sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Estudo 44 da OESI - História Eclesiástica - Livro VII - Capítulos 16-23

44
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VII – Capítulos 16- 23

XVI - A história de Astirio
1. Ali também[20] Astirio é lembrado por sua grande franqueza, agradável a Deus. Era membro do senado romano, favorito dos imperadores e conhecido de todos por sua nobre linhagem e por suas propriedades. Achava-se presente quando se executou o mártir, e apoiando o ombro, levantou o cadáver sobre sua esplêndida e rica vestimenta e levou-o para enterrá-lo com grande magnificência e dar-lhe digna sepultura. Os próximos e conhecidos deste homem que sobreviveram até nossos dias recordam outras inúmeras façanhas suas, inclusive a que segue, grandiosa.

XVII[21]
1. Em Cesaréia de Filipo, que os fenícios chamam Paneas, diz-se que, nas fontes que ali surgem, ao pé da montanha chamada Paneion, e das quais nasce o Jordão, em certo dia de festa uma vítima imolada é ali lançada, e esta, por obra do demônio, torna-se invisível de modo prodigioso. O fato é uma maravilha famosa para os que se acham presentes. Pois bem, uma vez Astirio assistia o evento, e contemplando a multidão afetada pelo fato, compadeceu-se de seu erro, e levantando os olhos ao céu suplicou por Cristo ao Deus que está sobre todas as coisas para que confundisse o demônio enganador do povo e que o fizesse deixar de enganar os homens. E conta-se que assim que orou deste modo, a vítima começou a nadar nas fontes e desta maneira cessou para eles o prodígio, e daí em diante não se deu nenhum milagre em torno daquele lugar.

XVIII - Dos sinais da magnificência de nosso Salvador existentes em Paneas
1.            Mas já que fizemos menção a esta cidade, creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos[22] sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade e que nela se encontra sua casa, e que ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador:
2.            Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher, em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante; e em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher; a seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades.
3.            Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus. Conservava-se até nossos dias, como comprovamos nós mesmos de passagem por aquela cidade.
4.     E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador, quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, coisa natural, pois os antigos tinham por costume honrá-los deste modo, simplesmente, como salvadores, segundo o uso pagão vigente entre eles[23].

XIX - Do trono de Tiago
1. O trono de Tiago, primeiro que recebeu do Salvador e dos apóstolos o episcopado da igreja de Jerusalém e ao qual os livros divinos chamam in­clusive de irmão de Cristo[24], foi preservado até hoje. Os irmãos do lugar vêm rodeando-o de cuidados por sucessivas gerações e claramente mostram a todos que veneração têm os antigos e continuam tendo os de hoje para com os santos varões, por serem amados de Deus. Basta já disto.

XX - Das "cartas festivas[25]" de Dionísio, nas quais fixa também um cânon sobre a Páscoa
1. Quanto a Dionísio, além de suas cartas já mencionadas, compôs por aquele tempo outras que ainda se conservam: as festivas. Nelas tece palavras muito mais solenes acerca da festa da Páscoa. Uma é dirigida a Flávio, e outra a Domécio e Dídimo, na qual propõe inclusive um cânon de oito anos, alegando que não convém celebrar a festa da Páscoa senão depois do equinócio da primavera. Além destas cartas escreveu também outra a seus co-presbíteros de Alexandria, e ao mesmo tempo a outras pessoas em termos distintos; estas quando ainda durava a perseguição.

XXI - Do que aconteceu em Alexandria
1. Apenas havia-se restabelecido a paz, e já estava de volta a Alexandria; mas tendo eclodido outra sedição e uma guerra, de modo que não lhe era possível visitar a todos os irmãos da cidade, divididos como estavam em um e outro bando da sedição, uma vez mais, na festa da Páscoa[26], da própria Alexan­dria, como se estivesse do outro lado da fronteira, entrou em comunicação com eles por carta.
2.   E escrevendo também depois disto a Hieraco, um bispo do Egito, outra carta festiva, menciona a rebelião dos alexandrinos de seu tempo nestes termos:
"E quanto a mim, por que admirar-se de que me seja penoso comunicar-me inclusive por carta com os que moram longe, sendo que até conversar comigo mesmo e deliberar com minha própria alma torna-se impossível?
3.            O certo é que, na relação com minha própria entranha, isto é, com os irmãos que compartem meu teto e meus sentimentos, cidadãos também de minha própria igreja, necessito correspondência epistolar, e ainda esta não vejo como arranjar-me para transmiti-la, porque seria mais fácil atravessar, já não digo para lá da fronteira, mas até do Oriente para o Ocidente, do que chegar a Alexandria da própria Alexandria;
4.     pois mais vasta e mais impraticável do que aquele enorme e não trilhado deserto que Israel atravessou em duas gerações[27] é a avenida mais central da cidade. E daquele mar que, partido e separado por dois muros, aqueles acha­ram vadeável para seus cavalos, enquanto os egípcios eram afundados na mesma trilha, fazem imagem os portos agradáveis e sem ondas, pois muitas vezes, pelos assassinatos neles cometidos, parecem iguais a um mar Vermelho.
5.            E o rio que banha a cidade, algumas vezes foi visto mais ressecado do que o deserto sedento e mais árido que aquele no qual, ao atravessá-lo, Israel passou tanta sede que Moisés gritou suplicando e por obra do único que faz maravilhas brotou bebida para eles de uma rocha;
6.            e outras vezes, ao contrário, tanto transbordou que inundou toda a várzea, as e ruas e os campos, até ameaçar com a vinda das águas dos tempos de Noé. E sempre corre manchado com sangue, por homicídios e afogamentos, como nos tempos de Moisés, quando converteu-se em sangue para o faraó e empestava.
7.             E que outra água poderia purificar a água que tudo purifica? E como o vasto oceano, intransponível para o homem, poderia derramar-se e purificar este mar amargo? Ou como o grande rio que sai do Éden poderia lavar o sangue impuro, ainda que vazasse os quatro braços em que se divide para um só: o Giom?[28]
8.      E quando poderia tornar-se puro o ar infestado pelos miasmas procedentes de todas as partes? Porque tais hálitos emanam da terra, tais ventos do mar, tais eflúvios dos rios e tais exalações dos portos, que o rocio poderia ser o pus de cadáveres que apodrecem em todos os elementos indicados.
9.      E logo o povo se admira e está incerto de onde provém as contínuas pestes e as graves enfermidades, de onde as corrupções de toda espécie e a variada e reiterada mortandade dos homens, e por que a grande cidade não sustenta já em si mesma aquela tão grande multidão de homens que antes alimentava, começando pelas crianças de peito até os anciãos de extrema velhice, passando pelo grande número de 'velhos prematuros', como eram chamados. Ao contrário, os quarentões e mesmo os setentões eram tão numerosos então, que agora seu número não chega a completar-se ainda que estejam inscritos e assinalados para a ração pública de víveres desde os quatorze até os oitenta anos; e os que aparentam ser os mais jovens parecem contemporâneos dos mais velhos de então.
10.  E desta maneira, ainda que vendo constantemente diminuída e consumida a família humana sobre a terra, não tremem, apesar de aproximar-se cada vez mais sua completa destruição."

XXII - Da doença que sobreveio em Alexandria
1.            Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente entrou em comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade com estas palavras:
2.            "Certamente aos demais homens[29] não parecerá tempo de festas a presente ocasião. Para eles, nem este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer sumamente alegres. Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia continuam morrendo;
3.            porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande clamor, pois não há casa onde não haja um morto[30]; e oxalá não fosse mais do que um, porque em verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto.
4.            Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e estarmos condenados a morrer, celebramos a festa, inclusive então, e cada lugar de tribulação de cada um se converterá em para­gem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere. Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com o festim do céu.
5.            E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos: suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entra­mos à parte no que eles faziam e padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada.
6.            Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor, e portanto mais cruel do que qualquer calamidade, e como escreve um par­ticular escritor seu, 'única coisa que sobrepujou toda previsão'[31]. Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às demais. Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos."
7.            E em continuação acrescenta o que segue:
"Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno, esquecendo-se de si mesmos e unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução, serviam-nos com abundância, cuida­vam-nos em Cristo e até morriam contentíssimos com eles, contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo voluntariamente suas dores. E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram, transferindo para si mesmos a morte daqueles e convertendo então em realidade o dito popular, que sempre parecia ser de mera cortesia: 'Despedindo-se deles humildes servidores'.
8.            Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros - alguns -, diáconos e laicos, todos muito louvados, já que este tipo de morte, pela grande piedade e fé robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio.
9.            E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes os olhos, fechavam suas bocas e, agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. Pouco depois eles mesmos recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os precederam.
10.     Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoe­cer e repeliam até aos mais queridos, e lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando evitar o contágio e a compa­nhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho em esquivá-la."
11.     E depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, enviou ainda uma carta festiva aos irmãos do Egito, e logo voltou a escrever outras. Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra Sobre o exercício.
12.     Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas coisas sobre a perversidade de Décio e de seus suces­sores, e menciona a paz dos tempos de Galieno.

XXIII - Do império de Galieno
1.     Mas nada é melhor do que ouvir como foram estes acontecimentos: "Assim pois aquele[32], traindo um de seus imperadores e atacando o outro, logo desapareceu com sua pilhagem, sem deixar traços, e todos proclamaram e reconheceram Galieno, que era ao mesmo tempo velho e novo imperador, pois era-o antes e veio depois deles[33].
2.     Efetivamente, conforme o dito do profeta Isaías: Vede que chega o do prin­cípio, e o que agora surgir será novo[34]. Porque assim como uma nuvem, deslizando sob os raios do sol, por um momento o cobre e sombreia e se mostra em lugar dele, mas logo, quando a nuvem passou ou se desfez, nova­mente surge e reaparece o sol, que antes já havia saído, assim Macriano pôs-se diante e aproximou-se em pessoa ao imponente poder imperial de Galieno, mas já não é[35], posto que não era, enquanto que este é o mesmo que era;
3.     e o poder imperial, como se tivesse deposto sua vetustez e estivesse nova­mente purificado de sua anterior maldade, floresce agora com maior vigor e é visto e ouvido muito mais longe e vai penetrando por todas as partes".
4.     Logo, continuando, assinala também o tempo em que escrevia isto com as palavras que seguem:
"Também me agrada examinar novamente os dias dos anos imperiais, porque estou vendo que os mais ímpios, apesar de seu renome, ao fim de pouco tempo caíram no anonimato, enquanto que ele[36], mais santo e amado de Deus, tendo passado já seu sétimo ano, cumpre agora o nono ano no qual celebraremos a festa[37]."

1.    O que te chamou mais atenção neste texto?
2.    Como ele contribuiu para sua espiritualidade?






[20] Em Cesaréia da Palestina.
[21] Na atual distribuição de capítulos este não tem título.
[22] Mt 9:20 ss; Mc 5:25 ss; Lc 8:43 ss.
[23] O culto cristão às imagens parece já ser um fato; Eusébio o vê como influência pagã.
[24] Gl 1:19.
[25] Não se refere a um caráter festivo, mas à festa da Páscoa.
[26] Provavelmente do ano 262, precedida pelas repercussões da revolta de Macriano contra Galieno.
[27] Nm 14:22-23.
[28] Gn 2:10-13. Aqui identifica o Giom com o Nilo.
[29] Os não cristãos.
[30] Ex 12:30.
[31] O autor "seu", isto é, dos outros, é Tucídides, cuja descrição da peste em Atenas é famosa desde a antigüidade.
[32] Macriano, o que convenceu Valeriano a perseguir os cristãos e tratou de derrubar Galieno.
[33] Já o fora desde que seu pai o associou ao império como co-augusto em 253, voltou a sê-lo em Alexandria por breve intervalo.
[34] Is 42:9; 43:19.
[35] Ap 17:8-11.
[36] Galieno, em oposição a Valeriano.
[37] Galieno cumpria o sétimo ano de seu império ao fim do ano 260, tempo longo para um imperador daquela época. Para Dionísio há outro motivo para comentá-lo: o fim da per­seguição. A Páscoa de 262 anunciava-se especialmente alegre.