quinta-feira, 28 de abril de 2016

Orígines - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro VI – Capítulos 1-5

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VI – Capítulos 1-5
I - Da perseguição de Severo
II - Da educação de Orígenes desde menino
III - De como Orígenes, sendo ainda um rapaz, ensinava a doutrina de Cristo
IV - Quantos dos instruídos por Orígenes foram elevados à categoria de már­tires
V - De Potamiena

 Texto Bíblico: Mt 5:33-34.

I - Da perseguição de Severo
1. E como também Severo suscitou uma perseguição contra as igrejas, em todas as partes consumaram-se esplêndidos martírios dos atletas da religião, mas multiplicaram-se especialmente em Alexandria. Os atletas de Deus foram enviados para lá, como ao maior estádio, desde o Egito e de toda a Tebaida, e por sua firme paciência em diversos tormentos e gêneros de morte, cingiram-se com as coroas preparadas por Deus. Entre eles achava-se também Leônidas, chamado "o pai de Orígenes"[1], que foi decapitado, e deixou seu filho ainda muito jovem. Não seria demais descrever brevemente com que predileção pela palavra divina viveu o rapaz desde então, já que é muito abundante o que se conta sobre ele entre o povo.

II - Da educação de Orígenes desde menino
1.            Muitas coisas poderia dizer, na verdade, quem tentasse colocar por escrito a seu gosto a vida deste homem, mas dispor ordenadamente o que a ele diz respeito exigiria inclusive uma obra especial[2]. Mesmo assim, nós resumi­remos por enquanto com a brevidade possível a maior parte e exporemos sobre ele somente algumas coisas, tomando dos dados de algumas cartas e do relato dos discípulos que sobreviveram até nossos dias.
2.            Sobre Orígenes, mesmo os fatos de quando usava fraldas, por assim dizer, parecem-me dignos de menção. Seguia Severo pelo décimo ano de seu reinado, e Leto governava Alexandria e o resto do Egito. O episcopado das igrejas dali acabara de passar a Demétrio, sucedendo a Juliano[3].
3.            Ao acender-se pois, com a maior violência a fogueira da perseguição e sendo inumeráveis os que se cingiam com a coroa do martírio, tal foi a paixão do martírio que se apoderou da alma de Orígenes, ainda um menino, que ardia para lançar-se de encontro aos perigos e pular e jogar-se à luta.
4.     Muito pouco faltou, na verdade, para que a morte se aproximasse, não fosse pela divina e celestial providência que, em proveito da grande maioria e por meio de sua mãe, se interpôs como obstáculo ao seu zelo.
5.            Ela primeiramente rogou-lhe com palavras, exortando-o a ter consideração por suas disposições maternais para com ele, mas quando o viu terrivelmente excitado, todo ele preso pelo desejo do martírio ao saber que seu pai tinha sido preso e encarcerado, escondeu todas suas roupas e assim obrigou-o a permanecer em casa.
6.            Mas ele, não podendo fazer outra coisa e sendo-lhe impossível dar sossego a um zelo que excedia sua idade, enviou a seu pai uma carta muito estimulante sobre o martírio, na qual o animava dizendo textualmente: "Cuida-te, não aconteça que por nossa causa mudes de parecer." Fique isto consignado por escrito como primeiro indício da agudeza de pensamento do menino Orígenes e de sua nobilíssima disposição para a religião.
7.            E efetivamente, tendo-se exercitado já desde pequeno nas divinas Escrituras, tinha já lançados não pequenos fundamentos para as doutrinas da fé. Também nestas tinha se ocupado sem medida, pois seu pai, antes do ciclo de estudos comum a todos, fez com que sua preocupação por elas não fosse secundária.
8.            Em conseqüência, antes de ocupar-se das disciplinas helênicas, em toda ocasião o introduzia a exercitar-se nos estudos sagrados, exigindo-lhe cada dia passagens de memória e relações escritas.
9.     Estes exercícios não desagradavam o menino, antes até, empenhava-se neles com ardor excessivo, ao ponto de que, não se contentando com os sentidos simples e óbvios das Escrituras Sagradas, já desde então buscava algo mais e investigava visões mais profundas, de forma que chegava a pôr em apuros seu pai perguntando-lhe o que queria significar o sentido da Escritura divinamente inspirada.
10.     Este aparentava repreendê-lo abertamente, exortando-o a não indagar nada que excedesse sua idade nem mais adiante do sentido evidente, mas no seu íntimo regozijava-se enormemente e proclamava perante Deus, autor de todo bem, seu maior agradecimento por tê-lo feito digno de ser pai de tal filho.
11.     E conta-se que muitas vezes, pondo-se junto ao menino que dormia, desnudava-lhe o peito como se dentro dele habitasse um espírito divino, beijava-o com referência e se considerava feliz por seu nobre rebento. Estas coisas e outras do mesmo estilo recordam-se sobre a infância de Orígenes.
12.     Quando seu pai morreu mártir, ele ficou só com sua mãe e seis irmãos menores, quando ainda não contava mais de dezessete anos[4].
13.     A fazenda paterna foi confiscada pelo tesouro imperial, e ele com os seus encontrou-se em indigência das coisas necessárias para a vida. Mas foi considerado digno da providência divina e encontrou proteção além de tranqüilidade em uma senhora riquíssima em meados da vida e muito distinta, mas que rodeava de atenções um homem muito conhecido, um dos hereges que então havia em Alexandria. Este era antioquenho de origem, e a mencionada senhora tinha-o consigo como filho adotivo e rodeava-o das maiores honras.
14. Mas Orígenes, que por necessidade estava habitualmente com ele, já desde aquela idade dava provas claras de sua ortodoxia na fé, pois ainda que uma multidão incontável, não apenas de hereges, mas também dos nossos, se reunia junto a Paulo (assim se chamava o homem), porque lhes parecia eloqüente, jamais se conseguiu que o acompanhasse na oração, guardando desde menino a regra de Igreja e abominando - como diz textualmente sobre si mesmo em alguma parte - os ensinamentos das heresias. 15. Previamente iniciado por seu pai nas disciplinas dos gregos, depois da morte deste entregou-se por inteiro com maior zelo ao estudo das letras, de forma que, não muito depois da morte do pai, tinha já uma preparação suficiente em conhecimentos gramaticais. Com sua entrega a estes estudos procurava em abundância - para sua idade - o que era necessário[5].

III - De como Orígenes, sendo ainda um rapaz, ensinava a doutrina de Cristo
1.            E estando entregue ao ensino - segundo ele mesmo nos informa em algum de seus escritos - e não havendo em Alexandria ninguém dedicado à instrução catequética, pois todos tinham sido expulsos pela ameaça de perseguição[6], alguns gentios acudiram a ele para escutar a palavra de Deus.
2.            Dá a entender que o primeiro deles foi Plutarco, o qual, depois de uma vida honesta, foi adornado com o martírio divino. O segundo foi Heraclas, irmão de Plutarco, que depois de dar ele mesmo numerosos exemplos de vida filosófica e disciplina, foi considerado digno do episcopado de Alexandria, depois de Demétrio.
3.            Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frente da escola cate­quética, momento em que, sob a perseguição do governador de Alexan­dria Aquila, realizava grandes progressos. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos.
4.            Com efeito, não somente os assistia quando estavam no cárcere e quando eram julgados, até a sentença final, mas também depois desta, quando os santos mártires eram conduzidos à morte, com extrema ousadia e expondo-se aos mesmos perigos. Tanto é que muitas vezes, por aproximar-se resoluta­mente e atrever-se a saudar os mártires com um beijo, faltou pouco para que a plebe de pagãos que estava em redor, enfurecida, o apedrejasse, mas a cada vez, com a ajuda da destra divina, escapou milagrosamente.
5.     E esta mesma e celestial graça o guardou em outras ocasiões uma e outra vez - impossível dizer quantas - quando se conspirava contra ele devido ao seu excesso de zelo e de ousadia em favor da doutrina de Cristo. A guerra que os infiéis faziam contra ele era tal que se formaram esquadrões e postavam soldados em torno da casa em que se achava, devido à multidão dos que dele recebiam a instrução da fé sagrada.
6.             Dia a dia a perseguição contra ele se acirrava tanto que em toda a cidade já não havia lugar para ele: mudando de casa em casa, de todos os lugares o expulsavam por causa do grande número dos que por ele se aproximavam do ensinamento divino. E a sua própria conduta prática tinha traços admiráveis de virtude da mais genuína filosofia.
7.      (Demonstrava pois o ditado, "tal como sua palavra, assim seu caráter, e tal como seu caráter, assim sua palavra".) Esta era sobretudo a causa de que, com a ajuda do poder divino, arrastasse milhares de pessoas a imitá-lo.
8.             E quando viu que os discípulos acorriam ainda mais numerosos e que ele era o único encarregado pelo chefe da igreja, Demétrio, da escola catequética, considerando que o ensino da gramática era incompatível com o exercício das disciplinas divinas, rompeu sem vacilar com o estudo da gramática como inútil e contrário às ciências divinas.
9.      Depois, com bom cálculo, para não precisar da ajuda de outros, desfez-se de todas as obras que até então tinha de literatura antiga[7], trabalhadas com muito gosto, e se contentava com os quatro óbolos que diariamente lhe levava aquele que as comprou. Durante muitos anos continuou levando este tipo de vida de filósofo, arrancando de si mesmo tudo que pudesse dar estímulo a suas paixões juvenis, suportando durante todo o dia consideráveis fadigas ascéticas, e à noite consagrando a maior parte do tempo ao estudo das divinas Escrituras. Assim perseverava numa vida a mais filosófica possí­vel, seja em exercícios de jejum, seja reduzindo o tempo de sono, que de qualquer forma, nunca tomava sobre o leito, mas a toda custa sobre o chão.
10.     Acima de tudo achava que era necessário guardar aquelas sentenças evangélicas do Salvador que exortava a não usar duas túnicas, nem sandálias, e a não consumir-se com as preocupações do amanhã[8].
11.     E mais, com um ardor superior aos seus anos, mantendo-se firme no frio e na nudez[9] e avançando em direção a uma pobreza extrema, enchia de admiração os que o rodeavam. Também causava pena a muitos, que lhe suplicavam que compartisse de seus bens, pois viam as dificuldades que passava pelo ensinamento divino; mas ele em nada cedia a sua insistência.
12. Conta-se por exemplo que durante muitos anos pisou a terra sem usar calça­do algum; e mais, absteve-se por muitos anos do uso do vinho e de todo outro alimento não necessário, ao ponto de arriscar-se a arruinar e estropear seu peito. 13. Oferecendo tais exemplos de vida filosófica a quantos o contemplavam, era natural que incitasse a maioria de seus discípulos a um zelo semelhante ao seu, tanto que pessoas destacadas, inclusive entre os gentios infiéis e dos que procediam da ilustração e da filosofia[10], pouco a pouco se submetiam ao ensinamento que ele dava, e tão sinceramente receberam dele no fun­do de suas almas a fé na palavra divina, que também eles sobressaíram no momento de perseguição de então, de forma que alguns inclusive foram detidos e acabaram no martírio.

IV - Quantos dos instruídos por Orígenes foram elevados à categoria de már­tires
1.            O primeiro destes, pois, foi Plutarco, mencionado pouco acima. Quando este era conduzido à morte, novamente faltou pouco para que aquele de quem estamos falando e que o assistia até o último instante de sua vida fosse linchado ali mesmo pelos cidadãos, como culpado evidente daquela morte. Mas também então a vontade de Deus continuava guardando-o.
2.            Depois de Plutarco, o segundo dos discípulos de Orígenes a assinalar-se como mártir é Sereno, que por meio do fogo deu prova da fé que havia recebido.
3.            O terceiro mártir da mesma escola foi Heráclides, e depois dele, o quarto, Heron; aquele ainda era catecúmeno, este neófito; ambos foram decapitados. Todavia, além destes, da mesma escola houve outro Sereno, distinto do primeiro, quinto a proclamar-se atleta da religião, de quem diz a tradição que, depois de suportar muitos tormentos, foi decapitado. E entre as mulheres também Herais, ainda catecúmena, terminou a vida "após receber - como diz ele mesmo em alguma parte - o batismo de fogo".

V - De Potamiena
1. Entre eles conta-se como sétimo Basílides, o que conduziu a famosíssima Potamiena a sua execução. Muita coisa se conta ainda hoje sobre ela entre seus compatriotas. Depois de sustentar mil combates contra homens dissolutos em defesa da pureza de seu corpo e de sua virgindade que a distinguiam (pois assim como a força de sua alma, também a beleza de seu corpo estava em plena floração) e depois de suportar inúmeros tormentos, por fim, depois de torturas terríveis e que fazem estremecer só em nomeá-las, morreu ardendo viva juntamente com sua mãe, Marcela.
2.             Conta-se que o juiz, cujo nome era Aquila, depois de fazê-la atormentar cruelmente por todo o corpo, finalmente ameaçou entregá-la aos gladia­dores para ultraje de seu corpo, mas ela, depois de refletir ensimesmada por breves instantes, ao ser questionada sobre o que decidia, deu tal resposta, que aos ouvidos daqueles parecia soar como algo ímpio.
3.             Ainda falava quando recebeu os termos de sua sentença. Basílides, um dos funcionários militares, tomou-a e a conduziu para sua execução. Como a turba tentava molestá-la com palavras indecentes, ele rechaçava e afugentava os insolentes e mostrava para com ela a maior compaixão e humanidade. Ela, por sua parte, aceitando a simpatia de que era alvo, exortava aquele homem a ter valor, pois ela pediria a seu próprio Senhor nada mais que partir e em breve poderia corresponder ao que ele havia feito por ela.
4.      Dito isto, enfrentou com nobreza seu fim enquanto derramavam o piche fervente sobre ela lenta e paulatinamente pelos diversos membros de seu corpo, desde a planta dos pés até o topo da cabeça.
5.             E assim foi o combate travado por esta jovem digna de louvor. Não muito depois, Basílides, tendo seus companheiros de milícia exigido juramento por algum motivo, afirmou que de modo algum poderia jurar[11], porque era cristão e o proclamava publicamente. A princípio, durante algum tempo, pensavam que gracejava, mas como ele insistisse obstinadamente, conduziram-no ao juiz; e também perante este proclamou sua resistência e foi lançado à prisão.
6.      Quando seus irmãos em Deus chegaram-se a ele e trataram de informar-se sobre a causa desta repentina e maravilhosa decisão, conta-se que disse que Potamiena tinha lhe aparecido durante a noite, três dias depois de seu martírio, cingira-lhe a cabeça com uma coroa e lhe havia dito que pedira ao Senhor graça por ele, que havia obtido o pedido e que não tardando muito o tomaria consigo. Ante isto os irmãos aplicaram-lhe o selo do Senhor[12], e no dia seguinte, depois de brilhar no testemunho do Senhor, foi decapitado.
7.      Conta-se mesmo que, pelas datas mencionadas, muitos outros cidadãos de Alexandria se acercavam em massa à doutrina de Cristo, porque em sonhos lhes aparecera Potamiena, segundo diziam, e os convidara a isto. Mas baste já com isto.

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

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Orígenes, cognominado Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesareia ou ainda Orígenes, o Cristão (Alexandria, Egipto, c. 185 — Cesareia, 253 ), foi um teólogo, filósofo neoplatônico patrístico e é um dos Padres gregos. Um dos mais distintos discípulos de Clemente de Alexandria , Orígenes foi um prolífico escritor cristão, de grande erudição, ligado à Escola Catequética de Alexandria, no período pré-niceno. Inspirados em Orígenes e na Escola de Alexandria, muitos escritores cristãos desenvolveram suas obras. Orígenes de Alexandria não deve ser confundido com o filósofo Orígenes, o Pagão (210-280), mais jovem e também integrante da Escola de Alexandria, porém discípulo de Plotino


[1] A fama do filho deu nome ao pai.
[2] Esta obra existiu: a Apologia de Orígenes, composta por Panfilo e Eusébio, da qual só nos resta uma tradução latina do primeiro livro.
[3] Eusébio equivoca-se aqui, Demétrio já estava há doze ou treze anos no episcopado.
[4] Teria cerca de quinze anos.
[5] Certamente dava aulas particulares de gramática.
[6] Os diretores da escola catequética tinham se retirado para longe de Alexandria, o que demonstra o caráter localizado da perseguição.
[7] Talvez seja exagero, já que ele abandonou o ensino como fim e não o estudo como meio.
[8] Mt 10:10; 6:34.
[9] 2 Co 11:27.
[10] Filósofos gentios, no sentido próprio da palavra.
[11] Mt 5:33-34.
[12] Isto é, o batismo.