quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Espiritualidade de Gertrudes de Helfta

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“Ó Jesus, tu que me és imensamente querido, estejas sempre comigo, para que o meu coração permaneça contigo e o teu amor persevere comigo sem divisão e o meu trânsito seja abençoado por ti, de tal forma que o meu espírito, desprendido dos laços da carne, possa imediatamente encontrar repouso em ti. Amém"

Gertrudes, a Grande, leva-nos também ao mosteiro de Helfta, onde surgiram algumas das obras-primas da literatura religiosa feminina latino-alemã. A esse mundo pertence Gertrudes, uma das místicas mais famosas, única mulher da Alemanha a ter o apelativo de "Grande", devido à estatura cultural e evangélica: com a sua vida e seu pensamento incidiu de modo singular sobre a espiritualidade cristã. É uma mulher excepcional, dotada de particulares talentos naturais e de extraordinários dons da graça, de profundíssima humildade e ardente zelo pela salvação do próximo, de íntima comunhão com Deus na contemplação e de prontidão para socorrer os necessitados.

Em Helfta, confronta-se, por assim dizer, sistematicamente com a sua mestra Matilde de Hackeborn, entra em contato com Matilde de Magdeburgo, outra mística medieval; cresce sob o cuidado materno, doce e exigente, da Abadessa Gertrudes. Dessas três coirmãs surgem tesouros de experiência e sabedoria; processa-os em uma síntese própria, percorrendo o seu itinerário religioso com ilimitada confiança no Senhor. Expressa a riqueza da espiritualidade não somente do seu mundo monástico, mas também e sobretudo daquele bíblico, litúrgico, patrístico e beneditino, com um sinal personalíssimo e com grande eficácia comunicativa.
Nasce em 6 de janeiro de 1256, festa da Epifania, mas não se sabe nada nem sobre seus pais nem sobre o lugar de nascimento. Gertrudes escreve que o próprio Senhor revela-lhe o sentido desse seu primeiro desenraizamento. "Escolhi-a para minha morada porque me comprazo que tudo que há de amável em ti é obra minha […]. Exatamente por essa razão eu a distanciei de todos os seus parentes, para que nenhum a amasse por razão de consanguinidade e eu fosse o único motivo de afeto que levasse consigo" (Le Rivelazioni, I, 16, Siena 1994, p. 76-77).
Na idade de cinco anos, em 1261, entra no mosteiro, como era comum naquela época, para a formação e o estudo. Aqui transcorre toda a sua existência, da qual ela mesma assinala as fases mais significativas. Nas suas memórias, recorda que o Senhor a protegeu com longânime paciência e infinita misericórdia, esquecendo os anos da infância, adolescência e juventude, transcorridos – escreve – "em tal cegueira de mente que eu teria sido capaz […] de pensar, dizer ou fazer sem nenhum remorso tudo aquilo que me fosse aprazível e em qualquer lugar tivesse podido, se tu não me tivesses prevenido, seja com um inerente horror do mal e uma natural inclinação para o bem, seja com a vigilância externa dos outros. Teria me comportado como uma pagã […] e isso graças por tendo tu desejado que desde a infância, a partir do meu quinto ano de idade, habitasse no santuário bendito da religião para ser educada entre os teus amigos mais devotos" (Ibid., II, 23, p. 140s).
Gertrudes é uma estudante extraordinária, aprende tudo o que se pode aprender das ciências do Trivio e Quadrivio, a formação daquele tempo; é fascinada pelo saber e se dedica ao estudo secular com ardor e tenacidade, conseguindo sucessos escolares para além de toda a expectativa. Se nada sabemos sobre as suas origens, muito ela nos diz sobre suas paixões juvenis: literatura, música e canto, arte da miniatura a capturam; tem um caráter forte, decidido, imediato, impulsivo; muitas vezes afirma ser negligente; reconhece os seus defeitos, dos quais pede humildemente perdão. 
Com humildade, pede conselho e orações pela sua conversão. São traços do seu temperamento e defeitos que a acompanharam até o fim, a ponto de surpreender algumas pessoas que se perguntavam por que o Senhor a preferia tanto.

De estudante, passa a consagrar-se totalmente a Deus na vida monástica e, por vinte anos, não acontece nada de excepcional: o estudo e a oração são a sua atividade principal. Devido aos seus dons, destaca-se entre as coirmãs; é tenaz no consolidar a sua cultura em variados campos. Mas, durante o Tempo do Advento de 1280, começa a sentir desgosto em tudo isso, sente vaidade e, em 27 de janeiro de 1281, poucos dias antes da festa da Purificação da Virgem, rumo à Hora das Completas, à noite, o Senhor ilumina as suas densas trevas. Com suavidade e doçura, acalma a preocupação que a angustia, preocupação que Gertrudes vê como um dom próprio de Deus "para abater aquela torre de vaidade, ai de mim, mesmo tendo o nome e hábito de religiosa, que eu estava elevando com a minha soberba, onde ao menos encontrastes a via para mostrar-me a tua salvação" (Ibid., II,1, p. 87).
Tem a visão de um rapaz que a guia a superar o emaranhado de espinhos que oprime a sua alma, tomando-a pela mão. Naquela mão, Gertrudes reconhece "o traço precioso daquelas feridas que revogaram todos os atos de acusação de nossos inimigos" (Ibid., II,1, p. 89), reconhece Aquele que, sobre a Cruz, salvou-nos com o seu sangue, Jesus.
A partir daquele momento, a sua vida de comunhão íntima com o Senhor intensifica-se, sobretudo nos tempos litúrgicos mais significativos – Advento-Natal, Quaresma-Páscoa, – também quando, doente, era impedida de unir-se ao coro. É o mesmo húmus litúrgico de Matilde, sua mestra, que Gertrudes, no entanto, descreve com imagens, símbolos e termos mais simples e lineares, mais realistas, com referências mais diretas à Bíblia, aos Padres, ao mundo beneditino.
A sua biografia indica duas direções daquele que poderíamos definir como a sua particular "conversão": nos estudos, com a passagem radical dos estudos humanísticos seculares para aqueles teológicos, e na observância monástica, com a passagem da vida que ela define negligente à vida de oração intensa, mística, com um excepcional ardor missionário. O Senhor, que a tinha escolhido desde o seio materno e desde pequena a tinha feito participar do banquete da vida monástica, a chama com a sua graça "das coisas externas à vida interior e das ocupações terrenas ao amor das coisas espirituais". 
Gertrudes compreende ter estado longe d'Ele, em razão da dessemelhança, como ela diz com Santo Agostinho; ter se dedicado com muita avidez aos estudos livres, à sabedoria humana, descuidando das ciências espirituais, privando-se do gosto da verdadeira sabedoria; então é conduzida ao monte da contemplação, onde deixa o homem velho para revestir-se do novo. "Da gramática torna-se teóloga, com a inquebrantável e atenta leitura de todos os livros sagrados que podia ter ou procurar, preenchendo o seu coração das mais úteis e doces sentenças da Sagrada Escritura. Tinha, por isso, sempre pronta alguma palavra inspirada e de edificação com a qual satisfazer aqueles que vinham consultá-la, e reúne os textos bíblicos mais adequados para refutar qualquer opinião errada e silenciar seus opositores" (Ibid., I,1, p. 25).
Gertrudes transforma tudo isso em apostolado: dedica-se a escrever e divulgar a verdade de fé com clareza e simplicidade, graça e persuasão, servindo com amor e fidelidade à Igreja, a ponto de ser útil e apreciada por teólogos e pessoas piedosas. Dessa sua intensa atividade restaram-nos poucos registros, também devido aos acontecimentos que levaram à destruição do mosteiro de Helfta. Além de Arauto do divino amor ou As revelações, restam-nos os Exercícios Espirituais, uma joia rara da literatura mística espiritual.
Na observância religiosa, foi "uma coluna forte […], firmíssima defensora da justiça e da verdade" (Ibid., I, 1, p. 26), diz a sua biografia. Com as palavras e o exemplo, suscita nos outros grande fervor. Às orações e às penitências da regra monástica acrescenta outras com ainda maior devoção e abandono confiante em Deus, a ponto de suscitar em quem a encontra a consciência de estarem na presença do Senhor.
E, de fato, Deus mesmo a faz compreender tê-la chamado a ser instrumento da sua graça. Desse imenso tesouro divino, Gertrudes sente-se indigna, confessa não tê-lo protegido e valorizado. Exclama: "Ai de mim! Se Tu me tivesses dado para tua recordação, indigna como sou, ainda que um fio somente de estopa, teria que guardá-lo com maior respeito e reverência que o que tive por esses teus dons!" (Ibid., II,5, p. 100). Mas, reconhecendo a sua pobreza e a sua indignidade, adere à vontade de Deus, "porque – afirma – tão pouco aproveitei das tuas graças que não posso vir a acreditar que tenham sido agraciadas para mim somente, não podendo a tua eterna sabedoria ser frustrada por alguém. Foi, pois, o Doador de todo o bem que me ofereceu gratuitamente dons tão imerecidos, para que, lendo este escrito, o coração de pelo menos um de seus amigos seja comovido pelo pensamento de que o zelo das almas levou a deixar por tanto tempo uma joia de valor tão inestimável em meio à lama abominável do meu coração" (Ibid., II,5, p. 100s).
Em particular, dois favores lhe são caros mais que qualquer outro, como a própria Gertrudes escreve: "Os estigmas das tuas salutares chagas que me imprimistes, quase preciosas joias, no coração, e a profunda e salutar ferida de amor com que o assinalastes. Tu me inundastes com esses Teus dons de tamanha felicidade que, ainda que eu tivesse que viver milhares de anos sem qualquer consolação interna ou externa, a sua recordação seria suficiente para confortar-me, iluminar-me, encher-me de gratidão. Desejastes ainda introduzir-me na inestimável intimidade da tua amizade, abrindo-me de diversos modos aquele sacrário nobilíssimo da tua Divindade que é o teu Coração divino […]." (Ibid., II, 23, p. 145).
Voltada para a comunhão sem fim, conclui a sua existência terrena em 17 de novembro de 1301 ou 1302, à idade de cerca de 45 anos. No sétimo Exercício, aquele da preparação à morte, Santa Gertrudes escreve: "Ó Jesus, tu que me és imensamente querido, estejas sempre comigo, para que o meu coração permaneça contigo e o teu amor persevere comigo sem divisão e o meu trânsito seja abençoado por ti, de tal forma que o meu espírito, desprendido dos laços da carne, possa imediatamente encontrar repouso em ti. Amém" (Exercícios, Milano 2006, p. 148).
Parece-me óbvio que essas não são coisas do passado, históricas, mas a existência de Santa Gertrudes permanece uma escola de vida cristã, de caminho justo, e mostra-nos que o centro de uma vida feliz, de uma vida verdadeira, é a amizade com Jesus, o Senhor. E essa amizade aprende-se no amor pela Sagrada Escritura, no amor pela liturgia, na fé profunda, de modo a conhecer sempre mais realmente o próprio Deus e, assim, a verdadeira felicidade, a meta da nossa vida. 

·         Parte da Catequese de Bento XVI sobre Santa Gertrudes proferida - 2010