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SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras
Menos Extensas (313 regras) Interrogações 276-286
INTERROGAÇÃO
276
O que significa
a palavra do Apóstolo: Para que saibais avaliar qual é a vontade de Deus, o
que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)?
Resposta:
a) Muitas são as
coisas que Deus quer: umas, procedentes de sua tolerância e bondade, são
chamadas de boas; outras, decorrentes de sua repreensão aos nossos pecados, são
chamadas de males. Ele mesmo diz: Sou eu quem faço a paz e envio os males (Is
45,7).
b) Esses males ocorrem não para nos castigar, mas para nos
corrigir. Como nos educam e nos levam à conversão por meio das provações,
acabam se transformando em bem. Tudo o que Deus, bom e paciente, deseja, também
nós devemos desejar e imitar: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é
misericordioso (Lc 6,36). Da mesma forma, diz o Apóstolo: Sede imitadores de
Deus, como filhos muito amados. Crescei no amor, segundo o exemplo de Cristo
que nos amou (Ef 5,1-2).
c) Por outro lado, o que Ele nos envia em sua correção por
causa dos nossos pecados — a que chamamos de mal —, de maneira nenhuma nos é
lícito praticar. Mesmo que seja da vontade de Deus que os homens muitas vezes
morram de fome, peste, guerra ou tragédias semelhantes, não nos convém cooperar
para que esses males aconteçam. Para realizar tais propósitos, Deus se utiliza
até mesmo de ministros severos, conforme diz a Escritura: Descarregou o ardor
de sua cólera, indignação e furor, enviando anjos de desgraça (Sl 77,49).
Em primeiro lugar, portanto, deve-se discernir o que é a
vontade de Deus e o que é o bem; depois, uma vez conhecido o bem, é preciso
verificar se ele é realizado de modo agradável a Deus. Há atitudes que, por si
mesmas, são boas e desejadas por Deus, mas deixam de ser agradáveis se forem
praticadas por pessoas impróprias ou em momentos inadequados. Por exemplo, era
da vontade de Deus que se oferecesse incenso, mas não era aceitável quando
apresentado por Corá, Datã e Abirão. Igualmente, dar esmola é um bem, mas
fazê-lo apenas para ser elogiado pelos homens de maneira alguma agrada a Deus.
Da mesma forma, era vontade de Deus que os discípulos pregassem abertamente o
que ouviram em segredo, mas falar antes do tempo oportuno não era agradável a
Ele, como disse: Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem
ressuscite dos mortos (Mt 17,9).
d) Em resumo, toda vontade de Deus que constitui um bem só
nos agrada quando nela se cumpre a palavra do Apóstolo: Fazei tudo para a
glória de Deus (1Cor 10,31), e tudo com decência e ordem (1Cor 14,40). Além
disso, quando algo é a vontade de Deus, é bom e Lhe agrada, não devemos agir
com descuido; é preciso ter o máximo de zelo e cuidado para realizá-lo com
perfeição e integridade, avaliando tanto a conformidade com o mandamento quanto
as forças de quem o executa. Como Ele declara: Amarás ao Senhor teu Deus de
todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu
pensamento, e ao teu próximo como a ti mesmo (Lc 10,27), conforme o Senhor
ensinou no Evangelho. O mesmo vale para todos os mandamentos, segundo o
escrito: Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, na sua volta, encontrar
agindo assim (Mt 24,46).
INTERROGAÇÃO
277
Qual é o
aposento secreto onde o Senhor mandou entrar aquele que vai orar?
Resposta: Costuma-se
chamar de aposento a parte reservada e privativa da casa onde guardamos nossos
pertences, ou onde alguém pode se esconder, conforme disse o profeta: Vai, povo
meu, entra nos teus quartos e esconde-te (Is 26,20). O próprio contexto
esclarece o sentido do mandamento, que se dirige àqueles que sofrem da fraqueza
de buscar a aprovação humana. Quem padece desse mal faz bem em retirar-se para
orar em segredo, até alcançar o hábito de não se importar com os louvores dos
homens e voltar seus olhos unicamente para Deus, como expressa o salmista: Como
os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, e os olhos das
servas nas mãos de suas senhoras, assim os nossos olhos estão voltados para o
Senhor, nosso Deus (Sl 122,2).
No entanto, se alguém, pela graça de Deus, já estiver
curado dessa fraqueza, não precisa esconder as suas boas ações. É o que o
próprio Senhor nos ensina: Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma
montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim
sobre o candeeiro, para que brilhe a todos os que estão em casa. Assim brilhe a
vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem
vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14-16). O mesmo princípio se aplica à esmola,
ao jejum e a todas as demais práticas de piedade.
INTERROGAÇÃO
278
Como pode o
espírito de alguém orar, mas o seu entendimento ficar sem fruto?
Resposta: Isso
se refere àqueles que oram em uma língua desconhecida por quem ouve. Por isso
está escrito: Se eu orar em uma língua estranha, o meu espírito ora, mas o meu
entendimento fica sem fruto (1Cor 14,14). Quando as palavras da oração são
incompreensíveis aos presentes, o entendimento de quem ora não produz frutos,
pois não traz proveito para ninguém. Porém, se os presentes compreendem a prece
e são ajudados por ela, então aquele que ora colhe o fruto da melhoria
espiritual daqueles que se beneficiaram. O mesmo vale para toda proclamação da
Palavra de Deus, conforme está escrito: Dizei apenas palavras boas que sirvam
para a edificação da fé, conforme a necessidade, para que transmitam graça aos
ouvintes (Ef 4,29).
INTERROGAÇÃO
279
O que
significa: Cantai salmos com sabedoria (Sl 46,8)?
Resposta: A
inteligência aplicada às palavras da Sagrada Escritura é o equivalente à
percepção do sabor dos alimentos na nutrição. Como diz o texto: O paladar prova
os alimentos, e a mente distingue as palavras (Jó 12,11). Se alguém aplica o
espírito ao sentido profundo de cada palavra — assim como o paladar aprecia a
qualidade de cada alimento —, cumpre o mandamento que diz: Cantai salmos com
sabedoria.
INTERROGAÇÃO
280
O que quer
dizer "puro de coração"?
Resposta: É
aquele que não se flagra a si mesmo menosprezando, omitindo ou descuidando de
qualquer mandamento de Deus.
INTERROGAÇÃO
281
Deve-se
obrigar aquele que não quer cantar salmos?
Resposta: Se
alguém se recusa a cantar salmos de boa vontade, não demonstra a atitude
daquele que disse: Quão saborosas são para mim as tuas palavras, mais doces que
o mel à minha boca (Sl 118,103) e ainda trata a própria preguiça com descaso,
deve ser corrigido ou afastado. Faz-se isso para que um pouco de fermento não
azede toda a massa (Gl 5,9).
INTERROGAÇÃO
282
Quais são os
que dizem: Comemos e bebemos contigo, e ouvem como resposta: Não sei de onde
sois (Lc 13,26-27)?
Resposta: São
aqueles descritos pelo Apóstolo quando ele diz: Ainda que eu falasse as línguas
dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, nada disso me aproveita (1Cor
13,1-3). O Apóstolo aprendeu isso com o Senhor, que advertiu sobre alguns:
Fazem as coisas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já
receberam sua recompensa (Mt 6,2). Tudo o que se faz — seja o que for —, se não
for motivado pelo amor a Deus, mas pelo desejo de obter elogios humanos, não
recebe o mérito da piedade. Pelo contrário, atrai a condenação por buscar
agradar aos homens ou a si mesmo por vaidade, rivalidade, inveja ou motivos
semelhantes.
Por essa razão, o Senhor chama todas essas atitudes de
obras de injustiça, respondendo aos que dizem "Comemos contigo":
Apartai-vos de mim, todos vós que praticais a iniquidade (Lc 13,26-27). Como
não seriam operários da maldade aqueles que usam os dons de Deus apenas para o
próprio proveito? Desses fala o Apóstolo: Não somos, como tantos outros,
negociantes da Palavra de Deus (2Cor 2,17), e também: Julgam que a piedade é
fonte de lucro (1Tm 6,5). O próprio Apóstolo declarou estar livre dessas
intenções ao afirmar: Não buscamos agradar aos homens, mas a Deus, que sonda os
nossos corações. Com efeito, nunca usamos de bajulação, como sabeis, nem fomos
movidos por ganância. Deus é testemunha. Não buscamos glória humana, nem de vós
nem de outros (1Ts 2,4-6).
INTERROGAÇÃO
283
Aquele que
faz a vontade de outrem torna-se seu cúmplice?
Resposta: Se
acreditamos no Senhor, que disse: Todo aquele que comete pecado é escravo do
pecado, e também: Vós tendes por pai o diabo e quereis satisfazer os desejos de
vosso pai (Jo 8,34.44), compreendemos que tal pessoa não é apenas cúmplice; ela
reconhece como seu senhor e pai aquele cujas obras pratica. O Apóstolo confirma
isso claramente: Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe
obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a
morte, quer da obediência para a justiça? (Rm 6,16).
INTERROGAÇÃO
284
Se uma
comunidade empobrecer devido a uma crise ou doença, pode receber ajuda de
outros sem hesitação? E, se puder, de quem deve aceitar?
Resposta: Quem
se lembra do Senhor, que disse: Todas as vezes que fizestes isto a um destes
meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,40), deve
agir com grande zelo e cuidado para ser digno de ser considerado irmão do
Cristo. Quem se encontra nessa situação não deve hesitar em receber a ajuda,
mas deve fazê-lo com gratidão. Cabe ao responsável pela comunidade avaliar com
sabedoria de quem, quando e como aceitar tal auxílio, recordando as palavras:
Que o azeite do ímpio não venha a ungir a minha cabeça (Sl 140,5), e: O meu
ministro será aquele que anda pelo caminho reto (Sl 101,6).
INTERROGAÇÃO
285
Deve uma
comunidade, ao negociar com outra, averiguar com cuidado qual é o preço justo
de um objeto?
Resposta: Se
a Palavra de Deus permite a compra e a venda entre irmãos, cabe lembrar que nos
foi ensinado a partilhar nossos bens conforme a necessidade. Como está escrito:
No tempo presente, a vossa abundância supra a carência deles, para que a
abundância deles também supra a vossa carência; assim se estabelece a igualdade
(2Cor 8,14). Se, porém, houver necessidade de transação comercial, o comprador
deve ter ainda mais cuidado do que o vendedor para não pagar menos do que é
justo. Ambos devem lembrar-se da advertência: Não é bom prejudicar o justo (Pr
17,26).
INTERROGAÇÃO
286
Se adoecer um
membro da comunidade, deve ser levado ao hospital?
Resposta: Deve-se
avaliar cada caso tendo em vista o bem comum e a glória de Deus.
1.
O que
você destaca no texto?
2.
Como
serve para a sua espiritualidade?
3.
De
que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores
aqui na OESI?
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