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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Tertuliano de Cartago (155-220)
Apologia (Introdução e Resumo dos capítulos)
Apologia é a
obra mais importante de Tertuliano, escrita no ano 197 e dirigida aos
governantes do Império Romano.
Tertuliano
nasceu em Cartago no ano 155 dC e aí exercia sua profissão de advogado quando,
em 193, converteu-se ao Cristianismo, passando a exercer também a atividade de
catequista junto à Igreja.
Sua inteligência
e sólida formação jurídica foram claramente demonstradas nesta obra, em que
defende os cristãos, apelando por seu direito de liberdade religiosa, perante o
Império Romano cruel e perseguidor. Seus argumentos são expostos de forma
lógica e polêmica, visando o convencimento das autoridades a quem é dirigida,
questionando a "justiça" aplicada contra os cristãos, transportando a
apologética do terreno filosófico para o jurídico. "Com admirável
habilidade, Tertuliano censura os processos jurídicos, em voga, do Poder do
Estado 'gentio' contra os cristãos onde era suficiente o crime do 'nomem
christianum' (=nome 'cristão'), para acarretar a condenação. A todos os
criminosos concede-se o direito de defesa; aos cristãos, não. Àqueles, a
tortura tenta arrancar uma confissão; aos cristãos, uma apostasia. As suspeitas
iníquas espalhadas contra os cristãos, Tertuliano as repele como mentiras,
expondo, em contraposição, o essencial concernente à fé cristã e à vida das
comunidades. Concluindo, declara ser o Cristianismo uma filosofia; mas os
filósofos gentios não são obrigados, como os cristãos, a sacrificar e podem até
negar os deuses impunemente. Todavia, as crueldades gentílicas não prejudicarão
os cristãos; ao contrário, 'o sangue dos cristãos é como semente que
brota'" (B.Altaner/A.Stuiber).
"Raramente
um discurso de defesa cristão conhecera semelhante precisão de argumentos
jurídicos, semelhante rudeza de ironia, semelhantes aspereza de lógica, onde os
argumentos são desferidos como golpes certeiros, as fórmulas marteladas, os
dilemas inelutáveis, sem concessões à posição dos poderes públicos ou dos
filósofos. Para ele [Tertuliano] não basta convencer o adversário: arrasa-o,
pisa-o, humilha-o" (A.Hamman).
A atual tradução
foi realizada por José Fernandes Vidal (cc 1-30) e Luiz Fernando Karps
Pasquotto (cc 31-35).
APOLOGÍA DE
QUINTO SEPTIMIO FLORENTE TERTULIANO,
PRESBÍTERO DE CARTAGO.
Contra os Gentios em defesa dos Cristãos
DIRIGIDA AO
SENADO ROMANO
Resumo dos Capítulos
Capítulo I -
"A Verdade só deseja uma coisa dos governantes da Terra: não ser condenada
sem ser conhecida"
Capítulo II -
"Se a lei proíbe que alguém seja condenado sem defesa, por que este
direito é negado aos cristãos?"
Capítulo III -
"O pai, que costumava ser tão paciente, deserda o filho, agora obediente.
Constitui grave ofensa alguém reformar sua vida por causa do nome detestável de
'cristão'..."
Capítulo IV -
"Vemos nossos perseguidores cometendo os mesmos crimes de que nos acusam à
luz do dia. Como também são culpados dos crimes de que somos acusados sem
sentido, são merecedores de castigo e caem no ridículo"
Capítulo V -
"Que qualidade de leis são essas que somente os ímpios e injustos, os vis,
os sanguinários, os sem sentimentos, os insanos, executam contra nós?"
Capítulo VI -
"Estais sempre louvando os tempos antigos e, contudo, a cada dia aceitais
novidades em vosso modo de vida"
Capítulo VII -
"Somos acusados de realizar um rito sagrado no qual imolamos uma
criancinha e então a comemos; e, após o banquete, praticamos incesto e nos
entregamos a nossas ímpias luxúrias na imoralidade da escuridão" •
Capítulo VIII -
"O que fazer se houver cristãos sem parentes cristãos? Não será tido,
então, por um verdadeiro seguidor de Cristo, quem não tiver um irmão ou um
filho?"
Capítulo IX -
"As duas cegueiras caminham juntas. Aqueles que não veem o que acontece,
pensam que veem o que não acontece"
Capítulo X -
"Vós nos acusais: 'Não adorais os deuses e não ofereceis sacrifícios aos
imperadores'"
Capítulo XI -
"Já que não ousais negar que essas vossas divindades foram homens e deveis
aceitar que foram elevadas à divindade após sua morte, examinemos no que isso
implica"
Capítulo XII -
"Não fazemos certamente injúrias àqueles que estamos certos de serem
nulidades. O que não existe está em sua inexistência livre do sofrimento"
Capítulo XIII -
"Constatando que apenas adorais um ou outro deus, certamente ofendeis
àqueles que não adorais. Não podeis dar preferência a um sem desprezar o outro,
pois a seleção de um implica na rejeição do outro"
Capítulo XIV -
"Voltando a vossos livros dos quais tirais vossos ensinamentos de
sabedoria e os nobres deveres da vida, que coisas ridículas ali
encontro..."
Capítulo XV -
"É certamente entre os devotos de vossa religião que sempre se encontram
os perpetradores de sacrilégios; porque os cristãos não entram em vossos
templos nem mesmo durante o dia"
Capítulo XVI -
"Não podemos de boa vontade deixar passar nenhum boato contra nós sem
refutação"
Capítulo XVII -
"O objeto de nossa adoração é um Único Deus que, por sua palavra de ordem,
sua sabedoria ordenadora, seu poder Todo-Poderoso, tirou do nada toda a matéria
de nosso mundo"
Capítulo XVIII -
"Um dia, tais coisas foram para nós, também, tema de ridículo. Nós somos
de vossa geração e natureza: os homens se tornam, não nascem cristãos!"
Capítulo XIX -
"Vossos próprios deuses, vossos próprios tempos, oráculos e ritos sagrados
são menos antigos do que a palavra de um único profeta"
Capítulo XX -
"Tudo aquilo que vos cerca, estou na vossa dianteira anunciando. Tudo o
que vos cerca e agora vedes foi previamente anunciado. Tudo o que agora vedes
já foi anteriormente predito aos ouvintes humanos"
Capítulo XXI -
"Além da questão da idade, não concordamos com os judeus em suas
particularidades com respeito à alimentação, aos dias sagrados, nem mesmo no
seu bem conhecido sinal da circuncisão, nem no uso de um nome comum"
Capítulo XXII -
"Também afirmamos, com certeza, a existência de certos seres espirituais,
cujos nomes não vos são desconhecidos"
Capítulo XXIII -
"Zombai como gostais de fazer, mas juntai-vos aos demônios, se assim
quereis, em vossas zombarias. Que eles neguem que Cristo virá para julgar cada
alma humana que já existiu"
Capítulo XXIV -
"Se está claro que vossos deuses não existem, não há religião, no caso. Se
não existe religião, somos certamente inocentes de qualquer ofensa contra a
religião"
Capítulo XXV -
"Mas que loucura agora é atribuir a grandeza do nome romano aos méritos da
religião, já que foi depois que Roma se tornou um Império que a religião que
ela professa promoveu seu progresso!"
Capítulo XXVI -
"A Roma de simplicidade rural dos tempos primitivos é mais velha do que
muitos de seus deuses. Ela reinou antes que seu orgulhoso e imenso Capitólio
fosse construído"
Capítulo XXVII -
"Porque, embora todo o poder dos demônios e maus espíritos nos esteja
sujeito, contudo, como escravos, indispostos muitas vezes, estão cheios de
medo: assim são eles também"
Capítulo XXVIII
- "Entre vós, o povo também jura falso mais facilmente pelo nome de todos
os deuses, do que pelo nome do supremo Imperador"
Capítulo XXIX -
"Mas sois ímpios a tal ponto que procurais a divindade onde não está, que
a procurais naqueles que não a possuem"
Capítulo XXX -
"Que o imperador faça guerra ao céu, que leve o céu cativo em seu triunfo,
que ponha guardas no céu, que imponha taxas ao céu! Ele não pode!"
Capítulo XXXI -
"Aquele de vós que pensa que não nos importamos com o bem-estar de César,
investigue as revelações de Deus, examine nossos livros sagrados, os quais nós
não escondemos e que por muitas maneiras acabam parando nas mãos daqueles que
não são dos nossos"
Capítulo XXXII -
"Enquanto nos recusamos jurar pelo gênio de César, nós juramos por sua
segurança, a qual é muito mais importante que todo seu gênio. São vocês
ignorantes do fato de que esses gênios são chamados “Daimones”, e que o
diminutivo “Daimonia” é aplicado a eles?"
Capítulo XXXIII
- "Nunca irei chamar o imperador de Deus, e isso porque não está em mim
ser culpado de falsidade; ou porque eu não me atrevo a expô-lo ao ridículo; ou
porque ele mesmo não desejará ter esse alto nome a ele aplicado. Se ele é
somente um homem, é do seu interesse como homem dar a Deus seu alto posto"
Capítulo XXXIV -
"Cessem também de atribuir o nome sagrado àquele que necessita de Deus. Se
essa adulação mentirosa não é vergonhosa, chamando divino um homem, deixe que
ele tenha pavor pelo menos do mau presságio o qual ele suporta"
Capítulo XXXV -
"Se não estou enganado, os senadores eram romanos; isto é, eles não eram
cristãos. Ainda todos eles, na véspera de suas traições, ofereceram sacrifícios
pela vida do imperador, e juraram por ele; uma coisa em profissão e outra em
seus corações; e eles tinham o hábito de denominar os cristãos de inimigos do
Estado" • [...] »
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serviu para sua espiritualidade?
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