sábado, 8 de agosto de 2026

320 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 223-235

 



320

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 223-235

 

Interrogação 223

O Senhor disse: “Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas” (Mt 6,17-18). Se alguém quiser jejuar por um motivo agradável a Deus — como os santos muitas vezes fizeram — e for visto por outras pessoas, mesmo sem querer, o que deve fazer?

      RESPOSTA

A ordem do Senhor dirige-se àqueles que cumprem os mandamentos buscando a aprovação humana, a fim de curá-los do vício de querer agradar aos homens. Por outro lado, quando a observância do mandamento busca a glória de Deus, torna-se difícil escondê-la por sua própria natureza, se a pessoa realmente ama a Deus. É como o próprio Senhor declarou: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma vela para colocá-la debaixo de um cesto, mas sim no candelabro...” (Mt 5,14-15).

 

INTERROGAÇÃO 224

Será que, ainda nos dias de hoje, algumas pessoas começam a servir a Deus desde cedo (na primeira hora) e outras só bem mais tarde (na última hora)? Quem são essas pessoas?

 

RESPOSTA

Pelas Sagradas Escrituras, todos nós sabemos que existem dois tipos de pessoas: Os que começam cedo: Aqueles que, como diz o Apóstolo, aprenderam os ensinamentos de Deus desde a infância. Os que chegam mais tarde: Aqueles que, como o centurião Cornélio, têm uma boa intenção natural para fazer o bem, mas demoram para alcançar a fé completa porque não tiveram quem os ensinasse. Afinal, como o Apóstolo Paulo escreveu: “Como vão crer em alguém de quem nunca ouviram falar?” (Rm 10,14). Sendo assim, se existirem pessoas que — do mesmo jeito que Cornélio — não buscam o mal, têm vontade de melhorar e praticam com sinceridade o pouco de bem que já conhecem, Deus dará a elas a mesma graça que deu a Cornélio. Deus não vai julgá-las nem chamá-las de preguiçosas pelo tempo que passou, porque essa demora não foi culpa delas. Deus se agrada ao ver o bom desejo e o empenho que elas colocam em praticar o bem a partir do momento em que aprendem a verdade, dedicando-se com mais cuidado até o fim.

 

INTERROGAÇÃO 225

Como nos tornaremos dignos da promessa do Senhor: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali no meio deles” (Mt 18,20)?

 

RESPOSTA

Quando as pessoas se reúnem em nome de alguém, elas precisam entender qual é o objetivo de quem as chamou e se adaptar a ele. Só assim serão bem recebidas e não serão acusadas de falsidade ou descuido.

Por exemplo: se quem convida tem o objetivo de fazer uma colheita, os convidados se preparam para colher; se o objetivo é construir, eles se preparam para construir. Da mesma forma, aqueles que foram chamados pelo Senhor devem se lembrar do que escreveu o Apóstolo Paulo: “Peço-vos que leveis uma vida digna do chamado que recebestes, com toda humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros com amor, e fazendo de tudo para manter a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4,1-4). O próprio Senhor explica isso de forma ainda mais clara quando faz esta promessa: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23). Portanto, assim como Deus faz morada na vida de quem obedece aos seus mandamentos, Ele também está no meio de duas ou três pessoas que se alinham à vontade Dele. Já aqueles que se reúnem sem viver de modo digno e sem a intenção de cumprir a vontade de Deus — embora digam que estão reunidos no nome do Senhor —, ouvirão Dele esta repreensão: “Por que me chamais: 'Senhor, Senhor...', e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6,46).

 

INTERROGAÇÃO 226

O Apóstolo Paulo disse: “Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando somos caluniados, consolamos” (1Cor 4,12-13). Como a pessoa amaldiçoada deve abençoar, e como a pessoa caluniada deve consolar?

 

RESPOSTA

Acredito que, de modo geral, o Apóstolo nos ensina com o seu próprio exemplo a termos paciência com todos e a pagar o mal com o bem. Não devemos agir assim apenas com quem nos amaldiçoa, mas com qualquer pessoa que pratique o mal contra nós, cumprindo o que está escrito: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Além disso, parece que a Escritura não usa a palavra “consolar” no sentido comum do dia a dia (como apenas dar um abraço de carinho), mas no sentido de ajudar o coração da pessoa a se convencer da verdade. É nesse mesmo sentido que a Bíblia usa a palavra nas seguintes passagens: “Consolai o meu povo, diz o vosso Deus” (Is 40,1); Quando o Apóstolo diz: “Desejo muito ver-vos para compartilhar com vocês algum dom espiritual... ou melhor, para nos encorajarmos juntos pela fé que temos em comum” (Rm 1,11-12); E em outra carta: “Mas Deus, que consola os humildes, nos consolou com a chegada de Tito” (2Cor 7,6).

 

INTERROGAÇÃO 227

A pessoa deve contar para os outros o que pensa, ou deve guardar só para si quando acha que está agradando a Deus com aquilo?

 

RESPOSTA

Devemos nos lembrar da palavra de Deus pelo profeta Isaías, que diz: “Ai daqueles que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes na sua própria opinião!” (Is 5,21). Também devemos nos lembrar do Apóstolo Paulo, quando escreveu: “Desejo muito ver vocês para compartilhar algum dom espiritual e fortalecê-los — ou melhor, para nos encorajarmos juntos pela fé que temos em comum” (Rm 1,11-12). Por isso, entendemos que devemos conversar com irmãos que tenham a mesma fé que nós e que já demonstraram ter maturidade e prudência. Fazemos isso para corrigir o que estiver errado, confirmar o que estiver correto e, assim, não cair no erro de nos acharmos sábios aos próprios olhos.

 

INTERROGAÇÃO 228

Será que devemos fazer a vontade das pessoas que se escandalizam em todas as situações, ou existe alguma coisa que não devemos fingir ou deixar de fazer, mesmo que alguns se escandalizem?

 

RESPOSTA

Quando fomos perguntados sobre isso anteriormente, mostramos, no momento oportuno, que existem diferenças bem claras nessas situações, e tratamos desse assunto com toda a atenção possível.

 

Observação: Na Interrogação 228, São Basílio Magno está se referindo principalmente à Interrogação 84 das Regras Curtas. Nessas interrogações anteriores, Basílio faz uma distinção clara sobre o escândalo: Quando o ato envolve um mandamento de Deus: Não se deve abrir mão da obediência a Deus para agradar a quem se escandaliza. A vontade de Deus e os Seus mandamentos vêm sempre em primeiro lugar. Quando se trata de coisas neutras (ou costumes da comunidade): Deve-se ter caridade e ceder, evitando fazer aquilo que possa fazer o irmão fraco tropeçar ou se chatear sem necessidade (seguindo o princípio de São Paulo em 1Coríntios 8 e 10). Portanto, quando ele diz na Interrogação 228 que "já mostrou haver nítidas diferenças nestas questões", ele remete o leitor ao ensinamento de que não se pode transgredir a lei de Deus para evitar um escândalo, mas deve-se ter paciência e renúncia nas coisas secundárias para não ferir a consciência do próximo.

 

INTERROGAÇÃO 229

Devemos vencer a vergonha e confessar a todas as pessoas as ações proibidas que praticamos, ou apenas a algumas? E a quem devemos confessar?

 

RESPOSTA

A confissão dos pecados deve seguir a mesma regra que a revelação das doenças do corpo. As pessoas não mostram suas enfermidades físicas para qualquer um, nem para todos, mas apenas para aqueles que são peritos em curar. Da mesma forma, a confissão dos pecados deve ser feita àqueles que têm a capacidade de curar, como está escrito: “Vós, que sois fortes, deveis carregar as fraquezas dos fracos” (Rm 15,1) — isto é, com os vossos cuidados, ajudai a eliminá-las.

 

INTERROGAÇÃO 230

O que significa culto e culto racional?

 

RESPOSTA

A meu ver, o culto é a dedicação intensa, constante e firme àquilo que se adora. O Apóstolo Paulo nos mostra a diferença entre o culto racional e o não racional quando diz, por um lado: “Sabeis que, quando éreis pagãos, éreis levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados” (1Cor 12,2); e, por outro lado: “Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12,1). Quem vai para onde é levado presta um culto irracional, porque não é guiado pela razão, mas sim movido por impulsos e pela vontade de outros. Essa pessoa segue sem pensar os desejos de quem a guia, e não o que ela própria quer consciente e sabiamente. Já quem segue a reta razão e uma boa vontade, com grande cuidado e buscando sempre praticar em tudo o que agrada a Deus, cumpre o mandamento do culto racional. Vive assim aquele que diz: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 118,105), e também: “Os teus ensinamentos são os meus conselheiros” (Sl 118,24).

 

INTERROGAÇÃO 231

Se um irmão, ou até mesmo um sacerdote, me prejudica e age como meu inimigo, é permitido praticar com ele os mandamentos de Deus que falam sobre como tratar os inimigos?

 

RESPOSTA

O Senhor, ao dar os mandamentos sobre como tratar os inimigos, não fez distinção sobre quem é o inimigo nem sobre o tipo de inimizade. Pelo contrário, Ele mostrou que, para aqueles que ocupam uma posição superior, o mesmo pecado é ainda mais grave, ao dizer: “Por que olhas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7,3). É preciso ter cuidado e atenção principalmente com esses, ou seja, com os que parecem ter uma posição mais elevada. Devemos ter com eles a devida consideração, seja consolando, seja repreendendo com a paciência necessária. Cumprindo tudo o mais segundo o mandamento do Senhor, permaneçamos irrepreensíveis também na forma de agir com eles.

 

INTERROGAÇÃO 232

Se uma pessoa for ofendida por outra, não contar para ninguém por paciência e mansidão, e preferir deixar o assunto para o julgamento de Deus, ela está agindo como Deus quer?

 

RESPOSTA

O Senhor disse, por um lado: “Se tendes algum ressentimento contra alguém, perdoai” (Mc 11,25). E, por outro lado: “Se o teu irmão pecar, vai e repreende-o a sós com ele. Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão. Se não te ouvir, leva contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão se resolva pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Se ele se recusar a ouvi-los, dize-o à Igreja; e se recusar ouvir também a Igreja, considera-o como um pagão ou um cobrador de impostos” (Mt 18,15-17). Por isso, a pessoa ofendida deve mostrar o fruto da paciência orando a Deus por quem foi injusto, com amor verdadeiro e dizendo: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,60), para não cair em julgamento por se irar contra o seu irmão. No entanto, é preciso aconselhar e corrigir quem cometeu a ofensa, para libertá-lo da ira de Deus. Se a pessoa que foi ofendida se omitir, ficar calada e usar a própria paciência como desculpa, ela comete um pecado duplo: Primeiro, porque desobedece ao mandamento que diz: “Repreende com firmeza o teu próximo, para que não te tornes culpado por causa dele” (Lv 19,17). Assim, torna-se cúmplice do pecado ao se calar. Segundo, porque deixa perecer no erro aquele irmão que poderia ter sido salvo pela correção, como o Senhor ordenou.

 

INTERROGAÇÃO 233

Se faltar a uma pessoa apenas uma das boas obras, será que por causa disso ela não vai se salvar?

 

RESPOSTA

Embora existam muitas passagens no Antigo e no Novo Testamento que nos mostram a resposta para isso, penso que para quem tem fé basta lembrar do que o Senhor disse a Pedro. Afinal, Pedro tinha praticado tantas e tão grandes boas obras, e já tinha recebido elogios e bênçãos da parte do Senhor. No entanto, por causa de uma única coisa em que pareceu desobedecer — e ele não fez isso por preguiça ou desprezo, mas por respeito e honra ao Senhor —, apenas por esse detalhe ouviu de Jesus: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8).

 

INTERROGAÇÃO 234

Como uma pessoa anunciará a morte do Senhor?

 

RESPOSTA

Como o próprio Senhor ensinou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). E como o Apóstolo declarou ao afirmar: “O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Nós já prometemos isso antes do nosso batismo, pois a Escritura diz: “Todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte” (Rm 6,3). E o Apóstolo acrescenta, explicando o que significa ser batizado na morte do Senhor: “O nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído e não sejamos mais escravos do pecado” (Rm 6,6). Portanto, livres do amor excessivo a esta vida, tornamo-nos dignos do testemunho do Apóstolo, que diz: “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Assim, poderemos dizer com toda a confiança: “Vem o príncipe deste mundo, e ele não tem nenhum poder sobre mim” (Jo 14,30).

 

INTERROGAÇÃO 235

Se é útil aprender bem e em detalhes muitas coisas das Escrituras.

 

RESPOSTA

Existem duas categorias principais de pessoas, conforme os diferentes dons de Deus: aqueles que lideram os outros e aqueles que têm o dever de ouvir e obedecer. Por isso, penso que aquele que é responsável por guiar e cuidar de muitos deve saber e conhecer exatamente tudo o que é necessário para todos, a fim de ensinar a vontade de Deus e mostrar a cada um o seu dever. Já os demais devem se lembrar do que diz o Apóstolo: “Ninguém tenha de si mesmo uma opinião maior do que deve ter, mas pense de forma modesta, de acordo com a medida da fé que Deus lhe deu” (Rm 12,3). Esses devem aprender com dedicação aquilo que diz respeito às suas próprias responsabilidades e colocá-lo em prática, sem se preocupar com o restante. Assim, se tornarão dignos de ouvir do Senhor: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel no pouco, eu te confiarei muito” (Mt 25,21).

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?