sexta-feira, 15 de julho de 2016

Lição 43 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro VII – Capítulos 11-15

43
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VII – Capítulos 11-15


XI - Do que ocorreu a Dionísio e aos do Egito na perseguição
XII - Dos que morreram mártires em Cesaréia da Palestina
XIII - Da paz em tempos de Galieno
XIV - Os bispos que floresceram naquele tempo
XV - De como em Cesaréia morreu mártir Marino

Texto: II Co 4.8,9


XI - Do que ocorreu a Dionísio e aos do Egito na perseguição
1.            Por outro lado, quanto à perseguição de seu tempo, que crescia terrivelmente, suas próprias palavras, dirigidas contra Germano, um bispo de seu tempo que tentava difamá-lo, declaram quanto ele e outros tiveram que suportar por causa de sua piedade para com o Deus do universo. Expõe-no da seguinte maneira:
2.            "Mesmo assim, realmente corro o perigo de cair em grande loucura e estu­pidez se me vejo obrigado a expor a admirável dispensação de Deus para conosco. Mas como é bom - diz - ocultar o segredo do rei, mas glorioso revelar as obras de Deus[1], revelarei a violência de Germano.
3.            Eu não vim só ante Emiliano[2], mas acompanhavam-me meu co-presbítero Máximo e os diáconos Fausto, Eusébio e Queremon; e conosco entrou um dos irmãos de Roma ali presentes.
4.      E Emiliano não me disse primeiro em bom tom: 'Não tenham reuniões', por­que isto seria supérfluo e sem importância para ele, que ia direto ao assunto. Porque para ele, a questão não era que não nos reuníssemos com outros, mas que nós mesmos não fôssemos cristãos, e por isso nos intimava a deixar de sê-lo, pensando que se eu mudasse de parecer os outros me seguiriam.
5.             Mas eu dei uma resposta que não se diferenciava muito nem se afastava do Há que se obedecer mais a Deus do que aos homens![3], e abertamente testemunhei que adoro ao Deus único e a nenhum outro, e que jamais mudaria de parecer nem deixaria de ser cristão. Então nos ordenou andar até uma aldeia próxima ao deserto, chamada Kefró[4].
6.             Mas escutai o que um e outro disseram, tal como foi registrado. 'Introduzidos Dionísio, Fausto, Máximo, Marcelo e Queremon, Emiliano, que exerce como governador, disse:'.. .e verbalmente conversei convosco sobre a humanidade que nossos senhores empregam para convosco.
7.             Efetivamente deram-vos o poder de salvar-vos, contanto que queirais voltar ao que é conforme a natureza, adorar os deuses salvadores de seu império e esquecer-vos do que vai contra a natureza. Que dizeis pois a isto? Pois eu espero que vós não sejais uns ingratos para com esta sua humanidade, posto que vos estão exortando ao melhor'.
8.             Dionísio respondeu: 'Não todos adoram a todos os deuses, mas cada um adora aos que crê que o são, e assim nós rendemos culto e adoramos ao Deus único e criador de todas as coisas, o que pôs também o império nas mãos dos augustos Valeriano e Galieno, amados de Deus, e a ele dirigimos continua­mente nossas súplicas pelo império, com o fim de que permaneça inabalável'.
9.             Emiliano, que exerce como governador, disse: 'Pois, quem vos impede de adorar também a este, se é que é Deus, com os deuses que o são por natureza? Porque vos é ordenado dar culto aos deuses, e deuses que todo o mundo conhece'. Dionísio respondeu: "Nós não adoramos a nenhum outro'.
10.  Emiliano, que exerce como governador, disse: 'Estou vendo que vós sois não somente ingratos, mas também insensíveis à mansidão de nossos augus­tos; pelo que não ireis permanecer na cidade, mas sereis deportados às regiões da Líbia, a um lugar chamado Kefró; é o local que escolhi, por man­dato de nossos augustos, e de nenhuma maneira vos será permitido, nem a vós nem a nenhum outro, fazer reuniões ou entrar nos chamados cemitérios.
11.  Agora bem, se acontecer que algum não se apresentar no lugar que lhe mandei[5] ou for encontrado em reunião com alguém, sobre si mesmo terá chamado o perigo, pois não lhe há de faltar a necessária vigilância. Retirai-vos pois para onde vos mandei'.
E, apesar de que me achava doente, obrigou-me a sair apressadamente, sem dar sequer o prazo de um dia. Que tempo tinha eu, pois, para convocar ou não convocar uma reunião?[6]"
12. Logo, depois de outras coisas, diz:
"Mas, com a ajuda de Deus, nem sequer da reunião visível nos abstivemos, mas, por uma parte punha grande empenho em reunir os da cidade como se eu estivesse com eles: Ausente com o corpo — diz — mas presente com o espírito[7]; e por outra parte, em Kefró veio a habitar conosco uma igreja numerosa, pois alguns irmãos nos seguiam da cidade e outros juntavam-se a nós desde o Egito.
13.     E ali mesmo Deus nos abriu uma porta para a palavra[8]. No início, é verdade, nos perseguiram e apedrejaram, mas logo alguns pagãos, muitos, deixaram os ídolos e se converteram a Deus. Nunca antes tinham recebido a palavra, e só então semeava-se entre eles pela primeira vez, graças a nós.
14.     É como se Deus nos tivesse conduzido até eles por esta causa, pois assim que cumprimos este ministério, novamente nos afastou.
De fato, Emiliano quis trasladar-nos a lugares aparentemente ainda mais ásperos e mais líbicos, e mandou que os de todas as partes confluíssem para Mareota, depois de designar para cada um uma aldeia da região. Mas a nós colocou mais no caminho, para prender-nos em primeiro lugar. Porque era evidente que ia dispondo e preparando de modo que, quando quisesse prender-nos todos, pudesse ter-nos bem à mão.
15. Eu, de minha parte, quando me ordenaram partir para Kefró, por mais que ignorasse em que direção se achava este lugar, pois quase não se tinha ouvido sequer o nome antes, ainda assim, parti até animado e tranqüilo. Mas quando anunciaram que deveria trasladar-me à região de Colutio, os que estavam presentes sabem como me afetou (pois aqui devo acusar-me a mim mesmo).
16.     Na mesma hora molestou-me e o tomei por grande mal, porque, ainda que esses lugares não fossem mais conhecidos ou familiares, ainda assim, afirmava-se que a região carecia de cristãos e de homens honrados, e que, em troca, achava-se exposta às moléstias dos viandantes e às incursões dos salteadores.
17. Consegui porém consolar-me ao recordarem-me os irmãos que estava mais perto da cidade e que, se em Kefró tinha numerosas relações com os irmãos vindos do Egito, ao ponto de poder ter assembléias mais amplas, ali, por outro lado, com a cidade mais perto, gozaríamos mais freqüentemente da visão dos que verdadeiramente eram muito amados e da maior intimidade e amizade, porque eles viriam e se hospedariam, e como nos bairros mais afastados, haveria reuniões parciais, e assim sucedeu."
18.     E depois de outras coisas ainda escreve o seguinte acerca do que lhe sucedeu: "Germano se gaba de muitas confissões[9]! Ao menos pode dizer que é muito o que houve contra ele, tanto quanto pode enumerar de nós: sen­tenças, confiscos, proscrições, despojo dos bens, destituição de dignidades, indiferença pela glória mundana, desprezo de elogios de governantes e senadores, inclusive dos contrários, e suportar ameaças, gritarias hostis, perigos, perseguições, vida errante, angústias e toda classe de tribulações, as mesmas que me sucederam sob Décio e Sabino e mesmo agora sob Emiliano.
19. Mas, de onde apareceu Germano? Que documento há sobre ele? Pois bem, estou cansado desta grande loucura em que vou caindo[10] por culpa de Germano; e pelo mesmo motivo desisto também de dar explicações deta­lhadas dos acontecimentos aos irmãos que já os conhecem."
20. E o mesmo Dionísio, na carta a Domécio e a Dídimo, volta a mencionar os eventos da perseguição nestes termos:
"Mas é supérfluo fazer-vos uma lista nominal dos nossos, que são muitos e não os conheceis; sabei contudo que homens e mulheres, jovens e velhos, donzelas e anciãos, soldados e civis, e todo sexo e toda idade, vencedores na luta, uns por açoites e fogo e outros pelo ferro, todos receberam suas coroas.
21. Para outros, porém, não correu ainda um tempo longo o bastante para parecer aceitável ao Senhor. Tampouco a mim até o presente, pelo que se vê, pelo que me reservou para o momento oportuno que bem conhece o mesmo que diz: Em tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te
socorri[11].
22. Como perguntais por nossa situação e quereis que vos informe de como vamos indo, seguramente já ouvistes como nos conduziam prisioneiros um Centurião e oficiais com os soldados e criados que iam com eles, a mim e a Caio, Fausto, Pedro e Paulo, e apresentando-se algumas pessoas de Mareota, nos arrebataram, apesar de nós mesmos, arrastando-nos à força ao nos
negarmos a segui-los[12].
23.  E agora eu, Caio e Pedro, os três somente, nos achamos encerrados num local deserto e árido da Líbia, órfãos dos demais irmãos, afastados três dias de caminhada de Paretonio.
24.  E pouco mais abaixo segue dizendo:
"Ainda assim, na cidade[13] acham-se escondidos e visitam em segredo os irmãos, de um lado os presbíteros Máximo, Dióscoro, Demétrio e Lúcio -já que os mais conhecidos no mundo, Faustino e Aquilas, andam errantes pelo Egito -, e de outro os diáconos que sobreviveram aos que morreram na ilha[14]: Fausto, Eusébio e Queremon. Eusébio é aquele a quem Deus forta­leceu e preparou desde o princípio para cumprir ardorosamente o serviço aos confessores encarcerados e levar a cabo, não sem perigo, o enterro dos corpos dos perfeitos e santos mártires.
25.  De fato, até o presente o governador não deixa de dar morte cruel, como disse antes, a alguns dos que são conduzidos a ele, de dilacerar outros em torturas e de consumir em cárceres e prisões o restante, ordenando que ninguém deles se aproxime, e perguntando se alguém aparece. E mesmo assim Deus não cessa de aliviar os oprimidos, graças ao ânimo e perseverança dos irmãos."
26.  Isto narra Dionísio. Mas há que se saber que Eusébio, a quem ele chamou diácono, pouco depois foi instituído bispo de Laodicéia da Síria. Quanto a Máximo, que então disse que era presbítero, sucedeu ao próprio Dionísio no ministério dos irmãos em Alexandria, enquanto que Fausto, que naque­le momento se distinguiu junto com ele por sua confissão, sobreviveu até a perseguição de nossos dias, e já muito ancião e pleno de dias, consu­mou seu martírio em nosso tempo[15], decapitado. Isto sucedeu a Dionísio naquele tempo.

XII - Dos que morreram mártires em Cesaréia da Palestina
1. Na mencionada perseguição de Valeriano, três foram os que sobressaíram em Cesaréia da Palestina por sua confissão de Cristo, e lançados como pasto às feras, adornaram-se com o divino martírio. Um deles chamava-se Prisco, o outro Malco e o terceiro Alexandre. Diz-se que estes viviam no campo e que primeiro acusaram a si mesmos de negligência e covardia por mostrarem-se indiferentes aos prêmios que a ocasião repartia aos que ardiam de celestial desejo e por não arrebatarem antecipadamente a coroa do martírio; e que depois de haverem assim deliberado, encaminharam-se a Cesaréia, apresentaram-se ao juiz e conseguiram para suas vidas o final que acabamos de dizer. Também contam que além destes, durante a mesma per­seguição e na mesma cidade, uma mulher sustentou o mesmo combate; mas uma tradição afirma que esta era da heresia de Márcion.

XIII - Da paz em tempos de Galieno
1. Mas não muito depois, enquanto Valeriano sofria sua escravidão entre os bárbaros, começou a reinar sozinho seu filho, e governou com a maior sensatez. Imediatamente pôs fim por meio de editos à perseguição contra nós, e ordenou por uma resolução[16] aos que presidiam a palavra que livre­mente exercessem suas funções costumeiras. A resolução rezava assim: "O imperador César Publio Licinio Galieno Pio Félix Augusto, a Dionísio, Pina, Demétrio e aos demais bispos: Ordenei que o benefício de meu dom se estenda por todo o mundo, com o fim de que se evacuem os lugares sagrados e por isso também possais desfrutar da regra contida em minha resolução, de maneira que ninguém possa molestar-vos. E aquilo que possais recuperar, na medida do possível, já faz tempo que o concedi. Para tanto, Aurélio Cirínio, que está à frente dos assuntos supremos, manterá cuidadosa­mente a regra dada por mim[17]."
Fique inserida aqui, para maior claridade, esta resolução, traduzida do latim. Conserva-se também, do mesmo imperador, outra disposição que dirigiu a outros bispos e na qual permite a recuperação dos lugares chamados cemitérios.

XIV - Os bispos que floresceram naquele tempo
1. Neste tempo Sixto seguia ainda regendo a igreja de Roma; Demetriano a de Antioquia, em sucessão a Fábio; e Firmiliano a de Cesaréia da Capadócia; além destes, regiam as igrejas do Ponto Gregório e seu irmão Atenodoro, discípulos de Orígenes. Quanto a Cesaréia da Palestina, tendo morrido Teoctisto, recebe o episcopado em sucessão Domno, mas tendo este sobrevivido pouco tempo, foi instituído sucessor Teotecno, nosso contempo­râneo, que também é da escola de Orígenes. Mas também em Jerusalém, morto Mazabanes, recebe em sucessão o trono Himeneo, o mesmo que brilhou muitos anos em nossa época.

XV - De como em Cesaréia morreu mártir Marino
1.            Por estes anos, apesar de que em todas as partes as igrejas tinham paz, em Cesaréia da Palestina foi decapitado por ter dado testemunho de Cristo um tal Marino, que pertencia aos altos cargos do exército e se distinguia por sua linhagem e suas riquezas. A causa foi a seguinte:
2.            Entre os romanos há uma insígnia de honra: a vide[18], e dizem que aqueles que a alcançam convertem-se em centuriões. Havendo uma vaga liberada, o escalão designava Marino para esta promoção. Já estava a ponto de receber a honra quando se apresentou outro ante o tribunal afirmando que, segundo as antigas leis, Marino não podia tomar parte nas dignidades romanas, já que era cristão e não sacrificava aos imperadores[19], e que o cargo corres­pondia a ele.
3.            Ante isto, o juiz (que era Aqueo) sentiu-se turbado e começou a perguntar a Marino o que pensava, mas quando viu que este insistia em confessar que era cristão, concedeu-lhe o prazo de três horas para que refletisse.
4.     Achando-se fora do tribunal, acercou-se dele Teotecno, bispo do lugar, e afastou-o para conversar, e tomando-o pela mão conduziu-o à igreja; uma vez dentro, colocou-o ante o próprio santuário e, levantando-lhe um pouco o manto, mostrou sua espada, que pendia, ao mesmo tempo que apresentava e contrapunha a Escritura dos divinos Evangelhos, mandando que entre as duas coisas escolhesse a que preferia. Mas ele, sem vacilar, estendeu a direita e tomou a divina Escritura. "Mantém-te pois - disse-lhe Teotecno -, mantém-te aferrado a Deus e oxalá alcances, fortalecido por Ele, o que escolheste. Vai em paz."
5.    Saiu imediatamente dali. Um pregoeiro lançava já seu grito chamando-o de novo ante o tribunal. De fato havia-se cumprido o prazo previamente fixado. Apresentou-se então ante o juiz, e mostrando um entusiasmo ainda maior por sua fé, em seguida, tal como estava, foi conduzido ao suplício e foi executado.

O que te chamou mais atenção no texto lido?
Que parte do texto serviu para sua espiritualidade?

Ícone da Capa: Catarina de Alexandria (287-305), também conhecido como A Grande Mártir Santa Catarina é uma santa e mártir cristã que se alega ter sido uma notável intelectual no início do século IV.



[1] Tob 12:7 (livro deuterocanônico).
[2] Pro-prefeito e depois prefeito do Egito.
[3] At 5:29.
[4] Pequeno lugar não localizado, mas muito distante de Alexandria.
[5] O deportado tinha que mudar-se por seus próprios meios ao lugar da condenação; a desobediência era castigada com a morte.
[6] Esta pergunta responde à acusação de Germano.
[7] 1 Co 5:3.
[8] Cl 4:3.
[9] Quer dizer, confissões de fé ante as autoridades.
[10] 2 Co 11:17.
[11] Is 49:8; 2 Co 6:2.
[12] Vide VI:XL:5-9.
[13] Alexandria.
[14] Não é possível saber de que ilha pode ser esta. É possível que em vez de nésos (ilha) Eusébio tenha escrito nósos (doença), neste caso poderia tratar-se da grande peste de 252.
[15] Na perseguição de Diocleciano.
[16] Galieno havia promulgado um edito geral, a resolução guardada por Eusébio apenas aplica ao Egito as disposições daquele.
[17] Não é o reconhecimento do cristianismo como "religio licita", mas reconhece o direito das igrejas locais de possuírem bens próprios.
[18] Era o bastão de mando do Centurião, chamado vitis; por metonímia o próprio grau de centurião recebeu este nome.
[19] O edito de Galieno não reconhecia o cristianismo como "religio licita", podendo portanto ocorrer casos como o de Marino.