segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

123 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 35)


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123
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 35)



HOMILIA 35 - Lc 12.58,59
Sobre o que está escrito: “Quando te diriges com teu adversário”, e a sequência, até a passagem que diz: “até pagares o último centavo”.

Parábola do julgamento
Se não houvesse em nossa natureza um sentido inato para apreciar a justiça, jamais o Salvador teria dito: “Por que, porém, não julgais por vós mesmos o que é justo?”
Para que não nos estendamos muito longamente no exame desse pensamento, sobretudo porque questões muito mais difíceis estão atreladas a este capítulo, ser-nos-á suficiente apenas deter-nos no significado da passagem.
Estendamos as velas de nossas almas para Deus e roguemos a vinda de sua Palavra a fim de interpretar esta parábola da Escritura, que diz: “Quando tu vais com teu adversário diante de um príncipe, no caminho, encarrega-te de te livrares dele, para que ele não te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao executor e que sejas enviado para o cárcere. Em verdade, eu te digo que não sairás daí até que devolvas o último centavo”.
Vejo serem citados quatro personagens: o adversário, o príncipe, o juiz e o executor. E que o evangelista Mateus parece ter expressado um pensamento semelhante quando diz: “Faça acordo com teu adversário enquanto caminhas com ele”.
Busco saber se aí há o mesmo sentido que no texto de Lucas ou se há alguma proximidade, já que, no texto de Mateus, com efeito, uma personagem foi omitida e a outra, mudada.
“Príncipe” é omitido e, em vez do “executor”, “o guarda” foi inserido, enquanto “o adversário” e “o juiz” foram igualmente mencionados nos dois textos.
“Com o nosso adversário” vamos, então, encontrar “o príncipe”; enquanto estamos “a caminho”, é necessário que lutemos com coragem para que nos livremos dele.
Mas nos livrar de quem? De fato, a palavra é ambígua e pode tanto referir-se ao príncipe quanto ao adversário: “receando que”, seja o adversário, seja o príncipe, “te entregue ao juiz, e que o juiz te entregue ao executor”; e: “não sairás daí enquanto não devolveres o último centavo”, por cujas palavras Mateus diz: “até que devolvas o último quarto de asse”.
Os dois evangelistas conservaram a palavra “último”, porém pareceram estar em desacordo, porque este citou “quarto de asse”, aquele, a palavra “centavo”.

Os bons e os maus anjos
Devo tocar algumas verdades mais misteriosas, para que possamos compreender que o adversário e os outros três personagens, isto é, o príncipe, o juiz e o executor, representam cada um uma pessoa diferente.
Lemos – se se quer receber este tipo de escritura – que os anjos da justiça e os da iniquidade discutem sobre a salvação e a perda de Abraão, enquanto as duas turmas querem reivindicar a presença do patriarca para sua própria peleja.
Se isso desagrada a alguém, que esse alguém passe ao volume intitulado “O Pastor” e aí encontrará que para todo homem há dois anjos: um mau, que o incita ao mal, e um bom, que persuade a todas as coisas melhores.
Está escrito em outra parte que dois anjos assistem os homens, seja para a boa parte, seja para a má.
O Salvador faz também menção dos bons anjos, quando diz: “Seus anjos veem sempre a face de meu Pai, que está nos céus”.
Ao mesmo tempo, pergunta se os anjos dos pequeninos que pertencem à Igreja “veem sempre a face do Pai”, enquanto os anjos de outros não têm a liberdade de olhar o rosto do Pai.
Não se deve esperar, pois, que os anjos de todos sempre vejam “a face do Pai, que está nos céus”.
Se eu pertencer à Igreja, ainda que eu seja o menor de todos, o meu anjo tem a liberdade e a certeza de ver “a face do Pai, que está nos céus”.
Se, porém, eu estiver de fora e não for daquela Igreja “que não tem mancha nem ruga nem nenhum defeito dessa espécie”, e, por isso mesmo, ficar provado que sou estranho a tal congregação, meu anjo não tem a certeza de ter os olhos voltados para o “rosto do Pai, que está nos céus”.
Por isso, os anjos são solícitos para os bons, os quais sabem que, se nos tiverem dirigido bem e nos tiverem conduzido à salvação, eles próprios terão a certeza de ver “a face do Pai”.
Se, com efeito, através de seus cuidados e seu zelo, a salvação é adquirida para os homens, eles veem sempre “a face do Pai”.
Assim, se, pela negligência deles, o homem tiver vindo à queda, eles não ignoram que a coisa não será isenta de perigo para eles.
Do mesmo modo, um bom bispo e um excelente administrador da Igreja sabem que cabe a seu mérito e virtude que as ovelhas do rebanho a ele confiadas sejam guardadas.
Compreende, então, que assim o é para os anjos. É uma ignomínia para um anjo se o homem a ele confiado tiver pecado. Ao contrário, é uma glória para um anjo se o homem que lhe é confiado, seja ele o menor de todos os que houver na Igreja, fizer progressos.
Eles verão, com efeito, não uma vez ou outra, mas sempre “a face do Pai, que está nos céus”, enquanto os outros não a verão sempre.
Segundo o mérito daqueles que dirigem, os anjos contemplarão sempre ou nunca, ou então com maior ou menor intensidade a face de Deus.
Deus tem um conhecimento claro desse mistério, e, ainda que dificilmente, também o pode ter aquele que for encontrado tendo sido instruído por Cristo.

O adversário
Vejamos, pois, primeiramente, quem é “o adversário”, com o qual fazemos nosso caminho.
O adversário está sempre conosco, infelizes e miseráveis que somos. Cada vez que pecamos, nosso adversário exulta ao saber, visto que tem a faculdade de exultar-se e vangloriar-se, junto ao príncipe deste mundo, que o tinha enviado; razão pela qual, o adversário de um ou de outro, por exemplo, tornou tanto um quanto o outro sujeitos ao príncipe deste mundo, por causa de seus pecados, por causa de tantos pecados, por este delito ou por aquele.
Mas sucede, às vezes, que, se alguém estiver preparado com a armadura de Deus e protegido de todas as partes, o adversário tentará, evidentemente, infligir uma ferida, mas não terá a possibilidade de golpear.
O adversário caminha sempre conosco, nunca nos abandonará; ele busca a ocasião de nos colocar armadilhas e o modo de poder derrubar-nos, fazendo-nos submeter um mau pensamento no fundo de nosso coração.

O príncipe
“Quando tu vais ao encontro do príncipe.” Quem é, pois, esse príncipe? “Quando o Altíssimo dividia os povos, quando ele espalhava os filhos de Adão, ele fixou os limites dos povos segundo o número dos anjos de Deus.
A parte de Deus foi seu povo, Jacó, e a extensão de sua herança, Israel.” Então, desde as origens, a terra foi dividida entre os príncipes, isto é, os anjos.
Daniel, de fato, atesta claramente que aqueles que Moisés tinha nomeado de anjos são chamados de “príncipes”, dizendo: “o príncipe do reino dos Persas”, diz ele, “o príncipe do reino dos gregos e Miguel, vosso príncipe”.
Os anjos são, portanto, os príncipes das nações. E cada um de nós tem um adversário unido a si; sua tarefa é conduzi-lo a um príncipe e dizer-lhe: “Príncipe do reino dos Persas”, por exemplo, “aquele que era teu súdito, eu o guardei, como ele era, para ti; nenhum dos outros príncipes pôde atraí-lo para si, nem sequer aquele que se gabava de ter vindo para isto: para arrancar os homens à dominação dos Persas ou dos gregos e de todas as nações, para fazer deles os súditos da herança de Deus.
O Cristo nosso Senhor venceu todos os príncipes e, atravessando suas fronteiras, atraiu para si os povos cativos, para a sua salvação.
Também tu pertencias ao partido de um príncipe. Jesus veio e te arrancou do poder do mal e ofereceu-te a Deus Pai.
Assim nosso adversário caminha, conduzindo-nos ao seu príncipe. Por isso, eu, crendo que todas as palavras das Escrituras têm uma razão de ser, penso que não foi em vão que, entre os gregos, “juiz” tenha sido citado com o artigo [definido] “o”, que é significante de singularidade, enquanto “príncipe” foi, pura e simplesmente, escrito sem artigo [definido].
“Quando, diz a Escritura, vais com teu adversário”, significativamente diz “teu”.
Não todos, com efeito, são adversários de todos; cada um tem seu adversário particular, que o segue por toda parte como um companheiro.
“Quando tu vais com teu adversário ao encontro de um príncipe”, a palavra príncipe não é precedida do artigo [definido] “o”, para que não parecesse indicar uma personagem determinada, mas a ausência do artigo [definido] mostra que se trata de um príncipe entre vários outros, o que é melhor entendido pelos gregos.
Com efeito, não cada um de nós tem um príncipe próprio, mas se alguém é egípcio, depende do príncipe do Egito; o sírio é súdito do príncipe dos sírios; e cada um é súdito do príncipe de sua nação. Basta-me ficar por aqui; não há necessidade alguma de estender essa discussão, enumerando igualmente todas as outras nações. Assim é dito: “Vede Israel segundo a carne”.
Para o sábio, ter começado é ter dito; talvez seja mesmo temerário ter começado a tratar de semelhante assunto em público.
Diz a Escritura, quem quer conduzir-te a seu príncipe e fazer-te mudar de mestre, “quando tu vais com teu adversário ao encontro de um príncipe, pelo caminho, esforça-te para que te livres dele”.
Se, com efeito, não lutares com todos os teus esforços para que sejas livrado dele, enquanto ainda percorres o caminho, antes que entres na casa de um príncipe, antes que tal príncipe te entregue ao juiz, em vão farás tuas tentativas depois que o adversário preparou-te para que fosses entregue.
“Esforça-te, pois, para que te livres” do teu adversário ou do príncipe, para quem te arrasta o adversário. Faz teu esforço para que tenhas a sabedoria, a justiça, a força, a temperança, e então se cumprirá a palavra: “eis o homem, seus trabalhos estão diante de seu rosto”.
Se não fizeres esforços, não poderás quebrar o pacto de teu adversário, cuja “amizade é inimizade contra Deus”. “Quando vais com teu adversário ao encontro de um príncipe, no caminho, esforça-te.”
Nessa passagem “no caminho, esforça-te” está oculta amiúde não sei qual verdade, e há um mistério.
O Salvador diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Se fizeres o esforço para te livrares do adversário, estarás no caminho. Quando te ativeres àquele que diz: “eu sou o caminho”, “esforça-te para te livrares” do adversário; não basta ter-se dedicado.
Se não fizeres o esforço, com efeito, para que te livres do adversário, escuta o que te acontecerá: o adversário “te arrasta ao encontro do juiz”, ou então o príncipe, quando te tiver recebido em sua casa pelo adversário, “te arrasta ao encontro do juiz”.
“Arrasta” é um termo bem escolhido para mostrar, de certo modo, como aqueles que se esquivam e não querem ser arrastados para a condenação são obrigados a comparecer diante dela.
Qual homicida, com efeito, comparece à corte judicial com passo ligeiro? Quem se apressa na alegria de ir à sua própria condenação e não é arrastado contra a sua vontade e insurgindo-se? Pois ele sabe que comparece para receber sua sentença de morte.

O juiz
“Para que ele não te arraste à corte judicial.” A teu ver, quem é esse juiz? Eu não conheço outro juiz senão Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual é dito em outra parte: “Ele porá as ovelhas à direita e os bodes à esquerda”.
E novamente: “Quem tiver confessado a mim diante dos homens, eu o confessarei também diante de meu Pai que está nos céus; quem, porém, tiver me negado diante dos homens, eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus”.
“Para que ele não te arraste à corte judicial, e o juiz te entregue ao executor.” Cada um de nós, através de cada pecado, sofre uma pena, e a intensidade da pena é medida segundo a qualidade e a natureza das faltas.
Devo trazer um testemunho da Escritura a respeito da pena e da multa pecuniária.
Um é condenado a pagar quinhentos denários e ele os deve, outro é condenado a cinquenta denários, quantias que a ambos é retirada pelo credor.
Depois, outro, segundo a Escritura, “foi-lhe apresentado, e esse devia dez mil talentos”; e ele foi condenado a pagar dez mil talentos.
Que necessidade há que eu continue com vários exemplos? Segundo a natureza e o número dos pecados, cada um recebe uma condenação a uma multa diferente. Se teu pecado é pequeno, serás golpeado com uma pena “de um centavo”, como escreve Lucas; ou “de um quarto de asse”, segundo Mateus.
É, entretanto, indispensável pagar também essa pequena quantia, da qual te mostraste devedor, pois tu não sairás do cárcere antes de teres pagado mesmo as menores quantias.
Todavia, aquele que é fiel não é golpeado com nenhuma pena, mas se enriquece a cada dia, “uma profusão de riquezas lhe pertence, enquanto o infiel não tem um óbolo sequer”.
Um é condenado por um denário; outro, por uma mina; outro, por um talento.
O juiz desse negócio, que conhece a importância de todos os pecados, também diria: “Essa falta é condenada por um talento; aquele pecado merece uma multa desse tipo”.
Pois está escrito: “Quando, porém, ele começasse o acerto de contas”. O cômputo deve ser calculado para todos nós.
Não há outro tempo para calcular o cômputo senão o tempo do julgamento, quando será conhecido como líquido o que nos tenha creditado e o que tenhamos feito de lucro ou de prejuízo. Entre nós haverá quem receba uma mina; quem um único talento; quem dois; quem cinco.
Que necessidade há de trazer à memória mais detalhes, visto que basta ter dito isto de modo geral, que haveremos de devolver o pagamento de nossas contas e que, se formos identificados como devedores, seremos arrastados à corte judicial e entregues pelo juiz ao executor?

O executor
Temos, cada um de nós, nossos próprios executores; mas toda multidão é entregue a vários executores, segundo o que está escrito em Isaías: “Meu povo, vossos executores vos pilham e os poderosos reinam sobre vós”.
Os executores são nossos mestres, se somos devedores. Se, porém, tivermos confiança, se pudermos dizer de cabeça erguida: “Guardei o preceito que ordena: ‘devolvei a todos o que lhes é devido; a quem o tributo, o tributo; a quem o temor, o temor, a quem as taxas, as taxas; a quem a honra, a honra” – se a todos eu tiver devolvido tudo o que lhes devia –, então vou encontrar o executor e respondo-lhe com pensamento intrépido: nada te devo.
O executor volta a seu cargo e lhe resisto; pois sei que, se não terei devido nada, ele não tem nenhum poder sobre mim; mas, se eu sou devedor, “meu executor me mandará para o cárcere”, segundo o processo que foi predito: o adversário me conduz ao encontro do príncipe; o príncipe, à corte judicial; o juiz me entregará ao executor; o executor me mandará para o cárcere.
Qual é a lei desse cárcere? Não sairei dele; o executor não me deixará sair se eu não tiver pago toda a minha dívida.
O executor nãotem o poder de me conceder o perdão de nem mesmo um “quarto de asse”, nem mesmo “a menor” quantia.
Há apenas um que pode perdoar aos devedores que não tenham com que saldar suas dívidas.
“Um”, diz a Escritura, “que devia quinhentos denários aproximou-se dele, e um que devia cinquenta; e como não tivessem com que quitar suas dívidas, a ambos perdoou”.
Quem perdoou era o Senhor; mas o Senhor não é o executor; o executor é o preposto pelo Senhor para exigir as dívidas.
Não foste digno que te perdoassem quinhentos ou cinquenta denários, nem mereceste ouvir: “Teus pecados te foram remidos”; serás mandado para o cárcere e lá serás obrigado a pagar pelo trabalho e pelas tarefas a cumprir; ou, então,penas e suplícios; e de lá não sairás, se não tiveres saldado o “quarto de asse” ou o “último lépton”, que em grego significa “leve”.
Entre nossos pecados, alguns são grossos, como está escrito: “O coração deste povo se tornou espesso”; outros, em comparação com os pecados mais graves, são leves e ínfimos.
Bem-aventurado primeiramente aquele que não peca e, em segundo lugar, se ele peca, quando se contará suas faltas, possa ele ter apenas um pecado leve.
Mas há igualmente diferenças entre as faltas leves e ínfimas, pois, se no domínio das faltas leves e ínfimas não houvesse mais e menos, nunca o Evangelho teria dito: “Tu não sairás de lá até que tenhas devolvido o último quarto de asse”.
Mas não posso dizer claramente isto: se fosse necessário entender a expressão “o último centavo” como referida a uma quantia de dinheiro – uma quantia bem pequena, quer dizer um denário, ou um escudo, ou um óbolo, ou um estáter –, qual a natureza do que pagaremos, se devemos uma grande quantia de dinheiro, como no caso daquele do qual está escrito que devia mil talentos; ou, enfim, a duração do tempo no qual ficaremos encerrados no cárcere, até que saldemos nossa dívida.
Com efeito, se aquele que deve pouco não sai do cárcere antes de ter pago “o mínimo quarto de asse”, o devedor responsável por uma grande quantia verá ser contado um número infinito de séculos para pagar sua dívida.
É por essa razão que devemos “nos esforçar, para que nos livremos de nosso adversário”, enquanto estamos no caminho, e unamo-nos ao Senhor Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

122 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 34)


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122
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 34)


HOMILIA 34 - Lc 10.25-37
Sobre o que está escrito: “Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” até aquela passagem em que é dito: “Vá, e tu também faz o mesmo”.

A parábola do bom samaritano
Embora haja muitos preceitos na Lei, o Salvador colocou no Evangelho apenas estes que, em uma espécie de resumo, conduzissem os que os observam à vida eterna.
É a isso, com efeito, que se refere uma pergunta que lhe havia dirigido um doutor da Lei, dizendo: “Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” Essa leitura segundo [São] Lucas vos foi recitada hoje. Jesus respondeu: “O que está escrito na Lei? O que lês lá?
Tu amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, com todas as tuas forças, de toda a tua alma; e a teu próximo como a ti mesmo”.
E em seguida, Jesus diz: “Respondeste bem, faz isto e viverás”. Sem nenhuma dúvida, se trata da vida eterna, sobre a qual também o doutor da Lei havia interrogado e que havia sido o conteúdo das palavras do Salvador.
Ao mesmo tempo, somos instruídos de modo totalmente claro pelo preceito da Lei a amarmos a Deus.
No Deuteronômio, Deus nos fala: “Escuta, Israel, o Senhor teu Deus é o único Deus”, e “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” e a sequência, e “ao próximo como a ti mesmo”.
E o Salvador prestou testemunho a essas verdades, dizendo: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas”.
O doutor da Lei, porém, “querendo justificar-se a si mesmo” e mostrar que ninguém era seu próximo, diz: “Quem é meu próximo?”.
O Senhor, então, apresentou a parábola, cujo início é: “Um certo homem descia de Jerusalém para Jericó”, e a sequência. E ensina que aquele que descia não foi próximo de ninguém, senão daquele que quis guardar os mandamentos e preparar-se para ser o próximo de todo homem que necessita de auxílio.
É isso, com efeito, que é colocado no fim, depois da parábola: “Qual destes três te parece ser o próximo daquele que caiu na mão dos ladrões?” Com efeito, nem o sacerdote, nem o levita foram seus próximos, mas, como o próprio doutor da Lei também respondeu, foi seu próximo “aquele que praticou a misericórdia”.
Daí também é dito pelo Salvador: “Vai, faz tu também de modo semelhante”.

Interpretação tradicional da parábola
Dizia alguém entre os presbíteros, querendo interpretar a parábola, que o homem que descia representa Adão; Jerusalém, o paraíso; Jericó, o mundo; os ladrões, as potências inimigas; o sacerdote, a Lei; o levita, os profetas; o samaritano, o Cristo.
Mas as feridas devem ser interpretadas como a desobediência; a montaria, o corpo do Senhor; o “pandochium”, isto é, o albergue que acolhe a todos os que querem aí entrar, a Igreja.
Além disso, os dois denários devem ser entendidos como o Pai e o Filho; o albergueiro, o chefe da Igreja, a quem é confiada a sua administração.
Mas quanto à promessa feita pelo samaritano de voltar, era a figura do segundo advento do Salvador.

Sentido cristológico
Ainda que essas interpretações sejam enunciadas de modo espiritual e sedutor, não se deve, porém, considerar que elas possam se aplicar a qualquer homem.
Com efeito, nem todo homem “descia de Jerusalém para Jericó”, porque nem todos os homens vivem no século presente, mesmo se o Cristo, que “foi enviado, tenha vindo por causa das ovelhas perdidas da casa de Israel”.
Portanto, o homem que “desceu de Jerusalém para Jericó” “caiu na mão dos ladrões”, porque ele próprio quis descer.
Os ladrões, porém, não são ninguém mais senão aqueles dos quais diz o Salvador: “Todos os que vieram antes de mim foram ladrões e bandidos”.
Entretanto ele não cai na mão de ladrões, mas na mão de “bandidos” muito mais malvados que os ladrões, que, estando ele a descer “de Jerusalém”, quando havia caído na mão deles, “o roubaram e o cobriram de ferimentos”.
Quais são esses ferimentos, quais as feridas com as quais o homem estava coberto? Os vícios e os pecados.
Em seguida, porque os bandidos, que o espancaram mais de uma vez, o despojaram de suas vestes e o cobriram de feridas, não o socorrem em sua nudez e o abandonam, a Escritura diz: “Tendo-o despojado e coberto de feridas, foram embora e o abandonaram” não morto, mas semimorto.
Sucedeu, porém, que desciam, pela mesma estrada, primeiramente “um sacerdote”, depois “um levita”, que talvez havia feito algum bem a outros homens, não, porém, àquele que havia descido “de Jerusalém para Jericó”.
O sacerdote, a meu ver, figura da Lei, com efeito, o vê; o levita, que, em minha opinião, representa a palavra profética, também o vê.
Mas depois que o viram, passaram e o abandonaram. A Providência, porém, deixava aquele homem semimorto aos cuidados daquele que era mais forte que a Lei e os Profetas, isto é, ao Samaritano, cujo nome significa “guardião”.
É ele que “não cochila nem dorme guardando Israel”.
Para socorrer o semimorto, o samaritano pôs-se a caminho, descendo “de Jerusalém para Jericó”, não como o sacerdote e o levita descem; se ele desce, desce para salvar o moribundo e guardá-lo; mas os judeus lhe disseram: “Tu és um samaritano e és possuído por um demônio”.
Depois de ter negado que estivesse possuído por um demônio, Jesus não quis negar que ele fosse samaritano, pois ele sabia que era um guardião.
Assim, depois de ter vindo até o homem semimorto e tê-lo visto revolver-se em seu sangue, ele se compadeceu e aproximou-se dele para se tornar o seu próximo, “apertou com ligadura suas feridas, derramou óleo misturado ao vinho”, e não disse o que se lê no Profeta: “Não há nem curativo, nem óleo, nem ataduras para aplicar”.
Esse é o samaritano, de cujo cuidado e auxílio todos os que estão doentes necessitam, e o
moribundo, aquele homem que, descendo “de Jerusalém, havia caído na mão dos bandidos” e, ferido por eles, havia sido abandonado meio morto, necessitava especialmente do auxílio desse samaritano.
Porém, para que saibas que, segundo a Providência Divina, esse samaritano desceu para cuidar daquele que “havia caído na mão dos bandidos”, claramente receberás a instrução de que ele trazia consigo ligaduras, trazia consigo óleo, trazia consigo vinho, o qual, evidentemente, penso que o samaritano carregava consigo não por causa desse único semimorto, mas por causa de outros também, que, por várias causas, tinham sido feridos e necessitavam de ligaduras e óleo e vinho.
Ele tinha o óleo, do qual a Escritura diz: “Que o óleo faça o rosto alegrar-se”; e sem dúvida que é o rosto daquele que tinha recebido o cuidado. Para acalmar a inflamação das feridas, ele as limpa com óleo e com vinho misturado com algo amargo.
Depois, colocou aquele que tinha sido ferido sobre sua montaria, isto é, seu próprio corpo, junto ao qual se dignou assumir a humanidade.
Esse samaritano “carrega nossos pecados” e sofre por nós, carrega o semimorto e o conduz a um albergue, isto é, para a Igreja, que acolhe todos os homens e não recusa seu socorro a ninguém, para a qual Jesus manda vir a todos, dizendo: “Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”.
E, tendo conduzido o moribundo, não o deixa imediatamente, mas por um dia inteiro persevera com ele, e cura suas feridas não apenas de dia, mas também à noite, dedicando-lhe assim toda a sua solicitude e aplicação.
E quando, de manhã, preparava-se para partir, de suas preciosas moedas de prata, de seu precioso dinheiro, “ele apanha dois denários” e gratifica o albergueiro, que, sem dúvida alguma, é o anjo da Igreja, a quem prescreve que cuide diligentemente e conduza até a cura completa aquele que ele próprio também havia cuidado por um tempo exíguo.
Quanto aos dois denários dados ao anjo como salário para que cuide com toda diligência do homem a ele confiado, eles representam, parece-me, o conhecimento do Pai e do Filho e o conhecimento desse mistério, de como pode estar o Pai no Filho e o Filho no Pai.
E é prometido ao albergueiro o reembolso sem demora de tudo quanto tiver gasto de seu para a cura do moribundo.
Este guardião das almas apareceu verdadeiramente mais próximo que a Lei e os Profetas, ele “que fez misericórdia àquele que havia caído na mão dos bandidos”, e mostrou-se seu próximo não tanto em palavras, mas em atos.
É, pois, possível, segundo o que é dito: “Sereis meus imitadores, como eu o sou de Cristo”, que imitemos o Cristo e que nos compadeçamos daqueles que “tenham caído na mão dos bandidos”; que nos aproximemos deles, que ponhamos ataduras em suas feridas, que derramemos óleo e vinho, que os coloquemos sobre nossa própria montaria e carreguemos seus fardos.
E é por isso que o Filho de Deus, exortando-nos a tais recomendações, se dirige não tanto ao doutor da Lei quanto também a nós todos: “Vai tu também e faz de modo semelhante”.
Se tivermos agido de modo igual, obteremos a vida eterna no Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A Natividade do Senhor nas pregações dos Pais da Igreja


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A Natividade do Senhor
nas pregações dos Pais da Igreja



Inácio de Antioquia (35-107)
“Os mistérios clamorosos se realizaram no silêncio de Deus: a virgindade de Maria, o seu parto e a morte do Senhor”.
“No firmamento brilhou uma estrela maior do que todas as outras! A sua luz era indescritível. A sua novidade causou estranheza. Mas todos os demais astros, incluindo o Sol e a Lua, fizeram coro à Estrela. Esta, porém, ia arremessando a sua luz por sobre todos os demais. Houve, por isso, agitação. Donde lhes viria tão estranha novidade? Desde então, desfez-se toda a magia; suprimiram-se todas as algemas do mal. Dissipou-se toda a ignorância; o primitivo reino corrompeu-se, quando Deus se manifestou humanamente para a novidade de uma vida eterna”.

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Efrém, o Sírio (306-373)
“O menino que se encontra na manjedoura … aquele que rompeu o jugo que a todos oprimia”. “Fazendo-se Ele mesmo servo para nos chamar à liberdade”.
“Só um anjo anunciou a sua concepção, enquanto que para o seu nascimento uma multidão de anjos O anunciaram”.

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Gregório de Nazianzo (329-389)
“Esta é a nossa festa. Isto celebramos hoje: a vinda de Deus ao meio dos homens, para que, também nós cheguemos a Deus… celebremos, pois, a festa: não uma festa popular, mas uma festa de Deus, não como o mundo quer, mas como Deus quer; não celebremos as nossas coisas mas as coisas daquele que é nosso Senhor”.
“Não embelezemos as portas das casas, não organizemos festas, nem adornemos as estradas, não demos banquetes em nosso proveito nem concertos para mero agrado dos ouvidos, não exageremos nos adornos nem nas comidas… e tudo isto enquanto outros padecem fome e necessidades, esses que nasceram do mesmo barro que nós”.

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Prudêncio (348-410)
“Com crescente alegria brilhe o céu/ e dê-se parabéns a si a gozosa terra:/ de novo, passo a passo, sobre o astro/ do dia aos seus caminhos anteriores…/ Oh! Santo berço do teu presépio,/ eterno Rei, para sempre sagrado/ para todos os povos e pelos próprios/ animais sem voz reconhecida”.
“Reconheçamos o verdadeiro dia e tornemo-nos dia! Éramos, na verdade, noite quando vivíamos sem a fé em Cristo. E uma vez que a falta de fé envolvia, como uma noite, o mundo inteiro, aumentando a fé a noite veio a diminuir. Por isso, com o dia de Natal de Jesus nosso Senhor a noite começa a diminuir e o dia cresce. Por isso, irmãos, festejemos solenemente este dia; mas não como os pagãos que o festejam por causa do astro solar; mas festejemo-lo por causa daquele que criou este sol. Aquele que é o Verbo feito carne, para poder viver, em nosso benefício, sob este sol: sob este sol com o corpo, porque o seu poder continua a dominar o universo inteiro do qual criou também o sol. Por outro lado, Cristo com o seu corpo está acima deste sol que é adorado, pelos cegos de inteligência, no lugar de Deus que não conseguem ver o verdadeiro sol de justiça”.

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Agostinho de Hipona (354-430)
“mesmo sem dizer nada, deu-nos uma lição, como se irrompesse num forte grito: que aprendamos a tornar-nos ricos nele que se fez pobre por nós; que busquemos nele a liberdade, tendo Ele mesmo assumido por nós a condição de servo; que entremos na posse do céu, tendo Ele por nós surgido da terra”.
                “Alegremo-nos, irmãos, rejubilem e alegrem-se os povos. Este dia tornou-se para nós santo não devido ao astro solar que vemos, mas devido ao seu Criador invisível, quando se tornou visível para nós, quando o deu à luz a Virgem Mãe”.
“Hoje nasceu para nós o Salvador. Nasceu, portanto, para todo o mundo o verdadeiro sol. Deus Fez-se homem para que o homem se fizesse Deus. Para que o escravo se tornasse senhor, Deus assumiu a condição de servo. Habitou na terra o morador do céu para que o homem, habitante da terra, pudesse encontrar morada nos céus”.
“Ele está deitado numa manjedoura, mas contém o universo inteiro; mama num seio materno, mas é o pão dos anjos; veio em pobres panos, mas reveste-nos de imortalidade; é amamentado, mas é também adorado; não encontrou lugar na estalagem, mas constrói para si um templo no coração dos seus fiéis. Tudo isto para que a fraqueza se tornasse forte e a prepotência se tornasse fraqueza. Por isso, não só não menosprezamos, mas mais admiramos o seu nascimento corporal e reconhecemos neste acontecimento quanto a sua imensa dignidade se humilhou por nós”.
 “Aquele que estava deitado na manjedoura fez-se frágil, mas não renunciou à sua condição divina; assumiu aquilo que não era, mas permaneceu aquilo que era. Eis que temos diante de nós Cristo menino: cresçamos juntamente com Ele”.
“Chama-se dia do Natal do Senhor a data em que a Sabedoria de Deus se manifestou como criança e a Palavra de Deus, sem palavras, imitou a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indicada aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se realizou a profecia: A verdade brotou da terra e a justiça desceu do céu (Sl 84.12).
“Neste dia, o Verbo de Deus revestiu-se de carne e nasceu de Maria virgem. Nasceu de modo admirável... Donde veio Maria? De Adão. Donde veio Adão? Da terra. Se Adão veio da terra e Maria de Adão, também Maria é terra. E se Maria é terra, entendemos quando cantamos: a verdade brotou da terra”.

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Leão Magno (461)
“a bondade divina sempre olhou de vários modos e de muitas maneiras pelo bem do gênero humano, e são muitos os dons da sua providência, que na sua clemência concedeu nos séculos passados. Porém, nos últimos tempos superou os limites da sua habitual generosidade, quando, em Cristo, a própria Misericórdia desceu aos pecadores, a própria Verdade veio aos extraviados, e aos mortos veio a Vida. O Verbo, coeterno e igual ao Pai, assumiu a humildade da nossa natureza humana para nos unir à sua divindade, e Deus nascido de Deus, também nasceu de homem fazendo-se homem”.
“Nasceu hoje, irmãos, o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza quando nasce a vida; a qual, destruindo o temor da morte, nos enche com a alegria da eternidade prometida. Ninguém está excluído da participação nesta alegria; a causa desta alegria é comum a todos, porque nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado ninguém isento de pecado, a todos veio libertar. Exulte o santo porque está próxima a vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida… Por isso é que, quando o Senhor nasceu, os anjos cantaram em alegria ‘glória a Deus nas alturas’ e anunciaram ‘paz na terra aos homens...’. Porque veem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo, obra inexprimível do amor divino, que, se dá tanto gozo aos anjos nas alturas do céu, que alegria não deverá dar aos homens cá na terra?”


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Máximo de Turim (408)
“Jesus é o novo sol que atravessa as paredes, invade os infernos, perscruta os corações. Ele é o novo sol que com os seus espíritos faz reviver o que está morto, restaura o que está velho, levanta o que está decadente e purifica ainda, com o seu calor, aquilo que é impuro, aquece o que está frio e consome o que o que não presta”.
“Preparemo-nos pois, irmãos, para acolher o Natal do Senhor, adornemo-nos com vestes puras e elegantes! Falo, claro está, das vestes da alma, não do corpo… Adornemo-nos não com seda, mas com obras boas! Pois as vestes elegantes ornam o corpo, mas não podem adornar a consciência; pois seria muito vergonhoso trazer sob elegantes vestes elegantes, uma consciência contaminada. Procuremos acima de tudo embelezar os nossos afetos íntimos, e poderemos então vestir belas roupas; lavemos as manchas da alma para usarmos dignamente roupas elegantes! Não adianta dar nas vistas pelas vestes se estamos sujos em pecados, porque quanto a consciência está escura, todo o corpo fica nas trevas”.

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Romano Melode (490-556)
“Terra e céu rejubilem juntamente, diante do Emanuel que os profetas anunciaram, tornado criança visível, que dorme num presépio”. “A alegria acaba de nascer numa gruta. Hoje os coros dos anjos unem-se a todas as nações para celebrar.... Hoje toda a humanidade, desde Adão, dança. Bendito seja Deus, recém-nascido”.

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