segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O que é a Quaresma? Como celebrar a Quaresma?

 



O que é a Quaresma?

Quaresma é uma caminhada de Oração até a Semana Santa. Começa na quarta-feira de cinzas. É a entrada no Ciclo Pascal.

Para entendermos a quaresma precisamos olhar para a conversão dos Ninivitas.

Jonas foi forçado por Deus a ir a Nínive pregar a palavra profética. Deus disse: “Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo”. Jonas percorreria a cidade em três dias. Jonas começou a percorre-la e dizia: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida”. Sua mensagem foi clara: Deus destruirá Nínive em quarenta dias. Resta apenas uma Quaresma para o povo de Nínive.

Os Ninivitas teriam apenas uma quaresma de vida. Eles creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor. O Rei de Nínive ficou sabendo da mensagem de Jonas. Foi tão impactado que se levantou do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, assentou-se sobre cinza e proclamou um jejum para todos os habitantes e animais de Nínive.

Mandou que todos fossem cobertos de pano de saco, clamassem fortemente a Deus e se convertessem de seus pecados. O rei esperava a misericórdia de Deus. Disse o rei: “Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?”

Deus se agradou do arrependimento e dos sinais da conversão. “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez”. (Jn 3.1-10).

Jejum, pano de saco, cinzas, orações, clamor e conversão marcaram o arrependimento dos Ninivitas. Foi uma quaresma perfeita que os livrou da destruição eminente.

Com a Quaresma tem início o Tempo Pascal. Estramos na celebração dos quatro períodos litúrgicos: Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes.

A Quaresma abre as portas para este período de vivência do Sacrifício, Morte e Ressurreição do Senhor. O centro do Calendário Cristão é a Páscoa; e a Quaresma é a preparação para este momento de oração e contrição. É um caminho pascal.

O Colégio Episcopal na Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista dá a seguinte orientação sobre a Quaresma:

“A Quaresma: Da Quarta-feira de cinzas ao Domingo de Ramos, este período enfatiza a importância da contrição, do preparo e da conversão. Inicia-se no 40° dia antes da Páscoa, sem contar os domingos. O início, na Quarta-feira de cinzas, retorna à tradição bíblica do arrependimento com cinzas e vestes de saco (Jn 3.5-6). É um momento oportuno para refletir sobre a confissão e o valor do perdão de Deus. Sua espiritualidade enfatiza momentos de preparo na história bíblica geral e da vida de Jesus: • Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss) • Quarenta anos do povo no deserto (Ex 16.35) • Elias caminhou quarenta dias em direção ao Horebe (1Rs 19.8).

Cores da Quaresma: roxo ou lilás. Essas cores enfatizam a preparação, a expectativa, a saudade, a contrição e o arrependimento. (...)

Símbolos da Quaresma: • Cinzas, referindo-se ao arrependimento; • Ramos, lembrando a entrada triunfal; • Coroa de espinhos e os cravos, rememorando o sofrimento de Cristo”. (Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista).

 

Qual o simbolismo do número quarenta na Bíblia?

O número 40 (quarenta) indica um tempo necessário de preparação para algo novo que vai chegar. Observe a presença do número quarenta na Bíblia:

40 dias e 40 noites do dilúvio (Gn 7.4-12).

40 dias e 40 noites Moisés passa no Monte (Ex 24.18; 34.26; Dt 9.9-11; 10.10);

40 anos foi o tempo da peregrinação pelo deserto (Nm 14.33; 32.13; Dt 8.2; 29.4, etc.).

40 dias de caminhada de Elias até o monte do Senhor (I Rs 19.8).

O Senhor Jesus jejuou 40 dias antes de começar o seu ministério (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2);

A Ascensão de Jesus acontece 40 dias depois da Ressurreição (At 1,3).

 

Quando surgiu a Quaresma na História da Igreja?

A quaresma é mencionada pela primeira vez no Concílio de Nicéia (325 d.C.). 

Foi criada a partir de duas práticas da Igreja Primitiva: O longo jejum anterior à Páscoa (prática judaica) e o período de preparação para o Batismo.

Desde o II século o candidato ao batismo esperava três anos para ser batizado. O batismo ocorria uma vez ao ano, no dia da Páscoa. Na Sexta feira ele ia à igreja e colocava as roupas de neófitos. Ali ficava em jejum até o Domingo da ressurreição onde era batizado nu, em geral por derramamento.

O número quarenta foi determinado pela duração do jejum do Senhor Jesus no deserto. Para alguns líderes da igreja do passado, a quaresma terminava na Quinta-feira Santa e a contagem de 40 dias não contemplava os sábados e domingos.

A quaresma passou a ser um caminho de oração, jejum e arrependimento como preparação para a devida celebração da Paixão e Ressurreição do Senhor.

 

 O que é a Quarta-feira de cinzas?

No século VII d.C. foram acrescentados quatro dias antes do primeiro domingo da Quaresma estabelecendo os quarenta dias de jejum, para imitar o jejum de Cristo no deserto. Assim a quaresma começava na quarta-feira de cinzas.

Era prática comum em Roma que os penitentes (arrependidos de seus pecados) começassem sua penitência pública no primeiro dia de Quaresma. Eles eram salpicados de cinzas, vestidos com sacos e obrigados a manter-se longe até que se reconciliassem com a Igreja na Quinta-feira Santa (Quinta-feira antes da Páscoa).

Quando estas práticas caíram em desuso (do século VIII ao século X) o início do Tempo da Quaresma foi simbolizado colocando cinzas nas cabeças de toda a congregação.

Hoje em dia em várias igreja protestantes e católicas, na Quarta-feira de Cinzas, o cristão recebe uma cruz na fronte com as cinzas obtidas da queima das palmas (ramos) usadas no Domingo de Ramos do ano anterior.

A Igreja Ortodoxa começa a quaresma desde a segunda-feira anterior e não celebra a Quarta-feira de Cinzas.

Para nós a quarta-feira de cinzas é o início da preparação para a Semana Santa e para a Páscoa.

As leituras da Quarta-feira de cinzas para os anos A,B e C são as mesmas: Jl 2:1-2, 12-17 ou Is 58:1-12; Sl 51:1-17; 2 Co 5:20b-6.10; Mt 6:1-6, 16-21.

 

Oração Protestante para Quarta-feira de Cinzas:

Onipotente e Eterno Deus, que amas tudo quanto criaste, e que perdoas a todos os penitentes; cria em nós corações novos e contritos, para que, lamentando deveras os nossos pecados e confessando a nossa miséria, alcancemos de ti, Deus de suma piedade, perfeita remissão e perdão; por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

           

 Como viver o Período Quaresmal?

 

Os domingos: Os domingos da Quaresma são ricos. Os Evangelhos e os textos bíblicos convidam para o arrependimento e nos preparam para o sacrifício do Senhor.

Lecionário: Leia as citações bíblicas para cada dia da semana da Quaresma presentes no Lecionário Comum.

Jejum: Faça jejum uma vez por semana, de preferência na sexta-feira lembrando-se da morte do Senhor. Caso tenha dúvidas, por motivo de saúde, pergunte ao seu médico sobre a duração do jejum e o que não poderá se abster nestas horas.

Abstinência: Faça abstinência em oração e consagração de alguma coisa importante para você. (televisão, carne, refrigerante, pão, etc.).

Oração: Coloque diante de Deus diariamente sua vida e família; e clame por conversão e unção de Deus para que possamos viver verdadeiramente a justiça e a paz de Cristo no mundo.

Leituras de Espiritualidade: Procure leituras próprias para este período. Livros que falem sobre oração, jejum, conversão, perdão, etc.

Caridade: Não apenas na Quaresma, mas em todo o tempo, viva o jejum praticando a caridade e o amor ao próximo. Contudo, neste santo período, faça uma ação concreta sobre a vida de alguém.

Conversão: Todo tempo pensamos na necessidade de conversão. A Quaresma nos ajuda a aprofundar este exame pessoal e nos convida ao arrependimento e a volta para o Senhor.

Retiros Quaresmais: Participe de Retiros Quaresmais com sua igreja.   

 

A Quaresma foi a primeira campanha de oração da Igreja. Uma campanha de Oração de preparação para o Santo Batismo que ocorria sempre na vigília da Páscoa.

 

Para a Equipe Litúrgica:

Cante hinos que falem de arrependimento, contrição, cruz e morte do Senhor.

A equipe precisa prestar atenção aos temas dos domingos da Quaresma. Lembrando que no quarto domingo a cor do altar deve ser rosa claro. Dia de Alegria (Domingo Laetare).

Na quarta-feira de cinzas é interessante o culto com Ceia do Senhor pela manhã, e a lembrança de que somos cinzas e voltaremos para o pó com a nossa morte e nosso espírito volta para Deus.

Pode ser usado o símbolo das cinzas para este fim litúrgico.

A igreja pode estar ornamentada com panos de saco no altar, símbolo de contrição e arrependimento.

Uma cruz vazia ou uma coroa de espinho pode também ser utilizados como símbolos.

 

Cor litúrgica da Quaresma:

A Cor é o Roxo Lilás. No 4º Domingo da Quaresma (Domingo Laetare – Alegria), a cor é o Rosa.

 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

247 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Primeiro (Capítulos 47 - 49)

 






247

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Primeiro (Capítulos 47 - 49)

 


O livro XI fala da diferença entre a humanidade e a divindade de Cristo e da glorificação da humanidade de Cristo e nossa glorificação juntamente com Ele. São 49 capítulos.

 

Capítulo 47.

1.      Porque só podemos conhecer o que é posterior à nossa capacidade de conhecimento, o Apóstolo, depois de referir-se à profundidade da sabedoria de Deus, à imensidão de seus juízos imperscrutáveis e infinitos, a seus caminhos misteriosos e inacessíveis, a seu pensamento secreto e incompreensível, a seu conselho oculto, acrescentou: Quem primeiro lhe fez dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! (Rm 11,35-36).

2.      Deus, que é eterno, não está sujeito a nenhum limite, nem pode ser antecipado por nenhum movimento anterior ou da inteligência anterior a Ele.

3.      Por isso, é uma imperscrutável profundeza, de tal sorte que não pode ser limitado de modo algum.

4.      É entendido como imenso porque não recebeu de ninguém o que é e ninguém antes lhe deu algo, para que tenha a obrigação de retribuir.

5.      Pois dele e por Ele e nele tudo existe. Não necessita de nada do que existe a partir dele por meio dele e nele. Ele é origem, é opífice (artífice), é Aquele que tudo contém, que tudo transcende, é o criador de tudo o que foi feito, não tem necessidade do que é seu.

6.      Nada existe antes dele, nada tem outra origem, nada existe fora dele. Portanto, de que aumento de plenitude precisará, para que, no tempo, Deus venha a ser tudo em todas as coisas? Ou, de onde receberá Aquele, fora do qual nada existe? Não havendo nada fora dele, é eterno.

7.      E que se deverá acrescentar, para que seja completado ou mudado, Àquele que sempre é, fora de quem nada existe? Pois diz: Eu sou, e não mudo (Ml 3,6).

8.      Nele não há lugar para mudança nem motivo para progredir, nada anterior à sua eternidade, nada além de sua divindade.

9.      Logo, Deus não será tudo em todas as coisas pela submissão do Filho, nem será levado à plenitude por nenhuma causa, porque é a partir dele, por Ele e nele que subsistem todas as causas.

10.  Deus permanece sempre o que é e não precisa progredir, pois é sempre o que é, por si e para si.

 

Capítulo 48.

11.  Também para o Deus Unigênito não há necessidade de mudança da natureza.

12.  É Deus, e este nome indica a plena natureza da plena e perfeita divindade.

13.  Como acima ensinamos, a razão para pedir a glória e a causa da submissão é que Deus seja tudo em todas as coisas.

14.  Que Deus seja tudo em todas as coisas é mistério, não necessidade.

15.  Permanecendo na forma de Deus, assumiu a forma de servo. Não se transformou, despojou-se de si mesmo, ocultou-se dentro de si, esvaziou-se, mantendo, no entanto, o seu poder.

16.  Adaptou-se ao modo de agir humano porque a fraqueza da natureza humana assumida não aguentaria a poderosa e imensa natureza divina, mas o poder ilimitado devia ficar circunscrito somente à medida que fosse preciso para obedecer e suportar o padecimento do corpo unido a Ele.

17.  Ao esvaziar-se, manteve-se em si mesmo, por isso seu poder não sofreu detrimento, visto que, na humilhação de seu esvaziamento, exerceu em si mesmo o poder de que se tinha despojado.

 

Capítulo 49.

18.  Que Deus seja tudo em todas as coisas significa a elevação de nossa natureza assumida.

19.  Aquele que, existindo na forma de Deus, foi achado na forma de servo, de novo deve ser louvado na glória de Deus Pai, para que se entenda, sem nenhuma dúvida, que permanece na forma daquele em cuja glória deve ser louvado.

20.  Trata-se do desígnio de salvação, não de mudança, pois continua a existir na natureza em que existia.

21.  Mas, tendo havido, entretanto, um tempo intermediário em que começou a existir, isto é, seu nascimento como Homem, tudo é adquirido para aquela natureza que antes não foi Deus, porque se mostra que Deus é tudo em todas as coisas, depois do mistério da economia.

22.  É proveito e lucro para nós, pois somos conformados à glória do corpo de Deus (cf. Fl 3,21; 2,11).

23.  Além disso, o Deus unigênito, ainda que tenha nascido como Homem, não é outro senão Deus que é tudo em todas as coisas.

24.  Pois aquela submissão do corpo, pela qual aquilo que Ele tem de carnal é absorvido pela natureza espiritual, faz com que Aquele que, além de Deus, é também homem, seja Deus, tudo em todas as coisas.

25.  É nossa humanidade que é assim elevada. Nós também havemos de progredir até ser conformados à glória daquele que é Homem como nós, e, renovados para o conhecimento de Deus, seremos reformados à imagem do Criador, de acordo com o dito do Apóstolo: Despidos do homem velho com seus atos, e vestidos com o novo, que se renova para o conhecimento de Deus, segundo a imagem de seu Criador (Cl 3,9-10).

26.  O homem torna-se a perfeita imagem de Deus. E, sendo agora conforme a glória do corpo de Deus, eleva-se até ser imagem do Criador, de acordo com o modelo estabelecido para o primeiro homem.

27.  Feito homem novo, para o conhecimento de Deus, depois de abandonar o pecado e o velho homem, atinge a perfeição para a qual foi criado.

28.  Conhecendo seu Deus e fazendo-se sua verdadeira imagem, por meio da verdadeira fé, caminha rumo à eternidade devendo permanecer por toda a eternidade a imagem de seu Criador.

 

O que você destaca na fala do seu irmão?

O que você destaca no texto?

Como ele serve para a sua espiritualidade?

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

246 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Primeiro (Capítulos 35 - 46)

 

Na aula de hoje: 
Genisson, Demétrius, Leopoldo, Isaac, Rodrigo, Nathalye, Adriana, Marisa e Elonede.



246

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Primeiro (Capítulos 35 - 46)

 


O livro XI fala da diferença entre a humanidade e a divindade de Cristo e da glorificação da humanidade de Cristo e nossa glorificação juntamente com Ele. São 49 capítulos.

 

Capítulo 35.

1.      Deve-se entender o que se seguirá a esta submissão: O último inimigo a ser vencido será a Morte (1Cor 15,26).

2.      A vitória sobre a morte nada mais é do que a ressurreição dos mortos, quando, tendo acabado a corrupção da morte, a natureza se tornar eterna e celestial, como já foi dito: Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e este ser mortal revista a imortalidade (1Cor 15,53).

3.      Quando este ser corruptível tiver revestido a incorruptibilidade e este ser mortal tiver revestido a imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura: A morte foi absorvida no combate. Morte, onde está teu aguilhão? Morte, onde está teu combate? (1Cor 15,53-55).

4.      A morte é vencida pela submissão dos inimigos. Vencida a morte, sobrevém a vida da imortalidade. Qual seja a característica própria desta perfeita submissão da fé, o mesmo Apóstolo ensinou, ao dizer: Ele transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao corpo de sua glória, pela força que lhe dá o seu poder de submeter a si todas as coisas (Fl 3,21).

5.      Existe também outra submissão que consiste na passagem de uma natureza para outra, quando algo, deixando de ser o que é, se submete àquilo de que aceita a forma. Deixa de ser o que era, não para deixar de existir, mas para tornar-se melhor, submetendo-se, com a mudança, a passar para a condição da outra natureza que recebe.

 

Capítulo 36.

6.      Finalmente, para esclarecer totalmente o sentido deste mistério, depois de afirmar que a morte no fim será vencida, diz: Quando disser: “tudo lhe está submetido”, evidentemente excluir-se-á aquele que tudo lhe submeteu.

7.      Então, ele mesmo se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todas as coisas (1Cor 15,26-28).O primeiro grau do mistério é que tudo lhe será submetido, e então Ele próprio se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que, assim como nós nos submetemos à glória de seu corpo que reina, Ele, por sua vez, reinando, pelo mesmo mistério, na glória de seu corpo, se submeta àquele que lhe submeteu todas as coisas. Pois nos submetemos à glória de seu corpo para estar na mesma glória em que Ele reina com seu corpo, porque seremos conformados a seu corpo.

 

Capítulo 37.

8.      Os Evangelhos não deixam de falar da glória de seu corpo que agora reina. Assim está escrito o que disse o Senhor: Em verdade vos digo, que alguns dos que aqui estão não provarão a morte, até que vejam o Filho do Homem vir em seu Reino (Mt 16,28).

9.      Seis dias depois, Jesus tomou Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou para um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E ali Jesus se transfigurou diante deles. O seu rosto resplandeceu como o sol, suas vestes se tornaram alvas como a neve (Mt 17,1-2).

10.  A glória do corpo que vem em seu reino se mostrou aos Apóstolos, pois, pela gloriosa transformação de seu aspecto, o Senhor revelou a glória de seu corpo de rei.

 

Capítulo 38.

11.  Prometendo aos Apóstolos uma participação na sua glória, diz o Senhor: Assim será na consumação do mundo. O Filho do Homem enviará seus anjos e eles ajuntarão de seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente.

12.  Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. O que tem ouvidos para ouvir, que ouça! (Mt 13,40-43).

13.  Acaso todos os ouvidos corporais não se abrem para ouvir o que é dito, de modo a ser necessária a exortação do Senhor para que o ouçam? O Senhor propõe o conhecimento do mistério e, por isso, exige que se ouça a doutrina de fé.

14.  Na consumação do mundo, os escândalos serão retirados de seu reino e teremos, então, o Senhor a reinar na glória de seu corpo. Também nós, conformados à glória de seu corpo no reino do Pai, brilharemos com um fulgor semelhante ao do sol. Foi com esta glória que o Senhor transfigurado no monte se mostrou aos Apóstolos.

 

Capítulo 39.

15.  O Senhor entregará o reino a Deus Pai, mas não de tal forma que, entregando-o, vá perder o seu poder, e nós, tornados semelhantes à glória de seu corpo, seremos o reino de Deus. Pois não disse: Entregará seu reino, mas: Entregará o reino (1Cor 15,24), o que significa que nós, pela glorificação de seu corpo, nos converteremos em reino a ser entregue a Deus. Entregará como reino também a nós, de acordo com o que foi dito nos Evangelhos: Vinde, benditos de meu Pai. Tomai posse do reino para vós preparado desde a criação do mundo (Mt 25,34). Portanto, os justos fulgirão como o sol no reino de seu Pai (cf. Mt 13,43).

16.  O Filho entregará a Deus, como seu reino, aqueles que chamou para seu reino, aos quais prometeu também a felicidade deste mistério, ao dizer: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5,8).

17.  Reinando, afastará os escândalos, e, então, os justos fulgirão como o sol no reino do Pai, pois entregará o reino a Deus Pai, e aqueles que entregar como reino a Deus verão a Deus. De que reino se trata, Ele mesmo explicou, ao dizer aos Apóstolos: Pois em vós está o reino de Deus (Lc 17,21).

18.  Reinando, entrega o reino. E se alguém quiser saber quem entrega o reino, ouça: Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram; porque por um homem veio a morte, e por um homem, a ressurreição dos mortos (1Cor 15,21).

19.  Aqui todo nosso discurso tem como tema o mistério do corpo, porque Cristo ressuscitou como dentre os mortos. Para conhecermos o mistério pelo qual Cristo ressuscitou dentre os mortos, ouçamos o que diz o Apóstolo: Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, da descendência de Davi (2Tm 2,8), ensinando que a morte e a ressurreição dizem respeito somente à Economia salvífica, pela qual Ele é carne.

 

Capítulo 40.

20.  Reina, pois, neste mesmo corpo glorioso, que já é seu, até que sejam eliminados os principados e, vencida a morte, submeta a si os inimigos. O Apóstolo conservou esta disposição: afirma que eliminados os principados e potestades, serão submetidos a Ele os inimigos. Submetidos estes, tudo se submeterá àquele que submete tudo a si, isto é, o Senhor, para que Deus seja tudo em todas as coisas (1Cor 15,28), quando a natureza da divindade paterna for comunicada à natureza de nosso corpo assumido.

21.  Deus será tudo em todas as coisas, porque o Mediador entre Deus e os homens, por sua submissão, receberá em todos os aspectos o que é de Deus, para que não seja Deus em parte, mas inteiramente Deus Ele que, pelo mistério da Encarnação, procede de Deus e do homem, pois tem, graças à Encarnação, o que é próprio da carne.

22.  Não há outro motivo para a submissão a não ser este: que Deus seja tudo em todas as coisas, sem que permaneça coisa alguma da natureza do corpo terreno, de modo que, se anteriormente tinha duas naturezas, agora é somente Deus; não porque o corpo tenha sido expulso, mas sim porque foi transformado pela submissão.

23.  Não foi abolido por dissolução, mas mudado pela glorificação, adquirindo para si, enquanto Deus, o que é do homem, em vez de perder o que é de Deus, enquanto é Homem. Submete-se, não para deixar de existir, mas para que Deus seja tudo em todas as coisas. Continua a ser o que não é no mistério da submissão. Seu ser não será abolido, de modo que deixe de existir.

 

Capítulo 41.

24.  Para confirmar a nossa fé nesta doutrina, é suficiente a autoridade apostólica, que ensina que, no tempo e pelo mistério da Encarnação, o Senhor Jesus Cristo, primícias dos que dormiram (cf. 1Cor 15,20), deveria submeter-se ao Pai, para Deus ser tudo em todas as coisas. Isto não se dá por fraqueza da divindade, mas representa elevação da natureza assumida porque o que é Homem Deus, agora já é inteiramente Deus.

25.  Mas para que não se creia que nos fundamentamos nos Evangelhos porque acreditamos que Cristo é glorificado no corpo enquanto reina no corpo e que depois deverá se submeter, a fim de que Deus seja tudo em todas as coisas, devemos basear o testemunho de nossa fé não somente nas palavras do Apóstolo, mas nas do Senhor, pois o que Paulo diz, o próprio Cristo já dissera antes de Paulo.

 

Capítulo 42.

26.  O Senhor revelou o desígnio divino referente à glória usando palavras claras, quando disse: Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi nele glorificado, Deus também O glorificará em si mesmo e o glorificará logo (Jo 13,31-32).

27.  Temos, primeiro, a glória do filho do homem e, em seguida, no Filho do Homem, a glória de Deus, nas palavras; Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele. Em primeiro lugar, refere-se à glória do corpo, que, pelo consórcio com a natureza divina, recebe a glória. Segue-se a elevação a uma glória mais plena que deve ser alcançada com o aumento da glória já concedida ao corpo. Se Deus foi nele glorificado, também Deus o glorificou em si mesmo e agora o glorificou (Jo 13,32).

28.  Deus o glorificou em si, porque nele Deus é glorificado. Porém, a glorificação de Deus nele se refere à glória do corpo, pela qual a glória de Deus é conhecida através do corpo, pois a glória de Deus é conhecida mediante a glória do Filho do Homem. Porque nele Deus foi glorificado, isto significa que Deus o glorificou em si mesmo mediante o aumento da glória de Deus nele, porque já reina na glória que procede da glória de Deus.

29.  Ele próprio, a partir de agora, há de passar para a glória de Deus. Pois Deus o glorificou em si mesmo, isto é, naquela mesma natureza pela qual Deus é o que é: para que Deus seja tudo em todas as coisas, ou seja, Ele há de existir inteiramente como Deus, em consequência da economia da salvação, pela qual é homem. Não deixou de falar também do tempo, em que isto ia acontecer, ao dizer: E Deus o glorificou em si mesmo e Deus agora o glorificou.

30.  Indicou como presente a glória futura, ou seja, a que iria obter depois da paixão, depois da ressurreição, porque Judas já se apressava para a traição. Aquela glória com que, em si mesmo, Deus o glorificaria, é reservada para o futuro, isto é, a glória de Deus revelada nele pelo poder da ressurreição. Porém, Ele mesmo permanecerá para sempre na glória de Deus, sendo inteiramente Deus, em virtude do desígnio salvífico, pelo qual se submeteu.

 

Capítulo 43.

31.  Como é grande a insensatez da louca heresia, que não pode esperar para Deus o que satisfaz suas humanas esperanças, como se Deus tivesse o poder de fazer para o homem o que não tem o poder de fazer para si mesmo.

32.  Nenhum raciocínio sensato pode provar que, por alguma necessidade de sua natureza, esteja obrigado a cuidar de nós, mas não possa proporcionar alguma felicidade a si mesmo.

33.  Aquele que possui uma natureza e um poder imutáveis não tem necessidade de crescimento, mas, porque, pela economia da salvação e o mistério da grande piedade, o que é Deus é homem, talvez não fosse capaz de dar a si mesmo o ser inteiramente Deus, podendo, no entanto, dar-nos, sem dúvida alguma, a graça de ser aquilo que não somos. Pois o fim da vida e da morte humana é a ressurreição e a certíssima recompensa de nossa luta é a incorrupta eternidade, não para que perdure nosso castigo, mas para que o fruto feliz da perpétua glória não tenha fim.

34.  Que nossos corpos, de origem terrena, passarão para uma condição superior e se tornarão semelhantes ao corpo glorioso do Senhor, e Deus, na forma de servo, embora já glorificado no corpo, no que diz respeito a forma de servo, acaso não será semelhante a Deus? Aquele que nos concederá a condição de seu corpo glorificado acaso não poderá dar a seu corpo senão o que é comum a Ele e a nós?

35.  O que foi dito: Então ele mesmo se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas para que Deus seja tudo em todas as coisas (1 Cor 15,28) é interpretado por muitos hereges como se fosse a afirmação de que o Filho deve submeter-se a Deus Pai, a fim de que o Pai, pela submissão do Filho, seja tudo em todas as coisas, como se ainda faltasse a Deus alguma perfeição que alcançaria pela submissão do Filho.

36.  Assim, se Deus ainda deve passar a ser tudo em todas as coisas com o progredir do tempo, devemos pensar que lhe falta a absoluta e bem-aventurada divindade.

 

Capítulo 44.

37.  Quanto a mim, que acredito conhecer a Deus somente pela adoração, não me parece menos ímpio responder a estas doutrinas do que defendê-las. Parece-me ímpio pensar que podemos fazer afirmações sobre aquela natureza, que ultrapassa o que o senso humano pode conceber, com palavras cujo significado fica aquém da nossa compreensão.

38.  Em primeiro lugar, parece ímpio duvidar da perfeição de Deus, perguntando se lhe falta algo ou não, se é perfeito ou, se, sendo perfeito, falta-lhe ainda uma perfeição maior.

39.  Se Deus, a quem não vem de nenhuma outra parte o ser Deus, deve progredir de alguma forma, para que, em algum momento, possa chegar a uma perfeição maior, então nunca poderá atingir uma perfeição tal que nada lhe falte, pois não se pode conceber que a natureza que tem a possibilidade de progredir tenha progredido sem que lhe reste alguma possibilidade de progresso, pois a natureza submetida ao progresso, embora progredindo sempre, continua sendo capaz de progredir mais.

40.  Porém, aquele que tem a plenitude perfeita e nela permanece, não tem possibilidade de ser mais perfeito, porque a perfeita plenitude não comporta acréscimo. Assim deve pensar sobre Deus uma inteligência piedosa. A Deus nada falta. Ele é perfeito.

 

Capítulo 45.

41.  O Apóstolo não ignora com que palavras se deve dar testemunho de Deus, quando diz: Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! (Rm 11,33-36).

42.  Deus não pode ser circunscrito pela mente humana. A inteligência mais penetrante não pode atingir a profundeza de sua sabedoria. Seus juízos não podem ser compreendidos por aqueles que os perscrutam. Os caminhos inacessíveis de seu conhecimento não estão abertos às investigações dos que o procuram. Tudo o que é seu está mergulhado nas profundezas inacessíveis, nada do que é seu pode ser encontrado.

43.  Ninguém conhece seu pensamento. Ele dispensa todo conselho alheio. Tudo o que dizemos é válido para nós, mas não para aquele, por quem tudo existe (cf. 1Cor 8,6). Ele é o Anjo do Grande Conselho (cf. Is 9,6; LXX), e Ele disse: Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,25).

44.  Deve-se recorrer à profissão de fé do Apóstolo contra nossas fraquíssimas mentes, que, para definir e circunscrever a natureza divina, submergem nas profundezas, para que nenhuma opinião temerária pretenda saber algo sobre Deus além daquilo que devemos aprender.

 

Capítulo 46.

45.  É considerado normal, quando se trata de coisas que pertencem à natureza, que os sentidos só possam captar o que se acha no seu âmbito, como algo que se apresente diante de nossos olhos, ou qualquer fato posterior a nossos sentidos ou a nossa mente.

46.  No primeiro caso, porque o que se pega ou olha permite ter uma ideia e formular uma opinião a respeito do que pode ser examinado pelo tato ou pela vista. No outro caso, porque o que acontece no tempo é gerado ou criado, com um início posterior ao nosso, não é anterior ao nosso entendimento e está submetido a nossa capacidade de julgamento.

47.  Nossa vista não julga o invisível, já que somente pode discernir o que vê. Nossa mente não pode voltar atrás, até o tempo em que não existia, e investigar o que é anterior a seu nascimento, já que somente pode ter uma opinião a respeito do que lhe é posterior. Por causa de suas limitações naturais, nossa mente, na maior parte das vezes, está incerta e não consegue obter um conhecimento exato das causas.

48.  De modo algum poderá perceber aquelas coisas que lhe são anteriores, por um desígnio eterno, pois nesse caso deveria poder retroceder até um tempo anterior ao seu nascimento.

 

 

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