domingo, 28 de dezembro de 2025

301 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Regra Monástica - Asketikon - As Regras Extensas (55 regras). - Regras 41 a 45

 



301

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Regra Monástica - Asketikon

As Regras Extensas (55 regras). Regras 41 a 45

 

QUESTÃO 41 - AUTORIDADE E OBEDIÊNCIA

Resposta

1.      Mesmo ao se tratar de ofícios lícitos, não se permita a cada um exercer o que sabe ou o que quer aprender, e sim aquele para o qual for julgado capaz. Quem renunciou a si mesmo e abandonou todas as suas vontades, não faça o que quer, mas o que lhe ensinarem.

2.      Não é razoável escolher por si mesmo o que  é útil, uma vez que se entregou à direção de outros; estes o encaminharão para aquilo que reconhecerem, em nome do Senhor, ser-lhe conveniente.

3.      Quem escolhe um trabalho seguindo seu próprio desejo, expõe-se a censuras: primeiro, porque procura o que lhe agrada; em segundo lugar, porque tem propensão para tal ofício por glória mundana e esperança de lucro ou coisa semelhante; ou ainda, porque escolhe o mais leve por preguiça e negligência.

4.      Agir assim é dar provas de ainda não se ter libertado das más paixões.

5.      Não se renegou a si mesmo quem quer seguir as próprias inclinações, nem renunciou aos negócios do século, se ainda se deixa prender pelo desejo de lucro e de glória.

6.      Não mortificou os membros terrenos quem não suporta o peso do trabalho, mas mostra-se arrogante, achando o próprio juízo mais acertado do que o parecer de muitos. Se alguém tiver um ofício bem aceito pela comunidade, não o abandone. Denota inconstância e vacilação quem despreza o que tem em mão. Se não tiver ofício, não o arranje por si mesmo, mas aceite o que os maiores aprovarem, para em tudo se salvaguardar a obediência.

7.      Como foi demonstrado, se não convém escolher por si mesmo, é repreensível recusar o que outros aprovaram. Se alguém tiver ocupação que desagrade à comunidade dos irmãos, largue-a prontamente, dando provas de que em nada atraem-no as coisas mundanas.

8.      Satisfazer às próprias inclinações é peculiar de quem não tem esperança, segundo a palavra do Apóstolo (lTs 4,13); uma obediência em tudo, porém, é digna de louvor, pois o Apóstolo louva os que se deram a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus (2Cor 8,5).

9.      Cada um cuide do próprio trabalho, solícito e de boa vontade. Como se Deus o vigiasse, de modo irrepreensível, com zelo incansável e a mais atenta diligência, realize-o de modo a poder dizer sempre com toda confiança: Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, assim nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus (SI 122,2), e não mude de serviço.

10.  Nossa natureza não pode ao mesmo tempo preencher várias funções; por conseguinte, é melhor exercer com apuro uma do que imperfeitamente muitas. A grande dispersão e a troca de uma para outra não permitem se termine trabalho algum; igualmente denota leviandade já existente ou a produz onde ainda não existe.

11.  Se acaso houver necessidade de auxílio em outros ofícios, é justo ajude quem for capaz. Não, contudo, por iniciativa própria, mas se for chamado. Façamo-lo, sem nos anteciparmos, se houver urgência, à semelhança do que sucede com os membros do corpo; se o pé tropeça, firmamo-nos com as mãos. Ainda uma vez, abraçar um ofício por iniciativa própria é inútil, assim como é repreensível recusar-se ao que foi mandado.

12.  Não se alimente, portanto, a autossuficiência nem se ultrapassem os limites da obediência e da docilidade. A conservação dos instrumentos de trabalho compete, principalmente, ao artífice de determinada obra.

13.  Se acontecer que fique jogado um objeto de uso comum, o primeiro que o notar dê-lhe a devida atenção. Se o uso é particular, a utilidade que ele traz, contudo, é comum. Descuidar-se alguém dos instrumentos de outro ofício, como nada tendo que ver com eles, é sinal de que os considera bens alheios.

14.  Não convém àqueles que exercem os ofícios reivindicarem a posse dos instrumentos, de modo que o superior da comunidade não tenha a faculdade de dar-lhes o destino que lhe aprouver, ou de vendê-los, trocá-los, colocá-los de qualquer outro modo, ou comprar outros, além dos que já têm.

15.  Quem decidiu não ser senhor nem de suas próprias mãos, mas entregou a outrem a disposição de suas atividades, agiria de modo consequente se tivesse todos os direitos sobre os instrumentos de seu ofício e usasse deles a título de propriedade?

 

QUESTÃO 42 - QUAL O FIM E A ATITUDE DOS QUE TRABALHAM

 

Resposta

16.  Saiba-se que não se deve trabalhar para atender às próprias necessidades por meio do trabalho, mas a fim de cumprir o mandamento do Senhor, que disse: Tive fome e destes de comer, etc. (Mt 25,35).

17.  Foi totalmente proibida pelo Senhor a inquietação a respeito de si mesmo, ao dizer: Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que come reis, nem por vosso corpo, como vos vestireis (Mt 6,25), e ajuntou: São os pagãos que se preocupam com tudo isso (ibid. 32).

18.  Deve, portanto, cada um ter por escopo do trabalho servir aos necessitados e não às próprias vantagens. Assim também não será censurado de egoísmo e receberá a bênção atribuída pelo Senhor ao amor fraterno, quando disse: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,40).

19.  Ninguém pense que nossa palavra contradiz à do Apóstolo que ordena: trabalhando comam o pão (2Ts 3,12). Isto se aplica aos desordeiros e preguiçosos, porque é preferível cada um prover-se a si mesmo, não ser pesado aos outros, a viver na ociosidade. Ora, nós temos ouvido dizer que há entre vós pessoas desregradas. Em lugar de trabalharem, ocupam-se com futilidades. Nós lhes ordenamos e os exortamos a trabalhar pacificamente. Comam assim o pão (2Ts 3,12).

20.  E afirmamos: Labutamos noite e dia para não sermos pesados a nenhum de vós (ibid. 8), tem idêntico significado. O Apóstolo, por amor fraterno, sujeitava-se a trabalhos além dos que lhe foram prescritos, para eliminar os desordeiros, próprio daquele que se apressa em busca da perfeição trabalhar noite e dia, para ter com que socorrer os necessitados (Ef 4,28).

21.  Quem, porém, põe sua esperança em si mesmo ou no encarregado da distribuição das coisas necessárias, quem pensa que o próprio trabalho, ou o de um companheiro, é suficiente para a subsistência, enquanto espera num homem, incorre no perigo da maldição: Maldito o homem que em outro confia, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor (Jr 17,5).

22.  A Palavra de Deus, com a expresso quem em outro confia, proíbe confiar em outrem, e com esta: da carne faz o seu apoio veta a confiar a em si mesmo. Ambas se denominam apostasia do Senhor. E acrescenta o resultado de ambas: (6) Porque ele será como um arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; pelo contrário, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável.”

23.  Mostra a Escritura que esperar em si ou em um outro é apostatar do Senhor.

 

QUESTÃO 43 - FOI SUFICIENTEMENTE EXPLICADO O MODO DE TRABALHAR. SE ALGO FALTAR, APRENDEREMOS PELA PRAXE A ENCONTRAR A BOA SOLUÇÃO. PEDIMOS AGORA NOS SEJA EXPOSTO COMO DEVEM SER OS SUPERIORES DA COMUNIDADE DOS IRMÃOS E DE QUE MANEIRA HÃO DE GOVERNAR OS DISCÍPULOS.

 

Resposta

24.  Também esses assuntos já foram tratados resumidamente. Mas como quereis que esta questão vos seja melhor explicada e fazeis muito bem pois qual o superior e chefe, tal, na maioria, costumam ser os súditos, é preciso não a omitir, sem motivo.

25.  Deve, portanto, o superior lembrar-se do preceito do Apóstolo que diz: Sê tu um exemplo para os fiéis (lTm 4,12), fazendo de sua vida um modelo evidente de todos os mandamentos do Senhor, de modo que não reste pretexto algum aos discípulos de suporem ser o mandamento do Senhor impossível de cumprir ou desprezível.

26.  Vem em primeiro lugar, pois, o que é principal, isto é, que ele, na caridade de Cristo, pratique a humildade, de modo que mesmo em silêncio o exemplo de suas obras seja ensinamento mais forte do que qualquer palavra.

27.  Se a meta do cristianismo é a imitação de Cristo em medida humana, à proporção da vocação de cada um, é dever daqueles aos quais foi confiada a direção de muitos estimular por sua ação até os mais fracos à imitação de Cristo, conforme o bem-aventurado Paulo, que disse: Tornai-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo (ICor 11,1).

28.  Convém sejam os primeiros a dar exemplo perfeito de realização da forma de humildade que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: Recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão dos costumes e a humildade de coração caracterizem o superior.

29.  Se o Senhor não se ruborizou de prestar ministério a seus servos, mas quis mostrar-se servo da terra e do barro, que ele plasmou para formar o homem (Estou, disse, no meio de vós como aquele que serve, Lc 22,27), que não devemos nós fazer a nossos semelhantes, para pretendermos imitá-lo? Disto, pois, acima de tudo seja dotado o superior. Em seguida, seja misericordioso e suporte pacientemente os que omitirem alguma coisa das obrigações, por inexperiência.

30.  Não dissimule os pecados pelo silêncio, mas tolere com mansidão os rebeldes e aplique-lhes o remédio com toda a misericórdia e moderação. Seja, pois, capaz de encontrar o tratamento adequado à doença, não censurando com arrogância, mas corrigindo e instruindo com mansidão, conforme está escrito (2Tm 2,25).

31.  Seja vigilante no presente, previdente do futuro, capaz de lutar em companhia dos fortes, de carregar as enfermidades dos fracos e de tudo fazer e dizer para a perfeição dos discípulos.

32.  Não assuma por si mesmo o governo, mas seja escolhido pelos que dirigem outras comunidades de irmãos, depois de ter dado suficientes provas de seus costumes na vida anterior. Antes de exercer o ministério, diz-se, sejam provados para que haja segurança de que são irrepreensíveis (lTm 3,10).

33.  Quem tiver tais qualidades aceite o governo, estabeleça a disciplina na comunidade dos irmãos e distribua o trabalho, conforme as capacidades de cada um.

 

QUESTÃO 44 - A QUEM SE DEVE PERMITIR AS VIAGENS E COMO SERÁ INTERROGADO, À VOLTA.

 

Resposta

34.  Licença de viajar receba aquele que possa fazer a viagem sem prejudicar a própria alma e para o bem dos que o acompanham. Se não houver alguém idôneo, é melhor sofrer todas as aflições pela penúria do necessário e angústias até a morte do que, a fim de aliviar o corpo, arrostar um perigo certo para a alma. Preferiria, diz o Apóstolo, morrer a . . m a s ninguém  tirará este título de glória (ICor 9,15).

35.  Isto, em questões indiferentes; quanto mais ao se tratar de mandamentos. Mas aqui também a lei da caridade não nos deixa desamparados. Se acontecer que numa comunidade não haja quem esteja em condições de ser mandado, os mais próximos supri-lo-ão, viajando em grupos, sem jamais se separarem, de modo que tanto os fracos relativamente ao espírito, quanto os débeis também de corpo, nesta sociedade com os mais fortes, fiquem incólumes.

36.  Com antecedência seja isto previsto pelo superior, para não suceder que no momento da necessidade, por impossibilidade de tempo, não haja mais recurso. À volta, o superior interrogue o viajante acerca do que fez, com quem se encontrou, as palavras que lhes disse, quais as cogitações do espírito, se passou dias e noites no temor de Deus, ou se prevaricou e transgrediu alguma prescrição, levado pelas circunstâncias externas, ou se caiu por própria frivolidade.

37.  Confirme com sua aprovação o que se fez bem e corrija com exortações cuidadosas e prudentes o delito. Assim, os que partirem de viagem serão mais vigilantes, receosos das contas que hão de prestar e nós mostraremos que, nem separados, nos desinteressamos da vida que levam.

38.  Narram os Atos que assim costumavam agir os santos, ao nos ensinarem como Pedro, voltando a Jerusalém, prestou contas de sua sociedade com os pagãos aos que lá estavam (At ll,5s). De modo semelhante, Paulo e Barnabé, à volta, tendo reunido a assembleia, anunciou-lhe quanto Deus havia feito por seu intermédio (At 15,12); e ainda, que toda a multidão se calou para ouvir Barnabé e Paulo contarem quanto Deus havia feito.

39.  Importa, contudo, saber que os circuitos, os negócios maiores e pequenos lucros devem ser absolutamente evitados pelas comunidades dos irmãos.

 

QUESTÃO 45 - HAJA, QUANDO O SUPERIOR ESTIVER AUSENTE OU OCUPADO, OUTRA PESSOA PARA CUIDAR DOS IRMÃOS.

 

Resposta

40.  Como frequentemente acontece que, por fraqueza do corpo, por necessidade de viagem, ou por qualquer outra circunstância tenha o superior da comunidade dos irmãos de se ausentar, seja escolhido um outro, experimentado por ele e por outros capazes de examinar, a fim de que, em sua ausência, cuide dos irmãos, e assim também exorte os que ficaram.

41.  Na ausência do superior, a comunidade deste modo não tomará aspecto democrático, com dissolução da regra e da disciplina, estabelecidas por tradição. Observem-se, porém, as práticas aprovadas, para a glória de Deus.

42.  Responda prudentemente aos hóspedes que chegam, de modo que os que buscam uma palavra edifiquem-se com a elevação do assunto e a comunidade dos irmãos não tenha de que se envergonhar. Se todos juntos acorrem para falar, é causa de tumulto e sinal de desordem.

43.  O Apóstolo, nem mesmo aos que receberam o carisma de ensinar permite falem muitos ao mesmo tempo, dizendo: Se for feita uma revelação a algum dos assistentes, cale-se o que falava primeiro(ICor 14,30). E de novo redargui a inconveniência de tal desordem, quando diz: Se, pois, numa assembleia da igreja inteira, todos falarem em línguas e se entrarem homens simples ou infiéis, não dirão que estais loucos? (ibid. 23).

44.  Se por ignorância o hóspede interrogar a um outro, mesmo e quem foi interpelado por engano tiver respostas prontas, cale-se por disciplina e informe a qual foi confiada tal tarefa, como fizeram os apóstolos diante do Senhor,- deste modo, o uso da palavra seja disciplinado e apto.

45.  Se no tratamento corporal não aplica qualquer um aos doentes os remédios ou os ferros, e sim aquele que adquiriu a arte, durante longo tempo, com a experiência, o exercício e o ensino dos peritos, como será razoável qualquer um, de improviso, ministrar o tratamento da palavra?

46.  Neste ponto, o menor descuido provoca enorme dano. Entre os que não permitem que faça qualquer pessoa a distribuição do pão, mas reservam esse ministério a um só, bem experimentado, como não deve entre eles, e com muito mais razão, receber uma só pessoa, e das mais idôneas, o encargo de oferecer cuidadosa e escolhidamente o alimento espiritual aos que o pedem?

47.  Por isso, não seria arrogância vulgar alguém, interrogado sobre os juízos de Deus, ousar com audácia e temeridade responder e não indicar aquele a quem foi confiado o serviço da palavra, por ser em tudo fiel e despenseiro prudente, escolhido para repartir em tempo oportuno o alimento espiritual e, como está escrito, para dispor os seus discursos com juízo (SI111,5).

48.  E se algo escapar àquele que tem de responder e outro o souber, não lhe recorde imediatamente, mas em particular sugira o que lhe parece. Este fato vem a ser ocasião de se exaltarem os inferiores contra os superiores.

49.  Portanto, se alguém responder bem, sem, contudo, disto estar encarregado, é réu de penas por perturbação da disciplina.

 

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Uso da Vela na Espiritualidade Protestante

 

altar da Igreja Luterana com vela. 


O Uso da Vela na Espiritualidade Protestante

Edson Cortasio Sardinha

 

1. A luz na espiritualidade bíblica: fundamento comum

            Desde o início da revelação bíblica, a luz aparece como um dos símbolos mais profundos da ação de Deus:

            “Disse Deus: Haja luz; e houve luz.” (Gn 1.3)

            A luz precede todas as outras obras criadoras e torna-se sinal da presença ordenadora de Deus, da vida, da verdade e da salvação. Tanto no judaísmo quanto no cristianismo histórico, a vela não é objeto mágico, mas sinal visível de uma realidade invisível: Deus que se revela, guia e habita no meio do seu povo.

 

2. O uso das velas na prática judaica

           

2.1 A Menorá: luz permanente diante do Senhor

            No culto do Tabernáculo e depois do Templo, Deus ordena a confecção da Menorá, o candelabro de sete lâmpadas:

            “Farás também um candelabro de ouro puro… e as suas lâmpadas se acenderão para alumiar diante dele.” (Êx 25.31,37)

 

A Menorá simbolizava:

·         A  presença contínua de Deus

·         A Torá como luz

·         A vida que procede do Senhor

 

            O profeta Zacarias interpreta a Menorá como sinal da ação do Espírito de Deus:  “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zc 4.6)

 

2.2 As velas do Shabat

            No lar judaico, o acendimento das velas do Shabat marca a entrada do tempo santo:

 

·         Luz como separação do sagrado

·         Luz como paz no lar (shalom bayit)

·         Luz como memória da criação e da libertação

 

 “O mandamento é lâmpada, e a instrução é luz.” (Pv 6.23)

 

2.3 Hanukkah: a luz que vence as trevas

            Na festa de Hanukkah, as velas recordam a fidelidade de Deus em tempos de opressão, proclamando que a luz do Senhor não pode ser apagada:

            “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?” (Sl 27.1)

 

3. Cristo, a luz definitiva: cumprimento neotestamentário

 

            O Novo Testamento não abandona o símbolo da luz; ao contrário, o cumpre em Cristo:  “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8.12)

                        A luz deixa de estar apenas no candelabro e passa a estar na Pessoa do Filho. O prólogo de João ecoa Gênesis: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.” (Jo 1.4)

 

4. O uso de velas nas igrejas protestantes tradicionais

 

4.1 Reforma e continuidade simbólica

            A Reforma Protestante não rejeitou os símbolos, mas rejeitou seu uso supersticioso ou meritório. Lutero, Calvino e Wesley reconheceram que sinais visíveis podem ensinar, recordar e apontar para Cristo, desde que não substituam a fé.

 

“Tudo seja feito para edificação.” (1Co 14.26)

 

            Assim, em muitas igrejas luteranas, anglicanas, metodistas e reformadas históricas, as velas permaneceram:

 

·         No culto dominical

·         No Advento e Natal

·         Na Páscoa

·         Em vigílias e celebrações solenes

 

4.2 Significados teológicos no protestantismo

            Nas igrejas protestantes tradicionais, a vela simboliza:

 

1. Cristo, a luz do mundo

    “O povo que andava em trevas viu grande luz.” (Is 9.2; cf. Mt 4.16)

 

2. A Palavra de Deus

    “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho.” (Sl 119.105)

 

3. A presença do Espírito Santo

    “Porque Deus… brilhou em nossos corações.” (2Co 4.6)

 

4. A oração e a vigilância

   “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.” (Mt 25.13)

 

            A vela não “leva” a oração, mas **recorda que oramos diante de Deus**, que é luz inacessível (1Tm 6.16).

 

 5. A comunidade como portadora da luz

            Jesus transfere o símbolo da luz para o seu povo: “Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5.14)

 

            Aqui ocorre uma profunda continuidade com o judaísmo: assim como Israel foi chamado a ser luz para as nações (Is 42.6), a Igreja é chamada a refletir a luz de Cristo.

 

A vela acesa no culto aponta para essa vocação:

·         Não esconder a fé

·         Viver de modo visível

·         Testemunhar no mundo

 

6. Símbolo, não sacralização do objeto

            Tanto no judaísmo quanto no protestantismo fiel às Escrituras, a vela:

 

·         Não é adorada

·         Não substitui a Palavra

·         Não produz graça por si mesma

 

Ela é sinal pedagógico e espiritual, subordinado à revelação: “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma.” (1Jo 1.5)

 

Conclusão

            O uso das velas na prática judaica e nas igrejas protestantes tradicionais revela uma continuidade simbólica bíblica: a luz como manifestação da presença de Deus, da verdade revelada e da esperança escatológica.

            No judaísmo, a luz aponta para a fidelidade do Senhor à Aliança.

No cristianismo protestante, a luz encontra seu centro em **Cristo, a Luz verdadeira**, e se torna chamado ético e missionário para a Igreja.

            “Levantai-vos, resplandecei, porque vem a tua luz.” (Is 60.1)

 

Bibliografia

Obras de tradição judaica e estudos judaicos

  1. BÍBLIA HEBRAICA. Tanakh: a Bíblia Hebraica. Tradução e notas da Editora Sêfer. São Paulo: Sêfer, 2016.
  2. GREENBERG, Moshe. Compreendendo o Êxodo. São Paulo: Sêfer, 2001.
  3. HESCHEL, Abraham Joshua. O sábado: seu significado para o homem moderno. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  4. SACKS, Jonathan. A dignidade da diferença. São Paulo: Sêfer, 2010.
    (Contém reflexões sobre símbolos, luz e ética bíblica no judaísmo.)
  5. SCHLESINGER, Hugo. O simbolismo do culto judaico. São Paulo: Paulinas, 1988.

Obras cristãs (bíblicas, litúrgicas e teológicas)

  1. BRUEGGEMANN, Walter. Teologia do Antigo Testamento: testemunho, disputa e defesa. São Paulo: Paulus, 2014.
  2. CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
  3. CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
  4. RATZINGER, Joseph. O espírito da liturgia. São Paulo: Paulus, 2001.
    (Obra útil para compreensão cristã do simbolismo litúrgico, inclusive a luz.)