Divisão do Tratado
O
Tratado está dividido em 12 livros.
O livro I começa autobiografia. Refere-se
às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.
O livro II é um resumo da
doutrina da Trindade.
O livro III trata do mistério da
distinção e unidade do Pai e do Filho.
No livro IV o autor apresenta a
carta de Ário a Alexandre de Alexandria e demonstra a divindade de Filho a
partir de citações tiradas do Antigo Testamento.
O livro V também cita o Antigo
Testamento para demonstrar a divindade do Filho, que não é um outro Deus ao
lado do Pai.
O livro VI refere-se novamente à
carta de Ário e argumenta a partir do Novo Testamento.
1.
A novidade das
palavras abalou o Apóstolo Filipe. Vê-se o Homem, e este confessa ser o Filho
de Deus. Afirma que, se for conhecido, também o Pai será conhecido. Diz que o
Pai foi visto e deve-se conhecer o Pai, porque Ele já foi visto.
2.
A fraqueza do espírito
humano não entende isto, nem a capacidade humana de crer suporta a profissão de
tão diversas afirmações: que Aquele que já foi visto agora deve ser conhecido,
pois ter visto já é o conhecimento; que, se o Filho é conhecido, também o Pai é
conhecido, quando a vista e o tato corporais permitiram o conhecimento do
Filho, como Homem, e a natureza humana que eles viram, sendo diferente da do
Pai, não se presta ao conhecimento do Pai, pois o próprio Filho havia afirmado
freqüentemente que o Pai nunca fora visto por alguém.
3. Explode a familiaridade e a franqueza do apóstolo: Senhor,
mostra-nos o Pai, e isto nos basta. Aqui a fé não hesita, mas o erro vem da
ignorância.
4. O Senhor já dissera que o Pai tinha sido visto e seria
conhecido, mas o apóstolo não entendera que o tinha visto. Por isso, não negou
o que viu, mas rogou que lhe fosse mostrado. Não desejava que fosse mostrado
como uma visão corpórea, mas pedia uma demonstração para entender o que vira.
Pois vira o Filho na forma de Homem, mas, não podia entender como vira o Pai
deste modo.
5. Por isso, após ter dito: Senhor,
mostra-nos o Pai, para mostrar que esta demonstração se referia mais ao
conhecimento do que à visão, acrescentou: e isto nos basta.
6. Não se exclui a fé no que foi dito, mas é pedida uma demonstração
suficiente para crer na palavra, porque pela autoridade da declaração do Senhor
não havia incerteza quanto ao crer. Daí nasceu o pedido para mostrar o Pai, porque
fora dito que já o tinham visto e que já deviam tê-lo conhecido por tê-lo
visto. Não era, portanto, atrevimento pedir que se mostrasse o que já fora
visto.
Capítulo 36.
7. Às palavras de Filipe, o Senhor assim responde: Há
tanto tempo estou convosco e não me conheces? (Jo 14,9).
8. Censura o apóstolo por não ter sabido conhecê-lo, porque dissera
acima que, sendo Ele conhecido, o Pai também seria conhecido. Mas por que então
reprova por não ter sido conhecido durante tanto tempo? Porque, se o tivessem conhecido,
a divindade da natureza paterna seria conhecida nele. Aquilo que fazia era próprio
de Deus: andar sobre as ondas, ordenar aos ventos, exigir a fé nas ações não compreendidas,
transformar o vinho, multiplicar os pães, expulsar demônios, vencer doenças,
reconstituir danos nos corpos, corrigir defeitos de nascença, perdoar os pecados,
dar nova vida aos mortos; e fazer isto de modo carnal; e, com isso, se declarar
Filho de Deus.
9. Daí nasceu toda a questão: não entendiam que estas coisas
eram realizadas pela natureza de Deus no Homem assumido, no mistério do
nascimento humano.
Capítulo 37.
10. Censurando-os porque, depois de ter feito estas coisas
durante tanto tempo, ainda não o conheciam, diz aos que pediam que lhes
mostrasse o Pai: Quem me vê, vê também o Pai (Jo 14,9).
11. ]Não quer, aqui, referir-se à contemplação corporal e à
visão dos olhos carnais, mas sim àqueles olhos dos quais dissera: Não
dizeis que ainda outros quatro meses e chegará a colheita? Eis que vos digo,
erguei vossos olhos e contemplai os campos, que já estão brancos para a messe (Jo 4,35).
12. Nem o tempo supõe, nem a indicação dos campos brancos para a
messe permite que se entenda aqui o olhar terreno e corpóreo.
13. É para a felicidade de contemplar os perfeitos frutos que
manda erguer os olhos da mente. Do mesmo modo diz agora: Quem me
vê, vê também o Pai. Não é aquilo que é carnal, pelo parto da Virgem, que pode
dar a contemplar nele a forma e imagem de Deus, nem aspecto de Homem que
assumiu é exemplo, para se ver a natureza incorpórea de Deus. Deus é conhecido
nele, se Ele mesmo é conhecido por alguns, pelo poder da natureza.
14. Reconhecer o Filho de Deus permite que também o Pai seja
conhecido, pois a imagem é tal que não difere pelo gênero, mas indica a sua
origem.
15. As outras imagens feitas de diversos metais, as pinturas e
demais obras de arte reproduzem as formas daquilo que representam, mas poderão,
acaso, pelo fato de serem imagens, as coisas inanimadas, igualar-se às coisas
vivas?
16. As obras de arte, pintadas, esculpidas ou fundidas, poderão
igualar-se ao que é natural? O Filho não é a imagem do Pai como estas imagens
são imagens de outras coisas, porque é a imagem viva do Vivente e, nascido
dele, não tem absolutamente diferença alguma de natureza em relação Àquele de
quem não difere pelo poder.
17. Portanto, por ser imagem, o nascimento do Deus Unigênito
mostra Deus Pai. Ele mesmo é imagem do Deus invisível (Cl 1,15), por isso, não
perde a semelhança da natureza, visto que não é destituído do poder da
natureza.
Capítulo 38.
18. Daí a pergunta: Há tanto tempo estou convosco, e
não me conheces? Filipe, quem me vê, vê também o Pai. Como dizes tu:
“Mostra-nos o Pai”? Não crês em mim, que eu estou no Pai e o Pai em mim?
19. Para falar sobre as coisas de Deus, não resta ao homem senão
a Palavra de Deus. Tudo mais é tacanho, fechado, embaraçado e obscuro.
20. Se alguém quiser demonstrá-lo com outras palavras, a não ser
por aquilo que já foi dito por Deus, ou não entenderá ele mesmo, ou deixará os
que lerem sem entender.
21. O Senhor disse, ao lhe rogarem que mostrasse o Pai: Quem me
vê, vê também o Pai. Mudar isso pertence ao anticristo; negá-lo, aos judeus;
ignorá-lo, aos gentios.
22. Talvez haja erro na inteligência e vício na nossa fé, se nas
palavras de Deus permanece a obscuridade. Pois estas palavras não significam
que Deus seja solitário, mas ensinam a professar a natureza não diferenciada.
23. Que no Filho seja visto também o Pai significa que Deus não
é solitário e que o Filho não é diferente, porque o Pai é visto por meio dele.
24. E não deixam de ser Um na confissão do mistério e não são
também uma só pessoa. Pergunto o que pensamos que o Senhor quis dizer com as
palavras: Quem me vê, vê também o Pai. Não há unicidade de
pessoa onde, pela conjunção, se entende que se acrescenta o nome do Pai como
algo de diferente. Pois, ao dizer: também o Pai, fica excluída toda
idéia de singular e de único. E o que resta, a não ser que, pela semelhança da
natureza comum, o Pai seja visto por meio do Filho?
25. Para que isso não nos deixe incertos quanto à fé, o Senhor
acrescenta: Como dizes tu: “Mostra-nos o Pai”? Que possibilidade
havia de ignorar o Pai? Que necessidade haveria de mostrar o Pai aos
ignorantes, se o Pai era visto no Filho?
Capítulo 39.
26. É visto pela natureza que é própria ao Pai e ao Filho,
porque, dada a não-diferença da natureza e a realidade de seu modo de ser, o
que nasceu e o que gerou são Um, de modo que, a seguir, vem esta palavra do
Senhor: Não credes que eu estou no Pai, e o Pai em mim?
27. Que o Pai e o Filho sejam inseparáveis, pela semelhança de
sua natureza, não podemos afirmar com outras palavras, a não ser as do Filho.
28. O Filho, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, não representa
comédias como as do teatro, mudando de nome e de aparência, de tal modo que, ao
assumir a natureza do homem, fosse chamado Filho de Deus, mas pela natureza
fosse Deus Pai, e sendo Um só, fingisse ser outro, pela mudança de personagem.
Não é, de modo algum, o mesmo solitário, que ora se apresenta como Filho, ora
confessa ser o Pai, usando o nome da natureza, sem que haja natureza.
29. É outra aqui a clareza das palavras. O Pai é o Pai, o Filho
é o Filho, e nestes nomes e realidades
não existe nada de estranho, nada de novo, nada de diferente. A verdade da
natureza mantém as suas propriedades, de modo que Aquele que nasceu de Deus
seja Deus, e não haja na natividade diminuição nem diversidade, já que o Filho
não subsiste em natureza estranha e diferente da natureza de Deus Pai.
30. O Pai não adquire algo que lhe seja alheio pela natividade
do Unigênito. Antes, tudo o que é seu, Ele o concede, sem diminuição para si
mesmo, ao doá-lo. O Filho não deixa de ter a natureza de Deus, porque, sendo
Deus, não procede de nenhum outro princípio, mas procede de Deus e não é
diferente de Deus, pois não é outro senão Deus.
31. O que nasceu de Deus subsiste no Filho e, pela natividade de
Deus, a natureza de Deus não é privada de sua divindade pela qual é Deus. O Pai
está no Filho, e o Filho no Pai. Deus está em Deus, não pela conjunção de dois
gêneros diversos que se unem pela inserção de uma natureza exterior em uma
substância mais forte, porque, pela lei dos corpos, o interior não pode se tornar
exterior àquilo que o contém, mas sim pela natividade de um vivente, vindo de uma
natureza que vive.
32. Pois a essência não é diferente, a natividade não faz
degenerar a natureza de Deus, o que nasce é Deus de Deus para ser Deus e não é
algo diverso. Nada há de novo, nada de alheio, nada de separável.
33. Crer no Pai e no Filho como dois deuses é ímpio, pregar o
Pai e o Filho como um Deus solitário é sacrilégio, negar a unidade
pela semelhança da essência do Deus nascido de Deus é blasfêmia.
Capítulo 40.
34. Para que a fé evangélica não recebesse como dúbio e ambíguo
este mistério, o Senhor manteve esta ordem de sua doutrina: Não
credes que eu estou no Pai e o Pai em mim?
As palavras que vos digo, não vos digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece
em mim, realiza suas obras (Jo 14,10).
35. Com que outras palavras, pergunto, se pôde e se pode
demostrar que o Pai e o Filho têm a mesma natureza, senão com estas, que tão
claramente indicam a natividade?
36. Ao dizer: As palavras que vos digo, não vos digo por mim mesmo,
não excluiu a pessoa, nem negou a filiação, nem escondeu ter
em si a natureza do poder do Pai.
37. Quando Ele mesmo fala, fala permanecendo na sua substância,
mas, quando não fala por si mesmo, atesta que é o Filho de Deus, nascido de Deus
Pai.
38. É inseparável do Pai, idêntico a Ele, pela unidade de
natureza, porque, embora fale por Ele, é Ele próprio que fala. Quem não fala
por si mesmo e, no entanto fala, não pode não existir, visto que fala. Enquanto
não fala por si, mostra não ser somente dele aquilo que fala, pois acrescenta: o Pai,
que permanece em mim, realiza as suas obras.
39. Permanecer o Pai no Filho não é próprio de um singular nem de
um único. Operar o Pai pelo Filho indica que não se trata de um diferente ou
exterior. Assim como não é próprio de um só não dizer por si mesmo o que diz,
também o que é alheio e separável não pode falar mediante o que fala, mas tudo
isto é o mistério dos que são um.
40. Não são distintos um do outro, os que, pela natureza que
lhes é própria, habitam um no outro. Nisto consiste a unidade: o que fala não
fala por si, e o que fala por si não deixa de falar. E porque ensinara que o
Pai nele não só fala, mas realiza suas obras, confirmou a fé nesta unidade
perfeita, ao dizer: Mas o Pai, que permanece em mim, realiza as suas
obras. Crede em mim: eu estou no Pai, e o Pai está em mim. Crede, ao menos, por
causa destas obras (Jo 14,10-12).
41. O Pai opera no Filho, mas o Filho realiza a obra do Pai.
Capítulo 41.
42. Para que não se creia que o Pai fala e opera no Filho pelo
seu poder e não pela natureza que o Filho possui por nascimento, assim diz: Crede
em mim: eu estou no Pai, e o Pai está em mim. Que quer dizer isto: Crede
em mim? Certamente se refere ao que foi dito: Mostra-nos
o Pai.
43. A mesma fé que pedira que lhes mostrasse o Pai é confirmada
pelo preceito de crer. Pois não bastava ter dito: Quem me
vê, vê também o Pai, a menos que a nossa inteligência pudesse ser levada até o
ponto de conhecermos o Pai no Filho e de nos lembrarmos de que o Filho está no
Pai, de tal modo que não julgássemos haver uma transfusão de um no outro, em
vez de, pela geração e natividade, a unidade da mesma natureza nos dois.
44. O Senhor quer que se creia nele, para que não aconteça
talvez que, pelo mistério da assunção da humanidade pelo Filho, a consciência da
fé corra perigo.
45. Se a carne, o corpo e a paixão produzem dúvida, ao menos
pelas obras se creia que Deus está em Deus, que Deus nasceu de Deus e que são
Um, visto que, pelo poder da natureza, cada um subsiste em si e não há um sem o
outro. No Filho, o Pai nada perde do que é seu, e o Filho recebe do Pai tudo
aquilo que o faz ser Filho.
46. Não pertence à natureza dos corpos esta condição: que
estejam um no outro, que tenham perfeita unidade da natureza em sua
subsistência pessoal e que o Filho Unigênito permaneça no ser, inseparável da
verdadeira divindade paterna. Isto é próprio somente do Deus Unigênito, esta é
a fé no mistério da verdadeira natividade, isto é obra do poder espiritual: não
ser em nada diferentes, ser e estar no outro, porém não
estar no outro, como uma coisa em outra diferente, como um corpo em outro
corpo, mas sim ser e ter subsistência pessoal, de tal maneira que se esteja
naquele que também subsiste pessoalmente, porém estar nele, de tal modo que o
mesmo que está também subsista como pessoa.
47.
Subsistindo ambos, um não subsiste sem
o outro, já que, pela geração e natividade, não é diferente a natureza de um e
de outro. Isto é o que significa Eu e o Pai somos Um; Quem me
vê, vê também o Pai, e: Eu estou no Pai e o Pai está em mim. O Filho não é
diferente nem inferior, porque a natureza de uma única divindade no Pai e no Filho
realiza o mistério do nascimento, pois o Filho de Deus não é senão Deus.
48.
Por isso a geração do Unigênito não
supõe dois deuses, porque o Filho de Deus, nascendo como Deus, mostra ter em si
a natureza do Deus que o gera.
O que você destaca neste texto?
Como ele serve para sua espiritualidade?
Como este estudo tem feito bem para sua vida?
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