segunda-feira, 9 de abril de 2018

44 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


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44
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


Capítulo XXIX
Também os sábios gregos, poetas e historiadores, contam a respeito de Héracles: “Cruel! Não respeitou a ira dos deuses, nem a mesa que lhe pusera, e depois matou seu próprio hóspede”, isto é, Ifito. Sendo assim, é natural que fosse louco, natural que acendesse uma fogueira e se queimasse vivo. De Asclépio, Hesíodo conta que: “o pai dos homens e dos deuses se irritou, e acertando-o do Olimpo com raio fuliginoso, matou Letoida, perturbando o coração de Tebo”. E Píndaro diz: “Mas até a sabedoria é atada pelo lucro. Também ele foi desviado pelo ouro que apareceu em sua mão por doce recompensa; mas o filho de Cronos, disparando com suas mãos, arrebatou-lhe velozmente o alento do peito, e o ardente raio feriu o insensato”.
Portanto, ou eram deuses e não se comportavam como homens em relação ao ouro: “Ouro, o mais belo presente para mortais, prazer que nem uma mãe ou os filhos ofereceu”. A divindade não tem necessidade, e está acima do desejo. Também não morreram. Ou, sendo homens, foram maus por ignorância e se deixaram dominar pelo dinheiro. Para que falar amplamente, recordando Cástor e Pólux ou Anfiaseu, os quais, sendo, como se diz, homens de ontem ou anteontem, são considerados deuses? A própria Ino, depois de sua loucura e o que nela sofreu, dizem que se transformou em deusa: “aqueles que caminham errantes pelo Ponto, a chamam Leucotéia”, assim como seu filho: “será chamado augusto Palêmon pelos marinheiros”.

2ª PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE IMORALIDADE, INCESTO E REFEIÇÕES BACANAIS

Capítulo XXX - Razões porque a Divindade foi apontada pelo homem
Ora, se pessoas tão abomináveis e odiosas a Deus alcançaram a reputação de ser deuses, e Semíramis, a filha de Derceto, mulher despudorada e criminosa, foi considerada deusa síria, e os sírios, através de Derceto, cultuam os peixes, e através de Semíramis as pombas - é impossível que uma mulher se transforme em pomba; a fábula aparece em Clésias-, o que há de estranho que aqueles que exerceram poder e tirania fossem chamados deuses por seus súditos? A Sibila (Platão também recor da) diz: “Virá então a décima geração de míseros homens, desde que o dilúvio caiu sobre os primeiros mortais, e reinaram Cronos, Titã e Iapeto, filhos poderosos da terra e do céu, que os homens chamaram de Gaia e Urano, dando-lhes nome por terem sido os primeiros entre os míseros homens”; uns por sua força, como Héracles e Perseu; outros por sua arte, como Asclépio.
Portanto, a uns foram os súditos que tributaram honra divina, a outros foram os governantes; uns por medo e outros por respeito tiveram parte no nome divino (o próprio Antínoco, por benevolência de nossos antepassados para com seus súditos, teve a sorte de ser considerado deus). Depois a posteridade os aceitou sem qualquer prova ou exame: “Cretenses sempre mentirosos. Com efeito, ó rei, os cretenses fabricaram o teu sepulcro. Tu, porém, não morreste”.
Calímaco, tu que crês no nascimento de Zeus recusas crer em sua sepultura, e pensando jogar uma sombra sobre a verdade, não fazes senão anunciar um morto mesmo àqueles que não o conhecem. Se olhas a gruta, te lembras do parto de Rea; mas se te fixas no ataúde, lanças uma sombra sobre o morto e já não sabes que só o Deus incriado é eterno.
Concluindo, ou os mitos do vulgo e dos poetas sobre os deuses são indignos de fé, e então é supérfluo o culto que se lhes tributa, porque não existem aquelas personagens sobre as quais essas fábulas tratam; ou se são verdadeiros seus nascimentos, amores, assassínios, roubos, mutilações e fulminações, também não existem, pois deixaram de existir, uma vez que nasceram por não existirem antes. Com efeito, que razão há para crer em alguns relatos e não crer em outros, quando tudo foi contado pelos poetas, com a finalidade de glorificá-los? De fato, os que foram causa de que fossem considerados deuses ao exaltar suas histórias, não mentiriam contando os seus sofrimentos.
Fica portanto demonstrado, segundo minhas forças, embora não conforme a dignidade do assunto, que não somos ateus ao admitir como o Deus, Criador de todo este universo, e o Verbo que dele procede.

Capítulo XXXI –
Além disso, acusam-nos sobre comidas e uniões ímpias, pretendendo com isso encontrar alguma razão para nos odiar. Pensam que, amedrontando-nos, nos afastarão do nosso propósito de vida; ou, com suas acusações exorbitantes, nos exasperarão e arrumarão intrigas com os governantes. Isso para nós é puro jogo, pois sabemos que esse costume é antigo e não inventado só para o nosso caso e que se realiza por uma espécie e razão divina, isto é, que a maldade faça sempre guerra à virtude. Assim, Pitágoras foi queimado pelo fogo com trezentos companheiros; Heráclito e Demócrito foram exilados, um de Efeso e o outro de Abdera, acusados de loucura; os atenienses condenaram Sócrates à morte. Mas se todos esses não perderam a reputação de virtude por causa da opinião do vulgo, a estúpida calúnia de alguns contra nós não faz nenhuma sombra à retidão de nossa vida, pois temos boa fama diante de Deus. Entretanto, quero também enfrentar essas acusações.
Sei que com o que eu disse estou defendido diante de vós. De fato, superando a todos por vossa inteligência, sabeis que aqueles que tomam a Deus como regra de vida, para que cada um de nós esteja sem culpa e sem mancha em sua presença, não podem ter, em pensamento, o mais leve pecado, e acreditássemos que nada existe além desta vida presente, poder-se-ia suspeitar que pecássemos, submetendo-nos à servidão da carne e do sangue ou sendo dominados pelo lucro e pelo desejo. Sabendo, porém, como sabemos, que Deus vigia nossos pensamentos e nossas palavras, tanto de dia como de noite, e que ele é todo luz e vê até dentro do nosso coração; acreditando, como cremos, que, ao sair desta vida, viveremos outra melhor, contando que permaneçamos com Deus e por Deus inquebrantáveis e superiores às paixões, com alma não carnal, mas com espírito celeste, embora na carne; ou acreditando que, se cairmos como os demais, espera-nos uma vida pior no fogo (porque Deus não nos criou como rebanhos ou bestas de carga, de passagem, só para morrer e desaparecer); crendo nisso, dizíamos, não é lógico que nos entreguemos voluntariamente ao mal e nos joguemos a nós mesmos nas mãos do grande juiz para sermos castigados.

Capítulo XXXII 
Não há nada de surpreendente que falem de nós a mesma coisa que contam sobre seus deuses, pois apresentam suas paixões como mistérios. Contudo, se querem apresentar como crime o unir-se livre e indiferentemente, teriam de começar a rejeitar Zeus, que teve filhos com sua mãe Rea e com sua filha Coré e cuja mulher é a própria irmã, ou rejeitar Orfeu, o inventor de todos esses contos, que tornou Zeus mais ímpio e abominável do que Tiestes; com efeito, este se uniu com a própria filha através de um oráculo e pelo desejo de chegar a reinar e vingar-se. Nós, porém, estamos tão longe de ver isso com indiferença que não nos é lícito sequer olhar com intenção de desejo. De fato, a Escritura diz: “Aquele que olha para uma mulher a fim de desejá-la já cometeu adultério em seu coração”. Como não acreditar que são castos os que nada podem olhar além daquilo para o qual Deus formou os olhos, isto é, para que fossem nossa luz, aqueles que consideram adultério o olhar com prazer, pois os olhos foram criados para outra finalidade, e os que serão julgados até pelos seus pensamentos? Nós nada temos a ver com leis humanas, que qualquer malvado pode burlar (desde o começo, ó soberano, vos assegurei que nossa doutrina era ensinamento de Deus), mas temos uma lei e mandamento, que nos deu a nós mesmos e ao nosso próximo como medida de justiça. Por isso, dependendo da idade, consideramos a uns como filhos e filhas, a outros como irmãos e irmãs, e aos mais velhos tributamos honra de pais e mães. Assim, empenhamo-nos para que aqueles aos quais damos nome de irmãos e irmãs e outras qualificações familiares, permaneçam sem ultraje ou corrupção em seus corpos, como nos diz também a palavra divina: “Se alguém, por ter gostado, dá um segundo beijo…” Portanto, é preciso ser muito exato a respeito do beijo e principalmente na adoração, porque por pouco que manchem nossa mente nos colocam fora da vida eterna.

Capítulo XXXIII - Indissolubilidade do matrimônio
Como temos esperança na vida eterna, desprezamos as coisas da vida presente e até os prazeres da alma, tendo cada um de nós por mulher aquela que tomou conforme as leis estabelecidas por nós e com a finalidade de procriar filhos. Assim como o lavrador, jogada a semente na terra, espera a colheita e não continua semeando, do mesmo modo, para nós, a medida do desejo é a procriação de fïlhos . E até é fácil encontrar muitos dentre nós, homens e mulheres, que chegaram celibatários à velhice, com a esperança de um relacionamento mais íntimo com Deus. Se o viver na virgindade e castração aproxima mais de Deus e só o pensamento e o desejo separa, se fugimos dos pensamentos, quanto mais não recusaremos as obras? Nossa religião não se mede pelos discursos cuidadosos, mas pela demonstração e ensinamento de obras: ou se permanece como nasceu, ou não se contrai mais do que um matrimônio, pois o segundo é um adultério decente. A Escritura diz: “Quem deixa sua mulher e casa com outra, comete adultério”, não permitindo deixar aquela cuja virgindade desfez, nem casar-se novamente. Quem se separa de sua primeira mulher, mesmo quando morreu, é adúltero dissimulado, transgredindo a mão de Deus, pois no princípio Deus formou um só homem e uma só mulher, desfazendo a comunidade da carne com a carne, segundo a unidade para a união dos sexos.

Capítulo XXXIV
Nós que somos assim (por que devo falar o que não pode ser dito?), temos que ouvir o provérbio: “A prostituta para a casta”. Com efeito, os que fazem mercado de prostituição e constroem para os jovens prostíbulos para todo prazer vergonhoso; os que não perdoam nem aos homens, cometendo atos torpes homens com homens; os que ultrajam de mil modos os corpos mais respeitáveis e mais formosos, desonrando a beleza feita por Deus (pois a beleza não nasce espontaneamente da terra, mas é enviada pela mão e desígnio de Deus); esses nos atiram na cara aquilo de que têm consciência, o que eles chamam de deuses, adúlteros e pederastas insultando aos virgens e monógamos. Eles que vivem como peixes (pois devoram quem lhes cai na boca, o mais forte atacando o mais fraco - isso sim é alimentar-se de carnes humanas - e que, tendo leis estabelecidas por vossos antecessores após maduro exame para toda a justiça, violentam-se os homens contra elas, de modo que não são suficientes os governadores mandados por vós para os julgamentos); esses, dizíamos, acusam os que não podem deixar de se apresentar aos que os golpeiam nem de abençoar os que os amaldiçoam. Para nós não basta ser justos - a justiça consiste em dar o mesmo aos iguais - mas nos é proposto que sejamos bons e pacientes.

3ª PARTE: OS CRISTÃOS NÃO SÃO ANTROPÓFAGOS

Capítulo XXXV - Os cristãos detestam e condenam qualquer crueldade
Quem, em plena razão, poderia dizer que, sendo assim, somos assassinos? Não é possível saciar-se de carne humana, se antes não matamos alguém. Se eles mentem quanto ao primeiro ponto, mentem também quanto ao segundo. Com efeito, se lhes é perguntado se viram o que dizem, não existe ninguém tão sem-vergonha que diga ter visto. Entretanto, temos escravos, alguns mais outros menos, para os quais não é possível ocultar-nos. No entanto, nenhum deles chegou a caluniar-nos com semelhantes coisas. De fato, os que sabem que não suportamos ver uma execução com justiça, como vão nos acusar de matar e comer homens? Quem de vós não se entusiasma em ver os espetáculos de gladiadores ou de feras, principalmente os que são organizados por vós? Nós, porém, que consideramos que ver matar está próximo do próprio matar, nos abstemos de tais espetáculos. Portanto, como podemos matar os que não queremos sequer ver para não contrair mancha ou impureza em nós? Afirmamos que as mulheres que tentam o aborto cometem homicídio e terão que dar contas a Deus por ele 4; então, por que iríamos matar alguém? Não se pode pensar que aquele que a mulher leva no ventre é um ser vivente e objeto, consequentemente, da providência de Deus e em seguida matar aquele que já tem anos de vida; não expor o nascido, crendo que expor os filhos equivale a matá-los, e tirar a vida ao que já foi criado. Não! Nós somos em tudo e sempre iguais e concordes com nós mesmos, pois servimos à razão e não a violentamos.

Capítulo XXXVI
Além disso, quem crê na ressurreição quererá oferecer-se como sepultura dos corpos que hão de ressuscitar? Não é possível alguém acreditar que nossos corpos ressuscitarão e, ao mesmo tempo, os coma, como se não devessem ressuscitar; pensar que a terra devolverá seus próprios mortos e, ao mesmo tempo, pensar que aqueles que engoliu não reclamarão. É mais verossímil o contrário, aqueles que pensam que não se terá de dar conta desta vida, tanto faz se é boa ou má, e que não haverá ressurreição, mas que julgam que com o corpo perece também a alma e esta como que se apaga; é natural, dizíamos, que esses não se abstenham de nenhum atrevimento, creem que nada ficará sem ser examinado diante de Deus e que juntamente com a alma será castigado o corpo que cooperou com seus impulsos e desejos irracionais, quanto a esses não há razão para que cometam o mais leve pecado. Se para alguém parece pura charlatanice que um corpo apodrecido, desfeito e desaparecido torne a organizar-se, não poderia por parte daqueles que não creem na ressurreição imputar-nos maldade, mas ingenuidade. De fato, se nos enganamos a nós mesmos com essas razões, não causamos prejuízo a ninguém. Entretanto, não somos apenas nós que admitimos a ressurreição dos corpos, mas muitos filósofos também estão conosco. Contudo, seria ocioso demonstrar-vos isso agora, a não ser que introduzíssemos raciocínios estranhos ao nosso objetivo, falando do inteligível, do sensível, da constituição de um e de outro, que o incorporal é anterior aos corpos, que inteligível precede o sensível, embora não seja isso o que primeiro encontramos, pois os corpos são constituídos de elementos incorpóreos, conforme a acumulação do inteligível, e o sensível é constituído de elementos inteligíveis. Segundo a doutrina de Pitágoras e de Platão, nada impede que, realizada a dissolução dos corpos, voltem depois a organizar-se com os mesmos elementos dos quais eram constituídos no princípio.

Capítulo XXXVII
Reservemos, porém, para outra ocasião o discurso sobre a ressurreição. Quanto a vós que, em tudo e por tudo, por natureza e educação, sois bons, moderados, humanos e dignos do império, inclinai vossa imperial cabeça diante de quem desfez todas as acusações e demonstrou que somos piedosos, modestos e puros em nossas almas. Quais são os que merecem, com mais justiça, conseguir o que pedem senão nós que rogamos por vosso império, para que o herdeis, como é de estrita justiça, de pai para filho, que cresça e acresça, através da submissão de todos os homens? Isso também redunda em proveito nosso, para que, levando uma vida tranquila e pacífica, cumpramos animadamente tudo quanto nos é mandado.

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