domingo, 6 de julho de 2025

285 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Tratado sobre o Espírito Santo - (Capítulos 61 - 68)

 

Marleide, frei Isaac, Luiz Daniel, Genisson, Nathalie, Marisa e Edson


285

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulos 61 - 68)

 

Solicitação do Tratado: Bispo Anfilóquio de Icônio.

 

Basílio escreve: “Há pouco, estava orando com o povo. Glorificava a Deus Pai com ambas as formas de doxologia: ora com o Filho, com o Espírito Santo; ora pelo Filho, no Espírito Santo. Alguns dos presentes nos acusaram de empregar palavras estranhas e até contraditórias entre si. Tu, porém..., ...pediste um ensinamento bem claro sobre o alcance destas sílabas”.

 

26. Os diversos sentidos da partícula em podem todos eles ser aplicados ao Espírito

Santo

Capítulo 61.

1.     Examinando melhor, esta partícula, que se emite de maneira simples e rápida, abrange, a meu ver, vários significados. Os diversos sentidos da palavra em encontram-se a serviço dos conceitos sobre o Espírito.

2.     Diz-se que a forma está na matéria, a potência em um “receptáculo”, o modo de ser em um sujeito etc. Assim, o Espírito Santo, enquanto perfaz os seres dotados de inteligência, e completa a sublimidade deles, faz as vezes de forma. Efetivamente, não se denomina “espiritual” alguém que não viva mais segundo a carne, e sim o que é movido por ação do Espírito de Deus, tem o nome de filho de Deus e se torna conforme a imagem do Filho de Deus (Rm 8,13; 8,29).

3.     Como a capacidade de ver se encontra no olho sadio, assim a operação do Espírito acha-se na alma purificada. Por isso, Paulo deseja aos efésios que tenham os olhos iluminados no Espírito de sabedoria (Ef 1,17).

4.     E assim como a arte permanece no que a adquiriu, igualmente a graça do Espírito está em quem a acolhe, sempre presente, embora nem sempre atuante. A arte, também, está no artista em potência; em ato, porém, quando o artista a emprega para operar. Assim igualmente o Espírito está sempre presente aos que são dignos, opera conforme a necessidade, por meio das profecias, ou das curas, ou de algumas outras ações miraculosas.

5.     Assim como a saúde, a temperatura, enfim, as outras disposições transitórias estão no corpo, o mesmo acontece com o Espírito, que muitas vezes está presente, mas não permanece na alma dos que, por instabilidade de ânimo, facilmente rejeitam a graça recebida. Assim eram Saul e os setenta anciãos dos filhos de Israel, exceto Eldad e Medad (Nm 11,25-26ss LXX) (evidentemente, dentre todos, neles apenas o Espírito permaneceu); tais, de fato, são os que se lhes assemelham, por livre escolha.

6.     A palavra está na alma, ora como pensamento no coração, ora como termo proferido pelos lábios; igualmente o Espírito Santo, ao dar testemunho a nosso espírito e clamar em nosso coração: “Abba, Pai”, ou ao falar por nós, como está escrito: “Não sereis vós que falareis naquela hora, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vós” (Mt 10,20).

7.     Como um todo em suas partes, entende-se também ser o Espírito relativamente à distribuição dos carismas. Pois somos todos membros uns dos outros, tendo, porém, carismas diferentes segundo a graça de Deus que nos foi concedida (Rm 12,5).

8.     Por conseguinte, “não pode o olho dizer à mão: ‘Não preciso de ti’; tampouco pode a cabeça dizer aos pés: ‘Não preciso de vós’ ” (1Cor 12,21).

9.      Mas, os membros todos juntos compõem o corpo de Cristo na unidade do Espírito, e prestam-se mutuamente os serviços necessários, segundo os carismas recebidos. Pois Deus dispôs os membros no corpo, cada qual como ele quis. Por isso, os membros preocupam-se uns com os outros igualmente, segundo a mútua afeição, proveniente da comum união espiritual. Deste modo, “se um membro sofre, todos os membros compartilham o seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros compartilham a sua alegria” (1Cor 12,26).

10. Como as partes no todo, somos todos um no Espírito, pois nós todos, que formamos um só corpo, fomos batizados num só Espírito.

 

Capítulo 62.

11. Eis um paradoxo, contudo, nada de mais verdadeiro: muitas vezes se diz ser o Espírito como que o lugar dos seres santificados. Verificar-se-á não ser um modo de falar que rebaixe o Espírito; antes o glorifica. Frequentemente a Palavra de Deus emprega nomes de seres corporais para noções espirituais, a fim de torná-las acessíveis. Observamos, de fato, dizer o salmista referindo-se a Deus: “Sê para mim um Deus protetor e um lugar fortificado que me salve” (Sl 30,3).

12. E a respeito do Espírito: “Eis aqui um lugar junto a mim; põe-te sobre a rocha” (Ex 33,21).

13. Que é este lugar a não ser a contemplação no Espírito, contemplação na qual Deus distintamente apareceu a Moisés? É o lugar próprio à adoração verdadeira. Diz a Escritura: “Fica atento a ti mesmo. Não oferecerás teus holocaustos em qualquer lugar que vejas, pois é só no lugar que o Senhor houver escolhido, que deverás oferecer” (Dt 12,13-14).

14. Qual é o holocausto espiritual? É o sacrifício de louvor. Em que lugar o ofereceremos? No Espírito Santo. Quem nos ensinou isso? O Senhor mesmo, que disse: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade” (Jo 4,23).

15. Jacó viu este lugar e disse: “Na verdade o Senhor está nesse lugar” (Gn 28,16). Assim, o Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos. Também o santo é lugar adequado para o Espírito, que se prontifica a habitá-lo com Deus, e dá a si mesmo o nome de templo de Deus. Ora, Paulo fala em Cristo: “Falamos, na presença de Deus, em Cristo” (2Cor 2,17).

16.  E Cristo fala em Paulo, segundo ele próprio declara: “Pois procurais uma prova de que Cristo fala em mim?” (2Cor 13,3). De idêntica maneira, é no Espírito que ele revela os mistérios, e por sua vez o Espírito é quem fala nele.

 

Capítulo 63.

17. Quanto às criaturas, diz-se frequentemente e de muitos modos que o Espírito nelas está; quanto ao Pai e o Filho, mais conforme à piedade é dizer que o Espírito está com eles do que afirmar que se acha neles. Efetivamente, afirma-se melhor que a graça do Espírito, habitando naqueles que dela são dignos, e agindo neles, acha-se nos seres capazes de o receber.

18. Ao contrário, a existência antes dos séculos, e a permanência sem fim com o Filho e o Pai, se bem consideradas, reclamam palavras que exprimam união eterna. De fato, diz-se com propriedade e verdade que seres existentes inseparavelmente uns dos outros, existem com. Afirmamos que o calor existe no ferro abrasado, mas que existe com o fogo.

19.  Declaramos que a saúde existe no corpo; de outro lado, dizemos que a vida existe com a alma. Deste modo, onde há propriamente união natural e indissolúvel, o termo com é mais expressivo, por sugerir união indissolúvel.

20. Onde, porém, a graça do Espírito pode sobrevir e depois afastar-se, emprega-se com propriedade e verdade de termos: existir em, mesmo se acontecer frequentemente, devido às boas disposições dos que a recebem, que a graça perdure. Assim, quando pensamos na dignidade própria do Espírito, contemplamo-lo com o Pai e o Filho.

21. Mas se refletimos sobre a graça produzida nos participantes dela, diz-se que o Espírito está em nós. A doxologia: no Espírito não é, pois, afirmação de sua dignidade, e sim confissão de nossa fraqueza. Mostramos que, por nós mesmos, somos incapazes de dar glória, mas podemos dá-la no Espírito Santo. Fortificados nele, damos graças a nosso Deus por seus benefícios.

22. À medida que formos purificados do mal, uns mais, outros menos, recebemos o auxílio do Espírito para oferecermos hóstias de louvor a Deus. Desta forma piedosamente damos graças no Espírito. Ora, não seria agradável poder dar a si mesmo o testemunho de possuir em si o Espírito de Deus, e, instruído por sua graça, glorificá-lo? É linguagem digna de Paulo: “Julgo que também eu possuo o Espírito de Deus” (1Cor 7,40).

23. E em outro lugar: “Guarda o bom depósito, por meio do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1,14). De Daniel também se afirmou que o Espírito Santo de Deus habitava nele (Dn 5,11), e o mesmo se pode dizer dos que se lhes assemelham pela virtude.

 

 

Capítulo 64.

24. Existe, porém, outro sentido que não é de forma alguma inaceitável. Assim como no Filho se vê o Pai, assim vê-se o Filho no Espírito. Então, adorar no Espírito significa que nosso espírito age na luz, como se depreende do que foi dito à samaritana. Induzida em erro pelo costume de sua terra, pensava que se devia adorar em determinado lugar.

25. Nosso Senhor desiludiu-a, dizendo ser necessário adorar em Espírito e verdade, e declarando ser ele mesmo indubitavelmente a verdade. Referimo-nos a uma adoração no Filho, Imagem de Deus Pai, e no Espírito, como sendo quem mostra em si a divindade do Senhor. Por isso, na adoração, o Espírito é inseparável do Pai e do Filho.

26. Efetivamente, fora dele, não se adora absolutamente; quem está nele, de maneira alguma o separa de Deus, assim como a luz é inseparável das coisas visíveis. É impossível ver a Imagem do Deus invisível, a não ser por iluminação do Espírito.

27. Quem fixa o olhar na Imagem não pode separá-la da luz. Com efeito, abrange-se a causa da visão necessariamente com aquilo que se vê. Consequentemente, em propriedade de termos, pela iluminação do Espírito, divisa-se a irradiação da glória de Deus e, através da marca, atingimos a glória daquele a quem pertencem o sinete que a imprime e a impressão.

 

 

27. Donde deriva a partícula com e qual seu sentido. Também se trata das leis eclesiásticas orais

 

Capítulo 65.

28. Por que motivo, perguntam eles, visto que a partícula em se adapta tão bem ao Espírito, e é suficiente para exprimir todas as noções a seu respeito, introduzis esta nova partícula, dizendo: “com o Espírito”, e não: “no Espírito Santo”, utilizando termos desnecessários e não aprovados pelas normas das Igrejas? Já dissemos mais acima que não é fortuito o emprego de em relativamente ao Espírito Santo, e que a partícula é comum ao Pai e ao Filho.

29. Mas, acredito que suficientemente afirmei não somente que ela nada rouba à dignidade do Espírito, mas ainda, ao contrário, contribui para que tenham pensamentos sublimes os que não estão completamente no erro. Resta explicar de onde se origina a partícula com, qual seu sentido e como concorda com as Escrituras.

 

Capítulo 66.

30. Entre as verdades conservadas e anunciadas na Igreja, umas nós as recebemos por escrito e outras nos foram transmitidas nos mistérios, pela Tradição apostólica. Ambas as formas são igualmente válidas relativamente à piedade.

31. Ninguém que tiver, por pouco que seja, experiência das instituições eclesiásticas, há de contradizer. De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos, como desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões essenciais. Antes, transformaríamos o anúncio em palavras ocas.

32. Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epíclese” no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção?

33. Não nos bastam as palavras referidas pelo Apóstolo e pelo evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério oral, por terem grande importância para o mistério. Benzemos também a água batismal e o óleo do crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito?

34. Não é por causa da tradição secreta e mística? E então? Qual a palavra escrita que prescreveu a própria unção com o crisma? Donde se origina a tríplice imersão? De que trecho da Escritura provêm as cerimônias complementares do batismo, como a renúncia a Satanás e a seus anjos? Não se originam desta instrução particular e secreta, que nossos Pais guardaram num silêncio tranquilo e isento de inutilidades, cônscios de que assim salvaguardavam o caráter sagrado dos mistérios? Com efeito, como seria razoável divulgar por escrito aquilo que de forma alguma é permitido aos não-iniciados contemplar?

35. Qual o fim que tinha em mira o grande Moisés quando determinou que nem todas as partes do templo seriam acessíveis a todos? Estabeleceu que ficassem fora do recinto sagrado os profanos, permitindo apenas aos mais puros o acesso aos primeiros átrios, enquanto só os levitas foram considerados dignos do serviço divino.

36. Para os sacrifícios, porém, os holocaustos, e o restante desempenho do culto foram designados os sacerdotes. Não admitiu no santuário senão um só, escolhido dentre eles; além disso, não em qualquer tempo, mas apenas num só dia do ano, em hora determinada por ele, a fim de contemplar o Santo dos Santos com assombro, por ser evento estranho e insólito.

37. Em sua sabedoria, Moisés estava bem ciente de que facilmente se menospreza o que é habitual e de pronto acesso, enquanto uma raridade, conservada à parte, desperta como que naturalmente uma ardorosa procura. Foi igualmente desta forma que os Apóstolos e os Padres, que desde os primórdios dispuseram tudo o que se refere às Igrejas, sob silêncio e segredo conservaram também o caráter sagrado dos mistérios.

38. Pois já não é mistério absolutamente o que chega aos ouvidos do vulgo. É o seguinte o motivo da tradição não escrita: impedir que, por descuido, o conhecimento da doutrina seja menosprezado por muitos, devido à rotina. De fato, uma coisa é a doutrina, e outra o anúncio.

39. Cala-se a primeira, enquanto o anúncio é proclamado. Constitui igualmente uma forma de silêncio na obscuridade empregada nas Escrituras, que torna mais difícil à mente apreender a doutrina, para proveito dos leitores. Eis por que, apesar de todos nós olharmos para o Oriente ao rezarmos, poucos sabem que estamos procurando nossa antiga pátria, o paraíso que Deus plantou no Éden, na direção do Oriente (Gn 2,8).

40. De pé fazemos nossas orações, no primeiro dia da semana, mas nem todos conhecem a razão disso. Não é somente porque, ressuscitados com Cristo e devendo procurar as coisas do alto (Cl 3,1), relembramos, ao rezarmos de pé, o dia dedicado à ressurreição, a graça que nos foi dada, mas porque este dia parece ser, de algum modo, a imagem do século futuro. Visto que é o começo dos dias, Moisés não o denominou “primeiro”, e sim “um”: “Houve uma tarde e uma manhã: um dia” (Gn 1,5), como se muitas vezes voltasse o mesmo dia.

41. Ainda, esse dia “um” identifica-se com o oitavo, que significa por si mesmo o dia realmente único e verdadeiramente oitavo, que o salmista comemora no título de alguns salmos (Sl 6 e 12): a “catástasis” após este tempo, o dia sem fim que não terá tarde, nem amanhã, o século sem termo, sem envelhecimento.

42. Faz-se mister, pois, que a Igreja ensine seus filhos a rezar de pé, naquele dia, a fim de que, lembrados incessantemente da vida sem fim, não descuidemos de preparar o viático, em vista de nossa partida.

43. O período de cinquenta dias (Pentecostes) representa uma memória da esperada ressurreição no século futuro. Efetivamente, este dia que é um e primeiro, sete vezes sete, completa as sete semanas do santo período de Pentecostes, que começa do primeiro e termina por este, desenrolando-se nesse intervalo cinquenta vezes em dias semelhantes.

44. Assim, assemelha-se um tanto à eternidade, pois termina no ponto de onde começa, num movimento circular. Neste dia, é a posição ereta na oração que as leis da Igreja nos ensinaram a preferir. Essa memória tão evidente faz com que, de certo modo, a mente emigre do presente em direção ao futuro.

45. Doutro lado, cada vez que dobramos os joelhos e depois nos reerguemos, mostramos pelos gestos que o pecado nos jogou por terra e que o amor de nosso Criador para com os homens (philanthropía) novamente nos chamou para o céu.

 

Capítulo 67.

46. Um dia inteiro não nos bastaria se quiséssemos expor os mistérios da Igreja que não constam das Escrituras. Deixando de lado tudo mais, pergunto de quais passagens retiramos a profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo.

47. Se a extraímos da tradição batismal, de acordo com a piedade (pois devemos crer segundo a maneira como fomos batizados), para entregarmos uma profissão batismal, essencial ao batismo, consequentemente nos seja permitido também glorificar conforme nossa fé. Mas, se esta forma de dar glória nos é recusada, por não constar das Escrituras, sejam-nos mostradas provas escritas da profissão de fé e de todo o restante, que enumeramos.

48. Desde que há tantas coisas que não foram escritas, e coisas tão importantes para o mistério da piedade, ser-nos-á recusada uma só palavra, proveniente dos Pais, que nós vemos persistir por um uso espontâneo nas Igrejas isentas de desvios, uma palavra muito razoável, e que muito contribui para a força do mistério?

 

Capítulo 68.

49. Foi explicado o sentido de cada uma das expressões. Agora vamos expor em que pontos são concordantes e em que diferem. A oposição não faz com que se levante uma contra a outra, mas cada qual contribui para a piedade com seu sentido particular. Em antes demonstra o que para nós é relativo, enquanto com proclama a comunhão do Espírito com Deus.

50. Por conseguinte, usamos os dois termos: um para indicar a dignidade do Espírito, e o outro para anunciar a sua graça em nosso favor. Assim, glorificamos a Deus no Espírito e com o Espírito.

51. Nada falamos de nosso próprio alvitre, mas utilizamos uma palavra dos ensinamentos do Senhor, regra para nós, e a aplicamos a realidades entre si estreitamente ligadas, necessariamente unidas nos mistérios. Pois, o que é “co-enumerado” no batismo, julgamos necessário uni-lo também na fé.

52. Quanto à profissão de fé, nós a fizemos qual começo e origem da doxologia. Mas que fazer? Que eles agora nos convençam a não batizarmos como aprendemos; a não crer como fomos batizados; a não dar glória como acreditamos!

53. Demonstrem-nos, pois, que não existe sequência necessária, inquebrantável, ou ainda que inovar nesta questão não será tudo dissolver. Eles, contudo, não se cansam de repetir em tons altos e baixos que a doxologia com o Espírito Santo não é atestada, não se acha nas Escrituras etc. Já foi, porém, assegurado ser indiferente, quanto ao sentido, dizer: “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”, e: “Glória ao Pai e ao Filho, com o Espírito Santo”.

54. Não se pode, portanto, rejeitar ou apagar a partícula e, proferida pela boca do próprio Senhor, bem como nada impede de se aceitar a preposição equivalente. Demonstramos mais acima em que ela é diversa da outra, e em que ela se lhe assemelha.

55. Reforça o que dizemos o exemplo do Apóstolo, que emprega indiferentemente uma ou outra palavra, ora dizendo: “em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus” (1Cor 6,11), ora: “Estando vós e o meu espírito reunidos em assembleia com o poder do Senhor Jesus” (1Cor 5,4). É indiferente usar a conjunção ou a preposição para unir os Nomes.

 

 

O que você destaca neste texto?

Como serve para a sua espiritualidade?


Destaques do Texto: 


Palavra de Deus

Frequentemente a Palavra de Deus emprega nomes de seres corporais para noções espirituais, a fim de torná-las acessíveis. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 62)

 Lugar de Adoração

Qual é o holocausto espiritual? É o sacrifício de louvor. Em que lugar o ofereceremos? No Espírito Santo. Quem nos ensinou isso? O Senhor mesmo, que disse: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade” (Jo 4,23).  Jacó viu este lugar e disse: “Na verdade o Senhor está nesse lugar” (Gn 28,16). Assim, o Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos. Também o santo é lugar adequado para o Espírito, que se prontifica a habitá-lo com Deus, e dá a si mesmo o nome de templo de Deus. Ora, Paulo fala em Cristo: “Falamos, na presença de Deus, em Cristo” (2Cor 2,17). SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 62)

 

Espírito Santo - dignidade

Assim, quando pensamos na dignidade própria do Espírito, contemplamo-lo com o Pai e o Filho. Mas se refletimos sobre a graça produzida nos participantes dela, diz-se que o Espírito está em nós. A doxologia: no Espírito não é, pois, afirmação de sua dignidade, e sim confissão de nossa fraqueza. Mostramos que, por nós mesmos, somos incapazes de dar glória, mas podemos dá-la no Espírito Santo. Fortificados nele, damos graças a nosso Deus por seus benefícios. À medida que formos purificados do mal, uns mais, outros menos, recebemos o auxílio do Espírito para oferecermos hóstias de louvor a Deus. Desta forma piedosamente damos graças no Espírito. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 63)

 

Adoração e Lugar

Assim como no Filho se vê o Pai, assim vê-se o Filho no Espírito. Então, adorar no Espírito significa que nosso espírito age na luz, como se depreende do que foi dito à samaritana. Induzida em erro pelo costume de sua terra, pensava que se devia adorar em determinado lugar. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 64)

 Adoração e Lugar

Nosso Senhor desiludiu-a, dizendo ser necessário adorar em Espírito e verdade, e declarando ser ele mesmo indubitavelmente a verdade. Referimo-nos a uma adoração no Filho, Imagem de Deus Pai, e no Espírito, como sendo quem mostra em si a divindade do Senhor. Por isso, na adoração, o Espírito é inseparável do Pai e do Filho. Efetivamente, fora dele, não se adora absolutamente; quem está nele, de maneira alguma o separa de Deus, assim como a luz é inseparável das coisas visíveis. É impossível ver a Imagem do Deus invisível, a não ser por iluminação do Espírito.  SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 64)

 

 Tradição

De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos, como desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões essenciais. Antes, transformaríamos o anúncio em palavras ocas. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 

Tradição

Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epíclese” no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? Não nos bastam as palavras referidas pelo Apóstolo e pelo evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério oral, por terem grande importância para o mistério. Benzemos também a água batismal e o óleo do crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito?  Não é por causa da tradição secreta e mística? E então? Qual a palavra escrita que prescreveu a própria unção com o crisma? Donde se origina a tríplice imersão? De que trecho da Escritura provêm as cerimônias complementares do batismo, como a renúncia a Satanás e a seus anjos? Não se originam desta instrução particular e secreta, que nossos Pais guardaram num silêncio tranquilo e isento de inutilidades, cônscios de que assim salvaguardavam o caráter sagrado dos mistérios? SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 Tradição

Foi igualmente desta forma que os Apóstolos e os Padres, que desde os primórdios dispuseram tudo o que se refere às Igrejas, sob silêncio e segredo conservaram também o caráter sagrado dos mistérios. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 Tradição - Valor

É o seguinte o motivo da tradição não escrita: impedir que, por descuido, o conhecimento da doutrina seja menosprezado por muitos, devido à rotina. De fato, uma coisa é a doutrina, e outra o anúncio. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 Tradição e Oração virado para o oriente

Eis por que, apesar de todos nós olharmos para o Oriente ao rezarmos, poucos sabem que estamos procurando nossa antiga pátria, o paraíso que Deus plantou no Éden, na direção do Oriente (Gn 2,8). SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 Domingo

De pé fazemos nossas orações, no primeiro dia da semana, mas nem todos conhecem a razão disso. Não é somente porque, ressuscitados com Cristo e devendo procurar as coisas do alto (Cl 3,1), relembramos, ao rezarmos de pé, o dia dedicado à ressurreição, a graça que nos foi dada, mas porque este dia parece ser, de algum modo, a imagem do século futuro. Visto que é o começo dos dias, Moisés não o denominou “primeiro”, e sim “um”: “Houve uma tarde e uma manhã: um dia” (Gn 1,5), como se muitas vezes voltasse o mesmo dia. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 Domingo:

Ainda, esse dia “um” identifica-se com o oitavo, que significa por si mesmo o dia realmente único e verdadeiramente oitavo, que o salmista comemora no título de alguns salmos (Sl 6 e 12): a “catástasis” após este tempo, o dia sem fim que não terá tarde, nem amanhã, o século sem termo, sem envelhecimento.

Faz-se mister, pois, que a Igreja ensine seus filhos a rezar de pé, naquele dia, a fim de que, lembrados incessantemente da vida sem fim, não descuidemos de preparar o viático, em vista de nossa partida.

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 

Pentecostes

O período de cinquenta dias (Pentecostes) representa uma memória da esperada ressurreição no século futuro. Efetivamente, este dia que é um e primeiro, sete vezes sete, completa as sete semanas do santo período de Pentecostes, que começa do primeiro e termina por este, desenrolando-se nesse intervalo cinquenta vezes em dias semelhantes. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66).

 

Domingo – Oração ereta

Assim, assemelha-se um tanto à eternidade, pois termina no ponto de onde começa, num movimento circular. Neste dia, é a posição ereta na oração que as leis da Igreja nos ensinaram a preferir. Essa memória tão evidente faz com que, de certo modo, a mente emigre do presente em direção ao futuro. Doutro lado, cada vez que dobramos os joelhos e depois nos reerguemos, mostramos pelos gestos que o pecado nos jogou por terra e que o amor de nosso Criador para com os homens (philanthropía) novamente nos chamou para o céu. SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 66)

 

 Tradição:

Desde que há tantas coisas que não foram escritas, e coisas tão importantes para o mistério da piedade, ser-nos-á recusada uma só palavra, proveniente dos Pais, que nós vemos persistir por um uso espontâneo nas Igrejas isentas de desvios, uma palavra muito razoável, e que muito contribui para a força do mistério? SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379). Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulo 67)

 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

284 - SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379) - Tratado sobre o Espírito Santo - (Capítulos 52 - 56).

 

Demétrius, Nathalie Duarte, Edson e Fátina Valente


284

SÃO BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA

(330-379)

Tratado sobre o Espírito Santo (Capítulos 52 - 56)

 

Solicitação do Tratado: Bispo Anfilóquio de Icônio.

 

Basílio escreve: “Há pouco, estava orando com o povo. Glorificava a Deus Pai com ambas as formas de doxologia: ora com o Filho, com o Espírito Santo; ora pelo Filho, no Espírito Santo. Alguns dos presentes nos acusaram de empregar palavras estranhas e até contraditórias entre si. Tu, porém..., ...pediste um ensinamento bem claro sobre o alcance destas sílabas”.

 

21. Testemunhos das Escrituras que permitem dar ao Espírito a denominação de “Senhor”

 

Capítulo 52.

1.     Mas, que vale combater por meio de humilde argumentação, obtendo uma vitória inglória para a doutrina, quando é possível apresentar exemplos mais honrosos para demonstrar a excelência irrefutável da glória do Espírito?

2.     Se repetimos o que aprendemos da Escritura, talvez logo os adversários do Espírito comecem a clamar com intensidade e veemência, tapem os ouvidos, apanhem pedras ou o que estiver a seu alcance, e cada qual, fabricando as próprias armas, nos atacará.

3.     A segurança, contudo, não é preferível à verdade. Efetivamente, encontramos nos escritos do Apóstolo: “Que o Senhor conduza os vossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo nas tribulações” (2Ts 3,5).

4.     Quem é este “Senhor” que conduz “para o amor de Deus e a constância de Cristo nas tribulações”? Respondam-nos os que rebaixam o Espírito à condição de escravo.

5.     Se a locução se referisse ao Pai, ter-se-ia dito, absolutamente: “Que o Senhor vos conduza em seu amor”. Se fosse atinente ao Filho, ter-se-ia acrescentado: “em sua constância”.  Que eles procurem, então, quem será esta outra Pessoa, digna de ser honrada com o título de Senhor.

6.     Assemelha-se a esta a seguinte passagem: “A vós, porém, o Senhor faça crescer e ser ricos em amor mútuo e para com todos os homens, a exemplo do amor que nós vos temos.

7.     Queira ele confirmar os vossos corações numa santidade irrepreensível, aos olhos de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os santos” (1Ts 3,12-13).

8.     A qual “Senhor” pede o Apóstolo “queira confirmar o coração” dos fiéis de Tessalônica “numa santidade irrepreensível, aos olhos de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor?” Respondam-nos os que põem o Espírito Santo entre os “espíritos servidores, enviados a serviço” (Hb 1,14).

9.     Ora, eles nada podem replicar. Por isso, escutem também outro testemunho claro, que dá ao Espírito o nome de “Senhor”: “Pois o Senhor é Espírito” (2Cor 3,17).

10. E ainda: “Pela ação do Senhor, que é Espírito” (2Cor 3,18). Tendo em vista não dar oportunidade alguma de contradição, repito a passagem do Apóstolo: “Sim; até hoje, todas as vezes que leem o Antigo Testamento, este mesmo véu permanece.

11. Não é retirado, porque é em Cristo que ele desaparece… É somente pela conversão ao Senhor que o véu cai. Pois o Senhor é o Espírito” (2Cor 3,14.16-17).

12. Por que razão assim se exprime? Porque aquele que se apega à letra, e se limita às prescrições legais, tem o coração de certo modo velado por uma interpretação literal, à semelhança dos judeus.

13. Assim acontece devido à ignorância de que a observância material da Lei foi abolida por ocasião da vinda de Cristo, e enfim, que os tipos agora se transformaram em realidade.

14. As lâmpadas são desnecessárias quando aparece o sol; e a Lei é obsoleta, as profecias silenciam, ao manifestar-se a realidade.

15. Quem, contudo, for capaz de perscrutar o sentido profundo das prescrições legais, de retirar esta espécie de véu, a obscuridade da letra, e puder penetrar nestes mistérios, esse imita Moisés, que tira o véu para falar com Deus, retornando também ele da letra ao espírito.

16. Assim, a obscuridade dos ensinamentos da Lei é análoga ao véu que cobria a face de Moisés, e a ação de voltar-se para o Senhor corresponde à contemplação espiritual. Aquele que, na leitura da Lei contorna a letra, volta-se para o Senhor (aqui é o Espírito que recebe o nome de Senhor), e assemelha-se a Moisés, cuja face resplandecia diante da manifestação de Deus.

17. Os seres postos perto de cores brilhantes ficam também coloridos pelo fulgor que elas emitem; assim igualmente se alguém fixa intensamente o olhar no Espírito, a glória deste o transforma em algo de mais resplandecente, porque a verdade provinda do Espírito de certa maneira ilumina de cima o coração.

18. Nisto consiste ser transfigurado pela glória do Espírito em sua própria glória (Ex 34,34), não com parcimônia, nem imperceptivelmente, mas à medida que é capaz aquele que o Espírito ilumina.

19. Não te perturbes, ó homem, com a palavra do Apóstolo: “Sois o templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós” (1Cor 3,16). Por acaso, a habitação de um escravo foi honrada com o título de templo? Por que razão aquele que declara ter sido a Escritura “inspirada por Deus”, por ter sido escrita sob o sopro do Espírito Santo (2Tm 3,16), não emprega uma linguagem que o ultraje e rebaixe?

 

22. Prova-se possuir o Espírito comunhão de natureza com o Pai e o Filho, por ser tão difícil contemplá-lo quanto ao Pai e ao Filho.

 

Capítulo 53.

20. A superioridade de natureza do Espírito é cognoscível não apenas pelo fato de receber ele as mesmas denominações que o Pai e o Filho, mas ainda por ser igualmente tão difícil contemplá-lo.

21. Efetivamente, tendo sido dito acerca do Pai que ele ultrapassa toda compreensão humana, e do Filho também a mesma coisa, o Senhor fala de maneira idêntica sobre o Espírito Santo. “Pai justo, diz-se, o mundo não te conheceu” (Jo 17,25).

22. Aqui não se dá o nome de mundo ao universo, o céu e a terra, mas a esta vida perecível, sujeita a inúmeras mudanças. Sobre si mesmo, ele declara: “Ainda um pouco e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis” (Jo 14,19).

23. Aqui ainda ele chama de mundo a todos os que se acham apegados à vida material e carnal, que só acreditam no que seus olhos veem, e que por falta de fé na ressurreição de forma alguma hão de ver o Senhor com os olhos do coração.

24. Ele se referiu ao Espírito nos mesmos termos: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco” (Jo 14,17).

25. O homem carnal, porém, não tendo o espírito exercitado na contemplação, ou antes inteiramente sepultado num lamaçal, os pensamentos e as inclinações carnais (cf. Rm 8,6), não consegue erguer os olhos para a luz espiritual da verdade.

26. Por isso, o mundo, isto é, a vida sujeita às paixões carnais, não acolhe a graça do Espírito, assim como um olho doente não aceita a luz de raios do sol. Ao contrário, aos seus discípulos, o Senhor, após atestar terem eles a vida purificada por meio de seus ensinamentos, desde agora fá-los alcançar a contemplação dos mais altos mistérios do Espírito.

27. “Vós já estais puros, por causa da palavra que vos fiz ouvir” (Jo 15,3). Ora, “o mundo não o pode acolher, porque não o vê. Vós o conheceis, porque permanece convosco” (Jo 14,17). O mesmo diz Isaías: “Firmou a terra e tudo o que dela brota, deu o alento aos que a povoam, e o Espírito aos que a calcam aos pés” (Is 42,5).

28. Com efeito, os que calcam aos pés as coisas terrestres e se elevam acima delas, são dignos das dádivas do Espírito Santo, conforme atesta a Escritura. Que pensar ou que honras tributar àquele que o mundo não pode conter, e que somente os santos, devido à pureza do próprio coração, podem contemplar?

 

23. Enumerar as denominações do Espírito é também glorificá-lo

 

Capítulo 54.

29. Acredita-se que, das outras potências, cada qual se encontra em determinado lugar. Pois o anjo que apareceu a Cornélio não se achava simultaneamente junto de Filipe (At 8,26; 10,3), nem o que falava junto do altar com Zacarias (Lc 1,11ss) ocupava no mesmo instante seu lugar no céu. Quanto ao Espírito, ao contrário, acredita-se que simultaneamente agia a favor de Habacuc e de Daniel em Babilônia (Dn 14,33) e que estava junto à grade levadiça com Jeremias (Jr 20,2) e com Ezequiel às margens do Cobar (Ez 1,1).

30. Pois “o Espírito do Senhor enche o universo” (Sb 1,7), e: “Para onde ir, longe do teu Espírito? Para onde fugir, longe da tua presença?” (Sl 138,7). E o profeta: “Porque eu estou convosco — oráculo do Senhor — e o meu Espírito permanecerá entre vós” (Ag 2,5-6).

31. Mas, de que natureza cremos ser aquele que se acha em toda a parte, e está sempre com Deus? De uma natureza que envolve todas as coisas, ou de uma natureza circunscrita a algum lugar, como a Palavra de Deus nos mostra ser a dos anjos? Quem afirmaria tal coisa? Não haveremos de engrandecer, de glorificar aquele que é divino por natureza, ilimitado em grandeza, poderoso em obras, bom em seus benefícios?

32. A meu ver, glorificar não é outra coisa senão enumerar suas admiráveis denominações. Consequentemente, se eles nos constrangerem a não relembrar os benefícios do Espírito, ou efetivamente a não aludir a seus títulos, isso constituirá o mais acabado louvor. De fato, não podemos glorificar a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e a seu Filho Unigênito de outra forma a não ser, na medida de nossas forças, narrando minuciosamente as maravilhas do Espí rito.

 

24. Refutação do absurdo daqueles que não louvam o Espírito, e o equiparam a criaturas que foram glorificadas.

Capítulo 55.

33. O homem, em geral, é “coroado de glória e de honra” (Sl 8,6), e “glória, honra e paz são para todo aquele que pratica o bem” (Rm 2,10).Existe, porém, uma glória peculiar a Israel”, a quem, diz o Apóstolo, pertencem “a adoção filial, a glória e o culto” (Rm 9,4).

34. O salmista fala de sua própria glória: “Por isso minha glória canta a ti” (Sl 29,13) e: “Vamos, glória minha” (Sl 107,2). “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas” (1Cor 15,41) e de acordo com o Apóstolo, também “o ministério da condenação foi glorioso” (2Cor 3,9).

35. Se são tantos os seres glorificados, queres que  somente o Espírito careça de glória? No entanto, diz o Apóstolo: “Será glorioso o ministério do Espírito” (2Cor 3,9). Então o Espírito não é digno de ser glorificado? Segundo o salmista, é grande a glória do justo (Sl 20,6).

36. Em tua opinião, seria nula a glória do Espírito? Então, não será certo o perigo de contrairmos com tais palavras o pecado irremissível? Se o homem salvo por meio de obras de justiça, glorifica até mesmo os homens tementes ao Senhor, com maior razão não pode recusar ao Espírito a glória que lhe cabe. — Está bem, respondem eles, seja glorificado, não, porém, com o Pai e o Filho. Que motivo têm eles para imaginar outra colocação para o Espírito, deixando de lado a determinada pelo Senhor?

37. Qual a razão de privar da glória comum quem se acha unido à divindade em tudo: profissão da fé, batismo da redenção, realização dos milagres, inabitação na alma dos santos, e graças outorgadas aos dóceis? Efetivamente, não provém à criatura dom algum a não ser do Espírito, porque, a não ser que coopere o Espírito, nem mesmo uma simples palavra a favor de Cristo pode ser proferida, conforme nos evangelhos (Mt 10,20; Lc 12,11-12) nosso Senhor e Salvador nos ensinou.

38. Não me consta ter a aprovação daqueles que “receberam o Espírito Santo” (Hb 6,4) quem menospreza tudo isto, e esquecido da comunhão integral do Espírito, separa-se do Pai e do Filho. Onde, então, o poremos? Entre as criaturas?

39. Mas, elas todas são servas, enquanto o Espírito liberta da escravidão, porque “onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17). Seria possível falar ainda longamente a fim de demonstrar que não convém contar o Espírito Santo entre as naturezas criadas. Adio no momento discorrer sobre o problema.

40. Se fosse preciso, diante da importância da questão, apresentar provas, e solucionar as objeções dos adversários, teríamos de fazer muitas exposições e cansaríamos os leitores com a extensão do livro. Por isso, reservando exclusivamente para tal outra obra, prossigamos tratando de nosso assunto.

 

Capítulo 56.

41. Examinemos cada coisa por si. O Espírito por natureza é bom, como bom é o Pai, e bom é o Filho. A criatura, porém, optando pelo bem, participa daquela bondade. O Espírito conhece as profundezas de Deus, enquanto a criatura recebe pelo Espírito a revelação dos mistérios.

42. Ele vivifica, juntamente com Deus, que dá vida a todo ser vivo e com o Filho, que comunica a vida, pois, como diz o Apóstolo: “Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito, que habita em vós” (Rm 8,11).

43. Diz a Escritura: “Minhas ovelhas escutam a minha voz… e eu lhes dou a vida eterna” (Jo 10,27.28). E ainda: “O Espírito é que vivifica” (Jo 6,63). E o Apóstolo: “Mas, o Espírito é vida, pela justiça” (Rm 8,10). Também o Senhor atesta que o Espírito é vivificador: “A carne para nada serve” (Jo 6,63).

44. Como, então, retirar do Espírito o poder vivificador, equiparando-o à natureza carente de vida? Quem é a tal ponto contestador, tão alheio ao dom celeste, tão sem gosto pelas belas palavras de Deus, de tal modo privado das esperanças eternas que alinhe o Espírito com a criatura, arrancando-o da divindade?

 

Capítulo 57.

45. Afirmam os adversários: — O Espírito está em nós, como um dom da parte de Deus. Sem dúvida, não se prestam ao dom as mesmas honras que ao doador. — Certamente, o Espírito é dom de Deus, mas é dom de vida, considerando-se que, conforme afirma o Apóstolo, “a Lei do Espírito da vida nos libertou” (Rm 8,2).

46. É também dom de fortaleza, pois “o Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força” (At 1,8). Seria desprezível por isso? Deus não doou também o Filho aos homens? De fato, diz o Apóstolo: “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de agraciar em tudo com ele?” (Rm 8,32).

47. E em outra passagem: “A fim de que conheçamos os dons da graça de Deus” (1Cor 2,12). Assim fala, referindo-se ao mistério da encarnação. Como não ver que aqueles que se exprimem desta maneira suplantam os judeus em ingratidão, visto que a excessiva bondade de Deus lhes fornece ocasião de blasfêmia? Acusam o Espírito de nos dar a ousadia de chamar a Deus de Pai. Com efeito, “enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: ‘Abba, Pai’ ” (Gl 4,6), a fim de que a voz do Espírito se torne a voz daqueles que o receberam.

 

25. A Escritura substitui às vezes em por com. A partícula em tem sentido idêntico à

partícula com

 

Capítulo 58.

48. Por que razão, dizem eles, a Escritura jamais ensinou que o Espírito deve ser glorificado com o Pai e o Filho? Por que motivo cuidadosamente evita dizer: com o Espírito? Por que prefere, como sendo mais conveniente, glorificar sempre dizendo: no Espírito? Não ouso, porém, assegurar que a partícula no terá sentido menos honroso; mas, ao invés, sendo retamente entendida, eleva o pensamento de modo sublime.

49. Observamos também que é muitas vezes empregada em lugar da preposição com. Assim acontece na passagem: “Entrarei em tua casa em holocaustos”, em vez de: “com holocaustos” (Sl 65,13). E: “Fê-los sair em ouro e prata”, isto é, “com ouro e prata” (Sl 104,37). Também: “Já não sais em nossos exércitos”, a saber, “com nossos exércitos” (Sl 43,10) e uma porção de frases semelhantes. Enfim, gostaria de aprender desta nova sabedoria em que doxologia o Apóstolo usa a partícula em, de acordo com a norma que eles agora estabelecem como provinda da Escritura. Jamais encontrei formulado: “A ti, ó Pai, a honra e a glória, por teu Filho Unigênito, no Santo Espírito”, conforme agora, diz se, lhes é mais habitual do que a respiração.

50. Encontra-se, de fato, cada uma dessas preposições isoladas, mas eles não podem de forma alguma apresentá-las juntas, naquela ordem. Por conseguinte, se eles falam exatamente como está escrito, que nos apresentem as passagens em que se baseiam. Mas se seguem apenas um costume, não nos impeçam de fazer o mesmo.

 

Capítulo 59.

51. Ora, nós encontramos as duas fórmulas em uso entre os fiéis, e empregamos a ambas. Acreditamos prestar com elas igualmente glória ao Espírito e fechar a boca dos que prejudicam a verdade mais facilmente com o uso da palavra com. Esta exprime melhor o sentido das Escrituras, presta-se menos aos ataques dos adversários (é ela que é controvertida) e substitui a conjunção e. É indiferente empregar: “Paulo e Silvano e Timóteo” ou: “Paulo com Timóteo e Silvano”.

52. A ligação entre os nomes salva-se igualmente em ambas as expressões. Se, portanto, o Senhor nos diz: Pai e Filho e Espírito Santo, se eu disser: “Pai e Filho com o Espírito Santo” terei dito algo de sentido diverso? Inúmeros são os testemunhos em que esses nomes são ligados pela conjunção e. Diz o Apóstolo: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo” (2Cor 13,13).

53. E em outro lugar: “Eu vos peço por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito” (Rm 15,30). Se em lugar da conjunção e quiséssemos usar a partícula com, que diferença haveria?

54. De minha parte, não vejo, a menos que as frias regras gramaticais prefiram a conjunção copulativa, como se produzisse maior união, e rejeite a preposição, como não tendo a mesma força. Mas, se tivéssemos de prestar contas a este respeito, sem dúvida não necessitaríamos de longa defesa. Com efeito, não se trata de discussão acerca de sílabas, nem de tal e tal som, e sim de questões diversas, quanto ao sentido e à realidade.

55. Por isso, embora seja indiferente o uso destas partículas, nossos adversários se empenham por fazer com que a Igreja adote oficialmente umas e exclua outras. Quanto a mim, apresentarei o motivo por que nossos Pais razoavelmente e em comum adotaram o uso desta preposição, embora logo se torne evidente a sua utilidade.

56. Pois, se esta preposição com refuta o erro de Sabélio com tanta força como a conjunção e, se de maneira semelhante apresenta a particularidade das hipóstases, como acontece na seguinte passagem: “E a ele viremos” eu e o Pai (Jo 14,23) e: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), ela atesta de maneira extraordinária a comunhão eterna e a união sem fim. Efetivamente, quem declara que o Filho é com o Pai, assinala simultaneamente a propriedade das hipóstases e sua inseparável comunhão. Mesmo nas realidades humanas verifica-se isto.

57. A conjunção e indica ação comum, enquanto a preposição com também marca uma espécie de sociedade.  Por exemplo: “Paulo e Timóteo navegaram para a Macedônia, mas Tíquico e Onésimo foram enviados a Colossas”.  Ficamos assim cientes de que eles fizeram a mesma coisa. Se, porém, ouvimos dizer que navegaram um com o outro e que foram enviados um com o outro, ficaríamos sabendo que haviam juntos realizado tal ação.

58. Desta forma, eliminando, como nenhuma outra palavra o faria, o erro de Sabélio, a preposição ainda destrói a impiedade diametralmente oposta. Refiro-me à que introduz separação temporal entre o Filho e o Pai, e entre o Espírito Santo e o Filho.

 

Capítulo 60.

59. Afinal, a partícula com diferencia-se de em principalmente por indicar união mútua de seres que vivem em comum, por exemplo, que juntos navegam, que habitam unidos, que fazem em conjunto qualquer obra que executem. Ao invés, em indica a relação existente entre os que agem e o lugar onde se encontram. Ao ouvirmos dizer: “Navegam em” e “habitam em”, logo se pensa num barco ou numa casa. Tal é, na linguagem comum, a diferença entre essas partículas, mas os estudiosos poderão descobrir maior diversidade.

60. Quanto a mim, não tenho tempo para examinar a fundo essas partículas. Uma vez, portanto, que foi demonstrado conter a partícula com o conceito de união, de maneira muito significativa, con cedei-nos, por favor, uma trégua e cessai a implacável e penosa guerra contra ela. Por conseguinte, apesar de ser um termo bem empregado, se aprouver a alguém unir os nomes pela partícula e na Doxologia e glorificar o Pai e o Filho e o Espírito Santo, como o evangelho nos ensina acerca do batismo, ninguém o contradirá.

61.  Acerca disso, se lhe aprouver, concordemos. Mas, eles prefeririam arrancar  a língua do que aceitar esta palavra. Aí está o que os incita a uma guerra implacável e sem tréguas. É “no Espírito Santo”, afirmam eles, que se há de formular a Doxologia a Deus, e não: “E ao Espírito”. Apegando-se ardorosamente a esta palavra, como rebaixam eles o Espírito!

62. Por isso, não é ocioso fazer a esse respeito discurso mais longo. Se eles ouvirem o que expusemos, ficaríamos surpresos se eles não considerassem traição abandonar esta

expressão, para darem glória ao Espírito.

 

O que você destaca neste texto?

Como serve para a sua espiritualidade?