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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou
de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Extensas (55
regras)
Questões 23 a 30
QUESTÃO
23 - O CINTO
Resposta
1.
Os
santos das épocas anteriores manifestam ser necessário o cinto. João cingia os
rins com um cinto de couro (Mt 3,4); já antes dele, Elias. Está escrito como
característica sua: Era um homem coberto de peles e que trazia um cinto
em volta dos rins (2Rs 1,8). Pedro também usava cinto, o que se
evidencia das palavras do anjo: Cinge-te e calça as tuas sandálias (At
12,8). Igualmente se pode verificar que São Paulo usava cinto, pela profecia de
Ágabo a seu respeito: Assim, em Jerusalém, ligarão o homem a quem
pertence este cinto (ibid. 21,11). E o Senhor ordena a Jó que se cinja,
como símbolo de ânimo viril e pronto para obrar, ao dizer: Cinge os teus
rins como um homem (Jo 38,3).
2.
É
evidente ter sido habitual a todos os discípulos do Senhor usar cinto, pois
foi-lhes proibido levar dinheiro nos cintos (Mt 10,9).
3.
Aliás,
é indispensável a quem quer por si fazer um trabalho cingir-se e ter movimentos
livres. Daí vem a necessidade do cinto, para a túnica se ajustar ao corpo.
4.
Se
forem bem distribuídas as pregas, isto ajudá-lo-á a ter movimentos desimpedidos.
5.
Por
esta razão, também o Senhor, quando se preparava para prestar o ministério aos
discípulos, pegando duma toalha, cingiu-se (Jo 13,4).
6.
Acerca
da quantidade das vestes nada precisamos dizer, uma vez que dispusemos o
suficiente ao tratarmos da pobreza. Se, pois, ordena-se a quem tem duas túnicas
dar uma a quem não tem (Lc 3,11), é claro ser proibido ter muitas só para si.
Para aquele a quem é vedado ter duas túnicas, de que serve legislar sobre o uso
delas?
QUESTÃO 24 -TUDO ISSO NOS FOI BEM TRANSMITIDO. CONVIRÍA AGORA
APRENDERMOS COMO CONVIVER
Resposta
7.
Tendo
dito o Apóstolo: Mas faça-se tudo com decência e ordem (ICor
14,40), julgamos ser honesto e bem ordenado um modo de viver na sociedade dos
fiéis que salvaguarde a relação de membros de um só corpo.
8.
Que
a um se faculte ser olho, entregando-se-lhe o cuidado dos bens comuns;
examinará o que já tiver sido feito e preverá e considerará o que há de fazer.
Um outro fará de ouvidos ou de mãos: ouvirá ou fará o que convier; e assim por
diante, cada um terá a sua atribuição.
9.
Saibam
que, entre os membros, é perigoso para um descuidar-se do que lhe compete ou
usar de um outro membro para fim diverso daquele em vista do qual Deus o fez.
10.
Se
a mão ou o pé não obedecerem à direção do olho, a primeira tocará forçosamente
em coisas perniciosas para a ruína do todo; o segundo tropeçará ou mesmo se
precipitará num abismo.
11.
Se
o olho se fechar para não ver, necessariamente também ele perecerá com os
demais membros, que sofrerem o que foi dito. Assim, ao prepósito é perigoso qualquer
descuido, porque ao ser julgado dará contas de todos.
12.
Ao
súdito, a desobediência é detrimento e dano. Pior ainda, se ele escandalizar os
outros. Todo aquele que, em seu próprio lugar, mostrar um zelo incansável e
cumprir o preceito do Apóstolo que diz: Não relaxeis o vosso selo (Rm
12,11), receberá o louvor devido à sua solicitude; se, ao invés, for
negligente, será denominado infeliz e merecerá aquele ai: Maldito, diz-se,
aquele que fez com negligência a obra do Senhor (Jr 48,10).
QUESTÃO 25 - TERRÍVEL O JUÍZO DO SUPERIOR QUE NÃO REPREENDER OS QUE
PECAM
Resposta
13.
Por
esta razão, aquele ao qual foi confiada a direção de todos, considere que terá
de certo modo de dar contas de cada um.
14.
Na verdade, se um dos irmãos cair em
pecado por não lhe haver ele antes anunciado os juízos de Deus, ou se
permanecer na queda por não lhe ter o superior ensinado o modo de se corrigir,
o sangue dele será requerido das suas mãos (Ez 3,20), como está escrito; mas,
principalmente, se negligenciar, não por ignorância, alguma das coisas que
agradam a Deus, mas se, por conivência com os vícios de cada um, arruinar a
austeridade da vida comum.
15.
Os que te chamam bem-aventurado, diz-se, esses
mesmos te enganam e destroem o caminho por onde tu passas (Is 3,11). Aquele
que vos perturbar, responderá por isto; seja quem for, sofrerá a condenação (G1
5,10).
16.
Para
não sofrermos tal coisa, cabe-nos seguir a regra apostólica nos colóquios com
os irmãos. Nunca usamos de adulação, como sabeis, nem fomos levados por interesse
algum. Deus é testemunha. Não buscamos as glórias humanas, nem de vós, nem de
outros (lTs 2,5-6).
17.
Quem
está livre destes vícios, poderá, talvez, sem erro, orientar, de maneira
proveitosa para si, e salutar para os que o seguirem. Aquele que está
verdadeiramente estabelecido na caridade e não age no intuito de obter honras
humanas, nem para evitar ofender aos delinquentes e ser- lhes suave e grato, anunciará
a palavra com liberdade, sinceridade e pureza, porque em nada quer adulterar a
verdade.
18.
São-lhe
bem aplicáveis as seguintes palavras: Sentindo, assim, tanta afeição, decidimos
dar a vocês não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida,
porque vocês se tornaram muito amados por nós (lTs 2,8).
19.
Quem
assim não proceder, é um guia cego e lança-se no precipício, arrastando
juntamente consigo os que o seguem.
20.
Do
acima referido se vê o grande mal em ser para o irmão, ao invés de direção
segura, causa de erro. Além do mais, é sinal de que o mandamento da caridade
não foi cumprido.
21.
Não
há pai que veja o filho em perigo de cair numa fossa, ou já caído, e o abandone
na queda. Quem pode dizer quanto é pior abandonar na perdição a alma que caiu
no abismo dos males?
22.
É
dever, portanto, vigiar pelas almas dos irmãos e preocupar-se com a salvação de
cada um deles, pois disso há de prestar contas. Preocupar-se, até à morte
mostrar solicitude para com eles, não só seguindo a palavra do Senhor sobre a
caridade, dirigida a todos geralmente: Que cada um dê a sua vida por seus
amigos (Jo 15,13), mas também aquela especial dita pelo Apóstolo: Em
nossa ternura por vós desejavamos não só comunicar-vos o Evangelho de Deus, mas
até a nossa própria vida (lTs 2,8).
QUESTÃO 26 - DE
QUE TUDO, ATÉ MESMO OS SEGREDOS DO CORAÇÃO, DEVE SER MANIFESTADO AO SUPERIOR
Resposta
23.
O
súdito que quiser fazer grande progresso e permanecer num estado de vida
segundo os preceitos de Nosso Senhor Jesus Cristo, não oculte nenhum dos
sentimentos da alma, nem profira palavras inconsideradas, mas descubra os
segredos do coração aos irmãos aos quais foi confiado o cuidado de curar os
fracos com misericórdia e compaixão.
24.
Deste
modo consolida-se o que é louvável e ao que é reprovável aplicam-se remédios apropriados.
Esta mútua ascese, por um progresso lento, leva-nos a adquirir a perfeição.
QUESTÃO 27
O PRÓPRIO
SUPERIOR, SE ERRAR, SEJA ADVERTIDO PELOS IRMÃOS MAIS ANTIGOS DA COMUNIDADE
Resposta
25.
Como
o superior em tudo deve ser o guia da comunidade dos irmãos, assim, vice-versa,
aos demais toca adverti-lo, se o superior foi suspeito de um delito.
26.
Para
não arruinar a disciplina, a advertência compete aos mais avançados tanto em
idade quanto em prudência.
27.
Se
houver algo merecedor de correção, auxiliaremos a um irmão e através dele, a
nós mesmos, fazendo voltar ao bom caminho aquele que é uma espécie de regra de nossa
própria vida e que deve redarguir os nossos desvios com sua retidão.
28.
Se,
porém, foi em vão que se perturbaram alguns, persuadidos, pela evidência, da
falsidade de sua suspeita, ver-se-ão livres da suposição.
QUESTÃO 28 - COMO SE COMPORTARÃO TODOS EM RELAÇÃO A UM
DESOBEDIENTE
Resposta
29.
Em
primeiro lugar, todos se compadeçam, como de um membro doente, de quem obedece
aos mandamentos do Senhor com negligência.
30.
O
superior tente curar esta doença com exortações oportunas. Mas, se ele
perseverar na sua obstinação, e não aceitar a correção, seja repreendido mais
severamente diante de toda a comunidade dos irmãos, e tratado com toda a espécie
de admoestações.
31.
Se
não se emendar após muitas advertências e não quiser por si sanar seu modo de
agir, sendo para si mesmo uma peste, como diz o provérbio, com muitas lágrimas
e gemidos, seja amputado do corpo como um membro gangrenado e completamente
inútil, à imitação do que fazem os médicos.
32.
Se
estes encontram um membro atingido de doença incurável, para que a infecção não
se alastre muito e não contagie as partes contíguas e próximas, costumam
tirá-lo, cortando ou cauterizando.
33.
Assim
façamos também nós, com os que odeiam e impedem os mandamentos do Senhor,
segundo o preceito do Senhor, que diz: Se o teu olho direito é para ti
causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti (Mt 5,29).
34.
Quem
lhes mostra amizade, imita a bondade desordenada de Eli, arguida por não ter
sido empregada para com os filhos de modo agradável a Deus (lRs 3,13).
35.
Fingir bondade para com os maus seria
trair a verdade, armar insídias à comunidade e facilitar a indiferença diante
do pecado.
36.
De modo algum realiza o que foi escrito: Nem
tendes manifestado tristeza para que seja tirado dentre vós o que cometeu tal
ação? (ICor 5,2).
37.
Forçosamente
acontece o que se segue: Um pouco de fermento leveda a massa toda (ibid.
6). Aos faltosos, diz o Apóstolo, repreende-os diante de
todos (ITm 5,20), e acrescenta imediatamente a causa, quando diz: Para
que também os demais se atemorizem.
38.
Em
resumo, aquele que não aceita bem o corretivo ministrado pelo superior, é inconsequente
consigo mesmo. Se recusa submeter-se e defende sua própria vontade, por que permanece
em companhia dele? Por que o declara preposto à sua vida?
39.
Uma
vez que consentiu em ser agregado ao corpo da comunidade dos irmãos, se foi
considerado instrumento idôneo para um serviço, mesmo no caso de julgar que a
ordem está acima de suas forças, deixará a responsabilidade a quem ordena o que
ultrapassa suas forças e mostrar-se-á dócil e obediente até a morte, lembrado
do Senhor que se tornou obediente até a morte e morte de cruz (F1
2,8).
40.
Rebelar-se
e contradizer seria demonstrar muitos males: doença na fé, dúvida na esperança,
orgulho e soberba nos costumes.
41.
Ninguém
desobedece sem ter antes menosprezado quem tal determinou. Se alguém acredita
nas promessas de Deus e deposita nelas firme esperança, não hesitará nem ainda
quando as ordens são árduas, sabendo que os sofrimentos da presente vida não
têm proporção alguma com a glória futura que deve ser manifestada (Rm 8,18).
E, persuadido de que quem se humilhar, será exaltado (Mt 23,12),
mostrará maior prontidão ainda do que espera quem manda, ciente de que a
nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, produz em nós um peso eterno
de glória incomensurável (2Cor 4,17).
QUESTÃO 29 - ORGULHO OU MURMURAÇÃO NO TRABALHO
Resposta
42.
Não
se junte a obra de quem murmurar ou que for surpreendido a se orgulhar às dos
humildes de coração e de espírito contrito; os piedosos não a utilizem de modo
algum. Porque o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos
de Deus (Lc 16,15).
43.
Há
outro preceito do Apóstolo assim formulado: Nem murmureis, como
murmuraram alguns deles e foram mortos pelo exterminador (2Cor 10,10).
E: Sem tristeza nem constrangimento cada um dê segundo propôs em seu
coração, pois Deus ama ao que dá com alegria (2Cor 9,7).
44.
Não se aceite sua obra como sendo um
sacrifício abominável. Não convém misturá-la às obras dos demais. Se os que
ofereceram ao altar um fogo estranho experimentaram tal ira (Lv 10,1.2), como
seria inofensivo utilizar na prática dos mandamentos o trabalho resultante de
um ânimo infenso a Deus? Que união pode haver entre a justiça e a
iniquidade? Ou que parte tem o fiel com o infiel? (2Cor 6,14.15).
45.
Por
esta razão se diz: O iníquo que imola um boi é como o que parte a nuca de
um cão e o que apresenta a oblação é o que derrama sangue de porco (Is
66,3). Daí ser mister remover da comunidade dos irmãos as obras do preguiçoso e
do rebelde.
46.
É
preciso que os superiores zelem muito por isto. Que não se destrua o preceito
daquele que disse: Será meu ministro o que segue o caminho reto. O
soberbo não há de morar jamais em minha casa (SI 100,6.7).
47.
Não
consintam permaneça em sua perversidade aquele que junta ao preceito o pecado,
ou contamina a obra por unir ao trabalho a preguiça ou o orgulho da própria
suficiência, porque os que o acolherem tomam-no insensível aos próprios males.
48.
Persuada-se
o superior de que se não dirigir a seu irmão como convém, atrairá sobre si ira
grave e inevitável. Pedir-se-á conta de seu sangue a este (Ez 3,18), segundo
está escrito.
49.
O
súdito se disponha a cumprir sem preguiça qualquer ordem, mesmo se dificílima,
certo de que sua recompensa será grande nos céus. Rejubile ao obediente a
esperança da glória, a fim de realizar a obra do Senhor com grande alegria e
paciência.
QUESTÃO 30 - QUAL DEVE SER A ATITUDE DOS SUPERIORES AO
CUIDAREM DOS IRMÃOS
Resposta
50.
Não
se exalte o superior por causa da dignidade, para não perder a bem-aventurança
prometida à humildade (Mt 5,3), nem envaidecido venha a cair na mesma
condenação do demônio (lTm 3,6); mas esteja persuadido de que ter muitos a seu cuidado
é servir a muitos.
51.
Como
aquele que serve a muitos feridos, tira o pus de cada ferida, aplica remédios
de acordo com a natureza do mal e não faz deste ministério ocasião de soberba, mas
antes de humildade, de solicitude e de luta, assim, e até mais, o encarregado
de tratar das doenças dos irmãos, servo de todos e que de todos há de prestar
contas, deve ser refletido e solícito. Deste modo atingirá o termo, porque diz
o Senhor: Se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e o servo
de todos (Mc 9,34).
O
que você destaca em cada Questão?
Como
este estudo serve para sua espiritualidade?
O
que Você destaca na fala do seu irmão?
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