terça-feira, 24 de julho de 2018

57 - Teófilo de Antioquia (†181) Terceiro Livro a Autólico (Capítulo 1 - 6)

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57
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Terceiro Livro a Autólico (Capítulo 1 - 6)


Terceiro Livro de São Teófilo de Antioquia a Autólico

Encerramos aqui, com a Terceira Carta a Autólico, os escritos de Teófilo de Antioquia (?-186), Teólogo, escritor cristão, apologista e Padre da Igreja. Como dissemos anteriormente, ele escreveu três cartas em defesa aos cristãos que continuavam a ser perseguidos no Império Romano. Elas foram endereçadas a um sujeito chamado Autólico, uma espécie de pseudônimo que encarna e personaliza um tipo de pessoa pagã que não devia ser rara nos finais do século II: pessoa culta, conhecedora de outras pessoas igualmente cultas e até de alguns cristãos a quem repudiava por achar as suas doutrinas demasiado simplistas. Nesta obra Teófilo finaliza seus pensamentos, refutando as críticas feitas ao cristianismo e convida o seu leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, de modo acérrimo a moral exemplar dos cristãos.

Capítulo I – Introdução
Teófilo a Autólico: Saudações. Os escritores querem escrever multidões de livros por vanglória; alguns sobre os deuses, as guerras e os tempos; outros sobre fábulas inúteis e trabalho vão, em que também tu te exercitaste até agora. Certamente não vacilas em suportar esse trabalho. Por outro lado, conversando conosco, ainda continuais crendo que a nossa doutrina da verdade é tolice, alegando que nossas Escrituras são recentes e novas. Diante disso tudo, eu também não vacilarei em tratar novamente, com a ajuda de Deus, desde o princípio, a questão da antiguidade de nossas Escrituras, a apresentantar-te um breve resumo, a fim de que não te enfades ao lê-lo e também conheças a inanidade dos outros autores.

Capítulo II – Os outros autores estão mal documentados
Os escritores deviam ter sido eles próprios testemunhas oculares do que afirmam ou ter sabido exatamente daqueles que viram, pois escrever sobre o incerto é, de algum modo, açoitar o ar. De que adiantou Homero ter descrito a guerra de Tróia e enganar a muitos, ou Esíodo na sua Teogonia ter feito o catálogo e descrito as origens daqueles que ele chama deuses? Ou Orfeu com os seus trezentos e sessenta e cinco deuses, que ele rejeita no fim da vida, pois afirma em seus Testamentos que existe um só Deus? De que adiantou a Arato a sua esferografia do céu cósmico ou para aqueles que tiveram as mesmas opiniões, a não ser ter alcançado entre os homens uma glória que nem sequer mereceram? O que eles disseram de verdadeiro? Que proveito tiveram Euripedes, Sófocles e os outros trágicos com suas tragédias, ou Menandro, Aristófanes e outros cômicos, ou Heródoto e Tucídides com sua histórias, ou Pitágoras com seus templos e as colunas de Hércules, ou Diógenes com sua filosofia cínica, ou Epicuro com seu dogmatismo contra a providência, ou Empédocles com suas doutrinas atéias, ou Sócrates com seus juramentos pelo cão, o ganso, o plátano e o fulminado Asclépio e pelos demônios a quem invocava? Além disso, por que morreu voluntariamente e que recompensa esperava receber depois da morte? De que serviu a Platão a educação que ele instituiu, ou de que serviram para os outros filósofos as suas doutrinas? Não farei a lista completa, pois são muitos. Dizemos isso para demonstrar o teor inútil e ateu de suas especulações.

Capítulo III – Os outros autores são mal inspirados
O fato é que, sendo todos ambiciosos de vanglória, nem eles conheceram a verdade, nem conduziram ou estimularam outros a ela. Eis que eles são acusados pelos seus próprios discursos, pois disseram coisas contraditórias e, além disso, a maioria deles destruiu suas próprias doutrinas. Isto é: não só lançaram por terra uns aos outros, mas alguns invadiram seus próprios dogmas, de modo que sua glória acabou na desonra e loucura, pois são condenados pelos homens inteligentes. Primeiro falaram dos deuses, e depois ensinaram o ateísmo; falaram sobre a origem do mundo e acabaram dizendo que o acaso é a lei universal; por fim, começam falando da providência, e depois dogmatizam que o mundo não tem providência. E o que mais? Não é certo que, tentando escrever sobre a pureza, ensinaram a praticar os mais odiosos atos de impudor? São justamente os seus deuses os primeiros que eles anunciam ter praticado as uniões desonestas e festins sacrílegos. Quem não canta Cronos como devorador de seus filhos? E Zeus, seu filho, que devora Métis e prepara abomináveis convites para os deuses? Depois, nos contam de um tal Efesto, coxo e ferreiro, que o serve à mesa; e de Hera, irmã de Zeus, que não só se casa com ele, mas também comete desonestidades com sua boca impura. Suponho que saibas das demais ações dele que os poetas cantam. Que necessidade tenho de enumerar o que se refere a Posêidon, a Apolo, Dionísio e Héracles, ou de Atena, a guerreira, e Afrodite, a desavergonhada? Disso tratamos mais detalhadamente em outro livro.

Capítulo IV – Caluniadores dos cristãos
Eu nem deveria estar refutando essas coisas, se não fosse porque te vejo agora duvidando sobre a doutrina da verdade. Mesmo sendo sensato, suportas de boa vontade os ignorantes. De outra forma, não terias deixado esviar-te pelos vãos discursos de homens insensatos, nem acreditado nesse boato preconceituoso de bocas ímpias, que mentirosamente caluniam a nós, que adoramos a Deus e nos chamamos cristãos, espalhando que temos mulheres em comum e que não nos importamos com quem nos unimos; além disso, dizem que mantemos relação carnal com nossas próprias irmãs e, o que é mais ímpio e cruel, que nos alimentamos de carnes humanas. Dizem ainda que nossa doutrina é recente e que nada temos para alegar como demonstração de nossa verdade e ensinamento. Por fim, dizem que toda a nossa doutrina é pura loucura. Ora, mais do que tudo, fico admirado contigo, pois sendo no resto diligente e pesquisador de todas as coisas, somente a nós ouves com descuido, tu que, tendo possibilidade, não hesitarias em passar até as noites nas bibliotecas!

Capítulo V – Como levar isso a sério?
Muito bem. Já que leste muito, que achas dos conteúdos do livro de Zenão, de Diógenes e de Cleantes, que ensinam a antropofagia, dizendo que os pais devem ser cozidos por seus próprios filhos e comidos por estes, e que se alguém se nega a comer ou joga um membro qualquer dessa abominável comida, deve-se comer aquele que não come? Ainda se encontra uma voz mais ímpia, a de Diógenes, que ensina os filhos a levar seus próprios pais para serem sacrificados e depois comê-los. O que mais? O historiador Heródoto não conta que Cambises degolou os filhos de Harpago e os serviu cozidos para o pai? Também conta que entre os indianos os pais são comidos por seus filhos. Que ímpio ensinamento dessas pessoas que registram tais coisas e até as professam! Que impiedade o ateísmo, que especulações, daqueles que filosofam tão acuradamente e propagam filosofia. Com efeito, os que espalham tais doutrinas encheram o mundo de impiedade.

Capítulo VI – Como levar isso a sério? (cont.)
De fato, no que se refere à união ilegítima, todos os que se extraviaram no coro dos filósofos estão de acordo. Em primeiro lugar Platão, que dentre eles parece ser o que filosofou com mais profundidade. No livro primeiro da República legisla expressamente, digamos assim, que as mulheres de todos devem ser comuns, alegando o exemplo de Minos, filho de Zeus e legislador dos cretenses, a fim de que, sob esse pretexto, os nascimentos sejam numerosos e que, com tais costumes, sejam consolados os que se acham tristes. Além disso, Epicuro, não contente de ensinar o ateísmo, aconselha a relação carnal com mães e irmãs, mesmo transgredindo as leis que o proíbem. Sólon também legislou com toda clareza sobre isso, dizendo que os filhos devem nascer de matrimônio legítimo e não de adultério, para que não se honre como pai aquele que não é pai e se desonre, por ignorância, aquele que o é. Digamos o mesmo do resto que as leis dos romanos e gregos proíbem. Então, com que finalidade Epicuro e os estóicos afirmam como dogma as uniões de irmãos e a pederastia e encheram as bibliotecas com esses ensinamentos, para que se aprenda a união ilegítima desde criança? Não compensa, porém, gastar o tempo com isso, pois propagam coisas semelhantes a respeito do que eles chamam deuses.


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