terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

271 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Biografia

 



271

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Biografia

 

1.     A patrologia grega oriental alcançou seu ponto mais elevado com os chamados “Padres capadócios”: Basílio Magno, Gregório de Nissa, seu irmão, e Gregório de Nazianzo.

2.     Basílio é, com certeza, o mais importante dos três. Devido à sua personalidade fértil, ativa tanto na reflexão, na produção literária, quanto na organização e na administração das comunidades de sua diocese, a história eclesiástica o consagrou como o “Grande”, pai e doutor da Igreja.

3.     O que é característico e exemplar nestes Padres capadócios é o fato de provirem da alta aristocracia e não usarem desse privilégio para se impor, mas, desprezando toda glória e riqueza do mundo, dedicaram-se aos necessitados tanto quanto à vida intelectual, à meditação, à oração.

4.     De fato, Basílio empenhou todas as suas forças intelectuais e físicas na interpretação da doutrina cristã, na reforma da liturgia, na edificação da vida monástica, na defesa da ortodoxia, sem se descuidar, ao mesmo tempo, dos necessitados.

 

Origens, infância e formação acadêmica

5.     Basílio nasceu e viveu no período conhecido como “idade de ouro” da patrística. Nesse período, ocorreram grandes mudanças e transformações sociais, principalmente a ascensão da aristocracia dos grandes latifundiários ao poder, que é de extrema importância para a compreensão de Basílio e sua ação.

6.     Descende de família rica, numerosa e de tradição cristã. Seu pai já vinha de família rica e considerada latifundiária, da região do Ponto. Sua mãe era de família nobre da Capadócia. Macrina, a avó paterna, fora educada sob a orientação de Gregório Taumaturgo, que, por sua vez, fora discípulo de Orígenes.

7.     Desde muito cedo, esteve Basílio sob a influência desta sua avó. Em várias cartas, sempre sublinha o papel de educadora da fé ortodoxa junto de seus netos: “Que prova mais clara poderia ter em favor de nossa fé, que o fato de ter sido educado por uma avó que era mulher bem-aventurada (…)? Quero falar da ilustre Macrina, que nos ensinou as palavras do bem-aventurado Gregório (o Taumaturgo), todas as que a tradição oral lhe conservara que ela guardara e das quais se servia para educar e formar na piedade os pequeninos que éramos, então” (Epist. 104,6; 110,1; 123,3).

8.     O pai, notável retórico, ensinou-lhe os primeiros elementos culturais: “Na primeira idade, foi sob a direção do ilustre pai, que o Ponto se propunha então como modelo de virtude, que desde as línguas ele (Basílio) recebeu uma formação eminente e muito pura” (testemunha Gregório de Nazianzo, In Basilio, XII,1).

9.     A família é numerosa. São dez irmãos, entre os quais se destacam a irmã Macrina, a Jovem, os irmãos Gregório, bispo de Nissa, e Pedro, bispo de Sebástia.

10. Os avós paternos sofreram a última perseguição movida pelo imperador Diocleciano.

11. Alguns anos mais tarde, Constantino dará liberdade de culto através do edito de Milão, mas agora, por volta de 301-303, ao lado de reformas administrativas, fiscais e econômicas, Diocleciano publicou um edito contra a alta dos preços e, talvez instigado por Galeno, desencadeou uma dura perseguição contra os cristãos que se estendeu por quase dez anos. Seus avós paternos tiveram de se refugiar nas florestas do Ponto por anos, tendo os bens confiscados.

12. Seus anos de juventude foram marcados por frequentes viagens. Depois dos estudos fundamentais em sua cidade, foi enviado a Bizâncio, Antioquia e Atenas para completar os cursos de aperfeiçoamento.

13. Durante os anos de estudo em Antioquia, é preciso sublinhar a figura de Eustácio de Sebástia, importante para a história do monaquismo da Ásia Menor. Filósofo, depois bispo (356-380), foi o propagador do ascetismo na Armênia e no Ponto. Basílio evoca várias vezes a influência dele na conversão (Epist. I; 123,2-3).

14. Estudante em Atenas, sua irmã Macrina lhe interpretava, através de cartas, a “filosofia” de Eustácio. Na Carta I, Basílio declara que a reputação de Eustácio o atingiu quando o encontrou na Grécia: “Deixei Atenas por causa do renome de tua filosofia”.

15. Atenas lhe dera tudo o que um jovem como ele podia buscar. Foi ali também que nasceu e se fortificou, entre ele e Gregório de Nazianzo, uma amizade rara e duradoura.

16. Ali completou seus estudos de retórica aprendendo ainda a filologia e a filosofia.

17. Retornando de Atenas, em 355, estabeleceu-se em Cesareia como retórico. Arrebatado pelo sucesso de seu ensino, dedicou-se cada vez mais à filosofia sofística.

18. Contudo, os desejos de perfeição, as constantes advertências de sua irmã mais velha, Macrina, acabaram dobrando-o aos projetos de vida perfeita concebidos em Atenas.

19. Empreendeu, então, novas viagens, desta vez, visitando os ascetas do Egito, da Palestina, da Síria e Mesopotâmia (cf. Carta 1 e 223). De volta para sua terra, em 358, foi batizado pelo velho bispo de Cesareia, Diânios.

20. Com a morte prematura de seu pai, neste mesmo ano, vendeu os bens recebidos em herança e distribuiu aos pobres o resultado desta venda. Em seguida, retirou-se, na companhia de sua mãe e da irmã Macrina, para Anesi, no Ponto, numa propriedade da família, às margens do Íris, vivendo como eremita.

21. Gregório de Nazianzo vai juntar-se a eles. Juntos, estudam as obras de Orígenes e compõem uma antologia de textos originianos que levará o nome de Filocália.

22. Há consenso entre a maioria dos autores modernos em fixar Cesareia como lugar de nascimento de Basílio. Cesareia da Capadócia, a mais importante dentre tantas Cesareias espalhadas pelo império romano, na Ásia Menor, na Palestina, na Síria, Mauritânia, fundadas em honra de César Augusto. Hoje, Kayseri, no centro da Turquia atual. O imperador Trajano (98-117) transformou-a na capital da província romana da Capadócia, região que incluía o Ponto e a Armênia. Parece ter sido evangelizada bem cedo, visto que a primeira carta de Pedro escrita, provavelmente um pouco antes da perseguição de Nero, pelo ano 64, se dirige aos cristãos desta região: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos que vivem dispersos como estrangeiros no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pd 1,1).

23. Embora fosse homem de intensa atividade, sua saúde foi sempre frágil, impedindo-o, talvez, de fazer mais. Suas cartas estão cheias de queixas sobre seu estado de saúde e da oposição que recebe de seus adversários. Aos 40 anos, sentia-se velho: “… A fim de que nós, os velhos, recebêssemos de verdadeiro filho as amabilidades que nos são devidas…” (Carta 176). “Tinha desde longo tempo respondido às questões que tua piedade nos havia proposto, mas não te enviei a carta, porque estive retido por longa e grave doença…” (Ibidem).

24. Na Carta 200, diz: “Conosco as doenças sucedem às doenças, e as ocupações que provêm dos afazeres eclesiásticos, como aquelas que nos criam aqueles que procuram perturbar as igrejas, nos retiveram todo o inverno e até o momento em que escrevemos esta carta. É por isso que não nos foi possível nem enviar alguém, nem ir visitar tua piedade. Supomos que tal é também tua situação para o resto, não o digo pela doença”…

25. Na Carta 201, a mesma queixa: “Mas, porque a mesma causa nos reteve todos os dois, vós a doença que vos sobreveio, e a nós, nossa má saúde que data de mais longo tempo e que não nos deixou ainda…”.

26. Após uma viagem ao Ponto, deixa sua situação física transcrita na Carta 218: “Tive o corpo quebrado em consequência de minha viagem ao Ponto e estou atacado de um mal intolerável. É que desde longa data queria fazer saber à tua prudência (…), mas te informo agora…”.

27. Seu amigo, Gregório de Nazianzo, o retrata na “sua palidez, sua barba, seus afazeres habituais, e quando falava, sua ausência de precipitação, seu ar pensativo ordinariamente, e seu recolhimento interior” (Disc. 43,77,1).

 

Pai do monaquismo

28. O projeto de vida perfeita o leva para a solidão de Anesi: “Este lugar nutre o mais agradável para mim de todos os frutos, a tranquilidade, não somente porque está distante do tumulto das cidades, mas ainda porque ele não deixa sequer passar um viajante, à exceção dos que se juntam a nós durante suas caçadas” (Epist. 14,2; cf. Gregório de Naz. Epist. 4,12).

29. Nesta vida de eremita, isolado, movido pela penitência, passava necessidades, segundo relata seu amigo Gregório: “Se esta grande e verdadeira nutriz dos pobres, quero dizer: tua mãe, se não nos tivesse rapidamente tirado de lá mostrando-se na hora oportuna propícia como um porto para aqueles que soçobram na tempestade, desde muito tempo nós seríamos apenas cadáveres” (Epist. 5,4).

30. Entre religiosos, visitando muitos cenóbios, conheceu o monaquismo por dentro, com suas grandezas e fraquezas. Sua ação era movida para uma vida comunitária que evitasse as excentricidades praticadas por alguns anacoretas e para promover um esforço teológico e exegético para equilibrar a vida monástica.

31. Foi assim que, respondendo aos quesitos a respeito da interpretação do Evangelho, surgiram o Pequeno Asceticon e o Grande Asceticon. A estas obras costumam dar o nome de “Regras”, impropriamente.

32. São, na verdade, duas obras as céticas. A primeira, mais breve, conservada somente numa tradução latina. A segunda, a “Grande Regra”, mais extensa, se encontra na versão grega.

33. Trata-se de obras elaboradas no esquema de perguntas e respostas, transcrevendo as conversações entre Basílio e os monges, em suas visitas. Expõem as diretrizes e orientações para a vida cotidiana e a organização de uma comunidade monástica.

34. Estas “Regras”, que incorporam ainda preceitos de Eustácio de Sebástia, estão na base do monaquismo oriental e são chamadas até hoje basilianas.

35. Contudo, teve pouco tempo para desfrutar a solidão, o silêncio. Ordenado presbítero, chamado à luta por seu bispo, empenhou-se na defesa da fé cristã contra o arianismo.

 

O episcopado

36. Não obstante as constantes tensões com o bispo de Cesareia, Basílio acedeu ao sacerdócio e conquistou grande autoridade, graças à sua atividade ascética e caritativa.

37. Sua pregação era severa, especialmente contra os ricos. Quando da morte do bispo Eusébio, em 370, desencadeou-se forte oposição à eleição de Basílio, que, ao contrário do que acontecia entre o clero, era muito querido pelo povo.

38. Parece que a oposição se fazia mais em vista de sua precária saúde. Perguntou alguém: “Vós quereis um atleta ou um doutor da fé?”. Sucede, então a Eusébio no episcopado de Cesareia, em 370.

39. Nove anos bastaram para que fosse chamado, ainda em vida, o “Grande”.

40. Em sua atividade episcopal, continuou na luta contra os arianos, que gozavam do apoio explícito do imperador Valente. Este, para enfraquecê-lo, dividiu sua diocese, reduzindo seu território geográfico e o número de bispos sob sua jurisdição.

41. Mas Basílio não se deixou intimidar pelas ameaças arianistas. Nestas circunstâncias, para multiplicar as sedes episcopais em seu território jurídico, impôs ao irmão Gregório a diocese de

42. Nissa e a seu amigo Gregório de Nazianzo a diocese de Sásima, reforçando o episcopado ortodoxo. Apesar de todos os esforços de Basílio, seu irmão Gregório perderá a sede episcopal para os arianos em 376-378.

43. Embora sempre muito preocupado com a unidade da Igreja e com a defesa da ortodoxia contra os arianos e macedônios, manteve-se muito próximo do povo, vivendo com ele a situação de miséria. Não só escreveu e pronunciou muitas homilias em favor do povo sofrido, mas agia diretamente ajudando os pobres, construindo hospital para acolher doentes, vítimas de epidemias, viajantes, estrangeiros, abandonados. Assim se faz pioneiro não só na defesa da consubstancialidade do Espírito Santo com o Pai e com o Filho, mas também na ação social.

44. De fato, vendo o povo empobrecido, esmagado pelo fisco, exploração e usura, prega contra o luxo e a avareza. Defende a igualdade fundamental de todos os homens diante de Deus, a eminente dignidade da pessoa humana, a necessidade da redistribuição dos bens para eliminar a avareza e o enriquecimento.

45. Seu hospital era verdadeira cidade operária com forno comunitário, alojamento para empregados, asilo para velhos, ala reservada para doentes contagiosos. Posteriormente, este hospital será chamado “Basilíades”.

46. De fato, foram tempos difíceis, anos terríveis para o bispo Basílio: crise moral, econômica, política, religiosa. A fome se abate sobre regiões inteiras, atingindo toda a Capadócia.

47. Ao mesmo tempo em que se dedicava à reflexão teológica, à assistência e defesa dos pobres, ao trabalho de unir as igrejas, à orientação espiritual dos monges, Basílio se interessava também pela vida de oração, pelas celebrações da comunidade. É assim que se explica sua presença no movimento litúrgico.

48. A Carta 2 expõe um programa de santificação do dia. A Carta 207,3 responde às críticas da igreja mais conservadora em relação à liturgia. As homilias sobre os Salmos 1 e 28, sobre a Ação de Graças e tantas outras desenvolvem os temas do louvor divino.

49. Um formulário eucarístico bizantino marcado com o nome de Basílio existe em siríaco, aramaico, eslavo e árabe.

50. Introduziu nova maneira de cantar e reformou o ofício litúrgico dos mosteiros.

51. A tradição oriental atribui-lhe a liturgia que traz seu nome e que as igrejas de rito bizantino ainda usam nos dias da quaresma e na celebração das grandes festas do ano.

 

Atividade literária

52. Apesar de viver sempre num estado de saúde precária, de sua intensa atividade social, espiritual e litúrgica, não foi menor sua atividade literária. Tratados teológicos, ascéticos, pedagógicos e litúrgicos, além de grande número de sermões e de cartas, estão aí para provar esta afirmação. Em seus escritos se revelam sua têmpera e sua formação cultural.

53. Os tratados teológico-dogmáticos estão voltados contra os arianos e os pneumatômacos (os que negavam a divindade do Espírito Santo).

54. Entre 363-365, compôs o tratado Contra Eunômio, líder mais intransigente dos arianos e dos anomeus (ala radical do arianismo), em três livros. Eunômio de Cízico fora secretário e discípulo de Aézio. Ordenado diácono em 357 por Eudósio e depois bispo de Cízico, em 360 havia escrito uma Apologia imprimindo vigoroso impulso à tendência ao arianismo extremo.

55. Toda a igreja da Capadócia estava mergulhada na crise ariana por causa do apoio do imperador Valente. Eunômio representava o arianismo radical, chamado anomeísmo, para quem só o Pai é Deus, seu Filho Jesus Cristo é apenas uma criatura.

56. Na refutação, Basílio defende a igualdade perfeita do Filho e do Espírito Santo com o Pai. Recolheu a herança de Atanásio de Alexandria e se apoiou na autoridade do bispo de Roma para tentar debelar o erro ariano.

57. Os escritos ascéticos estão voltados para a vida monástica, fixando as normas da conduta dos monges. São atribuídos a Basílio, nesta área, treze tratados, porém a maior parte são apócrifos. Os originais são apenas três.

58. Quanto à exegese, Basílio não desenvolveu um trabalho sistemático. Compreendem-se, nesta área, homilias e sermões com intenção prática. Sua exegese é literal e a homilética é determinada pelos textos das Escrituras. “O auditório ao qual se dirige Basílio comanda inteiramente a estrutura literária de suas homilias. Tanto no Hexaemeron quanto nas Homilias acerca da origem do homem, encontram-se quatro traços bem caracterizados: 1) a adaptação litúrgica; 2) a exegese literária e sistemática, na qual o texto escriturístico determina a unidade da composição; 3) exortação moral graças a uma ilustração tomada da vida ambiental; e, enfim, 4) a recusa de uma problemática especializada na evocação de questões mais delicadas sobre a origem do mundo ou sobre o valor simbólico dos nomes”.

59. Há ainda uma obra pedagógica, embora várias se apresentem com seu nome, esclarecendo o problema da relação que os cristãos devem ter com a literatura clássica pagã: Exortação aos jovens a respeito do modo de tirar proveito das letras helênicas.

60. Sob o pretexto de guiar os sobrinhos nos estudos, Basílio explica como a filosofia e a “paideia” (sistema de educação grega – lit. a educação de crianças) atenienses podem conduzir o homem a uma atitude que se avizinha do ascetismo cristão. Os cristãos devem, portanto, saber o que é útil para segui-lo e o que é necessário deixar de lado: “Devemos imitar as abelhas: sugar o mel e deixar o veneno”, dizia ele. O tratado indica, pois, tanto o perigo que o estudo dos escritos pagãos podem acarretar para os cristãos quanto o proveito que se pode tirar deles. Sua atividade literária se engrandece ainda por seu rico e vasto epistolário.

61. Sua correspondência é uma das mais consideráveis da antiguidade cristã. Através dela podemos conhecer melhor a vida cotidiana da Igreja Oriental do século IV. Em suas 366 cartas, vemos desfilar uma vasta gama de temas como: questões sociais, a situação de exploração em que vivia o povo, recomendações, consolações, orientações para a vida monástica, para a vida cristã dos leigos, problemas morais, ascéticos, dogmáticos, litúrgicos, históricos.

62. Além do mais, revelam-se nelas seus sentimentos de amizade, de equilíbrio, a força de seu caráter e a sensibilidade do pastor atento às necessidades de suas ovelhas. Enfim, em todos os seus escritos, revela-se um espírito penetrante, severo, reservado, capaz da mais alta especulação e rigoroso em suas deduções.

63. Tímido, mas de grande coragem, encontrou ao longo de sua vida muitas incompreensões e insucessos. Feito mais para o recolhimento, não fugiu às responsabilidades da ação para servir à fé.

64. É flexível. Homem do diálogo, da conciliação a serviço da paz e da ortodoxia.

65. “Este homem morre esgotado pelas austeridades e pelas tribulações, prematuramente, à idade de cinquenta anos, em 1º de janeiro de 379. A vitória estava próxima. Basílio não a experimentou, mas havia-a preparado. Seus funerais foram um triunfo. O povo avaliava a perda que sua morte representava.

66.  Dez anos foram suficientes para mostrar o que ele era e fazer dele um bispo incomparável”.

67. Os elogios fúnebres, brilhantes, de Gregório de Nazianzo e de Gregório de Nissa, seu irmão, tiveram enorme influência sobre a hagiografia posterior.

 

 

O que você destaca na vida de São Basílio?

O que sua vida nos ensina?

Como este texto serve para sua espiritualidade?

 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

O que é a Solenidade da Epifania do Senhor?



O que é a Solenidade da Epifania do Senhor?

A palavra Epifania significa "Manifestação". É a festa da manifestação de Jesus como Deus ao mundo.

Literalmente a palavra Epifania significa “a manifestação mais evidente, mais aparente”.

Frequentemente se refere a esta festa como a "Teofania", tal como se diz nos livros litúrgicos da Igreja Ortodoxa, palavra que significa Manifestação de Deus. 

Neste dia lembramos três atos epifânicos de Jesus Cristo como Deus: A Estrela que guia os Magos a Belém; o Espírito Santo e a Voz do Pai que aparecem no Batismo do Senhor e o primeiro Milagre em Caná da Galileia. 

Ocorre no dia 06 de janeiro ou no domingo mais próximo segundo ou terceiro domingo depois do Natal.


Qual a origem da Celebração da Epifania do Senhor?

Antes de ser celebrado o dia 25 de dezembro como o dia do Natal, os cristãos do fim do segundo século, já celebravam a Epifania no dia 6 de janeiro. 

A estratégia era a cristianização do paganismo. Retirar do Império Romano o paganismo e introduzir celebrações que exaltassem a Cristo como Deus. Era uma estratégia missionária.

No Oriente, o dia 6 de janeiro estava ligado ao nascimento virginal de Aion/Dionísio e com diversas outras lendas de epifania nas quais os deuses se manifestavam aos seres humanos.  Plínio discorre a respeito dos modos como Dionísio revelava a sua presença naquele dia, transformando água em fontes de vinho (Natural History).

Os cristãos, nessa época, perseguidos pelos romanos, tiveram a estratégia de celebrar, na mesma data, a Epifania de Jesus (Manifestação de Jesus). Para confrontar os poderes das trevas, elegeram essa data como especial no calendário da Igreja. 

Nessa festa pregavam o nascimento virginal de Cristo, a visita dos magos a Jesus, seu batismo e seu milagre de transformar a água em vinho em Caná da Galileia.

Nessa celebração, segundo Jerônimo que morou 24 anos em Belém, o Batismo de Jesus era o conteúdo principal.

Muitos estudiosos veem na Epifania uma cristianização da festa judaica dos Tabernáculos. 

As duas celebrações (epifania e tabernáculos) incluíam a vigília durante a noite toda, a iluminação de círios e a procissão das luzes, as águas da vida, os ramos de palmeiras e alusões ao matrimônio. 


Nota Histórica:

Segundo a narrativa de Egéria o conteúdo da Epifania em Jerusalém era a natividade. No ocidente na festa da Epifania se comemorava a adoração dos Magos, o Batismo do Senhor e o milagre de Caná. Tudo indica que o Natal e a Epifania eram uma única celebração e depois vindo a se dividir em duas. No oriente, já na época dos pais capadócios , a Epifania era celebrada como dia para batizados. 

A Oração do Dia da Epifania

O Livro de Oração Comum, utilizado pelos protestante anglicanos e algumas igrejas evangélicas, tem a seguinte oração para este dia:


"Ó Deus, que pela Estrela manifestaste teu unigênito Filho a todos os povos da terra; guia-nos à tua presença, os que hoje te conhecemos pela fé; a fim de que desfrutemos de tua glória face a face; mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém". 

É uma oração que pede a direção de Deus para que vivamos debaixo da graça, pela fé.


Como é celebrada a Epifania nas Tradições Cristãs?

Várias igrejas protestantes celebram a Epifania do Senhor próximo do dia 06 de janeiro. As Igrejas católicas têm uma missa própria com uma importante alusão ao tema. 

Na religiosidade popular brasileira existe a Folia de Reis. É uma festa religiosa de origem portuguesa, que chegou ao Brasil no século XVIII. Em Portugal, em meados do século XVII, tinha a principal finalidade de divertir o povo, enquanto aqui no Brasil, passou a ter um caráter mais religioso do que de diversão. 

No período de 24 de dezembro, véspera de Natal, a 6 de janeiro, Dia de Reis, um grupo de cantadores e instrumentistas percorre a cidade entoando versos relativos à visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Passam de porta em porta em busca de oferendas.

Contudo, é importante ressaltar que Epifania não é o Dia de Reis. O Evangelho de Mateus não chama os Magos de reis, nem diz que eram três. Apenas são chamados de "os magos". Por isso, pela Bíblia, não existem "os Três Reis Magos".

A tradição que afirma que eram três Reis magos, deu também a eles os nomes de Melquior, Baltasar e Gaspar. 

Esses nomes aparecem no Evangelho Apócrifo Armênio da Infância do fim do século VI, (ampliação do Evangelho do Pseudo-Tomé do II século). A palavra Apócrifo significa livros ocultos, secretos. Geralmente são livros escritos pelas seitas cristãs do II ao VI séculos depois de Cristo. 

No capítulo 5,10, do Evangelho Apócrifo Armênio da Infância está escrito: 

Um anjo do Senhor foi de pressa ao país dos persas para avisar aos reis magos e ordenar a eles de ir e adorar o menino que acabara de nascer. Estes, depois de ter caminhado durante nove meses, tendo por guia a estrela, chegaram à meta exatamente quando Maria tinha dado à luz. Precisa-se saber que, naquele tempo, o reino persiano dominava todos os reis do Oriente, por causa do seu poder e das suas vitórias. Os reis magos eram três irmãos: Melquior, que reinava sobre os persianos; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes.


Na Igreja Ortodoxa, a Liturgia da Epifania é rica em muitas tradições. É um rito longo e cheio de significados.

É uma celebração da adoração a Trindade. No "Tropário (poema) da Festa" está escrito:

 

"Em teu batismo no Jordão, Senhor, manifestou-se a adoração da Trindade; pois a voz do Pai deu testemunha, chamando-te Filho bem-amado; e o Espírito, sob forma de pomba, confirmou a verdade desta palavra. Ó Cristo Deus que te manifestaste e iluminaste o mundo, Senhor, glória a Ti!" 


A Liturgia Ortodoxa celebra a Manifestação de Jesus ao Universo. No Kondakion - Hino litúrgico da Igreja Ortodoxa, está escrito: "Hoje, Senhor, te manifestaste ao Universo e a tua voz brilhou sobre nós, que, conhecendo-te, cantamos: Vieste, apareceste, ó Luz Inacessível!

Os ofícios litúrgicos reproduzem os do Natal, apesar da celebração da Epifania ser mais antiga do que as celebrações do Natal. 

A característica principal da festa da Epifania na Igreja ortodoxa é a Grande Bênção das Águas, uma vez que a Epifania nasceu da liturgia da festa dos tabernáculos. 

No Hino da Grande Bênção das águas traz a seguinte estrofe: 


"A voz do Senhor faz-se ouvir sobre as águas, dizendo: Vinde, todos, receber o espírito de sabedoria, o espírito de inteligência, o espírito de temor de Deus, do Cristo que se manifestou! Hoje a natureza das águas se santifica; o Jordão se divide e suas águas deixam de correr; porque nele se vê o Senhor sendo batizado. Ó Cristo Rei, como homem vieste ao rio para batizar-te. Tomaste a iniciativa para receber o batismo da mão do Precursor como escravo, por nossos pecados, ó amante da humanidade".


Na Pastoral do Colégio Episcopal sobre o Culto na Igreja Metodista, há um estudo sobre os períodos litúrgicos. 

Sobre a Epifania a Pastoral diz que "esse tempo celebra a manifestação de Cristo aos seres humanos. No momento em que os magos do Oriente seguiram a estrela em busca daquele que viria a ser o Salvador por excelência. A Epifania é para o Natal o que o Pentecostes é para a Páscoa, isto é, desenvolvimento e permanência do ato de Cristo em favor da humanidade. A espiritualidade desse período é caracterizada pela manifestação e aparição de Cristo ao mundo. É o Cristo prometido que se torna uma realidade na vida de mulheres e homens que procuram a paz, a justiça e o amor". 

Quais são as Leituras para a celebração do Dia da Epifania?

A primeira Leitura é Isaías 60.1-6. Fala da Glória do Senhor que nasce sobre os homens. Os pais da Igreja entenderam este salmo como uma alusão profética sobre a Estrela de Belém e as visitas dos Magos a Jesus. As nações e os reis vão ao encontro do Senhor por causa da luz de sua glória: (3)   As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu.

Muitos virão de longe ao encontro do rei que nasceu (4)   Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajuntam e vêm ter contigo; teus filhos chegam de longe, e tuas filhas são trazidas nos braços. Trarão ouro e incenso: (5) ...e as riquezas das nações virão a ter contigo. (6) Trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do SENHOR.

O Salmo cantado é o 72: Este Salmo fala da eternidade do Messias: (5)   Ele permanecerá enquanto existir o sol e enquanto durar a lua, através das gerações. Fala do seu domínio: (8) Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra. Reis virão lhe oferecer presentes: (10)   Paguem-lhe tributos os reis de Társis e das ilhas; os reis de Sabá e de Sebá lhe ofereçam presentes. (11)   E todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam. (15)    Viverá, e se lhe dará do ouro de Sabá; e continuamente se fará por ele oração, e o bendirão todos os dias. O Messias é o Senhor de misericórdia e retidão.

A segunda leitura é Ef 3.2-6. Paulo fala da dispensação da Graça que foi inaugurada em Cristo. (2). Jesus é o mistério de Deus que foi revelado a Paulo e a Igreja (3,4). No passado os homens não conseguiram entender este mistério de Deus, mas na dispensação da graça conhecemos a manifestação de Jesus aos gentios que hoje são (6) "co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho".

O Evangelho da Epifania é Mt 2.1-12. Este Evangelho relata a vinda dos magos a Jesus. Saem do Oriente, vão a Jerusalém, caminham para Belém orientados pela estrela e adoram o menino que estava numa casa com sua mãe. Oferecem Ouro, Incenso e Mirra.

É a adoração baseada no sacrifício de louvor. Os magos sacrificam suas vidas para oferecer a Jesus um louvor e adoração.


Curiosidade da Estrela de Belém

O cristão Tomás de Aquino (viveu de 1224 à 1274) escreveu um texto sobre esta estrela que guiou os Magos ("Suma Teológica III, q. 36, a.7): 

1º. Esta estrela seguiu um caminho de Norte ao Sul, o que não é comum as estrelas. 

2º. Ela aparecia não só de noite, mas também durante o dia. 

3º. Algumas vezes, ela aparecia e outras vezes se ocultava. 

4º. Não tinha um movimento contínuo: andava quando era preciso que os magos caminhassem, e se detinha quando eles deviam se deter, como a coluna de nuvens no deserto. 

5º. A estrela mostrou o parto da Virgem não só permanecendo no alto, mas também descendo, pois não podia indicar claramente a casa se não estivesse próxima da terra. 

O que era a estrela então? Tomás de Aquino responde: A estrela poderia ser 

1º. O Espírito Santo, assim como Ele apareceu em forma de pomba sobre Nosso Senhor em Seu batismo, também apareceu aos magos em forma de estrela. 

2º. Um anjo, o mesmo que apareceu aos pastores, apareceu aos magos em forma de estrela. 

3º. Uma espécie de estrela criada à parte das outras, não no céu, mas na atmosfera próxima à terra, e que se movia segundo a vontade de Deus.


Epifania é o esforço de Deus para salvar o ser humano mediante Jesus Cristo. É a manifestação do Cristo Salvador.

Ouçamos Leão Magno (falecido em 461 d.C) em sua pregação sobre o Dia da Epifania:

"Portanto, amados filhos, instruídos nos mistérios da graça divina, celebremos com alegria espiritual o dia das nossas primícias e do primeiro chamado dos povos pagãos à fé, dando graças a Deus misericordioso que, conforme diz o Apóstolo, nos tornou capazes de participar da luz que é a herança dos santos; ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino de seu amado Filho. Pois, como anunciou Isaías, o povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. E ainda referindo-se a eles, o mesmo profeta diz ao Senhor: Nações que não vos conheciam vos invocarão e povos que vos ignoravam acorrerão a vós". (Dos Sermões de São Leão Magno - Sermão III in Epiphania Domini).


Para a Equipe de Liturgia:

Cante hinos que falem da manifestação do Senhor aos Magos, do seu batismo e do primeiro milagre em Caná da Galileia. Também louvores que adorem o Rei Jesus que nasceu. 

Pode-se ser encenada a chegada dos Magos ao Presépio.

Usar símbolos da Coroa, do Ouro, Incenso e Mirra. 

Deve ser um culto muito celebrativo. 


Cor litúrgica da Solenidade da Epifania do Senhor:

Branco. Em todas as Solenidades do Senhor são usados paramentos brancos.

Também pode ser utilizada a cor amarela por se tratar da realeza. 


Liturgia da Palavra:

Ano A, B e C: Is 60.1-6 / Sl 72. 1-2,7-8,10-13 / Ef 3.2-6 / Mt 2.1-12.

 Bibliografia: Como Viver o Ano Cristão - Edson Cortasio Sardinha