sexta-feira, 11 de novembro de 2016

53 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro X – Capítulos 05 a 11.

53
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro X – Capítulos 05 a 11

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V. Cópias das leis imperiais referentes aos cristãos
1.   Bem, mas no que segue, citemos também as traduções das disposições imperiais de Constantino e de Licínio, traduzidas do latim.

Cópia das disposições imperiais traduzidas do latim.
2.   'Ao considerar, já há tempo, que não se há de negar a liberdade da religião, mas que se deve outorgar à mente e à vontade de cada um a faculdade de ocupar-se dos assuntos divinos segundo a preferência de cada um, tínhamos ordenado aos cristãos que guardassem a fé de sua escolha e de sua religião.
3.             Mas como ocorreu que naquele decreto em que aos mesmos se outorgava semelhante faculdade parece que se acrescentavam claramente muitas e diversas condições, talvez se desse que alguns deles foram pouco depois violentamente afastados da dita observância.
4.      Quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, nos reunimos feliz­mente em Milão e nos pusemos a discutir tudo o que importava ao proveito e utilidade públicas, entre as coisas que nos pareciam de utilidade para todos em muitos aspectos, decidimos sobretudo distribuir umas primeiras disposições em que se asseguravam o respeito e o culto à divindade, isto é, para dar, tanto aos cristãos quanto a todos em geral, livre escolha para seguir a religião que quisessem, com o fim de que tanto a nós quanto aos que vivem sob nossa autoridade nos possam ser favoráveis a divindade e os poderes celestiais que existam.
5.      Portanto, foi por um saudável e retíssimo arrazoamento que decidimos tomar esta nossa resolução: que a ninguém se negue em absoluto a faculdade de seguir e escolher a observância ou a religião dos cristãos, e que a cada um se dê a faculdade de entregar sua própria mente à religião que creia que se adapta a ele, a fim de que a divindade possa em todas as coisas outorgar-nos sua habitual solicitude e benevolência.
6.             Assim era natural que déssemos por decreto o que era de nosso agrado: que, suprimidas por completo as condições que se continham em nossas primeiras cartas a tua santidade acerca dos cristãos, também se suprimisse tudo o que parecia ser inteiramente sinistro e alheio a nossa mansidão, e que agora cada um dos que sustentam a mesma resolução de observar a reli­gião dos cristãos, observe-a livre e simplesmente, sem impedimento algum.
7.      Tudo isto decidimos manifestar da maneira mais completa a tua solicitude, para que saibas que nós demos aos mesmos cristãos livre e absoluta faculdade de cultivar sua própria religião.
8.             Já que estais vendo o que precisamente lhes demos sem restrição alguma, tua santidade compreenderá que também a outros, a quem queira, dá-se-lhes faculdade de prosseguir suas próprias observâncias e religiões - o que precisamente está claro que convém à tranqüilidade de nossos tempos -, de sorte que cada um tenha possibilidade de escolher e dar culto à divindade que queira.
Isto é o que fizemos, com o fim de que não pareça que menoscabamos o mínimo a honra ou a religião de ninguém.
9.   Mas, além disto, em atenção às pessoas dos cristãos, decidimos também o seguinte: que seus lugares em que anteriormente tinham por costume reunir-se e acerca dos quais já em carta anterior enviada a tua santidade havia outra regra, delimitada para o tempo anterior, se parecer que alguém os tenha comprado, seja de nosso tesouro público, seja de qualquer outro, que os restitua aos mesmos cristãos, sem reclamar dinheiro nem compensação alguma, deixando de lado toda negligência e todo equívoco, E se alguns, por acaso, os receberam como doação, que estes mesmos lugares sejam restituídos o mais rapidamente possível aos mesmos cristãos.
10.     Mas de tal maneira que, tanto os que haviam comprado ditos lugares como os que os receberam de presente, se pedirem alguma compensação de nossa benevolência, possam acudir ao magistrado que julga no lugar, para que também se proveja a ele por meio de nossa bondade.
11.     Tudo o que deverá ser entregue à corporação dos cristãos, pelo mesmo, graças a tua solicitude, sem a menor dilação.
E como ocorre que os mesmos cristãos não somente têm aqueles lugares em que costumavam reunir-se, mas que se sabe que também possuem outros lugares pertencentes, não a cada um deles, mas ao direito de sua corporação, isto é, dos cristãos, em virtude da lei que anteriormente mencionei mandarás que todos esses bens sejam restituídos sem o menor protesto aos mesmos cristãos, isto é, a sua corporação, e a cada uma de suas assembléias, guardada, evidentemente, a razão exposta acima: que aqueles, como dissemos, que os restituírem sem recompensa, esperem de nossa benevolência sua própria indenização.
12. Em tudo isto deverás oferecer à dita corporação dos cristãos a mais eficaz diligência, para que nosso comando se cumpra o mais rapidamente possível e para que também nisto, graças a nossa bondade, se proveja à tranqüilidade comum e pública.
13.     Efetivamente, por esta razão, como também ficou dito, a solicitude divina por nós, que já experimentamos em muitos assuntos, permanecerá assegurada por todo o tempo.
14. E para que o alcance desta nossa legislação benevolente possa chegar ao conhecimento de todos, é preciso que tudo o que nós temos escrito tenha preferência e por ordem tua se publique por todas as partes e se leve ao conhecimento de todos, para que a ninguém se possa ocultar esta legislação, fruto de nossa benevolência."

Cópia de outra disposição imperial que também foi tomada assinalando que a doação foi feita somente à igreja católica.[1]
15. "Saúde, estimadíssimo Anulino[2]. É costume de nossa benevolência o seguinte: que nós não somente queremos que não se cause dano ao que precisamente pertence ao direito alheio, mas que inclusive se restitua, estimadíssimo Anulino.
16.     Daí que queiramos que, ao receber esta carta, se, em cada cidade ou inclu­sive em outros lugares, alguns destes bens pertenciam à Igreja católica dos cristãos e agora os detenham cidadãos ou outras pessoas, faças com que ditos bens sejam restituídos imediatamente à mesmas igrejas, posto que decidimos que precisamente aquilo que as ditas igrejas possuíam antes seja restituído a seu direito.
17.     Por conseguinte, já que tua santidade está comprovando que a ordem deste nosso comando é evidente, apressa-te para que tudo, sejam jardins, casas ou qualquer outra coisa que pertença ao direito das ditas igrejas, seja-lhes restituído o mais rapidamente possível, de sorte que chegue a nosso conhe­cimento que aplicaste a esta nossa ordem a mais escrupulosa obediência. Que tudo te vá bem, estimadíssimo e mui querido Anulino."

Cópia de uma carta imperial, pela qual manda que se reúna um concílio de bispos em Roma, sobre a unidade e a concórdia das igrejas.
18.     "Constantino Augusto a Milcíades, bispo dos romanos, e a Marcos: Muitos importantes documentos me têm sido enviados da parte do ilustríssimo procônsul da África Anulino, nos quais se menciona que o bispo da cidade dos cartagineses Ceciliano é acusado de muitas coisas por alguns de seus colegas com sede na África, e a mim me parece sumamente grave que nestas províncias, que a divina providência voluntariamente confiou a minha so­licitude e nas quais é muito numerosa a população, encontre-se uma multidão persistindo no pior, como se estivesse dividida, e que entre os próprios bispos existam diferenças.
19.     Pelo que, decidimos que o próprio Ceciliano, com dez bispos dos que pare­cem acusá-lo e outros dez que ele mesmo possa crer necessários para sua própria causa, embarque para Roma e ali, estando vós presentes - assim como também vossos colegas Retício, Materno e Marino[3], aos quais mandei por esta causa apressarem-se a ir a Roma -, possa ser ouvido, o que se ajusta, como sabes, à lei augustíssima.
20. Mesmo assim, para que possais ter acerca de todos estes assuntos um conhe­cimento completo, anexo a minha carta as cópias dos documentos que me enviou Anulino e remeto-os também a vossos colegas anteriormente citados. Quando os lerdes, vossa firmeza decidirá de que maneira haverá que exa­minar com o maior escrúpulo a dita causa e dar-lhe fim conforme o direito,
posto que não vos é ocultado que estou dispensando à legítima Igreja católica um respeito tão grande que por nada do mundo quero que permitais cisma ou divisão em lugar algum. Que a divindade do grande Deus vos guarde por muitos anos, estimadíssimo."

Cópia de uma carta imperial pela qual manda que se faça um segundo concilio sobre a eliminação de toda DivisãO entre os bispos.
21.      "Constantino Augusto a Cresto, bispo dos siracusanos. Já em ocasião anterior, quando alguns, com ânimo vil e perverso, começaram a dividir-se acer­ca do culto do santo e celestial poder e da religião[4] católica, querendo eu cortar semelhantes discussões entre eles, ditei umas disposições de tal natureza que, enviando alguns bispos da Gália aos das partes contrárias que lutavam entre si obstinada e ferozmente, e achando-se também presente o bispo de Roma, aquilo que parecia estar em litígio pudesse solucionar-se por efeito de sua presença unida a um cuidadoso exame.
22.  Mas o que ocorre, posto que alguns, esquecendo-se de sua própria salvação e da veneração devida à santíssima religião, ainda hoje não cessam de pro­longar suas peculiares inimizades e não querem conformar-se com a sentença já ditada, declarando que, em realidade, somente alguns poucos aportaram suas próprias opiniões e afirmações, ou até mesmo que, sem haver sido examinado com exatidão tudo o que devia ser examinado, apressaram-se a emitir o juízo a toda pressa e precipitadamente; disto veio a resultar que os mesmos que deveriam ter uma concórdia fraterna e unânime, separaram-se uns dos outros vergonhosamente, e mais, abominavelmente, e deram motivo de zombaria aos homens cujas almas são alheias à santíssima religião. Devido a isto tive que tomar providências para que o mesmo precisamente que deveria ter cessado por livre assentimento depois do juízo já determinado, possa chegar a um termo, ao menos agora, com a presença de muitos.
23. Como pois ordenamos a numerosos bispos de diferentes e incontáveis lugares que se reúnam na cidade de Aries pelas calendas de agosto[5], pensamos escrever-te também a ti para que tomes do governador da Sicília, o ilustríssi­mo Latroniano, um veículo público, e juntando a ti pelo menos outros dois da segunda ordem[6] que tu mesmo venhas a escolher, e depois de tomares ainda três criados que possam servir-vos no caminho, te apresentes esse mesmo dia no lugar acima indicado.
24. Desta maneira, mediante tua firmeza e a compreensão unânime e concorde dos demais reunidos, ao ser ouvido tudo o que se dirá da parte dos que agora estão divididos - aos quais igualmente ordenei estarem presentes -, aquilo mesmo que por causa de uma vergonhosa disputa entre companheiros tem se mantido até agora de forma errada, poderá, ainda que lentamente, ser novamente conduzido à religião devida, à fé e à concórdia fraterna. Que o Deus Todo-poderoso te conserve são por muitos anos."

VI. Cópia de uma carta mediante a qual se faz doação de dinheiro às igrejas.
1.   "Constantino Augusto a Ceciliano, bispo de Cartago.
Posto que em todas as províncias, particularmente nas Áfricas, nas Numídias e nas Mauritânias[7], determinei que se outorgasse algo para os gastos de alguns ministros designados da legítima e santíssima religião católica, despa­chei uma carta para o perfeitíssimo Urso, diretor geral das finanças da África, indicando-lhe que providenciasse para abonar a tua firmeza três mil follis.
2.            Tu, por conseguinte, quando acusardes o recebimento da indicada quantia de dinheiro, manda que este dinheiro seja repartido a todas as pessoas acima mencionadas conforme o documento que Osio te enviou.
3.            Mas se perceberdes que falta algo para o cumprimento deste meu plano rela­tivo a eles, deverás pedir sem demora a Heráclides, o procurador de nossos bens, o quanto saibas que é necessário, já que, achando-se aqui presente, dei-lhe ordens para que se preocupasse de pagar-te sem a menor vacilação, no caso de que tua firmeza lhe pedisse algum dinheiro.
4.     E como tenho informes de que alguns homens de pensamento inconstante estão querendo afastar o povo da santíssima e católica Igreja com perverso engano, saiba que dei ordens semelhantes ao procônsul Anulino e também ao representante dos prefeitos, Patrício, que se achavam presentes, para que, além do mais, dediquem também a isto a devida preocupação e não se permitam descuidar deste assunto.
5.            Portanto, se virdes que alguns homens assim persistem nesta loucura, apela sem a menor vacilação aos juízes acima citados e apresenta-lhes este assunto para que eles, como lhes ordenei quando estavam presentes, os convertam ao bom caminho.
Que a divindade do grande Deus te guarde por muitos anos."

VII. Da imunidade dos clérigos
Cópia de uma carta imperial mediante a qual ordena que os presidentes das igrejas sejam eximidos de toda função pública civil.
1. "Saúde, estimadíssimo Anulino. Como parece, por uma série de fatos, que sempre que a religião em que se conserva o supremo respeito ao santíssimo poder do céu foi desprezada, foi causa de grandes perigos para os assuntos públicos, e por outro lado, quando foi admitida e preservada legalmente proporcionou ao nome romano enorme fortuna e uma prosperidade sin­gular a todos os assuntos dos homens - pois isto é obra dos benefícios divinos -, decidi, estimadíssimo Anulino, que aqueles varões que com a devida santidade e com a familiaridade desta lei estão prestando seus serviços pessoalmente ao culto da divina religião recebam a recompensa de seus próprios trabalhos.
2. Por esta razão, aqueles que dentro da província a ti confiada estão prestando pessoalmente seus serviços a esta santa religião na Igreja católica, que é presidida por Ceciliano, e os que se costuma chamar clérigos, quero que, sem mais e uma vez por todas, fiquem isentos de toda função pública civil, para que não ocorra que por algum erro ou por um extravio sacrílego vejam-se afastados do culto devido à divindade; antes, estejam ainda mais entregues ao serviço de sua própria lei sem estorvo algum, já que, se eles rendem à divindade a maior adoração, parece que acarretarão incontáveis benefícios aos assuntos públicos. Que tenhas saúde, meu estimadíssimo e mui querido Anulino."

VIII. Da posterior perversidade de Licínio e de sua morte
1.            Tais dons, pois[8], nos concedia a divina e celestial graça da manifestação de nosso Salvador, e tão abundantes eram os bens que por meio de nossa paz se outorgava a todos os homens. E desta maneira o nosso era celebrado entre regozijo e grandes reuniões festivas.
2.            Mas nem a inveja inimiga do bem, nem o demônio, amante do mal, podiam suportar a contemplação do que viam; como tampouco para Licínio o sucedido aos tiranos anteriormente mencionados[9] foi suficiente para uma atitude prudente. Ele que havia sido considerado digno de um governo bem próspero, digno da honra do segundo posto depois do grande imperador Constantino e digno de afinidade e parentesco do mais alto grau[10], ia se afastando da imitação dos bons e, em troca, copiava a perversidade e malícia dos ímpios tiranos. E ainda que tivesse visto com seus próprios olhos o final catastrófico destes, preferiu segui-los em seu sentimento a permanecer na amizade e boa disposição de seu superior.
3.     Presa da inveja para com o benfeitor universal, provoca contra ele uma guerra execrável e terrível, sem respeito pelas leis da natureza e sem trazer à mente a memória dos juramentos, do sangue e dos pactos.
4.     De fato, que sinais de verdadeira benevolência não lhe havia outorgado o boníssimo imperador! Não lhe regateou seu parentesco nem lhe negou esplêndidas núpcias com sua irmã, antes até, considerou-o digno de compartilhar sua nobreza, que vinha de seus pais, e seu sangue imperial ancestral, e também havia-lhe proporcionado poder desfrutar do governo supremo como cunhado e co-imperador, posto que havia-lhe dado a graça de uma parte não menor de povos sujeitos a Roma, para que os governasse e administrasse[11].
5.            Mas ele, por sua vez, agia contrariamente a isto e cada dia imaginava intrigas contra seu superior e imaginava todo gênero de conspirações, como se res­pondesse com males a seu benfeitor. Assim é que, em primeiro lugar, tratava de ocultar seus preparativos fingindo ser amigo, e aplicando-se à astúcia e ao engano, esperava alcançar com toda facilidade o resultado apetecido.
6.            Mas deve-se saber que aquele tinha Deus como amigo, protetor e guardião, que, trazendo à luz as conspirações urdidas contra ele secretamente e nas sombras, ia desbaratando-as. Tão grande força e virtude tem a arma da piedade para rechaçar os inimigos e preservar a própria salvação! Guarnecido com ela, nosso imperador, amado de Deus, ia esquivando as conspirações do infame astuto.
7.            Este, por sua parte, quando viu que seus preparativos ocultos de modo algum andavam conforme seus desígnios, já que Deus ia manifestando a seu amado imperador todo engano e toda maldade, e não podendo já dissimular por mais tempo, declarou abertamente a guerra.
8.            Decidido, efetivamente, a fazer a guerra contra Constantino, apressava-se já a formar suas tropas também contra o Deus do universo, a quem sabia que aquele honrava, e logo pôs-se a atacar - moderada e silenciosamente a princípio - seus próprios súditos adoradores de Deus, que jamais haviam causado o mínimo incômodo a seu governo. E agia assim porque sua maldade inata o forçava a uma terrível cegueira.
9.             Ocorre que ele não tinha ante os olhos a memória dos que haviam perseguido os cristãos antes dele, nem sequer a daqueles de quem ele mesmo havia sido instrumento de ruína e de castigo pelas impiedades em que haviam tomado parte. Pelo contrário, voltando as costas a um pensamento prudente, e mais, em termos exatos, transtornado pela loucura, tinha decidido fazer a guerra ao próprio Deus, como protetor de Constantino, em vez de ao protegido.
10.  Em primeiro lugar expulsou de sua própria casa todos os que eram cristãos, com o que o desgraçado privou a si mesmo da oração destes por ele, oração que costumavam fazer por todos, segundo ensinamento ancestral[12]; mas logo foi dando ordens para que em cada cidade se separasse e degradasse os soldados que não escolhessem sacrificar aos demônios[13]. E isto ainda era coisa pouca se o compararmos com as medidas maiores.
11.     Que necessidade há de recordar uma por uma e sucessivamente as coisas que este inimigo de Deus perpetrou e como sendo o maior violador das leis inventou leis ilegais?[14] Pelo menos é certo que impôs a lei de que ninguém tivesse a humanidade de repartir alimentos aos que penavam nos cárceres, que ninguém se compadecesse dos que padecessem de fome nas prisões e, em uma palavra, que ninguém fosse bom nem fizesse o menor bem, nem sequer aqueles que por sua própria natureza se deixam arrastar à compaixão por seus próximos. Esta lei era, evidentemente, a mais desavergonhada e a mais cruel de todas, já que passava por cima de toda natureza civilizada e continha ainda como castigo que os compassivos sofressem as mesmas penas que seus compadecidos e que seriam acorrentados e encarcerados os que prestassem serviços humanitários aos condenados, sofrendo o mesmo castigo que eles.
12. Tais eram as ordens de Licínio. Que necessidade temos de enumerar detalha­damente suas inovações acerca das núpcias ou suas disposições revolucioná­rias a respeito dos que deixam esta vida? Atreveu-se a abolir as antigas leis romanas, reta e sabiamente estabelecidas, e introduziu no lugar delas algumas leis bárbaras e incivilizadas, verdadeiramente ilegais e contra as leis. Inventava também inumeráveis acusações contra as nações submetidas, toda classe de extorsões de ouro e prata, novos cadastros e lucrativas multas a homens que já não estavam nos campos, mas que tinham morrido há tempo.
13.     E que classe de desterros inventou ainda o inimigo dos homens contra pessoas que nenhum dano tinham lhe causado? E as detenções de homens nobres e notáveis dos quais separava suas legítimas esposas e as entregava a alguns criados lascivos para que as ultrajassem com suas torpezas? E ele mesmo, um velhote, quantas mulheres casadas e quantas donzelas não vexou para satisfazer a paixão desenfreada de sua alma? Que necessidade temos de alongar a conta, se o excesso de suas últimas maldades deixou as primeiras pequenas e reduzidas a quase nada?
14. Certo é que, no cúmulo de sua loucura, procedeu contra os bispos. Por crer que estes, como servidores do Deus supremo, eram contrários ao que ele fazia, urdia seus preparativos, ainda não a plena luz, por medo ao mais forte[15], mas sim ocultamente e com falsidade, e deles ia eliminando os mais conspícuos valendo-se da confabulação dos governadores[16]. E o gênero de morte usado contra eles era muito estranho e inaudito até então.
15.     O certo é que o que foi realizado em torno de Amasia e as demais cidades do Ponto superou a todo excesso de crueldade. Ali, das igrejas de Deus, algumas foram novamente arrasadas por completo, e outras foram fechadas para que ninguém fosse a elas segundo o costume nem oferecessem a Deus os cultos devidos.
16.     Efetivamente, por pensar nisto com sua má consciência, não acreditava que se fizessem orações por ele, antes, estava persuadido de que nós fazíamos tudo e aplacávamos a Deus em favor do imperador amigo de Deus. Desde então, começou a fazer cair seu furor sobre nós.
17.     Assim foi. Os governadores aduladores, persuadidos de que faziam o que queria o infame, oprimiam alguns bispos com os castigos habitualmente reservados aos malfeitores, e desta forma detinha-se e se castigava sem pretexto algum, como aos homicidas, os que nada de mal tinham feito. Outros sofreram um novo gênero de morte: esquartejados seus corpos em muitos pedaços com uma espada, depois deste cruel e horripilante espetáculo, eram lançados ao fundo do mar para pasto dos peixes.
18.     Ante estes fatos reiniciaram-se as fugas dos homens piedosos, e novamente os campos, os vales solitários e os montes começaram a acolher os servos de Cristo. E como desta maneira o ímpio tinha êxito nestas medidas, chegou mesmo a conceber a idéia de ressuscitar a perseguição contra todos.
19.     Seu pensamento se reafirmava e nada o impedia de pô-lo em ação, se o Deus que luta em favor das almas que lhe pertencem, prevendo o que suce­deria, não tivesse rapidamente feito brilhar, como em trevas profundas e noite escuríssima, uma grande luminária e ao mesmo tempo um salvador para todos: seu servo Constantino, a quem levou pela mão para esta obra com braço poderoso.

IX. Da vitória de Constantino e do que este permitiu aos súditos do poder romano
1. A este, por conseguinte, foi que Deus outorgou desde cima, como fruto digno de sua piedade, o troféu da vitória contra os ímpios. Em troca, precipitou o criminoso com todos seus conselheiros e amigos aos pés de Constantino.
2.            Efetivamente, tendo aquele feito avançar seus atos até extremos de loucura, o imperador amigo de Deus concluiu que já era insuportável. Fazendo seu cálculo prudente e somando a sua humanidade a firmeza do juiz, decide acudir em socorro dos que sofriam sob o tirano. Desembaraçou-se de alguns breves contratempos e pôs-se em movimento para recobrar a maior parte do gênero humano.
3.            Até então, efetivamente, havia utilizado com ele somente a humanidade, e havia-se compadecido de quem não era digno de compaixão, sem proveito nenhum, já que o outro não se afastava de sua maldade, antes até, aumentava ainda mais sua raiva contra as nações submetidas e já não deixava nenhuma esperança de salvação para os maltratados, tiranizados como estavam por uma fera espantosa.
4.     Por isto, juntando seu ódio ao mal com seu amor ao bem, o defensor dos bons avança junto com seu filho Crispo, humaníssimo imperador, estendendo sua destra salvadora a todos os que pereciam. Logo, como se tivessem guias e como aliados a Deus, rei universal, e a seu Filho, salvador de todos, pai e filho, ambos de uma vez, separam em círculo sua formação contra os inimigos de Deus e conseguem para si uma fácil vitória, já que Deus lhes dispôs tudo no confronto conforme seu plano.
5.            Efetivamente, de súbito e com mais rapidez do que se diz, os que ontem e anteontem respiravam morte e ameaça[17], já não existiam[18]; nem de seus nomes havia memória; suas imagens e monumentos recebiam seu merecido desdouro, e o que em outro tempo Licínio contemplou com seus próprios olhos nos ímpios tiranos, isto mesmo ele sofreu em pessoa, por não arrepen­der-se nem corrigir-se ante os castigos de seus vizinhos. Depois de compartir com estes o mesmo caminho da impiedade, caiu merecidamente no mesmo precipício que eles.
6.             Mas, enquanto ele jazia prostrado desta maneira, Constantino, o vencedor máximo, que sobressaía em toda virtude religiosa, e seu filho Crispo, impe­rador amado de Deus e semelhante em tudo a seu pai, recobraram o familiar Oriente e apresentavam reunido em um, como antigamente, o governo romano, conduzindo sob a paz de ambos a terra toda, desde o sol nascente, em círculo por uma e outra parte do orbe habitado, e pelo norte e o meio dia, até o limite extremo do Ocidente.
7.      Em conseqüência, eliminava-se de entre os homens todo medo aos que antes os pisoteavam, e em troca, celebravam-se brilhantes e concorridos dias de solenes festas. Tudo explodia de luz. Os que antes andavam cabis-baixos olhavam-se mutuamente com rostos sorridentes e olhos radiantes, e pelas cidades, assim como pelos campos, as danças e os cantos glorificavam em primeiríssimo lugar o Deus rei e soberano de tudo - porque isto haviam aprendido -, e em seguida o piedoso imperador, junto com seus filhos amados por Deus.
8.            Havia perdão dos males antigos e esquecimento de toda impiedade; goza­va-se dos bens presentes e esperavam-se os vindouros. Por conseguinte, estendiam-se por todo lugar disposições do vitorioso imperador cheias de humanidade e leis que levavam a marca da munificência e verdadeira piedade.
9.     Expurgada assim, realmente, toda tirania, o império que lhes correspondia reservava-se seguro e indiscutível somente para Constantino e seus filhos, os quais, depois de eliminar do mundo antes de tudo o ódio a Deus, cons­cientes dos bens que Deus lhes havia outorgado, tornaram manifesto seu amor à virtude, seu amor a Deus, sua piedade para com Deus e sua gratidão, mediante obras que realizavam publicamente à vista de todos os homens.

1.                  O que mais te chamou atenção no texto?
2.                  Qual a contribuição do texto para sua espiritualidade?
Fim



[1] Os documentos seguintes afetam somente a Igreja do Ocidente, por isso aparece apenas o nome de Constantino.
[2] Este documento é dirigido ao governador proconsular da África.
[3] Bispos, respectivamente, de Autun, Tréves-Colônia e Aries.
[4] A palavra no original é "airéseos", donde vem "heresia", e que significa escolha ou opção.
[5] 12 de agosto de 314.
[6] Isto é, dois presbíteros.
[7] O uso do plural se deve à divisão da diocese da África em províncias por parte de Diocleciano.
[8] Aqui se retoma o assunto do capítulo 4, interrompido pela inserção dos documentos dos capítulos 5-7.
[9] Maxêncio e Maximino.
[10] Licínio casou-se com a irmã de Constantino em fevereiro de 313.
[11] Contrariamente ao que diz Eusébio, Licínio não devia o império a Constantino, mas a Galério, que junto com Diocleciano e Maximiano, tornou-o augusto, enquanto a Constantino concediam apenas o título de césar. Eusébio deve referir-se mais à condescendência de Constantino para com Licínio ao fazer as pazes após a intentona deste contra ele em 314.
[12] 1 Tm 2:1-2.
[13] A motivação desta perseguição foi mais política. Determinado a levantar-se contra Constantino, tinha que eliminar o obstáculo que para ele eram os cristãos, os do palácio, que poderiam descobrir e delatar seus planos, e os militares, especialmente os graduados.
[14] Estas leis não foram feitas diretamente contra os cristãos, mas foram estes os mais afetados.
[15] Isto é, por medo a Constantino.
[16] Forjavam-se pretextos legais para justificar as mortes, o que indica que não houve edito contra os hierarcas eclesiásticos.

[17] At 9:1.
[18] Ap 17:8-11.