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SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA
(330-379)
Regra Monástica - Asketikon
As Regras Extensas (55 regras). Regras 41 a 45
QUESTÃO 41 - AUTORIDADE E OBEDIÊNCIA
Resposta
1.
Mesmo
ao se tratar de ofícios lícitos, não se permita a cada um exercer o que sabe ou
o que quer aprender, e sim aquele para o qual for julgado capaz. Quem renunciou
a si mesmo e abandonou todas as suas vontades, não faça o que quer, mas o que
lhe ensinarem.
2.
Não
é razoável escolher por si mesmo o que é
útil, uma vez que se entregou à direção de outros; estes o encaminharão para
aquilo que reconhecerem, em nome do Senhor, ser-lhe conveniente.
3.
Quem
escolhe um trabalho seguindo seu próprio desejo, expõe-se a censuras: primeiro,
porque procura o que lhe agrada; em segundo lugar, porque tem propensão para
tal ofício por glória mundana e esperança de lucro ou coisa semelhante; ou
ainda, porque escolhe o mais leve por preguiça e negligência.
4.
Agir
assim é dar provas de ainda não se ter libertado das más paixões.
5.
Não
se renegou a si mesmo quem quer seguir as próprias inclinações, nem renunciou
aos negócios do século, se ainda se deixa prender pelo desejo de lucro e de
glória.
6.
Não
mortificou os membros terrenos quem não suporta o peso do trabalho, mas
mostra-se arrogante, achando o próprio juízo mais acertado do que o parecer de
muitos. Se alguém tiver um ofício bem aceito pela comunidade, não o abandone.
Denota inconstância e vacilação quem despreza o que tem em mão. Se não tiver
ofício, não o arranje por si mesmo, mas aceite o que os maiores aprovarem, para
em tudo se salvaguardar a obediência.
7.
Como
foi demonstrado, se não convém escolher por si mesmo, é repreensível recusar o
que outros aprovaram. Se alguém tiver ocupação que desagrade à comunidade dos
irmãos, largue-a prontamente, dando provas de que em nada atraem-no as coisas
mundanas.
8.
Satisfazer
às próprias inclinações é peculiar de quem não tem esperança, segundo a palavra
do Apóstolo (lTs 4,13); uma obediência em tudo, porém, é digna de louvor, pois
o Apóstolo louva os que se deram a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós,
pela vontade de Deus (2Cor 8,5).
9.
Cada
um cuide do próprio trabalho, solícito e de boa vontade. Como se Deus o
vigiasse, de modo irrepreensível, com zelo incansável e a mais atenta
diligência, realize-o de modo a poder dizer sempre com toda confiança: Como
os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, assim nossos olhos
estão voltados para o Senhor, nosso Deus (SI 122,2), e não mude de serviço.
10.
Nossa
natureza não pode ao mesmo tempo preencher várias funções; por conseguinte, é
melhor exercer com apuro uma do que imperfeitamente muitas. A grande dispersão
e a troca de uma para outra não permitem se termine trabalho algum; igualmente
denota leviandade já existente ou a produz onde ainda não existe.
11.
Se
acaso houver necessidade de auxílio em outros ofícios, é justo ajude quem for
capaz. Não, contudo, por iniciativa própria, mas se for chamado. Façamo-lo, sem
nos anteciparmos, se houver urgência, à semelhança do que sucede com os membros
do corpo; se o pé tropeça, firmamo-nos com as mãos. Ainda uma vez, abraçar um
ofício por iniciativa própria é inútil, assim como é repreensível recusar-se ao
que foi mandado.
12.
Não
se alimente, portanto, a autossuficiência nem se ultrapassem os limites da
obediência e da docilidade. A conservação dos instrumentos de trabalho compete,
principalmente, ao artífice de determinada obra.
13.
Se
acontecer que fique jogado um objeto de uso comum, o primeiro que o notar
dê-lhe a devida atenção. Se o uso é particular, a utilidade que ele traz,
contudo, é comum. Descuidar-se alguém dos instrumentos de outro ofício, como
nada tendo que ver com eles, é sinal de que os considera bens alheios.
14.
Não
convém àqueles que exercem os ofícios reivindicarem a posse dos instrumentos,
de modo que o superior da comunidade não tenha a faculdade de dar-lhes o
destino que lhe aprouver, ou de vendê-los, trocá-los, colocá-los de qualquer
outro modo, ou comprar outros, além dos que já têm.
15.
Quem
decidiu não ser senhor nem de suas próprias mãos, mas entregou a outrem a
disposição de suas atividades, agiria de modo consequente se tivesse todos os direitos
sobre os instrumentos de seu ofício e usasse deles a título de propriedade?
QUESTÃO 42 - QUAL O FIM E A ATITUDE DOS QUE TRABALHAM
Resposta
16.
Saiba-se
que não se deve trabalhar para atender às próprias necessidades por meio do
trabalho, mas a fim de cumprir o mandamento do Senhor, que disse: Tive
fome e destes de comer, etc. (Mt 25,35).
17.
Foi
totalmente proibida pelo Senhor a inquietação a respeito de si mesmo, ao dizer:
Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que come reis, nem por vosso
corpo, como vos vestireis (Mt 6,25), e ajuntou: São os pagãos que
se preocupam com tudo isso (ibid. 32).
18.
Deve,
portanto, cada um ter por escopo do trabalho servir aos necessitados e não às
próprias vantagens. Assim também não será censurado de egoísmo e receberá a
bênção atribuída pelo Senhor ao amor fraterno, quando disse: Todas as
vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim
mesmo que o fizestes (Mt 25,40).
19.
Ninguém
pense que nossa palavra contradiz à do Apóstolo que ordena: trabalhando
comam o pão (2Ts 3,12). Isto se aplica aos desordeiros e preguiçosos,
porque é preferível cada um prover-se a si mesmo, não ser pesado aos outros, a
viver na ociosidade. Ora, nós temos ouvido dizer que há entre vós pessoas
desregradas. Em lugar de trabalharem, ocupam-se com futilidades. Nós lhes
ordenamos e os exortamos a trabalhar pacificamente. Comam assim o pão (2Ts
3,12).
20.
E
afirmamos: Labutamos noite e dia para não sermos pesados a nenhum de vós (ibid.
8), tem idêntico significado. O Apóstolo, por amor fraterno, sujeitava-se a
trabalhos além dos que lhe foram prescritos, para eliminar os desordeiros,
próprio daquele que se apressa em busca da perfeição trabalhar noite e dia, para
ter com que socorrer os necessitados (Ef 4,28).
21.
Quem,
porém, põe sua esperança em si mesmo ou no encarregado da distribuição das
coisas necessárias, quem pensa que o próprio trabalho, ou o de um companheiro,
é suficiente para a subsistência, enquanto espera num homem, incorre no perigo
da maldição: Maldito o homem que em outro confia, que da carne faz o seu
apoio e cujo coração vive distante do Senhor (Jr 17,5).
22.
A
Palavra de Deus, com a expresso quem em outro confia, proíbe confiar em outrem,
e com esta: da carne faz o seu apoio veta a confiar a
em si mesmo. Ambas se denominam apostasia do Senhor. E acrescenta o resultado
de ambas: (6) Porque ele será como um arbusto solitário no deserto e não
verá quando vier o bem; pelo contrário, morará nos lugares secos do deserto, na
terra salgada e inabitável.”
23.
Mostra
a Escritura que esperar em si ou em um outro é apostatar do Senhor.
QUESTÃO 43 - FOI SUFICIENTEMENTE EXPLICADO O MODO DE TRABALHAR. SE
ALGO FALTAR, APRENDEREMOS PELA PRAXE A ENCONTRAR A BOA SOLUÇÃO. PEDIMOS AGORA
NOS SEJA EXPOSTO COMO DEVEM SER OS SUPERIORES DA COMUNIDADE DOS IRMÃOS E DE QUE
MANEIRA HÃO DE GOVERNAR OS DISCÍPULOS.
Resposta
24.
Também
esses assuntos já foram tratados resumidamente. Mas como quereis que esta
questão vos seja melhor explicada e fazeis muito bem pois qual o superior e
chefe, tal, na maioria, costumam ser os súditos, é preciso não a omitir, sem
motivo.
25.
Deve,
portanto, o superior lembrar-se do preceito do Apóstolo que diz: Sê tu um
exemplo para os fiéis (lTm 4,12), fazendo de sua vida um modelo
evidente de todos os mandamentos do Senhor, de modo que não reste pretexto
algum aos discípulos de suporem ser o mandamento do Senhor impossível de
cumprir ou desprezível.
26.
Vem
em primeiro lugar, pois, o que é principal, isto é, que ele, na caridade de
Cristo, pratique a humildade, de modo que mesmo em silêncio o exemplo de suas
obras seja ensinamento mais forte do que qualquer palavra.
27.
Se
a meta do cristianismo é a imitação de Cristo em medida humana, à proporção da
vocação de cada um, é dever daqueles aos quais foi confiada a direção de muitos
estimular por sua ação até os mais fracos à imitação de Cristo, conforme o
bem-aventurado Paulo, que disse: Tornai-vos meus imitadores, como eu o
sou de Cristo (ICor 11,1).
28.
Convém
sejam os primeiros a dar exemplo perfeito de realização da forma de humildade que
Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: Recebei minha doutrina, porque eu
sou manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão dos costumes e a
humildade de coração caracterizem o superior.
29.
Se
o Senhor não se ruborizou de prestar ministério a seus servos, mas quis
mostrar-se servo da terra e do barro, que ele plasmou para formar o homem (Estou,
disse, no meio de vós como aquele que serve, Lc 22,27),
que não devemos nós fazer a nossos semelhantes, para pretendermos imitá-lo?
Disto, pois, acima de tudo seja dotado o superior. Em seguida, seja
misericordioso e suporte pacientemente os que omitirem alguma coisa das
obrigações, por inexperiência.
30.
Não
dissimule os pecados pelo silêncio, mas tolere com mansidão os rebeldes e
aplique-lhes o remédio com toda a misericórdia e moderação. Seja, pois, capaz
de encontrar o tratamento adequado à doença, não censurando com arrogância, mas
corrigindo e instruindo com mansidão, conforme está escrito (2Tm 2,25).
31.
Seja
vigilante no presente, previdente do futuro, capaz de lutar em companhia dos
fortes, de carregar as enfermidades dos fracos e de tudo fazer e dizer para a
perfeição dos discípulos.
32.
Não
assuma por si mesmo o governo, mas seja escolhido pelos que dirigem outras
comunidades de irmãos, depois de ter dado suficientes provas de seus costumes
na vida anterior. Antes de exercer o ministério, diz-se, sejam
provados para que haja segurança de que são irrepreensíveis (lTm 3,10).
33.
Quem
tiver tais qualidades aceite o governo, estabeleça a disciplina na comunidade
dos irmãos e distribua o trabalho, conforme as capacidades de cada um.
QUESTÃO 44 - A QUEM SE DEVE PERMITIR AS VIAGENS E COMO
SERÁ INTERROGADO, À VOLTA.
Resposta
34.
Licença
de viajar receba aquele que possa fazer a viagem sem prejudicar a própria alma
e para o bem dos que o acompanham. Se não houver alguém idôneo, é melhor sofrer
todas as aflições pela penúria do necessário e angústias até a morte do que, a
fim de aliviar o corpo, arrostar um perigo certo para a alma. Preferiria,
diz o Apóstolo, morrer a . . m a s ninguém tirará este título de glória (ICor
9,15).
35.
Isto,
em questões indiferentes; quanto mais ao se tratar de mandamentos. Mas aqui
também a lei da caridade não nos deixa desamparados. Se acontecer que numa
comunidade não haja quem esteja em condições de ser mandado, os mais próximos supri-lo-ão,
viajando em grupos, sem jamais se separarem, de modo que tanto os fracos
relativamente ao espírito, quanto os débeis também de corpo, nesta sociedade
com os mais fortes, fiquem incólumes.
36.
Com
antecedência seja isto previsto pelo superior, para não suceder que no momento
da necessidade, por impossibilidade de tempo, não haja mais recurso. À volta, o
superior interrogue o viajante acerca do que fez, com quem se encontrou, as
palavras que lhes disse, quais as cogitações do espírito, se passou dias e
noites no temor de Deus, ou se prevaricou e transgrediu alguma prescrição,
levado pelas circunstâncias externas, ou se caiu por própria frivolidade.
37.
Confirme
com sua aprovação o que se fez bem e corrija com exortações cuidadosas e
prudentes o delito. Assim, os que partirem de viagem serão mais vigilantes,
receosos das contas que hão de prestar e nós mostraremos que, nem separados,
nos desinteressamos da vida que levam.
38.
Narram
os Atos que assim costumavam agir os santos, ao nos ensinarem como Pedro,
voltando a Jerusalém, prestou contas de sua sociedade com os pagãos aos que lá
estavam (At ll,5s). De modo semelhante, Paulo e Barnabé, à volta, tendo reunido
a assembleia, anunciou-lhe quanto Deus havia feito por seu intermédio (At
15,12); e ainda, que toda a multidão se calou para ouvir Barnabé e Paulo
contarem quanto Deus havia feito.
39.
Importa,
contudo, saber que os circuitos, os negócios maiores e pequenos lucros devem
ser absolutamente evitados pelas comunidades dos irmãos.
QUESTÃO 45 - HAJA, QUANDO O SUPERIOR ESTIVER AUSENTE OU OCUPADO,
OUTRA PESSOA PARA CUIDAR DOS IRMÃOS.
Resposta
40.
Como
frequentemente acontece que, por fraqueza do corpo, por necessidade de viagem,
ou por qualquer outra circunstância tenha o superior da comunidade dos irmãos
de se ausentar, seja escolhido um outro, experimentado por ele e por outros
capazes de examinar, a fim de que, em sua ausência, cuide dos irmãos, e assim
também exorte os que ficaram.
41.
Na
ausência do superior, a comunidade deste modo não tomará aspecto democrático,
com dissolução da regra e da disciplina, estabelecidas por tradição.
Observem-se, porém, as práticas aprovadas, para a glória de Deus.
42.
Responda
prudentemente aos hóspedes que chegam, de modo que os que buscam uma palavra edifiquem-se
com a elevação do assunto e a comunidade dos irmãos não tenha de que se
envergonhar. Se todos juntos acorrem para falar, é causa de tumulto e sinal de
desordem.
43.
O
Apóstolo, nem mesmo aos que receberam o carisma de ensinar permite falem muitos
ao mesmo tempo, dizendo: Se for feita uma revelação a algum dos
assistentes, cale-se o que falava primeiro(ICor 14,30). E de novo redargui
a inconveniência de tal desordem, quando diz: Se, pois, numa assembleia
da igreja inteira, todos falarem em línguas e se entrarem homens simples ou
infiéis, não dirão que estais loucos? (ibid. 23).
44.
Se
por ignorância o hóspede interrogar a um outro, mesmo e quem foi interpelado
por engano tiver respostas prontas, cale-se por disciplina e informe a qual foi
confiada tal tarefa, como fizeram os apóstolos diante do Senhor,- deste modo, o
uso da palavra seja disciplinado e apto.
45.
Se
no tratamento corporal não aplica qualquer um aos doentes os remédios ou os
ferros, e sim aquele que adquiriu a arte, durante longo tempo, com a
experiência, o exercício e o ensino dos peritos, como será razoável qualquer
um, de improviso, ministrar o tratamento da palavra?
46.
Neste
ponto, o menor descuido provoca enorme dano. Entre os que não permitem que faça
qualquer pessoa a distribuição do pão, mas reservam esse ministério a um só,
bem experimentado, como não deve entre eles, e com muito mais razão, receber
uma só pessoa, e das mais idôneas, o encargo de oferecer cuidadosa e
escolhidamente o alimento espiritual aos que o pedem?
47.
Por
isso, não seria arrogância vulgar alguém, interrogado sobre os juízos de Deus,
ousar com audácia e temeridade responder e não indicar aquele a quem foi
confiado o serviço da palavra, por ser em tudo fiel e despenseiro prudente, escolhido
para repartir em tempo oportuno o alimento espiritual e, como está escrito,
para dispor os seus discursos com juízo (SI111,5).
48.
E
se algo escapar àquele que tem de responder e outro o souber, não lhe recorde
imediatamente, mas em particular sugira o que lhe parece. Este fato vem a ser
ocasião de se exaltarem os inferiores contra os superiores.
49.
Portanto,
se alguém responder bem, sem, contudo, disto estar encarregado, é réu de penas
por perturbação da disciplina.
O
que você destaca no texto?
O
que você destaca na fala do seu irmão/ã?
Como
serve para sua espiritualidade?