segunda-feira, 2 de abril de 2018

43 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 23 - 28


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43
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 23 - 28


Capítulo XXIII
Vós, porém, que superais a todos em inteligência, poderíeis objetar: Então por que alguns ídolos agem, se não existem os deuses em cuja honra erguemos as imagens? Não é verossímil que estátuas inanimadas e imóveis tenham por si mesmas alguma força sem que alguém as mova. Desde já, nós mesmos não negamos que em determinados lugares, cidades e povoados aconteçam algumas operações em nome dos ídolos; entretanto, porque alguns tenham recebido proveito e outros prejuízo, não vamos considerar deuses aqueles que agiram em um ou outro sentido, mas investigamos cuidadosamente o motivo de crerdes que os ídolos têm alguma força e quais são os que agem, usurpando seus nomes. Antes de tudo, porém, já que quais são os que agem nos ídolos e que não são deuses, é preciso trazer como testemunhas também alguns filósofos. Tales, como dizem os que conhecem a fundo suas doutrinas, foi o primeiro que estabeleceu a divisão entre Deus, demônios e heróis. Por Deus, ele entende a mente do mundo; por demônios, as substâncias animadas; por heróis, as almas separadas dos homens, bons as boas, maus as más. Platão, que em outros pontos se mostra reservado, também distingue entre o Deus incriado, os astros fixos ou errantes, criados pelo Incriado, para enfeitar o céu, e os demônios. Ele recusa falar desses demônios, mas quer que se acredite nos que falaram sobre eles: “Falar da multidão de demônios e conhecer as suas origens é tarefa que ultrapassa nossas forças, mas deve-se acreditar nos que falaram anteriormente, já que, como dizem, são descendentes dos próprios deuses, e é de se supor que conheçam exatamente seus ascendentes. Portanto, é impossível não crer nos filhos de Deus, mesmo quando falam sem provas verossímeis ou necessárias, mas, seguindo o costume, deve-se crer neles como em pessoas que nos certificam estar nos contando a história de sua própria família. Dessa forma, seguindo a eles, sirva isso também para nós e digamos que a origem desses deuses é a seguinte: Da terra e do céu nasceram dois filhos: o Oceano e Tétis; desses nasceram Forco, Cronos, Rea e todo o seu séquito; de Cronos e Rea nasceram Zeus e Hera e todos os que sabemos que se dizem seus irmãos, e, por fim, os outros descendentes desses”.
Entretanto, Platão, que compreendeu o Deus eterno apenas pela inteligência e razão exeqüível; ele, que explicou os atributos que lhe convêm: seu ser real, sua unidade de natureza, o bem que dele se derrama, que é a verdade; ele, que falou da “primeira potência”, e disse: “Em torno do rei de todas as coisas está tudo, por causa dele tudo existe e ele é a causa de tudo”; e da segunda e terceira: “O segundo em torno do segundo, e o terceiro em torno do terceiro”; Platão pode considerar empresa superior às suas forças investigar a verdade sobre os que se dizem ter nascido de coisas sensíveis do céu e da terra? Não se pode dizer tal coisa. A verdade é que, como ele entendia ser impossível os deuses gerarem e conceberem, pois o que nasce tem conseqüentemente fim, mais impossível ainda seria mudar a convicção do vulgo, que aceita os mitos sem exame ou prova. Por esse motivo, disse que estava acima de suas forças conhecer e explicar a gênese da multidão dos demônios, pois não podia compreender, nem explicar como os demônios possam ter nascimento. A outra passagem sua, em que diz: “Zeus, o grande guia no céu, lançase à marcha conduzindo o seu carro, e atrás dele segue o exército dos deuses e demônios”, não deve ser entendida de Zeus, o assim chamado filho de Crono, pois com o seu nome quer-se significar o Criador do universo. O próprio Platão deixa isso bem claro. Não tendo outro termo para significar isso, usou o nome popular como pôde, não como nome próprio de Deus, mas por razão de clareza, já que não era possível representar para todos o Deus verdadeiro. Depois acrescentou-lhe o qualificativo de “grande”, para diferenciar o celeste do terreno, o incriado do criado, este mais jovem que o céu e a terra e até mais jovem que os cretenses, que o roubaram para que não fosse devorado por seu pai.

Capítulo XXIV
Que necessidade há de recordar-vos os poetas e examinar também outras opiniões para vós que examinastes toda a doutrina? É suficiente acrescentar apenas uma consideração. Mesmo quando poetas e filósofos não reconheceram que Deus é um só, mas uns pensaram nos deuses como demônios, outros como matéria, outros como tendo sido homens, haveria motivo para perseguir-nos, a nós que, com o nosso raciocínio distinguimos Deus da matéria e as substâncias de um e da outra? De fato, assim como confessamos Deus, o Filho, que é o seu Verbo, e o Espírito Santo, identificados segundo o poder, mas distintos segundo a ordem: o Pai, o Filho e Espírito, porque o Filho é inteligência, Verbo e sabedoria do Pai, e o Espírito, emanação como luz do fogo, também entendemos que existem outras potências que rodeiam a matéria e a penetram, e uma contrária a Deus. Não porque exista algo contrário a Deus, da mesma forma que a discórdia é contrária à amizade, conforme Empédocles, ou a noite contrária ao dia, entre os fenômenos naturais - se alguma coisa se enfrentasse assim com Deus, cessaria completamente de ser, pois a sua substância seria destruída pela potência e força de Deus -; mas porque o Espírito que rodeia a matéria é contrário à sua bondade, atributo que lhe é próprio e que coexiste com ele como o calor com o fogo, sem o qual não pode existir-não que seja parte sua, mas é acompanhamento necessário, identificado e compenetrado, como o vermelho com o fogo e o azul com o céu -; Espésito, dizíamos, criado certamente espírito, por Deus, como foram por ele criados os demais anjos, e ao qual foi confiada a administração da matéria e das formas da matéria. Com efeito, a substância desses anjos foi criada por Deus para providência das coisas por ele ordenadas, de modo que Deus conservaria a providência universal e geral do universo - o domínio e o poder sobre tudo dependeria dele, e ele dirigiria isso sozinho, indeclinavelmente, como um navio, com o timão da sua sabedoria-; mas os anjos por ele ordenados se encarregariam da providência particular. Do mesmo modo, porém, que os homens têm livre-arbítrio podem optar pela virtude e pela maldade - pois se não estivesse em seu poder a maldade e a virtude, não honraríeis os bons nem castigaríeis os maus, quando uns se mostram diligentes e outros desleais naquilo que lhes confiais -, assim tam bém os anjos. Uns, que foram imediatamente criados livres por Deus, permaneceram naquilo que Deus os criara e ordenara; outros se orgulharam tanto de sua natureza, como do império que exerciam, isto é, esse que é príncipe da matéria e das suas formas, e os outros encarregados desse primeiro firmamento-e deveis saber que não afirmamos nada sem testemunhas; expressamos apenas o que foi dito pelos profetas -; estes, por terem caído em desejo pelas virgens e mostrando-se inferiores à carne; aquele, por ter sido negligente e mau na administração que lhe fora confiada. Dos que tiveram relação com virgens nasceram gigantes. Não vos maravilheis, se em parte os poetas também falam dos gigantes, pois a sabedoria humana e a divina distam entre si assim como a verdade dista do verossímil. Uma é celeste e outra é terrena e, segundo o príncipe da matéria, “sabemos dizer muitas mentiras semelhantes à verdade”.

Capítulo XXV
Portanto, esses anjos caídos do céu, que rondam em torno do ar e da terra, e que já não são capazes de subir ao supraceleste, e as almas dos gigantes são os demônios, que andam errantes ao redor do mundo e produzem movimentos semelhantes; os demônios às substâncias que receberam, os anjos aos desejos que sentiram. Quanto ao príncipe da matéria, como se pode ver pela experiência, ele governa e administra de modo contrário à bondade de Deus: “Muitas vezes, uma preocupação atravessou a minha alma. Se é o acaso, se é demônio que domina o humano, pois contra a esperança, contra a justiça, alguns são arrancados de suas casas, sem Deus, e outros são levados à felicidade.” Se o ser feliz ou desgraçado contra a esperança e a justiça deixa mudo Eurípedes, de quem será uma administração das coisas terrenas, diante da qual se pode dizer: “Vendo tudo isso, como diremos que a raça dos deuses existe ou obedeceremos às leis?” Isso também levou Aristóteles a dizer que as partes inferiores do céu não são governadas pela providência, mas a verdade é que a providência eterna de Deus permanece para nós de modo igual: “A terra, queira ou não queira, por força, produzindo erva, engorda os meus rebanhos”, e a providência particular chega de fato e não em aparência para os que são dignos, e os outros são providos conforme a constituição comum das coisas, por lei da razão. O que acontece é que os movimentos demoníacos do espírito contrário e suas operações produzem esses impulsos desordenados que vemos arrastar os homens, uns de um modo, outros de outro, alguns individualmente, outros por nações, alguns parcialmente, outros em comum, segundo a razão da matéria e da simpatia com o divino; movimentos do interior, como do exterior, que obrigaram alguns, cujas opiniões não são desprezíveis, a pensar que todo este universo não está organizado com ordem, mas que tudo anda revirado por um acaso irracional. Eles ignoram que, quanto à constituição do universo, não existe nada desordenado, nem descuidado, mas cada parte sua foi feita com razão e, por isso, nenhuma transgride a ordem que lhe foi marcada. Quanto ao homem, se se olha para o seu Criador, também foi feito ordenadamente: a natureza de sua origem, que tem uma só e comum razão; a organização de sua formação, que não pode transgredir a lei que a rege; e o termo de sua vida, que permanece igual e comum para todos, embora, segundo a razão própria de cada um e a ação do príncipe da matéria que o domina e dos demônios que o acompanham, cada um se dirija e se mova de modo diverso, apesar de todos terem em si o raciocínio comum.

Capítulo XVI
Aqueles que os arrastam aos ídolos são esses demônios dos quais falamos, os que andam em torno do sangue das vítimas e o lambem; mas os deuses que agradam o vulgo e dão o seu nome às estátuas foram apenas homens, como se pode averiguar pelas histórias que deles tratam. A prova de que são os demônios que usurpam seus nomes está na operação que cada um exerce. De fato, aqueles que cultuam Rea, mutilam o próprio membro viril; outros, os de Ártemis, fazem cortes ou incisões em si mesmos; a de Tauros mata estrangeiros. Deixo de falar sobre os que se torturam com punhais e correias de ossos, e tantas outras espécies de demônios. Não é próprio de Deus incitar a atos contra a natureza: “Quando um demônio quer fazer mal a um homem, primeiro lhe prejudica a inteligência.” Deus, porém, que é absolutamente bom, é eternamente benéfico.
Que sejam uns que agem e outros em cuja honra se erguem as estátuas, temos uma prova definitiva em Tróia e Pário. A primeira tem estátuas de Nerilino, contemporâneo nosso; Páris tem estátuas de Alexandre e Proteu. Há ainda na ágora ou praça pública o sepulcro e a estátua de Alexandre. Ora, as outras estátuas de Nerilino servem de ornamento público, se é que com tais coisas se orna uma cidade. Crê-se, porém, que uma delas dá oráculos e realiza curas e, por isso, os troianos lhe oferecem sacrifícios, a ungem e a coroam de ouro. Quanto às estátuas de Alexandre e Proteu (não ignorais que este se atirou ao fogo em Olímpia), diz-se também que uma emite oráculos, e a estátua de Alexandre - “Páris malfadado, brava figura, mulherengo” -também são oferecidos sacrifícios e celebradas festas, como a deus propício. De fato, são Nerilino, Proteu e Alexandre que realizam esses prodígios nas estátuas ou é a constituição da matéria? Mas a matéria é puro bronze. Que é que o bronze pode por si mesmo, se se pode transformá-lo em outra figura, como fez Amásis, segundo Heródoto, com a bacia para os pés? E o que é que Nerilino, Proteu e Alexandre têm a ver com os enfermos? O que se diz que a estátua realiza agora, o fazia quando Nerilino vivia e até quando estava enfermo.

Capítulo XXVII
O que pensar, então? Primeiramente, os movimentos irracionais e fantásticos da alma sobre as aparições arrancam da matéria algumas vezes uma imagem, outras vezes outras imagens, e outras são formadas e geradas por eles mesmos. E isso padece a alma principalmente quando recebe o espírito material, com ele, e já não olha para cima, para o celeste e seu Criador, mas para baixo, para o terreno e, para fazê-lo de modo geral, quando se converte em pura carne e sangue e não em espírito limpo. Esses movimentos irracionais e fantásticos da alma geram imagens de frenética idolatria; e quando a alma, delicada e fácil de conduzir, que não ouviu nem tem experiência de sólidas doutrinas, que não contemplou a verdade nem compreendeu o Pai e Criador do universo, se imprime em si essas falsas opiniões sobre si mesma, os demônios que rondam a matéria, gulosos como são de gordura e sangue das vítimas e enganadores dos homens, apoderando-se desses movimentos de falsa opinião das almas do vulgo, fazem que fantasias se infiltrem neles, como se viessem das imagens cujos nomes usurpam, e são eles que colhem a glória do que a alma por si mesma, imortal como é, e se move racionalmente, ora para predizer o futuro, ora para curar o presente.
Capítulo XXVIII
Talvez seja necessário, conforme anteriormente indicado, dizer algo também sobre os nomes. Heródoto e Alexandre, filho de Filipe, na carta à sua mãe-diz-se que tanto um como o outro conversaram com os sacerdotes em Heliópolis, Mênfis e Tebas -dizem ter sabido deles que seus deuses foram homens. Heródoto diz: “Tais demonstraram que eram aqueles que as estátuas representavam, mas muito diferentes dos deuses; antes desses homens, os deuses mandaram no Egito, vivendo junto aos humanos, e era sempre um deles que retinha o poder, e o último rei foi Horo, filho de Osíris, a quem os gregos chamam de Apolo. Este, tendo destronado Tifão, foi o último que reinou no Egito. Osíris, em grego, é Dioniso”.
Assim, portanto, tanto os outros como o último, foram reis do Egito, e os nomes dos deuses vieram dos egípcios para os gregos. Apolo é filho de Dioniso e de Ísis. O próprio Heródoto diz: “Dizem que Apolo e Ártemis são filhos de Ísis e que Leto foi sua nutriz e salvadora”. Daí se vê que os primeiros reis, de origem celeste como eram, seja por ignorância da verdadeira piedade para com a divindade, seja por gratidão para com o seu poder, foram tidos, como deuses junto com suas mulheres. “Agora todos os egípcios sacrificam bois puros, assim como os bezerros; as vacas, porém, não lhes é lícito sacrificá-las, mas estão sacrificadas a Isis. Com efeito, a estátua de Ísis, que representa numa mulher, tem chifres, da maneira como os gregos pintam Io”. E o que se poderia crer melhor ao dizer isso, senão naqueles que por sucessão de família, o filho do pai, herdam o sacerdócio e juntamente a história? De fato, não é verossímil que os guardiães dos templos mintam, que tenham interesse em exaltar seus ídolos, ao apresentá-los como homens.
Se Heródoto disse que os egípcios falam de seus deuses como de homens, quando o próprio Heródoto diz: “Não estou disposto a divulgar os relatos divinos que escutei”, não há a mais leve razão para não crer nele, como se fosse um inventor de mitos. Mas como Alexandre e Hermes, o chamado Trismegisto, e tantos outros mais, não fazendo a enumeração de todos, que uniram suas próprias famílias com os deuses, já não há razão para não pensar que, sendo homens, foram tidos como deuses. Que eles foram homens, o manifestam os mais eruditos entre os egípcios, os quais, ao chamar de deuses o éter, a terra, o sol e a lua, consideram os demais como homens mortais e os templos como seus sepulcros; isso manifesta também Apolodoro em seu tratado sobre os deuses. Além disso, Heródoto chama de mistérios os sofrimentos deles: “Já narrei anteriormente como celebram a festa em honra de Ísis na cidade de Busíris. Todos, homens e mulheres, se golpeiam depois do sacrifício, e a fé que milhares de pessoas ali depositam. Todavia, não é piedoso que eu lhes diga a maneira como se golpeiam”. Se são deuses, são imortais; mas se se golpeiam e seus sofrimentos são mistérios, são homens. O próprio Heródoto diz: “Em Sais, no templo de Atenas, por detrás e seguindo ao longo da parede, está o sepulcro do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião. Ali há também, junto ao sepulcro, um lago com bordas de pedra, bem trabalhado e circular, ao que me parece com a mesma extensão do que em Delos se chama Trocóides. Nesse lago, durante a noite, fazem-se as representações de seus sofrimentos, que os egípcios chamam de mistérios”. Não só se expõe o sepulcro de Osíris, mas também a sua múmia: “Quando se lhes leva um cadáver, mostramse aos portadores modelos de mortos em madeira, imitados pela pintura; e dizem que a mais exata delas é a do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião.

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