sábado, 22 de agosto de 2026

322 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 256-275


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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)

Regra Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 256-275

 

INTERROGAÇÃO 256

Pergunta: Qual é a recompensa que eles recebem, do mesmo modo que os últimos?

Resposta: Talvez seja próprio de todos os obedientes não se queixarem por causa das boas obras. Mas serem coroados é próprio daqueles que combateram o bom combate legitimamente, que terminaram sua corrida e guardaram a fé, no amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pode a recompensa combinada ser aquele cêntuplo que o Senhor prometeu que receberiam agora aqueles que, por causa do seu mandamento, deixassem todas as coisas presentes; de modo que a palavra "Pega o que é teu" signifique isto. Aqueles que pareciam ser os primeiros no trabalho, por sofrerem da doença da inveja contra os que receberam o mesmo prêmio, não merecem obter a herança da vida eterna, mas somente receber o cêntuplo agora e ouvir no futuro a sentença devida à inveja: "Vai-te".

 

INTERROGAÇÃO 257

Pergunta: Quais são as palhas queimadas em fogo inextinguível?

Resposta: São as pessoas úteis aos que forem dignos do reino dos céus, como a palha ao trigo, mas não por amor de Deus e do próximo — seja quanto aos carismas espirituais, seja quanto aos benefícios corporais —, e assim não atingem o fim.

 

INTERROGAÇÃO 258

Pergunta: Quem é o condenado pelo Apóstolo por afetar humildade e culto aos anjos, etc. (Cl 2,18)?

Resposta: Julgo explicar-se esta sentença pelas palavras acrescentadas a esta passagem. Na sequência, nomeia ele o rigor nos exercícios corporais (ibid. 23); tais são os maniqueus e os que se lhes assemelham.

 

INTERROGAÇÃO 259

Pergunta: Quem é fervoroso de espírito (Rm 12,11)?

Resposta: Aquele que, com disposição ardente, desejo insaciável e zelo incansável, faz a vontade de Deus na caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo está escrito: "Em seus mandamentos põe o seu prazer" (Sl 111,1).

 

INTERROGAÇÃO 260

Pergunta: O Apóstolo às vezes diz: "Não sejais imprudentes" (Ef 5,17); outras: "Não sejais sábios aos vossos próprios olhos" (Rm 12,16). É possível a quem não é imprudente não ser sábio aos próprios olhos?

Resposta: Cada preceito tem os seus próprios limites. A este: "Não sejais imprudentes", acrescenta: "Mas procurai compreender qual é a vontade de Deus". Ao outro: "Não sejais sábios aos vossos próprios olhos", ajunta-se: "Teme o Senhor e afasta-te do mal" (Pr 3,7). Por isto, é imprudente aquele que não entende a vontade do Senhor; sábio, porém, aos próprios olhos, todo aquele que segue seus próprios pensamentos e não as palavras de Deus, de acordo com a fé. Se alguém, pois, não quer ser imprudente, nem sábio aos próprios olhos, deve entender qual é a vontade de Deus pela fé Nele, e, temendo o Senhor, imitar o Apóstolo que assegura: "Nós aniquilamos todo raciocínio e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento para reduzi-lo à obediência a Cristo" (2Cor 10,4-5).

 

 

INTERROGAÇÃO 261

Pergunta: Tendo prometido o Senhor que "tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o alcançareis" (Mt 21,22) e ainda: "Se dois de vós se reunirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão" (Mt 18,19), por que alguns que suplicavam, até mesmo os santos, não receberam? Assim o Apóstolo: "Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim" (2Cor 12,8), e não recebeu o que pedia; e também o profeta Jeremias e até o próprio Moisés.

Resposta: Como Nosso Senhor Jesus Cristo exprimiu em sua oração: "Pai, se é possível, passe longe de mim este cálice" (Mt 26,39) e logo acrescentou: "Todavia não se faça o que eu quero, mas, sim, o que tu queres".  Primeiro, convém saber que nem tudo o que queremos nos é lícito pedir, nem mesmo sabemos suplicar o que nos é útil, porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém. Por isto, devemos fazer as preces segundo a vontade de Deus, com muita ponderação. Se não formos ouvidos, saibamos que é preciso paciência e insistência, segundo a parábola do Senhor acerca do dever de orar sempre, sem nos fatigarmos, e conforme afirma outra passagem: "Por causa de sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães ele necessitar" (Lc 11,8); ou emenda e diligência, de acordo com o dito do profeta a alguns, da parte do Senhor: "Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, eu não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue, lavai-vos, purificai-vos", etc. (Is 1,15-16). Não duvidem de que mesmo agora tal acontece e de que há alguns com as mãos cheias de sangue: os que creem naquele juízo de Deus proferido contra quem recebeu ordem de anunciar ao povo e calou-se: "É à sentinela que pedirei conta de seu sangue" (Ez 3,18). O Apóstolo, convicto de ser isto verdade indefectível, afirmou: "Hoje protesto diante de vós que sou inocente do sangue de todos; porque não me esquivei de anunciar-vos todo o desígnio de Deus" (At 20,26-27). Se é réu do sangue dos pecadores quem apenas se calou, que se dirá de quem, por obras e palavras, escandaliza os outros? Acontece por vezes, devido à indignidade do suplicante, não ser satisfeito o pedido, como sucedeu quando Davi rogava permissão para construir a casa de Deus, a qual lhe foi negada; embora fosse grato a Deus, não foi julgado digno desta obra. Jeremias, porém, parece não ter sido ouvido por causa da maldade daqueles pelos quais orava. Muitas vezes, também por nossa negligência, perdemos a ocasião oportuna para fazer a prece e, depois, vamos orar debalde em tempo impróprio. Quanto ao dito: "Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim" (2Cor 12,8), é bom saber que há muitas e variadas razões para as tribulações externas e corporais. Deus as envia ou permite por uma economia melhor do que a libertação delas. Se alguém, portanto, conseguir saber que deve por meio da oração e da súplica livrar-se da adversidade, ao rogar será ouvido, como os dois cegos do Evangelho, os dez leprosos e muitos outros. Se, porém, não conhece a razão por que caiu em tentação (muitas vezes deve obter por meio da paciência o fim pelo qual lhe advêm os males) e for preciso até o fim suportá-la, no caso de pedir que lhe seja retirada a tribulação, não será atendido, porque não concorda com o escopo do amor que Deus tem aos homens. Quanto à afirmação: "Se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir" (Mt 18,19), a própria perícope é muito clara. Trata-se de quem argui o pecador e do arguido. Como Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva, se o arguido, de ânimo contrito, contribui para a finalidade visada por quem censura, em tudo — isto é, a respeito de todos os pecados dos quais pedem a remissão —, esta lhes será concedida por Deus, que ama o homem. Se, porém, o repreendido e quem repreende não entram em acordo, não haverá remissão, e sim vínculo, conforme as palavras seguintes: "Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu" (Mt 18,18), de modo a se realizar a sentença: "Se se recusar a ouvir a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano" (ibid. 17).

 

 

INTERROGAÇÃO 262

Pergunta: Uma vez que a Escritura coloca a pobreza e a indigência entre as coisas louváveis — por exemplo, quando diz: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre" (Mt 5,3) e também: "O pobre e o desvalido louvarão o teu nome" (Sl 9,17; 73,21) —, qual é a diferença entre pobreza e indigência, e como é verdadeira a afirmação de Davi: "Quanto a mim, sou mendigo e pobre" (Sl 39,18)?

Resposta: Lembrado do Apóstolo que diz a respeito do Senhor: "Sendo rico, se fez pobre por nós" (2Cor 8,9), julgo ser pobre aquele que da riqueza caiu na necessidade; indigente, porém, é o que desde o início sofria necessidade e dominou esta tribulação de modo agradável a Deus. Davi, porém, se confessa indigente e pobre talvez na pessoa do Senhor, que é denominado pobre segundo a palavra: "Sendo rico, se fez pobre por nós"; e indigente porque foi julgado filho, segundo a carne, não de um rico, mas de um artífice. Talvez também porque, como Jó, não entesourou bens nem se apropriou de riquezas, mas administrou-as segundo a vontade de Deus.

 

INTERROGAÇÃO 263

Pergunta: Que quer ensinar o Senhor, por meio de exemplos, àqueles aos quais acrescentou: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,33)? Se quem quer edificar uma torre ou guerrear contra outro rei deve se preparar ou para a construção ou para a guerra, e se não for capaz convém-lhe, de início, não lançar os alicerces ou pedir a paz, então quem quer ser discípulo do Senhor deve renunciar? E se vir que para si é difícil, ser-lhe-á lícito não começar a ser discípulo do Senhor?

Resposta: O fim visado pelo Senhor com estes exemplos não é dar liberdade de ser ou não discípulo seu, mas mostrar ser impossível que alguém, no meio de coisas que distraem o espírito, agrade a Deus; nelas periclita, tornando-se suscetível às ciladas do diabo e merecedor de zombaria e riso por ter deixado inacabadas as coisas nas quais se empenhara. O profeta pedia não lhe sobreviesse isso quando dizia: "Não se alegrem à minha custa os meus inimigos. Não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala" (Sl 37,17).

 

INTERROGAÇÃO 264

Pergunta: Tendo dito o Apóstolo: "Sejais sinceros" (Fl 1,10), e ainda: "Mas com sinceridade" (2Cor 2,17), que é ser sincero?

Resposta: Julgo ser sincero o que está livre de mistura e purificado completamente de elementos contrários, porém unido e ordenado só à piedade; não só, mas ainda ao que é absolutamente requerido para tal escopo, sempre e em todos os casos, de modo que o encarregado de algum ofício não pode se afastar dele, nem para cuidar de problemas afins. A primeira sentença se explica por si mesma no contexto, porque depois das palavras "Mas com sinceridade" acrescenta-se: "Pregamos em Cristo, sob os olhares de Deus"; a segunda, por meio da afirmação: "Não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus distribuiu" (Rm 12,3), e ainda mediante as palavras subsequentes.

 

INTERROGAÇÃO 265

Pergunta: Se somente aos sacerdotes foi dito: "Se estás por fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta" (Mt 5,23-24), ou a todos? E como cada um de nós faz a sua oferta diante do altar?

Resposta: Principalmente e em primeiro lugar refere-se aos sacerdotes, porque está escrito: "A vós chamar-vos-ão sacerdotes do Senhor, ministros de nosso Deus" (Is 61,6). E: "Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor" (Sl 49,23). E ainda: "O sacrifício digno de Deus é um espírito contrito" (Sl 50,19). E o Apóstolo diz: "Apresenteis vossos corpos como uma hóstia viva, santa e agradável a Deus, à maneira de um culto espiritual" (Rm 12,1). Cada uma destas palavras destina-se a todos; e é dever de todos nós realizá-las.

 

INTERROGAÇÃO 266

Pergunta: Que é o sal que o Senhor mandou ter, dizendo: "Tende sal em vós" (Mc 9,49)? E o Apóstolo diz: "Que as vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal" (Cl 4,6).

Resposta: Aqui também o sentido torna-se evidente pelo contexto de cada capítulo. Pois aprendemos das palavras do Senhor a não darmos motivo algum de separação e dissídio, mas sempre conservarmos os vínculos da paz, para a unidade do espírito. Com as palavras do Apóstolo, lembremo-nos daquele que disse: "Come-se uma coisa insípida sem sal? Pode alguém saborear aquilo que não tem gosto nenhum?" (Jó 6,6). Aprendamos a ministrar as palavras para edificação da fé, e que sejam benfazejas aos que as ouvem (Ef 4,29), empregando tempo oportuno e ordem conveniente para os ouvintes serem mais dóceis.

 

INTERROGAÇÃO 267

Pergunta: Se um receber muitos açoites, e outro poucos, como diziam alguns que as penas são sem fim? (Lc 12,47).

Resposta: As palavras que parecem ambíguas e obscuras em certos lugares das Escrituras divinas explicam-se pelas sentenças proferidas de modo claro em outras passagens. Como o Senhor ora sentencia que eles irão para o suplício eterno, ora manda alguns para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos; e em outra parte, mencionando a geena do fogo, acrescenta: "Onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga" (Mc 9,47); e ainda, outrora, pelo profeta predisse de alguns que "O verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá" (Is 66,24) — e pertencendo estas e semelhantes citações a muitos lugares das Escrituras divinas, um dos artifícios do diabo consiste em fazer com que muitos homens, de certo modo esquecidos de tantas e de tais palavras e sentenças do Senhor, determinem um termo para os suplícios, querendo pecar com maior ousadia. Se for finito o suplício eterno, certamente terá termo também a vida eterna. Se não podemos pensar assim da vida, como será razoável atribuir fim ao suplício eterno? Pois o adjetivo eterno é igual para ambos: "E estes irão para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna" (Mt 25,46).  Confessado isto, é preciso saber que nem "receberá muitos açoites", nem "receberá poucos" implica termo, mas sim diferença nos tormentos. Se Deus é justo juiz, não só para os bons, mas também para os maus, dando a cada um conforme as suas obras, pode alguém ser digno do fogo inextinguível que queima menos ou mais; outro, do verme que não morre, e o qual igualmente atormenta com maior ou menor intensidade, segundo o merecimento de cada um; outro, da geena que tem, de fato, tormentos muito variados; e outro, das trevas exteriores, onde para um existe somente choro e para outro ranger de dentes, por causa da veemência das dores. Também as trevas exteriores sugerem haver seguramente outras, interiores. E a palavra dos Provérbios: "Nas profundezas da região dos mortos" (Pr 9,18), declara haver alguns no inferno, contudo não no profundo do inferno, e que são submetidos a penas mais leves. Estes caracteres encontram-se já agora nas doenças corporais. Um sente febre com alguns sintomas e outros incômodos; outro, apenas febre, de modo diferente um do outro. Alguém não está com febre, mas dói-lhe um membro, e mais ou menos do que em um outro. O Senhor empregou as expressões muito e pouco segundo o uso comum, em casos semelhantes. Sabemos, muitas vezes, que este modo de falar é empregado a respeito dos que sofrem de uma doença; assim dizemos, admirados, de alguém que está febril ou sente dor nos olhos: "Quanto sofreu!" ou "Quantos males o atingiram!". De maneira que muitos e poucos açoites, digo-o novamente, não significam duração ou fim do tempo, mas diferença dos tormentos.

 

INTERROGAÇÃO 268 Pergunta: Em que sentido alguns são denominados "filhos da incredulidade" e "filhos da ira"? (Ef 5,6; 2,3).

Resposta: O Senhor costuma denominar filhos de alguém, bom ou mau, os que lhe fazem a vontade. Diz: "Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão" (Jo 8,39), e ainda: "Vós tendes como pai o demônio, e quereis fazer os desejos de vosso pai" (ibid. 44). Por isto, quem faz obras de incredulidade torna-se filho da incredulidade. Talvez também, como o diabo é denominado, a meu ver, não só pecador, mas o próprio pecado — porque é instigador do pecado —, assim também, por idêntica razão, ele pode ser chamado a própria infidelidade. Filho da ira, porém, é todo aquele que se fez digno da ira. Como o Apóstolo denominou aqueles que são dignos do Senhor e fazem as obras da luz e do dia "filhos da luz e filhos do dia", assim, por consequência, deve-se entender a palavra: "Éramos filhos da ira". Importa saber que filho da incredulidade é idêntico a filho da ira, porque proferiu o Senhor: "Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus" (Jo 3,36).

 

INTERROGAÇÃO 269

Pergunta: Está escrito: "Fazendo a vontade da carne e da concupiscência" (Ef 2,3). Acaso são diferentes as vontades da carne e as da concupiscência? E quais são?

Resposta: O Apóstolo enumera separada e nominalmente em outro lugar as vontades da carne, dizendo: "Ora, as obras da carne são estas: adultério, fornicação, impureza, desonestidade, idolatria, magia, inimizades, contendas, ciúmes, iras, rixas, discórdias, partidos, invejas, homicídios, embriaguez, orgias, e outras coisas semelhantes" (Gl 5,19-21); e em outra passagem, de modo mais geral: "Porque o desejo da carne é hostil a Deus; pois a carne não se submete à lei de Deus e nem o pode" (Rm 8,7).

As vontades da concupiscência talvez sejam os planos que não se apoiam no testemunho da Escritura, tais aqueles dos quais se declara: "Aniquilamos todo o raciocínio e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus" (2Cor 10,4-5), e todo entendimento que não está reduzido à sujeição, na obediência a Cristo. Por isto, é imprescindível e seguro, sempre e em toda a parte, observar a palavra de Davi: "Meus conselheiros são as vossas leis" (Sl 118,24).

 

INTERROGAÇÃO 270

Pergunta: Que significa: "Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos" (2Cor 4,8)?

Resposta: O Apóstolo mostra sua firme confiança em Deus em contraposição à sabedoria humana, e assim coloca cada uma das coisas referidas nesta passagem. Quanto à sabedoria humana, assevera: "Em tudo sofremos tribulação"; relativamente à confiança em Deus, acrescenta: "Mas não somos oprimidos". Ainda, sobre a prudência humana: "Somos cercados de dificuldades", e no atinente à confiança em Deus: "Não desesperamos". E assim por diante. Como também o que assegurou em outra parte: "Somos considerados agonizantes, embora estejamos com vida; como indigentes, ainda que enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo" (2Cor 6,9-10).

 

INTERROGAÇÃO 271

Pergunta: O Senhor disse: "Dai antes em esmola o conteúdo e todas as coisas vos serão limpas" (Lc 11,41). Acaso será alguém purificado de todos os pecados que cometeu por meio da esmola?

Resposta: A sequência da passagem supracitada esclarece-lhe o significado. Tendo, pois, dito: "Limpais o que está por fora do vaso e do prato; mas o vosso interior está cheio de roubo e de maldade!" (ibid. 39), acrescenta: "Dai antes em esmola o conteúdo, e todas as coisas vos serão limpas" — todas as coisas, quer dizer, tudo em que pecamos e agimos mal pela rapina e avareza. Declara-o Zaqueu, dizendo: "Doravante darei a metade dos meus bens aos pobres, e se tiver defraudado alguém restituirei o quádruplo" (Lc 19,8).

Portanto, todos os pecados desta espécie que podem ser apagados, e para os quais é possível múltipla compensação, são perdoados deste modo. Deste modo, digo, não que por si só baste para a remissão, mas primeiro exigem-se a misericórdia de Deus e o sangue de Cristo, pelo qual também obtemos a remissão de todos os outros, se fizermos dignos frutos de penitência.

 

INTERROGAÇÃO 272

Pergunta: Uma vez que preceituou o Senhor não andarmos inquietos pelo dia de amanhã, como entenderemos bem este preceito? Vemos que temos muito empenho em obter o necessário, a ponto de armazenarmos o bastante para muito tempo.

Resposta: Quem acolhe o ensinamento do Senhor: "Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça" (Mt 6,33) e está convicto da verdade de sua promessa ao ajuntar "e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo", não ocupa em vão o espírito com solicitudes desta vida, que sufocam a palavra e a tornam estéril. Combatendo o bom combate para agradar a Deus, crê no Senhor que assegurou: "O operário merece o seu sustento" (Mt 10,10), e por causa dele não se preocupa; mas trabalha e se aflige, não por si, mas por causa do mandamento de Cristo, segundo demonstrou e ensinou o Apóstolo, que afirma: "Em tudo vos tenho mostrado que assim, trabalhando, convém acudir aos fracos" (At 20,35). Preocupar-se consigo mesmo é incorrer em incriminação de egoísmo; preocupar-se e trabalhar por causa do mandamento merece o encômio de se possuir um ânimo amante de Cristo e dos irmãos.

 

INTERROGAÇÃO 273

Pergunta: Em que consiste a blasfêmia contra o Espírito Santo?

Resposta: Pela blasfêmia que proferiram os fariseus, contra os quais igualmente foi lançada esta sentença, evidencia-se que agora blasfema contra o Espírito Santo quem atribui ao adversário a eficácia e os frutos do Espírito Santo. Sofrem desta doença muitos de nós, que amiúde atacam a outrem, acusando-o temerariamente de ambição de uma glória vã, e falsamente de ira, enquanto é zeloso do bem; e ainda, mentirosamente, só à base de suspeitas, dando outras denominações semelhantes.

 

INTERROGAÇÃO 274

Pergunta: Como se fará alguém estulto neste século?

Resposta: Se temer o juízo de Deus, que disse: "Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos e prudentes em seu próprio juízo" (Is 5,21), e imitar aquele que disse: "Como um animal irracional, porém, estarei sempre convosco" (Sl 72,22); e se, rejeitando toda pretensão de prudência, não julgar logo boa uma de suas ideias e nem mesmo começar a raciocinar antes de estar habituado, por meio do mandamento do Senhor, a agradar a Deus em obras, palavras ou pensamentos. Conforme disse o Apóstolo: "Tal é a convicção que temos em Deus por Cristo. Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus" (2Cor 3,4-5), "que ensina ao homem o saber" (Sl 93,10), como está escrito.

 

INTERROGAÇÃO 275

Pergunta: Se Satanás pode impedir o propósito de um santo, por que está escrito: "Já por duas vezes quisemos ir ter convosco, ao menos eu, Paulo. Satanás, porém, nos impediu" (1Ts 2,18)?

Resposta: Entre as boas obras feitas no Senhor, umas se perfazem por vontade e juízo da alma, outras pelas forças corporais, ou pelo zelo ou pela paciência. De modo algum pode Satanás impedir as dependentes da vontade e do julgamento da alma. Em relação às praticadas pelas energias corporais, frequentemente Deus permite que haja um impedimento, para provação e aviso do que foi impedido, a fim de que ou seja convencido da alteração de seu bom propósito — como aqueles cuja semente caiu sobre um pedregulho, os quais por breve tempo receberam com gosto a palavra, mas, sobrevindo a tentação, logo voltaram atrás —; ou ainda mostre perseverar no bem, pelo zelo das boas obras — como o próprio Apóstolo que, tendo feito várias vezes o propósito de ir ver os romanos, e impedido, como ele próprio o confessa, não desistiu até cumprir o que projetara —; ou também, quanto à paciência, como Jó, que, sofrendo tanto do diabo a instigá-lo a proferir alguma blasfêmia, ou a ser ingrato para com Deus, nem mesmo na extrema tribulação se afastou de seu juízo piedoso, ou de sentimentos retos para com Deus. Dele está escrito: "Em tudo isso, Jó não cometeu nenhum pecado nem proferiu contra Deus nenhuma blasfêmia" (Jó 1,22).

 

 

 

1.                  O que você destaca no texto?

2.                  Como serve para a sua espiritualidade?

3.                  De que forma esse texto desafia ou fortalece a nossa missão e os nossos valores aqui na OESI?

 

 

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