lucúa, seu rei.
5.     Mas o imperador, suspeitando que também os judeus da Mesopotâmia atacariam os habitantes dali, ordenou a Lusio Quieto que limpasse deles a província. Este organizou também uma batida contra eles e assassinou uma grande multidão, façanha pela qual o imperador nomeou-o governador da Judéia. Estes fatos são relatados também com termos idênticos pelos gregos que puseram por escrito dos acontecimentos de seu tempo.

III - Os que saíram em defesa da fé nos tempos de Adriano
1.            Depois de Trajano reger o império durante dezenove anos e seis meses, foi sucedido no comando por Elio Adriano. A este Codratos entregou um tra­tado que lhe havia redigido: uma Apologia composta em defesa de nossa religião, já que, efetivamente, alguns homens malvados tratavam de impor­tunar os nossos. Ainda hoje conserva-se nas mãos de muitos de nossos irmãos; nós também possuímos a obra. Nela podemos ver claras provas da inteligência e retidão apostólica deste homem.
2.            Ele mesmo deixa entrever sua antigüidade nisto que nos conta, em suas próprias palavras:
"Mas as obras de nosso Salvador estavam sempre presentes, porque eram verdadeiras: os que haviam sido curados, os ressuscitados dentre os mortos, os quais não foram vistos apenas no instante de serem curados e ressusci­tados, mas também estiveram sempre presentes, e não apenas enquanto vivia o Salvador, mas também depois de Ele morrer, todos viveram tempo sufi­ciente, de forma que alguns deles chegaram mesmo aos nossos tempos."
3.   Assim era Codratos. Mas também Aristides, homem de fé entregue a nossa religião deixou, assim como Codratos, uma Apologia em favor da fé, que havia dirigido a Adriano. Também a obra deste escritor conservou-se até nossos dias em muitos lugares.

IV - Os bispos de Roma e de Alexandria nos tempos deste
1. No terceiro ano do mesmo reinado, morre Alexandre, bispo de Roma, depois de cumpridos dez anos de governo. Sucedeu-o Sixto. E na igreja de Alexandria, tendo morrido Primo por este mesmo tempo, no duodécimo ano de sua presidência, foi sucedido por Justo.

V - Os bispos de Jerusalém, desde o Salvador até os tempos de Adriano
1.            No que tange às datas dos bispos de Jerusalém, nada encontrei conservado por escrito, porque, na verdade, uma tradição[6] afirma que tiveram vida muito breve.
2.     Do que foi deixado por escrito, consegui tirar a limpo isto: que até o assédio dos judeus, nos tempos de Adriano, houve uma sucessão de bispos em número de quinze, e dizem que desde a origem todos eram hebreus que haviam aceitado sinceramente o conhecimento de Cristo, tanto que aqueles que estavam capacitados a julgá-los consideraram-nos até dignos do cargo de bispos. Naquele tempo, efetivamente, a igreja era toda composta por fiéis hebreus, desde os apóstolos até o assédio dos que então restavam, quando os judeus, novamente separados dos romanos, foram vítimas de grandes guerras.
3.             Portanto, como quer que tenham terminado os bispos procedentes da circuncisão naquele momento, talvez seja necessário agora dar sua lista desde o primeiro. O primeiro pois, foi Tiago, o chamado irmão do Senhor; depois dele o segundo foi Simeão; o terceiro, Justo; o quarto, Zaqueu; o quinto, Tobias; o sexto, Benjamim; o sétimo, João; o oitavo, Matias; o nono, Felipe; o décimo, Sêneca; o décimo primeiro, Justo; o décimo segundo, Levi; o décimo terceiro, Efrem; José o décimo quarto e, depois de todos, o décimo quinto, Judas.
4.      Estes foram os bispos da cidade de Jerusalém, desde os apóstolos até o tempo de que estamos falando, e todos oriundos da circuncisão.
5.      Achava-se o reinado em seu décimo segundo ano[7] quando Sixto, que havia cumprido seu décimo ano no episcopado de Roma, foi sucedido por Telesforo, sétimo a partir dos apóstolos. Passando ainda um ano e alguns meses, Eumenes recebe em sucessão a presidência da igreja de Alexandria; segundo a ordem, foi o sexto. Seu predecessor havia permanecido no cargo onze anos.

VI - O último assédio de Jerusalém, nos tempos de Adriano
1.            A rebelião dos judeus tomava novamente maior força e maior extensão. Rufo, governador da Judéia, com o reforço militar enviado pelo imperador e tirando partido sem piedade de sua louca temeridade, marchou contra eles. Aniquilou em massa milhares de homens, de crianças e de mulheres, e ao amparo da lei da guerra reduziu seus territórios à escravidão.
2.            Mandava então sobre os judeus um chamado Barkokebas, que significa "estrela"[8], um homem homicida e bandido, mas que, por seu nome, como se tratasse com escravos, dizia que era luz descida dos céus para eles, e com mágicas enganosas fazia ver aos maltratados que brilhava.
3.     Mas a guerra chegou a seu ponto mais grave no décimo oitavo ano do reinado, em Betera, cidadela fortíssima, a pouca distância de Jerusalém. Como demorava longo tempo o assédio que vinha do exterior, os revolucionários viram-se empurrados à extrema ruína pela fome e pela sede, e o causador de sua insensatez pagou a pena merecida. Por decisão e por mandato de uma lei de Adriano proibiu-se a todo o povo judeu dali em diante pôr os pés sequer na região que rodeia Jerusalém, de forma que nem de longe podiam contemplar o solo pátrio. Isto foi contado por Ariston de Pela.
4.     Assim foi que a cidade chegou a ficar vazia da raça judia, e foi total a ruína de seus antigos moradores. Pessoas de outra raça vieram a habitá-la, e a cidade romana então constituída logo trocou de nome e se chamou Elia, em honra ao imperador Adriano. Mas também a igreja dali veio a ser composta de gentios, e o primeiro que se encarregou de seu ministério, depois dos bispos que procediam da circuncisão, foi Marcos.

VII - Quem foram neste tempo os líderes da gnosis de enganoso nome
1.            As igrejas de todo o mundo já resplandeciam como astros brilhantíssimos, e a fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo chegava a seu pleno vigor em todo o gênero humano, quando o demônio, avesso ao bem assim como inimigo da verdade e sempre hostil, demasiadamente, à salvação dos homens, voltou contra a Igreja todas as suas artimanhas. Se em outro tempo suas armas eram as perseguições contra ela, que vinham de fora,
2.     agora, em troca, sendo-lhe vedados estes meios e lançando mão de homens malvados e feiticeiros como de funestos instrumentos e ministros da perdição das almas, levam a cabo sua campanha por outros caminhos. Imaginam todos os recursos, como o de que feiticeiros e embusteiros se deslizem sob o próprio nome de nossa doutrina, para assim conduzir ao abismo da perdição os fiéis que conseguem capturar, e aos que não conhecem a fé, com os meios que põe em prática, afastar do caminho que leva à doutrina salvadora.
3.            Assim pois, de Menandro, de quem já dissemos que foi sucessor de Simão[9], saiu como uma serpente bicéfala e com duas bocas uma força que estabeleceu como autores de duas diferentes heresias Saturnino, antioquenho de origem, e o alexandrino Basílides. Um na Síria e o outro no Egito constituíram caminhos de ensino de heresias inimigas de Deus.
4.            Irineu demonstra que as falsidades ensinadas por Saturnino eram em sua maior partes as mesmas de Menandro, e que Basílides, sob a aparência de coisas mais secretas, estendia suas fantasias até o infinito, forjando as fábulas monstruosas de sua ímpia heresia.
5.   Naquele tempo saíram a lutar pela verdade grande número de varões eclesiásticos, e defenderam com bastante eloqüência a doutrina apostólica e eclesiástica. Alguns, com seus escritos, inclusive proporcionaram aos que vieram depois os recursos profiláticos contra as referidas heresias.
6.             Destes chegou até nós uma eficaz Refutação contra Basílides, de Agripa Castor, famosíssimo entre os escritores de então[10].
7.             Agripa põe a descoberto a habilidade da impostura daquele homem, pois ao desvelar seus mistérios diz que Basílides havia composto vinte e quatro livros sobre o Evangelho, e que chamava Barcabas e Barcof de profetas seus, e instituía para si alguns de sua própria invenção, aos quais dava nomes bárbaros para deixar pasmos aos que se assombram com tais coisas, e também ensinava que comer alimentos oferecidos aos ídolos e renegar despreocupadamente a fé com juramento em tempos de perseguição eram atos sem importância. A exemplo de Pitágoras, impunha cinco anos de silêncio aos que vinham a ele.
8.             O mesmo escritor enumera ainda outras coisas parecidas a estas sobre Basílides e desmascara valentemente o erro da citada heresia.
9.      Mas também Irineu escreve que Carpocrates, pai de outra heresia, a deno­minada dos gnósticos, foi coetâneo daqueles. Estes gnósticos consideravam certo transmitir as magias de Simão, não ocultamente como ele, mas aberta­mente, quase gabando-se como se fossem grandes coisas, dos filtros amoro­sos que elaboravam com grande cuidado, de certos espíritos familiares que enviam sonhos e de alguns outros métodos semelhantes. De acordo com isto, ensinavam que os que queriam chegar à perfeição de seus mistérios, melhor dizendo, de suas abominações, tinham que concretizar tudo o que houvesse de mais obsceno, porque, segundo eles, não poderiam escapar aos que chamam de príncipes do mundo senão satisfazendo-os a todos com uma conduta infame.
10.     O que realmente ocorreu foi que o demônio, cujo prazer é o mal dos outros, usando de tais ministros, por um lado conduziu à escravidão, para sua perdi­ção, aos que estes conseguiram miseravelmente enganar, e por outro propor­cionou aos povos infiéis abundante material de descrédito para a doutrina de Deus, pois a fama daqueles resultava em calúnia para todo o povo cristão.
11.     Foi assim que, na maior parte, aconteceu que se divulgasse entre os infiéis de então a ímpia e absurdíssima suspeita de que nós praticássemos inconfes­sáveis uniões com nossas mães e com nossas irmãs e que usássemos alimentos sacrílegos.
12.     Mas o certo é que tudo isso não lhe trouxe proveito por muito tempo, já que a verdade manifestou-se por si mesma e brilhou com uma luz muito intensa com o passar do tempo.
13.     De fato, rebatidas pela própria ação da verdade, logo se estenderam as invenções do adversário. As heresias eram inventadas umas depois das outras, as primeiras iam caindo sem interrupção e, cada qual a sua maneira e a seu tempo, se corrompiam e ficavam reduzidas a idéias variadas e multiformes. Em troca, o esplendor da única verdadeira Igreja católica, sempre idêntica a si mesma, crescia e aumentava irradiando a toda a raça dos gregos e dos bárbaros a majestade, a simplicidade, a liberdade, a sobriedade e a pureza da conduta e da filosofia divinas.
14.     Em conseqüência, com o passar do tempo, extinguiram-se também as calú­nias contra toda a doutrina, enquanto que somente nosso ensinamento se mantinha vencedor entre todos e com o reconhecimento de ser a que mais sobressai por sua venerabilidade, sua moderação e suas doutrinas sábias e divinas, de forma que ninguém dos de agora se atreve a proferir contra nossa fé uma injúria vergonhosa nem calúnia semelhantes às que anterior­mente gostavam de utilizar os que se conjuravam contra nós.
15. E mesmo assim, nos tempos de que falamos, a verdade tomou numerosos defensores seus, que não somente lutaram contra as ímpias heresias com argumentos não escritos, mas também com demonstrações escritas.

VIII - Quem foram os escritores eclesiásticos nos tempos de Adriano
1.            Entre estes destacava-se Hegesipo. Dele já utilizamos anteriormente nume­rosas citações, com o fim de estabelecer, tomando de sua tradição, alguns fatos dos tempos dos apóstolos.
2.     Efetivamente, em cinco livros comentou a tradição limpa de erro da pregação apostólica, com um estilo muito simples. O tempo em que se deu a conhecer é indicado por ele mesmo ao escrever assim dos que desde o princípio insta­laram os ídolos:
"Erigiam-lhes cenotáfios e templos, como até hoje. Deles é também Antino, escravo do imperador Adriano. Ainda que contemporâneo nosso, em sua honra celebram-se os jogos Antinoeus. Adriano inclusive fundou uma cidade com o nome de Antinoo e criou profetas."
3.            Também por este tempo, Justino, sincero amante da verdadeira filosofia, continuava ainda ocupado em exercitar-se nas doutrinas dos gregos. Ele mesmo indica este tempo ao escrever sua Apologia dirigida a Antonino: "Não creio que esteja fora de lugar mencionar aqui também Antinoo, que viveu em nossos dias e a quem todos se sentiam constrangidos a pres­tar culto como a um deus, por medo, apesar de saber quem era e de onde procedia."
4.     E o mesmo Justino acrescenta o seguinte, ao mencionar a guerra de então contra os judeus:
"E, de fato, na guerra judia de agora, Barkokebas, o líder da rebelião dos judeus, mandava que somente os cristãos fossem conduzidos a terríveis suplícios se não renegassem e blasfemassem contra Jesus o Cristo."
5.   Na mesma obra demonstra que sua conversão da filosofia grega à religião não se fez sem razão, mas com juízo; escreve o seguinte:
"porque também eu mesmo, que me comprazia nos ensinamentos de Platão, ao ouvir as calúnias contra os cristãos e vê-los irem intrépidos para a morte e para tudo que é terrível, comecei a pensar que não era possível que aqueles homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres. Pois, que homem amante do prazer ou incontinente ou que pensa que comer carne humana é bom poderia abraçar com alegria a morte se com ela se vê privado do objeto de seus desejos? Não tentaria por todos os meios seguir vivendo sempre sua vida daqui e ocultar-se dos governantes, em vez de delatar-se a si mesmo para ser morto?"
6.             O mesmo escritor conta ainda que Adriano recebeu de Serenio Graniano, lúcido governador, uma carta em favor dos cristãos, dizendo que não era justo, sem ter havido acusação nenhuma, condená-los à morte sem julga­mento, apenas para dar o gosto aos gritos do povo, e que havia respondido a Minucio Fundano, procônsul da Ásia, ordenando-lhe que ninguém julgasse sem denúncia e sem acusação razoável.
7.      Desta carta Justino oferece uma cópia, conservando a língua latina, tal como estava, e antepondo o seguinte:
"Poderíamos também, pelo conteúdo de uma carta do máximo e ilustrís­simo imperador Adriano, vosso pai, exigir que mandeis celebrar os jul­gamentos segundo nossa demanda. Mas isto não pedimos por ter sido ordenado por Adriano, mas por estarmos convencidos de que nossa reclamação é justa. No entanto, também colocamos atrás a cópia da car­ta de Adriano, para que saibas que também nisto dizemos a verdade. E a que segue."
8.   E em continuação ao dito, o mencionado autor põe a própria cópia latina, que nós, no entanto, traduzimos ao grego, como pudemos, e diz assim:

IX - Uma carta de Adriano dizendo que não se deveria perseguir-nos sem julgamento
1.             "A Minucio Fundano: Recebi uma carta que me foi escrita por Serenio Graniano, varão claríssimo, a quem tu sucedeste. Pois bem, não me parece que devamos deixar sem examinar o assunto, para evitar que se perturbe os homens e que os delatores encontrem apoio para suas maldades.
2.      Por conseguinte, se os habitantes de uma província podem sustentar com firmeza e às claras esta demanda contra os cristãos, de tal modo que lhes seja possível responder ante um tribunal, devem ater-se a este procedi­mento somente, e não a meras petições e gritos. Efetivamente, é muito melhor que, se alguém quiser fazer uma acusação, tu mesmo examines o assunto. 3. Portanto, se alguém os acusa e prova que cometeram algum delito contra as leis, julga tu segundo a gravidade da falta. Se porém - por Hércules - alguém apresenta o assunto para caluniar, decide sobre esta atrocidade e cuida de castigá-la adequadamente." Este é o transcrito de Adriano.

X - Quem foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Antonino
1. Depois de pagar este sua dívida, depois de vinte e um anos, o Império romano é recebido em sucessão por Antonino, o chamado Pio. Em seu primeiro ano morre Telesforo, que cumpria o décimo primeiro de seu ministério, e Higinio assume o episcopado de Roma. Conta Irineu que Telesforo abri­lhantou sua morte com o martírio, e no mesmo lugar declara que, nos tem­pos do mencionado bispo de Roma Higinio, eram notórios em Roma estes dois: Valentim, introdutor de sua própria heresia, e Cerdon, causador do erro de Márcion. Escreve assim:

XI - Dos heresiarcas daqueles tempos
1.            "Valentim veio a Roma, realmente, nos tempos de Higinio, mas floresceu sob Pio e permaneceu até Aniceto. E Cerdon, o antecessor de Márcion -também no tempo de Higinio, que foi o nono bispo -, assim que chegou à Igreja, depois de fazer confissão pública, passava sua vida assim: algu­mas vezes ensinava às escuras e outras vezes via refutadas suas doutrinas, e ia se afastando da companhia dos irmãos."
2.            Isto diz em seu livro terceiro dos escritos Contra as heresias. Mesmo assim, também no primeiro explica o que segue sobre Cerdon:
"Um tal Cerdon, que vinha do círculo de Simão e residia em Roma no tempo de Higinio - o nono na sucessão do episcopado a partir dos apóstolos -, andava ensinando que o Deus proclamado pela Lei e os Profetas não era Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, já que um é conhecido e o outro desconhecido; um é justo e o outro é bom. Tendo-lhe sucedido Márcion o Pôntico, este deu muita força à escola, blasfemando sem pudor."
3.     O mesmo Irineu explica vigorosamente o abismo infinito da matéria, carregada de erros, de Valentim, e põe a nu sua maldade oculta e insidiosa, como de serpente que se esconde na touceira.
4.      Depois destes diz que houve na mesma época outro, um tal chamado Marcos, habilíssimo na arte da magia. Descreve também suas intermináveis iniciações e suas infames mistagogias, revelando-as nos seguintes termos:
5.      "Alguns deles, efetivamente, preparam um leito e celebram uma iniciação ao mistério com algumas invocações mágicas sobre os iniciados, e dizem ser um matrimônio espiritual o que eles fazem, à semelhança das uniões do alto. Outros, ainda, levam-nos às águas e, ao batizá-los, dizem sobre eles: 'Em nome do desconhecido pai de todas as coisas; pela verdade, mãe de tudo; por aquele que desceu sobre Jesus.' E outros dizem sobre eles nomes hebreus, com o fim de impressionar mais os iniciados."
6.             Agora bem, tendo morrido Higinio depois do quarto ano de episcopado, encarrega-se do ministério em Roma Pio.
Em Alexandria foi proclamado pastor Marcos, depois que Eumenes cumpriu no total treze anos. Morto Marcos depois de dez anos de ministério, Celadion recebe o ministério da igreja de Alexandria.
7.   Na cidade de Roma, falecido Pio no décimo quinto ano de seu episcopado, assume a presidência dali Aniceto. Hegesipo conta sobre si mesmo que no tempo deste veio a estabelecer-se em Roma e que ali viveu até o episcopado de Eleutério.
8.             Mas sobretudo foi nesta época que floresceu Justino. Com estofo de filósofo, era embaixador da palavra de Deus e lutava pela fé com seus escritos. Escreveu efetivamente um tratado Contra Márcion, no qual recorda que, ao tempo em que o compunha, este ainda estava vivo. Diz assim:
9.      "Há um tal Márcion, natural do Ponto, que ainda hoje está ensinando seus seguidores a crerem em outro deus maior do que o criador: e com a ajuda dos demônios, fez com que por todas as raças de homens muitos proferissem blasfêmias e negassem que o criador de todo o universo seja o Pai de Cristo, e em troca confessem que algum outro o tivesse criado, por ser em compara­ção maior do que ele. E como dissemos, todos os que procederam destes são chamados cristãos, do mesmo modo que, apesar de não serem as doutrinas comuns a todos os filósofos, o sobrenome de filosofia é comum a todos eles." Ao que acrescenta:
10.  "Também temos um tratado Contra todas as heresias passadas[11], que vos daremos se quereis lê-lo."
11.      E este mesmo Justino, depois de escrever muito acertadamente contra os gregos, dirigiu também outras obras que continham uma defesa em favor de nossa fé ao imperador Antonino, o chamado Pio, e ao senado romano, pois estava residindo em Roma. Sobre si mesmo declara em sua Apologia quem era e de onde procedia, nos seguintes termos:

O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

Ícone da Capa: Justino Mártir. Seu lugar de nascimento foi Flávia Nápoles (atual Nablus), na Síria Palestina ou Samaria. A educação infantil de Justino incluiu retórica, poesia e história. Como jovem adulto mostrou interesse por filosofia e estudou primeiro estoicismo e platonismo. Justino foi introduzido na fé diretamente por um velho homem que o envolveu numa discussão sobre problemas filosóficos e então lhe falou sobre Jesus. Convertido, Justino "se consagrou totalmente a expansão e defesa da religião cristã". Justino continuou usando a capa que o identificava como filósofo e ensinou estudantes em Éfeso e depois em Roma. Os trabalhos que escreveu inclui: duas apologias em defesa dos cristãos e sua terceira obra foi Diálogo com Trifão. A convicção de Justino da verdade do Cristo era tão completa que ele teve morte de mártir sendo decapitado no ano 165 d.C.. Justino Mártir, está sepultado na igreja dos Freis Capuchinhos, em Roma, bairro Barberini.




[1] Ano 109-110.
[2] O bispo Cerdon.
[3] Segundo os dados de Eusébio (vide III:34), Evaristo termina em 108-109.
[4] O ano 18 de Trajano, antes de setembro de 115.
[5] O historiador Dion Casio chama este líder de André.
[6] Provavelmente vinda das Memórias de Hegesipo.
[7] O décimo segundo ano de Adriano foi 128-129.
[8] Mais propriamente "Filho de estrela".
[9] Vide III:XXVI.
[10] Apesar desta fama, perderam-se todos seus escritos, conhecidos apenas por fragmen­tos conservados por Clemente de Alexandria.
[11] Nada sabemos desta obra, exceto por citações de outros autores.