314
SÃO
BASÍLIO MAGNO, ou de CESAREIA (330-379)
Regra
Monástica – Asketikon - As Regras Menos Extensas (313 regras) Interrogações 121-137
Pergunta 121
É permitido ou aceitável recusar os
trabalhos mais pesados e difíceis?
Resposta
Quem ama a Deus de verdade e confia
plenamente na recompensa divina nunca se dá por satisfeito com o que já
alcançou; pelo contrário, busca sempre ir além e deseja fazer mais. Mesmo que
essa pessoa pareça estar trabalhando um pouco acima de suas forças, ela não se
acomoda como se já tivesse cumprido sua meta. Ela se mantém sempre zelosa, como
se tivesse feito menos do que deveria, guardando no coração a ordem do Senhor: "Depois
de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis;
fizemos apenas o que devíamos fazer" (Lc17.10). Essa é a mesma postura
do Apóstolo Paulo, para quem o mundo estava crucificado (e ele para o mundo) (Gl
6,14), e que não teve vergonha de dizer: "Não julgo que já o tenha
alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e
avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o
prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fl 3,13-14). Além
disso, embora Paulo tivesse o direito de viver do Evangelho por pregá-lo (1 Cor
9,14), ele afirmou: "Trabalhamos dia e noite com esforço e fadiga...
não porque não tivéssemos esse direito, mas para vos dar em nós mesmos um
modelo a imitar" (2 Ts 3,8-9). Diante disso, quem seria tão insensível
ou sem fé a ponto de se contentar com o que já fez, ou de rejeitar um trabalho
só por ser mais pesado e trabalhoso?
INTERROGAÇÃO 122
Deve-se permitir a recusa da
eulógia (grego: abençoado) a alguém que disser: Se não receber a eulógia não
como?
Resposta
Se o pecado merece o castigo de ser
ele excluído da refeição, julgue-o quem impôs a pena. Se alguém for julgado
indigno somente da eulógia e tenha licença de comer, mas recuse, seja considerado
desobediente, amante de disputas. Conheça-se a si mesmo e simultaneamente
entenda que, ao proceder assim, não obtém a cura, mas acrescenta pecado a
pecado.
INTERROGAÇÃO 123
Se alguém se entristece porque não
lhe permitem fazer aquilo que não é capaz de fazer, isto deve ser tolerado?
Resposta
Em vários lugares foi dito que,
geralmente, seguir a própria vontade ou agir ao próprio arbítrio é contrário à
reta razão, e não se submeter ao juízo de muitos é incorrer no perigo de desobediência
e de contradição.
INTERROGAÇÃO 124
Se deve alguém que se encontrou com
hereges ou gentios comer com eles ou saudá-los.
Resposta
O Senhor não proibiu a saudação
comum, ao dizer: Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário?
Não fazem isto também os pagãos? (Mt 5,47). Quanto a comer à mesma mesa, temos
o preceito do Apóstolo de que se deve evitá-lo, quando diz: Na minha carta vos
escrevi que não tivésseis comunicação com os impudicos. Mas não se tratava de
um modo absoluto de todos os impudicos deste mundo, ou os avarentos e ladrões,
ou os idólatras, pois neste caso deveríeis sair deste mundo. Mas eu simplesmente
quis dizer-vos que não tenhais comunicação com aquele que, chamando-se irmão, é
impudico ou avarento, ou idólatra, ou difamador, ou bêbado, ou ladrão; com esse
nem sequer deveis comer (I Cor 5,9-11).
INTERROGAÇÃO 125
Se alguém a quem foi confiado um
trabalho e sem avisar fizer algo aquém da ordem ou além do prescrito, deve ser
mantido no trabalho?
Resposta
De modo geral, desagrada a Deus o
que alguém assume por si mesmo; e isto não convém, nem é proveitoso aos que têm
empenho de conservar o vínculo da paz. Se continuar a ser
precipitado, é útil retirá-lo do
trabalho. Pois não observa o preceito daquele que disse: Irmãos, cada um
permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o chamou (Icor
7,24), e o que é ainda mais convincente: Não façam de si próprios uma opinião
maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o
grau de fé que Deus lhe distribuiu (Rm 12,3).
Pergunta 126
Como podemos evitar ser dominados
ou vencidos pelo prazer da comida?
Resposta
A regra é decidir que a utilidade
real e a necessidade do corpo sejam sempre as guias e mestras na hora de se
alimentar, independentemente de a comida ser agradável ao paladar ou não.
INTERROGAÇÃO 127
Dizem alguns ser impossível ao
homem não se irar.
Resposta
Mesmo se fosse possível ao soldado
irar-se diante dos olhos do rei, nem assim seria razoável tal afirmação. Se o
olhar de um homem, igual por natureza, reprime o mal, devido à preeminência da
dignidade, quanto mais não o fará a convicção de ter a Deus por observador de
seus sentimentos? Deus, que perscruta os corações e as entranhas, vê muito
melhor os atos da alma do que o homem contempla o que está diante de si.
INTERROGAÇÃO 128
Se é lícito permitir a quem quiser
fazer abstinência além de suas forças, de modo a ficar tolhido de praticar o
mandamento que lhe é proposto.
Resposta
Esta pergunta não me parece bem
feita. A abstinência não consiste numa abstenção de alimentos indiferentes, a
qual teria como consequência aquela aflição do corpo condenada pelo Apóstolo
(Cl 2,23), e sim, no perfeito abandono das próprias vontades. Evidencia-se das
palavras do Apóstolo quão perigoso é apartar-se do mandamento do Senhor, por
causa da própria vontade, quando diz: Fazendo a vontade da carne e da concupiscência,
éramos, por natureza, objetos da ira (Ef 2,3).
Pergunta 129
Se alguém faz um jejum muito
rigoroso e, por causa disso, não consegue comer o que é servido na mesa comum
da comunidade, o que é mais recomendável? Que essa pessoa jejue junto com os
irmãos e coma a mesma refeição que eles, ou que, devido ao seu jejum extremo,
precise de alimentos especiais na hora de comer?
Resposta
O momento e a prática do jejum não
devem ser decididos pelo desejo ou vontade de cada um. O jejum deve seguir o
que é necessário para o culto e o serviço a Deus, como vemos nos relatos dos
Atos dos Apóstolos e no exemplo do rei Davi ($At\ 13,2\text{-}3$; $Sl\ 34,13$).
Se alguém jejua com esse propósito correto, Deus também lhe dará as condições
físicas para suportá-lo, pois aquele que fez a promessa é fiel ($Hb\ 10,23$).
INTERROGAÇÃO 130
Como se deve jejuar, quando for
preciso jejuar por motivo de piedade? Por obrigação? Ou de boa vontade?
Resposta
Se o Senhor diz: Bem-aventurados os
que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6), tudo o que se faz por causa da
piedade, se não for realizado de boa vontade e com empenho, é perigoso. Quem jejua,
mas de má vontade, não está seguro. Visto que é necessário jejuar no tempo em
que é prescrito o jejum, o Apóstolo o enumera entre outras boas ações suas,
para nosso ensinamento: com frequentes jejuns (2Cor 11,27).
Pergunta 131
Está correto alguém recusar a
refeição que é servida quando os irmãos estão comendo e, em vez disso, ir
procurar outros alimentos por conta própria?
Resposta
De modo geral, andar à procura de
alimentos especiais vai contra o mandamento do Senhor, que disse: "Não
vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, e não andeis com
preocupações vãs" ($Lc\ 12,29$). E Ele ainda acrescenta um alerta
importante: "Porque os pagãos do mundo é que se preocupam com todas
essas coisas" ($Lc\ 12,30$). Por outro lado, cabe ao responsável pela
comunidade cumprir com dedicação a palavra da Escritura: "Repartia-se,
então, a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$).
Pergunta 132
O que devemos pensar daquele que
diz: "Isto me faz mal", e fica profundamente chateado ou
ressentido se não lhe derem outra opção de comida?
Resposta
Essa atitude demonstra que a pessoa
não possui a paciência e a esperança que o pobre Lázaro teve, e que também não
reconhece o amor e o zelo daquele que foi encarregado de cuidar de todos. De
modo geral, não se deve permitir que cada indivíduo decida por si mesmo o que
lhe faz bem ou mal. Em vez disso, deve-se confiar ao responsável a tarefa de
avaliar as reais necessidades de cada um. O encarregado, por sua vez, deve
priorizar o bem da alma e, em segundo lugar, distribuir o que é necessário para
o corpo, sempre de acordo com a vontade de Deus.
INTERROGAÇÃO 133
Se alguém murmurar por causa da
comida.
Resposta
Sofrerá o juízo dos que murmuraram
no deserto (Nm 11,1). Diz o Apóstolo: Não murmureis como murmuraram alguns
deles, e foram mortos pelo exterminador (ICor 10,10).
INTERROGAÇÃO 134
Se alguém, irado, se recusar a
tomar o necessário.
Resposta
Merece não receber, mesmo se depois
o pedir, até que o superior julgue curado o vício, ou antes os vícios.
Pergunta 135
É correto que alguém, por realizar
um trabalho muito cansativo ou pesado, peça ou procure receber algo a mais além
do que já é oferecido habitualmente a todos?
Resposta
Se essa pessoa assumiu o cansaço do
trabalho de olho na recompensa que vem de Deus, ela não deve ficar buscando
privilégios ou alívios por conta própria. Em vez disso, deve focar na
recompensa do Senhor, sabendo que receberá de Deus — que ama a humanidade — a
justa retribuição pelo seu esforço e o consolo pelo seu desgaste. Por outro
lado, o responsável por colocar em prática a palavra da Escritura — "Repartia-se
a cada um conforme a sua necessidade" ($At\ 4,35$) — tem a obrigação
de conhecer bem a realidade de cada trabalhador e cuidar de suas necessidades
físicas de maneira adequada.
INTERROGAÇÃO 136
Se é de obrigação reunirem-se todos
à hora do almoço; e como receberemos o que estiver ausente e chegar depois do
almoço?
Resposta
Se esteve ausente por necessidade,
devido ao lugar ou ao trabalho, observando a ordem daquele que disse: Irmãos,
cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando (Deus) o
chamou (ICor 7,24), o responsável pela disciplina comum, tendo examinado o
caso, desculpe-o; se, porém, podia chegar com os outros e não se apressou,
reconhecida a culpa da negligência, permaneça em jejum até à hora determinada
do dia
seguinte.
INTERROGAÇÃO 137
Se é bom que alguém decida, por
exemplo, por algum tempo, abster-se de alguma coisa na comida ou na bebida.
Resposta
Como diz o Senhor: Não para fazer a
minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6,38), qualquer juízo por própria vontade
não é seguro. Ciente disto, dizia Davi: Faço juramento e determino guardar os
vossos justos decretos (SI 118,106) e não as minhas vontades.
O que você destaca no texto?
Como serve para sua vida
espiritual?
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