domingo, 3 de março de 2024

250 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Segundo (Capítulos 27 - 43).

 



250

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Segundo (Capítulos 27 - 43)

 

O livro XII fala do nascimento eterno do Verbo e termina com a Oração que resume a sua fé na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e com a súplica para que Deus conserve a sua fé. São 57 capítulos.

 

Capítulo 27.

1.      Podemos abranger todos os tempos, seja com a imaginação, seja com o entendimento. O que existe agora, sabemos que não existiu ontem, porque aquilo que existiu ontem, agora não existe; aquilo que agora existe, existe somente agora, não existia ontem.

2.      De tal forma medimos com o pensamento as coisas passadas que, achando-nos diante de uma cidade já construída, não duvidamos de que tenha havido um tempo no qual esta cidade ainda não existisse. E já que o tempo está submetido ao conhecimento ou à imaginação, julgamos de acordo com a capacidade da inteligência humana, e acreditamos ter sido dito com razão, a respeito de alguma coisa, que não existiu antes de nascer, porque o tempo existe sempre, antes da origem, seja do que for.

3.      Contudo, no que diz respeito às coisas de Deus, isto é, à natividade de Deus, tudo existe antes do tempo e é eterno. Não é possível dizer antes de ter nascido em relação Àquele a quem é prometida a eternidade dos tempos, de acordo com o que disse o santo Apóstolo: na esperança da vida eterna, antes dos tempos eternos, prometida pelo Deus que não mente (Tt 1,2).

4.      Não se pode compreender que tenha começado a existir depois de outra coisa Aquele que é preciso confessar como existente antes dos tempos eternos.

Capítulo 28.

5.      Se não pertence à natureza humana nem pode ser compreendido pela mente do homem que algo nasça antes dos tempos eternos, cremos, no entanto, nas declarações de Deus a respeito de si mesmo. Como, usando a compreensão humana, a infidelidade repete em nosso tempo que não existiu antes de nascer Aquele de quem a fé apostólica, mesmo sem a capacidade de compreender o eterno, afirmou que sempre nasceu, isto é, que existe antes dos tempos eternos?

6.      O que nasceu antes dos tempos existiu sempre como nascido, pois o que existe antes dos tempos eternos existe sempre. E o que existe sempre como nascido não pode não ter sido em algum tempo, porque não ter sempre existido significa não existir sempre, pois existir sempre exclui o não ter sido sempre. Excluído o não ter sido sempre, dado que nasceu desde sempre, não tem sentido pensar que não tenha sido antes de nascer.

7.      Deve-se pensar que Aquele que nasceu antes dos tempos eternos nasceu desde sempre, embora não possamos compreender o que significa ter nascido antes dos tempos. Porém, como se deve afirmar, com toda certeza, que nasceu antes de toda criatura, invisível ou corpórea, antes de todos os séculos e tempos eternos e antes de todo o pensamento, de modo algum se pode conceber que não tenha existido antes de nascer Aquele que sempre existe por ter nascido antes dos tempos eternos, porque o que nasceu antes dos tempos eternos é anterior a todo pensamento e não se pode pensar que não tenha existido alguma vez Aquele de quem se deve confessar ter existido sempre.

 

Capítulo 29.

8.      Com argúcia, porém, esta questão capciosa se antepõe: se, diz ela, não tem sentido pensar que não existia antes de ter nascido, só nos resta crer que o que já existia nasceu.

 

Capítulo 30.

9.      Responderei ao opositor: acaso tu te lembras de ter-me ouvido dizer outra coisa a não ser que nasceu? Acaso existir antes dos tempos eternos é o mesmo que nascer aquele que já existia? Porque nascer o que existia já não é nascer, mas mudar-se a si mesmo por ter nascido. Ter nascido sempre quer dizer anteceder, no nascimento, toda ideia de tempo e significa total impossibilidade de pensar que em algum tempo não tenha nascido. Na verdade não é a mesma coisa ter nascido antes dos tempos eternos e existir antes de nascer. Pois, ter nascido sempre antes dos tempos eternos exclui o não ter existido antes de nascer.

Capítulo 31.

10.  Além do mais, não é possível dizer que existia antes de nascer, porque aquilo que ultrapassa o pensamento em nada se submete ao pensamento.

11.  Se o ter sempre nascido está além do pensamento, também não é possível pensar que não tenha existido antes de nascer.

12.  Como temos de reconhecer que ter sempre nascido não é diferente de ter nascido, não podemos saber se existia ou não antes de nascer, porque o próprio fato de ter nascido antes dos tempos eternos ultrapassa a nossa compreensão.

13.  Portanto nasceu e existe sempre, porque, a seu respeito, nada se pode entender ou dizer, a não ser que nasceu. Como é anterior ao tempo no qual se pode pensar (porque o tempo eterno é anterior ao pensamento) não se pode aceitar que o pensamento julgue, a seu respeito, se existia ou não antes de nascer, porque existir antes de nascer não é compatível com o nascimento e não ter sido já pertence ao tempo.

14.  O infinito dos tempos eternos exclui toda ideia de tempo, isto é, a existência antes de nascer, porque, se sua existência ou não existência estivessem submetidas à nossa capacidade de julgamento, seu próprio nascimento viria depois do tempo, já que o que não existe sempre necessariamente teria de começar a ser depois de alguma coisa.

Capítulo 32.

15.  A conclusão da fé e do discurso, bem como do pensamento, é que o Senhor Jesus Cristo nasceu e existe sempre, porque, se a mente retroceder às origens para perscrutar o que se disse sobre o Filho, nada virá ao pensamento de quem perscruta a não ser que nasceu e existe sempre.

16.  Por conseguinte, como é próprio de Deus Pai existir sempre, sem nascimento, também pertence ao Filho existir sempre pelo nascimento.

17.  O nascimento não indica outra coisa a não ser que há um Pai, e a palavra Pai nada indica a não ser o nascimento. Nem o nome nem a natureza permitem que haja um termo médio. Pois o Pai não é sempre o Pai quando não há sempre um Filho, mas se Ele é sempre Pai, também existe sempre o Filho. Enquanto se negar ao Filho que seja Filho, também se negará ao Pai o ser Pai, e assim não será sempre Pai. Neste caso, mesmo tendo sido sempre Deus, não possuiria, como Pai, aquela infinidade pela qual é Deus.

Capítulo 33.

18.  A ímpia profissão de fé chega a tal ponto que não só atribui ao Filho o ter nascido no tempo, mas também priva o Pai da geração, porque a geração se dá no tempo da natividade.

Capítulo 34.

19.  Julgas, ó herege, estar de acordo com a piedade e a religião confessar que Deus sempre existiu, sem confessar que seja Pai? Se pensas que isto está de acordo com a piedade, condenas a impiedade de Paulo, que diz que o Filho existe antes dos tempos eternos (cf. 2Tm 1,9); também acusas a Sabedoria, que atesta, a respeito de si mesma, ter sido fundada antes dos séculos e diz que estava ao lado do Pai, quando criava o céu (cf. Pr 8,23 [LXX]; 8,27). Mas tu, para atribuir ao Pai um início, enquanto Pai, distingue antes o início dos tempos em que começaram, porque, se começaram, o Apóstolo, que os declarou eternos, é mentiroso. Costumas contar os tempos pela criação do sol e da lua porque sobre eles está escrito: E sejam sinais para os tempos e para os anos (Gn 1,14).

20.  Mas o que existe antes do céu, o que, na vossa opinião também é anterior ao tempo, é Ele mesmo, anterior aos séculos. E não é apenas anterior aos séculos, mas também às gerações e gerações anteriores aos séculos. Por que aprisionas nas coisas caducas, terrenas e estreitas, as divinas e infinitas?

21.  Em Cristo, Paulo não conhece senão a eternidade dos tempos. A Sabedoria não diz que é posterior a algo, mas que é anterior a tudo. Em teu parecer, os tempos foram estabelecidos a partir do sol e da lua. No entanto, Davi mostrou que Cristo existe antes do sol, quando disse: o seu nome é anterior ao sol (Sl 71,17). Para não julgares que o que é de Deus começou com o início da lua, o mesmo Davi disse: E antes da lua, as gerações de gerações (Sl 71,5). Os tempos, aqui, não são levados em consideração por homens tão ilustres, dignos do espírito da profecia, e não resta à inteligência humana nenhuma possibilidade de estender-se até aquilo que existe antes da natividade e que ultrapassa os tempos eternos.

22.  Mas a fé verdadeira só tem este modo de ver: o Senhor Jesus Cristo é o Deus Unigênito e é preciso professar a sua perfeita natividade, sem ignorar que é eterno na adoração da sua divindade.

Capítulo 35.

23.  Quando somos acusados de mentir, também é censurada a doutrina apostólica, que professa a natividade e, igualmente, a eternidade do nascimento, pois a natividade atesta que existe um Pai, mas, por outro lado, a eternidade do mistério da divina natividade excede o modo humano de pensar. Serviu de argumento aos hereges a palavra da Sabedoria sobre si mesma, que, segundo eles, diz ter sido criada: O Senhor me criou para o início de seus caminhos (Pr 8,22).

Capítulo 36.

24.  Tu, ó miserável herege, empregando as armas que foram concedidas à Igreja para opor-se à Sinagoga, investes contra a fé da pregação eclesiástica para usá-la contra a salvação universal. Pretendes provar com estas palavras ser Cristo criatura, em vez de fazer calar o judeu, que nega a divindade de Cristo antes dos séculos eternos e a ação do poder de Deus em todas as suas obras e ensinamentos. Para isso usas estas palavras da Sabedoria subsistente! Ela disse que foi criada para o início dos caminhos de Deus e para suas obras desde o começo dos séculos, para que não se julgasse que existiu antes de Maria, porém não disse que tinha sido criada para indicar sua natividade, porque foi criada para o início dos caminhos de Deus e suas obras.

25.  Para que ninguém cresse que o começo dos caminhos, que, na verdade, é o começo do conhecimento humano das coisas divinas, significa a sujeição da natividade infinita ao tempo, declarou ter sido constituída antes dos séculos.

26.  Já que não é a mesma coisa ser criada para o início dos seus caminhos e para suas obras e ser constituída antes dos séculos, deve-se entender que a sua constituição é anterior à criação, e o fato de ter sido constituída para as sua obras antes dos séculos demonstra o mistério da sua criação; porque a constituição é anterior ao tempo, e a criação para o início dos caminhos e para as obras é posterior ao tempo.

Capítulo 37.

27.  Não só disse isto, mas para que nem a criação nem a fundação prejudicassem a fé na divina natividade, acrescentou: Antes que se fizesse a terra, antes de serem implantados os montes, antes de todas as colinas, fui gerada (Pr 8,25).

28.  Foi gerado antes que existisse a terra Aquele que foi estabelecido antes dos séculos, antes, não apenas da terra, mas também dos montes e das colinas, porque a Sabedoria fala de si mesma e diz mais do que o que se ouve. Tudo o que se diz para dar a conhecer o infinito deve ser de tal modo que não resulte posterior no tempo a nenhuma coisa ou espécie.

29.  Aliás, nenhuma coisa temporal é adequada para indicar o que seja a eternidade, porque, justamente, por serem posteriores a outras coisas, por si mesmas não dão a conhecer a origem do infinito, já que tiveram um início temporal. Pois, que há de tão extraordinário no fato de que Deus tenha gerado o Cristo Senhor antes da terra, se a origem dos Anjos é mais antiga que a criação da terra? Ou, por que aquele que se diz gerado antes da terra se revela como nascido antes dos montes, e não só dos montes, mas também das colinas, se as colinas são mencionadas depois dos montes, e é evidente que os montes existem depois da terra?

30.  Por tudo isso não se pode pensar que tais coisas são ditas para que se entenda que existe antes das colinas, dos montes e da terra Aquele que, em virtude de sua eternidade infinita, precede até mesmo o que existe antes da terra, dos montes e das colinas.

Capítulo 38.

31.  A palavra divina não nos deixou sem uma explicação, pois mostrou a razão do que foi dito, com as palavras que se seguem: Deus fez as regiões e os lugares habitáveis e inabitáveis e os cimos que são habitados debaixo do céu. Quando preparava o céu e quando escolhia a sua morada, eu estava com Ele. Quando, acima dos ventos e nas alturas dos céus, fazia as nuvens poderosas e colocava as fontes sob o céu e estabelecia os fortes fundamentos da terra, eu estava junto dele dispondo todas as coisas (Pr 8,26-30 [LXX]).

32.  Como pode haver aqui lugar para o tempo? Até onde é permitido à inteligência humana estender-se para além da natividade infinita do Deus Unigênito? Não se pode compreender sua geração pela comparação com as coisas que a mente pode conceber, porque Ele é anterior a todas elas.

33.  Os hereges atribuem-lhe somente o ter nascido antes das coisas temporais, pois, embora seja anterior a elas no tempo, não é infinito. Como estas coisas estão submetidas ao tempo, pelo próprio fato da criação, Ele, embora seja anterior a todas elas, não está livre do tempo, porque a criação temporal dessas coisas mostra que Ele nasceu no tempo ainda que tenha nascido antes, pois, o que precede as coisas temporais é temporal como elas.

Capítulo 39.

34.  A palavra de Deus e a doutrina da verdadeira sabedoria dizem coisas perfeitas e revelam a verdade absoluta quando ensinam que Ele não é anterior àquilo que é temporal, mas sim ao que é infinito.

35.  Ao ser criado o céu, ele estava junto de Deus. Acaso a criação do céu está, para Deus, encerrada no que é temporal, como se, de repente, lhe brotasse o pensamento na mente, antes adormecida, e, de modo humano, fosse buscar os instrumentos necessários para fabricar os céus?

36.  É bem diferente a ideia do Profeta sobre as operações de Deus, quando diz: Pela palavra do Senhor se firmaram os céus, e pelo sopro de sua boca, todos os seus exércitos (Sl 32,6). Os céus precisaram, para se firmarem, da ordem de Deus, pois sua grandeza e sua força, na constituição de sua firmeza inalterável, não vieram de alguma combinação e mistura de matérias, mas existem pelo sopro dos lábios divinos.

37.  Que significa que a Sabedoria gerada por Deus estava a seu lado quando preparava o céu, já que a criação do céu não resulta de uma preparação? Não pertence à natureza de Deus deter-se no pensamento do preparo da obra? Nada do que existe deixou de estar sempre com Deus, pois, embora todas as coisas tenham começado, no que se refere à sua criação, no que diz respeito à ciência e ao poder de Deus, não tiveram início. Disso o Profeta nos dá testemunho ao dizer: Deus, que fizeste tudo o que há de existir (Is 45,11; LXX).

38.  As coisas futuras, embora ainda estejam para ser criadas do ponto de vista da criação, já estão feitas, para Deus, para quem nada há de novo nem de repentino naquilo que há de ser criado, pois o desígnio divino realizado no tempo é de que sejam criadas. Já foram criadas na presciente eficácia do divino poder. E por isso, a Sabedoria, ao ensinar ter nascido antes dos séculos, não só se declara anterior ao que foi criado, mas afirma ser coeterna às coisas eternas, isto é, à preparação do céu, como também à separação da morada de Deus.

39.  A morada de Deus não foi separada quando foi feita, porque uma coisa é separar a sua morada, outra é orná-la. O céu não foi criado quando foi preparado, mas ela estava junto do que preparava e separava. Depois, dispunha as coisas com o que preparava. Revela sua eternidade por estar junto do que prepara, e a seu serviço, quando dispõe as coisas junto com o que as cria.

40.  Por isso também diz que foi gerada antes da terra, dos montes e das colinas. Porque ensinava que também estava presente na preparação do céu para demonstrar que já então, quando o céu era preparado, todas estas coisas já estavam feitas em Deus, para quem nada é novo.

Capítulo 40.

41.  A preparação dos seres que devem ser criados é eterna. O conjunto do universo não foi planejado por partes, de forma que primeiro Deus tenha planejado o céu, depois tenha refletido e pensado na terra, e que tenha pensado em cada coisa por sua vez, de sorte que primeiro tenha estendido as planícies, em seguida, depois de pensar melhor, tenha feito elevar-se os montes, e depois as colinas trouxessem uma variação, e numa quarta vez também os cumes se tornassem habitáveis e, uma vez feito o céu, Deus separasse a morada para si e as nuvens do alto se tornassem poderosas para conter as rajadas do vento. Em seguida as fontes teriam jorrado com segurança e, por último, a terra se afirmaria sobre sólidos fundamentos.

42.  A cada um de todos estes, a Sabedoria se declara anterior. Já que tudo o que há debaixo do céu foi feito por Deus e a seu lado, quando se fundava o céu, estava Cristo, anterior à própria eternidade da preparação do céu, não é possível pensar haver em Deus ideias parceladas das coisas, porque a preparação de tudo, isto é, coeterna a Deus.

43.  Pois, embora tenham sua própria ordem, segundo Moisés, a consolidação do firmamento, o surgimento da terra seca, a reunião dos mares, a constituição dos astros, a geração das águas e da terra para produzir a partir de si mesma, os animais (cf. Gn 1,6-25), contudo na criação do céu e da terra e dos outros elementos nem por um mínimo intervalo de tempo se pode separar a ação de Deus, porque sua preparação se realizou em Deus na eternidade.

 

O que você destaca no texto e na fala do seu irmão?

Como ele serve para sua espiritualidade?

 

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