SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica – Asketikon
As Regras Menos Extensas (313 regras).
Interrogações 57 a 64
INTERROGAÇÃO 57
Se alguém tiver um mau costume, um vício, que não consegue
mudar, mesmo depois de ser avisado
muitas vezes, deve ser punido ou
é melhor mandá-lo embora?
Resposta
Já foi dito em outro lugar que os
pecadores devem ser levados à mudança
de vida pela paciência, seguindo o exemplo do Senhor. Se o castigo e a correção de muitos não forem suficientes para sua volta a Deus, como aconteceu com o
homem de Corinto, que ele seja considerado um estranho à fé. Para ninguém é seguro manter perto de si aquele que
foi julgado pelo Senhor, porque
o Senhor disse (Mt 5,29.30) que é melhor alguém entrar no reino com um olho só,
com uma só mão, ou tendo perdido um pé do que tentar salvar um deles e ser jogado inteiro no inferno, onde há choro e ranger de
dentes. E o Apóstolo afirma que
um pouco de fermento faz crescer
toda a massa (Gl 5,9).
INTERROGAÇÃO 58
Se é julgado apenas quem mentiu de
propósito ou se também aquele que, por não saber, afirmou com toda
a certeza alguma coisa que não era verdade.
Resposta
É claro que o julgamento do Senhor cai até sobre os
que pecam por não saber, quando
diz: Aquele que, sem conhecer a vontade de seu Senhor, fizer coisas erradas, será castigado com poucos golpes (Lc 12,48). Por isso, um arrependimento verdadeiro sempre traz
uma esperança certa de perdão.
INTERROGAÇÃO 59
Se alguém planejar uma coisa e não a fizer, será julgado como mentiroso?
Resposta
Se aquilo que ele planejava fazer é obrigatório, não será apenas julgado como mentiroso, mas também
como teimoso, porque Deus sonda os corações e os rins (SI
7,10).
INTERROGAÇÃO 60
Se alguém teve a ideia
de fazer algo que desagradasse a Deus, e decidiu fazê-lo, será melhor desistir
do mau propósito ou cometer pecado, por receio de se desmentir?
Resposta
Como
diz o Apóstolo: Não que sejamos
capazes, por nossa conta, de ter algum pensamento que venha de nós mesmos (2Cor
3,5). O próprio Senhor declara:
Nada posso fazer por mim mesmo (Jo 5,19) e: As palavras que eu digo a vocês não
as digo por minha própria conta (Jo 14,10). Em outro lugar, diz: Desci do céu
não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38),
o Pai.
Portanto, a pessoa deve se arrepender, em primeiro lugar,
porque se atreveu a decidir
qualquer coisa sozinha, já que nem mesmo o bem deve ser feito por vontade própria. Em segundo lugar, e
principalmente, porque não teve dúvida
em decidir algo que vai contra o que agrada a Deus.
Vemos claramente que devemos mudar de ideia quando uma decisão
pensada vai contra a ordem do
Senhor. Isso aparece no apóstolo Pedro, que decidiu: Nunca lavarás os meus pés (Jo 13,8.9). Mas, depois que o Senhor afirmou: Se eu não te lavar, você não
terá parte comigo, ele logo mudou de opinião e disse: Senhor, não só os meus
pés, mas também as mãos e a cabeça.
INTERROGAÇÃO 61
Se
alguém não pode trabalhar, nem quer aprender os salmos, que fazer dele?
Resposta
O Senhor disse da figueira que não dava frutos na história: Corte-a; por que ela ainda
ocupa o terreno sem serventia?
(Lc 13,7). É preciso, então, tomar
providências sobre essa pessoa com todo o cuidado; se ela não aceitar,
deve-se fazer o que foi ordenado
sobre aquele que continua no
pecado. Pois quem não faz nada
de bom será julgado junto com o diabo e seus anjos.
INTERROGAÇÃO 62
Que
é preciso que alguém faça para ser condenado por ocultar o talento?
Resposta
Quem guarda qualquer tipo de graça de Deus, para aproveitar sozinho e não para ajudar os outros, é condenado por esconder o seu talento.
INTERROGAÇÃO 63
Que
é preciso que alguém faça para ser condenado como os murmuradores contra os
últimos?
Resposta
Cada qual é condenado por seu
próprio pecado; os murmuradores por causa da murmuração. Vários são muitas
vezes os motivos
por que murmuram. Uns dizem que lhes faltam alimentos, porque são gulosos e
fazem do ventre o seu deus; outros, que só receberam honras iguais aos últimos,
dando assim mostras de inveja, que é a companheira do homicídio; outros, enfim,
por quaisquer outras razões.
INTERROGAÇÃO 64
Como
Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes
pequenos, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o
lançassem no fundo do mar (Mt 18,6), que é escandalizar? E como nos
acautelaremos a fim de não sofrermos esta horrível condenação?
Resposta
Alguém escandaliza quando transgride
a lei, por palavra ou obra, induzindo a outros a transgredi-la, como a serpente
a Eva e Eva a Adão; ou ainda quando impede a realização da vontade de Deus,
como Pedro ao Senhor, dizendo: Que Deus não permita isso, Senhor (Mt
16,22), e ouviu: Afasta-te de mim, Satanás, tu és para mim um escândalo; teus
pensamentos não são de Deus, mas dos homens! (ibid. 23), ou quando
incita o ânimo de um fraco para alguma coisa proibida, segundo o que escreveu o
Apóstolo, com as palavras: Se alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos
ídolos, não se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do
sacrifício aos ídolos? (ICor 8,10) e acrescentou: Se a comida serve
de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu
irmão uma ocasião de queda (ibid. 13).
O escândalo tem muitas causas. Ou
provém de quem escandaliza, ou é da parte do escandalizado que se origina o escândalo.
E ainda aqui há outras diferenças; algumas vezes vem da malícia, outras da
inexperiência deste ou daquele.
Por vezes, numa conversa sincera,
evidencia-se a maldade dos que se escandalizam; assim como nas ações.
Se alguém, pois, pratica o
mandamento de Deus, ou usa livremente do que está em seu poder, escandaliza-se
quem se escandalizar. Quando, porém, os homens se ofendem e se escandalizam com
o que é feito ou dito de acordo com o mandamento (como no Evangelho alguns,
acerca do que o Senhor fazia ou dizia, segundo a vontade do Pai), então é bom lembrar-se
de que o Senhor, quando se aproximaram os discípulos e disseram-lhe: Sabes que os
fariseus se escandalizaram destas palavras que ouviram? respondeu-lhes: Toda a planta que meu
Pai celeste não plantou, será arrancada pela raiz. Deixai-os; são cegos e guias
de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala (Mt
15,12-14). Muitas coisas semelhantes encontram- se nos Evangelhos e foram ditas
pelo Apóstolo.
Quando, porém, alguém se ofende ou
se escandaliza por coisas que estão em nosso poder, devem então vir à lembrança
as palavras do Senhor a Pedro: Os filhos, então, estão isentos. Mas não convém
escandalizá-los. Vai ao mar e lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares,
abrirás a boca e encontrarás um estáter. Toma-o e dá-o por mim e por ti (Mt
17,25.26); e também estas palavras que o Apóstolo escreveu aos coríntios: Jamais comerei carne,
para não escandalizar o meu irmão (ICor 8,13), e ainda: Bom é não comer
carne, nem beber vinho, nem outra coisa que para teu irmão possa ser uma
ocasião de queda (Rm 14,21), de escândalo, de fraqueza. O preceito do
Senhor mostra quão terrível é, no que parece estar em nosso poder, desprezar o irmão,
que por isto se escandaliza; proíbe completamente qualquer espécie de
escândalo, dizendo: Guar- ãai-vos de menosprezar um só destes pequenos! Porque eu vos digo
que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus
(Mt 18,10).
O Apóstolo também o atesta, dizendo:
Cuidai em
não pôr um tropeço diante de vosso irmão ou dar-lhe uma ocasião de queda (Rm
14,13); ou reprime com maior veemência e palavras mais abundantes este absurdo,
dizendo: Se
alguém te vê a ti, que és esclarecido, sentado à mesa no templo dos ídolos, não
se sentirá ele em sua consciência fraca autorizado a comer do sacrifício aos
ídolos? Assim a tua consciência fará cair o fraco, um irmão pelo qual morreu
Cristo (ICor 8,10.11). E acrescentou: Assim, pecando vós contra os irmãos e ferindo
a sua débil consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se a comida serve de
ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, para não ser para o meu
irmão uma ocasião de queda (ibid. 12.13). Em outro lugar diz: Ou só eu e Barnabé
não temos direito de deixar o trabalho? (ICor 9,6), e acrescenta a seguir:
Não temos
feito uso deste direito; sofremos tudo para não pôr algum obstáculo ao
Evangelho de Cristo (ibid. 12).
Se foi demonstrado como é terrível
nas coisas que dependem de nós escandalizar um irmão, que dizer dos que
escandalizam fazendo ou falando coisas proibidas? Principalmente, quando o que
dá escândalo parece ter uma ciência mais vasta ou está estabelecido num grau
sacerdotal. Deverá então estar à frente dos outros como regra e modelo; se
negligenciar o mínimo que seja do que está escrito ou fizer uma coisa proibida,
ou omitir algum preceito, ou, em resumo, deixar passar em silêncio quaisquer
coisas destas, é o bastante para ser severamente julgado, de modo que do sangue
do que pecou, como foi dito, ser-lhe-á pedida conta (Ez 3,18).
1. O
que você destaca no texto?
2. Como
serve para sua vida espiritual?
3. O
que você destaca na fala do seu irmão?
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