domingo, 4 de janeiro de 2026

302 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Extensas (55 regras). - Regras 46 a 55

 



302

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Extensas (55 regras). Regras 46 a 55

 

QUESTÃO 46 - NÃO SE OCULTEM OS PECADOS DE UM IRMÃO OU OS SEUS PRÓPRIOS

 

Resposta

1.      Declare ao superior qualquer pecado, seja quem pecou, ou quem deste pecado tiver conhecimento, se não o puder curar, como foi ordenado pelo Senhor. O mal encoberto pelo silêncio é uma doença mal cicatrizada na alma. Não denominaríamos benfeitor quem guardasse num corpo males fatais, e sim, ao contrário, aquele que mesmo com dores e incisões manifestasse a ferida, ou provocando vômito eliminasse o que era molesto, ou finalmente, pelo diagnóstico desse a conhecer facilmente a terapia.

2.      Assim, é evidente que ocultar o pecado é predispor o doente para a morte. Ora, diz-se, o aguilhão da morte é o pecado(ICor 15,56). Melhor é a correção manifesta do que uma amizade escondida (Pr 27,5). Portanto, que um não esconda o pecado de outro, para não se tornar fratricida, ao invés de amigo de seu irmão; nem proceda assim em relação a si mesmo. Aquele que é descuidado em seu trabalho, é irmão do que vai à perdição (Pr18,9).

 

QUESTÃO 47 - OS QUE NÃO ACEITAM O QUE O SUPERIOR ESTABELECEU

 

Resposta

3.      Quem não concordar com as decisões do superior deve abertamente ou em particular dizê-lo, se tiver alguma razão válida, apoiada no sentido das Escrituras, ou cumpra, calado, o que foi ordenado. Se tiver acanhamento, empregue outros como intermediários, de modo que, se a ordem for contra a Escritura, evite o mal para si e para os irmãos; se, porém, ficar demonstrando que não é contra a Escritura, livre-se de um juízo vão e perigoso. Mas aquele que come, apesar de suas dúvidas, é condenado, porque não se guia pela convicção (Rm 14,23).

4.      Não se dê aos mais simples ocasião resvaladiça de desobediência. Mass e alguém fizer cair em pecado um destes pequeninos, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó que um asno faz girar e o lançassem no fundo do mar (Mt 18,6). Se alguns persevera- rem na desobediência, sem revelarem tristeza, mas murmurarem às ocultas, pelo fato de serem causa de divisão na comunidade e abalarem a autoridade certa das ordens, tornando-se mestres de rebelião e de desobediência, sejam expulsos da comunidade dos irmãos. Expulsa o mofador do conselho e cessará a discórdia (Pr22,10). E ainda: Um pouco de fermento leveda a massa toda (ICor 5,6).

 

QUESTÃO 48 - NÃO SE DEVE INVESTIGAR CURIOSAMENTE O GOVERNO DO SUPERIOR, MAS ANTES ESTAR ATENTO A SEU PRÓPRIO DEVER.

 

Resposta

5.      Além do mais, para não acontecer que facilmente caia alguém no vício da contestação, com prejuízo próprio e alheio, que de modo absoluto nenhum dos irmãos, de início, investigue curiosamente o governo do superior, nem se preocupe com o que se faz, exceto os mais próximos dele, tanto pelo grau, quanto pela prudência. O superior chamará a esses necessariamente a conselho e deliberação sobre as questões de interesse comum, obediente à exortação do que disse: Não faças coisa alguma sem conselho (Eclo 32,24).

6.      Se, pois, lhe confiamos o governo das nossas almas, como quem há de prestar contas a Deus, seria completamente ilógico desconfiar nas coisas mais vis e enchermo-nos de suspeitas absurdas contra um irmão, dando aos demais também ocasião de fazerem o mesmo. Para isto não acontecer, cada um fique no lugar aonde foi chamado e dê-se completamente ao que lhe foi entregue, sem indagar curiosamente dos negócios dos outros, imitando os santos discípulos do Senhor, entre os quais a questão da samaritana podia ter suscitado uma suspeita. Nenhum, todavia, lhe perguntou: Que desejas? ou: Que falas com ela? (Jo 4,27).

 

QUESTÃO 49 - CONTROVÉRSIAS ENTRE OS IRMÃOS.

 

Resposta

7.      Quanto às controvérsias entre os irmãos, se alguns discordarem a respeito de alguma questão, não devem de modo contencioso se defrontarem, mas deixem o julgamento aos mais idôneos. Para não se perturbar a ordem, perguntando todos sempre, nem dar ocasião a zombarias e bagatelas, é preciso haver uma pessoa bem experiente, que possa propor o ponto duvidoso à deliberação comum dos irmãos ou referi-la ao superior.

8.      Assim, o exame da questão será mais exato e mais prudente. Se em qualquer negócio são precisas ciência e experiência, nesses muito mais ainda.  E se ninguém entrega instrumentos a inexpertos, com maior razão, só se conceda o manejo da palavra a peritos que sabem discernir o lugar, a ocasião e o modo de interrogar, perguntam sem contradição e com prudência, ouvem com sabedoria, e com diligência dão a solução desejada, para a edificação da comunidade.

 

QUESTÃO 50 - DE QUE MODO DEVE O SUPERIOR CORRIGIR.

 

Resposta

9.      Mesmo nas correções, não aja o superior para com os delinquentes sob o impulso da emoção. Repreender encolerizado e irado a um irmão não é livrá-lo do pecado e sim envolver-se a si mesmo em falta. Por isso se diz: É com mansidão que deve corrigir os adversários (2Tm 2,25). Não seja violento, nem mesmo contra aqueles que, acaso, o desprezarem, e ao invés, se vir um outro menosprezado, seja indulgente para com o pecador, mas revele maior indignação contra o pecado.

10.  Assim evitará suspeita de egoísmo, por agir diversamente em relação a si ou aos outros; não mostre ódio ao pecador e sim aversão ao pecado. Se ele se indignar contra o que foi dito, é evidente que não se irrita por causa de Deus, ou do perigo em que incorre o pecador, mas por ambição de glória e de domínio. Revele, pois, zelo pela glória de Deus, ofendida pela transgressão do mandamento, de dois modos: através da misericórdia fraterna que quer salvar o irmão em perigo por causa do pecado (porque: É o culpado que morrerá, Ez 18,4), e através do ataque que move contra qualquer pecado enquanto pecado, patenteando o ardor do espírito na severidade da pena.

 

 

 

QUESTÃO 51 - A MANEIRA DE CORRIGIR AS FALTAS DE QUEM PECOU.

 

Resposta

11.  Proceda-se nas correções à maneira da medicina em relação aos pacientes: não se irrita contra os doentes, mas combate a doença. Ataque os vícios e, se necessário, com meios mais penosos, cure as doenças da alma. A vangloria, por exemplo, com exercícios de humildade; as palavras ociosas, com o silêncio; o sono exagerado com vigílias de oração; a preguiça corporal com o labor, a imoderação no comer com o jejum; a murmuração com o retiro.

12.  Nenhum dos irmãos trabalhe com o murmurador, nem o produto de seu trabalho seja englobado com os dos outros, como foi dito acima, a não ser que, pela penitência, da qual não se core, mostre que se libertou deste vício. Então, também a obra que fez murmurando pode ser aceita; no entanto, não seja usada para serviço dos irmãos, mas destinada a outra finalidade. A razão disto foi suficientemente exposta acima.

 

QUESTÃO 52 - COM QUE DISPOSIÇÃO SERÃO RECEBIDOS OS CASTIGOS

 

Resposta

13.  Dissemos que o superior deve aplicar os tratamentos aos doentes de modo desapaixonado; assim também os pacientes recebam os castigos sem ódio, sem considerar tirania o cuidado que lhes é prestado por misericórdia, para a salvação de suas almas. É vergonhoso que os fisicamente doentes confiem nos médicos a tal ponto que, se cortam, queimam ou receitam remédios amargos, são considerados benfeitores e nós não mantenhamos idêntica atitude para com os médicos das almas, quando por meios severos agem em prol de nossa salvação, conforme diz o Apóstolo: Porque, se eu vos entristeço, como poderia esperar alegria daqueles que por mim foram entristecidos? (2Cor 2,2). E ainda: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que zelo! Que ardor! (2Cor 7,11). Se olharmos para o fim, consideraremos benfeitor quem nos entristece, segundo Deus.

 

QUESTÃO 53 - COMO OS MESTRES DOS OFÍCIOS HÃO DE CORRIGIR AS FALTAS DOS MENINOS

 

Resposta

14.  Os mestres dos ofícios, no caso de os discípulos cometerem erros contra a própria arte, corrijam em particular a falta e emendem os erros. Todos os pecados, porém, que denotarem perversidade nos costumes, como sejam contumácia e contradição, preguiça no trabalho, ou palavras ociosas, ou mentira, ou qualquer outra coisa proibida aos que praticam a piedade, devem ser denunciados junto do responsável pela disciplina comum e repreendidos. Excogite ele a medida e o modo a empregar a fim de curar os pecados. Se a repreensão é o tratamento da alma, não compete a qualquer um repreender ou curar, senão àquele a quem o superior, após maduro exame, o permitir.

 

QUESTÃO 54 - CONVENIÊNCIA DE TEREM OS SUPERIORES DAS COMUNIDADES DIÁLOGOS A RESPEITO DOS RESPECTIVOS INTERESSES

 

Resposta

15.  É bom que haja, em tempos e lugares determinados, reuniões dos superiores das comunidades dos irmãos. Exponham eles mutuamente as questões fortuitas, os pontos morais mais difíceis e o que cada um estabeleceu, de modo que, se houver erro, pelo julgamento de muitos se esclareça devidamente, e se foi acertado, seja confirmado pelo testemunho de muitos.

 

QUESTÃO 55 - SE O USO DA MEDICINA CONVÉM ÀS FINALIDADES DA PIEDADE

 

Resposta

16.  Deus nos concedeu o auxílio das artes para suprir às debilidades de nossa natureza. A agricultura, por exemplo, porque os produtos espontâneos da terra não seriam suficientes para satisfazer às nossas necessidades; a têxtil, porque as vestes são indispensáveis, tanto para o decoro quanto para defesa contra as intempéries; e igualmente a arte da construção das casas. Assim também a medicina.

17.  Como o corpo passível está sujeito a vários males, quer sobrevindos de fora, quer intrínsecos ocasionados pelos alimentos, e ora é afligido pelo excesso, ora pela insuficiência, a medicina, cortando o supérfluo e suprindo as deficiências, foi-nos concedida por Deus, que governa a nossa vida, como tipo do tratamento a ser empregado para sanar a alma.

18.  Se estivéssemos ainda no paraíso de delícias, não precisaríamos das invenções e do labor agrícola; assim também, se tivéssemos ainda o dom da imunidade como antes da queda, quando as coisas foram criadas, não necessitaríamos do alívio da medicina. Mas depois de expulsos para a terra e ouvirmos a palavra: Comerás o teu pão com o suor de teu rosto (Gn 3,19), após uma longa experiência e muito labor no cultivo da terra, para suavizar as tristezas desta maldição, descobrimos a agricultura, da qual Deus nos deu a inteligência e o conhecimento.

19.  Igualmente, tendo recebido ordem de voltar à terra de onde fomos tirados, e ligados à carne molesta, condenada à corrupção e sujeita às doenças em consequência do pecado, foi-nos oferecida também a ajuda da medicina, para proporcionar aos doentes certa assistência.

20.  Não foi fortuitamente que as ervas apropriadas à cura de cada uma das doenças germinaram da terra. Ao contrário, foram produzidas de acordo com a vontade do Criador, para prover às nossas necessidades. A descoberta de força natural que há nas raízes e nas flores, nas folhas e nos frutos, nas substâncias, no que há nas minas ou no que existe no mar presta-se ao bem do corpo. Assemelha-se aos outros inventos, referentes à comida e à bebida. Os cristãos, no entanto, têm o dever de evitar o que foi excogitado supérflua e minuciosamente, é obtido com grande trabalho e absorve de certo modo nossa vida nos cuidados com o corpo.

21.  Esforcemo-nos por usar desta arte, se precisarmos, sem lhe atribuir a causa da boa ou má saúde, mas empreguemo-la a fim de manifestar a glória de Deus e enquanto imagem do tratamento da alma. Se precisarmos dos socorros da medicina de modo nenhum ponhamos a esperança da melhora dos males somente nessa arte. Devemos saber que o Senhor não permitirá sermos tentados além do que podemos suportar (ICor 10,13), ou fará como outrora, quando fez um pouco de lodo, ungiu (o cego) e ordenou-lhe se fosse lavar em Siloé (Jo 9,6.7), ou quando se limitou a manifestar a própria vontade, dizendo: Quero, sê purificado (Mt 8,3).

22.  Na verdade permite que alguns combatam em meio de aflições, tomando-os mais recomendáveis por meio da prova. Assim também agora quer agir conosco, algumas vezes curando de maneira invisível e escondida, quando julga proveitoso para nossas almas; de outras vezes, porém, determina que usemos dos socorros materiais em nossas doenças, a fim de ser duradoura a lembrança do benefício recebido pela demora da cura, ou ainda, como disse, dá-nos um exemplo de terapêutica espiritual. Como é forçoso para o corpo eliminar os elementos estranhos e suprir as deficiências, assim convém remover de nossas almas o que lhes é alheio e tomar o que é de acordo com sua natureza. Na verdade, Deus criou o homem reto e nos fez para a prática das boas obras (Ecl 7,30).

23.   E se aceitamos para curar o corpo os cortes, as cauterizações, os medicamentos amargos, de igual modo importa suportar para a cura da alma as palavras cortantes da censura e os remédios amargos das repreensões. A palavra profética exprobra os que assim não se emendam, ao dizer: Não haverá bálsamo em Gileade? Nem se poderá encontrar um médico? Por que, então, a ferida da filha de meu povo não se há de cicatrizar? (Jr 8,22). Se nas doenças crônicas procura-se por muito tempo obter a saúde, empregando recursos vários e dolorosos, isto indica que devemos corrigir os pecados da alma também com orações prolongadas, diuturna penitência e regime mais severo, talvez mais ainda do que a razão sugere como suficiente para a cura. Se alguns não usam convenientemente da medicina, nem por isso somos obrigados a recusar todas as suas vantagens.

24.  Se os intemperantes, à busca de delícias, abusam da arte culinária, da panificação, da arte têxtil, excedendo os limites da necessidade, não rejeitamos logo todos esses ofícios; ao contrário, pelo bom uso dos mesmos, corrigiremos o seu abuso. Assim também quanto à medicina é ilógico opor-se a um dom de Deus, porque alguns a empregam mal. Seria irracional colocar nas mãos do médico a esperança da saúde; no entanto vemos que alguns infelizes o fazem, não se corando de denominá-los seus salvadores. Seria, porém, obstinação ser inteiramente avesso aos bens que a medicina traz.

25.  Como Ezequias não tinha a massa de figos na conta da causa primeira de sua saúde (2Rs 20,7), nem lhe atribuía a cura do corpo, mas acrescentou à glorificação de Deus a ação de graças por ter criado os figos, assim também nós, se feridos por Deus, que governa de maneira boa e sábia a nossa vida, peçamos-lhe, em primeiro lugar, conhecimento da razão por que deste modo nos flagela; em segundo, que nos livre dessas dores e nos dê a paciência, de modo que com a tentação nos conceda também os meios de sairmos dela, dando nos poder de suportá-la (ICor 10,13).

26.  Recebamos com ações de graças a concessão da graça da saúde, seja por meio de um misto de vinho com óleo (Lc 10,34), como sucedeu ao que caiu nas mãos dos ladrões, seja por meio dos figos, como aconteceu a Ezequias (2Rs 20,7).

27.  Não há diferença se Deus nos trata de um modo invisível ou emprega elementos corpóreos; estes, com frequência, nos levam mais eficazmente a entender o dom do Senhor. Muitas vezes, por castigo caímos doentes e somos condenados a tratamento duro e pesado, em substituição da pena. A reta razão nos persuade a não repudiarmos nem os cortes, nem as cauterizações, nem a acerbidade dos remédios acres e molestos, nem os regimes, nem a dieta estrita, nem a abstinência de coisas mortíferas; salvo, repito-o, o bem da alma, à qual é proposto este exemplo para seu próprio tratamento.

28.  Perigo não pequeno há em cair no erro de pensar que toda doença reclama os subsídios da medicina. Nem todas as doenças provêm da natureza, ou de uma alimentação imprópria, ou de outra causa somática, para cuja terapia vemos, por vezes, ser útil a medicina.

29.  Frequentemente, porém, as doenças são flagelos por causa dos pecados, para nos convertermos. O Senhor castiga aquele que ele ama (Pr 3,12); e: Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos e muitos mortos. Se nos examinássemos a nós mesmos, nós não seríamos julgados. Mas, sendo julgados pelo Senhor, ele nos castiga para não sermos condenados com este mundo (ICor 11,30.32).

30.  Por isso, em tais casos, logo que reconhecermos nossos delitos, desistindo da medicina, soframos em silêncio nossas penas, segundo a palavra: Suportei a cólera do Senhor porque tenho pecado contra ele (Mq 7,9). E assim, emendemo-nos, produzindo dignos frutos de penitência, lembrados do Senhor que disse: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior (Jo 5,14).

31.  Às vezes, as doenças nos advêm a pedido do maligno, quando o Senhor, amigo dos homens, lhe apresenta para combate um grande lutador e deprime sua jactância com a suma tolerância de seus servos, conforme sabemos ter sucedido a Jó (Jó 2,6).

32.  Deus propõe aos intolerantes de seus próprios males o exemplo de alguns que suportaram com perseverança as adversidades até à morte, como Lázaro do qual, afligido por profundas úlceras (Lc 16,20), não está escrito que tivesse pedido alguma coisa ao rico ou se mostrasse impaciente por causa da própria situação. Por isso alcançou o repouso no seio de Abraão (ibid. 22.25), tendo recebido males em sua vida.

33.  Encontramos ainda outra causa das doenças que atacam os santos, como se deu com o Apóstolo. Para não parecer ultrapassar os limites da natureza humana, nem julgasse alguém possuir ele naturalmente algo de extraordinário (como sucedeu aos licaônios, que lhe trouxeram coroas e touros, At 14,12) e a fim de comprovar que possuía natureza humana, pelejava continuamente com a doença.

34.  Que vantagens, portanto, pode trazer a medicina a tais homens? Ou antes, que perigo não será se os desviar da reta razão para cuidarem do corpo? Os que contraíram uma enfermidade devida a uma dieta prejudicial devem servir de modelo, pelo tratamento do corpo, ao da alma, como se disse mais acima. Pois, convém-nos também, de acordo com a medicina, abster-nos do que é nocivo, escolher o que é útil, observar as prescrições.

35.  Analogamente, a passagem da enfermidade corporal à saúde serve-nos de consolo, para não desanimarmos a respeito da alma, como se não pudesse voltar, pela penitência, dos pecados à própria integridade. Não evitemos, portanto, inteiramente esta arte, nem tampouco coloquemos nela toda a nossa esperança.

36.  Mas, como usamos da agricultura, suplicando a Deus os frutos, e como entregamos o leme ao piloto, rogando a Deus escapemos incólumes do mar, assim também se chamamos o médico, quando razoável, não perdemos a esperança que devemos colocar em Deus.

37.  Parece-me também que esta arte auxilia não pouco à continência. Vejo como corta os prazeres, condena a saciedade e variedade dos alimentos, rejeita como inconveniente o excessivo apuro no preparo da alimentação; em resumo, chama à sobriedade mãe da saúde, e assim, até por esse ponto de vista, seus conselhos não são vãos.

38.  Quer, portanto, respeitemos algumas vezes as prescrições medicinais, quer não as sigamos por alguma das causas acima enumeradas, preservado fique o escopo de agradar a Deus e buscar o bem da alma, cumprindo o mandamento do Apóstolo: Quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (ICor 10,31).

 

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