terça-feira, 12 de dezembro de 2023

245 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Primeiro (Capítulos 23 - 34)

 


16 de dezembro de 2023.

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Primeiro (Capítulos 23 - 34)

 


O livro XI fala da diferença entre a humanidade e a divindade de Cristo e da glorificação da humanidade de Cristo e nossa glorificação juntamente com Ele. São 49 capítulos.

 

Capítulo 23.

1.      Os segredos das celestes disposições são apresentados pelo Apóstolo, eleito como o mestre dos gentios, não por homens, nem por meio de um homem, mas por Jesus Cristo (cf. Gl 1,1), na medida do possível.

2.      Aquele que, arrebatado ao terceiro céu, ouviu coisas inenarráveis, narrou ao espírito da inteligência humana somente o que esta podia entender, por não ignorar que algumas coisas não podem ser entendidas no momento em que são ouvidas, porque devido a nossa fraqueza, a mente recebe com atraso e custa a elaborar um juízo verdadeiro e claro a respeito daquilo que é comunicado ao ouvido.

3.      A compreensão depende, mais do que o ouvido, de uma reflexão demorada, pois a audição se segue à voz, e o entender vem da razão.  É Deus quem revela o sentido aos que sentem desejo de compreender.

4.      A Timóteo, instruído desde a infância pela avó e pela mãe, nas letras sagradas, a respeito da gloriosa fé, o Apóstolo escreveu muitas coisas, e acrescentou: Entende o que digo, pois Deus te dará a compreensão em todas as coisas (2Tm 2,7).

5.      A exortação a compreender vem da dificuldade da inteligência. Contudo, o dom da inteligência que vem de Deus é dado à fé, pela qual a fraqueza da inteligência merece a graça da revelação.

6.      Se Timóteo, homem de Deus segundo o testemunho apostólico (1Tm 6,11), filho legítimo de Paulo, pela fé, é exortado a entender, porque o Senhor vai dar-lhe a compreensão de tudo, nós também devemos lembrar-nos de que fomos advertidos pelo Apóstolo a procurar a inteligência, sabendo que o Senhor nos dará a compreensão de todas as coisas.

 

Capítulo 24.

7.      Se, devido à fraqueza própria da condição humana, estivermos enganados, não recusemos um progresso de nossa compreensão proporcionado pela graça da revelação.

8.      O fato de não haver entendido uma vez, em determinado sentido, alguma coisa, não deve levar-nos a nos envergonhar de mudar nossa opinião para entender melhor. Por isso se deve usar de prudência e moderação, como o santo Apóstolo escreve aos Filipenses: Todos nós que somos perfeitos, tenhamos este sentimento, e se, em alguma coisa, pensais de modo diferente, Deus vos esclarecerá. Entretanto, qualquer que seja o ponto a que chegarmos, conservemos o rumo (Fl 3,15-16).

9.      Nossa maneira de pensar anterior não determina a revelação de Deus. Pois o Apóstolo sabe como hão de pensar aqueles que pensam de maneira perfeita, mas para os que pensam de modo diverso, espera a revelação de Deus, para que venham a saber o que é perfeito.

10.  Se, portanto, alguns entenderam de modo diverso o profundo desígnio deste mistério oculto, e se por nós lhes foi apresentado algo reto e provável, não se acanhem em procurar conhecer de modo perfeito, pela revelação divina, segundo o ensinamento do Apóstolo.

11.  Não devem preferir desconhecer a verdade a ter de arrepender-se de permanecer na inverdade. O Apóstolo exorta aqueles que pensam de modo diverso e aos quais Deus revelou, a perseverarem no que começaram, para que, tendo abandonado o modo de pensar da ignorância anterior, consigam chegar à perfeita compreensão da revelação, ingressando no caminho, pelo qual nos apressamos em correr.

12.  Se, talvez, por termos errado o caminho, nos atrasarmos, quando tivermos entrado de novo, nele, procuremos seguir adiante, sem mudar de direção, pois apressamo-nos para o Cristo Jesus, Senhor da glória e rei dos séculos eternos, em quem são restauradas todas as coisas nos céus e na terra, por quem tudo subsiste, no qual e com o qual permaneceremos sempre.

13.  Portanto, se entramos nesse caminho, conhecemos perfeitamente, e se sabemos algo de outro modo, Deus nos revelará o que deve ser conhecido perfeitamente. Por conseguinte, estudemos de novo, de acordo com a fé apostólica, o mistério destes ditos, do mesmo modo como acima foram tratados por nós todas as coisas.

14.  Esclareceremos assim, a partir da verdade da mesma fé apostólica, as interpretações motivadas por uma vontade ímpia, as quais pretendem estar fundamentadas nas palavras apostólicas.

 

Capítulo 25.

15.  De acordo com a ordem das questões, são três os ditos a ser questionados: primeiro o fim, em seguida a entrega do reino, por último, a submissão. Segundo estes ditos, ou Cristo desaparece no fim, ou deixa de ter o reino, pois o entrega, ou, porque se submete a Deus, não possui a natureza de Deus.

 

Capítulo 26.

16.  Primeiramente, deve-se considerar que esta ordem não é a mesma da doutrina apostólica, pois primeiro vem a entrega do reino, em seguida, a submissão, por último, o fim. Cada uma destas coisas, segundo sua natureza, está submetida a causas que lhe dão origem, de forma que, quando algo deixa de existir para transformar-se em outra, uma causa anterior fica sempre subjacente ao que vem depois.

17.  Virá o fim, mas depois que o reino tiver sido entregue por Ele a Deus. O reino será entregue, mas depois que tiver sido aniquilado todo principado e todo poder. E aniquilará todo principado e todo poder, porque é preciso que Ele reine. E reinará, porém, até que ponha debaixo de seus pés todos os seus inimigos. E porá os inimigos debaixo de seus pés porque Deus submeteu todas as coisas debaixo de seus pés. Se Deus lhe submeteu todas as coisas, foi para que a morte fosse vencida por Ele, como o último inimigo.

18.  Em seguida, tudo lhe estará submetido, com exceção daquele que lhe submeteu todas as coisas. Ele, então, se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas. A causa da submissão é que Deus seja tudo em todas as coisas (cf. 1Cor 15,24-28).

19.  O fim, portanto, é que Deus seja em tudo em todas as coisas.

 

Capítulo 27.

20.  Agora deve-se procurar saber se fim significa desaparecimento, se entrega significa perda, se submissão significa fraqueza; se nestas coisas não estiverem subentendidos seus contrários, então poderão ser entendidas no seu verdadeiro sentido.

 

Capítulo 28.

21.  O fim da Lei é Cristo (Rm 10,4). Quero saber se Cristo é a abolição da Lei, ou sua perfeição. Se Cristo, que é o fim da Lei, não a anula, mas leva-a à perfeição, de acordo com o que diz: Não vim suprimir a Lei, mas levá-la à perfeição (Mt 5,17), o fim não será desaparecimento, mas perfeição consumada.

22.  Todas as coisas tendem para seu fim, não para que deixem de existir, mas para que continuem sendo aquilo para que tendem. Tudo existe por causa do fim, porém o fim não está referido a outra coisa. Como o fim é tudo, permanece inteiramente ele mesmo, e como não sai de si e não traz vantagem a nenhuma outra coisa ou tempo, a não ser a si mesmo, toda a tendência da esperança está sempre voltada para ele.

23.  Por isso, o Senhor exorta à paciência da fé religiosa que espera até o fim: Bem-aventurado aquele que permanecer até o fim (Mt 10,22). Não quer dizer, na verdade, que a desaparição seja bem-aventurada, que não existir seja uma vantagem e que a recompensa da fé seja a abolição daquilo que a constitui, mas, como o fim da desejada felicidade não conhece interrupção, felizes são aqueles que permanecem até o fim, que é a felicidade consumada, porque a expectativa da esperança fiel não vai além, visto que o fim é o estado de permanente imobilidade para o qual se tende.

24.  Por fim, o Apóstolo prediz o fim dos ímpios para fazê-los ter medo da desaparição, dizendo: O fim deles é a morte, mas nossa esperança está nos céus (Fl 3,19 e 20). Se o fim dos santos e dos ímpios é o mesmo e se o fim significa a desaparição, o fim iguala a religião à impiedade, porque ambas estão destinadas ao mesmo fim, ou seja, ambas deixarão de existir.

25.  Que acontecerá, então, com a nossa expectativa de um céu, se, no fim, deixarmos de existir, do mesmo modo que os ímpios? Porém, se dissermos que para os santos há uma esperança e o fim dos ímpios significa aquilo que lhes é devido, mesmo assim não se pode crer que o fim seja uma desaparição, porque deixar de existir impede de receber o castigo merecido pela impiedade, visto que a desaparição do que deveria sofrer a pena elimina toda possibilidade de padecer se por causa do desaparecimento do que devia padecer não existe.

26.  O fim é a definitiva permanência da condição imutável, reservada para os bem-aventurados e preparada para os ímpios.

 

Capítulo 29.

27.  Não se pode mais duvidar de que o fim não seja o desaparecimento, mas sim uma condição que não desaparecerá, embora algumas coisas permaneçam sem explicação na interpretação dos textos, demonstradas somente estas para fazer ver seu sentido.

28.  Vejamos se a entrega do reino deve ser entendida como a perda do seu reinado, de modo que o Filho, porque entregou ao Pai o reino, não o possua por entregá-lo.

29.  Se alguém, com a loucura da estulta impiedade, contestar isto, deverá necessariamente confessar que o Pai, quando entregou tudo ao Filho, perdeu o que entregou, se entregar significa deixar de ter o que foi entregue. Mas o Senhor disse: Tudo me foi entregue por meu Pai (Lc 10,22), e: Todo poder me foi dado no céu e na terra (Mt 28,18).

30.  Se, portanto, entregar significa deixar de ter, também o Pai ficou privado do que deu; mas se o Pai não deixou de ter o que entregou, também não se pode entender que o Filho tenha sido privado daquilo que entregou.

31.  Nada mais resta senão reconhecer, na entrega, o motivo da economia da salvação, pela qual o Pai não deixa de ter o que entrega, nem o Filho deixa de ter o que dá.

 

Capítulo 30.

32.  Esta passagem relativa à submissão parece especialmente adequada para que não se alegue, a partir dela, algo de vergonhoso para o Filho, ainda que muitas outras passagens auxiliem nossa fé.

33.  Primeiro, interrogo o bom senso, para saber se aqui a submissão deve ser entendida no mesmo sentido em que se entende a escravidão a um poder ou a submissão da fraqueza à força e da desonra à honra, como qualidades contrárias.

34.  De acordo com isso, o Filho estaria submetido a Deus Pai pela diversidade de natureza. No entanto, a prudência da palavra apostólica vem opor-se a esta errônea opinião humana.

35.  Pois, quando tiver submetido tudo a si, então tudo será submetido Àquele que submeteu a si todas as coisas. Ao dizer que então se submeterá, o Apóstolo indica o plano divino realizado no tempo.

36.  Pois, se pensássemos de modo diferente, acreditando que ainda deveria submeter-se, isso significaria que agora não está submetido e nós julgaríamos ser um dissidente, desobediente e ímpio, Aquele a quem a força do tempo deverá reduzir a uma obediência tardia, depois de ter sido quebrado e submetido o seu orgulho de impiedade despótica.

37.  Que seria das suas palavras: Não vim fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38); Por isso o Pai me ama, porque faço sempre o que lhe agrada (Jo 10,17); Pai, que se faça tua vontade (Mt 26,40); ou da palavra do Apóstolo: Humilhou-se, feito obediente até a morte (Fl 2,8)?

38.  O que se humilha não sofre humilhação por sua natureza, e o que se faz obediente aceita por sua própria vontade a obediência, pois pelo fato de se humilhar se faz obediente. Por isso, o Deus Unigênito se humilha e obedece ao Pai até a morte de cruz.

39.  Como se entenderá que deve submeter-se ao Pai quando tudo foi submetido a Ele? Só se pode compreender porque esta submissão não significa uma nova obediência, mas sim o mistério da economia da salvação, porque a obediência já existe e a submissão tem lugar no tempo. A submissão, portanto, significa a revelação do mistério.

 

Capítulo 31.

40.  Devemos entender que mistério é este, de acordo com a esperança de nossa fé. Não podemos ignorar que o Senhor Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, está assentado à direita de Deus.

41.  O Apóstolo o testemunha, ao dizer: Conforme a ação do seu poder eficaz, que ele fez operar em Cristo ressuscitando-o de entre os mortos, e fazendo-o assentar à sua direita nos céus, muito acima de qualquer Principado e Autoridade e Poder e Soberania e de todo nome que se pode nomear não só neste século, mas também no vindouro. Tudo Ele pôs debaixo de seus pés (Ef 1,19-22).

42.  A palavra apostólica se refere a fatos futuros, como já tendo acontecido, como corresponde ao poder de Deus, pois o que se há de cumprir na plenitude dos tempos já tem consistência em Cristo, no qual está a plenitude.

43.  Tudo o que ainda deve acontecer será menos uma novidade do que a realização progressiva do desígnio salvífico. Deus tudo submeteu debaixo de seus pés, embora todas as coisas ainda lhe devam ser submetidas. Enquanto já estão submetidas, manifesta-se o poder imutável de Cristo; enquanto ainda hão de ser submetidas, na plenitude dos tempos, indica-se o caminho das idades sucessivas da fé.

 

Capítulo 32.

44.  Não é difícil entender que todas as potências contrárias, o príncipe dos ares e o poder da maldade espiritual devem ser entregues à destruição, conforme foi dito: Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que o meu Pai preparou para o diabo e seus anjos (Mt 25,41).

45.  Eliminação, portanto, não é o mesmo que submissão. Pois eliminar as potências adversas é tirar-lhes o direito ao poder, para que não possam subsistir; é abolir, pela eliminação do seu poder, o domínio do reino. Deu testemunho disto o Senhor, ao dizer: O meu reino não é deste mundo (Jo 18,38).

46.  Antes já declarara que aquele que tem o poder deste reino é o mesmo príncipe deste reino, cujo poder desaparecerá, uma vez eliminado o poder do seu domínio (cf. Jo 12,31).

47.  Já a submissão própria da obediência e da fé é a demonstração de uma entrega livre ou de uma mudança.

 

Capítulo 33.

48.  Uma vez eliminados os principados, seus inimigos lhe serão submetidos, de tal maneira que Ele mesmo os submeterá a si. Mas submeterá de forma que Deus lhos submeta. Acaso ignorava o Apóstolo a força da palavra evangélica que diz: Ninguém vem a mim, se o Pai que me enviou não o atrair (Jo 6,44)? Também está escrito: Ninguém vai ao Pai a não ser por mim (Jo 14,61).

49.  Agora Ele mesmo submete a si os inimigos, e, no entanto, é Deus que os submete, testemunhando, assim, que tudo isso é obra de Deus nele. E, como não se vai ao Pai, a não ser por Ele, ninguém vai a Ele, a não ser que o Pai o atraia, pois, quando é reconhecido como Filho de Deus, a realidade da natureza paterna se revela nele.

50.  Quando Ele é reconhecido como Filho, o Pai nos atrai, e quando acreditamos no Filho, o Pai nos recebe, porque recebemos a revelação e o conhecimento do Pai no Filho pela revelação nele de Deus Pai, que nos torna perfeitos na adoração do Filho pela adoração do Pai.

51.  O Pai nos conduz ao Filho quando acreditamos no Pai. No entanto, ninguém vai ao Pai a não ser pelo Filho, porque, quando não acreditamos no Filho, o Pai não pode ser conhecido por nós. Não podemos adorar o Pai se, primeiro, não aceitarmos adorar o Filho.

52.  Por isso, conhecido o Filho, o Pai nos conduz à vida eterna e nos acolhe. Ambas as coisas acontecem por intermédio do Filho, porque seu ensinamento sobre o Pai nos conduz a Ele, e Ele mesmo nos conduz ao Pai.

53.  Para uma compreensão mais completa desta palavra, foi necessário recordar este mistério: o Pai nos conduz e nos recebe pela mediação do Filho. Assim podemos entender que Ele submete a Deus tudo o que submete a si mesmo, porque a natureza de Deus está nele. Ele age de tal maneira que Deus age nele e, não obstante, Ele faz o mesmo que Deus faz, porém de tal maneira que, quando Ele age, deve-se entender que o Filho de Deus age, e quando Deus age, deve-se saber que, nele, como Filho, está aquilo que é próprio da natureza do Pai.

 

Capítulo 34.

54.  Uma vez eliminados os principados e as potestades, seus inimigos lhe serão submetidos, debaixo de seus pés. De que inimigos se trata, o mesmo Apóstolo nos ensina, ao dizer: Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa, mas quanto à Eleição, eles são amados por causa de seus pais (Rm 11,28).

55.  Sabemos que se trata dos inimigos da cruz de Cristo (cf. Fl 3,18), porém, porque são amados por causa dos Pais, sabemos que estão reservados para a submissão, segundo o que foi dito: Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não vos tenhais na conta de sábios: o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios; e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito. De Sião virá o libertador, e afastará a impiedade de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados (Rm 11,25-27; cf. Is 59,20-21). Os inimigos, portanto, serão submetidos sob seus pés.

 

O que você destaca no texto? Como ele serve para sua espiritualidade?

Meus destaques do texto: 

 Revelação de Deus

Algumas coisas não podem ser entendidas no momento em que são ouvidas, porque devido a nossa fraqueza, a mente recebe com atraso e custa a elaborar um juízo verdadeiro e claro a respeito daquilo que é comunicado ao ouvido. A compreensão depende, mais do que o ouvido, de uma reflexão demorada, pois a audição se segue à voz, e o entender vem da razão.  É Deus quem revela o sentido aos que sentem desejo de compreender. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 23)

 

Revelação e fraqueza humana.

A exortação a compreender vem da dificuldade da inteligência. Contudo, o dom da inteligência que vem de Deus é dado à fé, pela qual a fraqueza da inteligência merece a graça da revelação. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 23)

 

Conhecimento - Mudar de opinião

O fato de não haver entendido uma vez, em determinado sentido, alguma coisa, não deve levar-nos a nos envergonhar de mudar nossa opinião para entender melhor. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 24)

 

Revelação de Deus: nossa maneira de Pensar.

Nossa maneira de pensar anterior não determina a revelação de Deus. Pois o Apóstolo sabe como hão de pensar aqueles que pensam de maneira perfeita, mas para os que pensam de modo diverso, espera a revelação de Deus, para que venham a saber o que é perfeito. Se, portanto, alguns entenderam de modo diverso o profundo desígnio deste mistério oculto, e se por nós lhes foi apresentado algo reto e provável, não se acanhem em procurar conhecer de modo perfeito, pela revelação divina, segundo o ensinamento do Apóstolo. Não devem preferir desconhecer a verdade a ter de arrepender-se de permanecer na inverdade. O Apóstolo exorta aqueles que pensam de modo diverso e aos quais Deus revelou, a perseverarem no que começaram, para que, tendo abandonado o modo de pensar da ignorância anterior, consigam chegar à perfeita compreensão da revelação, ingressando no caminho, pelo qual nos apressamos em correr. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 24)

 

Humildade: e Obediência.

O que se humilha não sofre humilhação por sua natureza, e o que se faz obediente aceita por sua própria vontade a obediência, pois pelo fato de se humilhar se faz obediente. Por isso, o Deus Unigênito se humilha e obedece ao Pai até a morte de cruz. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 30)

O Filho e o Pai: na revelação

Quando Ele é reconhecido como Filho, o Pai nos atrai, e quando acreditamos no Filho, o Pai nos recebe, porque recebemos a revelação e o conhecimento do Pai no Filho pela revelação nele de Deus Pai, que nos torna perfeitos na adoração do Filho pela adoração do Pai.  O Pai nos conduz ao Filho quando acreditamos no Pai. No entanto, ninguém vai ao Pai a não ser pelo Filho, porque, quando não acreditamos no Filho, o Pai não pode ser conhecido por nós. Não podemos adorar o Pai se, primeiro, não aceitarmos adorar o Filho.  Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 33)

 O Filho e o Pai: na revelação

Para uma compreensão mais completa desta palavra, foi necessário recordar este mistério: o Pai nos conduz e nos recebe pela mediação do Filho. Assim podemos entender que Ele submete a Deus tudo o que submete a si mesmo, porque a natureza de Deus está nele. Ele age de tal maneira que Deus age nele e, não obstante, Ele faz o mesmo que Deus faz, porém de tal maneira que, quando Ele age, deve-se entender que o Filho de Deus age, e quando Deus age, deve-se saber que, nele, como Filho, está aquilo que é próprio da natureza do Pai. Hilário de Poitiers (315-368). O Tratado da Santíssima Trindade. Livro Décimo Primeiro (Capítulo 33)

 



quinta-feira, 30 de novembro de 2023

244 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Primeiro (Capítulos 12 - 22)

 

 


                                                                                 244

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Primeiro (Capítulos 12 - 22)

 


O livro XI fala da diferença entre a humanidade e a divindade de Cristo e da glorificação da humanidade de Cristo e nossa glorificação juntamente com Ele. São 49 capítulos.

 

Capítulo 12.

1.      Aqui, como em tudo o que disse, o Senhor harmonizou de modo piedoso e justo suas palavras. Assim, a afirmação da sua natividade não poderia ser entendida como injúria à divindade e o respeito reverente não pareceria ofender a natureza da majestade.

2.      Quis, como Filho, demonstrar a honra devida Àquele de quem recebia o seu subsistir. Quis também que a confiança natural mostrasse a convicção de que possuía a natureza que subsistia nele, por ter nascido como Deus.

3.      Daí as palavras: Quem me vê, vê também o Pai, e: As palavras que eu digo, não as digo por mim mesmo (Jo 14,9 e 10). Já que não as diz por si mesmo, forçoso é que deva o que diz Àquele que é o seu princípio.

4.      Se quando Ele é visto, o Pai é visto, isto significa o reconhecimento de sua natureza que não subsiste de modo alheio a Deus, por ter nascido como Deus. Diz ainda: O que meu Pai me deu, é maior do que todas as coisas (Jo 10,29), e: Eu e o Pai somos Um (Jo 10,30).

5.      A doação paterna expressa a natividade recebida pelo Filho, e porque são Um, por causa da natividade, o Filho tem a natureza divina. Diz ainda: Mas confiou todo o julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho assim como honram o Pai (Jo 5,22-23).

6.      Quando se dá o julgamento, afirma-se a natividade, e quando se iguala a honra, reconhece-se a igualdade de natureza. Ou ainda: Eu estou no Pai, e o Pai em mim (Jo 14,10), e: O Pai é maior do que eu (Jo 14,28).

7.      Porque estão um no outro, deves reconhecer a divindade de Deus nascido de Deus. Se o Pai é maior, deves reconhecer a primazia paterna. Diz também: O Filho por si mesmo nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer; tudo o que Ele fez, o Filho faz igualmente (Jo 5,19).

8.      Se não o faz por si, o Pai é princípio do que faz, em virtude de sua natividade, contudo, se o que o Pai faz, também o Filho o faz igualmente, não subsiste em uma natureza diferente da natureza de Deus, e a natureza da onipotência do Pai subsiste nele para que possa fazer tudo aquilo que Deus Pai faz.

9.      Tudo isso se demonstrou a partir da unidade do Espírito e da natureza que lhe pertence por nascimento, de tal modo que o Filho proclama o Deus que lhe dá o ser, mas, por outro lado, o fato de ter recebido o ser não oculta a consciência de sua natureza divina.

10.  Deus Filho declara ser Deus seu Pai porque dele nasceu; e, porque nasceu, tem, por natureza, o que Deus é.

 

Capítulo 13.

11.  A economia do grande mistério da piedade fez com que o que era Pai pela natividade divina fosse também Senhor pela condição humana assumida, pois Aquele que existia na forma de Deus foi encontrado na forma de servo.

12.  Não era servo, porque, segundo o Espírito, era Deus, Filho de Deus, e, conforme o senso comum, onde não há servo, também não há Senhor. Deus é Pai pela natividade do Unigênito e não podemos dizer que este tenha um senhor, a não ser enquanto é servo.

13.  Se antes, por natureza, não era servo e depois começou a ser o que não era por natureza, não existe outra causa para se entender um domínio do Pai a não ser a servidão do Filho que tem um Senhor, porque, pela assunção da natureza humana, apresentou-se como servo.

 

Capítulo 14.

14.  Estando na forma de servo, o Homem Cristo Jesus, que antes permanecia na forma de Deus, assim disse: Subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus (Jo 20,17).

15.  Se o servo assim falou aos servos, como esta declaração não será do servo? Como se transferiria para aquela natureza que não é a de servo, se Aquele que, existindo na forma de Deus, assumiu a forma de servo, não pode estar em comunhão com os outros servos a não ser enquanto é servo?

16.  Por conseguinte, o Pai, para Ele, é Pai, como o é para os homens, e é Deus, para Ele, como é Deus para os servos. E como o Homem em forma de servo Jesus Cristo, fala, deste modo, a homens que são servos, não há dúvida de que o Pai é Pai para Ele enquanto Homem, como o é para os outros, e é Deus para Ele como o é para todos, em virtude da natureza pela qual é servo.

 

Capítulo 15.

17.  Enfim, este mesmo discurso tem como exórdio as palavras: Vai, pois, a meus irmãos e diz-lhes: Subo para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus (Jo 20,17).

18.  Pergunto, agora, como se deve entender que tenha irmãos, se na forma de Deus ou na forma de servo. Haverá algum consórcio de nossa condição corpórea com Ele quanto à plenitude da divindade que nele habita para que sejamos chamados de irmãos enquanto Ele é Deus?

19.  O espírito profético não ignora em que sentido são irmãos do Deus Unigênito: Ele falou, não tanto como Homem, mas como verme: narrarei teu nome a meus irmãos (Sl 22.23).

20.  Como verme, que não vive pela concepção das origens comuns, ou sai vivo das profundezas da terra, disse isso para indicar a carne assumida e vivificada por Ele, predizendo, no salmo, pelo espírito profético, todos os mistérios de sua paixão. Portanto, era necessário que, pela economia, pela qual sofreu, tivesse irmãos.

21.  O Apóstolo também reconhece o mistério dos irmãos, ao proclamá-lo primogênito dentre os mortos (Cl 1,18), assim como o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8,29).

22.  Portanto, é primogênito entre muitos irmãos como é primogênito dentre os mortos; e como o mistério da morte se dá no corpo, também o mistério da fraternidade se dá na carne.

23.  São irmãos de Deus pela carne porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), mas o Deus Unigênito, na sua condição exclusiva de unigênito, não tem irmãos.

 

Capítulo 16.

24.  Tendo em si, por natureza, tudo o que é nosso, por ter assumido a carne, é o que nós somos sem perder o que era. Tinha, então, a Deus como Pai, pela natividade; agora o tem, pela criação; pela criação, agora, porque tudo vem de Deus Pai.

25.  Deus é Pai de todos os seres, porque tudo vem dele e tudo existe nele. Mas, para o Deus Unigênito, porque o Verbo se fez carne, não é Pai só por isso, mas porque o Verbo feito carne no princípio estava junto de Deus.

26.  Como o Verbo se fez carne, é Pai para Ele pelo nascimento como Verbo de Deus e pela assunção da carne.

27.  Deus é Pai de toda carne, mas não como é Pai para o Deus Verbo. O Deus Verbo nem deixou de ser o Verbo, nem deixou de assumir a carne. Pois o Verbo que se fez carne e habitou entre nós não deixa de ser verdadeiramente o Verbo enquanto habita entre nós. Porque o Verbo se fez carne, Deus não deixa de ser verdadeiramente Homem, pois é preciso que habite entre nós Aquele que permanece sendo o que é e deve-se entender que fazer-se carne é próprio daquele que nasce.

28.  Habitar entre nós significa que assumiu nossa carne, porque, quando o Verbo feito carne habita entre nós, Deus existe na realidade de nosso corpo.

29.  Se o Homem Jesus Cristo segundo a carne privasse o Deus Verbo de sua natureza, ou se o Deus Verbo não fosse o Homem Jesus Cristo, pelo mistério da piedade, sua natureza sofreria injúria, por ter Ele a Deus como Deus e ao Pai como Pai, do mesmo modo que nós.

30.  Porém, se o Deus Verbo, como Homem Jesus Cristo, não deixou de ser o Deus Verbo, nós e Ele temos o mesmo Pai e Deus, somente no que diz respeito à natureza, pela qual Ele é nosso irmão.

31.  As palavras subo para meu Pai e o vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus, não são ditas aos irmãos pelo fato de ser Ele o Deus Unigênito, o Verbo, mas porque o Verbo se fez carne.

 

Capítulo 17.

32.  A palavra apostólica não usa expressões imprecisas nem ambíguas, que possam dar ocasião à impiedade.

33.  O Evangelista, comentando o dito do Senhor a respeito dos irmãos, ensinou que se refere à comunhão com sua natureza, pela qual é irmão, porque o discurso se destina aos irmãos.

34.  Não se julgue tratar-se de injúria à divindade, o que se dizia sobre o mistério da piedade. Nossa comunhão com Ele, pela qual o Pai é Pai para nós e para Ele e Deus, para nós e para Ele, fundamenta-se na economia da Encarnação, pois devemos considerar-nos seus irmãos pela natividade corporal. Por conseguinte, ninguém duvida de que Deus Pai seja também o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo.

35.  Esta nossa piedosa profissão de fé não dá lugar à impiedade. É seu Deus, não porque seja um Deus diferente dele pela natureza, mas sim porque nasceu do Pai como Deus e é servo pela economia da salvação. Tem a Deus como Pai porque é Deus nascido dele, e o tem como seu Deus porque, tendo nascido da Virgem, é carne.

36.  O Apóstolo expressa isto com palavras breves e claras: Fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o espírito de sabedoria e de revelação (Ef 1,16-17).

37.  Onde fala de Jesus Cristo, fala de seu Deus, onde fala da glória, fala do Pai. Aquele que, para Cristo, segundo a glória, é Pai, é Deus para Cristo, enquanto Ele é Jesus. Pois o Anjo denomina Jesus o Cristo Senhor, que Maria iria dar à luz (cf. Mt 1,21).

38.  Ademais, a profecia dá a Cristo Senhor o nome de Espírito. Para muitos, este dito parece muito obscuro em latim, porque o latim não usa os artigos que o grego sempre emprega por necessidade e com dignidade. Pois assim escreve: O Theós  tou Kyriou emon Iesou Kristou o Pater tes doxes (Ef 1,17). Se nós usássemos pronomes, diríamos: Aquele Deus daquele nosso Senhor Jesus Cristo, daquele Pai daquela glória. As expressões o Deus de Jesus Cristo e o Pai da glória referem-se que é próprio de sua natureza, de modo adaptado à capacidade de nossa inteligência: onde está a glória de Cristo, aí se fala de Deus como seu Pai; onde, porém, está Jesus Cristo, aí se fala do Pai como seu Deus. Ele o tem como o seu Deus na economia, enquanto é servo, e como Pai na glória, enquanto é Deus.

 

Capítulo 18.

39.  Os tempos e as circunstâncias não acarretam diferenças no Espírito. O mesmo Cristo que está num corpo é o mesmo que esteve no Espírito nos Profetas, quando disse, falando pela boca do santo patriarca Davi: Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria, de preferência e teus companheiros (Sl 44,8), não falou de outro mistério, a não ser da economia do corpo assumido.

40.  Aquele que confiava aos irmãos que o Pai deles é o seu Pai e que o Deus deles é o seu Deus, dizia então ter sido também ungido por seu Deus, de preferência aos companheiros.

41.  Cristo, Deus Verbo Unigênito, não tem companheiros, mas podemos saber que tem companheiros por aquela assunção da carne. A unção não foi dada àquela natureza nobre, incorrupta e bem-aventurada de Deus que nele permanecia pelo nascimento, mas tinha em vista o mistério do corpo e a santificação do homem assumido, como o atesta o apóstolo Pedro: Coligaram-se nesta cidade contra o teu santo Filho Jesus, a quem ungiste (At 4,27).

42.  E ainda: Sabeis o que se anunciou por toda a Judéia, começando pela Galileia, depois do batismo pregado por João, como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus, o Nazareno (At 10,37-38).

43.  Portanto, Jesus é ungido para o mistério da regeneração da carne. E de que maneira foi ungido com o Espírito Santo e poder está claro, pois, quando subia do Jordão, se ouviu a voz de Deus Pai que dizia: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei (Sl 2,6; cf. Lc 3,22), para que, pelo testemunho de ter sido nele santificada a carne, fosse conhecida a unção da força espiritual.

 

Capítulo 19.

44.  Como no princípio o Deus Verbo estava junto de Deus, não há nenhuma causa ou explicação para sua unção naquela natureza, da qual nada mais se diz, senão que existia no princípio. Deus nunca teve necessidade de ser ungido pelo Espírito e poder de Deus, pois é Espírito e Poder de Deus.

45.  Deus é ungido por seu Deus de preferência a seus companheiros. Se, antes da encarnação, muitos, segundo a Lei, são ungidos, Cristo, que agora é ungido de preferência aos seus companheiros, é posterior no tempo, mas antecede seus companheiros ungidos.

46.  A palavra profética refere-se a esta unção que haveria de ser dada no futuro, dizendo: Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isto Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria de preferência a teus companheiros (Sl 44,8).

47.  Um fato posterior que deriva de outro não pode vir antes dele, porque merecer algo é posterior à existência de quem poderia vir a merecer.

48.  Diz-se que mereceu aquele que adquire algo para si. Se, portanto, referirmos a natividade do Deus unigênito à unção, e se a unção é concedida pelo mérito de ter amado a justiça e odiado a iniquidade, entender-se-á que o Deus Unigênito foi elevado a essa dignidade pela unção, mas não foi gerado como tal, e que, pelo crescimento e progresso, chegou à perfeição, não tendo nascido como Deus.

49.  Foi ungido para ser Deus por seu merecimento, e, assim sendo, haveria uma causa para que Cristo fosse Deus e já não existiriam todos os princípios por meio de Cristo Deus.

50.  Onde fica a palavra do Apóstolo, segundo a qual tudo foi criado por Ele, e nele, Ele é anterior a todos, e tudo nele subsiste (cf. Cl 1,16-17)?

51.  O Senhor Jesus Cristo é Deus, não por causa alguma, ou mediante algo, mas é Deus que nasceu como Deus. Quem, pela geração, é Deus, não passou a ser Deus depois do nascimento, por alguma causa, mas, porque nasceu, é Deus. Quando, por algum motivo, é ungido, a unção não traz proveito algum para quem não precisa de progresso, mas é dada ao que, pelo crescimento no mistério, necessita do progresso trazido. Cristo foi ungido para ser santificado pela unção, enquanto é Homem como nós.

52.  Se agora o Profeta mostra a economia de sua condição de servo, pela qual é ungido por seu Deus de preferência a seus companheiros, porque amou a justiça e odiou a iniquidade, não estaria aludindo à natureza na qual Cristo tem companheiros pela assunção da carne?

53.  Além disso, deve-se considerar que o Espírito de profecia dispôs de tal modo as palavras que, ao dizer que Deus é ungido por seu Deus, se refere à condição humana na qual é ungido, ao dizer seu Deus, e à natureza divina, ao dizer Deus.

54.  Por conseguinte, Deus é ungido; mas pergunto se o Verbo, que no princípio era Deus, foi ungido. Não, certamente. Pois a unção é posterior a seu ser divino. E como não foi ungido o Filho, que é o Deus Verbo, que no princípio estava junto de Deus, é preciso que seja ungido o que em Deus é posterior, na economia da salvação, a seu ser divino.

55.  Quando Deus é ungido por seu Deus, é ungido o que foi assumido por Ele no mistério da encarnação, em forma de servo.

 

Capítulo 20.

56.  Que ninguém profane, com seu modo ímpio de pensar, o grande mistério da piedade que se manifestou na carne. Que ninguém se iguale ao Unigênito em sua natureza divina. Que Ele seja para nós irmão e companheiro, enquanto Verbo que, feito carne, habitou entre nós, enquanto Homem, Jesus Cristo, Mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2,5).

57.  Que nós, servos, tenhamos um Pai e um Deus em comum com Ele e que Ele seja ungido de preferência aos companheiros, ainda que de modo privilegiado, naquela natureza, na qual os seus companheiros são ungidos e seja Deus verdadeiro, como é homem verdadeiro, quanto ao mistério de sua mediação, sendo Deus nascido de Deus, tendo em comum conosco o Pai e Deus, naquela comunhão pela qual é nosso irmão.

 

Capítulo 21.

58.  Talvez a submissão e a entrega do reino e as palavras depois será o fim (1Cor 15,24) deem a entender que se dará a desaparição de sua natureza, a perda do seu poder ou o enfraquecimento da sua divindade.

59.  Pois muitos querem que, ou não seja Deus, por causa de sua submissão, visto que, quando tudo estiver submetido a Deus, também Ele se submeterá, ou então que, ao entregar o reino, já não estará na sua possessão, ou que, quando chegar o fim, desaparecerá.

 

Capítulo 22.

60.  Convém estudar o sentido da exposição apostólica a respeito destas coisas, para que, exposto e examinado o sentido de cada afirmação, possamos penetrar todo o mistério e chegar à sua total compreensão. Pois diz: Porque por um homem veio a morte, por um homem a ressurreição dos mortos. Pois como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Contudo, cada um em sua ordem: como primícias, Cristo, em seguida, os que são de Cristo por ocasião de sua vinda; depois, será o fim, quando entregar o reino a Deus e Pai, depois que tiver destruído toda dominação e todo poder. Pois é preciso que Ele reine, até que ponha todos os inimigos sob seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Quando disser: “Tudo está submetido”, evidentemente excluir-se-á aquele que tudo lhe submeteu, então ele mesmo se submeterá àquele que o submeteu para que Deus seja tudo em todas as coisas (1Cor 15,21-28).

 

O que você destaca no texto? Como ele serve para sua espiritualidade?