terça-feira, 10 de maio de 2016

História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro VI – Capítulos 14-19

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VI – Capítulos 14-19


XIV - De quantas escrituras Clemente faz menção
XV - De Heraclas
XVI - De como Orígenes havia se ocupado com afã das divinas Escrituras
XVII - Do tradutor Simaco
XVIII - De Ambrósio
XIX - Quantas coisas se mencionam sobre Orígenes

Texto Bíblico: Hebreus 1.2.

XIV - De quantas escrituras Clemente faz menção
1. Nas Hypotyposeis, para resumir, Clemente dá algumas explicações precisas da Escritura testamentária inteira, sem omitir os escritos discutidos, quero dizer, a Carta de Judas e as demais Cartas católicas, assim como a Carta de Barnabé e o chamado Apocalipse de Pedro.
2.             Diz também que a Carta aos Hebreus é certamente de Paulo, mas que foi escrita em língua hebraica para os hebreus, sendo que Lucas a traduziu cuidadosamente e a editou para os gregos; daí que se encontre o mesmo colorido no estilo desta carta e nos Atos.
3.             E acrescenta que é natural que a expressão "Paulo apóstolo" não esteja escrita no cabeçalho,
"porque - diz - como escrevia aos hebreus, que tinham prevenção contra ele e dele suspeitavam, com absoluta prudência não quis espantá-los já no início pondo seu nome".
4.   E um pouco abaixo acrescenta:
"Pois bem, como dizia o bem-aventurado presbítero, posto que o Senhor, apóstolo do Todo-Poderoso, foi enviado aos hebreus, Paulo, que o havia sido dos gentios, por modéstia não se intitulou apóstolo dos hebreus, e ao mesmo tempo por deferência para com o Senhor e porque, apesar de ser arauto e apóstolo dos gentios, escreve em anexo também uma carta aos hebreus."
5.             Nos mesmos livros Clemente ainda inseriu, sobre a ordem dos Evangelhos, uma tradição recebida dos antigos presbíteros, que é como segue. Dizia que dos Evangelhos escreveram-se primeiro os que contêm as genea­logias[1];
6.      que o Evangelho de Marcos teve a seguinte origem: estando Pedro em Roma pregando publicamente a doutrina e explicando o Evangelho pelo Espírito, os que estavam presentes – e eram muitos - exortaram Marcos, já que este o seguia há muito tempo e recordava-se do que havia dito, a que o pusesse por escrito. Depois que o fez distribuiu o Evangelho a todos que o pediam.
7.             Ao saber Pedro disto, não o impediu nem o estimulou. Quanto a João, o último, sabendo que o corpóreo já estava exposto nos Evangelhos, estimulado por seus discípulos e inspirado pelo sopro divino do Espírito, compôs um Evangelho espiritual. Isto refere Clemente.
8.             E novamente o supracitado Alexandre, em certa carta a Orígenes, faz por sua vez menção a Clemente e a Panteno como a homens conhecidos seus. Escreve assim:
"Porque também isto foi - como sabes - vontade de Deus, que a amizade que provinha de nossos pais[2] permanecesse inviolável; e mais, que fosse mais quente e mais firme;
9.   "efetivamente, reconhecemos como pais aqueles bem-aventurados que nos precederam no caminho e com os quais estaremos dentro em pouco: Panteno, o verdadeiramente bem-aventurado e senhor, e o santo Clemente, que foi meu senhor e me ajudou, e algum outro, se o há. Por meio deles conheci a ti, que em tudo és o melhor e senhor e irmão meu".
E assim estão as coisas.
10.      Quanto a Adamancio (pois também este nome tinha Orígenes)[3], ele mesmo escreve em alguma parte que residiu em Roma no tempo em que Zeferino estava à frente da igreja dos romanos. Diz: "Desejando ver a antiquíssima igreja dos romanos..." Depois de passar ali muito pouco tempo,
11.      regressou a Alexandria, e ali continuava com toda sua diligência as tarefas costumeiras de instrução catequética. Demétrio, bispo do lugar, então ainda o animava e quase suplicava que fosse diligente em dar proveito a seus irmãos.

XV - De Heraclas
1. Mas quando Orígenes viu que ele sozinho não se bastava para um estudo mais profundo dos mistérios divinos, para a investigação e interpretação das Sagradas Escrituras e, além disso, para a instrução catequética dos que dele se acercavam e que nem lhe deixavam respirar, acorrendo à escola uns após outros desde a aurora até o anoitecer, dividiu as multidões, escolheu entre seus discípulos Heraclas[4], varão zeloso nas coisas de Deus, e também muito erudito e não desprovido de filosofia, e o constituiu seu sócio na instrução catequética. E encarregou-o da primeira iniciação dos recém-admitidos, reservando para si a instrução dos já experientes.

XVI - De como Orígenes havia se ocupado com afã das divinas Escrituras
1. E tão cuidadosa era a investigação que Orígenes fazia das palavras divinas, que até aprendeu a língua hebraica, comprou as Escrituras originais, conservadas entre os judeus com os próprios caracteres hebreus, e seguiu a pista das edições de outros tradutores das Sagradas Escrituras, além dos Setenta. Além das traduções trilhadas e alternantes[5] de Aquila, de Simaco e de Teodocio, descobriu outras que, após seguir-lhes o rastro, tirou à luz, não sei de que esconderijos, onde se ocultavam desde antigamente.
2.            A respeito destas, por sua obscuridade e por não saber de quem eram, indicou somente o seguinte: a saber, que uma foi encontrada em Nicópolis, perto de Accio, e a outra em outro lugar parecido.
3.            Nas Hexaplas dos Salmos, ao menos, depois das quatro edições conhecidas, não somente pôs uma quinta tradução, mas também uma sexta e uma sétima; sobre uma delas está indicado que foi encontrada em Jericó, dentro de um jarro, em tempos de Antonino, o filho de Severo.
4.     Todas estas traduções ele reuniu em um só corpo, dividiu-as em membros de frase e as colocou umas frente às outras, junto com o próprio texto hebreu, deixando assim a cópia das chamadas Hexaplas[6]. Aparte, preparou a edi­ção de Aquila, Simaco e Teodocio, junto com a dos Setenta, nas Tetraplas.

XVII - Do tradutor Simaco
1. Pelo que toca a estes mesmos tradutores, deve-se saber que Simaco foi ebionita. A heresia, assim chamada dos ebionitas, é a dos que afirmam que Cristo nasceu de José e de Maria, crêem que foi puramente homem e insistem em que é necessário guardar a lei mais ao modo judeu, segundo o que já sabemos pelo referido anteriormente. E ainda hoje se conservam Comentários de Simaco, nos quais parece querer confirmar a mencionada heresia, explicando-se longamente à custa do Evangelho de Mateus. Orígenes declara que estes escritos, junto com outras interpretações de Simaco sobre as Escrituras, recebeu-os de uma tal Juliana, que por sua vez diz ter herdado os livros do próprio Simaco.

XVIII - De Ambrósio
1.            Por esta época também Ambrósio, que tinha as opiniões da heresia de Valentim, convencido pela verdade apresentada por Orígenes e como se uma luz tivesse iluminado sua mente, deu seu assentimento à doutrina da ortodoxia eclesiástica.
2.            E muitas outras pessoas instruídas, quando se estendeu a fama de Orígenes por todas as partes, acudiam também a ele para experimentar a perícia deste homem nas doutrinas sagradas. E milhares de hereges e não poucos filósofos dos mais ilustres aderiam a ele com afã, e ele os instruía não somente nas coisas divinas, mas inclusive na filosofia de fora.
3.             De fato, àqueles que via naturalmente bem dotados iniciava nos conheci­mentos filosóficos, dando-lhes geometria, aritmética e as outras disciplinas preliminares, guiando-os pelas seitas existentes entre os filósofos, explicando minuciosamente as obras destes e comentando e examinando cada um; de modo que, inclusive entre os gregos proclamavam-no como grande filósofo.
4.      E a muitos, inclusive entre os menos preparados, iniciava nas disciplinas cíclicas, declarando que através delas teriam não pequena capacitação para o exame e preparação das divinas Escrituras; daí que considerasse neces­sário, sobretudo para si mesmo, o exercício nas disciplinas mundanas e nas filosóficas.

XIX - Quantas coisas se mencionam sobre Orígenes
1.            Outras testemunhas de seu êxito nestes estudos são, dentre os próprios gregos, aqueles filósofos que floresceram em seu tempo e em cujas obras encontramos mencionado este homem muitas vezes, umas porque lhe dedicaram suas próprias obras, e outras porque submetem-lhe o fruto de seus próprios trabalhos, como a um mestre, para que os julgasse.
2.     Mas, que necessidade há de dizer isto quando o próprio Porfírio, nosso contemporâneo, estabelecido na Sicília, compôs umas obras contra nós[7], tentando com elas caluniar as Sagradas Escrituras e menciona os que as interpretaram? Não podendo de forma alguma levantar a menor acusação por conta de nossas doutrinas e à falta de razões, volta-se contra os próprios intérpretes para injuriá-los e caluniá-los, e mais especialmente a Orígenes.
3.            Sobre este diz que o conheceu na primeira juventude e trata de caluniá-lo. No entanto, o que realmente faz é recomendá-lo sem saber, seja dizendo a verdade ali onde não lhe era possível dizer outra coisa, seja mentindo no que pensava que passaria despercebido, e então, algumas vezes o acusa de cristão, e outras descreve sua entrega às ciências filosóficas.
4.     Ouve pois o que diz textualmente:
"Alguns, em seu afã de encontrar, não o abandono, mas uma explicação da perversidade das Escrituras judaicas, entregaram-se a umas interpretações que são incompatíveis e estão em desacordo com o escrito, pelo que ofere­cem, mais do que uma apologia em favor do estranho, a aceitação e louvor do mesmo. Efetivamente, as coisas que em Moisés estão ditas com claridade, eles alardeiam que são enigmas e lhes dão um ar divino, como de oráculos cheios de ocultos mistérios, e depois de enfeitiçar com o fumo de seu orgulho a faculdade crítica da alma, levam a cabo suas interpretações."
5.   Depois de mais algumas coisas, diz:
"Mas este gênero de absurdo eles receberam daquele varão com quem eu também tratei sendo ainda muito jovem, que teve enorme reputação e que ainda a tem pelos escritos que deixou, de Orígenes, digo, cuja glória se espalhou amplamente entre os mestres daquelas doutrinas.
6.      Efetivamente, tendo sido ouvinte de Ammonio, que em nosso tempo foi o que mais progrediu em filosofia, chegou a adquirir de seu mestre um grande aproveitamento para o domínio das ciências, mas no que tange à reta orienta­ção da vida empreendeu um caminho contrário ao de Ammonio.
7.             De fato, Ammonio era cristão e seus pais o educaram nas doutrinas cristãs, mas quando entrou em contato com o pensar e a filosofia, imediatamente converteu-se a um gênero de vida conforme as leis. Orígenes, por outro lado, grego e educado nas doutrinas gregas, veio a dar na temeridade própria dos bárbaros. Entregando-se a ela corrompeu-se e corrompeu seu domínio das ciências. Quanto a sua vida, vivia como cristão e contra as leis. Quanto a suas opiniões sobre as coisas e sobre a divindade, pensava como grego e introduzia o grego nas fábulas estrangeiras.
8.             Porque ele vivia em trato contínuo com Platão e freqüentava as obras de Numenio, de Cronio, de Apolofanes, de Longino, de Moderato, de Nicomaco e dos outros autores mais conspícuos dos pitagóricos. Também usava os livros do estóico Queremon e de Comuto. Por eles conheceu a interpreta­ção alegórica dos mistérios dos gregos e a acomodou às Escrituras judias."
9.             Isto diz Porfírio no livro terceiro dos que escreveu Contra os cristãos. Diz a verdade no que tange à educação e à múltipla sabedoria de Orígenes, mas mente claramente (por que não haveria de fazê-lo o adversário dos cristãos?) ao afirmar que este se converteu das doutrinas gregas, enquanto que Ammonio caiu num gênero de vida gentio a partir de uma vida conforme a religião.
10.         Efetivamente, Orígenes conservou vivos os ensinamentos cristãos que vinham de seus pais, como é demonstrado pelas passagens precedentes desta história, e Ammonio manteve com firmeza puros e inatacáveis, inclusive até o fim de sua vida, os princípios da filosofia inspirada, como é atestado de certa forma até hoje pelos trabalhos deste homem, famoso entre a maioria pelos escritos que deixou, como por exemplo o intitulado Da harmonia entre Moisés e Jesus, e todos os outros que se encontram em poder dos amantes do saber.
11.         O que vimos dizendo fica pois como prova da calúnia deste mentiroso, e ao mesmo tempo do múltiplo saber de Orígenes nas ciências dos gregos, sabe­mos do que ele mesmo escreve numa carta defendendo-se contra alguns que o acusavam de seu zelo por aquelas ciências:
12.   "Mas como eu me entregasse à doutrina, e a fama de nossa capacidade ia-se espalhando, e se aproximavam de mim ora hereges, ora os que provinham das ciências gregas, sobretudo os filósofos, determinei-me a examinar as opiniões dos hereges e o que proclamam os filósofos acerca da verdade.
13.     Isto fizemos imitando Panteno, aquele varão que antes de nós ajudou a tantos e que possuía não pequena preparação naquelas ciências, e também a Heraclas, que agora ocupa um posto no presbitério de Alexandria e a quem encontrei junto ao mestre das disciplinas filosóficas, com o qual ele já tinha permanecido cinco anos, antes que eu começasse a ouvir suas lições.
14. Por causa do mestre despojou-se da roupa corrente que antes usava e adotou o uniforme dos filósofos[8], que ainda conserva até hoje, e não cessa de estudar nos livros dos gregos tudo o que pode."
Isto é o que diz Orígenes em defesa de seu exercício na literatura grega.
15. Neste tempo, vivendo ele em Alexandria, apresentou-se-lhe um soldado que entregou umas cartas a Demétrio, o bispo da comunidade, e ao gover­nador do Egito de então, de parte do governador da Arábia, com o fim de que a toda pressa enviassem Orígenes para que se entrevistasse com ele. E Orígenes chegou à Arábia. Mas não muito depois, cumprido o objetivo de sua ida, regressou outra vez a Alexandria.
16. Entretanto deu-se novamente na cidade uma não pequena guerra[9], e Orígenes, saindo ocultamente de Alexandria, foi à Palestina e residiu em Cesaréia. Aqui os bispos lhe pediram que desse conferências e interpretasse as divinas Escrituras publicamente na igreja, apesar de que ainda não havia recebido a ordenação de presbítero.
17.     Que isto foi assim declaram as palavras de Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de Cesaréia, os quais, escrevendo sobre Demétrio, defendem-se como segue:
"Acrescenta em sua carta que isto jamais se ouviu, nem agora se faz, que preguem leigos estando presentes os bispos. Eu não sei como diz o que evidentemente não é verdade,
18.     porque onde quer que se encontrem homens com capacidade para trazer proveito aos irmãos, os santos bispos os convidam a pregar ao povo. Como convidaram nossos bem-aventurados irmãos: Néon e Evelpis em Laranda, Celso e Paulino em Iconio e Ático e Teodoro em Sinade. E provável que também em outros lugares ocorra o mesmo, sem que nós o saibamos." Assim é que o mencionado varão, ainda que jovem, era honrado não somente pelos compatriotas, mas também pelos bispos do estrangeiro.
19.     Pois bem, quando Demétrio o chamou novamente por carta e exigiu por meio de diáconos de sua igreja que regressasse a Alexandria, depois de chegar, continuou cumprindo as tarefas costumeiras.
               
1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?



[1] Isto é, Mt e Lc anteriores a Mc.
[2] Mais do que amizade pessoal, trata-se de ter os mesmos mestres (os "pais"), e manter o mesmo ensinamento.
[3] Para Eusébio Adamancio era um segundo nome de Orígenes, para outros autores seria um apelido.
[4] Segundo Jerônimo, Heraclas já era presbítero. Orígenes deixa-o encarregado da es­cola catequética para dedicar-se a um ensino superior, dando origem à verdadeira Escola de Alexandria.
[5] Isto é, que se seguiam umas às outras, talvez Eusébio queira dizer que são versões parciais e que somente utilizando as três seria possível ter todo o AT em grego.
[6] Há evidências de que Irineu, já antes de Orígenes, tenha utilizado as Hexaplas.
[7] A obra de Porfírio em 15 livros Contra os cristãos foi perdida, assim como as res­postas que suscitou.
[8] Heraclas, presbítero, conserva o manto de filósofo.
[9] Possivelmente o levante de Alexandria e a sangrenta repressão de Caracalla, em 215.