terça-feira, 4 de outubro de 2016

49 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro VIII – Capítulos 10 a 16

Livro VIII
49
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VIII – Capítulos 10 a 16
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X - Informes escritos do mártir Fileas acerca do ocorrido em Alexandria
1.   Posto que já dissemos que Fileas foi digno de grande consideração por seus muitos conhecimentos profanos, venha ele mesmo ser testemunha de si mesmo e ao mesmo tempo nos declare quem era e nos conte com maior exatidão do que nós faríamos os martírios ocorridos em seu tempo em Alexandria. Estas são suas palavras:

Da carta de Fileas aos Tmuitas
2.   "Como nas divinas e sagradas Escrituras encontramos todos estes exemplos, modelos e bons indicadores, os bem-aventurados mártires que estavam conosco, sem vacilar o mínimo, fixando limpidamente os olhos de suas almas no Deus do universo e abraçando em suas mentes a morte pela religião, aferravam-se tenazmente a sua vocação por terem encontrado que nosso
Senhor Jesus Cristo se fez homem por nossa causa, para destruir pela raiz todo pecado e prover-nos de viático de entrada na vida eterna, pois não teve como usurpação o ser igual a Deus, mas que esvaziou-se a si mesmo tomando forma de servo, e reconhecido em sua figura como homem, humilhou-se a si mesmo até a morte, e morte de cruz[1].
3.             Pelo que, os mártires portadores de Cristo, procurando os dons maiores[2], suportaram todo trabalho e toda classe de invenções de tormentos, não uma só vez, mas alguns até duas vezes, e ainda que os guardas rivalizassem em ameaças contra eles, não só por palavra, mas também por obra, não abandonaram sua resolução, por aquele cujo amor perfeito lança fora todo o temor[3].
4.      E que discurso bastaria para enumerar sua força e seu valor em cada tormento? Porque, como todo aquele que o quisesse tinha permissão para ultrajá-los, uns os golpeavam com paus, outros com varas, outros com açoites, outros com correias e outros com cordas.
5.             O espetáculo das torturas variava e continha em si muita maldade, porque alguns eram pendurados do potro, com as duas mãos amarradas às costas, e por meio de certas máquinas distendiam-lhes todos os membros, e estando assim, os verdugos, a uma ordem, se enfureciam com seus corpos em sua totalidade, não somente nas costas, como se costumava com os assassinos, mas castigavam-nos com suas armas defensivas[4] inclusive no ventre, nas pernas e nas faces. Outros eram pendurados do pórtico atados por uma só mão; a tensão das articulações e dos membros era mais terrível que qualquer dor. Outros, por fim, eram atados às colunas cara a cara e sem pousar os pés no chão: com o peso do corpo, as ataduras se tensionavam e apertavam fortemente.
6.             E isto suportavam não somente enquanto o governador conversava com eles e deles se ocupava, mas quase durante o dia inteiro, pois enquanto passava aos outros, deixava que seus ministros vigiassem os primeiros para o caso de algum, vencido pelas torturas, parecer ceder, mas ordenando impiedosamente que apertassem ainda mais as ataduras[5] e que, descendo os que ao fim expirassem, os arrastassem pela terra.
7.            E não tinham por nós a mínima consideração, mas agiam como se não existíssemos, um segundo tormento que, além dos golpes, inventaram nossos adversários.
8.     Havia os que inclusive depois dos tormentos jaziam sobre o cepo com os pés distendidos até o quarto furo, de forma que até por força tinham que ficar de boca para cima sobre o cepo, impotentes, por terem recentes as feridas dos golpes por todo o corpo. Outros jaziam estirados no solo por efeito dos tormentos aplicados de uma vez, e ofereciam aos curiosos um espetáculo mais cruel do que ao serem atormentados, pois levavam em seus corpos as marcas das múltiplas e diversas torturas inventadas.
9.             Assim as coisas, uns morriam em meio aos tormentos, envergonhando com sua constância o adversário; outros, encerrados meio mortos no cárcere, faleciam ao cabo de poucos dias oprimidos pelas dores; e os demais, con­seguida a recuperação de suas forças a base de cuidados[6], com o tempo e a estadia no cárcere fizeram-se ainda mais animosos.
10.      Assim pois, quando lhes foi exigido escolher[7]: ou tocar o sacrifício abominável e não ser molestado, conseguindo deles a liberdade maldita, ou não sacrificar e receber condenação à morte, eles, sem vacilar o mínimo, marcharam alegremente para a morte, pois sabiam que as Sagradas Escrituras nos prescrevem: Quem oferecer, diz, sacrifícios a outros deuses será exterminado[8]; e não terás outros deuses além de mim[9]."
11.      Tais são as palavras que o mártir, como verdadeiro filósofo e amigo de Deus, estando ainda no cárcere antes de sua última sentença, escreveu aos irmãos de sua igreja, confiando-lhes a situação em que se encontrava e, ao mesmo tempo, exortando-os a manterem-se firmemente fiéis à religião de Cristo mesmo depois de sua iminente consumação.
12.      Mas que necessidade há de estender-se prolixamente e de juntar a combates recentes outros combates ainda mais recentes, sustentados pelos santos mártires em toda a terra, sobretudo aqueles que já não eram atacados em conformidade com uma lei comum, mas com todo o aparato de uma guerra?

XI - Dos mártires da Frígia
1.            Ocorreu pois, que já então, na Frígia, toda uma pequena cidade de cristãos foi cercada com todos seus homens por soldados que lhe atearam fogo e queimaram a todos, inclusive crianças e mulheres, que invocavam a gritos o Deus do universo. A razão foi que todos os habitantes da cidade em massa, inclusive o próprio inspetor imperial de contas, os duunviros e todos os magistrados com o povo inteiro, haviam-se confessado cristãos e não obedeciam nem o mínimo aos que lhes ordenavam adorar os ídolos.
2.     E houve outro, chamado Adaucto, possuidor de uma dignidade romana e procedente de uma linhagem ilustre da Itália, que havia avançado por todos os graus da honra ante os imperadores, ao ponto de haver passa­do irrepreensivelmente aos postos da administração geral, no que eles cha­mam de ofício de diretor superior e intendente geral. Havendo-se distinguido além de tudo isto por suas obras virtuosas na religião e por suas repetidas confissões do Cristo de Deus, suportou o combate pela religião no exercício de seu cargo de intendente geral e foi coroado com a diadema do martírio.

XII - De muitíssimos outros, homens e mulheres, que combateram de diversas maneiras
1.            Que necessidade tenho eu agora de recordar por seus nomes os demais, de contar a multidão dos homens ou de pintar os variados tormentos dos admiráveis mártires? Uns foram mortos com machados, como ocorreu aos da Arábia; a outros queimaram as pernas, como sucedeu aos da Capadócia; às vezes os penduravam do alto pelos pés, cabeça para baixo, e acendiam debaixo um fogo lento, cuja fumaça os asfixiava ao arder a lenha, como no caso dos da Mesopotâmia; e às vezes cortavam-lhes o nariz, as orelhas e as mãos e partiam em pedaços os restantes membros e partes de seus corpos, como aconteceu em Alexandria.
2.     Para que reavivar a recordação dos de Antioquia, dos que eram assados em braseiros, não para fazê-los morrer, mas para alongar seu tormento; e dos que preferiam meter sua mão direita no fogo a tocar o sacrifício maldito? Alguns deles, para fugir da prova, antes de serem presos e de cair nas mãos dos conspiradores, eles mesmos se lançavam do alto de suas casas, considerando o morrer como um subtrair-se à maldade dos ímpios.
3.            E certa pessoa, santa e admirável pela virtude de sua alma, ainda que mulher por seu corpo, e famosa ainda entre todas as de Antioquia, por sua riqueza, sua linhagem e seu bom nome, havia criado suas filhas nas leis da religião, um par de virgens notáveis pela beleza de seu corpo e em plena juventude. Moveu-se contra elas muita inveja que por todos os meios se esforçava em descobrir seu esconderijo. Ao inteirar-se de que se achavam em terra estrangeira, arranjou-se astutamente para chamá-las a Antioquia, e assim caíram nas redes dos soldados. Vendo-se a si mesma e as suas filhas em tal apuro, a mãe falou-lhes e lhes expôs os horrores que lhes viriam dos homens, inclusive o mais terrível e insuportável de todos, a ameaça de violação, exortando-se a si mesma e exortando as filhas a não tolerar nem sequer que chegassem a roçar-lhes os ouvidos. Dizia-lhes também que entregar suas almas à escravidão dos demônios era pior do que todas as mortes e que toda ruína, e lhes sugeria que a única solução de tudo isto era a fuga para o Senhor.
4.             Então, estando de acordo as três, arranjaram decentemente seus vestidos em torno de seus corpos e, chegadas ao meio do caminho, pediram aos guardas permissão para afastarem-se um momento, e se lançaram ao rio que corria ali ao lado.
5.             Estas pois, lançaram-se elas mesmas, mas na mesma Antioquia houve outro par de virgens, em tudo dignas de Deus e verdadeiramente irmãs, ilustres por sua linhagem, brilhantes por sua posição, jovens na idade, formosas de corpo, santas de alma, piedosas de caráter e admiráveis em seu zelo, às quais, como se a terra não fosse capaz de suportar tanta grandeza, os servos dos demônios mandaram lançar ao mar. Isto é o que ocorreu a estas.
6.             Outros, de sua parte, sofreram no Ponto tormentos que, só de ouvi-los fazem estremecer. A uns trespassaram os dedos com hastes pontiagudas, cravadas pela ponta das unhas; a outros, depois de fundir chumbo no fogo, fervendo e candente como estava, vertiam-no sobre as costas e lhes queimavam as partes mais necessárias do corpo;
7.      e outros sofreram em seus membros secretos e em suas entranhas tormentos vergonhosos, implacáveis e impossíveis de expressar com palavras, tormen­tos que aqueles nobres e legítimos juízes imaginavam com o maior zelo, mostrando sua crueldade como um alarde de sabedoria e tratando com esforço de superar-se uns aos outros na invenção de suplícios, sempre mais novos, como num concurso com prêmios.
8.             Mas o fim destas calamidades chegou quando, já sucumbindo à fadiga de tal excesso de males, cansados de matar e fartos e aborrecidos de tanto derramamento de sangue, voltaram-se ao que tinham por bom e humano, de modo que já parecia que nada terrível se empreenderia contra nós.
9.             Porque não convinha, diziam, manchar as cidades com sangue de sua própria gente, nem acusar de crueldade o poder supremo dos príncipes, benévolo e suave para com todos, antes, fazia-se necessário estender a todos o benefício da humana e imperial autoridade e não mais castigar com a pena de morte. Efetivamente, segundo eles, por causa da humanidade dos imperadores, este seu castigo ficava abolido contra nós.
10.  Então ordenou-se arrancar os olhos e inutilizar uma das pernas, pois para eles isto era humano e o castigo mais leve aplicado contra nós; em conseqüência, por causa desta humanidade dos ímpios, já não era possível descrever a multidão incalculável de mutilados: uns, aos quais pri­meiro foi arrancado o olho direito com a espada e logo cauterizado; outros, aos quais haviam inutilizado o pé esquerdo, também por meio de cautérios nas articulações, e os que haviam condenado às minas de cobre de cada província, não tanto por seu serviço quanto para maltratá-los e fazê-los sofrer. Além de todos estes, outros sucumbiram em diversos combates que nem sequer é possível catalogar, já que suas façanhas vencem toda palavra.
11.  Nestes combates, os magníficos mártires de Cristo brilharam por toda a terra habitada e, como era natural, por todas as partes enchiam de assombro as testemunhas oculares de seu valor, e em si mesmos ofereciam a prova manifesta do poder verdadeiramente divino e inefável de nosso Salvador. Mas seria longo, para não dizer impossível, fazer menção de cada um por seus nomes.

XIII - Dos presidentes das igrejas, que por meio de seu sangue mostraram a verdade da religião de que eram embaixadores
1.            Entre os dirigentes das igrejas que sofreram martírio nas cidades célebres, o primeiro que devemos proclamar como mártir nos monumentos erigidos aos santos do reino de Cristo é Antimo, bispo da cidade de Nicomedia, que foi decapitado.
2.     Dos mártires de Antioquia, Luciano, excelentíssimo presbítero daquela igreja por toda sua vida, o mesmo que, em Nicomedia, em presença do imperador, proclamou o reino celestial de Cristo, primeiro por palavra, com uma apo­logia, e logo também pelas obras.
3.     Dos mártires da Fenícia, os mais ilustres podem ser os pastores do rebanho espiritual de Cristo, amados de Deus em tudo, Tiranion, bispo da igreja de Tiro; Zenóbio, presbítero da de Sidon, e também Silvano, bispo das igrejas da comarca de Emesa.
4.     Este último, junto com outros, foi pasto das feras na mesma Emesa e recebido assim entres os coros dos mártires. Quanto aos outros dois, ambos glorificaram o Verbo de Deus em Antioquia com sua constância até a morte: o bispo, lançado aos abismos do mar; e Zenóbio, o melhor dos médicos, morrendo valorosamente em meio às torturas que lhe aplicaram aos costados.
5.            Entre os mártires da Palestina, Silvano, bispo das igrejas da comarca de Gaza, foi decapitado, junto com outros trinta e nove, nas minas de cobre de Feno; e ali mesmo terminaram sua vida pelo fogo, junto com outros, os bispos egípcios Peleo e Nilo.
6. E entre estes mencionaremos a grande glória da igreja de Cesaréia, o pres­bítero Pánfilo, o mais admirável de nossos tempos; já descreveremos no momento oportuno a excelência de suas façanhas.
7. Entre os gloriosamente consumados em Alexandria, em todo Egito e na Tebaida, citaremos em primeiro lugar Pedro, bispo da própria Alexandria, exemplar divino de mestres da religião de Cristo; e os presbíteros que com ele estavam, Fausto, Dío e Ammonio, mártires perfeitos de Cristo; assim como Fileas, Hesiquio, Paquimio e Teodoro, bispos das igrejas do Egito, e outros inúmeros além deles, todos ilustres, dos quais fazem memória as igrejas de cada região e de cada lugar. Colocar por escrito os combates dos que lutaram pela religião divina em toda a terra habitada e narrar com exatidão tudo o que lhes aconteceu não é tarefa nossa, mas poderiam torná-la própria os que captaram os fatos com seus próprios olhos. Quanto aos que eu mesmo presenciei, darei a conhecê-los à posteridade por meio de outro livro.
8.     Na presente obra, ao já dito acrescentarei a palinódia[10] cantada pelo que se pôs contra nós desde o começo da perseguição, que será do máximo proveito para os leitores.
9.     Agora bem, que palavras seriam bastantes para descrever a abundância de bens e a prosperidade de que foi digno o governo de Roma antes de sua guerra contra nós, durante o período em que os governantes eram amigáveis e pacíficos conosco? Era o tempo em que os que governavam o império universal cumpriam o décimo e o vigésimo aniversário de seu comando e passavam sua vida em completa e sólida paz entre festas, jogos públicos e esplêndidos banquetes e festins.
10. Mas quando sua autoridade, livre de obstáculos, crescia dia a dia e prosperava a grandes passos, de repente deram uma mudança em sua pacífica disposição para conosco e suscitaram uma guerra sem quartel. Mas não se haviam cumprido os dois anos de semelhante movimento quando por todo o Império se produziu algo imprevisto que transtornou todos os assuntos.
11.     Efetivamente, havendo-se abatido sobre o primeiro e principal dos que mencionamos[11] uma enfermidade que não augurava nada bom e que lhe transtornou a mente até aliená-lo, retirou-se à vida comum e privada junto com o que ocupava o segundo posto nas honras[12]. Mas ainda não se tinha isto realizado assim, e já o Império se partia em dois, todo ele, coisa que jamais no que se recorda ocorreu anteriormente[13].
12. Mas ao cabo de não muito longo intervalo, o imperador Constâncio, que em toda sua vida havia tratado a seus súditos com a maior suavidade e benevolência e à doutrina divina com a melhor amizade, terminou sua vida segundo a lei comum da natureza, deixando seu filho legítimo Constantino como imperador e augusto em seu lugar. Bondoso e suave mais que os outros imperadores, ele foi o primeiro[14] dentre eles ao qual proclamaram deus, por considerá-lo digno de toda a honra que se deve a um imperador depois de sua morte.
13.     Ele foi também o único dos nossos contemporâneos que durante todo o tempo de seu mandato portou-se de um modo digno do Império. No demais, mostrou-se para todos o mais favorável e benfeitor, e não participou o mínimo da guerra contra nós, antes até, preservou livres de dano e de constrangi­mentos os fiéis que eram seus súditos. Tampouco derrubou os edifícios das igrejas nem admitiu novidade alguma contra nós, e teve o final de sua vida triplamente abençoado, pois foi o único que morreu querido e glorioso em seus próprios domínios imperiais, junto a um sucessor, seu legítimo filho, prudentíssimo e muito piedoso em tudo.
14.     Seu filho Constantino, imediatamente proclamado desde o início imperador absoluto e augusto pelas legiões, e muito antes destas, pelo próprio Deus, imperador universal, mostrou-se cópia de seu pai na piedade para com nossa doutrina. Assim era este homem. Mas, além deles, proclamou-se a Licínio como imperador e augusto por voto comum dos imperadores.
15.     Isto irritou terrivelmente a Maximino, que até este momento ainda seguia com o único título de césar. Em conseqüência, como era um grande tirano, arrebatou para si fraudulentamente a dignidade de augusto e nisto converteu-se por si e ante si.
E neste tempo surpreendeu-se tramando um atentado contra a vida de Constantino a aquele que, como foi demonstrado, depois de sua abdicação voltou ao cargo e morreu com a mais vergonhosa morte. Foi o primeiro de quem destruíram as inscrições honoríficas, as estátuas e tudo o que se costu­mava oferecer, como de um homem por demais sacrílego e ímpio.


XIV - Do caráter dos inimigos da religião
1.            Seu filho Maxêncio[15], que em Roma havia-se constituído em tirano, começou fingindo ter nossa fé, por agradar e adular o povo romano, e por esta razão ordenou a seus súditos interromper a perseguição contra os cristãos, simulando piedade e pensando que assim pareceria acolhedor e muito mais brando que seus antecessores.
2.     Na verdade não resultou nas obras como se esperava que seria, mas que, chegando a todo tipo de sacrilégios, não descuidou de uma só obra de perversidade e desregramento, cometeu adultérios e todo tipo de corrupção. Por exemplo, separando de seus maridos as legítimas esposas, ultrajava-as da maneira mais desonrosa e em seguida mandava-as de volta aos maridos; e cuidava de não fazer isto com pessoas insignificantes e obscuras, mas antes, escolhia dentre os mais eminentes dos que haviam alcançado os primeiros postos do senado romano[16].
3.            Todos os que estavam a sua mercê, plebeus e magistrados, famosos e gente comum, todos estavam cansados de tão terrível tirania, e ainda que estivessem em calma e suportassem sua amarga escravidão, ainda assim, não mudava em nada a sanguinária crueldade do tirano. Efetivamente, às vezes com um pretexto fútil dava carta branca a seu corpo de guarda para executar uma matança contra o povo, e assim foram assassinadas multidões incontáveis do povo romano no meio da cidade, e não por obra das lanças e armas dos citas e bárbaros, mas dos próprios cidadãos.
4.     Assim, por exemplo, não é possível calcular o número de senadores assassi­nados com vistas a apoderar-se de suas fortunas, pois foram infinitos os eliminados em diferentes ocasiões e por diferentes causas, todas inventadas.
5.            Mas o cúmulo dos males levou o tirano à magia. Com vistas à magia fazia abrir o ventre de mulheres grávidas, escrutinar as entranhas de crianças recém-nascidas ou degolar leões, e criava algumas abomináveis invocações sobre demônios e um sacrifício conjurador da guerra, pois ele tinha posto toda sua esperança nestes meios para chegar à vitória.
6.            Em conseqüência, enquanto ele esteve como tirano em Roma, é impossí­vel dizer o que fez para escravizar seus súditos, tanto que os próprios víveres mais necessários chegaram a uma escassez e penúria tão extremas como nossos contemporâneos não lembram ter visto em Roma nem em nenhuma outra parte.
7.      Quanto ao tirano do Oriente, Maximino, tendo feito um pacto secreto de amizade com o de Roma, como com um irmão na maldade, esforçava-se em ocultá-lo o maior tempo possível, mas foi descoberto e pagou logo como lhe era merecido.
8.             Era de admirar como também ele havia conseguido afinidade e irmandade, e mais, o primeiro lugar em maldade e a palma em perversidade, com o tirano de Roma. Efetivamente, considerava os principais charlatães e magos dignos da mais alta honra, de tão medroso e extremamente supersticioso que era e pela importância que dava a errar em matéria de ídolos e demônios. Sem consultar adivinhos e oráculos era absolutamente incapaz de atrever-se a mover, por assim dizer, sequer uma unha.
9.             Esta foi a causa de que se entregasse com maior fúria e freqüência à perse­guição contra nós. Deu ordem de levantar templos em todas as cidades e renovar diligentemente os santuários destruídos pelo passar do tempo; estabeleceu em cada lugar e em cada cidade sacerdotes de ídolos, e sobre estes, como sumo sacerdote de cada província, com escolta e guarda militar, um dos magistrados que mais brilhantemente houvessem se distinguido em todos os cargos públicos, e por fim, presenteou o comando e as maiores honras, sem a menor reserva, a toda classe de feiticeiros, por crê-los gente piedosa e amiga dos deuses.
10.      Partindo destes princípios, vexava e oprimia já não uma cidade ou uma região, mas todas as províncias que estavam sob seu domínio, com cobranças de ouro, prata e riquezas sem conta, e com gravíssimas acusações falsas e outras diferentes penas, segundo a ocasião. Tomando dos ricos os bens acumulados por seus antepassados, distribuía a mãos cheias riquezas e montes de dinheiro aos aduladores que o rodeavam.
11.      Na verdade, entregava-se a tais excessos de bebida e de embriaguez que, bebendo, enlouquecia e perdia a razão, e dava tais ordens estando bêbado, que no dia seguinte, recobrados os sentidos, tinha que arrepender-se. Não se permitia ficar atrás de ninguém como crápula e desregrado, tornando-se mestre de maldade para os que o rodeavam, governantes e governados. Incitava o exército com todo tipo de prazeres e intemperanças a entregar-se à frouxidão, e provocava os governantes e comandantes militares a cair sobre os súditos com rapinas e mesquinhez, tendo-os quase como companheiros de tirania.
12.     Para que recordar as torpezas passionais daquele homem ou contar a multidão de mulheres que corrompeu? De fato, não passava por uma cidade sem cometer adultérios continuamente e raptar donzelas.
13.     Saía-se bem nessas façanhas com todos, exceto unicamente com os cris­tãos, que, desprezando a morte, desdenhavam tamanha tirania. Os homens, efetivamente, suportavam o fogo e o ferro, a crucificação, as feras e as pro­fundezas do mar, que lhes amputassem e queimassem os membros, que lhes furassem e arrancassem os olhos; a mutilação, enfim, de todo o corpo e, como se fosse pouco, a fome, as minas e as correntes, mostrando-se em tudo isto mais prontos a padecer pela religião do que a dar aos ídolos o culto devido a Deus.
14.     E quanto às mulheres, não menos fortalecidas que os homens pelo ensina­mento da doutrina divina, umas suportavam os mesmos combates que os homens e levaram os mesmos prêmios por sua virtude; outras, arrastadas para serem desonradas, preferiram entregar sua alma à morte antes que o corpo à desonra.
15. E certo que, de todas as que foram violadas pelo tirano, somente uma, cristã e das mais distintas e ilustres de Alexandria, conseguiu com sua firmeza mais que varonil vencer a alma apaixonada e dissoluta de Maximino. Mesmo sendo muito célebre por sua riqueza, sua linhagem e sua educação, tudo preteria a sua castidade. Maximino insistiu muito, mas não era capaz de matar a que já estava disposta a morrer, pois sua paixão era mais forte do que sua cólera. Condenou-a então ao desterro e confiscou toda sua propriedade.
16. E outras incomparáveis mulheres, não podendo nem escutar sequer ameaças de violação, suportaram por parte dos governadores de província todo tipo de tormentos, de torturas e de suplícios mortais.
Por isso também estas foram admiráveis. Mas a mais extraordinariamente admirável foi aquela mulher de Roma, a mais nobre em verdade e a mais casta de todas quantas o tirano dali, Maxêncio, tentara atropelar, imitando Maximino.
17. Efetivamente, assim que soube (também ela era cristã) que estavam em sua casa os que serviam ao tirano em tais empreitadas, e que seu marido, ainda que prefeito dos romanos, por medo havia permitido que a levassem com eles, pediu permissão por um momento com o pretexto de arrumar-se, e entrando em seu quarto, sozinha, ela mesma cravou-se uma espada e morreu
instantaneamente. Aos que a levariam deixou seu cadáver, mas a todos os homens presentes e futuros mostrou com suas ótimas obras, mais sonoras que qualquer voz, que a única coisa invencível e indestrutível é a virtude dos cristãos.
18. Tal abundância de maldade acumulou-se, de fato, num mesmo tempo por obra dos dois tiranos que haviam recebido separadamente Oriente e Ocidente. E quem, procurando a causa de tantos males, poderia duvidar que foram produzidos pela perseguição a nós? Pelo menos este estado de confusão não cessou de modo algum até que os cristãos obtivessem a liberdade.


XV - Do acontecido aos de fora
1.            O fato é que, durante todo o decênio que durou a perseguição, não deixaram de conspirar e fazer-se a guerra mutuamente. Os mares eram inavegáveis, e todos que desembarcavam de onde quer que fosse, não escapavam de ser submetidos a toda classe de maus-tratos: retorciam-nos sobre o potro e laceravam-lhes as costas, enquanto os interrogavam entre torturas de toda espécie se não procediam do lado inimigo; e por último submetiam-nos ao suplício da cruz ou do fogo.
2.     Além disso, por toda parte fabricavam-se e se preparavam escudos e couraças, dardos, lanças e demais instrumentos de guerra, assim como trirremes e armas navais. Ninguém podia esperar cada dia outra coisa senão um ataque dos inimigos. E como se fosse pouco, também a fome e a peste subseqüentes se abateram sobre eles; mas disto contaremos o necessário a seu tempo.


XVI - Da mudança e melhora da situação
1.            Esta era a situação ao longo da perseguição, que com a ajuda da graça de Deus, no décimo ano já estava terminada, ainda que de fato tenha começado a ceder depois do oitavo[17]. Efetivamente, assim que a graça divina e celes­tial começou a mostrar uma preocupação benévola e propícia para conosco, também nossos governantes, aqueles mesmos que nos haviam feito a guerra, mudaram milagrosamente de pensamento e cantaram a palinódia[18], extinguindo mediante editos favoráveis e ordens cheias de suavidade a fogueira da perseguição, que havia alcançado tal amplidão.
2.            Mas a causa desta mudança não foi algo próprio dos homens, nem como alguém poderia dizer, compaixão ou humanidade dos governantes, nem muito menos, já que eles mesmos eram os que cada dia, desde o começo até esse momento, imaginavam mais e piores suplícios contra nós, renovando constantemente, umas vezes de um modo e outras de outro, com diversas invenções, os maus-tratos que nos infligiam. Foi mais evidentemente uma visita da própria providência divina, que reconciliou o povo consigo, atacou o perpetrador de nossos males[19] e descarregou sua ira sobre o líder da maldade e de toda a perseguição,
3.     já que, ainda que isto houvesse de ocorrer por juízo de Deus, não obstante, a Escritura diz: Ai daquele por quem venha o escândalo! Alcançou-os, pois, um castigo divino que, começando por sua própria carne, avançou até sua alma.
4.            Efetivamente, de repente saiu-lhe um abcesso em meio às partes secretas de seu corpo, e logo uma chaga fistulosa em profundidade. Sem possibilidade de cura, foram-lhe corroendo até o mais fundo das entranhas. Dali brotava um ninho de vermes e exalava um fedor mortal, já que a massa de suas carnes, produzida pela abundância de alimento e transformada já antes da enfermidade em uma quantidade excessiva de gordura, ao apodrecer então, oferecia o aspecto mais insuportável e espantoso aos que se aproximavam.
5.   Dos médicos, uns, absolutamente incapazes de suportar a exagerada enormidade do fedor, eram degolados; outros, sem poder ajudá-lo em nada por estar inchada toda a massa e já não haver esperança de salvação, eram assassinados sem piedade.

XVII - Da palinódia dos soberanos
1.            Lutando contra males tão grandes, deu-se conta das atrocidades que havia ousado cometer contra os adoradores de Deus e, em conseqüência, reco­lhendo em si seu pensamento, primeiramente confessou o Deus do universo e depois, chamando os de seu séquito, deu ordens para que, sem tardar um momento, fizessem cessar a perseguição contra os cristãos e que, mediante uma lei e um decreto imperiais, se dessem pressa em reconstruir suas igrejas e praticassem o culto de costume, oferecendo orações pelo imperador.
2.            Imediatamente pois, as obras seguiram as palavras, e por todas as cidades se divulgou um edito que continha a palinódia do que foi feito conosco, nos seguintes termos:
3.            "O Imperador César Galério Valério Maximiano, Augusto Invicto, Pontífice Máximo, Germânico Máximo, Egípcio Máximo, Tebeu Máximo, Sármata Máximo cinco vezes, Persa Máximo duas vezes, Carpo Máximo seis vezes, Armênio Máximo, Medo Máximo, Adiabeno Máximo, Tribuno da Plebe vinte vezes, Imperator dezenove vezes, Cônsul oito vezes, Pai da Pátria, Procônsul;
4.     e o Imperador César Flávio Valério Constantino Augusto Pio Félix Invicto, Pontífice Máximo, Tribuno da Plebe, Imperator cinco vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul;
5.            e o Imperador César Valério Liciniano Licínio Augusto Pio Félix, Invicto, Pontífice Máximo, Tribuno da Plebe quatro vezes, Imperator três vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul, aos habitantes de suas próprias províncias, saúde.
6.            Entre as outras medidas que tomamos para utilidade e proveito do Estado, já anteriormente foi vontade nossa endereçar todas as coisas conforme as antigas leis e ordem pública dos romanos e prover para que também os cristãos, que tinham abandonado a seita de seus antepassados[20], voltassem ao bom propósito.
7.             Porque, devido a alguma razão especial, é tão grande a ambição que os retém e a loucura que os domina, que não seguem o que ensinaram os antigos, o mesmo que talvez seus próprios progenitores estabeleceram anteriormente, mas, segundo o próprio desígnio e a real vontade de cada um, fizeram leis para si mesmos, e guardam estas, tendo conseguido reunir multidões diversas em diversos lugares.
8.             Por esta causa, quando a isto seguiu uma ordem nossa de que mudassem para o estabelecido pelos antigos, um grande número esteve sujeito a perigo, e outro grande número viu-se perturbado e sofreu toda classe de mortes.
9.            Mas como a maioria persistisse na mesma loucura e víssemos que nem rendiam aos deuses celestes o culto devido nem atendiam ao dos cristãos, firmes em nossa benignidade e em nosso constante costume de outorgar perdão a todos os homens, críamos que era necessário estender também de boa vontade ao presente caso nossa indulgência, para que novamente haja cristãos e reparem os edifícios em que se reuniam, de tal maneira que não pratiquem nada contrário à ordem pública. Por meio de outra carta mostrarei aos juízes o que deverão observar.
10.     Em conseqüência, em troca desta nossa indulgência, deverão rogar a seu Deus por nossa salvação, pela do Estado e por sua própria, com o fim de que, por todos os meios, o Estado se mantenha são e possam eles viver tranqüilos em seus próprios lares."
11.     Este era o teor do edito escrito em língua latina e tradução dentro do possível para o grego. O que ocorreu depois disto, já é tempo de examiná-lo.


Apêndice ao livro VIII
1.            Agora bem, o autor deste edito, depois de semelhante confissão, ficou ime­diatamente livre das dores, ainda que não por muito tempo, e morreu. Uma tradição diz que este foi o primeiro causador da calamidade da perseguição. Já de antigamente, antes que os demais imperadores se movessem, ele havia forçado a mudar de parecer os cristãos que estavam no exército e, é claro, começando pelos que estavam em sua casa. A uns tirou a dignidade militar, a outros vexou da maneira mais indigna e a outros inclusive ameaçou com a morte. Por último, induziu seus sócios imperiais à perseguição contra todos. Não ficaria bem que silenciássemos sobre o final que estes tiveram.
2.            Foram, pois, quatro os que haviam repartido o governo supremo[21]. Os que pelo tempo e pelas honras tinham a precedência, quando ainda não haviam se cumprido dois anos do início da perseguição, retiraram-se do comando, como já explicamos acima. E depois de passar o resto de suas vidas como simples pessoas privadas, tivera o seguinte fim:
3.            O que pelas honras e pela idade ocupava o primeiro lugar, acabou minado por uma longa e penosa enfermidade física; e o que depois dele ocupava o segundo posto, truncou sua vida enforcando-se; e isto sofreu, segundo divina profecia, por causa dos numerosíssimos crimes que havia cometido.
4.     E dos que seguiam a estes, o último, de quem já dissemos que foi efetiva­mente o causador da perseguição, padeceu males tão grandes como os já mencionados anteriormente. Por outro lado, o que precedia a este, a saber, o mui benigno e suavíssimo imperador Constâncio, que passou todo o tempo de seu governo de uma maneira digna do principado e que, em tudo o mais, mostrou-se o mais favorável e o mais benfeitor para com todos, depois de manter-se à margem da guerra contra nós, recebeu em troca um final de vida realmente feliz e triplamente abençoado, pois foi o único a morrer feliz e gloriosamente no exercício de seu cargo imperial e deixando como sucessor nele seu filho legítimo, em tudo prudentíssimo e muito religioso.
5.            Este foi imediatamente proclamado pelas legiões imperador perfeitíssimo e augusto, e constituiu-se em imitador da piedade paterna para com nossa doutrina. Assim foi a morte dos quatro supracitados ocorrida em tempos diferentes.
6.            Destes, o único que ainda vivia, o mencionado um pouco mais acima, junto com os que depois disto foram introduzidos no governo, fez pública ante todos a confissão acima mencionada, mediante o edito que já expusemos antes.




[1] Fp 2:6-8.
[2] 1 Co 12:31.
[3] 1 Jo 4:18.
[4] O texto não se explica e resulta francamente sem sentido.
[5] Novamente o texto fica obscuro.
[6] Cuidados pelos próprios perseguidores, já que "ninguém deve morrer em conseqüên­cia da tortura".
[7] Isto supõe já promulgado o quarto edito, em 304.
[8] Ex 22:20.
[9] Ex 20:3.
[10] O edito de tolerância de Galerio. Aparentemente Eusébio pretendia com isto terminar sua obra.
[11] Ou seja, Diocleciano.
[12] Diocleciano obrigou Maximiano Hercúleo, o segundo augusto, a abdicar junto com ele em primeiro de maio de 305. Sucederam-nos com o título de augustos os césares Galerio e Constâncio Cloro, e foram nomeados césares Severo e Maximino Daza.
[13] Praticamente Constâncio Cloro e Severo ficaram com todo o Ocidente, Galerio e Maximino Daza se apropriaram do Oriente.
[14] Primeiro entre os tetrarcas.
[15] Também traduzido como Magnêncio ou Magêncio.
[16] A maior parte das referências a Maxêncio provém de autores da propaganda de Constantino, não sendo portanto isentas. Maxêncio efetivamente parou a perseguição contra os cristãos e inclusive construiu uma basílica, que Constantino veio a renomear com seu próprio nome.
[17] Com o edito de tolerância de 311.
[18] Eusébio deve referir-se apenas a Galério e Maximino, a frase não se aplica a Constantino e Licínio.
[19] Galério.
[20] O paganismo, ou melhor, a religião do Império.
[21] Diocleciano e Maximiano como augustos; Galério e Constâncio Cloro como césares.