sábado, 29 de agosto de 2026

323 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 276-286

 


323

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 276-286

 

INTERROGAÇÃO 276

O que significa a palavra do Apóstolo: Para que saibais avaliar qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)?

Resposta:

a) Muitas são as coisas que Deus quer: umas, procedentes de sua tolerância e bondade, são chamadas de boas; outras, decorrentes de sua repreensão aos nossos pecados, são chamadas de males. Ele mesmo diz: Sou eu quem faço a paz e envio os males (Is 45,7).

b) Esses males ocorrem não para nos castigar, mas para nos corrigir. Como nos educam e nos levam à conversão por meio das provações, acabam se transformando em bem. Tudo o que Deus, bom e paciente, deseja, também nós devemos desejar e imitar: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36). Da mesma forma, diz o Apóstolo: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Crescei no amor, segundo o exemplo de Cristo que nos amou (Ef 5,1-2).

c) Por outro lado, o que Ele nos envia em sua correção por causa dos nossos pecados — a que chamamos de mal —, de maneira nenhuma nos é lícito praticar. Mesmo que seja da vontade de Deus que os homens muitas vezes morram de fome, peste, guerra ou tragédias semelhantes, não nos convém cooperar para que esses males aconteçam. Para realizar tais propósitos, Deus se utiliza até mesmo de ministros severos, conforme diz a Escritura: Descarregou o ardor de sua cólera, indignação e furor, enviando anjos de desgraça (Sl 77,49).

Em primeiro lugar, portanto, deve-se discernir o que é a vontade de Deus e o que é o bem; depois, uma vez conhecido o bem, é preciso verificar se ele é realizado de modo agradável a Deus. Há atitudes que, por si mesmas, são boas e desejadas por Deus, mas deixam de ser agradáveis se forem praticadas por pessoas impróprias ou em momentos inadequados. Por exemplo, era da vontade de Deus que se oferecesse incenso, mas não era aceitável quando apresentado por Corá, Datã e Abirão. Igualmente, dar esmola é um bem, mas fazê-lo apenas para ser elogiado pelos homens de maneira alguma agrada a Deus. Da mesma forma, era vontade de Deus que os discípulos pregassem abertamente o que ouviram em segredo, mas falar antes do tempo oportuno não era agradável a Ele, como disse: Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos (Mt 17,9).

d) Em resumo, toda vontade de Deus que constitui um bem só nos agrada quando nela se cumpre a palavra do Apóstolo: Fazei tudo para a glória de Deus (1Cor 10,31), e tudo com decência e ordem (1Cor 14,40). Além disso, quando algo é a vontade de Deus, é bom e Lhe agrada, não devemos agir com descuido; é preciso ter o máximo de zelo e cuidado para realizá-lo com perfeição e integridade, avaliando tanto a conformidade com o mandamento quanto as forças de quem o executa. Como Ele declara: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento, e ao teu próximo como a ti mesmo (Lc 10,27), conforme o Senhor ensinou no Evangelho. O mesmo vale para todos os mandamentos, segundo o escrito: Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, na sua volta, encontrar agindo assim (Mt 24,46).

 

INTERROGAÇÃO 277

Qual é o aposento secreto onde o Senhor mandou entrar aquele que vai orar?

Resposta: Costuma-se chamar de aposento a parte reservada e privativa da casa onde guardamos nossos pertences, ou onde alguém pode se esconder, conforme disse o profeta: Vai, povo meu, entra nos teus quartos e esconde-te (Is 26,20). O próprio contexto esclarece o sentido do mandamento, que se dirige àqueles que sofrem da fraqueza de buscar a aprovação humana. Quem padece desse mal faz bem em retirar-se para orar em segredo, até alcançar o hábito de não se importar com os louvores dos homens e voltar seus olhos unicamente para Deus, como expressa o salmista: Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, e os olhos das servas nas mãos de suas senhoras, assim os nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus (Sl 122,2).

No entanto, se alguém, pela graça de Deus, já estiver curado dessa fraqueza, não precisa esconder as suas boas ações. É o que o próprio Senhor nos ensina: Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim sobre o candeeiro, para que brilhe a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14-16). O mesmo princípio se aplica à esmola, ao jejum e a todas as demais práticas de piedade.

 

INTERROGAÇÃO 278

Como pode o espírito de alguém orar, mas o seu entendimento ficar sem fruto?

Resposta: Isso se refere àqueles que oram em uma língua desconhecida por quem ouve. Por isso está escrito: Se eu orar em uma língua estranha, o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto (1Cor 14,14). Quando as palavras da oração são incompreensíveis aos presentes, o entendimento de quem ora não produz frutos, pois não traz proveito para ninguém. Porém, se os presentes compreendem a prece e são ajudados por ela, então aquele que ora colhe o fruto da melhoria espiritual daqueles que se beneficiaram. O mesmo vale para toda proclamação da Palavra de Deus, conforme está escrito: Dizei apenas palavras boas que sirvam para a edificação da fé, conforme a necessidade, para que transmitam graça aos ouvintes (Ef 4,29).

 

INTERROGAÇÃO 279

O que significa: Cantai salmos com sabedoria (Sl 46,8)?

Resposta: A inteligência aplicada às palavras da Sagrada Escritura é o equivalente à percepção do sabor dos alimentos na nutrição. Como diz o texto: O paladar prova os alimentos, e a mente distingue as palavras (Jó 12,11). Se alguém aplica o espírito ao sentido profundo de cada palavra — assim como o paladar aprecia a qualidade de cada alimento —, cumpre o mandamento que diz: Cantai salmos com sabedoria.

 

INTERROGAÇÃO 280

O que quer dizer "puro de coração"?

Resposta: É aquele que não se flagra a si mesmo menosprezando, omitindo ou descuidando de qualquer mandamento de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 281

Deve-se obrigar aquele que não quer cantar salmos?

Resposta: Se alguém se recusa a cantar salmos de boa vontade, não demonstra a atitude daquele que disse: Quão saborosas são para mim as tuas palavras, mais doces que o mel à minha boca (Sl 118,103) e ainda trata a própria preguiça com descaso, deve ser corrigido ou afastado. Faz-se isso para que um pouco de fermento não azede toda a massa (Gl 5,9).

 

INTERROGAÇÃO 282

Quais são os que dizem: Comemos e bebemos contigo, e ouvem como resposta: Não sei de onde sois (Lc 13,26-27)?

Resposta: São aqueles descritos pelo Apóstolo quando ele diz: Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, nada disso me aproveita (1Cor 13,1-3). O Apóstolo aprendeu isso com o Senhor, que advertiu sobre alguns: Fazem as coisas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam sua recompensa (Mt 6,2). Tudo o que se faz — seja o que for —, se não for motivado pelo amor a Deus, mas pelo desejo de obter elogios humanos, não recebe o mérito da piedade. Pelo contrário, atrai a condenação por buscar agradar aos homens ou a si mesmo por vaidade, rivalidade, inveja ou motivos semelhantes.

Por essa razão, o Senhor chama todas essas atitudes de obras de injustiça, respondendo aos que dizem "Comemos contigo": Apartai-vos de mim, todos vós que praticais a iniquidade (Lc 13,26-27). Como não seriam operários da maldade aqueles que usam os dons de Deus apenas para o próprio proveito? Desses fala o Apóstolo: Não somos, como tantos outros, negociantes da Palavra de Deus (2Cor 2,17), e também: Julgam que a piedade é fonte de lucro (1Tm 6,5). O próprio Apóstolo declarou estar livre dessas intenções ao afirmar: Não buscamos agradar aos homens, mas a Deus, que sonda os nossos corações. Com efeito, nunca usamos de bajulação, como sabeis, nem fomos movidos por ganância. Deus é testemunha. Não buscamos glória humana, nem de vós nem de outros (1Ts 2,4-6).

 

 

INTERROGAÇÃO 283

Aquele que faz a vontade de outrem torna-se seu cúmplice?

Resposta: Se acreditamos no Senhor, que disse: Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado, e também: Vós tendes por pai o diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai (Jo 8,34.44), compreendemos que tal pessoa não é apenas cúmplice; ela reconhece como seu senhor e pai aquele cujas obras pratica. O Apóstolo confirma isso claramente: Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça? (Rm 6,16).

 

INTERROGAÇÃO 284

Se uma comunidade empobrecer devido a uma crise ou doença, pode receber ajuda de outros sem hesitação? E, se puder, de quem deve aceitar?

Resposta: Quem se lembra do Senhor, que disse: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,40), deve agir com grande zelo e cuidado para ser digno de ser considerado irmão do Cristo. Quem se encontra nessa situação não deve hesitar em receber a ajuda, mas deve fazê-lo com gratidão. Cabe ao responsável pela comunidade avaliar com sabedoria de quem, quando e como aceitar tal auxílio, recordando as palavras: Que o azeite do ímpio não venha a ungir a minha cabeça (Sl 140,5), e: O meu ministro será aquele que anda pelo caminho reto (Sl 101,6).

 

INTERROGAÇÃO 285

Deve uma comunidade, ao negociar com outra, averiguar com cuidado qual é o preço justo de um objeto?

Resposta: Se a Palavra de Deus permite a compra e a venda entre irmãos, cabe lembrar que nos foi ensinado a partilhar nossos bens conforme a necessidade. Como está escrito: No tempo presente, a vossa abundância supra a carência deles, para que a abundância deles também supra a vossa carência; assim se estabelece a igualdade (2Cor 8,14). Se, porém, houver necessidade de transação comercial, o comprador deve ter ainda mais cuidado do que o vendedor para não pagar menos do que é justo. Ambos devem lembrar-se da advertência: Não é bom prejudicar o justo (Pr 17,26).

 

INTERROGAÇÃO 286

Se adoecer um membro da comunidade, deve ser levado ao hospital?

Resposta: Deve-se avaliar cada caso tendo em vista o bem comum e a glória de Deus.

 

1.    O que você destaca no texto?

2.    Como serve para a sua espiritualidade?

3.    De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

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