sábado, 29 de novembro de 2025

297 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Extensas (55 regras) - Questões 31 a 35

 


297

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Extensas (55 regras) 

Questões 31 a 35

 

QUESTÃO 31

DEVE SER RECEBIDO O SERVIÇO PRESTADO PELO SUPERIOR

 Resposta

1.      Seja aceito até mesmo o serviço material prestado por aqueles que são considerados como tendo precedência na comunidade. A humildade que sugere ao maior pôr-se a serviço mostra ao menos que não é fora de propósito ser servido. 

2.      A tal nos induz o exemplo do Senhor que se dignou lavar os pés de seus discípulos, sem que esses ousassem resistir- lhe. Até Pedro que, por grande reverência, de início recusara, logo voltou à obediência, instruído acerca do perigo da desobediência.

3.      Não haja receio da parte do súdito de perder a humildade se for servido pelo maior. Este serviço, muitas vezes, é prestado menos por necessidade premente do que para ministrar-lhe um ensinamento, ou antes, um exemplo eficaz.

4.      Evidencie, portanto, a humildade pela obediência e a imitação. E não relute, por falsa humildade, enquanto de fato está agindo por orgulho e arrogância. A contradição manifesta independência e insubmissão.

5.      Dá assim mais exemplo de orgulho e de desprezo do que de humildade, de obediência em tudo. Necessário, portanto, se torna obedecer ao que disse: Suportai-vos caridosamente uns aos outros (Ef 4,2).

 

QUESTÃO 32

RELAÇÕES COM OS PARENTES

 Resposta

6.      Uma vez admitido na comunidade dos irmãos, ninguém obterá permissão do superior para vagar por qualquer motivo que seja; nem, sob pretexto de visitar os parentes, afaste-se dos irmãos, levando uma vida longe de testemunhas, ou se envolva em negócios, por solicitude de patrocinar os consanguíneos.

7.      A Palavra de Deus veta absolutamente usarem-se na comunidade dos irmãos as expressões: meu e teu. A multidão dos fiéis, diz-se, era um só coração e uma alma. Nenhum dizia que eram suas as coisas que possuía (At 4,32) . Sejam, portanto, os pais segundo a carne ou os irmãos, se vivem segundo o que Deus ordena, venerados por todos da comunidade como se fossem pais ou parentes.

8.      Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, diz o Senhor, este é meu irmão e minha irmã e mãe (Mt 12,50). Julgamos, no entanto, caber ao superior da comunidade cuidar deles. Se, porém, estão implicados na vida profana, nada há de comum entre eles e nós, que nos esforçamos por manter a honestidade e a fidelidade ininterrupta a Deus.

9.      Além de lhes sermos inúteis, ainda enchemos nossa vida de perturbação e de agitação e procuramos ocasião de pecado. Todavia não é conveniente receber a visita dos que outrora nos eram familiares, se desprezam os mandamentos de Deus e não fazem caso da obra da piedade, porque não amam o Senhor, que disse: Aquele que não ama, não guarda as minhas palavras (Jo 14,24). Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou de comum entre o fiel e o infiel? (2Cor 6,14.15).

10.  Antes de tudo, é preciso, de todos os modos, ter empenho em afastar qualquer ocasião de pecado dos que ainda se exercitam no bem; a maior destas ocasiões é a recordação da vida passada. Não lhes suceda o que foi dito: Em seus corações voltaram para o Egito (Nm 14,4).

11.   Em geral, tal acontece quando têm frequentes e assíduos encontros com os parentes.

12.  Não se permita absolutamente que parentes ou estranhos falem com os irmãos, se não estivermos seguros de que as conversas tratam da edificação e do aperfeiçoamento das almas.

13.  Se houver necessidade de falar com os que alguma vez vêm visitar, façam-no aqueles aos quais foi confiado o dom da palavra, como os que podem, com sabedoria, falar e ouvir, para a edificação da fé; o Apóstolo manifestamente ensina que nem todos possuem a capacidade de falar, mas poucos são dotados desse carisma, dizendo: Porque a um é dada pelo Espírito a linguagem da sabedoria, a outro, porém, a linguagem da ciência (ICor 12,8). E em outro lugar: Para que possa exortar na sã doutrina e rebater os que a contradizem (Tt 1,9

 

QUESTÃO 33

RELAÇÕES COM AS IRMÃS

Resposta

 

14.  Quem renunciou às núpcias, evidentemente renunciou mais ainda aos cuidados que, diz o Apóstolo, atribulam o casado, isto é, como há de dar gosto a sua mulher (ICor 7,33) , e se libertará totalmente do desejo de agradar a uma mulher, receoso do juízo daquele que disse: Deus dispersa os ossos dos que procuram agradar aos homens (SI 52,6).

15.  Com o fito de obter favor, nem mesmo com um homem quer encontrar-se, mas vai conversar com ele pelo zelo que se deve ao próximo, segundo o mandamento de Deus, quando houver necessidade. Não se dê licença de conversar, indistintamente, a quem o desejar, nem qualquer tempo ou lugar para tal fim se presta.

16.  Mas se, de acordo com o preceito do Apóstolo, não queremos ser motivo de escândalo nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus (ICor 10, 32), e sim, fazer tudo com respeito, ordem e para a edificação, será necessário escolher devidamente as pessoas, o tempo, a utilidade e o lugar. Com isto, afugentar-se-á até mesmo a sombra de uma suspeita.

17.  Em tudo constituirá uma manifestação de gravidade e de prudência a atitude dos que foram escolhidos para se verem e conferenciarem acerca do que agrada a Deus, quer em vista das exigências do corpo, quer da cura das almas. Não sejam menos de dois, de cada lado.

18.  Sobre uma pessoa só facilmente recaem suspeitas, para não dizer coisa pior. Além disso, teria ela menos vigor para confirmar o que foi dito, pois a Escritura declara nitidamente que toda questão se resolva diante de duas ou três testemunhas (Dt 19,15; Mt 18,16). Não mais de três, porém, para não se tolher o zelo ardente que o mandamento de Nosso Senhor Jesus Cristo suscita.

19.  Se houver necessidade de que outros da comunidade falem ou ouçam qualquer coisa particular a respeito de alguém, não venham pessoalmente conversar, mas alguns anciões escolhidos tratem do assunto com anciãs determinadas e assim, por seu intermédio, faça-se o que for mister.

20.  Seja mantida esta ordem não só das mulheres para com os homens, ou dos homens para com as mulheres, mas até entre os do mesmo sexo. Estes, por conseguinte, além da piedade e da gravidade em tudo, sejam cautelosos nas perguntas e respostas, fiéis e prudentes no proferir as palavras, cumprindo o que foi dito: Disporá seus discursos com juízo (SI 111,5), de modo que se cuide simultaneamente do bem daqueles que lhes confiaram o negócio e fique resolvida a questão ventilada.

21.  Atendam outros às necessidades corporais; sejam experimentados, de idade provecta e de hábitos e costumes graves, a fim de não se ferir a consciência de outrem com qualquer suspeita de mal. Por que razão seria regulada a minha liberdade pela consciência alheia? (ICor 10,29).

 

QUESTÃO 34

COMO DEVEM SER OS QUE DISPENSAM O NECESSÁRIO À COMUNIDADE

 Resposta


22.  Entre os que, dentro, distribuem o necessário, é preciso  absolutamente que haja alguns em cada ofício que imitem o que narram os Atos: Repartia-se, então, a cada um deles conforme a necessidade (At 4,35).

23.  Tenham principalmente a preocupação de ser misericordiosos e pacientes para com todos, sem provocarem suspeitas de simpatia ou parcialidade, segundo a ordem do Apóstolo que diz: Nada fazendo por espirito de parcialidade (lTm 5,21), ou ainda de contestação, que ele rejeita como inconveniente aos cristãos, ao dizer: Se, no entanto, alguém quiser com estar, nós não temos tal costume e nem as igrejas de Deus (ICor 11,16).

24.  Alguns subtraem o necessário àqueles com os quais estão em desacordo e dão excessivamente àqueles por quem sentem simpatia. O primeiro modo de agir é ódio fraterno, o segundo, simpatia muito repreensível por afugentar da comunidade a concórdia, originária da caridade, que é substituída pelas suspeitas, as emulações, as disputas e a preguiça para o trabalho.

25.  Têm a máxima obrigação, aqueles que distribuem à comunidade o necessário, de libertarem-se das simpatias e antipatias, tanto pelo supra referido, quanto por muitas outras circunstâncias semelhantes.

26.  Devem estar cônscios dessa disposição de ânimo e mostrar tal zelo, eles e os que exercem outros ofícios a serviço da comunidade, como quem serve não aos homens, mas ao próprio Senhor que, em sua grande bondade, toma como prestadas a si mesmo a consideração e a solicitude para com os que lhe são consagrados e promete em vista disto a herança do reino dos céus.

27.  Vinde, disse, benditos do meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25, 34.40). Ao contrário, reconheçam o perigo da negligência, lembrados daquele que disse: Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor (Jr 48,10).

28.  Porque não só serão expulsos do reino, mas espera-os aquela sentença tremenda e terrível, proferida contra tais homens: Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, destinado ao demônio e a seus anjos (Mt 25,41). Se aqueles que assumem as preocupações e o serviço recebem tal recompensa do zelo, e se tamanho juízo aguarda a negligência, que solicitude não devem empregar os que têm de servir, para se tornarem dignos da denominação de irmãos do Senhor!

29.  Ensina-o o Senhor ao dizer: Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão e minha irmã e minha mãe (Mt 12,50).

30.  Incorre em perigo quem não propuser a vontade de Deus como escopo de toda a vida; assim, se na saúde não mostrar o labor da caridade pelo zelo nas obras do Senhor e na doença alegremente não demonstrar grande paciência e tolerância.

31.  O primeiro maior de todos os perigos, porém, é distanciar-se do Senhor e do convívio dos irmãos, porque separa-se por si mesmo quem não faz a vontade de Deus.

32.  O segundo consiste em que, sendo indigno, ousa participar das coisas preparadas para os que são dignos. Neste ponto mister se faz lembrar-se do Apóstolo que diz: Senão seus colaboradores, exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão (2Cor 6,1).

33.  Aqueles que foram chamados para serem irmãos do Senhor, não desonrem tamanha graça de Deus, nem traiam tal dignidade, descuidando-se da vontade de Deus, mas antes obedeçam ao Apóstolo, quando diz: Exorto-vos, pois, prisioneiro que sou pela causa do Senhor que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados (Ef 4,1).

 

QUESTÃO 35

SE CONVÉM ESTABELECER NUMA ALDEIA MAIS DE UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS

 Resposta


34.  O exemplo dos membros já muito empregado é de utilidade para explanar esta questão. Como foi declarado acima, um corpo que queira ser belo e devidamente capaz de qualquer ação, precisa de olhos, língua e dos restantes órgãos, todos indispensáveis e bem importantes.

35.  Mas, de fato, é dificílimo e árduo encontrar uma pessoa que possa servir de olhos para muitos.

36.  Pois, se a disciplina exige que o superior da comunidade dos irmãos seja previdente, perito na palavra, sóbrio, misericordioso e procure com um coração perfeito os juízos de Deus, como seria possível encontrar numa mesma aldeia muitos com estas qualidades?

37.  Se acaso acontecer que haja dois ou três, o que não é fácil e nunca tivemos conhecimento que tenha havido muito melhor seria partilharem juntos estas preocupações, aliviando-se mutuamente no labor, de modo que, em caso de viagem, ocupação ou outras circunstâncias, por exemplo, se acontecer que um superior deixe a comunidade, haja outro para consolar deste abandono, a menos que parta para socorrer outra comunidade desprovida de guia.

38.  A experiência obtida nos negócios de fora pode ser de grande vantagem para o escopo que visamos. Como os peritos do mesmo ofício invejam seus rivais e a emulação no mesmo artesanato surge ocultamente, assim, na maioria dos casos, acontece nesse tipo de vida.

39.  De início, rivalizam-se no bem e esforçam-se por superar uns aos outros, quer na recepção dos hóspedes, no aumento do número dos ascetas, ou em outras obras deste gênero. Vão avante e caem em contendas. Se advêm irmãos peregrinos, sentem estes muitas dúvidas e dificuldades, ao invés da tranquilidade desejada, divididos pelo pensamento de onde se hospedar.

40.  É difícil preferir uns a outros e impossível satisfazer a ambos, principalmente quando têm pressa. Aqueles que de início vêm para abraçar a mesma vida, ficam em grande perplexidade, porque devem escolher os superiores para os dirigirem e, na verdade, se preferem uns, reprovam os outros.

41.  Então, já desde o primeiro dia, são prejudicados pelo orgulho, porque não se dispõem a aprender, mas acostumam-se a ser juízes e censores da comunidade.

42.  Desde que não há bem evidente algum em existirem casas separadas e são tais os inconvenientes, é completamente despropositado separarem-se uns dos outros.

43.  Se acontecer que alguém haja presumido fazê-lo, urge uma mudança, principalmente após a experiência dos prejuízos decorrentes desta situação. Manter a própria opinião seria contestação manifesta. Se, no entanto, alguém quiser contestar..., diz o Apóstolo, nós não temos tal costume, nem as igrejas áe Deus (ICor 11,16).

44.  Que motivo hão de alegar como impedimento à união? Será por causa do necessário? Mas, é muito mais fácil adquiri-lo para uma casa comum, onde há uma só lâmpada, um só fogo; estas e outras coisas semelhantes são suficientes para todos.

45.  Importa, pois, nestas e outras questões ir ao encalço da facilidade maior, de todos os modos, a fim de se reduzir a quantidade das coisas necessárias. Além disso, casas separadas necessitam de maior fornecimento vindo de fora para a comunidade; da metade, se numa só casa.

46.  Sem que o diga, sabeis como é difícil encontrar alguém que não ocasione opróbrio ao nome de Cristo, mas que se porte com os de fora nas viagens de modo digno de sua profissão.

47.  Ademais, como poderão os que se mantêm separados edificar os que levam a vida comum, quer impelindo-os a paz, se for ocaso, quer exortando-os ao cumprimento de outros mandamentos, uma vez que, não se unindo, suscitam suspeitas contra si mesmos?

48.  Ouvimos também que o Apóstolo escreveu aos filipenses: Completai a minha alegria permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma, e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vangloria, mas com humildade, considerando os outros superiores a vós mesmos, visando cada um não os seus próprios interesses, senão os dos outros (PI 2,2-3).3.

49.  Pode haver maior demonstração de humildade do que a sujeição dos superiores das comunidades entre si? Se são iguais em carismas espirituais, é belo vê-los unidos no combate.

50.  Conforme o próprio Senhor nos mostrou, enviando dois a dois(Mc 6,7), assim cada um deles se submeterá com alegria ao outro em tudo, lembrado do Senhor, que disse: Quem se humilha, será exaltado (Lc 18,14).

51.  Se acontecer que um tenha menos e outro mais, será melhor que o mais fraco seja assumido pelo mais forte. E como não seria uma desobediência aberta ao preceito apostólico que diz: Visando cada um não os próprios interesses, senão os dos outros (F1 2,4)?

52.  Julgo que não é possível realizar isto com a divisão, porque cada uma das turmas cuidará em particular dos seus componentes, alheando-se das solicitudes para com os outros, o que, como disse, claramente se opõe ao preceito apostólico.

53.  Também nos Atos, muitas vezes é atestado dos santos a que se referem: A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma(At 4,32). ou: E todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum (At 2,44). É evidente não ter havido separação entre eles.

54.  Ninguém vivia por própria conta, mas todos eram regidos por um só e mesmo governo; e sendo em número de 5.000, haveria, talvez, não poucas razões, segundo as cogitações humanas, que poderiam obstar à concórdia.

55.  Quando o total dos que se acham numa aldeia é muito menor, que motivo haverá de se separarem uns dos outros? Oxalá fosse possível não só aos de uma mesma aldeia conservarem-se reunidos, mas que muitas comunidades, constituídas em lugares diferentes, fossem regidas por um só daqueles que sabem governar a todos com equidade e sabedoria, na unidade de Espírito e nos vínculos da paz.

 

O que você destaca no texto?

Como serve para sua espiritualidade? 


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