sábado, 15 de agosto de 2026

321 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) - Interrogações 236-255

 


321

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 236-255

 

INTERROGAÇÃO 236

Como aqueles que foram julgados aptos para aprender os quatro Evangelhos devem receber esta graça?

RESPOSTA

O próprio Senhor afirmou que “daquele a quem muito se deu, muito será exigido” (Lc 12,48). Por isso, quem recebe esse privilégio deve ter ainda mais temor e zelo, como exorta o Apóstolo: “Sendo seus colaboradores, exortamo-vos a não receberdes a graça de Deus em vão” (2Cor 6,1). Isso se cumprirá se crerem na palavra do Senhor quando diz: “Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de as praticardes” (Jo 13,17).

 

INTERROGAÇÃO 237

Qual é a alma que conseguirá se guiar segundo a vontade de Deus?

RESPOSTA

É aquela que abraça de coração o ensinamento do Senhor: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Afinal, se a pessoa não começar por renunciar a si mesma e carregar a sua cruz, ela encontrará em si mesma — ao tentar avançar — inúmeros obstáculos que a impedirão de prosseguir.

 

INTERROGAÇÃO 238

É possível salmodiar, ler ou dedicar-se às palavras de Deus de modo totalmente ininterrupto, sem qualquer intervalo de tempo, já que a todos sobrevêm as necessidades corporais básicas?

RESPOSTA

O Apóstolo estabelece a regra ao dizer: “Faça-se tudo com decência e ordem” (1Cor 14,40). Por isso, deve-se priorizar o cuidado com a sobriedade e a boa disciplina, ajustando cada atividade ao tempo e ao lugar adequados.

 

INTERROGAÇÃO 239

O que é o bom e o mau tesouro?

RESPOSTA

O bom tesouro é a prudência orientada para a prática de todas as virtudes em Cristo, tendo em vista a glória de Deus. O mau tesouro, por sua vez, é a astúcia voltada para o mal, aplicada às coisas proibidas pelo Senhor. É a partir desse tesouro interno — como ensina a palavra do Senhor — que cada pessoa retira e manifesta o bem ou o mal em suas ações e palavras.

 

INTERROGAÇÃO 240

Por que se diz que é larga a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição?

RESPOSTA

O Senhor, em seu grande amor pela humanidade, utiliza termos e imagens bem conhecidos para expor os ensinamentos da verdade. Assim como, em um terreno físico, qualquer desvio da rota correta abre uma área imensa e sem limites, diz-se também que aquele que se desvia do caminho do Reino dos Céus cai na grande vastidão do erro. Acredito que “largo” e “espaçoso” expressam a mesma ideia, pois os autores profanos costumam chamar de “largo” o que é “espaçoso”. Portanto, o lugar do erro é espaçoso — ou seja, largo —, e o seu fim é a perdição.

 

INTERROGAÇÃO 241

Por que é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida? E como se entra por ele?

RESPOSTA

Também aqui, “estreito” e “apertado” não significam coisas diferentes. Na verdade, a palavra “apertado” indica algo extremamente estreito — como quando o caminho se afunila até comprimir o viajante de ambos os lados, tornando perigoso qualquer desvio, seja para a direita, seja para a esquerda. É como atravessar uma ponte estreita: para qualquer lado que a pessoa se inclinar, cairá no rio que corre abaixo. Por isso diz Davi: “Junto ao caminho colocam tropeços” (Sl 139,6). Portanto, quem se propõe a entrar na vida pelo caminho estreito e apertado deve acautelar-se para não se desviar nem declinar dos mandamentos do Senhor, cumprindo o que foi escrito: “Sem te apartares nem para a direita, nem para a esquerda” (Dt 17,11).

 

INTERROGAÇÃO 242

O que quer dizer: “Amai-vos reciprocamente com caridade fraterna”?

RESPOSTA

O amor que brota da verdadeira amizade traduz-se em um desejo sincero e uma afeição viva daquele que ama em relação à pessoa amada. Para que o amor entre os irmãos não seja algo frio ou superficial, mas sim corajoso, dedicado e fervoroso, foi dito: “Amai-vos uns aos outros com amor terno e fraternal” (Rm 12,10).

 

INTERROGAÇÃO 243

O que quer dizer o Apóstolo com as palavras: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26), visto que diz em outra parte: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31)?

RESPOSTA

Julgo que, neste trecho, o Apóstolo fala imitando o procedimento do Senhor. No Evangelho, o Senhor primeiro diz: “Foi dito aos antigos...” e, a seguir, acrescenta: “Eu, porém, vos digo...”. Da mesma forma, o Apóstolo aqui primeiro recorda o que fora dito outrora aos antigos: “Irai-vos e não queirais pecar” (Sl 4,5), para logo depois acrescentar, por autoridade própria, o que de fato nos convém como cristãos: “Toda amargura, ira e indignação sejam desterradas do meio de vós” (Ef 4,31).

 

INTERROGAÇÃO 244

O que significa: “Deixai agir a ira” (Rm 12,19)?

RESPOSTA

Significa não resistir ao mal, conforme está escrito: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39); ou ainda: “Se alguém vos perseguir numa cidade, fugi para outra” (Mt 10,23).

 

INTERROGAÇÃO 245

O que significa ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16)?

RESPOSTA

É prudente como a serpente aquele que transmite a doutrina com circunspecção, considerando as capacidades do público e o caminho mais eficaz para persuadir os ouvintes. Por sua vez, é simples como a pomba aquele que nem sequer cogita se vingar de quem lhe arma ciladas, mas persevera em praticar o bem, segundo o preceito do Apóstolo: “Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Ts 3,13). O Senhor prescreveu essa atitude aos discípulos ao enviá-los a pregar, pois eles precisavam tanto de sabedoria para persuadir quanto de paciência diante dos perseguidores. Assim como a serpente, outrora, soube adotar uma postura acessível e uma fala persuasiva para afastar o ser humano de Deus e induzi-lo ao pecado, nós também devemos escolher a expressão, o tom, o momento e o lugar adequados, empregando nossas palavras com discernimento para afastar as pessoas do pecado e convertê-las a Deus. De resto, cumpre-nos conservar a paciência nas provações até o fim, como está escrito.

 

INTERROGAÇÃO 246

O que quer dizer: “A caridade nada faz de inconveniente” (1Cor 13,5)?

RESPOSTA

É o mesmo que dizer: a caridade não deixa de ser o que ela é. A própria identidade da caridade consiste no conjunto de características enumeradas pelo Apóstolo nesta mesma passagem.

 

INTERROGAÇÃO 247

A Escritura diz: “Não vos glorieis e não faleis coisas elevadas” (1Sm 2,3). Contudo, o Apóstolo confessa em um trecho: “O que vou dizer na certeza de poder gloriar-me, não o digo sob a inspiração do Senhor, mas como num acesso de delírio” (2Cor 11,17) e “Tornai-me insensato” (2Cor 12,11); enquanto em outro lugar afirma: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (2Cor 10,17). Afinal, o que é gloriar-se no Senhor e de que maneira se deve gloriar?

RESPOSTA

Nesses textos, revela-se abertamente a luta exigida do Apóstolo contra as falsas pretensões dos seus opositores. Ele não diz tais coisas para se autoproclamar ou se recomendar, mas para conter a ousadia, a arrogância e o orgulho de alguns. Gloriar-se no Senhor, por sua vez, consiste em alguém nunca atribuir a si próprio as suas boas obras, mas sim ao Senhor, dizendo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). Por outro lado, pode-se considerar dois tipos de glorificação proibida: A vaidade no mal: De acordo com o que diz a Escritura: “O pecador gloria-se dos desejos de sua alma” (Sl 9,25) e “Por que te glorias de tua malícia, ó prepotente?” (Sl 51,3). O orgulho nas boas obras: Ocorre quando as pessoas, por desejarem ser louvadas em razão do bem que praticam, gloriam-se de seus próprios atos. Esses podem ser considerados sacrílegos, pois se apropriam dos dons de Deus e roubam para si a glória que pertence unicamente a Ele.

 

INTERROGAÇÃO 248

Se é o Senhor quem dá a sabedoria e é de sua face que procedem a ciência e a prudência (Pr 2,6); e se, pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria e a outro a palavra de ciência (1Cor 12,8); por que o Senhor repreende os discípulos dizendo: “Também vós estais ainda sem inteligência?” (Mt 15,16)? E por que o Apóstolo acusa alguns de serem insensatos (Rm 1,31)?

RESPOSTA

Quem conhece a bondade de Deus — que “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4) — e compreende como o Espírito Santo atua na distribuição e na eficácia dos dons divinos, reconhece que a demora em alcançar a inteligência espiritual não provém de qualquer limitação do Benfeitor, mas sim da incredulidade dos próprios beneficiados. Por isso, censura-se com razão o insensato: ele age como alguém que fecha os olhos diante do sol nascente para continuar vivendo nas trevas, recusando-se a olhar para cima a fim de ser iluminado.

 

INTERROGAÇÃO 249

O que é o “honesto” e o que é o “justo”?

RESPOSTA

Julgo ser honesto aquilo que é conveniente e devido ao superior por parte dos inferiores, em razão de sua precedência; e justo, o que é dado a cada um segundo o valor e a importância de suas obras. Assim, o honesto abrange somente o dever de gratidão e de recompensa, enquanto o justo inclui o exame rigoroso e a punição do mal.

 

INTERROGAÇÃO 250

Como alguém dá o que é santo aos cães ou lança pérolas aos porcos? E como se evita o que vem a seguir: “para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem” (Mt 7,6)?

RESPOSTA

O Apóstolo nos explica isso claramente ao acrescentar o que dissera contra os judeus: “Tu, que te glorias da Lei, desonras a Deus pela transgressão da Lei” (Rm 2,23). Portanto, o Senhor proíbe aqui o ultraje que cometemos contra as suas santas palavras por meio de nossas próprias transgressões. É por causa dessas faltas que aqueles que estão de fora passam a julgar desprezíveis os ensinamentos do Senhor; em consequência, insurgem-se contra nós com maior audácia e, de certo modo, despedaçam o transgressor cobrindo-o de injúrias e acusações.

 

INTERROGAÇÃO 251

Por que o Senhor, em certo momento, proíbe levar bolsa e alforje no caminho (Lc 10,4), mas em outro diz: “Quem tem bolsa, tome-a, e aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda a sua capa para comprar uma” (Lc 22,36)?

RESPOSTA

O próprio Senhor o explica ao acrescentar: “É necessário que se cumpra em mim este oráculo: 'E foi contado entre os malfeitores'” (Lc 22,37). Logo após a profecia da espada se cumprir, Ele ordena a Pedro: “Embainha a tua espada, porque todos os que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Disso decorre que a frase “quem tem bolsa, tome-a” (ou “tomará”, como consta em muitos manuscritos) não é um mandamento, mas sim uma profecia. Por ela, o Senhor previu que os apóstolos, esquecendo-se temporariamente dos dons e da lei do Senhor, chegariam ao ponto de recorrer à espada. Fica evidente em muitas passagens que a Escritura usa frequentemente o modo imperativo no lugar da forma profética, como por exemplo: “Fiquem órfãos os seus filhos” e “Levante-se à sua direita um acusador” (Sl 108,9.6).

 

INTERROGAÇÃO 252

Qual é o pão cotidiano que fomos ensinados a pedir a cada dia?

RESPOSTA

É o alimento necessário à sustentação de nossa natureza na vida diária. Quando alguém trabalha recordando-se do Senhor — que disse: “Não vos preocupeis por vossa vida: que comeremos? que beberemos?” (Mt 6,25) — e do Apóstolo, que ordena trabalhar não para o proveito próprio, mas para ter o que dar ao necessitado por causa do mandamento (pois “o operário é digno do seu alimento”), essa pessoa não confia em si mesma, mas pede a Deus o pão cotidiano. Assim, reconhecendo a própria indigência, ela receberá o necessário das mãos daquele que, após ter sido provado, foi encarregado de distribuir diariamente o sustento, conforme se lê: “Repartia-se, então, a cada um deles segundo a sua necessidade” (At 4,35).

 

INTERROGAÇÃO 253

O que é o talento e como devemos multiplicá-lo?

RESPOSTA

Julgo que esta parábola foi dita para representar todos os dons concedidos por Deus. Cada pessoa, seja qual for o dom que tenha recebido, deve multiplicá-lo empregando-o para fazer o bem e ser útil aos outros, pois não há ninguém que não tenha participado da bondade de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 254

Qual é a mesa de banqueiros onde se deve, como disse o Senhor, depositar o dinheiro?

RESPOSTA

As parábolas não descrevem perfeitamente as realidades espirituais em si mesmas, mas conduzem a mente até elas. Assim como é costume depositar dinheiro com banqueiros para render juros, aquele que recebe um dom qualquer deve partilhá-lo com quem necessita — ou agir segundo o que o Apóstolo disse a respeito da doutrina: “Confia-o a homens fiéis, que por sua vez sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2). Isso se aplica não apenas ao ensino da fé, mas a qualquer recurso ou carisma, pois alguns possuem os meios e outros recebem a perícia para administrá-los.

 

INTERROGAÇÃO 255

Para onde foi mandado ir aquele a quem o Senhor disse: “Toma o que é teu e vai-te” (Mt 20,14)?

RESPOSTA

Provavelmente para o mesmo lugar para onde serão enviados aqueles que estiverem à esquerda, condenados pela ausência de boas obras. Afinal, aquele que tem inveja do próprio irmão encontra-se em estado pior do que aquele que simplesmente nada faz. É por isso que a Escritura costuma, em diversas passagens, associar diretamente a inveja ao homicídio (Rm 1,29; Gl 5,21).

 

 

 

 

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

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