terça-feira, 19 de junho de 2018

52 - Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra Teófilo de Antioquia (†181)


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52
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Segundo Livro a Autólico (Capítulo 12 – 17)


Capítulo XII – Cosmologia bíblica
Ninguém pode explicar de modo digno a obra dos seis dias, nem traçar sua economia completa, mesmo que tivesse mil bocas e mil línguas; mesmo que vivesse mil anos na presente vida, nem assim seria capaz de dizer algo digno dela, por causa da soberana grandeza e riqueza da sabedoria de Deus, que estão contidas nesta descrição da obra de seis dias. Certamente muitos escritores a imitaram e quiseram dar-lhe uma explicação; contudo, mesmo tomando esse ponto de partida, eles não exprimiram senão uma centelha digna da verdade, seja a respeito do mundo, seja sobre a natureza do homem. As explicações dos filósofos, historiadores e poetas parecem dignas de crédito porque estão adornadas de bela expressão; contudo, no fundo, vê-se que são néscias e vazias, pois contêm apenas uma multidão de bobagens e nelas não é dito nem sequer uma sombra de verdade. E se parece que dizem algo de verdadeiro, acha-se misturado com o erro. Como um veneno mortal, ao qual se mistura mel, vinho ou qualquer outra coisa, torna tudo prejudicial e inútil, assim também se percebe que a verbosidade deles é pura inanidade, ou melhor, prejuízo para aqueles que nela crêem.
Alguma coisa ainda sobre o sétimo dia, sobre o qual todos os homens falam, mas cuja razão a maior parte desconhece. De fato, o que os hebreus chamam de sábado significa em grego sétimo dia, nome que todo o gênero humano lhe dá, sem saber, porém, por que assim é chamado. O que o poeta Hesíodo diz, afirmando que do Caos nasceu o Érebo, a Terra e o Amor, que domina, segundo ele, a todos, seja deuses, seja homens, é dito de maneira vazia e fria e totalmente alheia à verdade. Com efeito, Deus não deve se deixar vencer pelo prazer, quando até os homens temperantes se abstêm de todo prazer vergonhoso e de todo mau desejo.

Capítulo XIII – Cosmologia bíblica (cont.)
Além disso, ao começar o relato da criação pelas coisas da terra, aqui de baixo, Hesíodo tem pensamento puramente humano, baixo, fraco para ser aplicado a Deus. É o homem que, sendo daqui de baixo, começa a construir pela terra, e logicamente não pode pôr o telhado antes de ter assentado os alicerces. O poder de Deus, porém, se manifesta antes de tudo em fazer as coisas do nada e depois fazer como quiser. De fato, o que é impossível para os homens é possível para Deus. Por isso, o profeta diz que antes foi criado o céu, que tem forma de teto, dizendo: “No princípio, Deus fez o céu”, isto é, que o céu foi feito pelo Princípio, conforme dissemos antes. De certo modo, chama a terra de solo e alicerce, e de abismo à imensidão das águas, e também de trevas, porque o céu, criado por Deus, cobria como uma tampa tanto as águas como a terra. O espírito, que se mantinha sobre a água, o qual Deus deu para animação da criação, como deu a alma ao homem, misturando o sutil com o sutil- pois o espírito é sutil e a água também o é -, para que o espírito alimente a água, e a água, com o espírito, alimente a criação, penetrando-a por todas as partes. Esse único espírito, ocupando o lugar da luz, se mantinha entre a água e o céu, a fim de que, de certa maneira, as trevas não se comunicassem com o céu, que está mais próximo de Deus, antes que Deus dissesse: “Faça-se a luz”. Assim, o céu, como uma abóbada, continha a matéria, semelhante a uma bola. Com efeito, outro profeta, chamado Isaías, falando a respeito do céu, disse: “Este é o Deus que fez o céu como uma abóbada e o estendeu como uma tenda para nele habitar”.
Assim, a ordenação de Deus, isto é, seu Verbo, brilhando como uma lâmpada em casa fechada, iluminou a terra subceleste por uma criação fora do mundo. E Deus chamou à luz dia e à noite trevas, pois o homem certamente não teria sabido chamar à luz dia, nem à noite trevas, como também não saberia dar nome às demais coisas, se não tivessem recebido seus nomes de Deus, que as criou. No começo da história e da criação, a Escritura santa não falou desse firmamento que vemos, e sim de outro céu invisível para nós; só depois o nosso céu visível se chamou firmamento. Nele está recolhida metade das águas, para fornecer à humanidade chuvas, tempestades e orvalhos; a outra metade foi deixada na terra para os rios, fontes e mares. Assim, quando a água ainda cobria a terra, principalmente nos lugares baixos, Deus fez, através de seu Verbo, com que a água se reunisse em um só lugar e que a parte seca se tornasse visível, pois no princípio era invisível. A terra tornada visível estava ainda informe. Deus lhe deu forma e a adornou com toda espécie de ervas, sementes e plantas.

Capítulo XIV – Cosmologia bíblica (cont.)
Além disso, considera a diversidade que há nessas coisas, sua variada beleza e multidão, e como, através deles, se nos manifesta a ressurreição, sendo prova daquela que um dia se realizará em todos os homens. De fato, se refletes bem, quem não se admirará que de uma semente minúscula de figo se forme uma figueira e que de outras peque ninas sementes nasçam árvores enormes?
O mundo também nos oferece semelhança com ornar. Assim como o mar teria secado há muito tempo por causa de seu sal se não houvesse afluência dos rios e fontes que lhe fornecem alimento, de modo semelhante o mundo, se não tivesse recebido a lei de Deus e os profetas, que fazem correr para ele fontes de doçura, misericórdia e justiça e mantêm o ensinamento dos santos mandamentos de Deus, também já teria perecido por causa da maldade e do pecado que nele se multiplica. Do mesmo modo que no mar existem ilhas habitáveis, com água e vegetação, enseadas e portos para refúgio durante as tempestades, assim Deus deu ao mundo, em meio às tormentas e ondas de pecados, os lugares de reunião, as chamadas igrejas santas, nas quais, como nas ilhas de portos acolhedores, se encontramos ensinamentos da verdade, nas quais se refugiam os que querem salvar-se, tornados amantes da verdade e decididos a fugir da cólera e do julgamento de Deus. Há, porém, outras ilhas rochosas, sem água nem vegetação, repletas de feras, inabitáveis, para dano dos navegantes e náufragos, onde os navios atracam e perecem os que e elas descem; do mesmo modo, há também doutrinas que extraviam, isto é, as das heresias, que levam à perdição aqueles que aderem a elas. Porque não se guiam pelo Verbo da verdade, mas à maneira dos piratas que, enchendo os navios, os atracam em recifes para arruiná-las. Assim acontece com aqueles que se extraviam da verdade, que acabam perecendo por causa do erro.

Capítulo XV – Cosmologia bíblica (cont.)
No quarto dia foram criados os luzeiros. Deus, que sabe tudo de antemão, sabia as bobagens que os vãos filósofos iriam dizer, com intenção de eliminar a Deus: que tudo quanto nasce na terra se deve ao influxo dos elementos. Por isso, para que a verdade ficasse clara, as plantas e as sementes foram criadas antes dos elementos, pois o posterior não pode produzir o que é anterior.
Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria, imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo, morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para demonstrar a ressurreição futura.
Igualmente os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria. No quarto símbolo está o homem, que necessita de luz. Assim temos: Deus, Verbo, Sabedoria, Homem. É também por isso que os luzeiros foram criados no quarto dia.
Por outro lado, a disposição dos astros representa a economia e a ordem dos justos e piedosos, que guardam a lei e os mandamentos de Deus. Com efeito, os astros mais visíveis e brilhantes representam os profetas; por isso permanecem fixos, não mudando de um lugar para outro. Aqueles que ocupam o segundo grau de brilho são tipo do povo dos justos; por fim, os que mudam e passam de um lugar para outro, os chamados planetas, são símbolo dos homens que se afastam de Deus, abandonando sua lei e seus mandamentos.

Capítulo XVI – Cosmologia bíblica (cont.)
No quinto dia foram criados os animais que procedem das águas, pelas quais e nas quais se mostra a multiforme sabedoria de Deus. De fato, quem seria capaz de enumerar sua quantidade e a variedade de suas variadíssimas espécies? Além disso, o que foi criado das águas por Deus foi abençoado por ele, para que isso servisse de prova sobre o que os homens deveriam receber: penitência e remissão dos pecados através da água e banho de regeneração, todos os que se aproximam da verdade, renascem e recebem a bênção de Deus.
Os monstros marinhos e as aves carnívoras são símbolo dos avarentos e transgressores. De fato os animais aquáticos e aves, embora sendo de uma única natureza, alguns permanecem no que é conforme a natureza, sem prejudicar aos mais fracos, guardam a lei de Deus e se alimentam das sementes da terra; outros transgridem a lei de Deus, comendo carne, e prejudicam os mais fracos. De modo semelhante, os justos, guardando a lei de Deus, não mordem nem causam dano a ninguém, vivendo santa ejustamente; mas os ladrões, assassinos e ateus assemelham-se aos monstros marinhos, às feras e aves carnívoras, pois de certo modo engolem os mais fracos.

Capítulo XVII – Cosmologia bíblica (cont.)
No sexto dia, Deus fez os quadrúpedes, as feras e os répteis da terra, mas não se fala da bênção correspondente, guardando-a para o homem, que criaria no mesmo sexto dia. Assim, os quadrúpedes e feras se tornaram tipo de alguns homens que desconhecem a Deus, que são ímpios e não fazem penitência. De fato, os que se convertem de suas iniqüidades e vivem justamente voam como aves em sua alma, sentindo as coisas de cima e agradando à vontade de Deus; mas os que desconhecem a Deus e vivem de modo ímpio são parecidos com essas aves, que tem asas e não podem voar, nem subir até a altura da divindade. De modo semelhante, estes se chamam homens, mas sentem o que é baixo e terreno, pois estão pesados por causa de seus pecados. Quanto às feras, elas se chamam assim por causa da sua ferocidade, não porque desde o princípio fossem más ou venenosas, pois nada do que é mau foi criado por Deus desde o princípio; ao contrário, tudo era bom e até muito bom, mas o pecado do homem as tornou más. Quando o homem se tornou transgressor, elas também transgrediram. É como numa casa: se o senhor se comporta bem, os domésticos não têm outro remédio a não ser comportar-se bem; contudo, se o senhor peca, os servidores pecam junto com ele. Da mesma forma, quando o homem, que é o senhor, pecou, também os animais, seus escravos, pecaram com ele. Portanto, quando o homem voltar a viver conforme a natureza e não agir mal, também os animais serão estabelecidos em sua mansidão original.

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