318
SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica – Asketikon - As Regras
Menos Extensas (313 regras) Interrogações 185-204
Se
alguém, ao notar que suas palavras tocaram os ouvintes, sente alegria, como
poderá discernir se esse regozijo provém de uma boa disposição ou de um
amor-próprio vicioso?
Resposta
Se a sua
satisfação repousa unicamente nos elogios, é evidente que se trata de
amor-próprio vicioso. Contudo, se você se alegra ao perceber que aqueles que o
exaltam compreenderam prontamente a mensagem, vislumbrando ali a semente da
obediência; e se, na sequência, se alegra por verificar — zeloso pelo bem
alheio — que as obras deles estão em harmonia com os louvores proferidos; ou
ainda, se ao notar que os elogios não geraram proveito algum, você se
entristece: então, dê graças a Deus. Pois, nesses casos, seus sentimentos são
dignos de um amigo de Deus e dos irmãos, uma vez que não buscou a glória
própria, mas sim a glória do Senhor e a edificação do próximo.
INTERROGAÇÃO
186
Tendo sido instruídos a cultivar um amor tamanha, a ponto
de dar a vida pelos amigos, queremos saber por quais amigos devemos estar
dispostos a tal sacrifício.
Resposta
É
preciso compreender que existem diferenças na atitude e no modo como esse sacrifício
se concretiza: certas ações devem ser empreendidas em favor dos pecadores,
enquanto outras são devidas aos justos. Contudo, fomos ensinados a manifestar,
sem distinção, um amor que vá até a morte, tanto pelos justos quanto pelos
pecadores. Como está escrito: "Deus prova o seu amor para conosco, porque
Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores" (Rm 5, 8-9). Por
outro lado, o Apóstolo diz aos santos: "Como uma mãe que cuida com ternura
dos filhos que amamenta, assim, em nossa afeição por vós, desejávamos não
apenas vos comunicar o Evangelho de Deus, mas dar a própria vida, porquanto nos
sois muito queridos" (1Ts 2, 7-8).
INTERROGAÇÃO 187
Se todos devem
receber algum auxílio de seus parentes carnais.
Resposta
É necessário que
os parentes entreguem àqueles que se aproximam do Senhor o que lhes é de
direito, sem nada subtrair, para que não incorram na sentença de sacrilégio. No
entanto, o fato de os bens serem gastos à vista daqueles a quem parecem
pertencer torna-se, com frequência, um pretexto de orgulho para estes e, para
os pobres que abraçaram o mesmo gênero de vida, uma ocasião de tristeza.
Ocorre, então, aquilo que o Apóstolo censura nos coríntios ao perguntar: "Porventura
quereis envergonhar os que nada têm?" (1Cor 11,22). Por isso, se o
responsável pelas igrejas do lugar for um administrador fiel e prudente,
deve-se proceder conforme relatado nos Atos dos Apóstolos: "Traziam e
depositavam [os bens] aos pés dos apóstolos" (At 4,35). Caso nem todos
sejam aptos a administrar tais recursos, mas somente os encarregados, caberá a
estes — após serem devidamente examinados — dispor do que lhes for entregue da
maneira que julgarem mais justa e conveniente.
INTERROGAÇÃO 188
Como devemos
receber os antigos companheiros ou os parentes que nos vêm visitar?
Resposta
Devemos proceder
conforme o exemplo e o ensinamento do Senhor. Quando lhe anunciaram: "Tua
mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam ver-te" (Lc 8,20), Ele
respondeu com palavras severas: "Quem é minha mãe e quem são meus
irmãos? Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu
irmão, minha irmã e minha mãe" (Mt 12,48-50).
INTERROGAÇÃO 189
Devemos ouvi-los
caso queiram, por meio de exortações, induzir-nos a retornar para casa?
Resposta
Se o intuito for
edificar o próximo na fé, aquele que for capaz de cumprir tal missão poderá ser
enviado, após ser devidamente experimentado. Contudo, se o motivo for meramente
por afeição humana, recorde-se do que o Senhor respondeu àquele que lhe disse: "Permite
primeiro que eu me despeça dos que estão em casa". Ele respondeu: "Aquele
que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus"
(Lc 9,61-62). Se esta é a sentença para quem apenas desejava despedir-se, que
dizer daquele que cogita retornar?
INTERROGAÇÃO 190
Devemos
compadecer-nos dos parentes carnais e desejar a sua salvação?
Resposta
Aquele que
nasceu do Espírito, conforme a palavra do Senhor (Jo 3,8), e recebeu o poder de
se tornar filho de Deus (Jo 1,12), deixa de considerar o parentesco carnal como
seu foco, reconhecendo como verdadeiros familiares aqueles que estão próximos
na fé. Sobre estes, o Senhor atesta: "Minha mãe e meus irmãos são
aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam" (Lc 8,21). Contudo,
cumpre compadecer-se de todos os que estão distantes do Senhor, sejam parentes
carnais ou não. Se alguém, nutrindo maior afeição pelos seus, julga ter no
Apóstolo um patrono para tal sentimento — ao dizer ele: "Porque eu
mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que
são da minha raça segundo a carne" (Rm 9,3) — deve compreender, pela
sequência do texto, que o Apóstolo não exalta o laço sanguíneo em si, mas a
Israel e aos privilégios concedidos por Deus. Ele não se refere aos israelitas
por serem meramente de sua raça, mas porque foram honrados com tantos e tão
grandiosos benefícios divinos: "Porque deles é a adoção, a glória, a
aliança, a legislação, o culto, as promessas e os patriarcas; e deles descende
o Cristo segundo a carne" (Rm 9,4-5). É por tudo isto que ele dá
tamanha importância à salvação deles: não por causa do parentesco, mas em razão
da encarnação do Senhor, realizada em favor daquele povo. Afinal, o próprio
Cristo disse: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de
Israel" (Mt 15,24).
INTERROGAÇÃO 191
O que significa
ser manso?
Resposta
Significa manter
a constância inabalável no propósito de agradar a Deus.
NTERROGAÇÃO 192
Qual é a
tristeza segundo Deus e qual é a tristeza segundo o mundo?
Resposta
A tristeza
segundo Deus ocorre quando alguém se angustia ao ver o mandamento divino sendo
desprezado, conforme está escrito: "Um ardor de indignação apodera-se
de mim por causa dos ímpios que abandonam a vossa Lei" (Sl 118,53). Já
a tristeza segundo o mundo é aquela cuja causa é puramente humana ou mundana.
INTERROGAÇÃO 193
O que é o júbilo
no Senhor e por quais das nossas ações devemos nos alegrar?
Resposta
O júbilo no
Senhor consiste em alegrar-se com o que é realizado segundo o mandamento divino
e para a glória de Deus. Portanto, devemos nos rejubilar e nos congratular
mutuamente sempre que colocarmos em prática os preceitos do Senhor ou sofrermos
algum padecimento em Seu nome.
INTERROGAÇÃO 194
De que modo
devemos chorar para sermos dignos da bem-aventurança?
Resposta
Esta questão
encontra-se implícita na que trata da tristeza segundo Deus. Choramos de
maneira digna quando nossas lágrimas brotam da contrição pelos pecados — seja
pela ofensa cometida contra o Senhor, uma vez que a transgressão da lei O
desonra, seja por compaixão por aqueles que perecem no pecado. Pois está
escrito: "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18,4). Devemos,
portanto, imitar aquele que disse: "Terei de chorar por muitos daqueles
que pecaram anteriormente" (2Cor 12,21).
INTERROGAÇÃO 195
Como alguém pode
fazer tudo para a glória de Deus?
Resposta
Alguém realiza
tudo para a glória de Deus quando age segundo o Seu mandamento e, em nada,
busca ou considera os louvores dos homens. Em todos os momentos, deve-se manter
presente a advertência do Senhor: "Assim brilhe a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está
nos céus" (Mt 5,16).
INTERROGAÇÃO 196
Como alguém pode
comer e beber para a glória de Deus?
Resposta
Pode fazê-lo ao
manter viva a lembrança do seu Benfeitor e ao adotar tal disposição de ânimo
que até a postura do corpo ateste que não se alimenta despreocupadamente, mas
consciente de ter Deus como espectador. Além disso, o propósito da refeição não
deve ser o prazer — para não se tornar escravo do próprio ventre —, mas sim o
sustento de um operário de Deus, buscando o vigor necessário para realizar as
obras conforme o mandamento de Cristo.
INTERROGAÇÃO 197
Como agirá a mão
direita de modo que a esquerda não o saiba?
Resposta
A mão direita age
sem que a esquerda o saiba quando a mente está inteiramente ocupada em não
falhar no seu dever, movida por um desejo estável e veemente de agradar a Deus,
combatendo de maneira legítima. Nesse estado, o espírito não se detém em
reflexões sobre si mesmo, nem sobre qualquer outro membro, concentrando-se
apenas naquilo que é útil para a execução do projeto; tal como o artífice,
durante o trabalho, volta o seu olhar unicamente para a ferramenta necessária à
sua atividade.
INTERROGAÇÃO 198
O que é a
humildade e como a alcançaremos?
Resposta
A humildade
consiste em considerar todos os outros como superiores a si mesmo, conforme a
orientação do Apóstolo (Fl 2,3). Pode praticá-la, primeiramente, aquele que
mantém viva a memória do mandamento do Senhor: "Aprendei de mim, porque
sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29) — lição que Ele demonstrou
e ensinou de múltiplas formas e em diversas ocasiões. Além disso, alcança-a
quem crê verdadeiramente na promessa divina: "Todo aquele que se
humilhar será exaltado" (Lc 14,11).
INTERROGAÇÃO 199
Como poderá
alguém estar inteiramente pronto para enfrentar até mesmo os perigos, por causa
do mandamento do Senhor?
Resposta
Alguém alcança
essa disposição, primeiramente, ao manter viva a lembrança de que o Senhor, por
amor a nós, obedeceu ao Pai até à morte (Fl 2,8). Em seguida, ao estar convicto
da força do mandamento, que é vida eterna, conforme está escrito (Jo 12,50).
Finalmente, ao depositar absoluta fé no que disse o Senhor: "Pois quem
quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim
e do Evangelho, salvá-la-á" (Mc 8,35).
INTERROGAÇÃO 200
Como poderão
aqueles que, por longo tempo, já se dedicaram à obra de Deus, ajudar os
recém-chegados?
Resposta
Se possuírem
vigor físico, devem demonstrar um zelo incansável e apresentar-se como modelos
de toda boa obra. Se, contudo, estiverem enfermos, devem manter tal disposição
de ânimo que demonstrem, em sua fisionomia e em todos os seus movimentos, a
profunda convicção de que Deus os vê e a certeza da presença (parusia)
do Senhor. Devem, ainda, manifestar as qualidades da caridade enumeradas pelo
Apóstolo: "A caridade é paciente, a caridade é benigna. A caridade não
é invejosa, não se ufana, não se ensoberbece. Não faz nada de inconveniente, não busca os seus próprios interesses, não se
irrita, não suspeita mal. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a
verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade
jamais acabará" (1Cor 13,4-8). Todas essas virtudes podem ser
praticadas mesmo em um corpo enfermo.
NTERROGAÇÃO 201
Como poderá
alguém manter-se plenamente atento durante a oração?
Resposta
Mantendo a
convicção de que Deus está diante de seus olhos. Se aquele que contempla um
príncipe ou uma autoridade, ao conversar com tal personalidade, mantém o olhar
fixo e atento, quanto mais aquele que ora a Deus deve conservar a mente voltada
para Aquele que perscruta os corações e os rins! Assim, cumprirá o que está
escrito: "Levantando mãos puras, sem ressentimento e sem contenda"
(1Tm 2,8).
INTERROGAÇÃO
202
É possível
manter-se, em todas as circunstâncias e de forma ininterrupta, livre de
distrações? Se sim, como realizar tal propósito?
Resposta
A possibilidade
de alcançar tal estado é demonstrada por aquele que afirmou: "Meus
olhos estão sempre fixos no Senhor" (Sl 24,15) e: "Ponho
sempre o Senhor diante de mim; com Ele à minha direita, não vacilarei"
(Sl 15,8). Anteriormente, expusemos o modo de realizá-lo: a alma jamais deve
cessar de meditar em Deus, em Suas obras e em Seus dons, permanecendo sempre em
atitude de confissão e gratidão por tudo.
INTERROGAÇÃO
203
Na realização
dos mandamentos do Senhor, existe uma única medida para todos, ou alguns
possuem uma proporção maior e outros, menor?
Resposta
Evidencia-se que
a medida não é a mesma para todos; a um é confiado mais, a outro menos,
conforme as palavras do Senhor. Ele declara: "A semente que caiu em
terra boa é aquele que ouve a palavra, compreende-a e produz fruto: cem por um,
sessenta por um, trinta por um" (Mt 13,23), o que também se observa na
parábola daqueles que receberam as minas (Lc 19,16). E, em outra ocasião,
afirma: "A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um"
(Mt 25,15).
INTERROGAÇÃO
204
Como alguém se
tornará apto a participar do Espírito Santo?
Resposta
Nosso Senhor
Jesus Cristo o ensinou ao dizer: "Se me amais, guardareis os meus
mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Advogado, para que
fique eternamente convosco. É o Espírito da verdade, que o mundo não pode
receber" (Jo 14,15-17). Portanto, enquanto não guardarmos todos os
mandamentos do Senhor, nem pudermos receber d'Ele o testemunho de que "não
sois do mundo" (Jo 15,19), não devemos esperar que nos tornaremos
aptos a receber o Espírito Santo.
1.
O que você destaca no
texto?
2.
Como serve para a sua
espiritualidade?
3.
De que forma esse texto
desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?
Nenhum comentário:
Postar um comentário