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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou
de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Extensas (55
regras)
Questões 31 a 35
QUESTÃO 31
DEVE SER RECEBIDO O SERVIÇO PRESTADO PELO SUPERIOR
Resposta
1.
Seja
aceito até mesmo o serviço material prestado por aqueles que são considerados
como tendo precedência na comunidade. A humildade que sugere ao maior pôr-se a
serviço mostra ao menos que não é fora de propósito ser servido.
2.
A
tal nos induz o exemplo do Senhor que se dignou lavar os pés de seus
discípulos, sem que esses ousassem resistir- lhe. Até Pedro que, por grande
reverência, de início recusara, logo voltou à obediência, instruído acerca do
perigo da desobediência.
3.
Não
haja receio da parte do súdito de perder a humildade se for servido pelo maior.
Este serviço, muitas vezes, é prestado menos por necessidade premente do que
para ministrar-lhe um ensinamento, ou antes, um exemplo eficaz.
4.
Evidencie,
portanto, a humildade pela obediência e a imitação. E não relute, por falsa humildade,
enquanto de fato está agindo por orgulho e arrogância. A contradição manifesta
independência e insubmissão.
5.
Dá
assim mais exemplo de orgulho e de desprezo do que de humildade, de obediência
em tudo. Necessário, portanto, se torna obedecer ao que disse: Suportai-vos
caridosamente uns aos outros (Ef 4,2).
QUESTÃO 32
RELAÇÕES COM OS PARENTES
Resposta
6.
Uma
vez admitido na comunidade dos irmãos, ninguém obterá permissão do superior
para vagar por qualquer motivo que seja; nem, sob pretexto de visitar os parentes,
afaste-se dos irmãos, levando uma vida longe de testemunhas, ou se envolva em
negócios, por solicitude de patrocinar os consanguíneos.
7.
A
Palavra de Deus veta absolutamente usarem-se na comunidade dos irmãos as
expressões: meu e teu. A multidão dos fiéis, diz-se, era um
só coração e uma só alma. Nenhum dizia que eram suas as coisas
que possuía (At 4,32) . Sejam, portanto, os pais segundo a carne ou os
irmãos, se vivem segundo o que Deus ordena, venerados por todos da comunidade
como se fossem pais ou parentes.
8.
Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está
nos céus, diz
o Senhor, este é meu irmão e minha irmã e mãe (Mt 12,50).
Julgamos, no entanto, caber ao superior da comunidade cuidar deles. Se, porém,
estão implicados na vida profana, nada há de comum entre eles e nós, que nos
esforçamos por manter a honestidade e a fidelidade ininterrupta a Deus.
9.
Além
de lhes sermos inúteis, ainda enchemos nossa vida de perturbação e de agitação
e procuramos ocasião de pecado. Todavia não é conveniente receber a visita dos que
outrora nos eram familiares, se desprezam os mandamentos de Deus e não fazem caso
da obra da piedade, porque não amam o Senhor, que disse: Aquele que não
ama, não guarda as minhas palavras (Jo 14,24). Que união pode
haver entre a justiça e a iniquidade? Ou de comum entre o fiel e o infiel? (2Cor
6,14.15).
10.
Antes
de tudo, é preciso, de todos os modos, ter empenho em afastar qualquer ocasião
de pecado dos que ainda se exercitam no bem; a maior destas ocasiões é a
recordação da vida passada. Não lhes suceda o que foi dito: Em seus
corações voltaram para o Egito (Nm 14,4).
11.
Em geral, tal acontece quando têm frequentes e
assíduos encontros com os parentes.
12.
Não
se permita absolutamente que parentes ou estranhos falem com os irmãos, se não
estivermos seguros de que as conversas tratam da edificação e do
aperfeiçoamento das almas.
13.
Se
houver necessidade de falar com os que alguma vez vêm visitar, façam-no aqueles
aos quais foi confiado o dom da palavra, como os que podem, com sabedoria,
falar e ouvir, para a edificação da fé; o Apóstolo manifestamente ensina que
nem todos possuem a capacidade de falar, mas poucos são dotados desse carisma,
dizendo: Porque a um é dada pelo Espírito a linguagem da sabedoria, a
outro, porém, a linguagem da ciência (ICor 12,8). E em outro lugar: Para
que possa exortar na sã doutrina e rebater os que a contradizem (Tt 1,9
QUESTÃO 33
RELAÇÕES COM AS IRMÃS
Resposta
14.
Quem
renunciou às núpcias, evidentemente renunciou mais ainda aos cuidados que, diz
o Apóstolo, atribulam o casado, isto é, como há de dar gosto a sua mulher (ICor
7,33) , e se libertará totalmente do desejo de agradar a uma mulher, receoso do
juízo daquele que disse: Deus dispersa os ossos dos que procuram agradar
aos homens (SI 52,6).
15.
Com
o fito de obter favor, nem mesmo com um homem quer encontrar-se, mas vai
conversar com ele pelo zelo que se deve ao próximo, segundo o mandamento de
Deus, quando houver necessidade. Não se dê licença de conversar,
indistintamente, a quem o desejar, nem qualquer tempo ou lugar para tal fim se
presta.
16.
Mas
se, de acordo com o preceito do Apóstolo, não queremos ser motivo de
escândalo nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a
Igreja de Deus (ICor 10, 32), e sim, fazer tudo com respeito, ordem e
para a edificação, será necessário escolher devidamente as pessoas, o tempo, a
utilidade e o lugar. Com isto, afugentar-se-á até mesmo a sombra de uma
suspeita.
17.
Em
tudo constituirá uma manifestação de gravidade e de prudência a atitude dos que
foram escolhidos para se verem e conferenciarem acerca do que agrada a Deus,
quer em vista das exigências do corpo, quer da cura das almas. Não sejam menos de
dois, de cada lado.
18.
Sobre
uma pessoa só facilmente recaem suspeitas, para não dizer coisa pior. Além
disso, teria ela menos vigor para confirmar o que foi dito, pois a Escritura
declara nitidamente que toda questão se resolva diante de duas ou três testemunhas
(Dt 19,15; Mt 18,16). Não mais de três, porém, para não se tolher o zelo ardente
que o mandamento de Nosso Senhor Jesus Cristo suscita.
19.
Se
houver necessidade de que outros da comunidade falem ou ouçam qualquer coisa
particular a respeito de alguém, não venham pessoalmente conversar, mas alguns
anciões escolhidos tratem do assunto com anciãs determinadas e assim, por seu intermédio,
faça-se o que for mister.
20.
Seja
mantida esta ordem não só das mulheres para com os homens, ou dos homens para com
as mulheres, mas até entre os do mesmo sexo. Estes, por conseguinte, além da
piedade e da gravidade em tudo, sejam cautelosos nas perguntas e respostas,
fiéis e prudentes no proferir as palavras, cumprindo o que foi dito: Disporá
seus discursos com juízo (SI 111,5), de modo que se cuide simultaneamente
do bem daqueles que lhes confiaram o negócio e fique resolvida a questão
ventilada.
21.
Atendam
outros às necessidades corporais; sejam experimentados, de idade provecta e de
hábitos e costumes graves, a fim de não se ferir a consciência de outrem com
qualquer suspeita de mal. Por que razão seria regulada a minha liberdade
pela consciência alheia? (ICor 10,29).
QUESTÃO 34
COMO DEVEM SER OS QUE DISPENSAM O NECESSÁRIO À
COMUNIDADE
Resposta
22.
Entre os que, dentro, distribuem o necessário, é
preciso absolutamente que haja alguns em
cada ofício que imitem o que narram os Atos: Repartia-se, então, a cada um
deles conforme a necessidade (At 4,35).
23.
Tenham
principalmente a preocupação de ser misericordiosos e pacientes para com todos,
sem provocarem suspeitas de simpatia ou parcialidade, segundo a ordem do
Apóstolo que diz: Nada fazendo por espirito de parcialidade (lTm 5,21),
ou ainda de contestação, que ele rejeita como inconveniente aos cristãos, ao
dizer: Se, no entanto, alguém quiser com estar, nós não temos tal costume e
nem as igrejas de Deus (ICor 11,16).
24.
Alguns
subtraem o necessário àqueles com os quais estão em desacordo e dão
excessivamente àqueles por quem sentem simpatia. O primeiro modo de agir é ódio
fraterno, o segundo, simpatia muito repreensível por afugentar da comunidade a
concórdia, originária da caridade, que é substituída pelas suspeitas, as
emulações, as disputas e a preguiça para o trabalho.
25.
Têm
a máxima obrigação, aqueles que distribuem à comunidade o necessário, de
libertarem-se das simpatias e antipatias, tanto pelo supra referido, quanto por
muitas outras circunstâncias semelhantes.
26.
Devem
estar cônscios dessa disposição de ânimo e mostrar tal zelo, eles e os que
exercem outros ofícios a serviço da comunidade, como quem serve não aos homens,
mas ao próprio Senhor que, em sua grande bondade, toma como prestadas a si
mesmo a consideração e a solicitude para com os que lhe são consagrados e
promete em vista disto a herança do reino dos céus.
27.
Vinde, disse, benditos do meu Pai, tomai posse
do reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Todas as vezes que
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o
fizestes (Mt 25, 34.40). Ao contrário, reconheçam o perigo da negligência,
lembrados daquele que disse: Maldito aquele que faz com negligência a obra
do Senhor (Jr 48,10).
28.
Porque
não só serão expulsos do reino, mas espera-os aquela sentença tremenda e
terrível, proferida contra tais homens: Retirai-vos de mim, malditos! Ide
para o fogo eterno, destinado ao demônio e a seus anjos (Mt 25,41). Se
aqueles que assumem as preocupações e o serviço recebem tal recompensa do zelo,
e se tamanho juízo aguarda a negligência, que solicitude não devem empregar os
que têm de servir, para se tornarem dignos da denominação de irmãos do Senhor!
29.
Ensina-o
o Senhor ao dizer: Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos
céus, este é meu irmão e minha irmã e minha mãe (Mt 12,50).
30.
Incorre
em perigo quem não propuser a vontade de Deus como escopo de toda a vida;
assim, se na saúde não mostrar o labor da caridade pelo zelo nas obras do
Senhor e na doença alegremente não demonstrar grande paciência e tolerância.
31.
O
primeiro maior de todos os perigos, porém, é distanciar-se do Senhor e do
convívio dos irmãos, porque separa-se por si mesmo quem não faz a vontade de
Deus.
32.
O
segundo consiste em que, sendo indigno, ousa participar das coisas preparadas
para os que são dignos. Neste ponto mister se faz lembrar-se do Apóstolo que
diz: Senão seus colaboradores, exortamo-vos a que não recebais a graça de
Deus em vão (2Cor 6,1).
33.
Aqueles
que foram chamados para serem irmãos do Senhor, não desonrem tamanha graça de
Deus, nem traiam tal dignidade, descuidando-se da vontade de Deus, mas antes
obedeçam ao Apóstolo, quando diz: Exorto-vos, pois, prisioneiro que sou
pela causa do Senhor que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes
chamados (Ef 4,1).
QUESTÃO 35
SE CONVÉM ESTABELECER NUMA ALDEIA MAIS DE UMA
COMUNIDADE DE IRMÃOS
Resposta
34.
O
exemplo dos membros já muito empregado é de utilidade para explanar esta
questão. Como foi declarado acima, um corpo que queira ser belo e devidamente
capaz de qualquer ação, precisa de olhos, língua e dos restantes órgãos, todos indispensáveis
e bem importantes.
35.
Mas,
de fato, é dificílimo e árduo encontrar uma pessoa que possa servir de olhos
para muitos.
36.
Pois,
se a disciplina exige que o superior da comunidade dos irmãos seja previdente,
perito na palavra, sóbrio, misericordioso e procure com um coração perfeito os
juízos de Deus, como seria possível encontrar numa mesma aldeia muitos com
estas qualidades?
37.
Se
acaso acontecer que haja dois ou três, o que não é fácil e nunca tivemos
conhecimento que tenha havido muito melhor seria partilharem juntos estas
preocupações, aliviando-se mutuamente no labor, de modo que, em caso de viagem,
ocupação ou outras circunstâncias, por exemplo, se acontecer que um superior
deixe a comunidade, haja outro para consolar deste abandono, a menos que parta para
socorrer outra comunidade desprovida de guia.
38.
A
experiência obtida nos negócios de fora pode ser de grande vantagem para o escopo
que visamos. Como os peritos do mesmo ofício invejam seus rivais e a emulação
no mesmo artesanato surge ocultamente, assim, na maioria dos casos, acontece
nesse tipo de vida.
39.
De
início, rivalizam-se no bem e esforçam-se por superar uns aos outros, quer na
recepção dos hóspedes, no aumento do número dos ascetas, ou em outras obras
deste gênero. Vão avante e caem em contendas. Se advêm irmãos peregrinos, sentem
estes muitas dúvidas e dificuldades, ao invés da tranquilidade desejada,
divididos pelo pensamento de onde se hospedar.
40.
É
difícil preferir uns a outros e impossível satisfazer a ambos, principalmente
quando têm pressa. Aqueles que de início vêm para abraçar a mesma vida, ficam
em grande perplexidade, porque devem escolher os superiores para os dirigirem
e, na verdade, se preferem uns, reprovam os outros.
41.
Então,
já desde o primeiro dia, são prejudicados pelo orgulho, porque não se dispõem a
aprender, mas acostumam-se a ser juízes e censores da comunidade.
42.
Desde
que não há bem evidente algum em existirem casas separadas e são tais os
inconvenientes, é completamente despropositado separarem-se uns dos outros.
43.
Se
acontecer que alguém haja presumido fazê-lo, urge uma mudança, principalmente
após a experiência dos prejuízos decorrentes desta situação. Manter a própria
opinião seria contestação manifesta. Se, no entanto, alguém quiser
contestar..., diz o Apóstolo, nós não temos tal costume, nem as
igrejas áe Deus (ICor 11,16).
44.
Que
motivo hão de alegar como impedimento à união? Será por causa do necessário?
Mas, é muito mais fácil adquiri-lo para uma casa comum, onde há uma só lâmpada,
um só fogo; estas e outras coisas semelhantes são suficientes para todos.
45.
Importa,
pois, nestas e outras questões ir ao encalço da facilidade maior, de todos os
modos, a fim de se reduzir a quantidade das coisas necessárias. Além disso,
casas separadas necessitam de maior fornecimento vindo de fora para a
comunidade; da metade, se numa só casa.
46.
Sem
que o diga, sabeis como é difícil encontrar alguém que não ocasione opróbrio ao
nome de Cristo, mas que se porte com os de fora nas viagens de modo digno de
sua profissão.
47.
Ademais,
como poderão os que se mantêm separados edificar os que levam a vida comum,
quer impelindo-os a paz, se for ocaso, quer exortando-os ao cumprimento
de outros mandamentos, uma vez que, não se unindo, suscitam suspeitas contra si
mesmos?
48.
Ouvimos
também que o Apóstolo escreveu aos filipenses: Completai a minha alegria
permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma, e os mesmos pensamentos.
Nada façais por espírito de partido ou vangloria, mas com humildade,
considerando os outros superiores a vós mesmos, visando cada um não os seus próprios
interesses, senão os dos outros (PI 2,2-3).3.
49.
Pode
haver maior demonstração de humildade do que a sujeição dos superiores das
comunidades entre si? Se são iguais em carismas espirituais, é belo vê-los
unidos no combate.
50.
Conforme
o próprio Senhor nos mostrou, enviando dois a dois(Mc 6,7), assim cada um deles
se submeterá com alegria ao outro em tudo, lembrado do Senhor, que disse: Quem
se humilha, será exaltado (Lc 18,14).
51.
Se
acontecer que um tenha menos e outro mais, será melhor que o mais fraco seja
assumido pelo mais forte. E como não seria uma desobediência aberta ao preceito
apostólico que diz: Visando cada um não os próprios interesses, senão os
dos outros (F1 2,4)?
52.
Julgo
que não é possível realizar isto com a divisão, porque cada uma das turmas
cuidará em particular dos seus componentes, alheando-se das solicitudes para
com os outros, o que, como disse, claramente se opõe ao preceito apostólico.
53.
Também
nos Atos, muitas vezes é atestado dos santos a que se referem: A multidão
dos fiéis era um só coração e uma só alma(At 4,32). ou: E todos
os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum (At 2,44). É evidente não
ter havido separação entre eles.
54.
Ninguém
vivia por própria conta, mas todos eram regidos por um só e mesmo governo; e
sendo em número de 5.000, haveria, talvez, não poucas razões, segundo as
cogitações humanas, que poderiam obstar à concórdia.
55.
Quando
o total dos que se acham numa aldeia é muito menor, que motivo haverá de se separarem
uns dos outros? Oxalá fosse possível não só aos de uma mesma aldeia
conservarem-se reunidos, mas que muitas comunidades, constituídas em lugares
diferentes, fossem regidas por um só daqueles que sabem governar a todos com equidade
e sabedoria, na unidade de Espírito e nos vínculos da paz.
O que você destaca
no texto?
Como serve para
sua espiritualidade?
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