sexta-feira, 3 de junho de 2016

39 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro VI – Capítulos 20-31

39
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VI – Capítulos 20-31


XX - Quantas obras subsistem dos homens de então
XXI - Quantos bispos eram célebres naqueles tempos
XXII - Quantas obras de Hipólito chegaram a nós
XXIII - Do zelo de Orígenes e como foi julgado digno do presbiteriado eclesiástico
XXIV - Que comentários Orígenes escreveu em Alexandria
XXV - Como Orígenes mencionou as escrituras canônicas
XXVI - De como Heraclas recebeu em sucessão o episcopado de Alexandria
XXVII - Como era considerado pelos bispos
XXVIII - Da perseguição de Maximino
XXIX - De como Fabiano foi milagrosamente assinalado por Deus como bispo de Roma
XXX - Quantos discípulos teve Orígenes
XXXI - De Africanus


  Texto Bíblico: I Pedro 5.13

XX - Quantas obras subsistem dos homens de então
1.            Floresciam nesta época muitos varões eloqüentes e eclesiásticos, cujas cartas, que mutuamente se escreviam, ainda hoje se conservam e são fáceis de encontrar. Também foram preservadas até nossos dias na biblioteca de Elia, formada por Alexandre, que então regia a igreja dali, e na qual nós também pudemos reunir pessoalmente o material para a presente obra.
2.            Entre eles, Berilo deixou também, junto com as cartas, diversos e belos escritos; era bispo dos árabes em Bostra. E o mesmo de Hipólito, que provavel­mente presidia também outra igreja.
3.            Também chegou até nós de Caio, varão sapientíssimo, um Diálogo composto em Roma, em tempos de Zeferino, contra Proclo, defensor da heresia catafriga. Neste Diálogo, ao pôr freio aos contrários em sua propensão e atrevimento a compor novas escrituras, somente faz menção às treze Cartas do santo Apóstolo e não enumera com as demais a Carta aos Hebreus, pois até hoje alguns romanos pensam que não é do Apóstolo.

XXI - Quantos bispos eram célebres naqueles tempos
1.            Mas tendo Antonino reinado sete anos e seis meses, sucedeu-o Macrino, este manteve-se por um ano, e novamente recebeu o principado dos romanos outro Antonino. Em seu primeiro ano morreu Zeferino, bispo dos romanos, depois de ter exercido o ministério pelo espaço de dezoito anos completos. Depois dele se confiou o episcopado a Calixto, que viveu ainda cinco anos e deixou o ministério a Urbano.
2.            Depois disto, não tendo Antonino se mantido mais do que quatro anos, sucedeu-o como imperador Alexandre no principado dos romanos. Também neste tempo Fileto sucede a Asclepíades na igreja de Antioquia.
3.            Pois bem, a mãe do imperador, chamada Mamea, mulher piedosa como nenhuma outra, ao ressoar por todas as partes a fama de Orígenes ao ponto de chegar a seus ouvidos, pôs todo seu empenho em ser considerada digna de contemplar este homem e experimentar sua inteligência nas coisas de Deus, por todos admirada.
4.            Assim pois, estando ela em Antioquia, mandou-o comparecer escoltado por soldados. Passou junto a ela algum tempo e, depois de expor o maior número de coisas possível, para glória do Senhor e da virtude do ensinamento divino, apressou-se a retomar suas tarefas habituais.

XXII - Quantas obras de Hipólito chegaram a nós
1. Foi precisamente então que Hipólito compôs também, junto com muitos outros comentários, a obra Sobre a Páscoa, na qual expõe uma relação dos tempos, propõe certa regra de um ciclo de dezesseis anos para a Páscoa e fixa como limite dos tempos o primeiro ano do imperador Alexandre. Das suas outras obras, as que chegaram até nós são as seguintes: Sobre o Hexameron, Sobre o que segue ao Hexameron, Contra Márcion, Sobre o Cantar, Sobre partes de Ezequiel, Sobre a Páscoa, Contra todas as heresias e muitíssimas outras que poderias encontrar conservadas em muitos lugares.

XXIII - Do zelo de Orígenes ( 254 dC) e como foi julgado digno do presbiteriado eclesiástico
1.            A partir de então Orígenes começou também seus Comentários às divinas Escrituras. Foi Ambrósio quem o instigou, e não somente com quanto ânimo e exortações podia pela palavra, mas também com abundantes subvenções para todo o necessário.
2.            Efetivamente, quando ditava tinha à mão mais de sete taquígrafos, que se revezavam a certos tempos fixos, um número não menor de copistas e tam­bém algumas jovens treinadas na caligrafia[1]. O necessário para todos eles era proporcionado por Ambrósio em grande abundância. Mais ainda, contribuiu com indizível zelo no estudo detalhado dos divinos oráculos e com isto impulsionava Orígenes a compor os Comentários.
3.            Enquanto isto ocorria assim, Ponciano sucedia a Urbano, que havia sido bis­po da igreja de Roma durante oito anos, e Zebeno a Fileto, na de Antioquia.
4.     Por este tempo, Orígenes, indo para a Grécia pela Palestina, devido a alguns assuntos eclesiásticos de urgente necessidade, recebe em Cesaréia dos bispos da região a ordenação do presbiterato. A agitação que sobre ele se levantou por este motivo e as decisões tomadas pelos prelados das igrejas sobre estas agitações, assim como também tudo o mais com que Orígenes em sua plena maturidade contribuiu no que toca à doutrina divina, como necessita de uma obra especial, nós o descrevemos em sua justa medida no livro segundo da Apologia que compusemos em sua defesa.

XXIV - Que comentários Orígenes escreveu em Alexandria
1.            A isto deveríamos acrescentar que no livro sexto de seus Comentários ao (Evangelho) de João, ele indica que compôs os cinco primeiros estando ainda em Alexandria. Mas do trabalho sobre este mesmo Evangelho inteiro somente nos chegaram vinte e dois tomos.
2.     No nono livro dos Comentários ao Gênesis (são doze no total) mostra que não somente redigiu em Alexandria os que precedem ao nono, mas também os Comentários aos primeiros vinte e cinco salmos e os Comentários às Lamentações, dos quais chegaram a nós cinco tomos, nos quais faz-se menção inclusive aos livros Sobre a ressurreição, que são dois.
3. E não somente estes, mas que também os livros Sobre os Princípios ele escreveu antes de sua emigração de Alexandria; e na mesma cidade, sob o reinado de Alexandre, compôs os livros intitulados Stromateis, em núme­ro de dez; assim o demonstram suas anotações autografas que encabeçam os tomos.

XXV - Como Orígenes mencionou as escrituras canônicas
1.     Ao explicar o salmo primeiro, faz uma exposição do catálogo das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, escrevendo textualmente como segue: "Não se pode ignorar que os livros testamentários, tal como os transmi­tiram os hebreus, são vinte e dois, tantos como o número de letras que há entre eles."
2.     Logo, depois de algumas frases, continua dizendo:
"Os vinte e dois livros, segundo os hebreus, são estes: o que entre nós se intitula Gênesis, e entre os hebreus Bresith, pelo começo do livro, que é: No princípio; Êxodo, Ouellesmoth, que significa: Estes são os nomes; Levítico, Ouikra: E chamou; Números, Ammesphekodeim; Deuteronômio, Elleaddebareim: Estas são as palavras; Jesus, filho de Navé, Josuebennoun; Juízes e Rute, para eles um só livro: Sophtein; I e II dos Reis, um só para eles: Samuel, O eleito de Deus; III e IV dos Reis, em um: Ouammelchdavid, que significa Reino de Davi; I e II dos Paralipômenos, em um: Dabreiamein, isto é: Palavras dos dias; 1 e II de Esdras em um: Ezra, ou seja, Ajudante; Livro dos Salmos, Spharthelleim; Provérbios de Salomão, Meloth; Eclesiastes, Koelth; Cantar dos Cantares (e não, como pensam alguns, Cantares dos cantares), Sirassireim; Isaías, Iessia; Jeremias, junto com as Lamentações e a Carta, em um: Ieremia; Daniel, Daniel; Ezequiel, Iezekiel; Jó, Iob; Ester, Esther. E além destes estão os dos Macabeus, que são intitulados Sarbethsabanaiel".
3.   Isto é, pois, o que expõe no tratado acima citado. E no livro primeiro dos Comentários ao Evangelho de Mateus, guardando o cânon eclesiás­tico, atesta que ele conhece somente quatro Evangelhos; escreve como segue:
4.   "Acerca dos quatro Evangelhos, que também são os únicos que não foram discutidos na Igreja de Deus que está sob o céu, por tradição aprendi que o primeiro a ser escrito foi o Evangelho de Mateus, que foi por algum tempo arrecadador e depois apóstolo de Jesus Cristo, que o compôs em língua hebraica e o publicou para os fiéis procedentes do judaísmo.
5.             O segundo foi o Evangelho de Marcos, que o fez como Pedro lhe indicou, o qual, em sua Carta católica, proclama-o até filho seu, com as seguintes palavras: Saúda-vos a igreja de Babilônia, co-eleita, e Marcos, meu filho[2].
6.             O terceiro é o Evangelho de Lucas, o que Paulo elogiou e que ele fez para os que vinham dos gentios. Além de todos estes há o Evangelho de João".
7.             E no quinto livro dos Comentários ao Evangelho de João, o mesmo autor diz acerca das Cartas dos apóstolos o seguinte:
"Mas aquele que tinha sido capacitado para converter-se em ministro do Novo Testamento, não da letra, mas do espírito[3], Paulo, que havia cumprido o Evangelho desde Jerusalém, dando a volta, até o Ilírico[4], não escreveu a todas as igrejas às quais tinha ensinado; e mais, mesmo às que escreveu mandou cartas de umas poucas linhas.
8.             E Pedro, sobre quem se edifica a Igreja de Cristo, contra a qual não preva­lecerão as portas do Hades[5], deixou só uma carta por todos reconhecida. Talvez também uma segunda, pois é posta em dúvida[6].
9.             Que haverá para dizer sobre João, o que se recostou sobre o peito de Jesus? Deixou um só Evangelho, ainda que confesse que poderia escrever tantos que nem o mundo poderia contê-los[7], e escreveu também o Apocalipse, depois de receber a ordem de calar e não escrever as vozes dos sete tronos[8].
10.      Deixou também uma Carta de muito poucas linhas, e talvez também uma segunda e uma terceira, pois nem todos dizem que estas são genuínas. Só que as duas não chegam a uma centena de linhas."
11.  Além disto, Orígenes explica acerca da Carta aos Hebreus, em suas Homílias sobre a mesma, o seguinte:
"Que o caráter da dicção da carta intitulada Aos Hebreus não tem aquela rudeza de linguagem do Apóstolo, que confessa ser rude na palavra[9], isto é, no estilo, mas que a carta é bem mais grega pela composição de sua dicção; todo aquele que souber discernir as diferenças de estilo poderá reconhecê-lo.
12. E ainda mais, que os pensamentos da carta são admiráveis e não inferiores aos das cartas que se admitem ser do Apóstolo, qualquer um que se aplique à leitura do Apóstolo dirá conosco que também isto é verdade."
13. Depois de outras coisas, acrescenta:
"De minha parte, se hei de dar minha opinião, eu diria que os pensamentos sim são do Apóstolo, mas o estilo e a composição são de alguém que evocava a memória dos ensinamentos do Apóstolo, como um aluno que anota por escrito as coisas que seu mestre disse. Por conseguinte, se alguma igreja tiver esta carta como sendo de Paulo, que também por isto seja estimada, pois não sem motivo os antigos varões a transmitiram como de Paulo.
14. Mas, quem escreveu a carta? Deus sabe a verdade; por outro lado, chegou a nós o relato de alguns que dizem que a carta foi escrita por Clemente, que foi bispo dos romanos; e o de outros, segundo os quais foi Lucas quem escreveu o Evangelho e os Atos. Mas que isto fique assim."

XXVI - De como Heraclas recebeu em sucessão o episcopado de Alexandria[10]
1. Corria o décimo ano do mencionado reinado[11] quando Orígenes emigrou de Alexandria a Cesaréia, deixando a Heraclas a escola catequética dali. Mas pouco tempo depois morreu também Demétrio, o bispo da igreja de Alexandria, depois de manter-se no ministério pelo espaço de quarenta e três anos completos. Sucedeu-o Heraclas.

XXVII - Como era considerado pelos bispos
1. Por este tempo destacava-se Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia. Tão grande era seu interesse por Orígenes, que uma vez o chamou a sua própria região para proveito das igrejas, e outra vez ele foi à Judéia, à casa de Orígenes, e conviveu algum tempo com ele para seu melhoramento nas coisas divinas. E não só ele, mas também Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de Cesaréia, estavam ligados a ele a todo tempo como ao único mestre e recomendaram-lhe que se ocupasse da interpretação da Sagrada Escritura e do resto do ensinamento eclesiástico.


XXVIII - Da perseguição de Maximino
1. Quando o imperador dos romanos Alexandre deu fim a seus treze anos de império, sucedeu-o Maximino César. Este, por ressentimento contra a família de Alexandre, que era composta de muitos fiéis, suscitou uma perseguição ordenando que somente fossem eliminados os chefes das igrejas, como culpados pelo ensino do Evangelho. Foi então que Orígenes compôs sua obra Sobre o martírio, que dedicou a Ambrósio e a Protocteto, presbítero este da comunidade de Cesaréia, porque na perseguição ambos tinham sido presas de dificuldades nada comuns. Nelas estes dois varões distinguiram-se por sua confissão, segundo é tradição, e Maximino não durou mais do que três anos. Orígenes explicou este tempo da perseguição no livro XXII de seus Comentários ao Evangelho de João e em diversas cartas.


XXIX - De como Fabiano foi milagrosamente assinalado por Deus como bispo de Roma
1.            Depois de Maximino, Gordiano recebeu em sucessão o principado dos romanos, e a Ponciano, que havia exercido o episcopado da igreja de Roma por seis anos, sucedeu Antero, que depois de servir no cargo durante um mês, teve como sucessor Fabiano.
2.            Conta-se que Fabiano, junto com outros, depois da morte de Antero, veio do campo e se estabeleceu em Roma, e que ali, por graça divina e celestial chegou ao cargo episcopal da maneira mais extraordinária.
3.     Efetivamente, estando todos os irmãos reunidos para eleger o que haveria de receber em sucessão o episcopado e sendo numerosíssimos os varões ilustres e célebres que estavam na mente de muitos, a ninguém ocorreu pensar em Fabiano, ali presente; ainda assim, prontamente, segundo contam, uma pomba vinda do alto pousou sobre sua cabeça, imitando manifestamente a descida do Espírito Santo em forma de pomba sobre o Salvador[12].
4.     Ante este fato, todo o povo, como que movido por um único espírito divino, pôs-se a gritar com todo entusiasmo e unanimemente que este era digno, e sem mais tardar tomaram-no e o colocaram sobre o trono do episcopado. Por este tempo também, morto Zebeno, bispo de Antioquia, sucedeu-o no cargo Babilas. E em Alexandria, assim como depois de Demétrio Heraclas havia recebido o ministério episcopal, a este sucedeu na escola de catequese Dionísio, outro discípulo de Orígenes.


XXX - Quantos discípulos teve Orígenes
1. Muitos eram os que acudiam a Orígenes, enquanto este se entregava em Cesaréia[13] a suas tarefas habituais, e não somente nativos, mas também inúmeros discípulos do estrangeiro que haviam deixado sua pátria. Destes os mais ilustres de que sabemos foram Teodoro - que é a mesma pessoa que o famoso bispo contemporâneo nosso Gregório - e seu irmão Atenodoro. Ainda que os dois estivessem como embebidos pelos estudos gregos e romanos[14], Orígenes foi-lhes inoculando o amor da filosofia e os impeliu a trocar pela ascese divina aquele seu primeiro ardor. Cinco anos inteiros conviveram com ele e tão grande foi seu melhoramento nas coisas divinas que, sendo ambos ainda jovens, foram considerados dignos do episcopado das igrejas do ponto.
                       
XXXI - De Africanus
1.     Também neste tempo era conhecido Africanus, o autor dos escritos intitulados Kestoi. Dele conserva-se uma Carta escrita a Orígenes, na qual se mostra em dúvida sobre se a história de Susana no livro de Daniel é espúria e inventada. Orígenes deu-lhe uma resposta completíssima.
2.     Do mesmo Africanus chegaram a nós outros trabalhos, cinco livros de Cronografias executados com exatidão. Neles diz que pôs-se a caminho de Alexandria devido à grande fama de Heraclas, a quem, como já indicamos, depois de ter-se distinguido muitíssimo em filosofia e outras ciências dos gregos, havia sido confiado o episcopado daquela igreja.
3.     Conserva-se também uma segunda Carta do mesmo Africanus dirigida a Aristides, acerca da grande discordância das genealogias de Cristo em Mateus e Lucas. Nela estabelece clarissimamente a concordância de ambos evangelistas, partindo do relato que a ele chegou e que nós recolhemos e expusemos no livro primeiro da presente obra[15].

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?




[1] Os copistas passavam para linguagem corrente as notas dos taquígrafos, as calígrafas as passavam a limpo e multiplicavam os exemplares.
[2] 1 Pe 5:13.
[3] 2 Co 3:6.
[4] Rm 15:19.
[5] Mt 16:18.
[6] Orígenes é o primeiro a informar sobre a dúvida existente sobre a autenticidade de 2 Pe.
[7] Jo 21:25.
[8] Ap 10:4.
[9] 2 Co 11:6.
[10] Os capítulos 26 e 27 estão em ordem inversa à do índice, conforme o original.
[11] De Alexandre Severo.
[12] Mt 3:16; Mc 1:10; Lc 3:22; Jo 1:32.
[13] Cesaréia da Palestina.
[14] Chegaram a Cesaréia a caminho de Beirute para estudar leis, seu encontro com Orígenes mudou o rumo de suas vidas.
[15] Vide l:VII:22ss.