segunda-feira, 7 de setembro de 2026

324 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 287-300

 


324

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 287-300

 

INTERROGAÇÃO 287

Quais os dignos frutos de arrependimento?

Resposta As obras de justiça opostas ao pecado, que o arrependido deve praticar, conforme está escrito: Frutificando em toda boa obra (Cl 1,10).

 

INTERROGAÇÃO 288

Quem deseja confessar os pecados, deve confessá-los a todos? A qualquer pessoa? Ou a quem?

Resposta Evidencia-se como Deus ama os pecadores pelo que está escrito: Não me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida (Ez 33,11). Visto que a conversão deve ser proporcional ao pecado e são exigidos dignos frutos de arrependimento, segundo o que está escrito: Fazei, portanto, dignos frutos de arrependimento, para não sobrevirem, por carência de frutos, as ameaças seguintes: Toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo (Lc 3,9), faz-se necessário confessar os pecados àqueles que têm a seu cargo a administração dos mistérios de Deus. Assim também agiam junto dos santos os que outrora se convertiam. Pois está escrito no Evangelho que confessavam seus pecados a João Batista, e, nos Atos, que confessavam aos apóstolos, os quais igualmente batizavam a todos.

 

INTERROGAÇÃO 289

Quem se arrepender de um pecado, mas recair, o que fará?

Resposta Quem se arrependeu e recaiu no mesmo pecado demonstra que não expurgou a causa primária daquele pecado; dela, como de uma raiz, germinarão os mesmos pecados. Se alguém cortasse os ramos da árvore, mas deixasse a raiz, restando apenas esta, novamente brotará a planta. Assim, visto que alguns pecados não se originam de si mesmos, mas provêm de outros, quem quiser livrar-se deles deve arrancar as causas primitivas. Por exemplo, a discórdia ou a inveja não têm em si o próprio princípio, mas brotam da raiz do amor à glória. O ambicioso de glória diante dos homens disputa com quem tem boa reputação ou inveja aquele a quem é inferior em renome. Se, pois, alguém se arrepender da inveja ou das contendas e recair, reconheça que está afetado intimamente pela ambição de glória, causa primeira da inveja e das contendas, e cure-se do vício da ambição de glória por meios contrários, isto é, com exercícios de humildade (é exercício de humildade ocupar-se dos serviços mais humildes), a fim de, permanecendo na atitude de humildade, não reincidir nas supracitadas manifestações de ambição de glória. Em cada um dos pecados desta espécie proceda-se de igual modo.

 

INTERROGAÇÃO 290

Como alguém trabalhará sempre e muito na obra do Senhor?

Resposta Quando multiplicar o dom que lhe foi dado para a utilidade e o progresso dos beneficiados, ou demonstrar maior zelo na obra do Senhor do que nas questões em que os homens mais se empenham.

 

INTERROGAÇÃO 291

Que significa a cana rachada ou a torcida que fumega? E como alguém não quebrará àquela e não apagará esta?

Resposta Penso que cana rachada é quem pratica o mandamento de Deus, mas está maldisposto; não se deve quebrá-lo e cortá-lo, porém curá-lo, como ensinou o Senhor: Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1). O Apóstolo preceitua: Fazei todas as coisas sem murmurações e sem hesitações (Fp 2,14). E em outro lugar: Nada façais por espírito de partido ou vangloria (ibid. 3). Torcida fumegante é alguém que pratica o mandamento não com um desejo ardente e zelo perfeito, mas um tanto negligente e frouxamente; não o impeçamos, antes o incitemo-nos com a lembrança dos juízos de Deus e de suas promessas.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 292

Se convém ter na comunidade dos irmãos uma escola de meninos seculares.

Resposta Tendo dito o Apóstolo: E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas educai-os na disciplina e correção segundo o espírito do Senhor (Ef 6,4), se os que trazem os meninos apresentam-nos com tal finalidade e os que os recepcionam têm a convicção de que os podem educar na disciplina e nas instruções do Senhor, observe-se a ordem do Senhor que disse: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham (Mt 19,14). Sem este propósito e sem esta esperança, porém, penso que não seria agradável a Deus, nem a nós conveniente, nem proveitoso.

 

INTERROGAÇÃO 293

Como proceder com os que evitam os pecados mais graves, mas cometem, com indiferença, os leves?

Resposta Primeiro, convém saber que no Novo Testamento não se encontra tal distinção. Uma só é a sentença contra todos os pecados, porque assegura o Senhor: Todo o homem que se entrega ao pecado é seu escravo (Jo 8,34). E ainda: A palavra que anunciei julgá-lo-á no último dia (Jo 12,48). E João clama: Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus (Jo 3,36). A desobediência não é ameaçada por causa da diferença entre os pecados, mas devido à transgressão. Em resumo, se nos é lícito falar em pecado pequeno e grande, sem contradição não se pode negar que para alguém é grande aquele que o domina e pequeno aquele que ele mesmo supera. Entre os atletas, o vencedor é mais forte e o vencido é mais fraco do que o vitorioso, seja ele quem for. Portanto, observe-se em relação a todos os pecadores, quaisquer que sejam os seus pecados, a sentença do Senhor: Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusar ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17). Observe-se para com todos eles o que disse o Apóstolo: Nem tendes manifestado tristeza, para que seja tirado dentre vós o que cometeu tal ação (1Cor 5,2). Importa, por conseguinte, unir a paciência e a misericórdia à severidade.

 

INTERROGAÇÃO 294

Qual o motivo de perder alguém a contínua lembrança de Deus?

Resposta Se alguém se esquecer dos benefícios de Deus e for ingrato para com o benfeitor.

 

INTERROGAÇÃO 295

Por que sinais se reconhece quem se distrai?

Resposta Quando descuida das coisas que agradam a Deus. Diz o profeta: Ponho sempre o Senhor diante dos olhos; pois que ele está à minha direita, não vacilarei (Sl 15,8).

 

INTERROGAÇÃO 296

Como se persuadirá a alma de estar purificada dos pecados?

Resposta Se depreender em si a disposição de Davi, que disse: Odeio o mal, eu o detesto (Sl 118,163), ou verificar que cumpriu em si o preceito do Apóstolo, que disse: Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a concupiscência, que é uma idolatria. Destas coisas provém a ira de Deus (Cl 3,5.6). Daí, estendendo a todo pecado esta sentença, acrescenta sobre os descrentes, de maneira a poder afirmar: Terei horror àquele que pratica o mal, não será ele o meu amigo. Longe de mim o coração perverso. Não quero conhecer o mal (Sl 100,3.4). Reconhecerá alguém em si tal atitude se tiver contra os pecadores a mesma compaixão profunda dos santos, conforme diz Davi: Ao ver os prevaricadores, sinto desgosto, porque eles não observam a vossa palavra (Sl 118,158). E o Apóstolo afirma: Quem é fraco, que eu também não seja fraco? Quem tropeça, que eu não me consuma em febre? (2Cor 11,29). Se, pois, em verdade, a alma é superior ao corpo e vemos a repugnância e o horror que temos de todas as imundícies do corpo, e que o dilaceramento ou o maltrato produz aflição e tristeza para o coração, quanto mais justo não será para quem ama a Cristo e os irmãos sentir o que foi dito acima, acerca dos pecadores, ao ver a alma dos pecadores de certo modo ferida e corroída por feras, ou purulenta e pútrida? Diz Davi: Porque as minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo oprimiram em demasia. São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza (Sl 37,5-7). Assevera, porém, o Apóstolo: O aguilhão da morte é o pecado (1Cor 15,56). Quando alguém vir sua alma em tal disposição diante dos pecados, próprios ou alheios, então pode ter a convicção de estar purificado do pecado.

 

 

 

INTERROGAÇÃO 297

Como deve alguém arrepender-se dos pecados?

Resposta Imitando a atitude de Davi que, primeiro, disse: Eu vos confessei o meu pecado e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade (Sl 31,5). Depois, manifestando o seu estado, conforme o salmo 6 e outros, de muitos modos, e de acordo com o ensinamento do Apóstolo, a atestar o que os coríntios fizeram por causa do pecado alheio, dizendo: A tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar para a salvação. Acrescenta as propriedades da tristeza: Vede, pois, que disposições operou em vós a tristeza segundo Deus! Que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo! Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto (2Cor 7,10.11). Daí se torna claro ser imprescindível não só abandonar o pecado e sofrer de tal modo pelos pecadores, mas também afastarmo-nos dos pecadores. Davi o declarou, dizendo: Apartai-vos de mim, vós todos que fazeis o mal (Sl 6,9), e o Apóstolo ordena: Com esse nem sequer deveis comer (1Cor 5,11).

 

 

INTERROGAÇÃO 298

Se a Escritura permite que alguém faça o bem como lhe apraz.

Resposta Apraz a um homem quem se compraz em si mesmo, porque é ele também homem. Como, portanto: Maldito o homem que em outro confia, que da carne faz o seu apoio (Jr 17,5), o que indica confiança em si, acrescenta-se: E cujo coração vive distante do Senhor. Assim também o que agrada a outrem, ou faz alguma coisa por autocomplacência, decai em relação à piedade e recai no desejo do favor dos homens. Fazem, pois, diz o Senhor, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo, já receberam sua recompensa (Mt 6,5). E o Apóstolo confessa: Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo (Gl 1,10). As Escrituras divinas trazem ameaças ainda mais terríveis, dizendo: Deus dissipou os ossos daqueles que procuram agradar aos homens (Sl 52,6).

 

INTERROGAÇÃO 299

Como a alma estará bem cônscia de que não tem a ambição da glória?

Resposta: Se obedece ao Senhor, que disse: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16); e ao Apóstolo, que ordena: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10,31). De modo que o homem temente a Deus, não tendo buscado a glória presente nem a futura, mas tendo posto o amor de Deus acima de tudo, tenha a confiança de dizer, além do supracitado, o seguinte: “Nem as coisas presentes, nem as futuras poderão apartar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Rm 8,38-39). Pois diz o próprio Senhor nosso, Jesus Cristo: “Não busco a minha glória” (Jo 8,50). E ainda: “Quem fala por própria autoridade busca a própria glória; mas quem busca a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro” (Jo 7,18).

 

INTERROGAÇÃO 300

Como se realiza a conversão, sendo ela algo oculto?

Resposta: O modo como se realiza a conversão foi declarado naquela pergunta que trata de como alguém deve converter-se dos pecados. Quanto ao fato de ser algo oculto, lembremo-nos do Senhor, que disse: “Nada há de oculto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). E ainda: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6,45).

 

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