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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Extensas (55 regras). Regras 46 a 55
QUESTÃO 46 - NÃO SE OCULTEM OS PECADOS DE UM IRMÃO OU
OS SEUS PRÓPRIOS
Resposta
1.
Declare
ao superior qualquer pecado, seja quem pecou, ou quem deste pecado tiver
conhecimento, se não o puder curar, como foi ordenado pelo Senhor. O mal
encoberto pelo silêncio é uma doença mal cicatrizada na alma. Não
denominaríamos benfeitor quem guardasse num corpo males fatais, e sim, ao
contrário, aquele que mesmo com dores e incisões manifestasse a ferida, ou
provocando vômito eliminasse o que era molesto, ou finalmente, pelo diagnóstico
desse a conhecer facilmente a terapia.
2.
Assim,
é evidente que ocultar o pecado é predispor o doente para a morte. Ora, diz-se,
o aguilhão da morte é o pecado(ICor 15,56). Melhor é a
correção manifesta do que uma amizade escondida (Pr 27,5). Portanto,
que um não esconda o pecado de outro, para não se tornar fratricida, ao invés
de amigo de seu irmão; nem proceda assim em relação a si mesmo. Aquele
que é descuidado em seu trabalho, é irmão do que vai à perdição (Pr18,9).
QUESTÃO 47 - OS QUE NÃO ACEITAM O QUE O SUPERIOR
ESTABELECEU
Resposta
3.
Quem
não concordar com as decisões do superior deve abertamente ou em particular
dizê-lo, se tiver alguma razão válida, apoiada no sentido das Escrituras, ou
cumpra, calado, o que foi ordenado. Se tiver acanhamento, empregue outros como
intermediários, de modo que, se a ordem for contra a Escritura, evite o mal
para si e para os irmãos; se, porém, ficar demonstrando que não é contra a
Escritura, livre-se de um juízo vão e perigoso. Mas aquele que come,
apesar de suas dúvidas, é condenado, porque não se guia pela convicção (Rm
14,23).
4.
Não
se dê aos mais simples ocasião resvaladiça de desobediência. Mass e
alguém fizer cair em pecado um destes pequeninos, melhor fora que lhe atassem
ao pescoço a mó que um asno faz girar e o lançassem no fundo do mar (Mt
18,6). Se alguns persevera- rem na desobediência, sem revelarem tristeza, mas
murmurarem às ocultas, pelo fato de serem causa de divisão na comunidade e
abalarem a autoridade certa das ordens, tornando-se mestres de rebelião e de
desobediência, sejam expulsos da comunidade dos irmãos. Expulsa o mofador
do conselho e cessará a discórdia (Pr22,10). E ainda: Um pouco de
fermento leveda a massa toda (ICor 5,6).
QUESTÃO 48 - NÃO SE DEVE INVESTIGAR CURIOSAMENTE O GOVERNO DO
SUPERIOR, MAS ANTES ESTAR ATENTO A SEU PRÓPRIO DEVER.
Resposta
5.
Além
do mais, para não acontecer que facilmente caia alguém no vício da contestação,
com prejuízo próprio e alheio, que de modo absoluto nenhum dos irmãos, de
início, investigue curiosamente o governo do superior, nem se preocupe com o
que se faz, exceto os mais próximos dele, tanto pelo grau, quanto pela
prudência. O superior chamará a esses necessariamente a conselho e deliberação
sobre as questões de interesse comum, obediente à exortação do que disse: Não
faças coisa alguma sem conselho (Eclo 32,24).
6.
Se,
pois, lhe confiamos o governo das nossas almas, como quem há de prestar contas
a Deus, seria completamente ilógico desconfiar nas coisas mais vis e
enchermo-nos de suspeitas absurdas contra um irmão, dando aos demais também
ocasião de fazerem o mesmo. Para isto não acontecer, cada um fique no lugar
aonde foi chamado e dê-se completamente ao que lhe foi entregue, sem indagar
curiosamente dos negócios dos outros, imitando os santos discípulos do Senhor,
entre os quais a questão da samaritana podia ter suscitado uma suspeita. Nenhum,
todavia, lhe perguntou: Que desejas? ou: Que falas com ela? (Jo 4,27).
QUESTÃO 49 - CONTROVÉRSIAS ENTRE OS IRMÃOS.
Resposta
7.
Quanto
às controvérsias entre os irmãos, se alguns discordarem a respeito de alguma
questão, não devem de modo contencioso se defrontarem, mas deixem o julgamento
aos mais idôneos. Para não se perturbar a ordem, perguntando todos sempre, nem
dar ocasião a zombarias e bagatelas, é preciso haver uma pessoa bem experiente,
que possa propor o ponto duvidoso à deliberação comum dos irmãos ou referi-la
ao superior.
8.
Assim,
o exame da questão será mais exato e mais prudente. Se em qualquer negócio são
precisas ciência e experiência, nesses muito mais ainda. E se ninguém entrega instrumentos a
inexpertos, com maior razão, só se conceda o manejo da palavra a peritos que
sabem discernir o lugar, a ocasião e o modo de interrogar, perguntam sem
contradição e com prudência, ouvem com sabedoria, e com diligência dão a
solução desejada, para a edificação da comunidade.
QUESTÃO 50 - DE QUE MODO DEVE O SUPERIOR CORRIGIR.
Resposta
9.
Mesmo
nas correções, não aja o superior para com os delinquentes sob o impulso da
emoção. Repreender encolerizado e irado a um irmão não é livrá-lo do pecado e
sim envolver-se a si mesmo em falta. Por isso se diz: É com mansidão que
deve corrigir os adversários (2Tm 2,25). Não seja violento, nem mesmo
contra aqueles que, acaso, o desprezarem, e ao invés, se vir um outro
menosprezado, seja indulgente para com o pecador, mas revele maior indignação
contra o pecado.
10.
Assim
evitará suspeita de egoísmo, por agir diversamente em relação a si ou aos
outros; não mostre ódio ao pecador e sim aversão ao pecado. Se ele se indignar
contra o que foi dito, é evidente que não se irrita por causa de Deus, ou do
perigo em que incorre o pecador, mas por ambição de glória e de domínio.
Revele, pois, zelo pela glória de Deus, ofendida pela transgressão do
mandamento, de dois modos: através da misericórdia fraterna que quer salvar o
irmão em perigo por causa do pecado (porque: É o culpado que morrerá, Ez
18,4), e através do ataque que move contra qualquer pecado enquanto pecado,
patenteando o ardor do espírito na severidade da pena.
QUESTÃO 51 - A MANEIRA DE CORRIGIR AS FALTAS DE QUEM
PECOU.
Resposta
11.
Proceda-se
nas correções à maneira da medicina em relação aos pacientes: não se irrita
contra os doentes, mas combate a doença. Ataque os vícios e, se necessário, com
meios mais penosos, cure as doenças da alma. A vangloria, por exemplo, com
exercícios de humildade; as palavras ociosas, com o silêncio; o sono exagerado
com vigílias de oração; a preguiça corporal com o labor, a imoderação no comer
com o jejum; a murmuração com o retiro.
12.
Nenhum
dos irmãos trabalhe com o murmurador, nem o produto de seu trabalho seja
englobado com os dos outros, como foi dito acima, a não ser que, pela
penitência, da qual não se core, mostre que se libertou deste vício. Então,
também a obra que fez murmurando pode ser aceita; no entanto, não seja usada
para serviço dos irmãos, mas destinada a outra finalidade. A razão disto foi
suficientemente exposta acima.
QUESTÃO 52 - COM QUE DISPOSIÇÃO SERÃO RECEBIDOS OS
CASTIGOS
Resposta
13.
Dissemos
que o superior deve aplicar os tratamentos aos doentes de modo desapaixonado;
assim também os pacientes recebam os castigos sem ódio, sem considerar tirania
o cuidado que lhes é prestado por misericórdia, para a salvação de suas almas.
É vergonhoso que os fisicamente doentes confiem nos médicos a tal ponto que, se
cortam, queimam ou receitam remédios amargos, são considerados benfeitores e
nós não mantenhamos idêntica atitude para com os médicos das almas, quando por
meios severos agem em prol de nossa salvação, conforme diz o Apóstolo: Porque,
se eu vos entristeço, como poderia esperar alegria daqueles que por mim foram
entristecidos? (2Cor 2,2). E ainda: Vede, pois, que disposições
operou em vós a tristeza segundo Deus! Que zelo! Que ardor! (2Cor 7,11).
Se olharmos para o fim, consideraremos benfeitor quem nos entristece, segundo
Deus.
QUESTÃO 53 - COMO OS MESTRES DOS OFÍCIOS HÃO DE
CORRIGIR AS FALTAS DOS MENINOS
Resposta
14.
Os
mestres dos ofícios, no caso de os discípulos cometerem erros contra a própria
arte, corrijam em particular a falta e emendem os erros. Todos os pecados,
porém, que denotarem perversidade nos costumes, como sejam contumácia e
contradição, preguiça no trabalho, ou palavras ociosas, ou mentira, ou qualquer
outra coisa proibida aos que praticam a piedade, devem ser denunciados junto do
responsável pela disciplina comum e repreendidos. Excogite ele a medida e o
modo a empregar a fim de curar os pecados. Se a repreensão é o tratamento da
alma, não compete a qualquer um repreender ou curar, senão àquele a quem o
superior, após maduro exame, o permitir.
QUESTÃO 54 - CONVENIÊNCIA DE TEREM OS SUPERIORES DAS
COMUNIDADES DIÁLOGOS A RESPEITO DOS RESPECTIVOS INTERESSES
Resposta
15.
É
bom que haja, em tempos e lugares determinados, reuniões dos superiores das
comunidades dos irmãos. Exponham eles mutuamente as questões fortuitas, os
pontos morais mais difíceis e o que cada um estabeleceu, de modo que, se houver
erro, pelo julgamento de muitos se esclareça devidamente, e se foi acertado,
seja confirmado pelo testemunho de muitos.
QUESTÃO 55 - SE O USO DA MEDICINA CONVÉM ÀS
FINALIDADES DA PIEDADE
Resposta
16.
Deus
nos concedeu o auxílio das artes para suprir às debilidades de nossa natureza.
A agricultura, por exemplo, porque os produtos espontâneos da terra não seriam
suficientes para satisfazer às nossas necessidades; a têxtil, porque as vestes
são indispensáveis, tanto para o decoro quanto para defesa contra as
intempéries; e igualmente a arte da construção das casas. Assim também a
medicina.
17.
Como
o corpo passível está sujeito a vários males, quer sobrevindos de fora, quer
intrínsecos ocasionados pelos alimentos, e ora é afligido pelo excesso, ora
pela insuficiência, a medicina, cortando o supérfluo e suprindo as
deficiências, foi-nos concedida por Deus, que governa a nossa vida, como tipo
do tratamento a ser empregado para sanar a alma.
18.
Se
estivéssemos ainda no paraíso de delícias, não precisaríamos das invenções e do
labor agrícola; assim também, se tivéssemos ainda o dom da imunidade como antes
da queda, quando as coisas foram criadas, não necessitaríamos do alívio da
medicina. Mas depois de expulsos para a terra e ouvirmos a palavra: Comerás
o teu pão com o suor de teu rosto (Gn 3,19), após uma longa experiência
e muito labor no cultivo da terra, para suavizar as tristezas desta maldição,
descobrimos a agricultura, da qual Deus nos deu a inteligência e o
conhecimento.
19.
Igualmente,
tendo recebido ordem de voltar à terra de onde fomos tirados, e ligados à carne
molesta, condenada à corrupção e sujeita às doenças em consequência do pecado,
foi-nos oferecida também a ajuda da medicina, para proporcionar aos doentes
certa assistência.
20.
Não
foi fortuitamente que as ervas apropriadas à cura de cada uma das doenças
germinaram da terra. Ao contrário, foram produzidas de acordo com a vontade do
Criador, para prover às nossas necessidades. A descoberta de força natural que
há nas raízes e nas flores, nas folhas e nos frutos, nas substâncias, no que há
nas minas ou no que existe no mar presta-se ao bem do corpo. Assemelha-se aos
outros inventos, referentes à comida e à bebida. Os cristãos, no entanto, têm o
dever de evitar o que foi excogitado supérflua e minuciosamente, é obtido com
grande trabalho e absorve de certo modo nossa vida nos cuidados com o corpo.
21.
Esforcemo-nos
por usar desta arte, se precisarmos, sem lhe atribuir a causa da boa ou má
saúde, mas empreguemo-la a fim de manifestar a glória de Deus e enquanto imagem
do tratamento da alma. Se precisarmos dos socorros da medicina de modo nenhum
ponhamos a esperança da melhora dos males somente nessa arte. Devemos saber que
o Senhor não permitirá sermos tentados além do que podemos suportar (ICor
10,13), ou fará como outrora, quando fez um pouco de lodo, ungiu (o cego) e
ordenou-lhe se fosse lavar em Siloé (Jo 9,6.7), ou quando se limitou a
manifestar a própria vontade, dizendo: Quero, sê purificado (Mt
8,3).
22.
Na
verdade permite que alguns combatam em meio de aflições, tomando-os mais
recomendáveis por meio da prova. Assim também agora quer agir conosco, algumas
vezes curando de maneira invisível e escondida, quando julga proveitoso para
nossas almas; de outras vezes, porém, determina que usemos dos socorros
materiais em nossas doenças, a fim de ser duradoura a lembrança do benefício
recebido pela demora da cura, ou ainda, como disse, dá-nos um exemplo de
terapêutica espiritual. Como é forçoso para o corpo eliminar os elementos
estranhos e suprir as deficiências, assim convém remover de nossas almas o que
lhes é alheio e tomar o que é de acordo com sua natureza. Na verdade, Deus
criou o homem reto e nos fez para a prática das boas obras (Ecl 7,30).
23.
E se aceitamos para curar o corpo os cortes,
as cauterizações, os medicamentos amargos, de igual modo importa suportar para
a cura da alma as palavras cortantes da censura e os remédios amargos das
repreensões. A palavra profética exprobra os que assim não se emendam, ao
dizer: Não haverá bálsamo em Gileade? Nem se poderá encontrar um médico?
Por que, então, a ferida da filha de meu povo não se há de cicatrizar? (Jr
8,22). Se nas doenças crônicas procura-se por muito tempo obter a saúde,
empregando recursos vários e dolorosos, isto indica que devemos corrigir os
pecados da alma também com orações prolongadas, diuturna penitência e regime
mais severo, talvez mais ainda do que a razão sugere como suficiente para a
cura. Se alguns não usam convenientemente da medicina, nem por isso somos
obrigados a recusar todas as suas vantagens.
24.
Se
os intemperantes, à busca de delícias, abusam da arte culinária, da
panificação, da arte têxtil, excedendo os limites da necessidade, não
rejeitamos logo todos esses ofícios; ao contrário, pelo bom uso dos mesmos,
corrigiremos o seu abuso. Assim também quanto à medicina é ilógico opor-se a um
dom de Deus, porque alguns a empregam mal. Seria irracional colocar nas mãos do
médico a esperança da saúde; no entanto vemos que alguns infelizes o fazem, não
se corando de denominá-los seus salvadores. Seria, porém, obstinação ser
inteiramente avesso aos bens que a medicina traz.
25.
Como
Ezequias não tinha a massa de figos na conta da causa primeira de sua saúde
(2Rs 20,7), nem lhe atribuía a cura do corpo, mas acrescentou à glorificação de
Deus a ação de graças por ter criado os figos, assim também nós, se feridos por
Deus, que governa de maneira boa e sábia a nossa vida, peçamos-lhe, em primeiro
lugar, conhecimento da razão por que deste modo nos flagela; em segundo, que
nos livre dessas dores e nos dê a paciência, de modo que com a tentação nos conceda
também os meios de sairmos dela, dando nos poder de suportá-la (ICor 10,13).
26. Recebamos com
ações de graças a concessão da graça da saúde, seja por meio de um misto de
vinho com óleo (Lc 10,34), como sucedeu ao que caiu nas mãos dos ladrões, seja por
meio dos figos, como aconteceu a Ezequias (2Rs 20,7).
27. Não há diferença
se Deus nos trata de um modo invisível ou emprega elementos corpóreos; estes,
com frequência, nos levam mais eficazmente a entender o dom do Senhor. Muitas
vezes, por castigo caímos doentes e somos condenados a tratamento duro e
pesado, em substituição da pena. A reta razão nos persuade a não repudiarmos
nem os cortes, nem as cauterizações, nem a acerbidade dos remédios acres e
molestos, nem os regimes, nem a dieta estrita, nem a abstinência de coisas
mortíferas; salvo, repito-o, o bem da alma, à qual é proposto este exemplo para
seu próprio tratamento.
28.
Perigo
não pequeno há em cair no erro de pensar que toda doença reclama os subsídios
da medicina. Nem todas as doenças provêm da natureza, ou de uma alimentação
imprópria, ou de outra causa somática, para cuja terapia vemos, por vezes, ser
útil a medicina.
29.
Frequentemente,
porém, as doenças são flagelos por causa dos pecados, para nos convertermos. O
Senhor castiga aquele que ele ama (Pr 3,12); e: Esta é a razão
por que entre vós há muitos adoentados e fracos e muitos mortos. Se nos
examinássemos a nós mesmos, nós não seríamos julgados. Mas, sendo julgados pelo
Senhor, ele nos castiga para não sermos condenados com este mundo (ICor
11,30.32).
30.
Por
isso, em tais casos, logo que reconhecermos nossos delitos, desistindo da
medicina, soframos em silêncio nossas penas, segundo a palavra: Suportei
a cólera do Senhor porque tenho pecado contra ele (Mq 7,9). E assim,
emendemo-nos, produzindo dignos frutos de penitência, lembrados do Senhor que
disse: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa
pior (Jo 5,14).
31.
Às
vezes, as doenças nos advêm a pedido do maligno, quando o Senhor, amigo dos
homens, lhe apresenta para combate um grande lutador e deprime sua jactância
com a suma tolerância de seus servos, conforme sabemos ter sucedido a Jó (Jó
2,6).
32.
Deus
propõe aos intolerantes de seus próprios males o exemplo de alguns que
suportaram com perseverança as adversidades até à morte, como Lázaro do qual,
afligido por profundas úlceras (Lc 16,20), não está escrito que tivesse pedido
alguma coisa ao rico ou se mostrasse impaciente por causa da própria situação.
Por isso alcançou o repouso no seio de Abraão (ibid. 22.25), tendo recebido males
em sua vida.
33.
Encontramos
ainda outra causa das doenças que atacam os santos, como se deu com o Apóstolo.
Para não parecer ultrapassar os limites da natureza humana, nem julgasse alguém
possuir ele naturalmente algo de extraordinário (como sucedeu aos licaônios,
que lhe trouxeram coroas e touros, At 14,12) e a fim de comprovar que possuía
natureza humana, pelejava continuamente com a doença.
34.
Que
vantagens, portanto, pode trazer a medicina a tais homens? Ou antes, que perigo
não será se os desviar da reta razão para cuidarem do corpo? Os que contraíram
uma enfermidade devida a uma dieta prejudicial devem servir de modelo, pelo
tratamento do corpo, ao da alma, como se disse mais acima. Pois, convém-nos
também, de acordo com a medicina, abster-nos do que é nocivo, escolher o que é
útil, observar as prescrições.
35.
Analogamente,
a passagem da enfermidade corporal à saúde serve-nos de consolo, para não
desanimarmos a respeito da alma, como se não pudesse voltar, pela penitência,
dos pecados à própria integridade. Não evitemos, portanto, inteiramente esta
arte, nem tampouco coloquemos nela toda a nossa esperança.
36.
Mas,
como usamos da agricultura, suplicando a Deus os frutos, e como entregamos o
leme ao piloto, rogando a Deus escapemos incólumes do mar, assim também se
chamamos o médico, quando razoável, não perdemos a esperança que devemos
colocar em Deus.
37.
Parece-me
também que esta arte auxilia não pouco à continência. Vejo como corta os
prazeres, condena a saciedade e variedade dos alimentos, rejeita como
inconveniente o excessivo apuro no preparo da alimentação; em resumo, chama à
sobriedade mãe da saúde, e assim, até por esse ponto de vista, seus conselhos
não são vãos.
38.
Quer,
portanto, respeitemos algumas vezes as prescrições medicinais, quer não as
sigamos por alguma das causas acima enumeradas, preservado fique o escopo de
agradar a Deus e buscar o bem da alma, cumprindo o mandamento do Apóstolo: Quer
comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de
Deus (ICor 10,31).
O
que você destaca no texto?
O
que você destaca na fala do seu irmão/ã?
Como
serve para sua espiritualidade?