sexta-feira, 1 de abril de 2016

História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro V – Capítulos 18 a 23


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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro V – Capítulos 18 a 23

XVIII - Em que termos Apolônio refutou aos catafrigas e quem ele menciona
XIX - De Serapion sobre a heresia dos frígios
XX - O que Irineu discute por escrito com os cismáticos de Roma
XXI - De como Apolônio morreu mártir em Roma
XXII - Que bispos eram célebres naquele tempo
XXIII - Da questão então movida sobre a Páscoa


Leitura Bíblica: Mt 7.16; 12.33.

XVIII - Em que termos Apolônio refutou aos catafrigas e quem ele menciona
1.            Como a heresia chamada catafriga ainda estivesse florescendo por aqueles tempos na Frígia, também Apolônio, escritor eclesiástico, empreendeu o trabalho de uma refutação. Compôs contra eles um escrito próprio, no qual corrige, palavra por palavra, as falsas profecias alegadas por eles e des­creve como foi a vida dos líderes da heresia. Mas escuta isto que diz sobre Montano, literalmente:
2.     "Mas suas obras e seus ensinamentos mostram quem é este novo mestre. Este é o que ensinou o rompimento de matrimônios[1], o que impôs leis de jejuns, o que deu o nome de Jerusalém a Pepuza e a Timio (cidades insigni­ficantes da Frígia), porque queria reunir ali gente de todas as partes, o que estabeleceu arrecadadores de dinheiro, o que inventava a aceitação de dona­tivos sob o nome de oferendas, o que assalariava os arautos de sua doutrina[2], com a finalidade de que o ensinamento de sua doutrina se afirmasse por meio da glutonaria."
3.   Isto sobre Montano. Mas um pouco mais abaixo escreve também sobre suas profetisas como segue:
"Demonstramos portanto que estas primeiras profetisas em pessoa são as que, desde o momento em que ficaram cheias do espírito, abandonaram seus maridos. Como então tratavam de enganar-nos chamando de virgem Priscila?"
4.   Ainda segue dizendo:
"Não te parece que toda a Escritura proíbe que um profeta receba donativos e dinheiro? Portanto, quando vejo que a profetisa recebeu ouro e prata e vestidos suntuosos, como posso não rechaçá-la?"
5.    E um pouco mais abaixo, outra vez diz sobre alguns de seus confessores o que segue:
"Mais ainda: também Temiso, que envolveu sua avidez com mantos de aceitabilidade e que não suportou as insígnias da confissão[3], mas que depôs as correntes em troca de muito dinheiro, quando por tudo isto devia humilhar-se, fez-se de mártir e, compondo uma Carta católica, em imitação ao Apóstolo, atreveu-se a catequizar aos que eram melhores crentes do que ele, a combater com palavras vazias de sentido e a blasfemar contra o Senhor, os apóstolos e a santa Igreja."
6.    E sobre outro, também dos que eles estimam como mártires, escreve assim:"E para não falar demais, que nos diga a profetisa o que há de Alexandre, o que a si mesmo chama de mártir, com o qual ela banqueteia e que muitos inclusive adoram. Não é preciso que citemos os latrocínios e demais crimes seus pelos quais foi castigado: estão conservados no opistodomo[4].
7.    "Quem pois perdoa a quem de seus pecados? Qual dos dois: o profeta ao mártir por seus latrocínios, ou o mártir ao profeta por sua avareza? Porque, tendo dito o Senhor: não possuireis nem ouro nem prata nem duas túnicas[5], estes pecaram fazendo tudo ao contrário no que tange à posse destas coisas proibidas. Efetivamente, vamos demonstrar que os chamados entre eles de profetas e mártires não somente caem sobre as posses dos ricos, mas também sobre as dos pobres, dos órfãos e das viúvas.
8.              E se estão seguros, que se apresentem aqui e se expliquem sobre estes pontos para que, no caso de serem convencidos, deixem de continuar prevaricando. Efetivamente, há que se examinar os frutos dos profetas,
9.              "já que por seu fruto se conhece a árvore[6]. E para que todos que o desejem conheçam a história de Alexandre, foi julgado por Emílio Frontino, procônsul de Éfeso[7], não por causa do nome[8], mas pelos roubos que ousou cometer, porque já era um delinqüente. Logo, juntando mentira a mentira em nome do Senhor, enganou os fiéis do lugar e foi posto em liberdade, e sua própria comunidade de origem não o recebeu, por ser ladrão; os que queiram saber sua história têm o arquivo público da Ásia.
10.        O profeta não o conhece, apesar de conviver com ele muitos anos. Nós, desmascarando-o, por ele colocamos em evidência a natureza do profeta. Coisas semelhantes podemos demonstrar de muitos; e se se atrevem, que suportem a prova".
11.        E novamente, em outro lugar da obra, acrescenta o que segue, sobre os profetas de que se jactam:
"Se porventura negam que seus profetas receberam presentes, que admitam isto: se for provado que os receberam, não são profetas, e nós apresentaremos provas disto aos milhares. É preciso comprovar todos os frutos do profeta. Um profeta, diga-me, tinge os cabelos? Um profeta pinta de negro as sobran­celhas e pestanas? Um profeta é amigo de enfeites? Um profeta joga com tabuleiros e dados? Um profeta empresta dinheiro a juros? Que confessem se é permitido ou não, e eu demonstrarei que entre eles ocorreu."
12.       Este mesmo Apolônio refere na mesma obra que, quando escrevia seu livro, haviam transcorrido já quarenta anos desde que Montano empreendeu sua fingida profecia.
13.       E diz ainda que, estando Maximila em Pepuza fingindo que profetizava, Zotico - que também foi mencionado pelo escritor anterior - enfrentou-a tentando refutar o espírito que operava nela, mas que foi impedido pelos que pensavam o mesmo que aquela mulher. Menciona também um certo Traseas, um dos mártires de então.
14.       Diz ainda, como proveniente de uma tradição, que o Salvador ordenou a seus discípulos que não se afastassem de Jerusalém em doze anos; utiliza também testemunhos tirados do Apocalipse de João e refere que o mesmo João ressus­citou um morto com o poder divino em Éfeso; e ainda diz outras coisas mediante as quais corrigiu acertada e completamente o erro da citada heresia. Isto disse Apolônio.

XIX - De Serapion sobre a heresia dos frígios
1.              As obras de Apolinário contra a referida heresia são mencionadas por Serapion, que, segundo quer uma tradição, foi bispo da igreja de Antioquia nos tempos a que nos referimos, depois de Maximino. Menciona-o numa carta particular dirigida a Carico e Pôncio, na qual, refutando também ele a mesma heresia, acrescenta o que segue:
2.              "Mas, para que também saibais que a influência desta enganosa tropa - a chamada nova profecia- é abominada por todos os irmãos do mundo, enviei-vos também uns escritos de Cláudio Apolinário, bispo beatíssimo que foi de Hierápolis da Ásia."
3.              Na mesma carta de Serapion conservam-se também as assinaturas de diversos bispos, um dos quais assina assim: "Aurélio Cirinio, mártir: rogo que estejais bem"; e outro desta maneira:
"Elio Publio Júlio, bispo de Develto, colônia da Tracia: vive o Deus dos céus, que o bem-aventurado Sotas de Anquialo quis expulsar o demônio de Priscila, e os hipócritas não o deixaram."
4.   Também se conservam na carta aludida as assinaturas autógrafas de muitos outros bispos que estão de acordo com estes. Isto é o que há sobre eles.

XX - O que Irineu discute por escrito com os cismáticos de Roma
1.            Contrariamente aos que em Roma falsificavam o são estatuto da Igreja, Irineu compôs várias cartas: uma que intitulou A Blasto, sobre o cisma; outra, A Florino, sobre a monarquia ou que Deus não é o autor dos males, já que, ao que parece, Florino defendia esta opinião, e como também estivesse seduzido pelo erro de Valentim, Irineu compôs outro trabalho, Sobre a Ogdoada, na qual dá a entender que ele mesmo recebeu a primeira sucessão dos apóstolos.
2.            Perto do final da obra encontramos uma grata indicação sua que necessaria­mente temos que registrar no presente escrito, e que diz desta maneira: "Conjuro-te que copies este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e por sua vinda gloriosa, quando vier julgar os vivos e os mortos, que compares o que transcreves e o corrijas cuidadosamente conforme este exemplar de onde o copiaste. E copiarás igualmente este conjuro e o porás na cópia."
3.     Advertência útil para quem a fez e para nós, que a referimos, para que tenhamos aqueles antigos e realmente sagrados varões como o melhor exemplo de solicitude diligentíssima.
4.     Na Carta a Florino de que falamos acima, Irineu novamente menciona sua convivência familiar com Policarpo, dizendo:
"Estas opiniões, Florino, falando com moderação, não são próprias de um pensamento são. Estas opiniões destoam das da Igreja e lançam na maior impiedade aos que as obedecem; estas opiniões nem sequer os hereges que estão fora da Igreja atreveram-se alguma vez a proclamar; estas opiniões não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos freqüentaram a companhia dos apóstolos.
5.             Porque sendo eu ainda criança, te vi na casa de Policarpo na Ásia infe­rior[9], quando tinhas uma brilhante atuação no palácio imperial[10] e te esforçavas para ter crédito perante ele. E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes.
6.      (o que se aprende em criança vai crescendo com a alma e vai se tornando um com ela), tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aven­turado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e o que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e como Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo, relata tudo em consonância com as Escrituras.
7.             E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração, e pela graça de Deus, sempre as estou ruminando fielmente e posso testemunhar diante de Deus que, se aquele bem-aventurado e apostólico presbítero tivesse escutado algo semelhante, teria lançado um grito, teria tampado os ouvidos e, dizendo como era seu costume: "Deus bondoso! Até que tempos me conservaste, para ter que suportar estas coisas!", teria até fugido do local em que estava sentado ou de pé quando escutou tais palavras.
8.    Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu, seja às igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os"
isto diz Irineu.

XXI - De como Apolônio morreu mártir em Roma
1. Por este tempo do reinado de Cômodo, nossa situação mudou para uma maior suavidade. A paz, com ajuda da graça divina, abarcava todas as igrejas de toda a terra habitada. Foi também quando a doutrina salvadora ia pouco a pouco ganhando todas as almas de toda classe de homens para o culto piedoso do Deus de todas as coisas, tanto que inclusive muitos dos que em Roma sobressaíam por sua riqueza e linhagem marchavam ao encontro de sua salvação com toda sua casa e toda sua família.
2.                Mas o demônio não podia suportar isto, inimigo do bem e invejoso como é por natureza, e em conseqüência preparava-se novamente para o combate enquanto maquinava variados atentados contra nós. Na cidade de Roma conduziu Apolônio ante os tribunais, varão famoso entre os fiéis de então por sua educação e filosofia, e para acusá-lo levantou um ministro seu qualquer, gente apropriada para estas tarefas.
3.                Mas em má hora o desgraçado introduziu a causa, porque segundo um decreto imperial[11], não se permitia que vivessem os acusadores de tais homens, e na hora foram-lhe quebradas as pernas, pois tal sentença foi formulada contra ele pelo juiz Perennio[12].
4.       O mártir, por sua parte, amado de Deus, apesar de o juiz rogar-lhe com muita insistência e pedir-lhe que desse razão ante o senado, apresentou diante de todos uma eloqüente apologia da fé pela qual dava testemunho, e morreu decapitado, como por decreto do senado, já que uma antiga lei ordenava entre eles que não se deixasse ir os que comparecessem uma vez ante o tribunal e não mudassem em absoluto de propósito.
5.       Assim pois, quem deseje ler as palavras de Apolônio ante o juiz e as respostas que deu ao interrogatório de Perennio, assim como sua apologia dirigida ao senado, inteira, poderá vê-lo na relação escrita dos antigos martírios que compilamos.

XXII - Que bispos eram célebres naquele tempo
1. No décimo ano do reinado de Cômodo, Victor sucede a Eleutério, que havia exercido o episcopado durante treze anos. E pelo mesmo tempo, havendo Juliano cumprido seu décimo ano, Demétrio assume o cargo do minis­tério das comunidades de Alexandria. E também por estas datas era ainda conhecido como bispo da igreja de Antioquia, oitavo a partir dos apóstolos, Serapion, do qual já fizemos menção anteriormente. Cesaréia da Palestina era governada por Teófilo. E também Narciso, que esta obra já mencio­nou acima, ainda então exercia o ministério da igreja de Jerusalém. Já em Corinto, na Grécia, nestas mesmas datas, Baquilo era bispo; e na comunidade de Éfeso, Polícrates. E além destes - pelo menos assim supomos -, nesta época brilharam também muitos outros. Mas, como é natural, enumeramos em lista por seus nomes somente aqueles cuja ortodoxia na fé chegou por escrito até nós.

XXIII - Da questão então movida sobre a Páscoa
1.             Por este tempo levantou-se uma questão bastante grave, por certo, porque as igrejas de toda a Ásia, apoiando-se em uma tradição muito antiga, pensavam que era preciso guardar o décimo quarto dia da lua para a festa da Páscoa do Salvador, dia em que os judeus deviam sacrificar o cordeiro e no qual era necessário a todo custo, caindo no dia que fosse na semana, pôr fim aos jejuns, sendo que as igrejas de todo o resto do mundo não tinham por costume realizá-lo deste modo, mas por tradição apostólica, guardavam o costume que prevaleceu até hoje: que não é correto terminar os jejuns em outro dia que não o da ressurreição de nosso Salvador.
2.      Para tratar deste ponto houve sínodos e reuniões de bispos, e todos unânimes, por meio de cartas, formularam para os fiéis de todas as partes um decreto eclesiástico: que nunca se celebre o mistério da ressurreição do Senhor de entre os mortos em outro dia que não no domingo, e que somente nesse dia guardemos o fim dos jejuns pascais.
3.             Ainda se conserva até hoje um escrito dos que se reuniram naquela ocasião na Palestina; presidiram-nos Teófilo, bispo da igreja de Cesaréia, e Narciso, da de Jerusalém. Também sobre o mesmo assunto conserva-se outro escrito dos reunidos em Roma, que mostra Victor como bispo; e também outro dos bispos do Ponto presididos por Palmas, que era o mais antigo, e outro das igrejas da Gálía, das quais era bispo Irineu.
4.   Assim como também das de Osroene e demais cidades da região, e em particular de Baquilo, bispo da igreja de Corinto, e de muitos outros, todos os quais, emitindo um único e idêntico juízo, estabelecem a mesma decisão. Estes pois, tinham como regra única de conduta a já exposta.

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?


Ícone da Capa: Irineu de Lião
Ireneu nasceu com toda a probabilidade, em Esmirna (hoje Izmir, na Turquia) por volta do ano 135-140, onde ainda jovem freqüentou a escola do Bispo Policarpo, que era discípulo do apóstolo João. Não sabemos quando se transferiu da Ásia Menor para a Gália, mas a transferência coincidiu certamente, com os primeiros desenvolvimentos da comunidade cristã de Lião. Nesta cidade, no ano 177, encontramos Ireneu incluído no colégio dos presbíteros. Precisamente naquele ano, ele foi enviado para Roma, portador de uma carta da comunidade de Lião, ao Papa Eleutério.
A missão romana esquivou Ireneu da perseguição de Marco Aurélio, que causou pelo menos quarenta e oito mártires, entre os quais o próprio Bispo de Lião, Potino que, com noventa anos, faleceu por maus-tratos, no cárcere. Assim, ao seu retorno, Ireneu foi eleito Bispo da cidade. O novo Pastor dedicou-se totalmente ao ministério episcopal, que se concluiu por volta de 202-203, talvez com o martírio.
 Ireneu é antes de tudo um homem de fé e Pastor. Do bom Pastor tem o sentido da medida, a riqueza da doutrina, o fervor missionário. Como escritor, busca uma dupla finalidade: defender a verdadeira doutrina contra os ataques heréticos, e expor com clareza a verdade da fé. Correspondem exatamente a estas finalidades as duas obras que dele permanecem: os cinco livros Contra as Heresias, e a Exposição da Pregação Apostólica (que se pode também denominar o mais antigo “catecismo da doutrina cristã”).



[1] Montano convocava a uma entrega total a obra do Espírito, ainda que às custas de romper com o cônjuge.
[2] 1 Co 9:14.
[3] Ou seja, do martírio.
[4] No templo grego era a câmara mais interna, tem aqui o sentido de arquivo.
[5] Mt 10:9-10.
[6] Mt 7:16; 12:33.
[7] Desconhecido.
[8] O nome de Cristo.
[9] Inferior ou baixa, significando costeira, não é denominação administrativa.
[10] Não consta que por essa época (ca. 150-155) o imperador habitasse na Ásia.
[11] Eusébio deve basear-se em algum presumido decreto imperial que tomou por autêntico.
[12] Tigidius Perennis, prefeito do pretório entre 183 e 185.