domingo, 16 de fevereiro de 2025

272 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Introdução ao Tratado sobre o Espírito Santo

 


272

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Introdução ao Tratado sobre o Espírito Santo

 

Origem e ocasião do livro

1.      Até o Concílio de Niceia, em 325, a reflexão cristã concentra-se quase exclusivamente em torno de Cristo: quem é ele em relação ao Pai e em relação a nós? Como conseguiu nossa redenção? É Deus igual ao Pai ou uma divindade de grau inferior? Tem realmente uma natureza divina e uma natureza humana?

2.      Com a condenação do arianismo, que afirmava que Jesus era Deus, mas não da mesma natureza nem co-eterno ao Pai, pelo Concílio de Niceia, e com o exílio dos mais ferrenhos defensores do arianismo, seguiram-se duas ou três décadas de trégua.

3.      Até então, nenhuma atenção fora dada à reflexão sobre a natureza do Espírito Santo.

4.      Na aparente calmaria, pessoas influentes movimentavam as forças políticas fazendo retornar do exílio alguns chefes do arianismo, que crescia, desenvolvia-se e conquistava muitos adeptos.

5.      Reagindo contra este crescimento do arianismo, muitos bispos orientais começaram, nas celebrações litúrgicas, a acentuar algumas características antiarianas, orando ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo em lugar de orarem ao Pai e ao Filho no Espírito Santo.

6.      Os cristãos ficavam atentos para ouvir como seus bispos iam pronunciar as palavras finais das doxologias. Conta-se que, em certa ocasião, o bispo Leôncio, simpático aos arianos, mas procurando não ofender os católicos, recitou tão baixo a doxologia, que ninguém pôde ouvi-lo.

7.      Para evitar confusões e polêmicas que poderiam acirrar ainda mais os ânimos, Basílio se calava sobre a consubstancialidade de natureza divina do Espírito Santo. Mas, pressionado pelas circunstâncias, não pôde ocultar por muito tempo sua opinião.

8.      Quando o fez, parece ter criado embaraço para a fé de muitos cristãos. Ele mesmo relata, no início do livro: “Há pouco, estava orando com o povo. Glorificava a Deus Pai com ambas as formas da doxologia: ora com o Filho, com o Espírito Santo; ora pelo Filho, no Espírito Santo. Alguns dos presentes nos acusaram de empregar palavras estranhas e até contraditórias entre si” (1.3).

9.      As acusações vinham também de outras partes. Um monge, conforme relata Gregório de Nazianzo, escreve a este último queixando-se da doutrina ambígua de Basílio sobre a identidade do Espírito Santo: “Tu, dirigindo-se a Gregório, tens afirmado em palavras claras que o Espírito é Deus. Em certa ocasião, no meio de uma grande multidão, falando da divindade do Espírito Santo, tu interrompeste teu discurso para gritar: Até quando esconderemos a luz sob o alqueire? Mas ele, Basílio, expõe confusamente a doutrina da fé…” (Epist. 58).

10.  As perguntas começaram a surgir de todos os lados. Muitas questões eram levantadas. No meio de tantas vacilações e ambiguidades, surge o pedido muito insistente de seu caro amigo bispo de Icônio Anfilóquio: “Tu (Anfilóquio), porém, pensando antes no bem deles, ou ao menos, se o mal for inteiramente irremediável, para precaver seus companheiros, pediste um ensinamento bem claro sobre o alcance destas partículas (com, no, pelo, por quem, de quem, em quem).

11.  O livro sobre o Espírito Santo nasceu, portanto, por instigação de Anfilóquio, nos últimos meses de 374. Seu objetivo imediato, confessado, é responder às demandas de esclarecimentos do bispo de Icônio, Anfilóquio, sobre a doxologia “com o Espírito”, em razão das graves acusações levantadas por parte dos adversários arianos contra Basílio.

12.  Uma carta enviada a Anfilóquio, que deve ser datada pelos fins do ano de 375, indica que o livro já estava terminado: “O livro que escrevemos sobre o Espírito Santo está acabado, como tu o sabes. Mas os irmãos que estão comigo me impediram de o enviar escrito em papiros, dizendo ter recebido ordens de tua nobreza para escrevê-lo em pergaminho. A fim de não parecer ir contra tua ordem, nós o guardamos e o enviaremos em breve, se encontrarmos algum amigo para levá-lo” (Epist. 231).

13.  Nota-se como, neste período, a discussão teológica se deslocou do Filho para o Espírito Santo, cujo desfecho será dado pelo Concílio de Constantinopla, dois anos após a morte de Basílio, em 381.

14.  Este Concílio proclamou a divindade do Espírito Santo, digno de receber a mesma honra e a mesma glória que o Pai e o Filho: “Senhor e doador de vida, que procede do Pai (e do Filho), que com o Pai e o Filho recebe uma mesma adoração e glória, e que falou pelos profetas” (Dz. 86-150).

 

A situação da Igreja

15.  A situação psicológica de Basílio e do povo é aflitiva. O estado geral em que se encontra a Igreja e o episcopado quando escrevia o tratado sobre o Espírito Santo era deprimente: as armadilhas, as defecções, as perseguições, as divisões das dioceses, o estado de exploração e miséria em que vivia o povo, as lutas de toda espécie, tornavam o clima lúgubre. Pessoalmente, sua saúde se enfraquecia, a amargura o consumia.

16.  Confidenciou sua angústia a Atanásio nestes termos: “Toda a Igreja se dissolve, como numerosos navios em alto-mar vagando a esmo, batem-se uns contra os outros sob a violência das ondas. É um grande naufrágio cujo responsável é o mar em fúria e também a desordem dos navios, indo uns contra os outros, despedaçando-se mutuamente. Onde encontrar um piloto à altura da situação, que seja assaz digno de fé para despertar o Senhor, a fim de que ele ordene aos ventos e ao mar? (Epist. 82).

17.  Para completar sua amargura, seu velho amigo, o grande asceta e bispo de Sebástia, Eustácio, torna-se o inspirador dos pneumatômacos, um movimento evangélico radical que negava a divindade do Espírito Santo.

18.  Na Epístola 123,5, Basílio se queixa por ele ter tomado esta atitude: “Quantas vezes não nos visitastes no mosteiro às margens do Íris, quando eu estava com o irmão muito amado de Deus, Gregório, que procurava realizar o mesmo ideal de vida que eu? Quantos dias passamos na vila do outro lado do rio, com minha mãe, ou como amigos nos entretendo mutuamente, discorrendo de dia e de noite?”.

19.  Para evitar ser perseguido, Eustácio tomou posição contra as decisões de Niceia, a favor dos arianos. Desse modo, o exílio dos bispos fiéis a Niceia, a perseguição dissimulada ou a mão armada, as acusações, a miséria generalizada, formam, agora, a trama de sua vida na qual foi escrito o livro sobre o Espírito Santo.

20.  É compreensível que tenha as marcas do combate, de uma dialética que procura aproveitar-se da fraqueza da posição adversária, para arruiná-la.

21.  De um lado, os pneumatômacos negavam que se pudesse glorificar o Espírito Santo com o Pai e com o Filho. O Espírito, diziam, não vem senão em terceiro lugar na invocação batismal. Ele é, portanto, inferior ao Pai e ao Filho e não se pode atribuir-lhe a honra que lhe é dada em algumas igrejas. Ora, os seres da mesma honra são conumerados enquanto se subnumeram aqueles cuja dignidade é menor. Deve-se, portanto, subnumerar o Espírito ao Filho e ao Pai, e glorificá-lo após o Pai e o Filho, e não com ou junto do Pai e do Filho.

22.  Por outro lado, Macedônio, bispo de Constantinopla, para defender a unidade de Deus, afirmava que o Espírito Santo está subordinado ao Pai e ao Filho, negando, consequentemente, a divindade do Espírito Santo.

23.  Segundo o historiador eclesiástico Sozomeno, para Macedônio, o Espírito Santo não tinha a mesma dignidade divina do Filho, sendo apenas um ministro, um intérprete, uma espécie de anjo a serviço de Deus (HE IV, 27).

 

O primeiro tratado sobre o Espírito Santo

24.  A primeira menção de um debate sobre o Espírito Santo encontra-se na terceira carta de Atanásio ao bispo Serapião de Thmuis, por volta do ano 360. Até então, as ideias a respeito do Espírito Santo caracterizavam-se por incertezas.

25.  O próprio Concílio de Niceia afirmava a plena divindade e consubstancialidade do Filho, mas proclamava somente a fé “no Espírito Santo”. Nenhuma palavra a respeito da natureza, da substância do Espírito Santo.

26.  É neste escrito a Serapião que Atanásio desenvolve os argumentos negando que o Espírito seja tão somente uma criatura do Logos, como diziam os macedonianos.

27.  Atanásio dizia que era preciso reconhecer também para o Espírito Santo a consubstancialidade com o Pai e com o Filho. O ponto de vista de Atanásio era o mais explícito, até esse momento, sobre o reconhecimento da divindade do Espírito Santo.

28.  De fato, existiam dificuldades para a afirmação da consubstancialidade do Espírito com o Pai e com o Filho. Pareciam faltar testemunhos escriturísticos precisos nesse sentido e queria-se evitar que isso implicasse a noção de dupla divindade gerada (o Filho e o Espírito) ou de duplicidade de Pais (o Filho e o Pai). Além disso, os textos conciliares não definiam os termos empregados nas fórmulas do credo.

29.  As palavras-chave substância, natureza, pessoa, permaneciam suscetíveis de várias interpretações. Eusébio de Cesareia, antigo conselheiro eclesiástico de Lucinius, por exemplo, entendia o termo substância (omooúsios) no sentido genérico: aquilo que há de comum entre dois indivíduos. Já os partidários de Ósio, conselheiro teológico de Constantino, compreendiam o termo “da mesma substância” (omooúsios) como da mesma realidade individual.

30.  No Concílio de Niceia, por falta de unanimidade, o termo “consubstancial” (omooúsios) foi mantido e imposto pelo próprio imperador Constantino.

 

A definição de Basílio

31.  Numa carta dirigida a seu irmão Gregório, bispo de Nissa, Basílio definira assim a substância (ousía = substancia ou essência) e a hypóstasis (união da natureza humana e divina em Cristo. Literalmente em grego significa substância): a ousía é o que é comum aos indivíduos da mesma espécie, o que todos possuem igualmente e que faz com que lhes seja designado a todos com o mesmo vocábulo, sem distinguir a nenhum de modo particular. Porém, esta ousía não pode existir realmente senão na condição de ser completada pelos caracteres individualizantes que a determinam (Epist. 38, 1-3).

32.  Na carta a Anfilóquio, Basílio desenvolve mais explicitamente o que ele entende pelos termos ousía e hypóstasis. O texto, um pouco longo, torna-se necessário nesta introdução: “Entre ousía e hypóstasis, há a mesma diferença que existe naquilo que é comum em relação ao que é individual, por exemplo, o animal em relação a tal homem. Por esta razão, a propósito da deidade, confessa-se, de uma parte, uma ousía única: assim não se presta conta diferentemente da essência; e, de outra parte, uma hypóstasis particularizada: com a finalidade de tornar sem mistura para nós e inteiramente límpida a noção de Pai e de Filho e de Espírito Santo. Porque, se não se consideram as características distintivas de cada um deles, tais como a paternidade e filiação e santificação, mas, a partir da noção comum da essência, se confessava Deus, se tornaria incapaz de dar conta corretamente da fé.

33.  É preciso, pois, juntando o caráter próprio de cada um ao que é comum, confessar-se assim a fé: comum a deidade, própria a paternidade. Então, reunindo-os, que se diga: eu creio em Deus Pai. De novo, na confissão do Filho, que se faça o mesmo, ao comum juntando o próprio, e que se diga: em Deus Filho. E semelhantemente para o Espírito Santo, dando ao enunciado uma forma que respeita a ordem da expressão, que se diga: eu creio também no divino Espírito Santo. Assim, se salvará totalmente a unidade na confissão da única deidade e se confessará o caráter próprio das prósopa (pessoa) na distinção das propriedades reconhecidas para cada um.

34.  Quanto àqueles que dizem que ousía (substância ou essência) e hypóstasis são a mesma coisa, se encontram na obrigação de confessar somente as prósopa (pessoa), e na sua recusa de dizer: três hypóstaseis, passam por não evitar o erro de Sabélio” (Epist. 236).

35.  As discussões suscitadas pelos arianos e anomeus levaram Basílio a aprofundar a compreensão das três hypóstasis. Esse é o termo importante para ele. A hypóstasis une a ousía e o prósopon. Para ele, o prósopon seria o aspecto externo sob o qual aparece a hypóstasis característica de um ser, o “rosto” que ele tem.

36.  Dá-se-lhe um falso sentido quando, já naquela época, faziam os latinos traduzindo-o por “persona”. No livro sobre o Espírito Santo, Basílio afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três hypóstasis, cuja estrutura formal é a ousía e cujo rosto, cujo aspecto distintivo, é o prósopon (rosto ou feição).

37.  Assim Basílio distingue entre “essência” (ousía) e existência individual (hypóstasis) e conclui que as três hypóstasis são iguais na essência e distintas como individualidade.

38.  Assim, em Deus, o comum é a ousía (essência), e particular, individualizante, é a hypóstasis (existência individual).

39.  Mas não pense o leitor ter em mãos um livro árido e entregar-se à leitura de uma disputa em torno de vocábulos, de preposições. O próprio autor tem consciência do possível engano do leitor, quando, no capítulo 2, põe-se a esclarecer sua tarefa e a justificá-la: “Bem longe de me envergonhar por causa da brevidade destas partículas, se conseguisse apreender apenas uma pequenina parte de seu valor, alegrar-me-ia como merecedor de grande aplauso, e diria ao irmão que conosco investiga não ser pequeno o lucro que daí retiraríamos”.

40.  Na verdade, não é sobre partículas, nem sobre tal ou tal vocábulo que Basílio se entrega a escrever seu tratado. Se ele se dedica à análise dos termos com, em quem, para quem, por quem, é porque por trás deles se esconde uma teologia, uma realidade cujo sentido e verdade são inteiramente de outra ordem.

41.  Inspirado nas cartas de Santo Atanásio e Serapião de Thmuis, o tratado de Basílio sobre o Espírito Santo constitui a fonte por excelência da teologia trinitária. Sua obra tornou-se documento memorável, de primeiro valor, ao qual se deve voltar toda a vez que se quiser remontar às fontes da teologia do Espírito.

42.  Exerceu considerável influência para que os Padres conciliares chegassem à definição do símbolo de Constantinopla e decisivo, sem dúvida, para o desenvolvimento doutrinal posterior. Inspirou, por sua vez, muitos escritos na época patrística e nos séculos posteriores, sobre a caracterização do Espírito Santo no seio da Trindade.

43.  Com a proclamação da divindade do Espírito Santo e de sua igualdade consubstancial com o Pai e com o Filho, dos quais procede, completou-se o terreno da ortodoxia nicena, católica.

 

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

271 SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) Biografia

 



271

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Biografia

 

1.     A patrologia grega oriental alcançou seu ponto mais elevado com os chamados “Padres capadócios”: Basílio Magno, Gregório de Nissa, seu irmão, e Gregório de Nazianzo.

2.     Basílio é, com certeza, o mais importante dos três. Devido à sua personalidade fértil, ativa tanto na reflexão, na produção literária, quanto na organização e na administração das comunidades de sua diocese, a história eclesiástica o consagrou como o “Grande”, pai e doutor da Igreja.

3.     O que é característico e exemplar nestes Padres capadócios é o fato de provirem da alta aristocracia e não usarem desse privilégio para se impor, mas, desprezando toda glória e riqueza do mundo, dedicaram-se aos necessitados tanto quanto à vida intelectual, à meditação, à oração.

4.     De fato, Basílio empenhou todas as suas forças intelectuais e físicas na interpretação da doutrina cristã, na reforma da liturgia, na edificação da vida monástica, na defesa da ortodoxia, sem se descuidar, ao mesmo tempo, dos necessitados.

 

Origens, infância e formação acadêmica

5.     Basílio nasceu e viveu no período conhecido como “idade de ouro” da patrística. Nesse período, ocorreram grandes mudanças e transformações sociais, principalmente a ascensão da aristocracia dos grandes latifundiários ao poder, que é de extrema importância para a compreensão de Basílio e sua ação.

6.     Descende de família rica, numerosa e de tradição cristã. Seu pai já vinha de família rica e considerada latifundiária, da região do Ponto. Sua mãe era de família nobre da Capadócia. Macrina, a avó paterna, fora educada sob a orientação de Gregório Taumaturgo, que, por sua vez, fora discípulo de Orígenes.

7.     Desde muito cedo, esteve Basílio sob a influência desta sua avó. Em várias cartas, sempre sublinha o papel de educadora da fé ortodoxa junto de seus netos: “Que prova mais clara poderia ter em favor de nossa fé, que o fato de ter sido educado por uma avó que era mulher bem-aventurada (…)? Quero falar da ilustre Macrina, que nos ensinou as palavras do bem-aventurado Gregório (o Taumaturgo), todas as que a tradição oral lhe conservara que ela guardara e das quais se servia para educar e formar na piedade os pequeninos que éramos, então” (Epist. 104,6; 110,1; 123,3).

8.     O pai, notável retórico, ensinou-lhe os primeiros elementos culturais: “Na primeira idade, foi sob a direção do ilustre pai, que o Ponto se propunha então como modelo de virtude, que desde as línguas ele (Basílio) recebeu uma formação eminente e muito pura” (testemunha Gregório de Nazianzo, In Basilio, XII,1).

9.     A família é numerosa. São dez irmãos, entre os quais se destacam a irmã Macrina, a Jovem, os irmãos Gregório, bispo de Nissa, e Pedro, bispo de Sebástia.

10. Os avós paternos sofreram a última perseguição movida pelo imperador Diocleciano.

11. Alguns anos mais tarde, Constantino dará liberdade de culto através do edito de Milão, mas agora, por volta de 301-303, ao lado de reformas administrativas, fiscais e econômicas, Diocleciano publicou um edito contra a alta dos preços e, talvez instigado por Galeno, desencadeou uma dura perseguição contra os cristãos que se estendeu por quase dez anos. Seus avós paternos tiveram de se refugiar nas florestas do Ponto por anos, tendo os bens confiscados.

12. Seus anos de juventude foram marcados por frequentes viagens. Depois dos estudos fundamentais em sua cidade, foi enviado a Bizâncio, Antioquia e Atenas para completar os cursos de aperfeiçoamento.

13. Durante os anos de estudo em Antioquia, é preciso sublinhar a figura de Eustácio de Sebástia, importante para a história do monaquismo da Ásia Menor. Filósofo, depois bispo (356-380), foi o propagador do ascetismo na Armênia e no Ponto. Basílio evoca várias vezes a influência dele na conversão (Epist. I; 123,2-3).

14. Estudante em Atenas, sua irmã Macrina lhe interpretava, através de cartas, a “filosofia” de Eustácio. Na Carta I, Basílio declara que a reputação de Eustácio o atingiu quando o encontrou na Grécia: “Deixei Atenas por causa do renome de tua filosofia”.

15. Atenas lhe dera tudo o que um jovem como ele podia buscar. Foi ali também que nasceu e se fortificou, entre ele e Gregório de Nazianzo, uma amizade rara e duradoura.

16. Ali completou seus estudos de retórica aprendendo ainda a filologia e a filosofia.

17. Retornando de Atenas, em 355, estabeleceu-se em Cesareia como retórico. Arrebatado pelo sucesso de seu ensino, dedicou-se cada vez mais à filosofia sofística.

18. Contudo, os desejos de perfeição, as constantes advertências de sua irmã mais velha, Macrina, acabaram dobrando-o aos projetos de vida perfeita concebidos em Atenas.

19. Empreendeu, então, novas viagens, desta vez, visitando os ascetas do Egito, da Palestina, da Síria e Mesopotâmia (cf. Carta 1 e 223). De volta para sua terra, em 358, foi batizado pelo velho bispo de Cesareia, Diânios.

20. Com a morte prematura de seu pai, neste mesmo ano, vendeu os bens recebidos em herança e distribuiu aos pobres o resultado desta venda. Em seguida, retirou-se, na companhia de sua mãe e da irmã Macrina, para Anesi, no Ponto, numa propriedade da família, às margens do Íris, vivendo como eremita.

21. Gregório de Nazianzo vai juntar-se a eles. Juntos, estudam as obras de Orígenes e compõem uma antologia de textos originianos que levará o nome de Filocália.

22. Há consenso entre a maioria dos autores modernos em fixar Cesareia como lugar de nascimento de Basílio. Cesareia da Capadócia, a mais importante dentre tantas Cesareias espalhadas pelo império romano, na Ásia Menor, na Palestina, na Síria, Mauritânia, fundadas em honra de César Augusto. Hoje, Kayseri, no centro da Turquia atual. O imperador Trajano (98-117) transformou-a na capital da província romana da Capadócia, região que incluía o Ponto e a Armênia. Parece ter sido evangelizada bem cedo, visto que a primeira carta de Pedro escrita, provavelmente um pouco antes da perseguição de Nero, pelo ano 64, se dirige aos cristãos desta região: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos que vivem dispersos como estrangeiros no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pd 1,1).

23. Embora fosse homem de intensa atividade, sua saúde foi sempre frágil, impedindo-o, talvez, de fazer mais. Suas cartas estão cheias de queixas sobre seu estado de saúde e da oposição que recebe de seus adversários. Aos 40 anos, sentia-se velho: “… A fim de que nós, os velhos, recebêssemos de verdadeiro filho as amabilidades que nos são devidas…” (Carta 176). “Tinha desde longo tempo respondido às questões que tua piedade nos havia proposto, mas não te enviei a carta, porque estive retido por longa e grave doença…” (Ibidem).

24. Na Carta 200, diz: “Conosco as doenças sucedem às doenças, e as ocupações que provêm dos afazeres eclesiásticos, como aquelas que nos criam aqueles que procuram perturbar as igrejas, nos retiveram todo o inverno e até o momento em que escrevemos esta carta. É por isso que não nos foi possível nem enviar alguém, nem ir visitar tua piedade. Supomos que tal é também tua situação para o resto, não o digo pela doença”…

25. Na Carta 201, a mesma queixa: “Mas, porque a mesma causa nos reteve todos os dois, vós a doença que vos sobreveio, e a nós, nossa má saúde que data de mais longo tempo e que não nos deixou ainda…”.

26. Após uma viagem ao Ponto, deixa sua situação física transcrita na Carta 218: “Tive o corpo quebrado em consequência de minha viagem ao Ponto e estou atacado de um mal intolerável. É que desde longa data queria fazer saber à tua prudência (…), mas te informo agora…”.

27. Seu amigo, Gregório de Nazianzo, o retrata na “sua palidez, sua barba, seus afazeres habituais, e quando falava, sua ausência de precipitação, seu ar pensativo ordinariamente, e seu recolhimento interior” (Disc. 43,77,1).

 

Pai do monaquismo

28. O projeto de vida perfeita o leva para a solidão de Anesi: “Este lugar nutre o mais agradável para mim de todos os frutos, a tranquilidade, não somente porque está distante do tumulto das cidades, mas ainda porque ele não deixa sequer passar um viajante, à exceção dos que se juntam a nós durante suas caçadas” (Epist. 14,2; cf. Gregório de Naz. Epist. 4,12).

29. Nesta vida de eremita, isolado, movido pela penitência, passava necessidades, segundo relata seu amigo Gregório: “Se esta grande e verdadeira nutriz dos pobres, quero dizer: tua mãe, se não nos tivesse rapidamente tirado de lá mostrando-se na hora oportuna propícia como um porto para aqueles que soçobram na tempestade, desde muito tempo nós seríamos apenas cadáveres” (Epist. 5,4).

30. Entre religiosos, visitando muitos cenóbios, conheceu o monaquismo por dentro, com suas grandezas e fraquezas. Sua ação era movida para uma vida comunitária que evitasse as excentricidades praticadas por alguns anacoretas e para promover um esforço teológico e exegético para equilibrar a vida monástica.

31. Foi assim que, respondendo aos quesitos a respeito da interpretação do Evangelho, surgiram o Pequeno Asceticon e o Grande Asceticon. A estas obras costumam dar o nome de “Regras”, impropriamente.

32. São, na verdade, duas obras as céticas. A primeira, mais breve, conservada somente numa tradução latina. A segunda, a “Grande Regra”, mais extensa, se encontra na versão grega.

33. Trata-se de obras elaboradas no esquema de perguntas e respostas, transcrevendo as conversações entre Basílio e os monges, em suas visitas. Expõem as diretrizes e orientações para a vida cotidiana e a organização de uma comunidade monástica.

34. Estas “Regras”, que incorporam ainda preceitos de Eustácio de Sebástia, estão na base do monaquismo oriental e são chamadas até hoje basilianas.

35. Contudo, teve pouco tempo para desfrutar a solidão, o silêncio. Ordenado presbítero, chamado à luta por seu bispo, empenhou-se na defesa da fé cristã contra o arianismo.

 

O episcopado

36. Não obstante as constantes tensões com o bispo de Cesareia, Basílio acedeu ao sacerdócio e conquistou grande autoridade, graças à sua atividade ascética e caritativa.

37. Sua pregação era severa, especialmente contra os ricos. Quando da morte do bispo Eusébio, em 370, desencadeou-se forte oposição à eleição de Basílio, que, ao contrário do que acontecia entre o clero, era muito querido pelo povo.

38. Parece que a oposição se fazia mais em vista de sua precária saúde. Perguntou alguém: “Vós quereis um atleta ou um doutor da fé?”. Sucede, então a Eusébio no episcopado de Cesareia, em 370.

39. Nove anos bastaram para que fosse chamado, ainda em vida, o “Grande”.

40. Em sua atividade episcopal, continuou na luta contra os arianos, que gozavam do apoio explícito do imperador Valente. Este, para enfraquecê-lo, dividiu sua diocese, reduzindo seu território geográfico e o número de bispos sob sua jurisdição.

41. Mas Basílio não se deixou intimidar pelas ameaças arianistas. Nestas circunstâncias, para multiplicar as sedes episcopais em seu território jurídico, impôs ao irmão Gregório a diocese de

42. Nissa e a seu amigo Gregório de Nazianzo a diocese de Sásima, reforçando o episcopado ortodoxo. Apesar de todos os esforços de Basílio, seu irmão Gregório perderá a sede episcopal para os arianos em 376-378.

43. Embora sempre muito preocupado com a unidade da Igreja e com a defesa da ortodoxia contra os arianos e macedônios, manteve-se muito próximo do povo, vivendo com ele a situação de miséria. Não só escreveu e pronunciou muitas homilias em favor do povo sofrido, mas agia diretamente ajudando os pobres, construindo hospital para acolher doentes, vítimas de epidemias, viajantes, estrangeiros, abandonados. Assim se faz pioneiro não só na defesa da consubstancialidade do Espírito Santo com o Pai e com o Filho, mas também na ação social.

44. De fato, vendo o povo empobrecido, esmagado pelo fisco, exploração e usura, prega contra o luxo e a avareza. Defende a igualdade fundamental de todos os homens diante de Deus, a eminente dignidade da pessoa humana, a necessidade da redistribuição dos bens para eliminar a avareza e o enriquecimento.

45. Seu hospital era verdadeira cidade operária com forno comunitário, alojamento para empregados, asilo para velhos, ala reservada para doentes contagiosos. Posteriormente, este hospital será chamado “Basilíades”.

46. De fato, foram tempos difíceis, anos terríveis para o bispo Basílio: crise moral, econômica, política, religiosa. A fome se abate sobre regiões inteiras, atingindo toda a Capadócia.

47. Ao mesmo tempo em que se dedicava à reflexão teológica, à assistência e defesa dos pobres, ao trabalho de unir as igrejas, à orientação espiritual dos monges, Basílio se interessava também pela vida de oração, pelas celebrações da comunidade. É assim que se explica sua presença no movimento litúrgico.

48. A Carta 2 expõe um programa de santificação do dia. A Carta 207,3 responde às críticas da igreja mais conservadora em relação à liturgia. As homilias sobre os Salmos 1 e 28, sobre a Ação de Graças e tantas outras desenvolvem os temas do louvor divino.

49. Um formulário eucarístico bizantino marcado com o nome de Basílio existe em siríaco, aramaico, eslavo e árabe.

50. Introduziu nova maneira de cantar e reformou o ofício litúrgico dos mosteiros.

51. A tradição oriental atribui-lhe a liturgia que traz seu nome e que as igrejas de rito bizantino ainda usam nos dias da quaresma e na celebração das grandes festas do ano.

 

Atividade literária

52. Apesar de viver sempre num estado de saúde precária, de sua intensa atividade social, espiritual e litúrgica, não foi menor sua atividade literária. Tratados teológicos, ascéticos, pedagógicos e litúrgicos, além de grande número de sermões e de cartas, estão aí para provar esta afirmação. Em seus escritos se revelam sua têmpera e sua formação cultural.

53. Os tratados teológico-dogmáticos estão voltados contra os arianos e os pneumatômacos (os que negavam a divindade do Espírito Santo).

54. Entre 363-365, compôs o tratado Contra Eunômio, líder mais intransigente dos arianos e dos anomeus (ala radical do arianismo), em três livros. Eunômio de Cízico fora secretário e discípulo de Aézio. Ordenado diácono em 357 por Eudósio e depois bispo de Cízico, em 360 havia escrito uma Apologia imprimindo vigoroso impulso à tendência ao arianismo extremo.

55. Toda a igreja da Capadócia estava mergulhada na crise ariana por causa do apoio do imperador Valente. Eunômio representava o arianismo radical, chamado anomeísmo, para quem só o Pai é Deus, seu Filho Jesus Cristo é apenas uma criatura.

56. Na refutação, Basílio defende a igualdade perfeita do Filho e do Espírito Santo com o Pai. Recolheu a herança de Atanásio de Alexandria e se apoiou na autoridade do bispo de Roma para tentar debelar o erro ariano.

57. Os escritos ascéticos estão voltados para a vida monástica, fixando as normas da conduta dos monges. São atribuídos a Basílio, nesta área, treze tratados, porém a maior parte são apócrifos. Os originais são apenas três.

58. Quanto à exegese, Basílio não desenvolveu um trabalho sistemático. Compreendem-se, nesta área, homilias e sermões com intenção prática. Sua exegese é literal e a homilética é determinada pelos textos das Escrituras. “O auditório ao qual se dirige Basílio comanda inteiramente a estrutura literária de suas homilias. Tanto no Hexaemeron quanto nas Homilias acerca da origem do homem, encontram-se quatro traços bem caracterizados: 1) a adaptação litúrgica; 2) a exegese literária e sistemática, na qual o texto escriturístico determina a unidade da composição; 3) exortação moral graças a uma ilustração tomada da vida ambiental; e, enfim, 4) a recusa de uma problemática especializada na evocação de questões mais delicadas sobre a origem do mundo ou sobre o valor simbólico dos nomes”.

59. Há ainda uma obra pedagógica, embora várias se apresentem com seu nome, esclarecendo o problema da relação que os cristãos devem ter com a literatura clássica pagã: Exortação aos jovens a respeito do modo de tirar proveito das letras helênicas.

60. Sob o pretexto de guiar os sobrinhos nos estudos, Basílio explica como a filosofia e a “paideia” (sistema de educação grega – lit. a educação de crianças) atenienses podem conduzir o homem a uma atitude que se avizinha do ascetismo cristão. Os cristãos devem, portanto, saber o que é útil para segui-lo e o que é necessário deixar de lado: “Devemos imitar as abelhas: sugar o mel e deixar o veneno”, dizia ele. O tratado indica, pois, tanto o perigo que o estudo dos escritos pagãos podem acarretar para os cristãos quanto o proveito que se pode tirar deles. Sua atividade literária se engrandece ainda por seu rico e vasto epistolário.

61. Sua correspondência é uma das mais consideráveis da antiguidade cristã. Através dela podemos conhecer melhor a vida cotidiana da Igreja Oriental do século IV. Em suas 366 cartas, vemos desfilar uma vasta gama de temas como: questões sociais, a situação de exploração em que vivia o povo, recomendações, consolações, orientações para a vida monástica, para a vida cristã dos leigos, problemas morais, ascéticos, dogmáticos, litúrgicos, históricos.

62. Além do mais, revelam-se nelas seus sentimentos de amizade, de equilíbrio, a força de seu caráter e a sensibilidade do pastor atento às necessidades de suas ovelhas. Enfim, em todos os seus escritos, revela-se um espírito penetrante, severo, reservado, capaz da mais alta especulação e rigoroso em suas deduções.

63. Tímido, mas de grande coragem, encontrou ao longo de sua vida muitas incompreensões e insucessos. Feito mais para o recolhimento, não fugiu às responsabilidades da ação para servir à fé.

64. É flexível. Homem do diálogo, da conciliação a serviço da paz e da ortodoxia.

65. “Este homem morre esgotado pelas austeridades e pelas tribulações, prematuramente, à idade de cinquenta anos, em 1º de janeiro de 379. A vitória estava próxima. Basílio não a experimentou, mas havia-a preparado. Seus funerais foram um triunfo. O povo avaliava a perda que sua morte representava.

66.  Dez anos foram suficientes para mostrar o que ele era e fazer dele um bispo incomparável”.

67. Os elogios fúnebres, brilhantes, de Gregório de Nazianzo e de Gregório de Nissa, seu irmão, tiveram enorme influência sobre a hagiografia posterior.

 

 

O que você destaca na vida de São Basílio?

O que sua vida nos ensina?

Como este texto serve para sua espiritualidade?